Mercedes Sosa recebe palmas, reverência e beijos

Na primeira das sete apresentações que fará em São Paulo, nesta sua turnê pelo Brasil, Mercedes Sosa recebeu do público que lotou o Tuca, ontem à noite (27 de abril de 1982), uma rosa (que segurou com carinho durante uma música), uma camiseta vermelha com a inscrição “Paz El Salvador” (que colocou sobre uma mesinha no palco sem ler o que estava escrito), e um tratamento somente dispensado aos grandes ídolos.A platéia interrompia freqüentemente as músicas para aplaudir; ao final das canções, ovacionava com carinho e calor, demonstrando ver em Mercedes Sosa, mais que uma cantora, um símbolo da música e do povo argentinos. E, ao final do show, dezenas e dezenas de pessoas se aglomeraram junto ao palco para apertar e beijar a mão que ela, sorridente, estendia.

A essa platéia carinhosa e várias vezes emocionada, a cantora deu noventa minutos de boa música, através de 21 canções argentinas, cubanas, chilenas, bolivianas e brasileiras – algumas poucas desconhecidas, de seu repertório novo, como “Fuego en Amymana” e “Soy pan, soy paz, soy más”, do LP que a PolyGram está lançando agora no Brasil, chamado Gente Humilde; mas, na maioria, canções antigas, presentes em seus LPs anteriores, assim como em outros discos de cantores latino-americanos, e com as quais o público já estava bem familiarizado.

Ela mesma explicou, antes de cantar a música com que encerrou a primeira parte do espetáculo – a conhecidíssima, para o público que aprecia a música latino-americana, “Plegaria de um labrador”, do chileno Victor Jara -, que veio ao Brasil, desta vez, com muitas idéias e canções novas; mas que simplesmente não consegue deixar de cantar algumas músicas antigas, que significam muito para ela. E, pela reação da platéia, podia-se sentir perfeitamente que aquelas músicas antigas significavam muito também para o público.

Assim, cantou, por exemplo, músicas conhecidas como “Gracias a la vida” e “La Carta”, da chilena Violeta Parra; “Los Hermanos”, do argentino Atahualpa Yupanqui; “Drume negrita”, do cubano Bola de Nieve (que Caetano Veloso gravou no LP Qualquer Coisa), “Años”, do cubano Pablo Milanés (que ela gravou com Fagner no último LP do cantor cearense), “Sueño com serpientes”, do cubano Silvio Rodriguez (que ela gravou com Milton Nascimento no LP Sentinela) e ainda “Viola enluarada”, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, “Gente Humilde”, de Canhoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque, e “San Vicente”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

A platéia certamente já conhecia as interpretações de Mercedes Sosa dessas músicas – a bela voz de contralto cheia de vigor e emoção. Mas reagia entusiasmada diante da presença forte e cativante da cantora. Além disso, todas as 21 músicas que Mercedes Sosa cantou, mesmo as mais conhecidas, foram favorecidas pelos arranjos do argentino, exilado há cinco anos em Paris, José Luiz Castiñera de Diós. A competência desse jovem músico já havia sido demonstrada aos brasileiros no LP Memórias das Águas, que o percussionista paraibano Fernando Falcão gravou em Paris; nesse LP, lançado aqui no ano passado, Castiñera de Diós divide com Falcão os arranjos e a direção musical.

Para essa excursão de Mercedes, que começou na França e já passou pela Argentina (onde a cantora pôde se apresentar pela primeira vez depois de quatro anos de proibição), e que, no Brasil, incluirá 12 capitais, Castiñera de Diós compôs arranjos simples, eficazes e de grande sensibilidade, que são brilhantemente executados pelos três únicos músicos que acompanham a voz de Mercedes: o próprio Castiñera de Diós (um irrepreensível baixo elétrico), Omar Espinoza (jovem violonista uruguaio) e Alain Huteau (percussionista francês de formação erudita, e muita versatilidade e talento).

Com apenas esses três músicos, mais o bumbo indígena tocado pela cantora, o arranjador conseguiu criar um acompanhamento ágil, versátil, rico, jamais monótono e várias vezes brilhante. Um acompanhamento digno das belas músicas do espetáculo, velhas ou novas; e digno da voz dessa cantora sensível, emocionada e emocionante.

O recital de Mercedes Sosa fica no Tuca até domingo (sábado haverá duas apresentações). Nas próximas seis apresentações, ela poderá excluir algumas músicas, ou incluir outras – como o programa avisa que ela se reserva o direito de fazer; em todas as apresentações, certamente, haverá quem queira apertar e beijar sua mão, após o espetáculo, em sinal de reverência e gratidão.

Este texto foi publicado no Jornal da Tarde de 28 de abril de 1982.

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