Da vida das marionetes

A se confirmar nas urnas o que as pesquisas estão mostrando, as eleições de 2010 serão realmente atípicas. Nelas se elegerão postes.

Pelo menos é o que se desenha com a ascensão meteórica de Dilma Rousseff e a anunciada virada de Antônio Anastasia em Minas Gerais, que, embora eleito vice-governador junto com o popularíssimo Aécio Neves, e até tenha assumido a titularidade do cargo, é tão neófito em disputas eleitorais quanto a marionete de Lula.

Ambos não só existem pela aprovação quase unânime de seus padrinhos, como só crescem ao apostar na ignorância induzida do eleitor, que, cotidianamente, seja nos programas eleitorais ou nos eventos públicos, é incitado a confundir criador e criatura.

Mas o eleitor já se mostrou mais safo do que aqueles que o imaginam como simples massa de manobra. E sabe-se lá o que acontecerá quando esse mesmo eleitor descobrir que o mando e a caneta não estão nas mãos do bom moço Aécio ou do carismático Lula.

As investidas de Lula e Aécio para fazer seus sucessores a qualquer custo beiram o estelionato eleitoral. O que se vê são líderes incontestáveis empurrando aos seus quase súditos a escolha que fazem para, pura e simplesmente, atender às suas conveniências. Nisso, as similitudes de Lula e Aécio impressionam. Abusam da política de resultados, em que os meios nada importam.

Nem mesmo conseguem exaltar os méritos de seus escolhidos, tamanho o ego e tamanha a sanha de serem os patronos vitoriosos. Para ambos, eles e os seus vêm antes de tudo.

O vale tudo de Lula já é por demais conhecido. Ele, que jamais desceu do palanque, em vez de presidir todos os brasileiros, embrenhou-se na campanha de seu partido, de seus aliados, e de uma só candidata, sua escolha pessoal e intransferível. Em sua defesa há de se dizer que esse é um pecado confesso.

Como manda a tradição, em Minas nada nunca foi ou pode ser tão escancarado assim. Mas dane-se a mineiridade. O jogo agora é mesmo só de resultados.

A campanha de Anastasia chegou ao cúmulo de entrar na Justiça contra o que se apelidou de “Helécio”, pregação da eleição de Hélio Costa para o governo do Estado e Aécio Neves para o Senado. Mas é incapaz de reagir ao Dilmasia, que associa a candidatura presidencial da petista com a do governador tucano.

Assim como Lula, Aécio finge que não é com ele quando lhe interessa. Tergiversa e ainda faz graça: grava um spot para a campanha de José Serra, garante que está ajudando, se empenhando. Mas esconde Serra em Minas, e com isso mancha o talento que Anastasia parece ter. E quanto mais seu pupilo sobe, mais Serra despenca nas Gerais.

Ainda que o adversário direto seja Hélio Costa – alguém que se cercou da escória da política mineira –, e que em favor de Anastasia paire a aura do bom administrador, os movimentos de Aécio vão, claramente, muito além da disputa local.

A ele só interessa a medalha olímpica: vencer de virada em Minas, liderar tudo e todos, ser ungido candidato à presidência em 2014. No fundo da alma deve torcer por pedras no caminho do quase imbatível Geraldo Alckmin em São Paulo. Afinal, o mesmo Alckmin que o fratricida Aécio apoiou contra Serra em 2006 pode ser o seu maior rival. Portanto, melhor é agir rápido. E, na impossibilidade de abatê-lo, pelo menos tentar vencê-lo com algumas cabeças de frente.

O ex-governador de Minas enreda planos do tipo dos que Lula já faz há tempos. Para ambos, o jogo parece estar traçado, definido. Só falta combinar com o eleitor. 

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

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