Orra, meu: magina de pipo

“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra.

Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui.

“Magina de pipo”, letra e música de André Abujamra, do disco Infinito de Pé, de 2004.

André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em que há tanta coisa sendo criada e lançada no mercado que não dá mais para separar o melhor trigo em meio a tanto joio. É joio demais – e é até trigo demais.

Nos anos 60, houve uma explosão de talentos: Edu, Chico, Caetano, Gil, Milton, Sidney Miller, Paulinho da Viola.

O país inteiro os acompanhava.

Depois dos anos 90, tudo se estilhaçou. Há uns 78 tipos de música sendo feitos no Brasil, uns 438 no mundo. É absolutamente impossível conhecer tudo. O que era amplo, geral e irrestrito virou uma grande quantidade de nichos.

Faz muito tempo que deixei de tentar acompanhar tudo o que surge de bom na música popular, brasileira ou internacional. Não dá – é impossível, é coisa demais.

Mas há algumas coisas tão extraordinariamente boas que a gente acaba conhecendo – mesmo quem, como eu, é cada vez mais pré-antigo num mundo pós-moderno.

André Abujamra é uma dessas coisas.

Não conheci o Mulheres Negras, formado em 1985 pelo André e Maurício Pereira. Só fui conhecer o André na sua fase Karnak, que me foi apresentado pela minha filha. O Karnak é genial, faísca de talento saindo pelo ladrão. Em seus dois discos, de 1995 e 1997, fez algumas canções extraordinárias, da melhor qualidade: “Alma não tem cor”, “O Mundo”, “Espinho na Roseira/Drumonda” são algumas das melhores canções feitas nos anos 90 que ouvi.

André tem um tipo peculiar de humor. Mistura, como numa salada, assertivas sérias, seriíssimas, com frases que parecem babacas, bobocas. Em “Alma não tem cor” e “O Mundo”, faz panfletos contra todos os racismos, todas as discriminações – mas panfletos em forma de piada gostosa.

Em “Magina de Pipo” ele faz o seu hino da utopia. Um hino piada, que ri dele próprio.

***

A música brasileira e o bom humor sempre se deram bem. Houve muita fossa, muito, como diria Regina Berlim, kit gilete na música brasileira – Dolores Duran, Maysa, Antônio Maria –, mas sempre houve bom humor, gozação, tiração de sarro. Noel, o gigante Noel, era um grande sarrista. Lamartine Babo era tão ou mais irreverente, engraçado, escrachado, gozador, que no cinema são Mel Brooks e Woody Allen.

A Tropicália foi, entre muitas outras coisas, um movimento bem humorado, apesar de ter surgido (ou por isso mesmo) na ditadura, nos tempos mais sombrios da nossa História recente. TomZé sempre foi um grande gozador. Os Mutantes foram gozadores homéricos – gozaram de maneira espalhafatosa, melbrooksiana, uma das maiores glórias do cancioneiro nacional, “Chão de Estrelas”. Tropicália, o disco, gozava tudo – inclusive Vicente Celestino e o coração materno que quicava na estrada.

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Uma década depois do Tropicalismo, o Rumo trouxe de volta o bom humor dos mestres, Noel, Lamartine, e ainda acrescentou o seu próprio humor – ferino, inteligente, letrado, estudado, uspianizado.

E não é que a união música-bom humor seja uma coisa brasileira. De forma alguma. Ainda nos anos 70, o conjunto argentino Les Luthiers fez música cômica da melhor qualidade – gozando tudo que vinha pela frente, inclusive a música brasileira, a bossa nova, a eterna saudação do é sol, é sal, é sul.

Muito mais recentemente, teve e tem Kevin Johansen, mezzo porteño, mezzo Alasca – mas nada a ver com Sarah Palin, muito ao contrário.

E agora mesmo tem o Fernandez Fierro, o conjunto (a banda?) de tango pós-tudo, que tem quatro bandoneons e quatro violinos, para fazer um som que deixaria Piazzolla de queixo caído. Fernandez Fierro faz avançar o tango como se ele tivesse – como diz o Caetano em relação à música brasileira – uma linha evolutiva. É o tango pós-Piazzolla, se é que isso pode haver. (Ouvindo um e outro, penso que Piazzolla é mais avançado que os bravos garotos do Fernandez Fierro – mas talvez isso seja só uma visão de um velhinho conservador.)

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Vixe! Acho que viajei um pouco.

Eu só queria fazer um elogio a “Magina de Pipo”.

A pérola, enão, como eu dizia, foi gravada num disco de 2004, O Infinito de Pé. Pós Mulheres Negras, pós Karnak, André Abujamra fazia um disco dele mesmo.

A 14ª faixa é “Magina de pipo”.

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“Magina de Pipo”, uma belíssima, ousadíssima gozação de “Imagine”, de John Lennon, começa com um monte de cordas. Paul McCartney fazia isso, por que André Abujamra não poderia?

Vem então um dueto de André Abujamra com Miriam Maria, cantando várias vezes a frase “magina de pipo”.

André é um ator, um artista multimídia. Quando quer, sabe fazer uma voz bonita.

Miriam Maria tem um timbre de voz de anjo.

Os dois ficam repetindo as palavras “magina de pipo”.

Não é comum alguém gozar um herói com toda a aparência de que está acima de qualquer suspeita. Gozar a cara de John Lennon, que virou um emblema como o Che, é enfrentar jogo pesado. É preciso coragem. André tem, de sobra.

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Não tem graça alguma este texto se o eventual leitor não conhecer Magina de Pipo”. Eis aqui o link para ela.

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Eis aí a letra da canção.

Maysa, Antônio Maria e Dolores Duran certamente morreriam de inveja dos versos que falam da separação.

Eu sinto uma inveja danada é do letra inteira. Gostaria de ter escrito estes versos maravilhosos. A bela canção, a melodia, bem, esta eu jamais saberia como fazer.

Magina de Pipo

André Abujamra

 

Magina de pipo, magina de pipo

Magina de pipo, magina de pipo

Magina de pipo, magina de pipo

 

Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.

Deus fez o homem, colocou o sentimento

Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.

Deus fez o homem, colocou o sentimento

 

Ai meu Deus, como dói meu coração

Separação é pior que morte

Só que o fantasma é de carne e osso

e ainda vai casar com outro moço

Ai meu Deus, como dói meu coração

Separação é pior que morte

Só que o fantasma é de carne e osso

e ainda vai casar com outro moço

 

Dói, dói, dói,

Dói, dói, dói,

Foi, foi, foi,

Dói, dói, dói,

Foi, foi, foi,

Dói, dói, dói,

 

Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão

mas ficou a mancha negra no fundo do coração

Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão

mas ficou a mancha negra no fundo do coração

 

Se eu pudesse mudar o mundo ia fazer você me amar

ia trocar a cor do céu, ia trocar a cor do mar

Os bichos iam falar, quem tivesse fome ia poder se alimentar

não haveria religião e eu mudaria o gosto do pimentão

 

Não teria câncer, anemia

e eu tiraria semente da melancia

não teria classe social, não teria guerra, não teria arma mortal

 

(recitado) Se não tivesse tristeza só teria alegria, mas depois de um certo tempo ficaria uma porcaria

por isso se eu pudesse não tiraria nem o sofrimento nem a dor

pra que quando viesse a felicidade sentíssemos o sabor do amor

 

Magina de pipo, magina de pipo

Magina de pipo, magina de pipo

Magina de pipo, magina de pipo

Maio de 2012

Um comentário para “Orra, meu: magina de pipo”

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