Levaram 14 anos para lançar Bookends no Brasil

A indústria fonográfica brasileira é capaz de lançar hoje (o texto é de 1982) discos que acabaram de chegar às lojas de Nova York ou Londres. Muitos modismos passageiros, muitas obras sem nenhum valor ou significado tocam nas nossas FMs apenas alguns dias depois de chegarem às rádios americanas. No entanto, quando se trata de música de qualidade, nossa indústria de discos costuma andar paquidermicamente devagar. Mesmo quando é música de qualidade que faz sucesso.

É o caso, para dar só um exemplo, de Bob Dylan. Seu primeiro LP foi lançado nos Estados Unidos em 1962; só em 1967, no entanto, depois que ele já se havia transformado em Bíblia de boa parte da juventude de todo o mundo, foi lançado um disco seu no Brasil – e já era o 6º LP de sua carreira. Diversos de seus discos continuam inéditos aqui até hoje.

Mas provavelmente nenhum caso de incompetência das nossas gravadoras é tão absurdo quando o de Simon & Garfunkel. Entre 1964, ano de seu primeiro LP, e 1970, ano em que se separaram, Simon e Garfunkel lançaram cinco discos, com sucesso sempre crescente. Basta dizer que o que vendeu menos (o primeiro, Wednesday Morning, 3 AM) vendeu um milhão de cópias. O quinto e último, Bridge Over Troubled Water, é um dos LPs que mais venderam em toda a história da indústria fonográfica (oito milhões de cópias nos Estados Unidos e na Inglaterra, até 1977, segundo The Illustrated Encyclopedia of Rock, de Nick Logan e Bob Woffinden).

No Brasil, entretanto, tudo o que havia disponível de Simon & Garfunkel a preços aceitáveis (os LPs importados podem custar até oito mil cruzeiros) eram picadinhos, colchas de retalhos, compilações de faixas de seus LPs originais. Mesmo o LP Bridge Over Troubler Water, lançado aqui em 1970, não é igual ao original.

Foi somente em outubro do ano passado – 15 anos depois de sua gravação e 11 anos depois de desfeito o conjunto – que se lançou no Brasil, pela primeira vez, um LP integral da dupla, Sounds of Silence, de 1966. Mesmo assim porque, um mês antes, em setembro de 1981, Paul Simon e Art Garfunkel haviam-se apresentado juntos (pela primeira vez ao vivo, desde a separação) diante de meio milhão de pessoas, no Central Park de Nova York. O reencontro fez voltar às paradas americanas e inglesas os antigos discos da dupla; livros sobre sua obra foram escritos ou reeditados; álbuns de luxo enfeixando todos os seus LPs foram editados; o disco duplo gravado ao vivo no Central Park ficou entre os dez mais vendidos nos Estados Unidos e na Inglaterra; o vídeoteipe gravado na ocasião foi exibido com sucesso pela TV – inclusive no Brasil.

Só assim, então, a CBS resolveu colocar há poucos dias no mercado brasileiro o maravilhoso Bookends, lançado nos Estados Unidos em 1968. É o quarto LP da dupla e foi o responsável, em boa parte, pelo estouro comercial do conjunto em todo o mundo. Uma de suas músicas, “Mrs. Robinson”, escrita por Simon para o filme A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols, foi um tremendo sucesso. Mas não é o sucesso que importa. Impressionante é a qualidade do disco – que ninguém que puder dispor de 1.700 cruzeiros deve perder. Mesmo quem já conhecer algumas de suas músicas através dos picadinhos lançados anteriormente no Brasil.

É um disco basicamente “conceitual”, como notaram as críticas americana e inglesa. Todo o lado A, em especial, foi concebido com um conjunto indivisível e coeso – um retrato, um instantâneo de alguns dos aspectos mais tristes do american way of life. “Era uma coleção sombria de canções que tratam da isolação e da depressão; mas, apesar de os temas serem desoladores, foram tratados com um gosto musical impecável e receberam interpretações sensíveis e belíssimas”, disse Jeremy Pascall, em sua History of Rock Music. Distância entre as gerações, solidão dos jovens, desapontamento, infelicidade conjugal (e incapacidade de romper o casamento transformado em hábito), a impotência diante do passar do tempo, o terrível isolamento dos velhos em uma sociedade que privilegia a juventude – esses temas são abordados de uma forma vigorosa, em belíssimos versos, em melodias trabalhadíssimas, com uma produção extremamente cuidada, mas sempre justa e enxuta. E realçados, sobretudo, pela inigualável harmonia das maravilhosas vozes de Paul Simon e Art Garfunkel.

São impressionantes os cuidados que cercaram a elaboração do LP – que não é um amontoado de canções reunidas aleatoriamente, mas um conjunto homogêneo, “conceitual”. A começar do título: Bookends significa apoiadores de livros – aquela peça que se coloca numa e noutra extremidade de uma fileira de livros para que eles não caiam. Essa imagem aparece em uma metáfora impressionante na música “Old friends”, um trágico retrato da solidão dos velhos: “Velhos amigos, sentados nas cadeiras do parque como apoiadores de livros”. Um tema instrumental chamado exatamente “Bookends” cerca o lado A do disco, apoiando o começo da primeira faixa e o final da última – como apoiadores de livro, como dois velhos que encostam os ombros nas cadeiras de um parque.

Mas o principal, é claro, é a qualidade excepcional das canções. Elas têm 14 anos de idade – e 14 anos representam muita coisa, numa linguagem eternamente em ebulição, como a da música popular. No entanto, elas não aparentam nenhum pálido sinal de envelhecimento. Apenas uma prova disso é o fato de que quatro delas (“America”, “Old friends”, “Bookends Theme” e “Mrs. Robinson”) foram apresentadas no concerto do Central Park – e foram aplaudidíssimas. Poderiam estar sendo lançadas hoje, exatamente com a mesma letra, a mesma vocalização, o mesmo acompanhamento, e seriam maravilhosas e maravilhosamente atuais, imunes ao passar dos modismos que durante estes anos todos apareceram nas lojas de discos e nas estações de FM e foram-se embora sem deixar nenhuma saudade. Bookends chega ao Brasil com atraso. Mas está em tempo.

A historinha por trás do texto

A resenha acima foi publicada no número de novembro/dezembro de 1982 na revista Ato. Essa revista circulou durante um tempo basicamente em “Mogi das Cruzes e região”, conforme se informava no expediente. Era editada por um colega do Jornal da Tarde, Fernando Leal, que conseguiu arregimentar um bom número de pessoas do JT e do Estadão para fazer free-lances. O expediente traz, entre outros, os nomes de Berenice Guimarães, Carlos Chagas, José Carlos Santana, Leonor Amarante, Luís Fernando Emediato, Luís Nassif, Renato Lombardi, Roberto Godoy, Rosângela Bittar, Rubens Ewald Filho.     

Não consigo me lembrar se o Leal nos pagava algum trocado, ou se o ajudávamos de graça. De fato não me lembro. Mas escrevi alguns textos sobre música para a revista – e hoje me pergunto como arranjava tempo para isso. Coisa de louco.

Este texto, especificamente, é antigo demais: fala sobre temas que hoje praticamente estão em desuso – indústria fonográfica, discos… E usa expressões esquisitas – cruzeiros! O que será mesmo que era isso? 

Tem valor arqueológico.

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