Falemos mal de nós

Você pode não gostar de médicos, ou de advogados, ou de artistas, ou de guardadores de carro… E eu digo tudo bem. Todos temos direito às nossas implicâncias. Eu, por exemplo, implico, desconfio e, quando tenho a chance, falo mal de jornalistas. Como somos pretensiosos, arrogantes, vaidosos, fofoqueiros, prepotentes, narcisistas, moralistas e tudo o mais que queiram. E queiram mais, falem mal também, para ver se a gente melhora.

 Mas tenho minhas dúvidas. Falar mal de jornalista é o papo preferido entre jornalistas. Não estou, portanto, sendo nada original. Entrei no time em 1968, ano em que começou a circular a frase “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Hoje, quase 30 anos depois (26 para ser exato), duvido que a bobagem ainda vigore. Cá entre nós, acho que os próprios jovens desconfiam de quem não tem, pelo menos, mais de trinta.

No jovem jornalista, então, é que não dá mesmo para confiar. Sem estrada, sem janela, não se avança, não se enxerga. Há exceções, e eu volto a dizer tudo bem. De parte a parte. Porque há aqueles que, apesar de jovens, são bons; alguns chegam a ser ótimos. E há, também, outros tantos (a maioria, a meu ver) em quem a idade só fez piorar, ou, no mínimo, envaidecer: o horror! o horror! E, dentre esses, há uma espécie que me enfurece sobremaneira: os catões. Reparem no que escrevem em suas colunas. Dia sim, noutro também, lá vêm eles com suas lições e imprecações; com suas empáfias e maledicências. Falam de todos e de tudo, com um jeito de quem habita o Olimpo. São os donos da verdade, os centuriões da moralidade, os juízes da instância final. Poderosíssimos, pontificam por toda a mídia. O horror! O horror! Há exceções, volto a concordar. Mas são tão raras…

 Jornalismo, diria um desses catões, mas não diz, é coisa muito séria para rimar com vestalismo. É preciso atenção, exagerada atenção, para espantar a soberba, esse pecado capital que grassa pelas redações do mundo afora . É preciso descer à planície, sempre.

 E o jovem repórter? Que perigo! Sabemos que ele tem um gosto especial pelo lado negativo das pessoas e dos fatos. Certamente estimulado pelo veterano, ou pela leitura que deveria fazer dos jornais. Digo “deveria”, porque conheço muitos coleguinhas que jamais o fazem. Falta de tempo ou falta de couro? O rapaz de que falamos começa na profissão assim como quem vai salvar o mundo, e logo-logo constata que é uma pessoa importante. O grave é que é mesmo. Não é ele quem sai a campo para apurar a notícia? De habitual, e até compreensível, escreve mal. Mas, pior ainda, é mal pautado e mal cobrado pela chefia. Isso é incompreensível. É de se supor que o chefe ganha mais por saber mais, para saber mais e para ser mais exigente.

 O jovem repórter, como sabemos, tem uma dificuldade inacreditável para entender o que lhe diz o entrevistado, a quem encara quase sempre com desconfiança. Daí a facilidade com que trunca as frases que colheu, com o objetivo mórbido (aí talvez eu esteja a exagerar) de deixar o entrevistado na pior. O jovem repórter (e aí eu não exagero), emulado pelo veterano, não acredita na boa notícia. Tem medo de ser gozado na redação. Acha que o importante é desvendar o outro lado da Lua. Como não consegue, serve-nos suas laudas com coisas que lhe parecem únicas: o lado indigno da humana gente. Ah, veteranos, penitenciai-vos. Sois os culpados.

 Eu, com toda a minha desimportância, disse o que não disse no teclado do jovem repórter. E de nada valeram os esclarecimentos posteriores. Você já viu alguém ganhar uma briga contra redações, bancos ou com a polícia? Incluamos aí também os magistrados e os promotores de Justiça. Esses últimos, com a Constituição de 1988, ganharam um poder de meter medo, não é não?

Continuo: pergunte a alguém realmente importante sobre o que ele acha da imprensa. A resposta não será publicada, ou será mentirosa se sair estampada. Aí você vem e pergunta: mas não dá para melhorar? É complicado. Já não disse que os maiores críticos dos jornalistas são os próprios jornalistas?

 A imprensa, e isto é tão evidente que nem mereceria ser dito, não pode ser impedida de exercer sua missão. Mas vamos e venhamos: que tal exercê-la com civilidade e com um pouco mais de humildade. Sem servilismo, é claro; mas em bom português, também, pelo amor de Deus e do leitor.

 Este artigo foi escrito em 1994. O autor entende que ele permanece válido e atual.

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