Quem toca a bateria?

No mesmo dia em que a Cora Rónai, aquela arauta das modernidades, escreveu em O Globo mais um dos tantos obituários definitivos dos suportes físicos – livros, discos, LPs, CDs, DVDs, Blu-rays –, recebi uma mensagem do meu amigo e mestre Carmo Chagas perguntando quem toca a bateria em “Noite dos Mascarados” com Chico e Elis e quem toca a viola em “Felicidade (Felicidade foi embora)” com Caetano.

Carmo escreve uma mensagem com o mesmo texto elegante, perfeito, irrepreensível, irreprochável com que escreve uma reportagem, uma carta ao leitor como editor-chefe de uma publicação – cargo que ocupou várias vezes na vida –, um editorial, um conto, ou um post no Facebook. Carmo é um sujeito sério, e leva o texto a sério – qualidade que admiro profundamente.

Carmo é tão sério que mesmo quando faz uma piada não sorri, nem de leve. Quem não o conhece sequer percebe que ele está fazendo uma piada. Conta-se (pode ser uma lenda sem nada a ver com a realidade, eu realmente não sei) que uma vez uma jovem jornalista manifestou irritação com ele, dizendo algo do tipo: “Carmo, você parece um velho!” Ao que ele teria respondido, depois de pensar por três segundos, como bom mineiro que é: – “Velho, sim, mas só de espírito”.

Carmo é tão sério que, quando o puseram como editor-chefe da Playboy, lá por 1990, recusou-se por um bom tempo a admitir que a revista publicasse fotos de uma moça – Roberta Close – que era a tesão de meio mundo, só pelo singelo fato de que a sujeita tinha nascido com um pau.

Demorei demais a conhecer o Carmo, que foi um mestre para os caras do Jornal da Tarde que viriam a ser meus mestres no jornalismo – Sandro Vaia, Fernando Portela. Ele saiu do JT no segundo semestre de 1968, na turma que o Mino Carta levou para criar a Veja, e eu só cheguei ao JT, levado pelo Gilberto Mansur, em julho de 1970.

E então foram necessários 14 anos de jornalismo para que, em 1984, eu finalmente o conhecesse, na equipe formada pelo Fernando Mitre para criar uma nova revista semanal de informações, a Afinal. Sandro Vaia e Anélio Barreto eram os redatores-chefes, Ari Schneider, o secretário de redação. Carmo era o editor de Política, Pedro Cafardo, o de Economia, Gilberto Mansur, o de Cultura, Gabriel Manzano, o de Internacional, e eu, o de Geral. Na equipe original estavam ainda Melchíades Cunha Júnior, Nair Keiko Suzuki, Mario Schwartz, Tonica Chagas, Dirceu Soares, Maria Amélia Rocha Lopes. Na Sucursal de Brasília tinha o Luiz Cláudio Cunha; na do Rio, um foca chamado Ali Kamel. O mundo gira e a Lusitana roda.

Bem mais tarde, em 1991, quando Carmo e eu trabalhávamos na S.A. O Estado de S. Paulo, cada um numa trincheira de uma eterna batalha (eu na Agência Estado, ele na redação de O Estado), nossas filhas Fernanda e Carolina participaram juntas de um belo programa, uma temporada de estudo de inglês em Cambridge. Lembro sempre que minha filha dizia que ela e a Carolina eram as únicas adolescentes da turma filhas de pessoas empregadas em uma empresa: todos os demais eram filhos de empresários.

***

Me alonguei demais, mas era fundamental que eu falasse um pouco de como o Carmo e eu nos conhecemos, antes de seguir em frente.

Eis a mensagem que ele me mandou, no dia em que a Cora Ronái mais uma vez decretou que esse negócio de ter discos acabou, morreu, faleceu, desapareceu, não existe mais:

“Recorro aos seus conhecimentos da música brasileira para duas informações:

“Na ‘Noite dos Mascarados’, com Elis e Chico, de um ponto em diante destaca-se um tarol maravilhosamente tocada. Sou filho de regente de banda de música, aprendi a prestar atenção ao pessoal da cozinha – surdo, bumbo, pratos, tarol –, e esse da ‘Noite dos Mascarados’ é perfeito, repicado. Pergunto: alguém mais já prestou atenção nesse tarol? Será que, tantas décadas depois, é possível saber que foi esse baterista?

“Caetano gravou ‘Felicidade’, do Lupicínio (pelo que lembro, o nome certo é ‘Xote da Felicidade’), acompanhado de uma viola que às vezes parece guitarra, violão, e que de vez em quando sola trechos do ‘Luar do Sertão’ como parte do acompanhamento. Minha impressão é de que o violeiro (guitarrista, violonista) é o Armandinho. Pode até ser o instrumento que ele inventou, misturando guitarra e viola. É isso mesmo?”

