Chi-Chi-Chi-le-le-le!

No deserto do Atacama, o lugar mais seco do mundo, e um dos menos povoados, uma multidão inusitada dividiu, com grande parte do planeta, a comoção de vivenciar uma ressurreição.

De madrugada, quando chega hora de dormir, coisa rara, ligo a tevê. Qualquer canal.

Enquanto contemplo, sem prestar muita atenção, aquelas imagens indo e vindo, sem fazer muito sentido, sinto e sei que estarei dormindo dentro de, no máximo, oito minutos. E me lembro de duas pessoas. Mães.

Uma, real. A minha. Outra, fictícia. A mãe do ator Lázaro Ramos, no filme O homem que copiava.

Minha mãe, desde que a televisão chegou aos fins de mundo mineiros, onde morávamos, substituiu a leitura noturna de jornais e revistas pelas atrações da telinha. Poucas. Uma ou outra novela, um ou outro show, noticiários esparsos. Empregava o tempo em coisa melhor.

Recostada em sua poltrona, quase cama, contemplava, sem prestar muita atenção, aquelas imagens indo e vindo, sem fazer muito sentido, e cochilava. Mais, dormia.

Na mesma sala, mesa grande, filhos e noras conversavam, jogavam truco, gritavam – vale seis! – crianças se abraçavam e se esbofeteavam.

Se alguém lhe sugerisse ir dormir de verdade, na cama, ela sorria e, dona da casa e da situação, garantia estar vendo o programa, que era ótimo. E, antes que terminasse a frase, seus olhos voltavam a se fechar.

Em O homem que copiava, filme com ótimo texto e ótimo roteiro, a mãe de Lázaro Ramos, recostada no sofá que mal cabe na sala mínima da casa pequena, cochila, frente à televisão. Todas as noites.

Quando o filho vai dormir, diz-lhe, com afeto, guardando o leite na geladeira:

— Tá tarde. Boa noite, mãe, desliga a televisão.

Curvada, ela levanta-se com dificuldade, desliga o aparelho, devolve o afeto:

— Boa noite, meu filho, vou me deitar. Televisão me dá um soooono!

Desde que esse filme entrou em nossas vidas, interpretamos essas duas personagens, noite após noite. E elas se tornaram tão reais que, às vezes, me pergunto se não serei – também – mãe do ator Lázaro Ramos.

Pois essa mãe fictícia, que parece de verdade, e a minha, de verdade, que o tempo, aos poucos, vai transformando em ficção, passariam uma noite inteira frente à televisão, sem nem sombra de sono, se tivessem, como eu tive, o privilégio de assistir a um milagre.

No deserto do Atacama, o lugar mais seco do mundo, e um dos menos povoados, uma multidão inusitada dividiu, com grande parte do planeta, a comoção de vivenciar uma ressurreição.

Trinta e dois chilenos e um boliviano, soterrados pelo desabamento da montanha em que, mineiros, trabalhavam, começaram a ser içados por uma cápsula engenhosamente concebida e fabricada – especialmente – para a cerimônia.

Um a um, ressuscitados, eles ressurgiram das profundezas dos setecentos metros em que haviam mergulhado e permanecido, durante mais de dois meses, absolutamente sem sol e quase sem ar.

Novamente sob o céu azul e sobre a terra árida do Atacama, eles encontraram o carinho palpável e o espanto compreensível dos seres normais, habitantes da superfície, freqüentadores de bares, padarias, cinemas.

Bombeiros, engenheiros, médicos, políticos, pais, mães, filhos, irmãos, maridos, amantes, todos um só, comovidos, comoventes.

Desde a queda do muro de Berlim, a televisão não me presenteava com momentos tão sublimes, capazes de nos levar a fazer as pazes com a humanidade.

Naquela noite, uma amiga que sempre me comove, Sonia Junqueira, me escreveu dizendo que, televisão ligada,  sem entender direito a dimensão da emoção e da loucura, descobriu-se cantarolando, sozinha, baixinho, instintivamente – trilha sonora –, a inesquecível melodia “(What a) Wonderful World”, imortalizada por Louis Armstrong.

Minha mãe e a mãe de O homem que copiava fizeram falta. Elas descobririam, comigo, que a televisão, além de nos adormecer, pode nos acordar. E nos segredar, por uma trilha sonora eterna, que o mundo pode, sim, ser maravilhoso.

Esta crônica foi originalmente publicada no primeiroprograma.

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