A estátua

 A rigor, a cidadezinha de Corumbebatêua, no litoral maranhense quase divisa com o Pará, ainda é um lugar paradisíaco. Praias lindas, poupadas e limpas, rodeadas por mangues absolutamente íntegros, vive dias de ventos constantes e noites de estrelas indesmentíveis.Pois este lugarejo, há tempos, século passado, teve um prefeito atuante. E apesar de, como é de praxe até em lugares mínimos, possuir inimigos políticos, trabalhou tanto que um grupo de correligionários resolveu entronizar, na única praça pública da sede do município, em frente à matriz, uma estátua do homem. Feita a coleta para a obra, foi confeccionada na capital do Pará, Belém, e se constituía num busto, em bronze.

Agora, se mais curiosidades em torno do evento pudessem existir, havia uma absolutamente singular: seu Geraldo Dimas, o tal burgomestre, era a cara do ex-presidente Sarney que, naqueles dias, anos 50, apenas começava a trajetória que o conduziu a tantos cargos relevantes e à enorme fortuna que dizem possuir.

Na manhã da inauguração do busto houve grande festa em Corumbebatêua. Instalaram na praça um potente serviço de alto-falante que espalhava músicas, inclusive o maior hit da época, o xote, ou rasqueado, ou baião, ou o que lá seja intitulado “Capim Gordura”, interpretado com certo charme pelo falecido Ivon Cury. Faltando ainda três anos para o término do mandato de seu Geraldo, o busto, atravessando o rigor de umidíssimas estações de muitas chuvas, ficou completamente esverdeado.

Na nova eleição, surpresa, o aparentemente amado alcaide não conseguiu eleger o sucessor, tendo vencido justamente seu Maurício da Eneida, o grande rival. Sua primeira ação foi mandar retirar da praça o busto do antecessor, jogado nos desvãos de um depósito da Prefeitura. E até, como se isso tivesse funcionado com ares de maldição, nunca mais seu Geraldo Dimas mandou no lugar. Morreu na condição de modesto pescador, que é o que tinha sido a vida inteira até ser fisgado pela política. O busto permaneceu esquecido no tal depósito.

Pois é, mas acontece que, inexoráveis, os anos rolam, e chegamos ao século XXI. Corumbebatêua, naturalmente, permanece quase como sempre foi, porém com sutil diferença: abriram uma estrada até lá. Tudo graças aos bons ofícios do dr. José Sarney, já senador da República. Hoje até alguns turistas pintam em busca das lindas praias. Enquanto os ecologistas, claro, detestaram a rodovia, e não tiveram dúvida em batizá-la de “caminho maldito”.

 Já o atual prefeito e seus seguidores, em sinal de agradecimento ao parlamentar que, na ocasião, de resto como hoje, presidia o Congresso, resolveram entronizar na praça matriz um busto de Sua Excelência. Só que, fato nada incomum em tais iniciativas, surgiu o problema: onde arranjar verba para a confecção da homenagem? Se você, amigo, já tinha imaginado, foi exatamente o que aconteceu – no entulhado depósito da Prefeitura pegaram o antigo busto de Geraldo Dimas, ainda mais esverdeado em virtude dos muitos anos guardado. Como ele era sósia perfeito, como se gêmeo univitelino fosse do famoso político maranhense, operou-se a devida limpeza do bronze, atualmente entronizado na frente da igreja Matriz. Na placa, está escrito: “Ao Dr. José Sarney, prestimoso auxiliar do presidente Lula, as homenagens de Corumbebatêua agradecida”.

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio Popular

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