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	<title>50 Anos de Textos &#187; Turista acidental</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Tiradentes. Ou: Minas há, sim, e maravilhosa</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 03:02:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Tiradentes é, provavelmente, um dos únicos lugares do Brasil que não piorou, não degringolou, não se horrorificou ao longo do meu tempo de vida. Ao contrário, muito ao contrário, Tiradentes melhorou ao longo das últimas décadas. O que é um absoluto fenômeno, coisa única, o total remar contra a maré. Conheço apenas dois outros lugares [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tiradentes é, provavelmente, um dos únicos lugares do Brasil que não piorou, não degringolou, não se horrorificou ao longo do meu tempo de vida.</p>
<p>Ao contrário, muito ao contrário, Tiradentes melhorou ao longo das últimas décadas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzTira1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5595" title="zzTira1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzTira1.jpg" alt="" width="760" height="570" /></a></p>
<p><span id="more-5590"></span></p>
<p>O que é um absoluto fenômeno, coisa única, o total remar contra a maré.</p>
<p>Conheço apenas dois outros lugares do país que não sucumbiram à degradação ampla, geral e irrestrita: a Praia do Forte, na Bahia, e o conjunto Visconde de Mauá-Maringá-Maromba, naquele lugar onde se encontram Minas, São Paulo e o Estado do Rio.</p>
<p>Nas vezes em que voltei a Mauá (algumas poucas, infelizmente), e nas que voltei à Praia do Forte (muitas, embora menos do que gostaria), fiquei surpreso, feliz, ao constatar que continuavam iguais, o que é uma dádiva, uma maravilha.</p>
<p>Tiradentes não apenas continuou igual. Continuou igual – mas melhorou, e muito. Coisa rara, excepcional, única.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tiradentes dá de goleada em Paraty. Só que fica mais longe da Rede Globo</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira61.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5624" title="zztira6" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira61.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Paraty, tão badalada, tão incensada, tão flipada, parece uma imensa bobagem, diante de Tiradentes. O casario colonial de Paraty ocupa umas quatro quadras, seis no máximo. Tiradentes tem pelo menos cinco vezes o tamanho do casario colonial intocável de Paraty – com a imensa vantagem de estar diante de uma montanha esplendorosa, majestática, a Serra de São José. Infeliz, ou felizmente, está mais longe da sede de <em>O Globo</em> e da Rede Globo. É 200 milhões de vezes menos badalado que Paraty. Pensando bem, é felizmente. É vantagem. Sem dúvida.</p>
<p>Tiradentes, me peguei pensando várias vezes, dá de dez mil a zero em Paraty. No mínimo. Paraty não chega aos pés de Tiradentes.</p>
<p>Mas digo isso porque vivo há mais de 40 anos em São Paulo, sou mais paulistano hoje que mineiro. Nenhum mineiro diria coisa assim. Cantar grandeza é coisa de fluminense, carioca, nunca de mineiro. Com todo respeito – como diria o sergipano mais carioca do mundo, o feio e ótimo Ancelmo Gois.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Nossas grandes cidades – que pena</strong></p>
<p>Acho que preciso justificar minhas assertivas tão peremptórias, tão violentas a respeito da piora, da degringolação de quase absolutamente tudo no país, nos anos que me deram para viver. Será que preciso mesmo? Para mim, é o óbvio, é axioma, mas vamos lá.</p>
<p>Conheci o Rio de Janeiro em 1961. Uma das mais belas cidades do mundo, uma maravilha, um estupor. Em 1988, ou 1989, não sei bem, estive lá com minha filha, então uma garotinha de 13 ou 14 anos – e um motorista de táxi me desaconselhou a caminhar por uma rua que me era muito conhecida porque havia sério risco de sermos assaltados. Foi uma experiência chocante: o cidadão local metia medo nos turistas, nas pessoas de fora. Hoje, apesar das melhoras dos últimos meses, os traficantes mandam mais no Rio de Janeiro do que o governador e o prefeito.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira9.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5625" title="zztira9" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira9.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Belo Horizonte era uma cidade agradável na época da minha infância, nos anos 1950, 1960. Garotos, e depois adolescentes, andávamos até o fim da cidade, no sopé da Serra do Curral, e brincávamos lá numa boa, e subíamos até o Piquinho, e andávamos no topo da serra olhando a cidade lá embaixo, que então beirava um milhão de habitantes.</p>
<p>Boa parte da Serra do Curral foi devastada pelas mineradoras nos anos 1970. Drummond escreveu uma crônica sobre o ataque às montanhas que deram o nome à cidade. Ainda bem (para ele) que Drummond não viveu para ver, para ficar sabendo da destruição absoluta da Serra do Curral, com aqueles grotescos edifícios construídos no topo do que antigamente formava o belo horizonte.</p>
<p>A visão que se tem de Belo Horizonte, de qualquer lugar mais alto, é apavorante: um amontoado de prédios imensos encarapitados no que 40 anos atrás eram morros, montanhas verdes. O trânsito de Belo Horizonte é um total horror, muito pior do que o de São Paulo. A cidade inchou em quatro décadas para chegar a ridículos, impensáveis 3 milhões de habitantes. Tem todos os horrores das grandes metrópoles, sem nenhum dos benefícios delas.</p>
<p>Vivi, trabalhei, andei pela região central de São Paulo no final dos anos 1960 e durante todos os anos 1970. Era uma beleza de Centro de metrópole. O Centro de São Paulo hoje é um lixo – apesar de todos os esforços, e são esforços imensos, dos governos estaduais, municipais, das empresas. Abandonamos o Centro da cidade, deixamos que ele fosse destruído, jogado às traças, aos grafiteiros, aos porcalhões – e a um vazio apavorante nas noites e nos fins de semana.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Quem faz e acontece são as pessoas, não os governos</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira42.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5629" title="zztira4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira42.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Era para fazer loas a Tiradentes, e me afastei do foco. Mas talvez não de todo.</p>
<p>Gente boa de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte, fugiu dessas cidades grandes que decaíam e se instalou em Tiradentes. Gente das grandes cidades investiu em Tiradentes.</p>
<p>Tiradentes é hoje, em 2011, igual era quando estive ali pela primeira vez, em 1964 &#8211; mas muito melhor.</p>
<p>Tiradentes é também a prova, a demonstração perfeita, de que quem faz, quem faz e acontece, quem empreende, são as pessoas, e não os governos, o Estado.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Em 1964 vi lá casas em péssimo estado; hoje tudo brilha</strong></p>
<p>Quando passei por Tiradentes pela primeira vez, em 1964, foi numa excursão do quarto ano do ginásio do Colégio de Aplicação, com alguns professores, como <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/vivina-de-assis-viana/">Vivina</a>, que é de São Tiago, ali pertinho, e, se não me falha a memória, também com Dona Beatriz, de História. Um único dia – saímos de ônibus de Belo Horizonte, fomos a São João del-Rei, passamos por Tiradentes. O que guardei na memória, com a ajuda de umas poucas fotos, foi uma cidade antiga, histórica, mas mal cuidada, com o belo casario em péssimo estado, caindo aos pedaços. Uma cidade pequena, sem nada da imponência de Ouro Preto – e sem os restauros e os cuidados que Ouro Preto já naquela época tinha.</p>
<p>Agora, quase meio século depois, 50 anos em que o Brasil louca, insana, estupidamente, muito mais do que duplicou sua população, inchou suas cidades, entregou-as à favelização e à violência descontrolada, queimou ou dizimou metade do cerrado, destruiu boa parte da Amazônia, Tiradentes brilha.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira7.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5631" title="zztira7" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira7.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>As casas seculares que vi decadentes, ameaçando ruir, em 1964, estão com suas fachadas intocadas, pintadas de novo. Lá por dentro, devem quase todas ter sido reformadas, adaptadas à era da modernidade. Por fora, são como eram em 1750, 1800.</p>
<p>Não tenho régua para medir coisa alguma, mas Tiradentes me parece que é hoje muito provavelmente o maior conjunto de casario colonial que existe no país. Paraty, repito quantas vezes for necessário, é fichinha, é coisa boba, diante de Tiradentes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Jovens das grandes cidades foram para lá empreender</strong></p>
<p>Essa ressurreição, esse renascer, esse fenômeno contra o fluxo, contra a maré do horripilante, se deu, insisto, porque gente de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, foi para Tiradentes, e empreendeu. Fez e aconteceu.</p>
<p>Nos anos 1970 – enquanto eu, euzinho, estava muito ocupado casando, tendo minha filha, me apaixonando fatalmente e casando de novo, ao mesmo tempo em que trabalhava feito um camelo, um jumento, um imbecil, em um emprego e mais trocentos frilas, para ganhar o pão e perder a vida no ato de ganhá-la –, dezenas, centenas de pessoas da minha geração saíam das maiores cidades do país à procura de alternativas melhores.</p>
<p>Enquanto eu ficava melhorando o texto dos outros, cinzentamente fazendo títulos, olhinhos, legendas, e tendo aumentos de salário, um monte de gente da minha geração, ou um pouquinho mais velha, invadia lugares como Trancoso, Mauá, Tiradentes. Comprava casinhas pobres, caindo aos pedaços, e ia fazendo reformas nelas, estabelecendo bares, restaurantes, pousadas, ateliês, lojinhas disso ou daquilo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5634" title="zztira11" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira11.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Mauá deu certo. Abençoado lugar. Núcleo de ripongas nos 60, início dos 70, hoje é centro de boa, sofisticada, variada cozinha, boas, excelentes pousadas.</p>
<p>Trancoso deu o azar de dar certo demais. O lugar que deixou Regina apaixonada porque era bucólico, mágico, no final dos 70, virou paraíso dos milionários nos anos 2000, espécie de Ilha de Caras da Bahia, e portanto um horror.</p>
<p>Dos lugares para onde foram os jovens empreendedores paulistas, cariocas e mineiros nos anos 70 e 80, Tiradentes foi o que mais deu certo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>7 mil habitantes, um supermercado, dois bancos e 230 pousadas</strong></p>
<p>O casario foi preservado. As igrejas foram preservadas. Tem mais árvores do que qualquer outra cidade turística brasileira. Tem uma coleção de cozinhas premiadas como nenhum outro pequeno local do país – mas tem também diversos lugares acessíveis aos que não têm R$ 300,00 para gastar numa refeição.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-06161.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5652" title="2011-10 - Tiradentes - 0616" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-06161-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Um guia dizia para um grupo de alunos cariocas da quinta série que Tiradentes tem 7 mil habitantes, um supermercado, dois bancos e 230 pousadas. Os números mostram uma loucura, mas Tiradentes não é uma cidade louca. Muito ao contrário. Pelo que vimos, economicamente Tiradentes vai bem, obrigado, graças ao turismo. Em outubro, mês absolutamente fora de temporada, havia pousadas cheias, restaurantes com muita gente. Mais importante ainda: havia muita gente nos locais mais historicamente fundamentais – a Matriz de Santo Antônio, construída a partir de 1710, no alto de uma bela colina, o Chafariz, de 1749 (<em>na foto acima</em>), as ruas do casario mais antigo. Hordas de estudantes de diversos lugares do país. Casais. Grupos.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Trem-Tiradentes-S.João-0710.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-5608" title="2011-10 - Trem Tiradentes-S.João - 0710" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Trem-Tiradentes-S.João-0710-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>O trenzinho que liga Tiradentes a São João del-Rei, e funciona às sextas, sábados e domingos – pequena lembrança de que Minas Gerais já teve, no passado, uma grande malha ferroviária –, também é um tremendo sucesso. (A estrada foi inaugurada em 1881, com a presença do imperador Dom Pedro II.) Fizemos a viagem numa sexta, e todos os lugares estavam ocupados. Na estaçãozinha, um aviso indicava que a lotação estava esgotada.</p>
<p>E isso durante a semana – em outubro. Na sexta à noite a cidade já fervilhava de gente. No sábado, dia em que espertamente, remando contra a maré, fomos embora, depois de quase uma semana inteira lá, havia chusmas de visitantes – carros de São Paulo, do Rio, de Minas, de Estados mais distantes.</p>
<p>Enquanto atravessávamos a cidade rumo à estrada, nos espantamos ao ver, caminhando contra a nossa direção, um negão gordo de cabelo grande e boné, e, enquanto os dois falávamos ao mesmo tempo a frase inconclusa: Ué, mas parece o&#8230;, vimos que era o próprio, o Bituca, o Mirtão, o carioca de nascimento mais Minas &amp; Geraes do mundo, a voz de cobre, de diamante, de ouro – eu sou do ouro, eu sou vocês, eu sou Minas Gerais.</p>
<p>Mirtão, sujeito esperto, passeia por Tiradentes, a cidade natal de outro herói mineiro.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Sem asfalto, com o calçamento de pedras como há séculos</strong></p>
<p>Os governos fizeram sua parte para ajudar Tiradentes: atrapalharam pouco.</p>
