Josino, nosso pai

Os dois tomaram o ônibus na rodoviária de Belo Horizonte. Seu destino era Três Pontas mas, naquele horário, só havia condução até Varginha.

Chegaram na madrugada gelada e andaram a pé até um trecho da estrada onde poderiam esperar pelo primeiro coletivo que passasse. Amigos recentes, um iria apresentar ao outro a sua família, a sua casa de origem. Seria, fiquei sabendo uns tempos depois, a consagração daquela amizade. Uma meia hora de frio mais tarde, surgiu na curva o veículo salvador. Alguns minutos e quilômetros e lá estavam eles diante da casa de Josino e Lília, os pais abençoados do Bituca, aquele que mais tarde seria conhecido, no país e no mundo, como Milton Nascimento.

Afeto e calor humano os esperavam. Em volta do fogão a lenha, um café bem quente, pães, biscoitos e frutas. E a conversa gostosa que ali se iniciou prosseguiria por mais de 40 anos. O visitante se sentiu à vontade, adotou a nova família e nunca mais se esqueceria desses primeiros momentos passados no inverno azul de Três Pontas.

Isso me vem à memória no momento em que chego de uma longa viagem, de quase um dia, passando por quatro aeroportos. Trago comigo a lembrança de ter declamado trechos de nossa canção, “ Coração Civil”, num auditório de São José da Costa Rica: “São José da Costa Rica, coração civil, me inspire no meu sonho de amor Brasil, se o poeta é o que sonha o que vai ser real, bom sonhar coisas boas que o homem faz e esperar pelos frutos no quintal.”

Corpo cansado, sou recebido com a má notícia vinda do sul de Minas: nosso Josino nos deixara. Ele me dizia ser o meu pai em Três Pontas, assim como o meu fora pai do Bituca em Beagá. Me lembro de meu pai contando histórias e casos de Diamantina, para o Milton, na varanda de nossa casa.

E me vem a recordação de seus inventos na oficina no fundo do quintal, ele o nosso querido professor Pardal. Nos levou certo dia para uma pescaria de lambaris, que se tornou minha única especialidade. Levou consigo, para os filhos queridos, uma garrafa de Campari. Nossa mamadeira, segundo ele.

Já ouvi gente contando esse caso como se fosse piada. Mas aconteceu mesmo conosco. Em certo momento, aberta a garrafa, oferecemos a bebida para o roceiro que nos acompanhava.

O líquido vermelho tem um gosto doce no início, mas termina em amargo. O caipira bebeu e reagiu: “ ô trem bão sô…ô trem ruim sô.” Rindo, voltamos à cidade e à cozinha, onde a amada Lília fritou os lambaris, que devoramos.

Lília, meu pai, Josino, minha mãe ainda resistindo: aos poucos vamos ficando mais pobres. E mais ricos, pois tudo o que eles viveram se agrega às nossas vidas, gruda em nós, em nossa alma, nos dando força para continuar vivendo e produzindo, amando os nossos e quem mais chegar. Viva a vida que eles nos legaram e ensinaram.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

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