“Podíamos ir para o México, você, o gato e eu”

“De um orelhão em Vegas, Jessie liga às 5 da manhã

Pra me dizer como está cansada deles todos.

Ela diz: “Amor, ando pensando num trailer perto do mar.

Nós podíamos ir para o México, você, o gato e eu.

Vamos beber tequila e procurar conchinhas.

E aí? Não seria bem gostoso?”

Ah, Jessie, você sempre faz isso cada vez que eu consigo ficar melhor.”

Num dia de março deste ano, 2010, depois de beber algumas, acho que muitas, anotei na agenda: “Ouvi várias vezes uma bela música cantada pelo Marc Cohn, ‘Jessie’, e peguei a letra na internet. É uma maravilha. Vale tanto quanto uma dezena de filmes sobre pequenas tragédias conjugais.”

De lá para cá, ouvi “Jessie” de novo várias vezes, dezenas, talvez umas centenas – e a cada vez ficava mais absolutamente encantado com o brilho da canção.

“Jessie” vale tanto quanto dúzias de filmes, de livros, sobre pequenas tragédias conjugais. “Jessie” sintetiza, em cinco minutos, o que uns 20 grandes filmes noirs falaram sobre a femme fatale que arrasa a vida do pobre coitado do pato, do bobo, do camarada que se apaixona e cai de quatro.

E boa parte de “Jessie” não é absolutamente noir – é tudo colorido, o sonho com o mar, a praia dourada. Mas a paixão grande, absoluta, que a gente sabe que não vai dar certo, é noir puro.

“Jessie” é mais uma demonstração de que se pode fazer grande poesia numa letra de música pop.

É uma daquelas letras de música pop que são na verdade pequenos contos – uma narrativa concisa, curta, bem desenvolvida, de uma história interessante, forte, densa, impressionante.

Se Roland Barthes tivesse ouvido “Jessie”, seguramente teria incluído um trecho em seu Fragmentos do Discurso Amoroso.

O amor paixão fatal, o amor absoluto, o amor dependência, o amor em que a gente perde a noção, a loção, a razão, a nação – “Você é a minha única pátria”, diz o personagem de Sean Connery para o personagem de Michelle Pfeiffer em A Casa da Rússia, o romance thriller de espionagem do grande John Le Carré que retrata uma linda história de amor que termina às margens do Tejo.

Regina Lemos, que lia os Fragmentos mais vezes do que ouço “Jessie”, detestaria a canção; diria que é amor demais. Reclamava de qualquer sinal de amor demais – chegou a dizer que I’m Your Man, de Leonard Cohen, era apaixonado demais pelo amor, justo I’m Your Man, em que a ironia de Cohen está feroz como nunca.

Tendo tido a sorte grande de, depois de Regina, viver o amor em paz, e já lá se vão 20 anos, sinto frio na espinha ao lembrar que é possível a gente ser capaz do amor louco, paixão fatal, absoluto, dependência total, que o narrador de “Jessie” conta para o ouvinte.

Orra, meu, tadinho do narrador de “Jessie”.

Ele estava absolutamente, mas absolutamente apaixonado pela mulher. Dá para imaginar que vivia em função dela, do amor por ela; Jessie era o centro da vida dele, o Sol – ele era a coitada da Luazinha que dava voltas em torno do centro do mundo que não era ele. Não tinha existência própria, luz própria – era cegamente apaixonado pelo Sol da sua vida.

E aí Jessie, de repente, casca fora, vai pra Las Vegas, vai dar pra um monte de outros caras.

O camarada então sofre como um burro de carga, um sujeito na câmara de tortura. Come o pão que o diabo amassou, rala o chão, fica mais por baixo que cu de cobra – mas, depois de algum tempo, até porque não há nada que o tempo não cure, e o tempo passa, mesmo quando a gente acha que não passa nunca, ele consegue ficar de pé de novo.

E aí, quando ele começa a ficar de pé de novo, no momento em que ele começa a entender que dá para viver, a porra da bosta da Jessie liga, o mais inocentemente possível, como se nada tivesse acontecido, e diz que quer começar de novo.  

Em cinco minutos, com uma maravilhosa melodia, um ritmo quente, gostoso, “Jessie” desfia uma triste história de amor com uma beleza que poucos filmes, poucos romances, poucos poemas conseguem.

Não sou muito versado em música pop, em especial as mais novas – e, quando digo mais novas, me refiro a coisas feitas depois de meados dos anos 80, o que, para a maioria das pessoas, já é velharia. Cheguei a “Jessie” via Marc Cohn, que conheci por causa de “Walking in Memphis”, aquela maravilha de se aplaudir de pé, à qual cheguei via Cher, outra maravilha para se aplaudir de pé sempre, através de séculos e séculos – não é à toa que dizem que, se houver uma guerra atômica, sobreviverão os insetos e Cher.  

Levei ainda um bom tempo para ver que “Jessie”, que Marc Cohn gravou belamente, na verdade é de Joshua Kadison, um sujeito de quem jamais tinha ouvido falar. Tenho que ir atrás das músicas de Joshua Kadison.

Se é que vou ter tempo. A vida é curta demais.

Sandra Rossanez que o diga.

Aqui vão dois maravilhosos clipes de “Jessie”; a gravação é a mesma, os clipes são parecidos, e no entanto diferentes:

http://www.youtube.com/watch?v=iElty90IPiw

http://www.youtube.com/watch?v=gre4DZuA6k4

13/7/2010

Jessie

Joshua Kadison

From a phone booth in Vegas, Jessie calls at 5 A.M.
to tell me how she’s tired of all of them.
She says, “Baby, I’ve been thinking ‘bout a trailer by the sea.
We could go to Mexico… you, the cat and me.
We’ll drink tequila and look for sea shells.
Now, doesn’t that sound sweet?”
Oh, Jessie, you always do this every time I get back on my feet.

Jessie paint your pictures ‘bout how it’s gonna be.
By now I should know better, your dreams are never free.
But tell me all about our little trailer by the sea;
Jessie you can always sell any dream to me.
Oh, Jessie, you can always sell any dream to me.

She asks me how the cat’s been. I say, “Moses he’s just fine
but he used to think about you all the time.
We finally took your pictures down off the wall.
Oh, Jessie, how do you always seem to know just when to call?”
She says, “Get your stuff together. Bring mose and drive real fast.”
And I listen to her promise, “I swear to God this time it’s gonna last.”

Jessie paint your pictures ‘bout how it’s gonna be.
By now I should know better, your dreams are never free.
But tell me all about our little trailer by the sea;
Jessie you can always sell any dream to me.

I’ll love you in the sunshine, lay you down in the warm white sand.
And who knows, maybe this time things’ll turn out just the way you planned.

Jessie paint your pictures ‘bout how it’s gonna be.
By now I should know better, your dreams are never free.
But tell me all about our little trailer by the sea;
Jessie you can always sell any dream to me.
Oh, Jessie, you can always sell any dream to me. 

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