<p>Por um milagre desses que acontecem poucas vezes, o Estado – sei lá em que nível, se União, Estado ou município – determinou que, no centro histórico e a seu redor, não poderia ser construída qualquer edificação que fugisse às características coloniais. Em algum momento, tentou-se asfaltar a estrada mais antiga que liga Tiradentes a São João del-Rei, a maior cidade da região, hoje com cerca de 90 mil habitantes. Algum bem-aventurado órgão de patrimônio proibiu o asfalto. A estrada continua hoje de pé-de-moleque, aquele calçamento com pedras irregulares. Há uma BR asfaltada que liga São João a Tiradentes, mas ela é mais longa e passa longe do centro histórico, felizmente.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-0558.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5609" title="2011-10 - Tiradentes - 0558" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-0558-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Houve, anos atrás, uma tentativa de melhorar, modernizar o calçamento do centro histórico, feito de grandes pedras irregulares, as pedras capistranas. O patrimônio proibiu. Passam carros nas ruas centenárias – mas os pneus sofrem, as bundas dos turistas sofrem, porque o calçamento igual ao original é um pavor para carros. É um maravilhoso convite a que se deixe o carro mais longe, e se ande a pé.</p>
<p>A rigor, a rigor, os carros deveriam ser proibidos de entrar no centro histórico, para preservar o casario – e a beleza da paisagem. Mas talvez seja melhor do jeito que está, porque os brasileiros, de uma maneira geral, são tão comodistas, tão aferrados a seus carros, que, se houvesse proibição mais draconiana, poderia simplesmente não haver turistas em Tiradentes – e aí a cidade não se manteria tão agradável e atraente e próspera.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um meio termo muito difícil de se alcançar</strong></p>
<p>É um meio termo difícil de se atingir, este, entre a preservação e a convivência com o turismo, a modernidade, o aggiornamento. Chegar ao ponto de nem tanto ao mar, nem tanto à terra, não é uma conquista fácil. Quando Regina me arrastou até Trancoso pela primeira vez, na segunda metade dos anos 1970, a estrada até lá era absolutamente precária. Muita gente preferia ir a pé, pela praia, embora a maré em alguns trechos tornasse a caminhada quase impossível. A cada vez que eu voltava lá, melhor era a estrada, e menos preservado era o lugar. Hoje, acho que a única coisa boa que existe em Trancoso é a casa de Lucy Dias.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira2a.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5643" title="zztira2a" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira2a.jpg" alt="" width="687" height="351" /></a>Abençoadamente, Mauá se refinou sem perder o encanto, o charme. Neste ano de 2011, foi completado o asfaltamento até lá. Não sei se o encanto, o charme da Maringá que visitei com Regina, depois com Fernanda garota, depois com Mary, vão resistir por muito tempo. Pode ser que sim: a vilazinha da Praia do Forte, que conheci quando Fernanda era uma adolescente de uns 14 anos, resistiu perfeitamente ao avanço da Estrada do Coco. Inventaram Sauípe, e a maioria dos turistas bobões pula a Praia do Forte, graças a todos os orixás baianos.</p>
<p>O meio termo é de fato muito difícil de se atingir. Michelle, uma jovem belíssima que trabalha na pousada que Mary escolheu – mulherão ali de seus 30 e poucos anos, experiente, vivida, com passagens por São Paulo, Curitiba, Nova York – comentou que Tiradentes está crescendo demais, muitas novas pousadas aparecendo a cada mês. Deveria haver uma legislação mais severa para impedir o crescimento da cidade, disse ela.</p>
<p>Uma garotinha de 21 anos que trabalha como garçonete em um bar num dos cantos do belíssimo Largo das Forras, o principal da cidade, com quem conversamos uns 20 minutos, atrapalhando a ela e ao bar, tem posição oposta. Nasceu em Tiradentes. Estuda hoje em São João, porque Tiradentes não tem escolas depois da oitava série. Acha Tiradentes um porre, porque não há jovens interessantes disponíveis, a não ser os turistas – e os turistas passam e vão embora. Reclama que não acontece nada na cidade, e que muitos dos meninos da sua idade bebem muito e se drogam. Crack?, perguntei, assustado. Ela se mostrou horrorizada: não, só maconha.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira10.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5640" title="zztira10" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira10.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Tudo o que ela quer na vida é aprender uma profissão – e cascar fora, ir para uma cidade grande.</p>
<p>Michelle, a belle, passou por grandes cidades e optou por Tiradentes, 7 mil habitantes. A garotinha jamais saiu do eixo Tiradentes-São João, e tudo o que quer na vida é uma cidade maior.</p>
<p>A vida é assim, definiu Seu Jamil numas férias em Florianópolis. Quem está no Norte quer ir pro Sul, quem está no Sul quer ir pro Norte.</p>
<p>Décadas antes, minha mãe dizia mais ou menos a mesma coisa, usando versos de um poeta parnasiano cujo nome não me lembro. Alguma coisa do tipo A felicidade está onde a pomos, e nunca a pomos onde estamos. Sofisticação literária não era o forte da minha mãe, mas os versos bocós encerram grande verdade dos fatos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma serra esplendorosa, um rio que dá histórias e peixes</strong></p>
<p>Não sou nada aventureiro, e além disso já estou velho, mas há espaço para quem goste de passeios naturebas, atléticos. Deve seguramente haver trilhas que levem até perto da lindíssima Serra de São José. Há também cachoeiras – a do Carteiro e a do Bom Despacho. Esta fica bem perto da estrada de calçamento em pé de moleque que liga Tiradentes a São João Del-Rei, mas, neste mês de outubro, em razão da prolongada seca, a Cachoeira do Bom Despacho tinha apenas um quase invisível filetinho de água.</p>
<p>A seca em Minas este ano foi muito brava. Fazia mais de três meses que não chovia uma gota em toda a região central do Estado, tanto que a vegetação em vários parques, como o Rola Moça e da Serra do Cipó, foi devastada por incêndios. Mary e eu levamos sorte a Belo Horizonte e a Tiradentes: enquanto estávamos lá, choveu nas duas cidades pela primeira vez após cerca de cem dias de secura absoluta.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira31.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5598" title="zztira3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira31.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>O longo período sem chuvas, no entanto, não tirou a beleza do Rio das Mortes, que passa pela cidade. Ele vem da Serra da Mantiqueira, a Leste, rumo a Oeste, para desaguar no Rio Grande, um dos dois rios que formam o narigão de Minas, o Triângulo, e também o Paranazão. Rio histórico, palco de batalhas na Guerra dos Emboadas (1707-1709), ele serpenteia as terras de velhas fazendas entre a estrada rodoviária, aquela pavimentada com pedras, e a ferroviária, no trecho entre Tiradentes e São João.</p>
<p>Passamos sobre o Rio das Mortes todos os dias, duas ou mais vezes ao dia, porque ele fica entre a pousada Lis Bleu e o centro histórico. Por ser mineiro, sou fascinado por trens e rios, e a cada vez que passávamos pelo das Mortes tirava fotos. Fiz várias delas, todas iguaizinhas. Não, não. Houve um fim de tarde, logo depois da primeira chuva, em que o sol quase poente fez as árvores às margens do rio ganharem uma coloração de filme produzido por David O. Selznick. Essas fotos ficaram diferentes das demais.</p>
<p>Além de história, o Rio das Mortes deve dar peixe. Sempre havia por lá, na ponte, no final da tarde, uns mineirinhos com seus anzóis.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Gente que foi, viu e empreendeu</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira52.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5649" title="zztira5" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztira52.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Sei de algumas pessoas que remaram na maré da cidade grande para Tiradentes, e ajudaram a transformar a cidade histórica decadente que vi em 1964 na tetéia que ela é hoje. Mauro Marcelo foi uma dessas pessoas – talvez um dos pioneiros. Mauro é mineiro, foi de Belo Horizonte para o Jornal da Tarde, que já foi um reduto de mineiros. Do JT foi para o Guia 4 Rodas. Assim como Saul Galvão, de bebedor de cachaça e cerveja Mauro virou connoisseur de vinhos. Abriu restaurante em Tiradentes.</p>
<p>Diretamente de Belzonte, sem passagem por São Paulo, foram para Tiradentes os irmãos gêmeos Luís Fernando e Luís Eduardo, amigos de adolescência de Mary. São os donos do restaurante Theatro da Vila, tido e havido como a melhor cozinha de todas as boas cozinhas da cidade – o tal lugar onde &#8211; segundo nos disse o Leonardo, o paulista dono da Lis Bleu, a maravilhosa pousada em que ficamos –, não se come por menos de R$ 300,00, bebidas excluídas.</p>
<p>Antônio Mascchio, o memorável, mitológico Antônio Mascchio, abriu um restaurante em Tiradentes, nos anos 1980, depois que fechou o não menos memorável Pirandello, no Baixo Augusta, no tempo em que ainda não havia a expressão Baixo Augusta.</p>
<p>A onda iniciada no final dos anos 1970 continua até hoje. Leonardo, o garotão que com sua bela mulher Tatiana, paulista como ele, abriu o Lis Bleu no início deste ano, 2011, investiu uma grana preta ali – assim como tantos outros paulistas, cariocas e belo-horizontinos haviam feito antes. Saímos de lá com a certeza de que o investimento não foi em vão. O Lis Bleu vai dar certo, e eles vão ganhar um bom dinheiro. Merecem.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O verso de Drummond é belo – mas equivocado</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzTira22.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5616" title="zzTira2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzTira22.jpg" alt="" width="760" height="570" /></a>Durante anos, Mary e eu brincamos de pensar numa fuga do jornalismo, e de São Paulo, rumo a ter uma pousadinha na Bahia. Foi só sonho, brincadeira, escapismo. Não tenho talento nenhum de empreendedor. Se tivesse tentado, provavelmente teria bebido o bar, como meu amigo Pedro França fez com a caprichadíssima pizzaria que construiu no lugar mais agradável da agradável Sambaqui, em Florianópolis.</p>
<p>Não chego propriamente a invejar as pessoas das grandes cidades que empreenderam, que fizeram as belezas que são hoje Mauá, a Praia do Forte, Tiradentes. Tenho admiração, e um profundo respeito, mas não tenho inveja. Essas pessoas trabalham demais.</p>
<p>E não me lembro há quantos anos Drummond escreveu que Minas não há mais. Belo verso, tão forte, tão perene quanto os profetas de Aleijadinho em Congonhas, ou a riqueza da Matriz de Tiradentes – a segunda igreja mais rica em ouro do país, perdendo apenas para a de São Francisco, na Cidade Alta de Salvador.</p>
<p>Acho que o verso é dos anos 1940.</p>
<p>De qualquer forma, Tiradentes é a prova viva de que o verso do poeta maior, embora belo, é equivocado.</p>
<p>Minas há, sim. Está lá – muito viva, e passando bem, e linda.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztiradentes3a.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5646" title="zztiradentes3a" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zztiradentes3a.jpg" alt="" width="669" height="379" /></a></p>
<blockquote><p><em>Tiradentes, São Paulo e Juquehy, outubro de 2011.</em></p>
<p><em>Mais Minas: <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/os-profetas-de-aleijadinho/">Os profetas de Aleijadinho, uma maravilha absurda, impressionante, emocionante.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Os profetas de Aleijadinho</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Oct 2011 02:31:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[A visão é emocionante, estonteante. No topo de uma montanha, diante de bela, imponente edificação, 12 esculturas que falam de um universo de milênios atrás encaram o vale e o mundo à frente delas. Tudo, absolutamente tudo acaba, mas as 12 esculturas são perenes. A beleza é tanta que apavora, fascina – estonteia. Me perguntei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A visão é emocionante, estonteante. No topo de uma montanha, diante de bela, imponente edificação, 12 esculturas que falam de um universo de milênios atrás encaram o vale e o mundo à frente delas. Tudo, absolutamente tudo acaba, mas as 12 esculturas são perenes.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-0031.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5509" title="Congonhas 003" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-0031.jpg" alt="" width="760" height="570" /></a></p>
<p><span id="more-5499"></span>A beleza é tanta que apavora, fascina – estonteia.</p>
<p>Me perguntei como foi possível que eu, mineiro de criação e de direito, embora emigrante há tantas muitas décadas, tivesse vivido mais de 60 anos sem ter visto os profetas de Aleijadinho em Congonhas.</p>
<p>Doze profetas, esculpidos em pedra sabão, dispostos diante de uma bela igreja, a do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, ou simplesmente a Basílica, construída ao longo de cerca de 20 anos, a partir de 1757. As esculturas foram criadas entre 1800 e 1805.</p>
<p>As 66 figuras esculpidas por Aleijadinho em madeira – cedro – vieram antes dos profetas: o artista trabalhou nelas entre 1796 e 1799. Formam sete conjuntos – sete passos da Via Sacra de Cristo –, colocados dentro de seis pequenas capelas, construídas na colina que leva até os profetas e a Basílica.</p>
<p>Doze profetas de pedra, 66 figuras de madeira, no topo de uma das milhares de montanhas de Minas. Esse tesouro, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, é chamado de o maior conjunto de arte barroca da América Latina.</p>
<p>Eu sei lá. Não entendo coisa nenhuma de artes plásticas, sou nessa área analfabeto de pai e mãe, mais analfabeto ainda do que em outras, e além disso não tenho idéia de que tipo de régua se usa para definir se aquilo ali é ou não o maior conjunto de arte barroca da América Latina.</p>
<p>Sei que é uma maravilha absurda, impressionante, emocionante. Pra dizer bem a verdade, é um troço bonito pra caralho, das coisas mais belas que já vi.</p>
