O magistral fracasso de Paul Simon

Estou há três semanas absolutamente apaixonado por um disco. Claro, isso já aconteceu antes. Mas a intensidade da paixão é rara. Tipo assim Abbey Road, em 1970, ou o do Chico com “Construção”, dessa mesma época, e uns outros poucos. Paixão com a força da juventude. 

(Este texto, das minhas anotações pessoais, foi escrito entre 14 e 21 de junho de 1997.)

E não é só um disco brilhante, este Songs from The Capeman, de Paul Simon. É todo um projeto, um puta de um projeto. E é cheio de histórias, umas histórias intrincadas como os encontros e desencontros de um filme do Lelouch.

Tem a minha própria historinha com o disco, que é pequena mas interessante. (…) Uns dez dias atrás, finalmente, botei pra ouvir. E babei.

Foi um puta de um impacto. Mas um puta de um impacto realmente gigantesco. De lá pra cá não parei de ouvir. Contei a história pra Mary, traduzi oralmente pra ela boa parte das letras. Cheguei a dizer que iria pra Nova York um fim de semana ver a peça. Fiquei tão fascinado com o disco e o projeto do Simon que, na sexta, dia 12, depois do trabalho, fiz minha primeira consulta pessoal na internet atrás de informações. (Eu só tinha entrado na internet antes a trabalho.) Imprimi algumas coisas. No sábado, 13, a Mary teve uma rápida janela no trabalho e pesquisou mais, trouxe mais prints, que eu li sedentamente, assim que ela chegou. Estava lá, nas coisas que ela achou na internet, a informação: a peça já saiu de cartaz, sim, em março. Mais ainda: ontem, sábado, dia 20, Mary arranjou um provedor e fez, pela primeira vez, conexão com a internet; e a primeira coisa que vimos foram os sites sobre The Capeman. Tenho internet em casa por causa do disco do Paul Simon.

Sábado passado, 13, enquanto a gente ouvia o disco pela enésima vez, Mary comentou de novo sobre essa coisa esquisita de eu ter ganho o disco no Natal de 1997 e só ter ouvido em junho de 1998. E lembrou: se você tivesse ouvido antes, teria dado tempo pra ver a peça em Nova York.

Verdade.

Bem, o disco, e o projeto.

    O disco

Um texto do próprio Simon, em duas páginas do encarte, dá as explicações básicas. Algumas outras informações são dos diversos sites da internet que falam sobre o disco e a peça. (Na imprensa brasileira, só me lembrava de uma matéria do Mauro Dias no Estadão sobre a peça; ainda não achei essa matéria, nem mesmo no site do Estadão na internet, mas o que ficou na minha cabeça é que o Mauro Dias não gostou muito do disco, e mencionou que a peça estava sendo um fracasso na Broadway. Ontem, na internet, achei mais uma matéria do Estadão que conta sobre o fracasso.)

O disco Songs from The Capeman tem 13 músicas da peça de Paul Simon chamada The Capeman. (Ao todo, a peça tem 38 músicas.) Ele escolheu pra botar no disco as que ele achou ficavam melhores cantadas por ele (“I chose the songs that I felt I was best suited to sing”, diz). Dessas 13, ele canta 11, e os atores da peça cantam duas. Os atores também participam em algumas cantadas basicamente por Simon.

É aquele som brilhante de Paul Simon. Várias músicas têm fortíssima influência latina – mas isso não é novidade, ele sempre fez coisas com fortíssima influência de músicas de diversas regiões do mundo, mesmo antes dos projetos específicos de Graceland (África do Sul, basicamente, mas também cajun de Louisiana e pop chicano de Los Lobos) e The rhythm of the saints (Bahia e África, basicamente, mas também os experimentos mineiros e vanguardistas do Uakti). Além das músicas de fortíssima cor latina, há também outras que remetem aos anos 50, 60 – e uma, a que fecha o disco, com uma pitada de México e dose enorme do próprio estilo do Simon (ela lembra demais, e não é à toa, o som de Hearts and Bones, de 1983).

