Perto dos fiéis, longe do país

Depois de agregar votos de milhões que não fechavam com a sua cartilha mas temiam a vitória do PT e a continuidade da corrupção, Jair Bolsonaro voltou a atender prioritariamente as demandas dos seus. Na outra ponta, o petismo, que na reta final da campanha tentou emplacar Fernando Haddad como salvador da democracia contra o fascismo para captar eleitores além dos fiéis, passou a pregar o avesso: resistência ao presidente eleito e, portanto, à democracia.

Popular e com apostas positivas na economia, Bolsonaro teve algum fôlego para resistir às pressões. Conseguiu atrair o juiz Sérgio Moro, bancou a presença de militares no time de elite, deu carta branca para a montagem das equipes econômica e da Justiça. Cedeu nos ministérios das Relações Exteriores e na Educação. Pôs gente absolutamente sintonizada com o jeito Bolsonaro de ser, mas muito longe dos critérios técnicos que prometera em campanha.

Faltou-lhe aí a compreensão de que será presidente do país e não só da sua turma. Erro gravíssimo.

Entre os derrotados, o equívoco é outro. Mas semelhante. O PT se considera dono de 47 milhões de votos, fazendo pouco de todos os que votaram em Haddad pelo menos pior, pelo #elenão. Mais absurdo: sonha educá-los, pastoreá-los.

Primeiro, trabalham para nutrir seus crentes, algo para lá de difícil depois da redução de cargos no Executivo e de dinheiro para sindicatos, centrais e movimentos ditos sociais. Agora, tudo tem de ser no gogó. A tarefa seguinte é ainda mais árdua: sair do isolamento e atrair o campo da esquerda e de centro-esquerda. Todos vacinados contra o oportunismo do PT, que os convoca para sair de crises e os descarta sem qualquer cerimônia quando consegue o que quer. Chega agora a falar de união com o “campo democrático”, o mesmo que sempre rechaçou.

A proposta (indecorosa) está na carta enviada por Lula na sexta-feira aos participantes da primeira reunião da Direção Nacional do PT depois da derrota no segundo turno. Ele convoca as esquerdas, a centro-esquerda e o campo democrático para “o exercício cotidiano de resistência”, partindo da premissa da ilegitimidade da eleição de Bolsonaro. Em suma, um chamamento contra o sufrágio universal, contra a premissa básica da democracia.

Nela, Lula solta a voz para a sua claque: “Bolsonaro se apresentou como um candidato antissistema, mas na verdade ele é o pior representante desse sistema. Foi apoiado pelos banqueiros, pelos donos da fortuna, foi protegido pela Rede Globo e pela mídia, foi patrocinado pelos latifundiários, foi bancado pelo Departamento de Estado norte-americano e pelo governo Trump….foi o verdadeiro candidato do governo Temer”.

Uma narrativa e tanto para quem escolheu Michel Temer por duas vezes para vice de sua pupila Dilma Rousseff, se lambuzou dos favores dos donos da fortuna, deu dinheiro a rodo para vários deles, foi condenado e preso por corrupção.

A carta de Lula é tão fantasiosa e hilária (ou apavorante) quanto os dizeres dos pensadores de Bolsonaro. Se a galera do presidente eleito quer combater o “marxismo cultural”, seja lá o que isso quer dizer, Lula quer turbinar as “denúncias” de que o país vive em estado de exceção – só para impedi-lo de voltar ao poder.

A capacidade de se conectar com as massas, estabelecer linha direta com elas e falar o que elas querem ouvir fizeram de Lula o maior líder popular do país, posto que da cela especial da PF de Curitiba o ex tem visto ser ocupado velozmente por Bolsonaro.

Mas vencedores e vencidos ainda não se desapegaram das urnas.

Como não conseguiram encontrar os plugues, Lula e o PT insistem na modelagem conhecida de forjar a história em benefício próprio, algo que as eleições de 2016 e 2018 provaram absoluta ineficácia.

Por sua vez, Bolsonaro, que soube melhor do que ninguém usufruir da comunicação online para angariar votos, tem de mostrar que é capaz de ir além da caserna e do templo. Tem, obrigatoriamente, de sair de sua rede de conforto e se ligar no país que espera muito mais dele do que lição de moral de gurus ultra-conservadores.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 2/12/2018. 

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