<p>Ainda bem que vi, ainda bem que Mary sugeriu que víssemos. Antes tarde do que nunca. O que me peguei pensando é que todo brasileiro deveria ver as obras de Aleijadinho em Congonhas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma maravilha dentro de uma cidade feia, horrorosa, improvável</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/IMG_04651.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5516" title="IMG_0465" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/IMG_04651-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Congonhas é hoje uma cidade horrorosa. Cresceu desordenadamente, como todas as cidades do país. Muitos trechos parecem um favelão, um amontoado disforme de casas pobres penduradas nos morros que não fica a dever nada, no quesito feiúra, a cidades sem qualquer importância histórica, geográfica, artística ou qualquer outra, como por exemplo Itapevi, na região Oeste da Grande São Paulo, onde minha filha trabalhou (duro, e muito) ao longo de quatro anos.</p>
<p>É, antes de tudo, uma cidade improvável. Ocupa um fundo de vale, por onde passa um rio, o Maranhão, e partes das montanhas que o cercam. O fundo do vale é estreito, muito estreito, e é nele que fica o centro da cidade – um ajuntamento de ruas também estreitas, com calçadas onde não dá para duas pessoas caminharem lado a lado. Ali, no pequeno trecho plano, ficam todo o comércio e os serviços, e os pedestres disputam quase a tapa os pequenos espaços com os ônibus e carros.</p>
<p>Os morros são, é claro, absolutamente íngremes, e as ruas construídas neles são caóticas. É a improbabilidade absoluta. Não houve proteção ao casario antigo, e então ainda há velhas casas caindo aos pedaços, no meio de construções recentes, e feias, muito feias, sem qualquer padrão.</p>
<p>Congonhas abriga hoje grandes empresas, em especial ligadas à mineração. Gera empregos, atrai gente – é uma cidade horrorosa mas de vida econômica ativa.</p>
<p>A área em torno do sítio histórico – a colina onde ficam as seis capelas, o alto da montanha com os 12 profetas e a bela Basílica –, esta, no entanto, salvou-se incólume da modernização e deterioração da cidade. Está preservada, igualzinha hoje a como devia estar mais de 200 anos atrás, quando Aleijadinho e seus auxiliares concluíram o trabalho.</p>
<p>A Basílica, os profetas e as capelas diante deles são um oásis dentro da cidade caótica, improvável.</p>
<p>São de uma beleza descomunal.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma obra feita sob o impacto da Inconfidência</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-002.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5505" title="Congonhas 002" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-002.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Os profetas de pedra e as figuras bíblicas em cedro esculpidos em Congonhas pelo maior artista brasileiro do barroco têm diversas referências à Inconfidência Mineira. Jesus Cristo enfrenta a subida ao Calvário com sangue no pescoço, como se tivesse sido enforcado – menção óbvia a Tiradentes. Um anão aparece numa das etapas da Via Sacra com as cores da Coroa Portuguesa. (Aleijadinho não cuidou da pintura das 66 esculturas, que ficou a cargo de outros artistas.) Soldados romanos às vezes aparecem com botas semelhantes às dos soldados da Coroa Portuguesa. Uma das figuras da Via Sacra usa uma boina idêntica à dos franceses da Revolução.</p>
<p>Muitos dos profetas têm as feições dos principais inconfidentes – o próprio Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa. Um deles é um auto-retrato de Aleijadinho.</p>
<p>As datas mostram com clareza as conexões. Os inconfidentes mineiros foram influenciados pelos ideais a princípio libertários da Revolução Francesa de 1789. A Inconfidência Mineira veio logo após a Revolução. Tiradentes foi enforcado em 1792. Aleijadinho fez seu trabalho, como já foi dito, entre 1796 e 1805.</p>
<p>Eu não sabia de nada disso, da proximidade das datas, e da influência da Inconfidência sobre as obras de Aleijadinho.</p>
<p>Claro: pode ser que já tivesse sabido um tanto, e depois esquecido. Pode ser. Mas acho que não. Acho que nunca soube de nada disso. O que é um absurdo. Tive uma educação muito boa, freqüentei boas escolas em Minas – e não sabia disso.</p>
<p>Mary se lembrava – vagamente – de referências à Inconfidência nas obras de Aleijadinho. Eu, não.</p>
<p>Não consigo deixar de pensar: quantos brasileiros sabem hoje que Aleijadinho foi um artista – além de brilhante, o melhor de seu tempo – ousado, corajoso, iconoclasta, avançadíssimo, muito à frente da época, que subverteu as regras, que mexeu no que era para ser um retrato fiel do que contam as Escrituras, para expor uma visão pessoal e política, ao mesmo tempo contrária à Igreja que pagava por seus serviços e à Coroa Portuguesa que governava o país?</p>
<p>O Brasil não conhece o Brasil.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Quem dispensar a ajuda dos guias deixará de aprender muita coisa</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-005.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5513" title="Congonhas 005" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-005.jpg" alt="" width="608" height="456" /></a>Quem me ensinou sobre a ligação entre os trabalhos de Aleijadinho em Congonhas e Inconfidência foi um rapaz chamado Luciano.</p>
<p>Olinda tem, ou pelo menos tinha, aqueles garotinhos que pegavam no pé dos turistas se oferecendo como guias, e papagueavam um monte de frases decoradas a respeito da história da cidade. Eram de fato papagaios: recitavam frases feitas, sem ter a menor idéia do significado das palavras que repetiam diante de cada novo grupo de turistas. Não adiantava fazer perguntas a eles. Se a gente fizesse uma pergunta, eles voltavam atrás no texto decorado, para retomar a marcha, e engatavam tudo de novo.</p>
<p>Congonhas 2011 tem uma versão evoluída dos garotinhos papagaios da Olinda que conheci em 1971. O rapaz Luciano se aproximou de nós educadamente, e ofereceu seus préstimos de guia autorizado – ele é um dos vários que trabalham ali. Dissemos que gostaríamos, sim, de ouvi-lo, só que mais tarde – primeiro queríamos olhar tudo aquilo por nossos próprios olhos.</p>
<p>Quando, algum tempo depois, pedimos a ajuda dele, Luciano se revelou utilíssimo, cheio de informações para dar.</p>
<p>Os guias adultos de Congonhas falam frases decoradas – quase como os pentelhos dos garotinhos de Olinda. Mas despejam sobre os turistas uma montanha de informações – uma montanha quase tão alta quanto aquela em cima de que primeiro se construiu a bela Basílica, e depois a arte de Aleijadinho criou as figuras dos passos da Via Sacra e os profetas.</p>
<p>O turista que, emproado, rempli de soi-même, se recusar a ouvir um guia como Luciano ou seus colegas, certamente vai perder muito. Por exemplo: correrá o sério risco de não perceber as simetrias.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-9.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5518" title="Congonhas 9" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-9.jpg" alt="" width="507" height="380" /></a>Tudo, nos profetas de Aleijadinho em Congonhas, é simétrico. Estudadamente, rigorosamente simétrico. O profeta da extrema esquerda está inclinado para o centro, assim como o da extrema direita. O dedo apontado para o alto do profeta da direita se casa à perfeição com o dedo apontado para o alto do profeta da esquerda.</p>
<p>Os seis profetas de um lado falam de temas mais otimistas. Os seis do outro lado alertam para flagelos, horrores. Estes são retratados com fisionomias sérias, graves. Aqueles têm expressões alegres.</p>
<p>Há dezenas de ângulos retos, nas esculturas dos 12 profetas. Pés colocados em ângulos retos – vários.</p>
<p>Se se pegar um conjunto de três dos profetas, quaisquer deles, cria-se um triângulo, todos eles eqüiláteros.</p>
<p>Essa insistência nos triângulos, no ângulo reto, são indícios claros – declamou o guia Luciano – de que Aleijadinho era maçon.</p>
<p>Epa!</p>
<p>Aí, nesse momento, é preciso gritar truco!</p>
<p>Uma coisa são os dados da realidade, as evidências, o que se comprova por si próprio. O Cristo de Aleijadinho nas esculturas na Via Sacra tem marcas de enforcamento – e isso mostra obviamente que o artista aproveitou para se referir a Tiradentes, que acabava de ser enforcado.</p>
<p>Outra coisa, muito diferente, são as interpretações que um historiador sério ou qualquer doido – ou entusiasta de uma causa, o que talvez seja perfeito sinônimo de doido – possa vir posteriormente a fazer.</p>
<p>Alguém ensinou ao guia Luciano que os profetas de Aleijadinho têm relação com a maçonaria. A arte está aberta a todo tipo de explicação. Não tenho o menor interesse em saber quais são os signos que indicam a simpatia de Aleijadinho pela maçonaria, como de resto não tenho o menor interesse em tentar compreender o que é a maçonaria – a maçonaria me dá sono. Mas os muitos signos que mostram que Aleijadinho transformou a tarefa paga de esculpir os profetas e os passos de Cristo no Calvário em uma revolta contra o opressor português são absolutamente fascinantes.</p>
<p>A insistência no triângulo, por exemplo, pode simplesmente ser uma referência à Santíssima Trindade &#8211; ou pode ser apenas uma questão estética, do gosto barroco pela simetria.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O Código Aleijadinho</strong></p>
<p>O guia Luciano ofereceu uma tese, uma teoria: ao escolher quais profetas retratar em pedra sabão no alto daquele morro, entre os 16 citados nas Escrituras, Aleijadinho compôs seu próprio nome.</p>
<p>Epa! Truco!</p>
<p>Vamos lá:</p>
<p>A – Amós</p>
<p>L –</p>
<p>E – Ezequiel</p>
<p>I – Isaías</p>
<p>J – Jeremias</p>
<p>A – Abdias</p>
<p>D – Daniel</p>
<p>I – Jonas</p>
<p>N – Naum</p>
<p>H – Habacuc</p>
<p>O &#8211; Oséias</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-001.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5519" title="Congonhas 001" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-001-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a>Legal. Aceita-se até que o segundo I seja Jonas, já que em Latim o J e o I eram iguais. Mas e o L? Ah, o L é pelo primeiro nome do profeta Baruc, responde, de bate-pronto, o guia Luciano.</p>
<p>Bobagem? Loucura?</p>
<p>Pode ser. Mas Dan Brown pegou algumas teorias, lendas, a respeito da Cristandade e as transformou em imensos best-sellers. Por que raios ninguém quis fazer O Código Aleijadinho?</p>
<p>Talvez porque pouquíssima gente saiba da imensa quantidade de teses que existem a respeito dos profetas de Aleijadinho.</p>
<p>O Brasil não conhece o Brasil – e, a rigor, o Brasil não se leva a sério. Nem a graça. O Brasil tem uma doentia tendência de adorar tudo que é estrangeiro, e a menosprezar tudo o que é dele.</p>
<p>Se não é assim, como explicar que tão pouca gente conheça e curta os livros de Jô Soares, Nelson Motta, João de Minas?</p>
<p>Nessa viagem a Minas Gerais, que, ao contrário do que disse o poeta, há, sim – e há maravilhosamente –, me lembrei de Dona Beatriz, minha extraordinária professora de História no Colégio de Aplicação, a pessoa a quem devo minha paixão pela matéria. Dona Beatriz falava um dia do fato de que, para os gregos antigos, quem não era grego era bárbaro. Nunca fui aluno de fazer gaiatices, mas nesse dia cometi uma. Levantei o braço e, quando ela me autorizou a falar, disse algo do tipo: “Uai, fessora, mas é igualzinho no Brasil hoje”. E, após alguns segundos em que Dona Beatriz esteve certa de que seu dedicado aluno tinha enlouquecido, completei: “Aqui também tudo o que é estrangeiro é <em>bár-ba-ro</em>!”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma sintaxe estranha que consubstancializa o ato e identifica o Mal Em Si</strong></p>
<p>O guia Luciano, em sua quase decoreba, nos fascinou com o jeito de falar. Ao recitar um punhado de informações sobre cada um dos 12 profetas – o leão de Daniel, esculpido por um Aleijadinho que jamais havia visto um leão ou uma figura de leão, naqueles 1801, 1802, tem orelha humana, e a baleia de Jonas não se parece absolutamente com uma baleia –, ele saiu-se com uma frase mais ou menos assim:</p>
<p>- “O vândalo destruiu um dos dedos.”</p>
<p>Várias vezes, depois, Luciano iria se referir ao vândalo. No singular.</p>
<p>Singular maneira de enxergar a realidade. O vândalo.</p>
<p>Estávamos só começando a viagem. Aquilo viraria um bordão: o vândalo fez isso, o vândalo fez aquilo – brincaríamos com isso duzentas vezes.</p>
<p>É uma forma de ver a vida – ou seria apenas uma falha de conhecimento do bom guia Luciano?</p>
<p>O vândalo. No singular.</p>
<p>É a transformação do adjetivo em substantivo. A consubstanciação do ato. Não é o vandalismo, praticado por diversos entes – é o vândalo, coisa única. Não são os criminosos – é o crime. Não pessoas, mas uma entidade. Não são os maus, mas o mal, o mal em si.</p>
<p>De uma certa forma, em sua sintaxe estranha, o guia Luciano conseguiu identificar o Mal Em Si.</p>
<p>Hoje, felizmente, está muito mais difícil para o vândalo atacar. Há guardas municipais no sítio histórico 24 horas por dia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma luz quase parisiense na noite mineira</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-0041.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5511" title="Congonhas 004" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-0041.jpg" alt="" width="760" height="570" /></a>À noite, depois de termos descido o morro em que fica essa espantosa beleza dos profetas e dos passos da Via Crucis esculpidos por Aleijadinho, e portanto de termos visto a feiúra braba de Congonhas, jantamos no restaurante que dá vista para o santuário. O santuário, à noite, tem bela iluminação – é algo quase parisiense. Jantar diante de um dos mais belos sítios históricos do Brasil é uma experiência maravilhosa.</p>
<p>Naturalmente, veio mais comida para nós dois do que quatro pessoas poderiam comer. Quando dissemos ao garçom que estava tudo muito bom, que só havia muita coisa a recolher porque a quantidade era espantosamente grande, ele disse, mineiramente:</p>
<p>- “Vai comeno devagarinho.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Aleijadinho, Tiradentes, Tancredo – Minas Gerais há sempre</strong></p>