Então, o som é aquele brilho puro de sempre de Paul Simon, com muita influência latina e dos anos 50. Muito trompete, saxofone, trombone, e bongô, muita percussão. Muitas vozes secundárias. Ritmos mais rápidos e alegres se alternando com melodias mais suaves, intimistas.

Tentei outro dia contabilizar. São sete canções absolutamente excepcionais, extraordinárias, que estão entre as melhores dos 35 anos da carreira dele. E mais seis canções ótimas.

E a voz dele, que sempre foi extraordinária, está um deslumbre. Como não é um cantor lírico, nem do tipo bel canto, como a beleza da voz dele se baseia mais na sensibilidade, na expressividade, na capacidade de modulação (e nisso é imbatível; o único cantautor que se aproxima dele é o Caetano), os 56 anos de idade não fazem perder nada; ao contrário, melhoram o que já era excepcional.

 Ou seja: um belíssimo disco, um disco extraordinário.

    A história  

Mas, além das músicas excepcionais, tem a história.

Ele conta a história, como eu já disse, em um texto de duas páginas do encarte.

Na noite de 30 de agosto de 1959, um garoto porto-riquenho de 16 anos matou a facadas dois jovens brancos no West Side de Manhattan. Ele fazia parte de uma gangue de rua do Upper West Side chamada The Vampires, e os Vampires estavam em guerra contra uma gangue de descendentes de irlandeses chamada The Norsemen. Os Vampires saíram armados pra encontrar os Norsemen; no caminho, esbarraram com dois garotos que não tinham nada a ver com a briga, que – como diz o Simon no texto do encarte – “aconteceram de estar no lugar errado na hora errada”. E o porto-riquenho matou os dois. Chamava-se Salvador Agron, e a imprensa o apelidou de Capeman porque ele usava uma capa preta presa com uma fita vermelha.

“Quando Agron foi preso poucos dias depois, aparentemente não mostrou qualquer remorso. ‘Não ligo se eu for queimado’, disse. ‘Minha mãe vai poder me ver’”

(Essa frase, que é citada algumas vezes nas letras, deve seguramente ter sido manchete dos jornais.)

“Para muitos nova-iorquinos, Agron virou um símbolo do mal, um símbolo de uma sociedade em destroços, e ele foi condenado à morte na cadeira elétrica. Aos 16 anos, foi a pessoa mais jovem a ser condenada à morte no Estado de Nova York. A sentença de Agron foi comutada pelo governador Rockefeller depois que cidadãos proeminentes, incluindo Eleonor Roosevelt, apresentaram um pedido de clemência. Eles citaram a pobreza de sua existência – não apenas as duríssimas condições materiais, mas também seu empobrecimento espiritual.”

(E aqui caberia uma discussão que teria o tamanho de dez Enciclopédias Britânicas. Eu, de minha parte, me restringiria a pensar que a humanidade se divide em muitas coisas, mas, basicamente, se divide entre os que pregam a pena de morte para os criminosos e os que pregam que nem o Estado nem a sociedade têm o direito de ser criminosa como os criminosos, e todas as pessoas merecem uma segunda chance. E fico imaginando como terá sido essa grita a favor do pequeno porto-riquenho assassino de dois americanos brancos anglo-saxões e protestantes; a direita raivosa pedindo a cadeira elétrica com o apoio da tal da maioria silenciosa, e uns poucos loucos, alguns artistas, alguns intelectuais, os judeus progressistas, os defensores dos direitos dos pobres, a esquerda do Partido Democrata, berrando o contrário, e conseguindo a assinatura da viúva de Franklin D., e forçando enfim o Nelson Rockefeller a assinar a clemência. O mesmo tipo dos poucos loucos que décadas antes haviam defendido Sacco e Vanzetti, eles também “latinos”, “católicos”, invasores do paraíso branco, anglo-saxão e protestante. Os mesmos que pediram clemência pelo Caryl Chesman. Os mesmos de sempre, os, como diria o velho Bertold, imprescindíveis.) 

