Pablo Milanés, indispensável

Pablo Milanés foi ver Coração Brasileiro, o show de Elba Ramalho, no Canecão do Rio. Gostou muito: “É belíssimo. Tem muita coisa cubana nos arranjos”.

Pouco dias depois, no início de novembro do ano passado (o texto é de 1984), Elba Ramalho e Pablo Milanés voltaram a se encontrar no mesmo Canecão, só que às avessas: Elba estava na platéia. Além de assistir ao show, ela foi uma das duas estrelas brasileiras (a outra foi Caetano Veloso) que apresentaram ao público este que é sem nenhuma dúvida um dos dois maiores nomes da música popular de Cuba, hoje, ao lado de Sílvio Rodriguez. Os três shows que Pablo Milanés deu no Canecão foram (juntamente com os três no Circo Mágico do Anhembi, em São Paulo) as primeiras apresentações de um artista cubano no Brasil desde o rompimento das relações entre os dois países, 20 anos atrás; os shows do Rio foram gravados, e o resultado da gravação está chegando agora às lojas, no LP Pablo Milanés ao vivo no Brasil, da Ariola.

E ao se ouvir o disco é impossível deixar de fazer o mesmo comentário feito por Pablo Milanés sobre o show de Elba Ramalho, só que às avessas: é belíssimo. Tem muita coisa brasileira na sua música.

O músico cubano já sabia há muito tempo dessa identidade. Como se sabe, a música brasileira é conhecidíssima em Cuba; Roberto Carlos e Nélson Ned tocam o dia inteiro na rádio, e gente como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Edu Lobo, Milton Nascimento, também é muito conhecida e admirada; Chico Buarque de Hollanda lotou o maior teatro de Havana; comitivas de artistas brasileiros têm ido lá anualmente. O compositor uruguaio Daniel Viglietti já em meados dos anos 70 gravou em Cuba um LP composto exclusivamente por músicas cubanas e brasileiras – passo que foi seguido me 1982 pela carioca Olívia Byington, com seu LP justamente chamado Identidad.

– Temos raízes comuns, especialmente as rítmicas e também algo das harmonias – disse o compositor cubano sobre a música dos dois países.

As origens da identidade são óbvias: tanto Cuba quanto o Brasil receberam centenas de milhares de escravos negros, muitos deles vindos da mesma região da África, a costa ocidental. O grupo étnico dos iorubas, por exemplo, mandou escravos para os dois países – e a música dos dois países foi grandemente influenciada pela cultura africana.

As influências se entrelaçam: tanto quanto a moderna música brasileira, a nueva trova cubana – o movimento de que Pablo Milanés é um dos principais expoentes – não se envergonha de reconhecer que bebeu na fonte do jazz. Que, por sua vez, bebeu na mesma fonte comum africana.

A nueva trova – assim como a carreira de Pablo Milanés – começou na segunda metade dos anos 60. O compositor diz que, na época, os músicos cubanos ouviam muito o que se fazia então no Brasil – a geração pós-bossa nova. A intenção dos novos músicos cubanos era buscar suas raízes populares (sem, “em momento algum, manifestar um fechamento ou preconceito contra qualquer influência estrangeira”, nas palavras de Milanés) e expressar através delas as preocupações vividas naquele momento pelo povo e pelos artistas. A semelhança com o que acontecia então na música brasileira é mais do que óbvia.

Várias das músicas que estão no LP Pablo Milanés ao vivo no Brasil têm todo o clima musical da era imediatamente pós-bossa nova. A própria formação do conjunto que acompanha o artista é típica dos muitos trios que fizeram sucesso naquela época: piano, baixo, bateria. Muito mais que isso: a soltura, a leveza, a capacidade de improvisação, o toque eminentemente jazzístico do piano do brilhante Jorge Aragon nos remete ao estilo dos melhores pianistas da música popular brasileira dos últimos 20 anos; a bateria de Fran Bejerano, que em vários momentos abandona o papel de apoio para passar à frente do conjunto, também nos soa extremamente familiar; e o baixo virtuoso de Eduardo Ramos, o líder do conjunto, que também não se contenta com um papel secundário e executa brilhantes solos, é digno dos nossos melhores músicos.

Das dez músicas cubanas do LP (há também “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, cantada em dueto por Chico e Pablo Milanés), três são conhecidas na interpretação de artistas brasileiros: “Años”, gravada por Fagner em 1981; “Yo no te pido”, gravada por Simone em 1981; e “Canción por la unidad latinonamericana”, gravada por Chico e Milton em 1978. Duas outras, “Para vivir” e “Yo pisaré lãs calles nuevamente”, estavam no único LP de Pablo Milanés lançado no Brasil antes deste atual – o belo La vida no vale nada, gravado em 1976.

O fato de haver no novo LP seis músicas já lançadas no Brasil não torna o disco menor, nem menos indispensável. Os três músicos que acompanham o compositor oferecem um belíssimo trabalho – e uma lição, a todos os que confundem superprodução com qualidade, de como são ilimitados os recursos de apenas três instrumentos tocados por artistas competentes. Pablo Milanés, o cantor, é igualmente brilhante, dono de uma voz forte, poderosa, extensa, e que sabe ser maleável e sensível.

Não há, entre as seis músicas já lançadas no Brasil e as cinco inéditas, nenhuma descartável. E algumas são excepcionais – como “Años”, em suas sensíveis considerações sobre o envelhecer de uma paixão (“A tudo dizes que sim, a nada digo que não, para poder construir esta tremenda harmonia que tornam velhos nossos corações”), “Para vivir”, uma espécie de continuação cronológica da anterior, em que se faz o inventário de uma paixão que chegou ao fim (“De minha parte, eu esperava que um dia o tempo se encarregasse do fim. Se não tivesse sido assim eu não teria continuado brincando de te fazer feliz”), ou ainda a emocionada e emocionante “Yo no te pido”, em que, ao contrário das duas anteriores, se fala de uma paixão no auge do seu brilho (“Eu não te peço que me assines dez papéis cinzentos para amar; te peço apenas que tu ames as pombas que eu gosto de olhar. Eu não te peço que faças descer uma estrela azul; te peço apenas que enchas meu espaço com tua luz”).

Esta resenha foi publicada no Jornal da Tarde em 2 de abril de 1984

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