<p>De volta a Belo Horizonte, escala antes do retorno a São Paulo, descobri, no escritório de Dona Lúcia, minha sogra, um fascinante livro de que nem ela se lembrava: <em>Passos da Paixão – O Aleijadinho</em>. É uma obra de 1984, lançada pela Editora Alumbramento e patrocinada pelo governo do Estado de Minas Gerais – em 1984, o governador era Tancredo Neves. O livro tem fotos de quase todas as 66 figuras em cedro e dos 12 profetas, feitas por Claus Meyer, e textos de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Reproduz a primeira biografia de Aleijadinho, escrita em 1858, apenas 44 anos após a morte do artista, por Rodrigo José Ferreira Bretas, na época diretor-geral da Instrução Pública da Província de Minas Gerais – o equivalente, imagino, ao cargo hoje chamado de secretário de Educação. O texto de Bretas foi publicado – sem assinatura – no <em>Correio Official de Minas</em>, versão imperial do atual Diário Oficial, na época em que Vila Rica, hoje Ouro Preto, ainda era a capital. (A nova capital, a cidade em que me criei, só seria inaugurada em 1897, 12 anos antes de nascer ali a Maria da Conceição minha mãe.)</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-5520" title="Congonhas 1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-1-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>A biografia de Antônio Francisco Lisboa escrita por Rodrigo José Ferreira Bretas é bela – e apavorante, nos momentos em que trata da terrível doença degenerativa que privaria o artista dos dedos dos pés e das mãos, e lhe daria o apelido com que passou para a História. O livro mostra que a doença de Aleijadinho estava avançada na época em que fez as esculturas em cedro e em pedra sabão que hoje iluminam Congonhas. É muito impressionante saber como era grave seu estado de saúde quando criou tamanha beleza.</p>
<p>O prefácio do livro – uma beleza de texto, assinado por Tancredo, provavelmente da lavra de Mauro Santayana, seu mais fiel ghost writer, mas talvez revisado pelo próprio futuro presidente da República, que acabou com o ciclo dos presidentes generais embora não tenha podido assumir, e que morreria num 21 de abril, dia de Tiradentes – começa assim:</p>
<p>“Quando se fala em Minas, dois nomes emergem da memória, como símbolos do singular espírito de nossa gente: o Aleijadinho e Tiradentes. É natural que tenham ficado na História com a identidade atribuída pelas circunstâncias de seu Destino atribulado, e não com a recebida na pia do batismo. Eles eram, cada um deles em sua própria presença, o que havia de mais povo em nosso povo. Exatamente por isso, são hoje as duas personalidades maiores da única nobreza que conta: aquela titulada pelo Eterno.”</p>
<p>E mais adiante:</p>
<p>“Somos, os mineiros, religiosos e políticos. (&#8230;) “Se o Aleijadinho feriu a pedra-sabão e o cedro com suas mãos também feridas, para, na matéria disponível, registrar as manifestações de Deus, o outro, Tiradentes, assumiu a liderança do movimento político que pretendia dar-nos uma Nação em forma de Liberdade.”</p>
<p>Não é por nada, não, mas os mineiros – pelo menos alguns deles – escrevem bem pra cacete.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“As coincidências são a forma de Deus se manter anônimo”</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-7.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5523" title="Congonhas 7" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Congonhas-7-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a>Coincidências, coincidências.</p>
<p>Depois de Congonhas, fomos a <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/tiradentes-ou-minas-ha-sim-e-maravilhosa/">Tiradentes</a>. E, de Tiradentes, demos um pulinho a São João del-Rey, a cidade de Tancredo, de Gilberto Mansur, a quem devo o fato de por acaso ter virado jornalista, de Myriam Lúcia, amiga hoje distante, e onde estudou <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/vivina-de-assis-viana/">Vivina</a>, outra das minhas professoras no Aplicação, que depois viraria amiga para sempre. Em São João vimos o Solar dos Neves e a Igreja de São Francisco, junto à qual Tancredo está enterrado.</p>
<p>Junto da Igreja de São Francisco, Mary me mostrou o lugar de onde transmitiu, para a Rádio Inconfidência de Minas Gerais, o enterro de Tancredo. Chamada por Tancredo – assim como por Mario Covas, por coincidência nascido num 21 de abril, dia de Tiradentes – de “a menina”, Mary foi a única jornalista que cobriu toda a Via Crucis do presidente eleito, desde a internação no Hospital de Base em Brasília, na véspera do dia da posse, até o último adeus, na terra natal dele.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Il faut – absolument &#8211; aller à Congonhá”</strong></p>
<p>Quando falei com Fernanda sobre Congonhas, ela fez um comentário do tipo: “É uma maravilha, né?”</p>
<p>Não me lembrava, de forma alguma, que minha filha tivesse visto os profetas de Aleijadinho em Congonhas. Foi no dia do show de Eric Clapton no Morumbi que ela me esclareceu: no segundo ano do colegial, no Equipe, foi a Congonhas, Mariana e Ouro Preto.</p>
<p>Fernanda é uma pessoa de sorte. Está embarcando no domingo para mais uma visita a Paris. Mas já viu os profetas de Aleijadinho em Congonhas.</p>
<p>Da próxima vez em que algum amigo vier me falar da beleza de Florença, do Vale do Loire, ou coisa parecida, pergunto se ele já foi a Congonhas. Se não tiver ido, mando tomar.</p>
<blockquote><p><em>Tiradentes e São Paulo, outubro de 2011.</em></p>
<p><em>Mais Minas: <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/tiradentes-ou-minas-ha-sim-e-maravilhosa/">Tiradentes mostra que Minas há, sim, e maravilhosa</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Santiago: algumas dicas básicas</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/santiago-algumas-dicas-basicas/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/santiago-algumas-dicas-basicas/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2011 21:14:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Dica de uma simpática senhora, dona ou gerente de uma pequena cafeteria de Santiago, ao receber do turista três notas novas de 1.000 pesos chilenos (que ele achava serem só duas) para pagar dois expressos: antes de fazer qualquer pagamento, deve-se esfregar bem as notas, para ter certeza de que uma não está colada a outra. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dica de uma simpática senhora, dona ou gerente de uma pequena cafeteria de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/santiago-de-chile/">Santiago</a>, ao receber do turista três notas novas de 1.000 pesos chilenos (que ele achava serem só duas) para pagar dois expressos: antes de fazer qualquer pagamento, deve-se esfregar bem as notas, para ter certeza de que uma não está colada a outra.<span id="more-4972"></span> Como as notas novas são de um papel que parece plastificado, é muito comum que elas fiquem grudadas.</p>
<p>Dica que todo mundo dá: há uma formulazinha que ajuda a entender quantos pesos equivalem a tantos reais. Multiplica-se cada 1 mil pesos por quatro, e dá, mais ou menos, o equivalente em reais. Assim: 10 mil pesos (o preço médio de um CD, ou de um prato em restaurante razoável ou bom) são cerca de R$ 40,00. Uma corrida curta de táxi de 2 mil pesos significa R$ 8,00.</p>
<p>Ou então, para fazer a conversão por dólar, basta multiplicar 1 mil pesos por 2. Um DVD de 12 mil pesos, assim, dá mais ou menos US$ 24,00. Ou R$ 48,00. Um bom guia-livro turístico de Santiago, que custa 6 mil pesos, dá cerca de US$ 12,00, ou R$ 24,00.</p>
<p>Um jornal custa 500 pesos, ou cerca de R$ 2,00. Mais barato que no Brasil: o exemplar do <em>Estadão</em> custa $ 3,00.</p>
<p>Há notas velhas convivendo com as novas. É bom prestar atenção.</p>
<p>As notas de 10 mil pesos são as mais comuns quando se trocam dólares nas casas de câmbio. Cada uma equivale a mais ou menos US$ 20,00, ou cerca de R$ 40,00.</p>
<p>Melhor é trocar a menor quantidade possível de dólares no aeroporto ou no hotel, onde a conversão é menos favorável. Nas casas de câmbio – e há muitas -, a conversão é melhor e não se cobra taxa.</p>
<p>A expressão em espanhol para “em dinheiro”, “cash”, é en efectivo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Dica de quem sofreu com a secura do ar de Santiago: é fundamental levar um creme hidratante para a pele. Um protetor labial também é recomendável.</p>
<p>No inverno, faz muito frio em Santiago, mesmo durante as tardes ensolaradas. Quem for lá, em especial quem mora ao Norte de São Paulo, deve levar bons agasalhos, luvas, cachecol, chapéu.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Os hotéis têm mapinhas básicos da cidade. Eles ajudam muito.</p>
<p>Não é muito fácil achar guias só de Santiago. A Editora Abril publicou um, <em>O Melhor de Santago do Chile</em>, da coleção <em>Viagem de Bolso</em>. Nos lugares turísticos e nas livrarias lá acha-se fácil o livro-revista <em>Santiago Souvenir Chile</em>, do Editorial Kaktus, por 6.000 pesos; o formato grande é desconfortável para se carregar nos passeios, mas vale a pena ter no hotel e trazer de volta como recordação porque há bons mapas e as fotos são sensacionais.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>O melhor meio de locomoção em Santiago é o metrô (se diz <em>métro</em>, e não metrô). Há cinco linhas de metrô, 108 estações, oito delas fazendo integração de duas linhas. O metrô leva você perto de praticamente todos os lugares da cidade.</p>
<p>A tarifa do metrô varia de acordo com o horário – é mais cara nas horas de rush. Assim, para simplificar a vida, mesmo para quem vai ficar apenas três dias, a dica é comprar a <em>tarjeta</em>, o equivalente ao bilhete único de São Paulo, um cartãozinho como os cartões de crédito, que se carrega nas bilheterias das estações. Um cartão, <span style="text-decoration: underline;"><em>una tarjeta</em></span>, serve para o casal, o grupo, e custa apenas 1.300 pesos, ou R$ 5,20. Vale a pena.</p>
<p>O táxi é barato, especialmente, é óbvio, para corridas não muito longas, que em geral custam 1.800, 2.000 pesos.</p>
<p>Mas a melhor maneira de conhecer a cidade é andar a pé, o que é fácil e gostoso porque é tudo plano, com calçadas bem cuidadas.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Há dois passeios absolutamente obrigatórios, os morros de onde se tem uma vista deslumbrante da cidade e, dependendo do dia, também da Cordilheira dos Andes: o Cerro Santa Lucia e o Cerro San Cristóbal. Ao cume do Santa Lucia, bem perto do Centro da cidade, sobe-se a pé, de escada – mas vale a pena. Ao cume do San Cristóbal, bem mais alto, pode-se chegar de funicular, ou a pé ou de bicicleta (para os aventureiros), ou de táxi. O mais gostoso, claro, é o funicular.</p>
<p>Esses dois passeios são obrigatórios. Não tem sentido ir a Santiago e não subir aos cerros Santa Lucia e San Cristóbal.</p>
<p>Um dos bairros mais agradáveis, lugar de gente descolada, que faz lembrar Saint Germain de Près, O Lastarria, fica ao pé do Cerro Santa Lucia. É um triângulo entre o belíssimo Museo Nacional de Bellas Artes, o Parque Florestal (que se estende à margem do Rio Mapocho) e o cerro. Ali, além do Museu de Artes Visuais, há vários cafés, lojinhas, restaurantes, bares com cervejas artesanais, uma delas a Lastarria, com o nome do próprio bairro.</p>
<p>Passar algumas horas na Plaza de Armas, no coração da metrópole, também é fundamental. Ali ficam a Catedral Metropolitana, o Museo Historico Nacional, o prédio do Correo Central. Na praça, há sempre apresentações, performances de cantores, malabaristas, contadores de história.</p>
<p>Aos domingos, os museus públicos são gratuitos.</p>
<p>Gratuito sempre é o sensacional Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, inaugurado em 2011, num prédio construído especificamente para abrigá-lo; quem gosta de História, de política, não deve deixar de visitar o museu; fica um pouco afastado das áreas normalmente visitadas pelos turistas, mas junto de uma estação de metrô, a Quinta Normal, da Linha Verde.</p>
<p>Capuccino, para os santiaguinos, é café com leite. O que nós chamamos aqui de capuccino lá se chama mocachino: café, leite e chocolate.</p>
<p>Dizem os entendidos que as melhores safras de vinhos tintos chilenos são 2007 e 2008.</p>
<p>Dica sobre segurança: Santiago é uma cidade muito segura, muito bem policiada. Não há assaltos. Mas, como em toda grande cidade, há batedores de carteira, em especial em áreas de maior movimento, como a região do Mercado Central. É só tomar um pouquinho dos cuidados básicos que se deve tomar em qualquer lugar.</p>
<blockquote><p><strong><em>Por que este post.</em></strong></p>
<p><em>Minha amiga Jussara me pediu umas dicas básicas para passar para uma amiga dela, que está para ir a Santiago. Acho que Jussara considerou, prudentemente, que a amiga dela não teria paciência para ler a <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/santiago-de-chile/">trolha interminável que escrevi</a> sobre a cidade. Aí, já que era para escrever dicas, pensei em aproveitar e botar o textinho aqui. Mary palpitou, acrescentou. Pode, quem sabe, servir para mais alguém.</em></p>
<p><em>Sérgio Vaz, julho de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Santiago de Chile</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 03:04:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Olhávamos os mapas, tentando entender onde estávamos, no primeiro dia da viagem. Uma senhora se aproximou e disse: Que calle cercas? Era uma mulher de uns 50 anos, simples, classe média média. Não se conteve diante dos dois turistas que pareciam perdidos, quis ajudar.<span id="more-4856"></span></p>
<p>No Metro (se dice métro, no metrô), um jovem pai que brincava com uma bola de futebol com o filho fez menção de se levantar para me dar o lugar, certamente por causa da minha barba branca. Em outro dia, também no Metro, uma garotinha de uns 12 anos, roupa de escola, levantou-se sorridente, serelepe, para dar lugar para Mary – e Mary tem baby face.</p>
<p>No imenso Parque Quinta Normal, uma trabalhadora, rastelando folhas caídas, abriu um sorriso para nós, turistas com los paráguas abiertos, e brincou dizendo algo como: Parece que vá a llover! – para em seguida completar: Y eso es bueno, por el aire.</p>
<p>Esses pequenos gestos (e houve vários outros como eles) me parecem como uma definição dos chilenos, das pessoas comuns de Santiago: pessoas boas, bem humoradas, gentis, educadas, amigas.</p>
<p>Essa característica básica, fundamental, da gentileza das pessoas, foi a que mais deixou Mary impressionada.</p>
<p>Claro: há também os bandidos. Em uma curta passagem de sete dias, fui roubado duas vezes &#8211; sem qualquer violência, por dois bandidinhos que são autênticos artistas. É assim, nas metrópoles.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma metrópole aos pés de uma espetacular cordilheira</strong></p>