“Salvador Agron nasceu no dia 24 de abril de 1943 em Mayaguez, Porto Rico, e cresceu com sua irmã Aurea num lugar conhecido como Asilo de Pobres, onde a mãe deles trabalhava por oito dólares por semana. Na época em que deixou Porto Rico, tinha o equivalente a um ano de escola. Quando a mãe dele casou novamente, a família se mudou para Nova York, onde ele teve problemas na escola e era motivo de zombaria das outras crianças. Foi mandado para uma instituição para jovens perturbados e depois para um reformatório.”

O padrasto era um pastor da Igreja Pentecostal, e batia no menino “enquanto dava lições de arrependimento”, segundo a letra de uma das músicas.

Salvador passou 20 anos preso, em diversas cadeias. Foi descrito como prisioneiro modelo. Estudou, passou a escrever. “Nunca mais cometeu um ato violento.” Quando faltavam seis meses para a liberdade condicional, fugiu, pegou um ônibus, passou sete dias no Sul do país, e depois entregou-se de novo à polícia. Foi solto em 1979. Morreu em 1986, o ano de Graceland, aos 43 anos, de morte natural.

    O projeto

Quando aconteceu o crime, em 1959, Simon estava com 18 anos (ele é dois anos mais velho do que Salvador). “Como muitos nova-iorquinos, me lembro da história do Capeman da minha juventude. A história estava em todos os jornais e TVs.” Ele diz que começou a pensar na história como base de um musical em 1989, quando estava trabalhando no disco The Rhythm of the Saints. “Escrever canções no estilo dos anos 50 era uma idéia muito atraente, do mesmo modo que escrever canções num estilo latino, que era uma subcultura nova-iorquina importante e um pouco exótica na minha adolescência. Já que eu estava naquele tempo trabalhando com percussionistas brasileiros e guitarristas da África Ocidental, não era um salto muito grande começar a pensar na música de Porto Rico.”

A partir de 1989, então, ele passou a fazer pesquisas – da música de Porto Rico e dos anos 50, e também da história de Salvador. Conversou com a mãe e a irmã dele, com “dezenas de pessoas que conheceram Salvador Agron ou que conheciam bem o mundo em que ele cresceu”; visitou prisões onde ele esteve e viajou a Porto Rico várias vezes.

Sempre achei o Simon um artista presunçoso, ou, no mínimo, metido, consciente demais da sua própria importância. Muito mais para Caetano do que para Chico. Tanto que, assim como o Caetano (e como o Dylan, também), meteu-se a fazer seu próprio filme, One Trick Pony, em 1981; só não dirigiu, mas foi o autor do roteiro e o ator central. Mas a maturidade seguramente deve ter feito bem a ele. Tanto que em 1993 pediu a ajuda do poeta Derek Walcott, nascido no Caribe, Prêmio Nobel em 1992, para dividir com ele a autoria das letras de The Capeman.

No encarte do disco há uma foto dos dois em Porto Rico, embora a vaidade de Simon tenha feito ele assinar assim: Letras e música por Paul Simon, co-autor das letras Derek Walcott. Em um texto do site oficial sobre o Capeman na internet, no entanto, ele fala que foi um trabalho de grande parceria. “Foi uma parceria mais penosa para a forma com que eu trabalho do que para a forma com que ele trabalha. Em vez de pegar uma letra de Derek e então colocar uma música em cima dele, eu dizia: ‘Isso parece uma cena de ritmo. Eis aqui os vários ritmos que nós poderíamos usar’. E ele me dizia qual ele preferia e a partir daí passávamos a decidir que tom parecia melhor e então começávamos a estruturar a música antes mesmo de pensarmos na letra. Outras vezes eu escrevi a maior parte da letra e então apresentava para Derek, que preenchia algumas lacunas e mexia no texto. Outras vezes eu pegava a letra dele e mexia com ela dentro de um arranjo. Ou às vezes começávamos do nada.”

