Certa noite, no Alvorada

Quando Madre Paulina, a santa brasileira, foi canonizada, beatificada ou algo parecido, em cerimônia no Vaticano, o presidente Fernando Henrique esteve lá. Assistiu à missa solene com a presença do Papa e, algumas pessoas garantem, até comungou. Para ser franco, não sei se Sua Excelência é um recém-convertido, o que configuraria mais um milagre creditado à freirinha baiana santificada. O que sei é que houve tempo em que o nosso chefe de Governo perdeu uma eleição porque titubeou na hora em que um jornalista, diante das câmaras de TV, perguntou se ele acreditava em Deus. Imediatamente seu adversário no pleito, o sagaz Jânio Quadros, emérito cobra-criada, deitou e rolou classificando-o de ateu ante a maioria do eleitorado crente.

Durante os anos todos que correram desde então, afinal, sobrou a dúvida se FHC é ou não um servo daquele a quem chamam de Supremo Arquiteto do Universo. O que sei é que o presidente, nos dias que correm, começa a sentir os efeitos da solidão dos poderosos quando se aproxima o fim do mandato. Alguém, talvez o falecido governador Mário Covas, disse certa vez que aos chefões com dias contados nos palácios deixam de servir até cafezinhos. Época, sem dúvida, para a reformulação de conceitos, religiosos ou não.

Pois aconteceu que noite dessas, com dona Ruth em São Paulo para atender a um neto gripado, o marido se viu sozinho no Palácio da Alvorada. Acordou então, no meio da noite, sentindo uma baita fome. Tratou de apertar a campainha que convoca o mordomo a quem pediria um sanduíche, só que ninguém atendeu. Daí chamou, aos berros, porém acabou se dirigindo solitariamente à copa para uma das famosas investidas noturnas à geladeira, coisa que qualquer mortal comum faz. Presidentes, só em fim de mandato, pois a eles, conforme disse acima, repetindo Mário Covas, até o cafezinho é sonegado. Abriu o refrigerador e, pimba, deu de cara com um enorme vazio. Isso, por um desses reflexos que só os analistas explicam, aumentou ainda mais a fome do ilustre morador do Palácio. Que passou a fuçar armários aqui e ali, acabando por suspirar ante a expectativa de encontrar já não diria um pão, porém uma reles, uma simples, uma franciscana côdea.

 – Santo Deus! – arfou ao topar apenas com um envelope de sopa, assim mesmo pela metade.

 Foi no instante em que a frase ecoou pelo ambiente que ocorreu um clarão, seguido de névoa. Assim que ela se dissipa FHC vê, diante de si, um homem de longas barbas brancas, vestindo túnica da mesma cor. A sorrir, com enorme aura de bondade.

 – Me chamou, filho?

 – Não me diga – o marido de dona Ruth, as mãos trêmulas, aponta – não me diga que…

 – Sim – a voz límpida, clara, interrompe – sou eu mesmo.

 – O Senhor? Em pessoa? O Senhor, em carne e osso?

 – Eu não diria que esta é a minha constituição física… Mas se você quiser, em caso de dúvida, bancar o São Tomé…

 – Não, não – o chefe do dr. Malan ergue as mãos – não… Só queria saber a que devo a …

 – Não deseja mesmo bancar o São Tomé? – a aparição insiste.

 – Ora – Sua Excelência começa a se recompor – talvez eu não seja digno de tocar…

 – Filho – o velho barbudo puxa a cadeira e senta – devo lhe dizer que vi sua performance, há dias, no Vaticano. Fiquei imensamente satisfeito, porém não pude deixar de lembrar de suas declarações naquele programa de TV, há tempos.

 – Lembrou? Bom, mas depois do que presenciou no Vaticano certamente o Senhor… O Senhor agora sabe que não preciso bancar o São Tomé.

 – Só que, no fundo no fundo, eu também sei, meu filho, outras coisas.

 – Sabe?, Senhor, o que? Não quero, claro, duvidar de sua palavra.

 – Eu sei, filho, o que pensa quando anda dizendo, junto ao povaréu, que acredita em mim. E também o que pulsava em sua cabeça no recente episódio do Vaticano. Foi por isso que resolvi fazer esta visita. Aproveitar sua atual solidão, que pode ser tão proveitosa, de fim de governo.

 – Mas, Senhor – FHC suspira – então lhe peço… Espere, deixe que ajoelhe…

 – Não, não – a visão o contém. – Afinal, estou diante do presidente da República.

 – Pois é, Senhor. Então lhe peço perdão. Afinal, certamente sabe que, naquele ano na TV, o sacana do jornalista me armou uma armadilha, não foi? Perguntar, ali, se eu acreditava…

 Como o presidente, neste instante, titubeou, o ser de barbas brancas o encara:

 – Acreditava em que, filho?

 – Se eu acreditava em… Em…

 – Em que, filho? Está com medo de dizer?

 – Não, Senhor, não. Se eu acreditava em Deus!

 Neste momento, como se estivesse num palco dirigido por um grande diretor, o visitante levanta, vai até a janela, onde fica olhando para o alto, no rumo das estrelas. Súbito, se volta:

 – Percebo que você ainda sofre algumas resistências, mas isso não tem muita importância.

 – Como resistência? Não, não tenho mais nenhuma.

 – Nem para pronunciar meu nome?

 – Talvez eu precise me acostumar. O que agora não vai ser tão difícil, pois estou diante de realidade insofismável.

 – Tudo bem, presidente, porém não esqueça.

 – Do que?

 – Além de eu ser ubíquo, como você, que é um homem culto, sabe, também leio pensamentos.

 – É como lhe disse, Senhor, eu o tenho em minha frente. Porém sou humano e, apesar de ter sido criado por… Por…

 – Por quem?

 – Por um ser divino, apesar de ter sido criado por um ser divino, apesar dos anos de descrença, apesar de estar em Sua frente, preciso de tempo.

 – E se eu, agora, fizer um milagre?

 – Transformar água em vinho? Se assim for, sugiro um Chateau Mouton Rothschild, safra de ano ímpar.

 – Não, isso aí todo mundo já sabe, é meu milagre mais divulgado.

 Olhando em volta, a aparição aponta:

 – E se eu pegasse esse resto de sopa que está ali, naquele pacotinho, e o transformasse num banquete? Afinal, como sei de tudo, está claro que sei que você está com uma baita fome.

 Dito isto o ancião estala os dedos e logo as mais variadas iguarias aparecem arrumadas sobre a mesa, com esmero. Havia de tudo, desde o simples pastel do Voga até especialidades como Sole de crabbe à recamier e Pato no tucupí. Pegando uma sólida coxa de faisão e arrancando, com forte dentada, um naco, o presidente fala, mastigando:

 – Nem precisava tanto para eu acreditar.

 – Já lhe disse que isso, agora, tem pouca importância.

 – Para mim tem muita, eu acredito, sim, e quero que todo mundo saiba que acredito, sim. Estou até pensando em convocar uma rede obrigatória de rádio e TV para comunicar ao povo brasileiro e ao mundo que acredito, sim.

 – Não precisa tanto, filho. Mas acredita em que?

 – Em Deus – FHC não vacila. – Eu acredito em Deus!

 – Tudo bem – a visão murmura, se desfazendo no ar – eu é que não acredito em Fernando Henrique Cardoso…

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio Popular

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