A mulher imperseguível

Não sei o que pensava Camões, mas eu estou farto de mudança: invoco um tempo definitivo.  Não quero que nada mude. Num filme, Baisers Volés, de Truffaut, havia um detective que anunciava esse tempo sempre igual, perene.

Soluça-me a prosa de tão ansiosa sinceridade. É compreensível, estou a falar-vos da minha vida precária e mutante. Revejo-me, por antinomia, em Monsieur Tabard, comerciante de sapatos em Baisers Volés. Tabard julga que toda a gente o detesta ou odeia. Mesmo a porteira do prédio encolhe os desdenhosos ombros quando ele fala. E a mulher dele, que se veste com a rutilante beleza de um milhão de francos, ri-se de tudo o que ele diz, salvo quando ele diz uma piada.

Incomodado por essa conspiração permanente, que tanto o magoa, Monsieur Tabard quer mudar. Comigo é pior: anima-me a ideia de que toda a gente me ama, a porteira que não tenho, a minha mulher que, com a rutilante beleza de um milhão de euros, se ri, magnânima, das minhas raras graças. É uma crença insustentável, bem me avisa Mário Centeno. Tanto o milhão de euros, como o amor ubíquo.

Farei como Monsieur Tabard, que pediu ajuda a uma agência de detectives. Pedir-lhes-ei que investiguem o amor dos leitores, o amor até da menina que me serve a bica matinal. Ininvestigável é o incomensurável amor do presidente Marcelo.

É aquela avalanche amorosa que me faz temer a mudança. Não quero perder o omni-amor. Apetece-me apontar uma pistola ao tempo e gritar: “Não te mexas!” Volto, por isso, ao sossego de Baisers Volés, filme em que se tomava chá e se barravam torradas com manteiga ao pequeno-almoço.

Há um detective que persegue a outra mulher do filme, a terna, suave, angélica, doce, amorosa e cheia de graça Claude Jade. Claude Jade é a inocência, é o feminino que agora inexiste. É imperseguível, porque só pode ser amada como nenhum homem é já capaz de amar. A não ser esse detective.

O detective, no final, declara-se: “Toda a gente trai toda a gente. Mas eu não a deixarei nem uma hora.” A menina, essa Claude Jade mais macia do que uma fresca farófia, está espantada. Ele sossega-a: “É demasiado súbito para que a menina abandone as relações provisórias que a ligam a pessoas provisórias. Eu sou definitivo. Eu sou feliz.” Só é feliz quem é definitivo, imutável. Não sei é se isso é amor, se é a morte.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Baisers Volés, no Brasil, é Beijos Proibidos.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*