Simon diz que entrou em estúdio com músicos de Porto Rico pra tocar com eles, sentir o ritmo da música deles, como fez com os sul-africanos na preparação do que viria a ser Graceland. E até usou em algumas canções o esquema do Ladysmith Black Mombazo de colocar várias vozes, às vezes até dez vozes diferentes, a capella.

A peça – e a reação

Pois bem. Então ele gravou o disco e lançou. Isso foi no segundo semestre do ano passado, 1996. Não sei como foram as críticas; há muitos meses não tenho mais lido a CD Review ou a Rolling Stone. Ele mesmo diz que queria sobretudo fazer um “disco de entretenimento”, que tivesse existência própria. “Mas eu também esperava que as pessoas pudessem ficar curiosas, que ouvir o disco desse vontade de ver o musical.”

O que quer dizer, então, que para ele o mais importante não era o disco. Era a peça. O projeto.

Então, recapitulando: o cara empregou seu talento, sua energia, e seguramente muito da sua dinheirinha, durante sete anos, na preparação de uma peça de teatro.

A peça estreou na Broadway em janeiro deste ano (1997) e saiu de cartaz no dia 28 de março. Foram 59 pré-estréias e 68 apresentações regulares, segundo reportagem do Estadão. Custou U$ 11 milhões; foi o maior fracasso da história da Broadway; Simon teria pessoalmente perdido US$ 5 milhões, com o resto do prejuízo repartido entre investidores, entre os quais David Geffen.  

Não posso acreditar que esse fenômeno se deva a erros artísticos. Não foi por falta de qualidade que The Capeman afundou. O motivo do fracasso é político. Só pode ser.  

Dá para imaginar isso pelo material que está na internet. Esse projeto do nosso judeuzinho de contar a história de um porto-riquenho assassino de Wasps e defender abertamente e apaixonadamente a opção pró-segunda chance, contra a pena de morte, mostrando com insistência que a pobreza absoluta gera a violência absoluta, e que a sociedade e as instituições são racistas, isso tudo deve ter despertado uma ira descomunal da direita raivosa – com o apoio, é claro, como sempre, da tal da maioria silenciosa. A peça deve ter virado divisor de águas naquela sociedade de águas absolutamente bem divididas – os pró-aborto e os contra-aborto, os pró-pena de morte e os contra-pena de morte. E a direita raivosa conseguiu vencer.

    Não queriam saber  

Simon tentou (está na internet, no site oficial de promoção do disco dele) aplacar a ira. Ele quase pede desculpas por ter usado tantos palavrões em algumas letras, mas explica que era necessário. Ele disse: “Há nesse trabalho um elemento político e sociológico muito forte, mas na verdade não é disso que se trata. No âmago desse trabalho há uma questão moral, sobre a possibilidade de redenção, aqui no fim do século XX. Se alguém cometeu um ato tão terrível quanto um duplo assassinato, quem decide se ele pode ou não ser redimido? A sociedade decide? O criminoso pode olhar pra dentro de si mesmo e encontrar perdão? Ou isso é simplesmente impossível, na era em que vivemos, pagar a pena pelo pecado e ficar limpo?”

Foi criado um site, não oficial, sobre a peça, com a intenção de divulgar o trabalho. A minoria, os loucos poucos, tentando agir, como sempre. Lá há um texto de uma pessoa que assistiu ao espetáculo de encerramento. Conta que foram 15 minutos de ovação de pé. “Em todos estes anos em que tenho ido a shows da Broadway, nunca tinha visto uma ovação de pé como a que The Capeman recebeu. Nas palavras de Paul Simon, que estava lá para o espetáculo de encerramento, ‘se isso é um fracasso, o que é um sucesso?’”