<p>Santiago me deu, nesta segunda/primeira visita, a maravilhosa sensação de estar numa grande metrópole. Algo como tinha sentido em Toronto, quando estive lá tanto tempo atrás, por uma gentileza de Rodrigo Mesquita, a ocasião em que conheci Fátima Belchior, uma séria, competentíssima jornalista niteroiense então na <em>Gazeta Mercantil</em>, que descobria como eu que uma cidade não precisa ter mais de 3 milhões de habitantes para ser uma metrópole. Belo Horizonte, a minha cidade da infância, inchou tanto que tem quase isso, mas continua sendo uma pequena cidade provinciana. Toronto tem em torno de 2,5 milhões, e é uma metrópole.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4867" title="zSantiago 2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-2.jpg" alt="" width="591" height="443" /></a>Santiago às vezes lembra Toronto, às vezes lembra Buenos Aires e também Londres, e muitas vezes lembra Paris. Mas Santiago tem uma coisa que nenhuma outra metrópole tem – Santiago tem a cordilheira.</p>
<p>Há muitas grandes, belas cidades à beira do mar, ou cortadas por belos rios. Nenhuma tem, como Santiago, uma cordilheira.</p>
<p>No nosso segundo dia na cidade, me ocorreu que Jacques Brel ficaria chocado, deslumbrado com Santiago. Para um poeta de um país plano, que tem as catedrais como suas únicas montanhas, seria um estúpido encanto se deparar com a cordilheira que tem Santiago a seus pés.</p>
<p>Logo abaixo daquela imensidão de blocos de altas montanhas, a cidade é de uma planura impressionante. Pode-se atravessar Santiago de uma ponta a outra, de Leste a Oeste, de Norte a Sul, sem enfrentar nenhum declive forte. Mas parece que os poetas gostam de montanhas; isso poderia explicar por que Pablo Neruda escolheu ter sua casa no início de uma montanha, e não no meio da planura que é praticamente todo o resto da cidade. A casa de Neruda, La Chascona, fica no sopé de uma montanha de 288 metros, muito mais alta que qualquer catedral da Bélgica de Brel – mas, comparado à cordilheira, aquela montanha é tão pequena que leva o nome de cerro, Cerro San Cristóbal – e, segundo o dicionário, cerro é colina, outeiro. É como o Corcovado deles, e no alto, ao qual se pode chegar por um funicular (um bando de santiaguinos loucos gosta de subir de bicicleta pela estrada sinuosa), há uma estátua de uma Virgem Maria, a Immaculada Concepción. A Virgem, de 14 metros de altura, sobre um pedestal de outros 8,5 metros, e os mortais que chegam ao alto do cerro têm uma vista deslumbrante da cidade. Mas tão deslumbrante quanto ver a imensa cidade lá embaixo é ver a cordilheira bem lá em cima.</p>
<p>Subir até o alto do Cerro San Cristóbal – seja de táxi, a pé, de bicicleta, mas preferencialmente de funicular – é programa absolutamente obrigatório. Visitar La Chascona, no sopé do morro, também é, mas Mary e eu não chegamos a pagar o ingresso para percorrer a casa do poeta: havia brasileiros demais, lá, todos falando alto, como sempre falam alto os brasileiros. Saímos correndo. Neruda não ficará chateado.</p>
<p>Neruda é um orgulho nacional chileno, merecidissimamente. O Chile é, acho, o único país das Américas (ou será do mundo?) que teve não apenas um, mas dois poetas premiados com o Nobel de Literatura. Antes dele, Gabriela Mistral já havia recebido a honraria.</p>
<p>Gabriela está nas notas novas de 5 mil pesos. Neruda não figura nas notas, mas está, como Gabriela, presente em diversos lugares da cidade, em estátuas, citações em placas, com suas obras em destaque em todas as muitas livrarias.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Santiago inspira a alma. E seca a pele</strong></p>
<p>Li estas mal traçadas acima para Mary, depois de dizer que estava achando o texto um tanto bobão, um tanto porcamente metido a besta. Mary me replicou com o seguinte: Bem, talvez o ar de Santiago, além de secar a pele, inspire a alma.</p>
<p>Ela tem razão: Santiago inspira a alma. E seca a pele. Não se deve ir a Santiago sem creme hidratante.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Dois casais de santiaguinos no momento mágico da conquista</strong></p>
<p>Por puro golpe de sorte, pude ver, no meio dos batalhões de turistas, dois casais de santiaguinos no momento do encantamento maior, o momento da conquista.</p>
<p>O primeiro casal era de jovens muito jovens. Ela era linda, de cabelos louros, grandes, cuidadíssimos, umas quatro horas do dia dedicados a cuidar deles; parecia ter 17 – ah, volver a los diecisiete sin ser sabio competente –, nunca mais que 20 anos. Ele parecia ter uns 22, no máximo 23, com aquela barbinha de estudante que quer parecer intelectual. Era obviamente o primeiro encontro a sós, a primeira vez que saíam juntos. Tentavam se impressionar, ele a ela e ela a ele, como fazem todos os jovens do mundo quando saem pela primeira vez, como fazem todos os casais do mundo no primeiro encontro. Pediram uma tábua de queijos e frios, e um vinho. A moça falava muito mais do que o rapaz. Não ouvi o que eles diziam, mas percebi que ela falava mais para que ele não se sentisse mal com o eventual silêncio que pode surgir num primeiro encontro. Achei que ela estava muito mais fascinadinha por ele do que ele por ela, mas a verdade é que possivelmente ele estava apenas sendo bobo, idiota, homem: emquanto ela se esforçava por conquistá-lo, ele só pensava no momento em que poderia enfim comê-la, e então não conseguia dizer muita coisa.</p>
<p>Será que a lourinha linda conseguiu comer o garoto bobo?</p>
<p>Jamais saberei.</p>
<p>Muito pior era a situação do cara que marcou encontro com a moça no Astrid y Gastón, restaurante chique, carésimo, badalado, da moda, seguramente para impressionar, para parecer rico e fino - e a moça não chegava. Era um sujeito aí de uns 30, 35 anos, sozinho de tudo, em uma bela mesa, muito possivelmente reservada com uma semana de antecedência, ou mais; à esquerda dele, havia uma longa mesa para umas 12 pessoas, uma grande reunião familiar de brasileiros e chilenos; diante dele, num corredor, estava um casal de brasileiros – Mary e eu, eu de frente para Mary e para ele. Me sentia desconfortável naquele lugar metido a besta, fresco, veado – mas via que o rapaz estava pior. Aí tocou o celular dele – e ele atendeu à chamada como se naquele momento sua vida estivesse sendo salva. Brinquei com Mary que a amante do moço estaria tentando dizer que o marido tinha voltado de viagem, e ela não poderia ir – mas a novela que criei na cabeça era errada. A moça estava chegando, tinha se perdido, demorado a achar o lugar, mas estava chegando, estava lá. E era seguramente um dos primeiros encontros, o encontro da conquista. Sentaram-se – ele a deixou escolher onde ficar, ela quis a cadeira diante de onde ele já estava, e assim continuei vendo a cara dele, fazendo charme para a moça, cada vez mais feliz, a voz cada vez mais entusiasmada, mais alta,  embora, é claro, não tão alta quanto a de qualquer turista brasileiro.</p>
<p>Jamais saberei, é claro, se o ansioso rapaz terá conseguido comer a moça que se atrasou para o encontro no restaurante chique e fresco. Mas imagino que o encontro na cama não tenha acontecido naquele dia. Era o início de um namoro de pessoas de uns 30 e tantos anos. Não sei, jamais saberei – mas quero crer que o casal jovem terá se comido antes que o casal trintão. Os jovens são mais rápidos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma metrópole que mantém vivo e vibrante o seu Centro</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4869" title="zSantiago 3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-3.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>A região metropolitana de Santiago tem hoje cerca de 6 milhões de habitantes, num país de 15 uns milhões. A conta é óbvia: de cada três chilenos, um vive na capital. Mais impressionante que isso, aqui perto, só o Uruguai, onde nada menos da metade dos habitantes vive na capital.</p>
<p>Toda Santiago, com suas 37 comunas, tem, assim, pouco mais da metade de habitantes da cidade que escolhi para viver. A Grande São Paulo está aí com uns 20 milhões de habitantes, mas, creio, as comparações devem ser feitas entre a Grande Santiago e o município de São Paulo – a Grande Santiago, com suas 37 comunas, é uma coisa só, toda integrada, enquanto os municípios da região metropolitana de São Paulo são cada um uma entidade própria: São Paulo é São Paulo, Santo André é outra coisa, Guarulhos é outra coisa, Osasco é outra coisa, e assim por diante.</p>
<p>Santiago dá dez a zero em São Paulo em diversos, diversos itens, pequenos e grandes, minudências e macro-marcos.</p>
<p>O ponto macro mais macro, mais marcante: Santiago tem um Centro, enquanto nós, nas últimas quatro décadas, abandonamos o nosso, deixamos que o nosso fosse esvaziado, vilipendiado, miserizado.</p>
<p>O povo de Santiago vai às ruas do Centro e das proximidades do Centro – assim como vai às ruas dos diversos bairros. (As comunas, na verdade, na prática, são como bairros de uma mesma cidade.)</p>
<p>O povo de Santiago, aliás, adora ir às ruas. As ruas estão sempre cheias – durante o dia e à noite. Sim, há carros, há congestionamentos, há um extraordinário serviço de ônibus, há uma bela rede de Metrô, perdon, de Métro, mas as ruas estão sempre cheias. Há vida nas ruas, e não apenas dentro dos restaurantes, lojas, shoppings.</p>
<p>La Plaza de Armas – a Praça da Sé deles – continua sendo hoje o que sempre foi (e ela foi uma das primeiras coisas a ser definidas a partir da fundação de Santiago, em 1541, 13 anos antes de Anchieta e Nóbrega fundarem São Paulo): o centro do Centro, o coração, o epicentro da metrópole. Está sempre cheia, nos dias úteis como nos fins de semana – cheia, populosa, vibrante. Grupos e pessoas se apresentam, fazem performances – e como há performáticos em Santiago. Há contadores de histórias, malabaristas, músicos de todos os tipos – e ao redor deles se fazem grandes rodas de gente. Em uma única tarde, havia uma cantora brega, deficiente física, com discos gravados, e num outro canto, uma pequena orquestra de dez jovens (violinos, violoncelos, e um fagote!) apresentando o Canon de Pachelbel, com alguma maestria. Numa das extremidades da praça, sob um grande coreto, há diversas mesas em que velhinhos disputam partidas de xadrez, observados por passantes, curiosos. Manifestantes de todos os credos fazem discursos ali.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O Metrô deles é quase o dobro do de São Paulo</strong></p>
<p>Ah, sim, o Metro.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zmetro2.png"><img class="alignleft size-medium wp-image-4877" title="zmetro" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zmetro2-285x300.png" alt="" width="285" height="300" /></a>O Metrô de São Paulo, a maior cidade do país que hoje tem mais de 180 milhões de habitantes e é uma das dez maiores economias do mundo, foi inaugurado em meados dos anos 1970. Tem hoje cinco linhas, 61 estações, 70 km de trilhos. O Metro de Santiago começou a ser construído na mesma época, e tem cinco linhas, mas com 108 estações e 103 km. O de São Paulo tem, neste primeiro semestre de 2011, quatro estações em que se pode trocar de linha; Santiago tem o dobro exato: são oito estações de integração – ou combinación, como eles dizem.</p>
<p>Esses números são impressionantes demais. Se a gente parar um pouco para pensar, é de dar muita vergonha. O Chile é um país muito menor, com uma população 12 vezes  menor que o Brasil. Só o Estado de São Paulo, com 41 milhões de habitantes, tem 2,7 vezes a população do Chile inteiro. O Brasil, e o Estado de São Paulo sozinho, têm economia maior que a chilena. Começamos a construir o Metrô de São Paulo na mesma época que eles – e eles têm quase o dobro de estações que São Paulo.</p>
<p>É de dar muita vergonha. Mas não é só.</p>
<p>Santiago tem sinais de trânsito que avisam aos pedestres quanto tempo falta para ficar vermelho. São Paulo ainda não tem isso, em 2011.</p>
<p>Nos cruzamentos em que os carros podem virar à esquerda, não há sinais de trânsito trifásicos: os carros esperam que os pedestres cruzem as ruas. É um dado da realidade &#8211; se há pedestres, os carros param -, e pronto. É civilização.</p>
<p>Há muitos estacionamentos subterrâneos, muitos, às dezenas. E são subterrâneos os fios em boa parte da cidade, outro sinal de civilização. Em São Paulo não se pode fazer belas fotos de casas ou árvores porque há sempre um monte de fios atulhando a vista.</p>
<p>Santiago é uma cidade limpa. Que competência tem o serviço de limpeza! Na quinta-feira do grande protesto estudantil, dia 30 de junho, 80 mil manifestantes nas ruas segundo os órgãos oficiais, 200 mil segundo os organizadores, vimos o trabalho de limpeza na Alameda: um exército de varredores, ajudado por máquinas, avançou, triunfou – poucas horas depois da marcha dos meninos, da ação de alguns vândalos que quebraram vidros de bancos, lojas, e do ataque feroz dos carabineros, com bombas de gás lacrimogêneo e jatos de água gelada, o chão da Alameda estava limpo, perfeito, impecável.</p>
<p>As calçadas são lisas, sem buracos, sem remendos visíveis. É de dar vergonha aos paulistanos, os de nascimento e os por opção. Mary reparou, assim que voltávamos para casa, como os passeios de Perdizes (e Perdizes é, inegavelmente, um área nobre de São Paulo) são feios, esburacados, cheios de remendos, sem uniformidade, cada qual de um jeito. Um horror.</p>
<p>Os de Santiago são impecáveis.</p>
<p>Os canteiros centrais das avenidas, os espaços nas praças são cheios de flores.</p>
<p>E como há praças. Há parques gigantescos, grandes praças, plazuelas, plazuelitas – bem cuidadas, limpas.</p>
<p>Há bancos nas ruas para que os pedestres sentem e descansem. Há bancos em todos os lugares.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Edificações das primeiras décadas do século passado e prédios moderníssimos</strong></p>
<p>Ao contrário do que acontece em São Paulo, onde sobram muito poucos prédios do século XIX, ou do início do XX, em Santiago o novo convive com o velho. Há grandes edificações das primeiras décadas do século XX, não só na região mais central, como também em bairros mais afastados, convivendo em harmonia com edifícios mais recentes, alguns meio bocós, aquelas pilhas de vidro de cima abaixo, mas muitos de uma arquitetura moderna mas de bom gosto, extremamente arrojados. Não é à toa que chamam parte da cidade de Sanhattan.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4865" title="zSantiago 1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-1.jpg" alt="" width="608" height="456" /></a>Na Plaza de Armas, por exemplo, construiu-se um desses prédios modernosos, imensos, gigantescos, entre a belíssima e antiquíssima Catedral, de 1789, e o prédio histórico do Correio central, de 1882 – não é à toa que virou cartão postal obrigatório a convivência física ali da modernidade com a tradição.</p>
