O ar no meio das pernas

zzmarilyn1 - 700

O ar do metro levanta-lhe a roda do vestido. É mais do que uma imagem, é um ícone. Mais do que na nuíssima fotografia do calendário, foi nessa imagem de Marilyn Monroe, filmada numa noite em brasa, que todo o desejo masculino do mundo se projectou e projecta. O desejo masculino, como um rio de vento, sobe-lhe pelas livres pernas acima.

O filme é de Billy Wilder e chama-se Seven Year Itch. É uma comédia, sabemos todos. Marilyn, ou a personagem que ela incarna, se ela nos filmes incarnou alguém que não fosse o secreto lado dela mesma, é uma deslumbrante vizinha do lado, ingénue à outrance, que não há forma de dizer isto que não seja em francês.

Sai nessa noite com o casado e perplexo vizinho, que a mulher e o filho em férias deixaram sozinho na noite de Verão de Nova Iorque. Noite de um sufocante calor animal. Sabe bem a corrente de ar subterrâneo que vem do metro. Refresca, enrola-se e exibe a seda alta das pernas de Marilyn, que tão arregalados os nossos olhos contemplam e desejam.

Mas já alguém se lembrou de perguntar a essas pernas o que elas pensariam? Estão ali, altas e nuas. E estarão ali oferecidas? E se na conveniente abertura dessas pernas, por onde gostaríamos que passasse o nosso desejo, fosse só medo que passasse? Se em vez do êxtase orgástico que o nosso olhar antecipa, estivesse ali, no meio das pernas, um véu de puro pavor.

Desenganem-se, não invento, nem falo de coisas de que Marilyn não tenha falado. Terá sido nessa noite, do quarto do hotel onde a 20th Century Fox a terá hospedado, que escreveu a Lee Strasberg, seu professor de representação, uma carta de letra bonita e inquieta, a dizer-lhe que nunca se esquecera da primeira lição dele: «O que separa um actor do suicídio é o ténue fio da concentração.» Ela confessava-lhe que perdera esse fio e já não aguentava mais, à beira de ser a louca que, dizia, o seu aspecto já revelava.

Seria mesmo internada, em 1961, no Hospital Presbiteriano, um instituto neurológico. Fechou-se ou fecharam-na num quarto, a ela e ao seu gigantesco medo. Um homem que a amara, Marlon Brando, reconhecendo em si o mesmo medo, aconselhou-a, em carta consoladora: «Não tenhas medo de ter medo. Só serás feliz se souberes viver assim.» Já sabem agora que corrente de ar é que levanta a roda do vestido de Marilyn.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

The Seven Year Itch no Brasil é O Pecado Mora ao Lado.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*