O site traz também um questionário sobre a peça. Os loucos poucos dizem lá que houve “razões políticas atrás de algumas resenhas arrasadoras” sobre a peça, e admitem que essas resenhas prejudicaram a “atmosfera” para a peça na Broadway. “Mas as pessoas que adoraram Capeman também têm voz, daí as muitas resenhas positivas que a peça recebeu, e daí também está página que você está lendo agora”.

    Eu estava errado – não se falou mais de The Capeman

Fala-se, no site, da possibilidade de uma turnê da peça. Mas não há nada concreto. De concreto, há que a Dreamworks do Geffen e do Spielberg, o outro judeuzinho que gosta de espicaçar a direita raivosa, que insiste em falar sobre a opressão das minorias, deve lançar no final de agosto um CD duplo com todas as 38 músicas da peça, cantadas pelo elenco original.

Não vi, por enquanto, ninguém fazer qualquer relação entre The Capeman e West Side Story. Mas seguramente devem ter feito. Chequei: West Side Story estreou em agosto de 1957 (oito anos depois que o projeto foi iniciado, e incluindo outro gênio judeu, o Leonard Bernstein; exatamente o tempo que Paul Simon levou pra botar seu Capeman na rua). Quando a história do Capeman chegou aos jornais de Nova York, no segundo semestre de 1959, fazia portanto dois anos que estava em cartaz o musical revolucionário sobre brigas de gangue de porto-riquenhos contra brancos no West Side.

Posso estar errado. Mas acho que rios de tinta ainda vão ser derramados sobre essa peça. Sobre essa coisa tão emblemática que é o mais caro projeto de um artista brilhante, um dos mais brilhantes desta metade do século, ser arruinado por motivos ideológicos.

Como dizia um jornal chileno pouco antes da morte de Allende e do último sonho de se fazer um socialismo de alma democrática: “La derecha a todo lo envilece”.

Uma nota mais de dez anos depois

Impressionante: o YouTube, que tem tudo, não tem um vídeo aproveitável de The Capeman, ou sequer de uma das várias canções do espetáculo.

Ao reler este velho texto agora, para publicá-lo, fico pensando em fazer vários outros textos. Dá vontade de discutir essa coisa antiga de esquerda e direita que cito no que escrevi mais de dez anos atrás – conceitos tão pouco firmes, tão cambiáveis, tão mutantes, tão reducionistas. Dá vontade de escrever sobre os valores básicos que estão muito acima e além da visão ideológica sobre o papel do Estado na economia – o que é de fato reacionário, o que é de fato progressista, a forma de ver o comportamento, os modos, a sociedade.

Gostaria muito de escrever sobre isso aqui. Não sei se vou ter saco, coragem, persistência.

Duas das letras das canções  

Nem me lembrava direito disso, mas, na época em ouvi o disco Songs from The Capeman, traduzi duas das letras das canções. A primeira, “Adiós Hermanos”, é a primeira do disco, a apresentação dos personagens – Salvador é o garoto, Sal é o Salvador depois de muitos anos de cadeia, uma pessoa completamente diferente.

A segunda canção é um diálogo entre a porto-riquenha mãe do assassino com as mães brancas das vítimas. A letra é uma das coisas mais belas que já vi na vida. Vale mais que trocentos tratados a respeito de religião, perdão. Credo – e pouca gente ouviu este disco.

Adiós Hermanos

Sal

Era a manhã de 6 de outubro de 1960

Eu estava usando meu terno cinza

Me preparando para deixar a Casa de D.

Apertei algumas mãos e então adiós amigos do Brooklyn.

Talvez alguns deles esperassem me ver de novo.

Alguns até disseram que meu juiz –

Juiz Gerald Culkin –

Não iria ser severo demais

e nos deixasse sair dessa

Mas eu sabia que não seria assim.

Sal e Salvador

Medo de deixar o conjunto habitacional

E ir pra outro bairro.

Sal

As gangues dos brancos e dos negros,

elas gostariam de matar você.

Áurea e mulheres

Anjo da piedade, as pessoas sofrem

no mundo todo.