<p>O novo convive com o velho também na paisagem humana. Mary se impressionou muito com as hordas de jovens presentes nas ruas, nas praças, e, afinal, passamos lá uma semana em que os jovens – os estudantes secundaristas e os universitários – estavam no auge de suas manifestações (me gustan los estudiantes, dizia um cartaz escrito à mão diante do prédio do Universidad de Chile, na Alameda, lembrando Violeta Parra). Mas há gente madura e velhos em tudo quanto é lugar também.</p>
<p>Assim como há crianças – e, mi Diós del cielo y también de la tierra, como há playgrounds para crianças em Santiago. Muitos, muitos, e com equipamentos bem construídos, dando impressão de imensa segurança, e com um design inventivo, coloridos, atraentes. Os brinquedos da Plaza Brasil, no barrio Brasil, afastado dos lugares que atraem turistas, são esculturas, obras de arte. (<em>Há uma foto de um deles mais abaixo.</em>)</p>
<p>Há gente de todas as idades, aos magotes, em todos os lugares.</p>
<p>Até os malabaristas de Santiago dão de dez a zero nos de São Paulo. Aqui, nos cruzamentos, vemos garotos muito pobres tentando ganhar uns trocados jogando para o ar duas ou três bolas. Numa esquina na entrada do bairro Bellavista, por exemplo, vimos um trio de jovens fazendo malabarismos dignos de um bom circo, jogando a garota da trinca para o alto e a aparando de volta como um bom goleiro posando para fotos num treino.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um senhor de bem mais de 60 anos, lanterninha de cinema</strong></p>
<p>No coração da cidade cheia de jovens, Santiago mantém uma tradição espetacular, fantástica: o lanterninha de cinema. O lanterninha do El Biógrafo, no charmosíssimo bairro de Lastarrias, é um senhor de bem mais de 60 anos; veste-se de terno e gravata, com elegância. Leva os espectadores até suas cadeiras, mesmo quando as luzes ainda estão acesas – os ingressos são numerados, como nos teatros. E aqui há um detalhe interessante: ao contrário do que acontece no resto do mundo, que eu saiba, a fila A é a mais distante da tela, e não a mais próxima.</p>
<p>Imbecil, este turista aqui não reparou que os serviços do lanterninha são recompensados com gorjetas; atenta, Mary notou que as pessoas passam para o lanterninha algumas moedas com a maior discrição, quase imperceptivelmente. É claro que, ao me dar conta do erro, me levantei e fui até o lanterninha para entregar-lhe duas moedas. Ele se mostrou surpreso: certamente imaginou que o turista iria fazer uma pergunta, um pedido. Agradeceu com um sorriso polido.</p>
<p>Naquela sessão, a das 19h30 de uma quinta-feira, exibindo um filme italiano recente, <em>Cosa Voglio di Più, </em>no Brasil <em>Que Mais Posso Querer</em> (apresentado lá com o título original, sem tradução para o espanhol), só ficaram cheias as últimas fileiras, as marcadas com as letras de A até D. Os espectadores eram pessoas maduras; boa parte tinha mais de 50 anos. O cine El Biógrafo exibia, alternadamente, uma sessão de <em>Cosa Voglio di Più</em> e uma sessão do penúltimo Woody Allen, <em>Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Fuma-se, em Santiago. Santiago respeita a noção de que cada um é dono de seus pulmões</strong></p>
<p>Em Santiago, se fuma. E muito.</p>
<p>Eis aí um tema polêmico. Muita gente poderá dizer que acolher bem os fumantes, em pleno ano da graça (ou seria da desgraça?) de 2011, é uma prova de atraso, subdesenvolvimento. Seguindo o exemplo de tantas metrópoles do Primeiro Mundo, São Paulo baniu o fumo dentro de todas as edificações. Nova York está proibindo o fumo até mesmo nas áreas ao ar livre, nos parques.</p>
<p>Não quero entrar na polêmica agora, até porque já deixei claro de que lado estou nela <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-que-seria-do-cinema-se-fosse-proibido-fumar/">em outros textos publicados aqui</a>; dá imensa preguiça, e há muito o que escrever sobre Santiago, e então vou em frente.</p>
<p>Santiago põe em prática a noção de que cada um escolhe o que quer, de que as pessoas são donas de seus narizes (e pulmões), não precisam ser tuteladas pelo Estado Pai que se outorga o direito de saber melhor que elas o que é bom, é certo, é direito, e então fuma-se em Santiago nos bares, nos restaurantes, do mesmo jeito que nas praças e nas ruas.</p>
<p>Há bares e restaurantes – dos mais simples e dos mais finos – que mantêm áreas isoladas para fumantes e não-fumantes. Há outros em que simplesmente se fuma; quem não quiser fumar ou sentir o cheio de cigarro que procure a sua turma.</p>
<p>No Patio Bellavista – um grande shopping plano e ao ar livre, com pequenas lojinhas e diversos tipos de bares e restaurantes, inaugurado há poucos anos –, por exemplo, o simpático francês Le Fournil tem boas mesas para fumantes na área externa. Fazia frio (durante nossa semana lá, a temperatura, nos lugares e horários em que andamos, oscilou entre uns 3 e 12 graus), mas havia aquecedores; acabamos saindo da área externa para nos refugiarmos na interna, não fumante, para fugir da conversa em voz alta de duas brasileiras atrás de nós. (Lá dentro, felizmente, ouvimos espanhol, inglês e até japonês, mas nada de português.)</p>
<p>Na saída do Le Fournil, fomos atraídos pela música que saía de um bar. Uma dupla se apresentava no palco: um sujeito de uns 40, 45 anos, de cabelo grande e barba grisalhos, cantava e tocava violão; a seu lado, um senhor de uns 60 anos ou mais tocava acordeão. Não bandoneón – acordeão, mesmo. E tocava uma música do Inti-Illimani! Não tinha como não entrar, e entramos – e todo o ambiente, fechado, era, como eles dizem, fumador. (Será que se escreve humador? Não sei.) Fumava-se em todas as mesas, enquanto o duo tocava músicas dos mais diversos países – a cubana “Siboney”, por exemplo, e até uma grega, muito provavelmente de Teodorakis – ou seria de Hadjidakis?</p>
<p>Música é tema obrigatório. Terei que voltar a ele.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-102.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4897" title="zSantiago 10" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-102.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>Ainda o fumo. Diante do já citado cine El Biographo, pertinho da Plaza Mulato Gil de Castro (<em>na foto</em>), onde fica o Mavi, Museo de Artes Visuales, topamos com um bar-restaurante simpático, descolado, onde, bem na entrada, um grupo de umas seis ou sete santiaguinas confraternizava tomando as primeiras do início de noite. Perguntamos à garçonete, bela, simpática, se havia espaço fumador, e ela respondeu que todo o lugar era fumador.</p>
<p>Na noite seguinte, voltamos à mesma Calle José Victorino Lastarria, para jantar no maior, mais austero, mais sisudo Gatopardo (com um t só, diferentemente do italiano). Austero e sisudo em termos, porque abrigava grandes e falantes grupos de chilenos aí entre os 25 e os 35 anos, na sua área fumante; na área não fumante, a predominância era de pessoas mais velhas, de gente madura, aí na faixa dos 40, e vários casais e grupos de mais de 60.</p>
<p>O que é interessante: mais jovens fumando, mais velhos não fumando. Claro que não se pode generalizar, tomar toda Santiago pelo restaurante Gatopardo, e dizer que os jovens fumam mais que os mais velhos, mas o fato inconteste é que muitos jovens fumam – nos restaurantes, nos bares, nas ruas, namorando, ou participando das passeatas, manifestações e enfrentamentos com os Carabineros de Chile.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Faz muito frio, e os santiguinos se encapotam como se estivessem na Finlândia</strong></p>
<p>Em Santiago faz frio.</p>
<p>Nesta semana em que estivemos lá, início de inverno, neve na cordilheira, a máxima, segundo os boletins meteorológicos da TV e dos jornais, não passou de 18 graus, com a mínima chegando a 0. É bem mais frio que Buenos Aires; as duas capitais são paralelas, em termos de latitude (a de Santiago é 33 graus Sul, a de Buenos Aires, 34); mas Buenos Aires está no nível do mar, e Santiago fica a uns 560 (na região central), quase 600 metros de altitude (na parte mais alta, a Leste, mais perto ainda da cordilheira).</p>
<p>Então faz frio, e faz frio durante um bom tempo, desde junho até setembro, segundo nos frisaram duas santiaguinas bonitas, sorridentes, aí na faixa dos 35 anos, que seis meses atrás abriram uma cafeteria simples e simpática, Les Amis, na Avenida Apoquindo, perto da Estación Manquehue, a terceira mais próxima da cordilheira, na linha 1 do Metro, a vermelha, que corta a cidade de Leste a Oeste. Segundo elas, os moradores da cidade não saem de casa sem consultar a previsão de tempo; a meteorologia é um hobby, uma mania, uma necessidade, para os santiaguinos.</p>
<p>Isso foi o que disseram as moças. O que Mary e eu vimos é que aquele povo exagera nos agasalhos. Pela quantidade e qualidade de sobretudos, casacos, botas, cachecóis, echarpes, chapéus, bonés e luvas que usam, parece que estamos na Finlândia, ou na Suécia; bem, nunca estive lá, mas posso imaginar o frio, e o fato é que os santiaguinos saem de casa vestidos para enfrentar o mais gélido inverno nórdico.</p>
<p>Há atores que over act; o povo de Santiago se over dress, se posso dizer assim.</p>
<p>E o fascinante é que muitos não tiram os sobretudos, casacos, chapéus, cachecóis, echarpes, luvas, quando entram em ambientes fechados e aquecidos.</p>
<p>Paradoxalmente, no entanto, eles adoram sorvete.</p>
<p>Vendem-se mais helados durante uma hora em um bairro de Santiago do que durante uma década inteira em Teresina, o lugar mais insuportavelmente quente em que já pus os pés. Os santiaguinos tomam helados nas helaterias e também nas ruas. Aos bandos, em grupos pequenos, os casais, pessoas sozinhas. É outro esporte nacional.</p>
<p>Talvez eles usem o frio como exibição de maior civilização que os demais latino-americanos. Sei lá eu.</p>
<p>Mas a verdade que, embora muito bem agasalhados, Mary e eu passamos frio em vários momentos, como, em especial, quando fomos passear no imenso Parque Quinta Nacional e depois à saída do extraordinário, maravilhoso, emocionante Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, pertinho do parque, no único dia que pegamos de chuva.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Os Andes cobram seu preço, e a cidade fica permanentemente sob o smog</strong></p>
<p>A chuva, como nos lembrou a sorridente, bem-humorada gari no parque, perto de outro grande Museo, o de Historia Natural, é necessária, por causa do ar. Claro, também por causa das plantas, e do abastecimento de água, mas principalmente por causa do ar.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-8.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4889" title="zSantiago 8" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-8.jpg" alt="" width="620" height="412" /></a>Santiago tem o ar extremamente seco; nunca venta muito, e não se dispersa a poluição, por causa da localização da cidade, muito próxima à gigantesca cordilheira; o vento que vem do Pacífico esbarra nos Andes, e acaba, e então há o smog.</p>
<p>Há muitos anos não ouvia a palavra, que, me lembro, era muito usada em referência a Londres e Los Angeles. Em São Paulo, para os dias em que a poluição fica pior, se usa a expressão inversão térmica. Mary, que sempre se cobra quando percebe que ainda não sabia determinada coisa, se cobrou por jamais ter ouvido falar que Santiago é coberta por smog – a mistura de smoke com fog, poluição e neblina.</p>
<p>O smog fica pior no inverno, porque no inverno a neblina é mais densa, mas ele cobre Santiago sempre, o ano inteiro.</p>
<p>A camada de resíduos poluentes forma como um tapete espesso no céu, um tapetão cinza escuro, conforme bem mostra o clichê acima, tomado no Cerro San Cristóbal. (Claro que não se trata de um clichê, mas a vida inteira quis fazer uma legenda de foto como as que se faziam no passado distante, sempre começando com &#8220;no clichê acima&#8221;, e então aproveitei.)</p>
<p>Quando se sobe ao Cerro Santa Lucia, um morro encravado na área central, junto do barrio Lastarria, e quando se vai até o cume do Cerro San Cristóbal, o da Immaculada Concepción, muitíssimo mais alto (o primeiro seria assim uma espécie de Morro da Urca para o Rio de Janeiro, e o segundo, assim como o Corcovado), se vê mais o smog do que propriamente a cidade. Vê-se a cidade, sim, é claro – e os dois passeios aos cerros, o Santa Lucia e o San Cristóbal, são absolutamente obrigatórios, em qualquer época do ano –, mas vê-se a cidade através do smog.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/San-255.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-4907" title="San 255" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/San-255-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Do cume do San Cristóbal, aos pés da estátua da Virgem que foi abençoada pelo Papa João Paulo II em sua viagem ao Chile em 1987, tem-se uma visão deslumbrante de Santiago, a imensidão a perder de vista (a cidade que não tem mais fim, não tem mais fim, como na canção), a planura, as grandes, largas, amplas avenidas, os gigantescos prédios mais novos, os prédios mais antigos – mas vê-se tudo através do smog.</p>
<p>Lá do alto, tem-se também uma visão de tirar o fôlego da cordilheira, a Leste. O topo da cordilheira, coberto de neve, está acima do tapete de ar sujo. Entre o topo da cordilheira e a cidade que não tem mais fim aos pés dela fica aquela interminável mancha cinza.</p>
<p>Pegamos chuva na quarta-feira, chuva ruim para os turistas, abençoada para a cidade, porque limpia el aire – mas no mesmo dia o <em>La Tercera</em> noticiava que “condiciones de ventilación empeorarán en el fin de semana”. “Pese a que durante la tarde de hoy deberían caer precipitaciones en la capital, la lluvia no será suficiente para mejorar las condiciones de ventilación de la cuenca”, informava o jornal. Tanto os jornais de papel quanto os da TV falavam muito das doenças respiratórias, dos problemas causados pelas condições do ar.</p>
