Na Avenida da Liberdade

A página está em branco mas eu já não estou. Escrevi, sem saber que estava escrevendo, uma vida. Ainda bem que não cheguei no ponto final, que espero esteja longe. Há um piano tocando ao fundo, mas o som é aquele pasteurizado, próprio do ambiente dos hotéis. Existem pessoas e mesas calmas ao meu redor. Tento seguir o conselho de minha amiga e manter a mente livre. Há um oceano me afastando fisicamente do Brasil (a alma viaja viaja longe) e eu não vou gastar esse meu tempo disponível me preocupando com o ódio que o atual Ministério da Cultura tem pela música brasileira e seus compositores.

Ainda não é hora de me mover contra o autoritarismo e os sofismas de quem ama ser ditador e acha que a vida cultural do país é só distribuir dinheiro e apadrinhar o cinema. A ignorância não vencerá. As lentes desfocadas da ideologia não vão prevalecer. Estou na Avenida da Liberdade, na noite de Lisboa. Trago no peito a Praça da Liberdade de minha cidade e o que aprendi nessa caminhada de seis décadas.

Meu pai – na vida, no escritório e na mesa de refeições -, nos bons anos em que estivemos juntos, me legou o conceito de justiça e direito. Me arrepio de imaginar um juiz vendendo sentença em troca de dinheiro. Tenho necessidade de acreditar que o mundo é melhor do que é e que o árbitro não irá se corromper ao poder econômico. Será poesia essa crença? Mas foi com ela, com dignidade, que ultrapassamos uma ditadura. O desejo de ditadura é estigma de quem chega ao poder. No início se dizem servidores públicos (e é o que eles deveriam ser). Mas deve haver algum mel que os desmascara tão logo alcançam o mando e o prazer de se sentirem deuses.

Não há deuses nem reis, apenas aparências. Mas não havendo espelhos que não sejam os olhares bajuladores e babantes, como não acreditar na onipotência, na sabedoria absoluta, na imortalidade histórica e histérica? Não tenho medo dos poderosos do dia, tenho pena. Não brigo com a sociedade do espetáculo, mas sei que ela é fútil e vazia. Não vim ao mundo para dançar conforme a dança. Não bato palmas para quem não merece. Meu coração está aberto para os amigos que fiz e faço por onde ando.

Mas eu quero abraços de qualidade; amizade, música, cultura e idéias de qualidade.

Meus olhos e memória viajam agora e encontram minha mãe, deitada em sua cama, em casa, na Rua Grão Pará, em Belo Horizonte. Penso nela e no valor do que ela me deu, de herança e educação. Vejo o seu rosto sereno. Esse poder sereno das mães que nem todos apreendem. Esse poder sereno de minha mãe que eu procuro transmitir aos que estão comigo e aos que estarão por aí depois de mim. É o que me faz, naturalmente, praticante da liberdade, da igualdade (somos uma só raça, a humana) e da democracia. Inimigo feroz de preconceitos e de todo autoritarismo.

Esta crônica foi publicada no Estado de Minas.

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