As crianças hispânicas são forçadas a acreditar

Anjo da piedade, as pessoas sofrem

na ilha inteira hoje

As mães choram.

Sal e Áurea

As irmãs se afligem.

Sal

Bom, eu entrei na corte, Estado de Nova York,

Condado de Nova York, um imigrantezinho.

Eles limparam a calçada.

Culpado pela minha roupa,

Culpado pela imprensa

Que o Homem da Capa queime pelo crime.

Bom, os garotos espanhóis tiveram seu dia na corte

e agora tinha chegada a hora de uma merda de lei e ordem.

A cadeira elétrica

pra dupla de brilhantina,

disse o juiz para o escrevente.

Sal e Salvador

 Medo de deixar o conjunto habitacional

E ir pra outro bairro.

 Salvador

 O povo dos jornais e da TV,

eles gostariam de matar você.

 Áurea e mulheres

 Anjo da piedade, as pessoas sofrem

no mundo todo.

Um garoto espanhol poderia ser morto a cada noite da semana.

 Sal

 Mas deixe que algum branco morra

e o mundo fica maluco por sangue – sangue latino

E não estou mentindo.

 Sal e Salvador

 Eles algemaram minhas mãos

 Sal

Um cinturão pesado na minha cintura

Sal e Salvador

E algemaram minhas pernas

Sal

Hernandes, o Homem do Guarda-Chuva, acorrentado ao meu lado.

Então fomos levados

Pelas ruas do Spanish Harlem

Chamando velhos amigos nas esquinas

Sal e Aurea

Lançando nossas preces para eles.

Sal

Cantando

Adiós, hermanos, adiós.

Posso perdoá-lo

Esmeralda

Sou Esmeraldo Agrón, senhora.

Sei que não tenho direito de falar.

Meu filho não é o selvagem que você vê.

A capa, o sarcasmo, o cabelo preto lustroso

Isso esconde a criança que eu alimentei, senhora.

Por favor, não vire de lado.

Seu filho, que foi para Deus, por culpa do meu

Meu filho azarado

Ele também se foi.

O Estado vai cuidar disso, tenho a certeza, senhora.

O Estado vai cuidar disso, tenho a certeza.

Primeira mãe

Vocês, hispânicos, vocês vêm pra este país

Nada muda as vidas de vocês.

Imigrantes ingratos pedindo piedade

quando todas as suas respostas são facas.

Esta cidade transforma em história em quadrinhos um crime.

Capas e guarda-chuvas, a glorificação da lama.

Eu tenho que enfrentar esse horror, senhora.

Segunda mãe

Minha religião

Me pede pra rezar pela alma do assassino

Mas acho que seria preciso ser

Jesus na cruz

Pra abrir seu coração depois de uma perda destas.

Posso perdoá-lo?

Posso perdoá-lo?

Não, não consigo.

Posso perdoá-lo?

Não, não consigo.

 Os amigos viram estranhos.

É difícil expressar compaixão com palavras.

As flores que eles trazem tremendo

vêm com medo nas raízes e no caule.

O que aconteceu comigo poderia ter acontecido com eles.

Posso perdoá-lo?

Não, não consigo.

 Esmeralda

 Só Deus pode dizer “perdoar”

O filho dele também recebeu uma faca.

Mas nós continuamos, temos que viver

Com essa cruz que chamamos de nossa vida.

 Primeira mãe

 Parece que uma bomba caiu

E onda sobre onda chegam as reverberações

 Segunda mãe

 Você não consegue admitir que seja verdade

Tem que ter havido algum engano

Você perambula através desse pesadelo do qual não consegue acordar

 Posso perdoá-lo?

Posso perdoá-lo?

Não, não consigo.

Um Comentário

  1. Yuri
    Postado em 06/05/2012 às 4:36 am | Permalink

    Muito bom este disco. As canções são bastante magnéticas. Minha favorita é “Bernadette”. A canção traz um pouco de leveza e inocência em um disco que fala muito de dor, preconceito, redenção. O verso final da música é mágico.

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