<p>É um problema sério, grave, este, da falta de ventilação na cidade, da qualidade ruim do ar. As autoridades fazem o possível para diminuir seus efeitos: o rodízio de carros é rígido &#8211; a cada dia se proíbe a circulação de veículos com quatro diferentes finais de placa -, e há diversas outras medidas para tentar reduzir a poluição. Pode-se amenizar um pouco o problema, mas solução de fato não há – são as condições geográficas e climáticas que o criam.</p>
<p>Santiago paga um preço alto por estar aos pés da beleza extraordinária da cordilheira.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Há dias em que a neblina rouba a cordilheira</strong></p>
<p>E às vezes a cordilheira some.</p>
<p>Os Andes estavam deslumbrantes nos três primeiros dias da nossa viagem, do sábado, 25 de junho, até a segunda, 27. Na terça, 28, e na quarta, 29, o dia da chuva, era como se tivessem roubado a cordilheira. A neblina espessa simplesmente impede que se vejam aquelas montanhas colossais.</p>
<p>Pensávamos muito em Fernanda e Carlos, que estiveram em Santiago algumas semanas antes de nós, e pegaram todos os dias de muita neblina. (A rigor, foi o fato de ter ouvido minha filha falar da viagem dela, contar de quanto tinha gostado de Santiago, que me fez admitir a possibilidade de fazer a viagem. Há muito Mary sugeria que fôssemos; tinha muita vontade de conhecer o Chile, e sabe bem da minha admiração pelo país, por sua história, sua música, pela cidade, que visitei numa outra encadernação, quando tinha apenas 23 anos, e volta e meia acenava com a possibilidade – afinal, não é tão longe, são só quatro horas. O problema é que Mary tem rodinhas nos pés, e eu tenho nos pés bolas de ferro de prisioneiro medieval, uma imobilidade que se aproxima da agorafobia. Mas fazia tanto tempo que não dava a Mary o prazer de viajar com ela que, quando Fernanda contou sobre a viagem dela ao Chile, admiti fazer o sacrifício.)</p>
<p>Fernanda e Carlos não tiveram tanta sorte, não viram a cordilheira como Mary e eu vimos. Mas Fernanda é jovem, vai certamente voltar. Mary também é jovem – durante a viagem, falamos muito em planos de ela voltar com a mãe, outro ser dotado de rodinhas nos pés.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4881" title="zSantiago 4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-4.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>Depois de sumir por dois dias e meio, a cordilheira reapareceu, e pudemos vê-la do alto do Cerro San Cristóbal, das margens do Mapocho, do Museu de las Esculturas, da Apoquindo, e depois, no último dia, do lugar mais próximo a ela a que chegamos, Los Dominicos, onde ficam a estação de mesmo nome (a mais oriental da linha 1, a vermelha, do Metro), a igreja colonial dos dominicanos, linda, e o Pueblito (<em>na foto, um trechinho dele</em>), uma reconstituição de um típico povoado chileno do século XIX, com ruelinhas e pracinhas e casinhas, um gelado córrego no meio com água vinda da nascente ali perto na cordilheira; ali funcionam 150 lojas de artesanato.</p>
<p>O Pueblito Los Dominicos, construído nos anos 70 junto da igreja dos dominicanos, é lindo, fascinante, e seguramente deixa encantados todas os brasileiros que o visitam (havia muitos brasileiros enquanto estávamos lá), não só pela beleza, e pela proximidade da cordilheira, mas também porque tem todo tipo de lembrancinha ou lembrançona que pode ser trazido de volta para os amigos e parentes. Adorei ter ido até lá, ter andado nas ruazinhas, mas já estava na angústia pré-aeroporto, só tínhamos na carteira os pesos contados para o táxi do hotel até o aeroporto, e nosso instinto comprador, de qualquer forma, estava fechado, e assim não compramos absolutamente nada de nenhuma das 150 lojas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-meias-1.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4879" title="zSantiago meias 1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-meias-1.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>E, na nossa última viagem de Metro, de Los Dominicos até Manquehue (em que aproveitei para fotografar uns painéis publicitários de meias de mulher, que desde o primeiro dia me fascinaram pela forte, explícita sensualidade), houve uma coincidência sensacional: nossa tarjeta Bip – o equivalente ao Bilhete Único do Metrô paulistano – zerou. Não sobraram sequer dez pesos, não faltaram dez pesos: zerou. Um acaso fortuito, porque as tarifas do Metro são variáveis, mais caras nas horas de rush, mais baratas à noite. Na próxima ida a Santiago, Mary poderá usar a nossa tarjeta Bip, sem precisar pagar pelo custo de uma nova, que é de 1.300 pesos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Há uma formulazinha que ajuda a entender quantos pesos equivalem a tantos reais</strong></p>
<p>1.300 pesos, aliás, é uma merreca. Atualmente, há uma conta simples a se fazer para entender os preços chilenos. Multiplica-se cada 1 mil pesos por quatro, e dá, mais ou menos, o equivalente em reais. Assim: 10 mil pesos (o preço médio de um CD, ou de um prato em restaurante razoável ou bom) são R$ 40,00. Uma corrida curta de táxi de 2 mil pesos significa R$ 8,00.</p>
<p>Ou então, para fazer a conversão por dólar, basta multiplicar 1 mil pesos por 2. Um DVD de 12 mil pesos, assim, dá mais ou menos US$ 24,00. Ou R$ 48,00. Um bom guia-livro turístico de Santiago, que custa 6 mil pesos, dá cerca de US$ 12,00, ou R$ 24,00.</p>
<p>Câmbio sempre me deixa zonzo. Não me entra pela cabeça, não consigo compreender – jamais consegui, em época alguma.</p>
<p>Mas me lembro bem que, quando Guiminha e eu estivemos uns três ou quatro dias em Santiago, no final de fevereiro de 1973, na época do encerramento da campanha eleitoral para parte do Senado e para eleições municipais – as últimas que seriam realizadas no Chile antes do golpe militar de 11 de setembro que derrubou o governo socialista do presidente Salvador Allende –, a situação da moeda era completamente caótica. Havia um valor no câmbio oficial, e outro absoluta, totalmente diferente no câmbio negro. “Distribuir riqueza não é fácil”, nos disse um venerando jornalista mineiro que visitamos, e que estava exilado no Chile então democrático – não consigo me lembrar o nome dele, sujeito admirável, imensa figura. Seria José Maria Rabelo? Pode ser. Vou pedir a ajuda do Guiminha, talvez ele se lembre.</p>
<p>Esta é a segunda vez em que me refiro aqui àquela minha primeira visita a Santiago, em 1973. Lá no início do texto falei que esta agora foi minha primeira/segunda viagem ao Chile. É a segunda porque a rigor houve a primeira, aquela de uns poucos dias – viajamos no Fusca do Guiminha de São Paulo até Porto Alegre, depois Rio Grande, onde assistimos ao casamento do Fruet e da Vera, depois Montevidéu, depois Buenos Aires. Aí, embora não tivéssemos lá grande salário no <em>Jornal da Tarde</em>, jovens que éramos, sobrou um dinheirinho, e Guima, Esdra Guimarães do Carmo, grande, querida figura, teve a idéia de darmos um pulinho ao país de Allende.</p>
<p>Esta viagem agora foi de uma certa forma a primeira porque aquela lá, de 1973, foi muito curta, eu era jovem demais, aconteceu de fato numa outra encadernação.</p>
<p>Quero falar um pouco de política, do Chile de Allende e do Chile de hoje, das impressões do Sérgio Vaz comunista de 1973 e do Sérgio Vaz anti-comunista, anti-Estado onipotente de 2011, da movimentação dos estudantes de agora, do que dizem os jornais chilenos hoje do governo de direita de Sebastian Piñera, mas não cabe neste texto aqui. Será, se for para ser, num segundo texto, se eu conseguir, tiver fôlego para fazê-lo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Bem no coração do Centro, o Palácio La Moneda</strong></p>
<p>No Rio de Janeiro, até lá pelos anos 70, antes de inventarem essa coisa de Barra da Tijuca, a distinção era clara: a Zona Norte era a pobre, a Zona Sul era a rica. Em Santiago, a divisão se dá não de Norte para Sul, mas de Leste para Oeste</p>
<p>Os bairros ricos e novos ficam a Leste da área central: é a parte da cidade que os turistas ficam conhecendo. Os mapas turísticos são retangulares, horizontais, e pegam Santiago de um pouquinho a Oeste do Centro para Leste. Os mapinhas mais comuns, que se distribuem nos hotéis, cortam fora tudo o que está a Oeste da Estación Los Heroes da linha 1, a vermelha, a Leste-Oeste deles.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zmoneda.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4899" title="zmoneda" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zmoneda.jpg" alt="" width="560" height="343" /></a>Los Heroes é a primeira do lado esquerdo nos mapas, a Oeste, portanto, da Estación La Moneda – a que dá nas costas do palácio presidencial de La Moneda, o palácio que foi atacado e bombardeado em 11 de setembro de 1973, onde estava Salvador Allende e onde ele morreu. A Estación La Moneda, assim como diversas outras da linha 1, vermelha, fica sob a Alameda, a via principal, a mais larga do Centro – mas nos mapas não há uma Alameda.</p>
<p>O nome oficial da Alameda é Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, em homenagem ao político e militar que é tido como o pai da pátria, personagem fundamental na luta pela independência do Chile e primeiro chefe de Estado da então recém-implantada República de Chile, entre 1817 e 1823.</p>
<p>E aqui reconheço que, de tanta informação, o texto ficou confuso, ininteligível.</p>
<p>O fundamental é que a Alameda, ou Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, é a principal via do Centro, correndo no sentido Leste-Oeste. Sob ela passa a linha 1, a vermelha, do Metro.</p>
<p>Da Estación La Moneda se sai para a Alameda, bem atrás do Palácio La Moneda. Sob o amplo espaço entre a Alameda e o Palácio, no subsolo, se construiu, já na pós-ditadura, sob a presidência de Ricardo Lagos, o Centro Cultural Palacio La Moneda. Uma maravilha. Tem lá, entre outras coisas, uma cafeteria, uma sala dedicada à memória de Violeta Parra (aqui me pongo a cantar las Violetas Populares, cantava Amelita Baltar), uma livraria, a cinemateca nacional, lojas, amplíssimo espaço para exposições temporárias, o escambau. Do outro lado do Palácio fica a Plaza de la Constituición, de onde se vê a fachada do La Moneda, a fachada que pegou fogo, bombardeada pelos carabineros e pela Força Aérea no dia do golpe (<em>a fachada está na foto acima, a única que está neste post que não foi feita por Mary ou por mim</em>).</p>
<p>É impossível andar por qualquer praça de Santiago sem lembrar da canção emocionante de Pablo Milanés, composta durante a ditadura: <em>Yo pisaré las calles nuevamente / de lo que fue Santiago ensangrentada, / y en una hermosa plaza liberada / me detendré a llorar por los ausentes. (&#8230;) Un niño jugará en una alameda / y cantará con sus amigos nuevos, / y ese canto será el canto del suelo / a una vida segada en La Moneda.</em></p>
<p>Mas ali, na Plaza de la Constituición, entre Teatrinos e Morande, entre Agustinas e Moneda, de frente para a fachada do palácio, onde a vida de Allende foi segada, a lembrança da canção faz doer.</p>
<p>Num canto da praça, próximo do belo prédio da Intendência, junto da esquina de Morande com Moneda (<em>na foto abaixo</em>), há hoje uma estátua de Allende.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um turista babaca seguro demais – e lá veio o lanceiro</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zplaza2.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4904" title="zplaza" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zplaza2-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Não temos as muitas fotos que fizemos no primeiro dia da viagem, o sábado, 25 de junho, da Plaza de la Constituición, da fachada do La Moneda, da estátua de Allende, do Centro Cultural Palacio La Moneda, e também da Catedral, da Plaza de Armas, do Mercado Central. Guardamos apenas umas poucas feitas por Mary no iPhone. Minha máquina foi roubada diante do Mercado, na ponte de pedestres sobre o Mapocho, na região da Estación Puente Cal y Canto da linha amarela.</p>
<p>Foi besteira minha. Completa besteira minha. Mea culpa, mea maxima culpa.</p>
<p>Me sentia seguro demais. A cidade transmite segurança. Os guias falam para ter cuidado com o pickpocket, o furto de carteira, como em qualquer lugar do mundo. E então eu me sentia seguro demais, tranquilíssimo. Milhares e milhares de pessoas na região central naquele sábado à tarde, tudo calmo, pacífico. A ponte para pedestres sobre o Mapocho é apinhada de vendedores ambulantes, camelôs. Lá bem atrás, ao fundo, o Mapocho na frente, estavam as cordilheiras. Saquei da bolsinha a Cyber-shot Sony que Fernanda e Carlos tinham me dado de presente de aniversário alguns anos atrás, e nem tomei o cuidado de botar a alça da máquina no pulso, braço adentro. Botei a máquina na minha frente, uns 30 centímetros adiante do meu nariz de turista imbecil, e me preparei para fotografar o Mapocho em primeiro plano e a cordilheira lá atrás.</p>
<p>Algumas cenas da vida passam em câmara lenta. Juro que tinha notado um sujeito à minha direita olhando para o casal de turistas. Até passei para a esquerda da Mary para fazer a foto histórica do Mapocho com a cordilheira atrás. E aí – zás.</p>
<p>Vi o camarada dar um primeiro pique rumo ao Norte. Vi ele olhar para trás, para ver se eu estaria correndo atrás dele. Vi ele dar uma segunda olhada para trás, antes de desaparecer no meio do povaréu. Não me mexi. Vi as expressões de dois dos ambulantes que vendiam suas coisas na ponte – Mary também viu. Expressões assim de tsc, tsc – uma tristeza daquelas pessoas humildes ao ver um marginal roubar turistas, coisa ruim para eles, que estão ali trabalhando, vendendo suas tralhas, ganhando honestamente seu pouco dinheiro.</p>
<p>Num milésimo de segundo, compreendi que tinha dado touca, tinha feito besteira, tinha dado sopa pro azar.</p>
<p>Mary tentaria argumentar que não teria adiantado eu ter botado a alça no pulso – teria sido pior, eu poderia ter me machucado.</p>
<p>Mary depois diria, com toda razão, que bom é quando nossa máquina fotográfica é roubada no primeiro dia de viagem. Tem toda razão. Mary tem razão mais ou menos em 99% das vezes.</p>
<p>Algumas horas depois, estávamos numa Paris, uma das grandes lojas de departamento do Chile, na Alameda, vendo os preços de máquinas fotográficas. Mary quase comprou uma. Eu disse pra gente pensar mais um pouco.</p>
