O que é a liberdade?

Quando saí de casa para construir minha família, primeiro fui passar quase 40 dias na Ilha Grande, em liberdade. Falo isso porque, na época, ainda funcionava ali o famoso presídio, que acolhia presos comuns e políticos. Diante do mar da ilha do Abraão, iniciando vida nova, fiz amigos eternos, como o mestre Natalino e muito me diverti com Madame Satã.

Isso me volta à lembrança ao me encontrar, no meio dos livros de minha estante, com um poema de Moacyr Felix.

Quando deixei a casa de meus pais não pude, por não ter espaço no apartamento que alugara, levar todos os livros que tinha. Muitos ficaram guardados num quarto amplo, misturados aos que não cabiam mais no escritório de meu pai e aos dos meus irmãos que se iam em direção ao casamento. De tempos em tempos eu sentia falta de um dos meus filhos de papel e ia em busca dele.

No caso de não encontrá-lo, meu pai anotava em pensamento o meu desejo e, alguns dias mais tarde, me avisava que havia descoberto a obra. Foi assim com alguns romances, cadernos escolares de filosofia, apostilas da faculdade, pedaços intactos de minha formação. Um dia me lembrei dos versos de Moacyr Felix, “Canto para as transformações do homem”, que eu comprara em 1965. Naquele tempo eu assinava e datava o ano da compra do exemplar.

Bela viagem em voz alta fazia o menino, acossado e assustado pela ditadura que se instalava no país. O discurso da poesia tomava conta de mim e me indicava caminhos, me emocionava.

Recebi a obra das mãos de meu pai e a trouxe para meu aconchego. Uns meses passados, verifiquei que esta e várias outras necessitavam de uma plástica. Recorri, então, ao Furreca, meu vizinho, que restaura, encaderna e renova os volumes desgastados pelo uso e pelo tempo. De volta à estante, o canto poético descansava de meus olhos até que, nessa manhã de agosto seco e quente, eu o vi, ladeado, por estar fora de seu lugar, pela Divina Comédia e o Elixir do Pajé.

Eu o abro e revejo a bela ilustração da capa, de Poty, um cavaleiro conduzindo seu cavalo a pisar em uma criança. E leio em voz alta, como tantas vezes fizera em minha adolescência: “ Meu pai, o que é a liberdade?”

‘É o seu rosto, meu filho, / o seu jeito de indagar/ o mundo a pedir guarida / no brilho de seu olhar. / A liberdade, meu filho, /é o próprio rosto da vida / que a vida quis desvendar.”

“ É sua irmã numa escada / iniciada há milênios/ em direção ao amor, / seu corpo feito de nuvens / carne, sal, desejo, cálcio / e fundamentos de dor./ A liberdade, meu filho, é o próprio rosto do amor.”

É inútil querer parar o homem, repito com o poeta, temeroso de ter que recomeçar, tantos anos depois, a luta contra a opressão. Contra a ignorância e o autoritarismo, cultura. A liberdade é dona de meu coração.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

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