Ela cospe-lhe!

Eu já vi Michelle Pfeiffer lavar os dentes. Al Pacino também. Tanta intimidade requer uma confissão: lembro que tentei encavalitar-me na cadeira da primeira fila com a mesma encantada displicência com que ele se encostava à porta da casa de banho dela.

A escova dançava na boca de Pfeiffer. Pacino e eu acompanhávamos os semicírculos da escova de dentes num adocicado enlevo colgate. A porta aberta da casa de banho e o disciplinado ritmo da escova no alvo esmalte dos incisivos de uma mulher, roçando a macia ternura da sua gengiva, anunciam ao homem em visita que é, agora, lá de casa.

Foi a II Guerra que revelou a escova de dentes ao povo americano, ainda Pfeiffer não nascera. Em 1943, Bette Davis terá sido a primeira a lavar os dentes num filme. Foi em Old Acquaintance. Nesse ano, em The More, the Merrier, o mundo viu também Jean Arthur a cuidar alegremente da higiene oral. Eram bocas e escovas assépticas. Faziam crescer uma espuma moral sorridente, sem sombra de pecado.

Não sei se Jean Arthur emprestou a escova de dentes a Marlene Dietrich. Depois de a guerra acabar, em 1946, filmaram juntas A Foreign Affair, para o mais sarcástico dos cineastas, Billy Wilder. E talvez a escova não fosse a mesma, porque, jura Wilder, elas não partilhavam nem um espelho: “Tenho no filme uma mulher que não se consegue olhar ao espelho e outra que não consegue parar de se mirar!”

Marlene fazia uma ex-nazi. Tomava um capitão americano por amante. Nunca mais ninguém lavará os dentes como Marlene os lavou. O capitão vem de visita e faz-lhe pequenas provocações amorosas. De repente, Marlene apanha-o a jeito e borrifa-lhe a cara com aquela lava branca que tinha na boca. “Ela cospe-lhe”, revoltou-se Charles Brackett, o argumentista, amigo de Wilder. E tiveram uma discussão muito pouco dentífrica. Mas era essa intimidade, a decadente obscenidade da cena, que Wilder queria num filme que era o seu luto pela família morta nos campos nazis.

O filme passava-se em Berlim. Billy Wilder filmou a cidade escavacada. Falou com uma alemã que arrastava a depressão e a vergonha no meio das ruínas: “Há uma coisa boa – disse-lhe ela – os Aliados vão voltar a ligar o gás.” Uma vaga de compaixão assolou Wilder: “Ah, a senhora vai poder fazer uma refeição quente, não é?” E logo a sombra de mulher que falava com ele: “Não, não. É que assim já me posso suicidar.”

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Old Acquaintance no Brasil é Uma Velha Amizade. The More, the Merrier, Original Pecado. A Foreign Affair, A Mundana.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*