***

De bate-pronto, respondi que gostaria muito de usar a deliciosa mensagem dele como um post aqui do 50 Anos de Textos – e ele me autorizou.

Fiz uma pesquisa nos meus discos…

A modernérrima Cora Rónai havia escrito, naquele dia mesmo, o seguinte:

“A idéia de possuir música num sentido físico, por gratificante que seja olhar estantes e estantes cheias, ficou, para a maioria de nós, em algum lugar do passado. A própria idéia de possuir música digital começa a ficar para trás. Mesmo entre a turma que cultua os discos de vinil, e que está sendo responsável por uma parcela considerável dos lucros das gravadoras, o som que acompanha o dia a dia e que sai dos headphones é cada vez mais streaming e cada vez menos download, cada vez mais o que está no ar, por aí, do que o que está aqui ou ali.”

Como eu estou perdido em algum lugar do passado, fiz, assim que recebi a mensagem do Carmo, uma pesquisa nos meus discos.

O LP Garota de Ipanema, de 1967. O CD duplo Chico no Cinema, coletânea de 2005. O CD Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia.

E respondi para o Carmo:

“Não há como saber quem foi o baterista da ‘Noite dos Mascarados’. Tenho aqui LP em que saiu a gravação – a única que reuniu Chico e Elis, que não se bicavam muito. É o LP da trilha sonora do filme Garota de Ipanema. Infelizmente, não há no disco qualquer indicação dos músicos que tocam em cada faixa. Nada, nada, nada. Essa mesma faixa foi reproduzida num belo CD duplo lançado em 2005 pela Universal Music (o novo nome da gravadora que já tinha sido Philips, depois Phonogram, depois PolyGram). Fui ver o encarte – colorido, bonito. ‘Noite dos Mascarados’ é a primeira faixa do primeiro CD. Necas de pitibiribas de informação sobre os músicos. Nem os daquela faixa, nem os das outras todas…

“Ou seja: só um pesquisador que pudesse ter acesso aos arquivos dos anos 1960 da hoje Universal Music saberia dizer o nome do baterista.     “A gravação de ‘Felicidade (Felicidade foi embora)’, que mistura acordes do ‘Luar do Sertão’, está no disco Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia, lançado em 1974, O pequeno encarte do CD informa os músicos que tocam nas faixas do Caetano (o disco, não sei se você se lembra, tem faixas da Gal e do Gil). Está lá: Piano, Antonio Perna. Flauta e violão, Tuzé Abreu. Guitarra e viola, Perinho Albuquerque. Baixo e violão, Moacir Albuquerque. Bateria, Eneas Costa. Percussão, Bira da Silva.”

***

Me ocorre neste momento a canção que Cat Stevens gravou em 1970, “Where do the children play?” – “Well I think it’s fine building jumbo planes. / Or taking a ride on a cosmic train. / Switch on summer from a slot machine. / Yes, get what you want to if you want, / Cause you can get anything.”

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem – “But tell me, where do the children play?”

Legal, ô Cora Rónai e todos os adeptos das modernidades todas. Muito legal. Não precisa de disco. Não precisa mais sequer de possuir música digital. Mas como é que a gente fica sabendo quem tocou o baixo?

Meu amigo Fabio De Domenico nos ensinou esse bordão: quem toca o baixo?

O Melchíades me escreveu uma vez perguntando quem tocou a flauta na gravação original de “London, London”, no disco inglês do Caetano, de 1971.

Na época, fiz um texto de que gosto bastante.

Tem tudo a ver.

Se a gente não tiver o disco, o tal do suporte físico, com o encarte e as informações básicas, como é que a gente vai saber quem toca o baixo? Quem toca a lindíssima flauta em “London, London”? Quem toca a bateria em “Noite dos Mascarados”, a única faixa em que Chico e Elis cantam juntos? Quem toca o violão que mistura o gaúcho Lupicínio com o maranhense Catulo da Paixão Cearense em “Felicidade”?

Tá na nuvem?

Não. A informação não está na nuvem. Está nas capas dos LPs, nos encartes dos CDs.

A informação está se anotaram lá. Se não anotaram, dançou.

***

Na época em que fez Fahrenheit 451, François Truffaut, o cineasta que amava as mulheres, os filmes e os livros, escreveu, sobre estes últimos: “Com o tempo, sua encadernação, sua capa, seu odor mesmo ganham uma significação sentimental particular para aquele que o possui.”

Quem não ama um objeto físico que guarda um belo conteúdo – seja um livro, um disco, um DVD – não saberá nunca o que está perdendo.

Julho de 2017

Um Comentário

  1. valdir
    Postado em 17/07/2017 às 6:51 pm | Permalink

    Servaz, Cora por Cora, fico com a Coralina. O que a primeira defende não é colocar nossas lembranças nas nuvens, mas mandar para o espaço. Um abraço para o Carmo Chagas, que você descreve tão bem neste delicioso texto.

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