<p>Compraríamos uma bela máquina no dia seguinte, num shopping da Apoquindo, perto do hotel. Uma bela Canonzinha, uma  compra acertada. Com ela faríamos boas fotos, ao longo dos seis dias seguintes.</p>
<p>Bom é quando nossa máquina fotográfica é roubada no primeiro dia de viagem.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Paris, os Parra, o Père Lachaise, Santiago – coincidências, coincidências</strong></p>
<p>Num milésimo de segundo após o roubo, na ponte para pedestres sobre o Mapocho, me lembrei do momento em que fui roubado <a href="http://50anosdetextos.com.br/2003/paris/">em Paris</a>. Lá foram dois caras: o metrô estava para sair da estação, eu estava de pé junto de uma das portas do vagão; um sujeito segurou meus pés, o outro enfiou a mão no bolso de trás da minha calça jeans e levou a carteira. A ação durou menos de dois segundos. Nos milésimos de segundo de tontura após a coisa, me diverti pensando que os dois malandros franceses iriam ficar putos da vida: a carteira tinha pouquíssimos euros e alguns reais guardados para o táxi de Cumbica até em casa.</p>
<p>Fantástico: fui roubado em Paris no metrô quando voltávamos de um show de Isabel e Angel Parra, num arrondissement bem distante, muito para lá do cemitério de Père Lachaise.</p>
<p>No filme italiano que vimos em Santiago de Chile, o Chile dos Parra, o marido da protagonista, um apaixonado por Jim Morrison, lê sobre o cemitério de Père Lachaise, onde Jim Morrison está enterrado.</p>
<p>Algumas horas após o roubo na ponte sobre o Mapocho, entraríamos numa das lojas da Paris para ver os preços de máquinas fotográficas.</p>
<p>Paris, os Parra, Père Lachaise, Santiago. Quanta coincidência.</p>
<p>Nas metrópoles há pickpockets.</p>
<p>Passear por Santiago é tão seguro quanto passear em Paris. Eventualmente, se você der sopa para o azar, podem roubar alguma coisa de você. Normal, normal: não tem problema algum.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As ruas de Santiago têm o som da música chilena</strong></p>
<p>Na <a href="http://50anosdetextos.com.br/2003/paris/">única vez em que estive em Paris</a>, e em que vi apenas dois shows, um de Georges Moustaki no legendário Olympia e outro dos irmãos Isabel e Angel Parra num bairro muito, muito distante, pude constatar que as ruas de Paris têm o som que sempre havia imaginado que Paris teria.</p>
<p>As ruas de Santiago têm o som da música chilena, que aprendi a amar quando tinha 20 e poucos anos, a rigor, a rigor, numa outra encadernação, anterior à atual.</p>
<p>É doido ouvir, na Plaza de Armas, um conjunto de dez jovens instrumentistas executarem o Canon de Pachelbel. Mas é de chorar, é realmente de chorar quando a gente passa diante de um bar fumador no Patio Bellavista e ouve dois instrumentistas tocando uma canção do Inti-Illimani, ou quando, na estação do funicular do Cerro San Cristóbal, um velhinho violeiro toca uma canção de Violeta, ou ainda quando, nas escadarias de uma das quatro saídas da Estación Manquehue, um solitário violonista toca outra música ainda do Inti-Illimani.</p>
<p>Sempre me impressionou muito o fato de que, em Buenos Aires, o lugar onde se criou o tango, uma música que se espalhou para todo o mundo, e encantou e encanta todo o mundo, da Europa Oriental a Hong Kong, passando por the U. S. of A., só se ouve tango em lugar para turista. Como se os porteños, metidos a besta como em geral são, considerassem o tango uma coisa brega. Como se tivessem vergonha do tango, como se não tivessem a capacidade de perceber que o tango foi a melhor coisa que a Argentina jamais produziu.</p>
<p>Em Santiago, muito ao contrário, ouve-se nas ruas o som das canções chilenas. Das canções folclóricas originais, que Violeta resgatou, que a nueva canción chilena do finalzinho dos anos 60 e início dos 70 reverenciou. Passadas a utopia e a euforia da Unidad Popular, passado o golpe, os longos, intermináveis anos da ditadura sangrenta, passados os governos da Concertación, o som da nueva canción chilena continua nas ruas de Santiago.</p>
<p>Meu comprador estava de fato fechado, e então comprei muito pouca coisa. Uma beleza de livro sobre Violeta, dois discos com gravações dela mesma, um de Isabel, dois de Inti-Illimani, um de tributo a Victor Jara. Do próprio Victor Jara, nem procurei: com o que eu mesmo sempre tive, e mais o que Geraldo e Eneida já haviam me trazido de uma viagem deles a Santiago, acho que tenho praticamente tudo do grande compositor.</p>
<p>(E achei ainda, na loja do Museo de los Derechos Humanos, um CD não oficial (para não dizer pirata) com a gravação ao vivo do show de Joan Baez no Auditório Santa Gemita, em Santiago, em 1981; foi na mesma passagem de Joan Baez pela América Latina em que <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/joan-baez-volume-2-a-ditadura-poe-o-brasil-em-seletissima-companhia/">a ditadura brasileira não permitiu que ela cantasse no Tuca</a>. O regime sangrento de Pinochet permitiu que ela se apresentasse no Chile; os milicos brasileiros, já na fase da abertura, proibiram. Cada coisa.)</p>
<p>Não me aventurei pelos músicos chilenos mais jovens, porque sou imbecil e porque estava de comprador fechado, mas vi que nos tributos há pelo menos uma faixa de Francisca Valenzuela, garota jovem, cantora e pianista, que aparece na TV hoje. Talvez encomende discos dela a Mary, para que me traga na próxima viagem dela ao Chile.</p>
<p>Sim, e é preciso também dizer, dentro do item música, que esqueceram de avisar para Santiago e os santiaguinos, assim como para <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/porto-alegre-uma-fascinante-cidade-onde-nao-vale-o-que-esta-escrito/">Porto Alegre</a>, que o CD acabou. Ao contrário do que acontece em São Paulo, em que as lojas de disco estão acabando, há um monte delas em Santiago. Um monte. Seriam desinformados, eles? Alheios ao mundo? O subitem loja de discos reaparece mais adiante.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um passeio por um bairro que não está nos mapas dos turistas</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/ZSantiago-7.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4887" title="ZSantiago 7" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/ZSantiago-7.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>É coisa demais para dizer, e me perdi um pouco, ou talvez bastante. Eu dizia, lá atrás, que os mapas turísticos mostram o lado Leste de Santiago, e não mostram o que há a Oeste do Centro. Pois é.</p>
<p>Tudo o que fica a Oeste da Estación Los Heroes não aparece nos mapas turísticos. Parece que isso se deve, ao menos em parte, ao fato de que, algumas décadas atrás, construíram a Norte-Sur, uma via expressa fenomenal para os carros, e mortal para os seres humanos. A linha amarela do Metro, que faz a rota Norte-Sul, em um bom trecho corre junto da via expressa. Muito legal – só que cortou a cidade. Ruas centrais no sentido Leste-Oeste, como Huerfanos, Agustinas, Moneda, prosseguem rumo ao Oeste – mas mudam completamente de feição a Oeste do corte provocado pela autopista Norte-Sur. Ficam mais abandonadas, mais pobres.</p>
<p>Fomos parar lá só porque Mary, especialista em viagens, em turismo, em mapas, em guias, viu que havia referências ao barrio Brazil, à Plaza Brasil, e Concha y Toro (<em>na foto acima</em>).</p>
<p>É difícil achar a tal da Concha y Toro, especialmente quando se vai lá um dia depois de ter sua máquina fotográfica roubada.</p>
<p>Diz sobre Concha y Toro o guia que Fernanda nos emprestou, um guiazinha meio chinfrim, editado pela Abril, na Coleção Viagem de Bolso (é muito difícil achar guias sobre Santiago no Brasil, e mesmo na própria Santiago): “Um conjunto de sobrados de fachadas neoclássicas e góticas, dispostos ao redor de uma charmosa pracinha. Declarado monumento histórico nacional em 1989, o bairro começou com um palácio mourisco de 3.500 metros quadrados, morada de Enrique Concha y Toro, irmão caçula de Don Melchor, o fundador da famosa vinícola.”</p>
<p>É de fato charmosíssimo esse pequeno lugar, Concha y Toro, com ruelinhas redondas numa cidade que é toda feita de quadrados, como tabuleiros de dama. Nas ruelinhas redondas há um monte de casas construídas no início do século XX, lindas, muitas precisando de um pintura, recuperação. Mas é difícil chegar até lá; não há indicações, setas, mapas. E, numa segunda-feira feriado (San Pedro y San Pablo para eles é feriado nacional), com todo o comércio fechado, o lugar fica estranho, vazio.</p>
<p>Parece que o Oeste é lugar de se viver; lá vivem os santiaguinos classe média média. Não é lugar para turistas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-6.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4885" title="zSantiago 6" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-6.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>A Plaza Brasil (<em>na foto, os brinquedos infantis no meio dela</em>), a cerca de, sei lá, cinco, seis quadras da Concha y Toro, é uma comprovação disso. Felizmente não há brasileiros ali, apesar do nome; só se ouve o espanhol chileno, famílias de classe média média com suas crianças, grupos de jovens, namorados. Fernando Henrique esteve lá, quando era presidente, conforme informa uma placa, e, num canto da praça, inaugurou uma homenagem a Vinicius de Moraes.</p>
<p>Uma das ruas que rodeiam, que formam a Plaza Brasil, chama-se Maturana. A Calle Maturana começa bem perto da Concha y Toro. Demorou muito para cair a ficha para nós que Calle Maturana é uma coisa, e Avenida Matucana é outra. Maturana, Matucana – e ainda por cima paralelas, na mesma região. Parecidas as palavras, diferentíssimos os endereços.</p>
<p>A Maturana é uma ruazinha. A Matucana é uma avenida imponente, que faz um dos limites do imenso Parque Quinta Normal, e que agora abriga o recente Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, inaugurado por Michelle Bachelet, que foi presidente entre 2006 e 2010.</p>
<p>E esse foi o máximo de Oeste a que fomos. Não tivemos tempo de ir mais a Oeste, nem mais a Sul; assim, não botamos os pés em Nuñoa, o bairro que fica ao Sul da Plaza Italia e que, dizem, é onde os modismos ainda não chegaram – é o bairro anti-turistas, o bairro que se mantém fiel ao estilo de vida original dos santiaguinos.</p>
<p>É em Nuñoa que fica o Estádio Nacional, onde o golpe militar prendeu dezenas de milhares de pessoas, onde Victor Jara escreveu suas últimas palavras, antes que os milicos cortassem suas mãos.</p>
<p>As últimas palavras que Victor Jara escreveu – e que Pete Seeger recita num disco dele ao vivo gravado pouco depois de 1973 – estão inscritas num imenso mural no lado de fora do Museo de la Memoria. Mas o tema história, política, isso é para um outro texto.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Paris-Londres, um pequeno oásias de ruas redondas no traçado de quadrados</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-0272.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-4873" title="zSantiago 027" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-0272-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Bem perto do La Moneda, e portanto do centro do Centro, junto da Alameda, fica um pequenino bairro que, como Concha y Toro, é diferente de todo o resto da cidade de traçado de quadras, de quadrados, à la tabuleiro de xadrez, por ter ruelinhas estreitas e em curva, redondas, onde há belas e antigas construções provavelmente aí dos ano 1930, 1940 – sobrados, ou então de três andares apenas. É onde se cruzam as Calles Londres e Paris. Há ali simpáticos hotéis pequenos, alguns restaurantes e bares, a sede do Partido Socialista que já foi de Allende e é da ex-presidente Michelle Bachelet, a sede de vários sindicatos, e muitos estudantes. Fica bem perto da Universidad de Chile e da Universidad Catolica.</p>
<p>Como é mais central, e não ficou do outro lado da autopista Norte-Sur, esse bairrozinho Paris-Londres tem muito mais vida que Concha y Toro, e os prédios estão muito mais bem cuidados. Gracinha de lugar. Em uma das calçadas, escreveram-se nas pedras os nomes de alguns dos muitos mortos pela ditadura. Chegamos lá já no finalzinho da tarde, mas deu para Mary fazer algumas fotos. (O Héctor da foto abaixo,  como se vê, tinha 18 anos, e era do MIR, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria, grupo radical que apoiava a Unidad Popular, a grande aliança que elegeu Salvador Allende.)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Mas a verdade é que são belos os bairros onde ficam os turistas</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSan-1171.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4892" title="zSan 117" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSan-1171-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Então, a região Leste é o pedaço que os turistas visitam, onde se hospedam, passeiam, comem, fazem compras. É o trecho onde vive boa parte da classe média mais para alta.</p>
<p>Parece que o avanço de Santiago rumo ao Leste, o lado da cordilheira, se deu a partir dos anos 1950. Para lá foram sendo criados os novos bairros, as novas comunas, ao longo da continuação da Alameda – as Avenidas Providência e 11 de Septiembre, que depois viram Apoquindo.</p>
<p>Na região Leste, o Mapocho, ao Norte desse corredor Providência-11 de Septiembre-Apoquindo, é cercado por parques, belos parques que fazem lembrar Paris.</p>
<p>São regiões belíssimas de se ver, de se percorrer. As avenidas são extremamente amplas, agradáveis, as ruas são belas, há muito comércio, diversificadíssimo, e em todo lugar há milhares e milhares de pessoas andando, caminhando, rindo, conversando, namorando – uma maravilhosa cidade que oferece mil opções para todos.</p>
<p>Num trechinho da Nueva de Lyon, por exemplo, depois do passeio pelo Museo de las Esculturas, um museu ao ar livre, entre árvores, à beira do Mapocho, tão recente que sequer o motorista de táxi conhecia (e ele era honesto, dos bons), demos de cara com uma baita, mas uma baita de uma loja de discos especializada em rock e seus subgêneros. Na vitrine frontal, na entrada, havia mais LPs do que DVDs ou CDs – LPs desses novos, esses de não sei quantos gramas, que até o Fábio De Domenico considera frescura, tudo caríssimo. Os recentíssimos relançamentos de Paul McCartney, sobre os quais tinha lido poucas semanas atrás, estavam todos lá. A seção de indies era de fazer inveja a uma loja da Virgin em Londres; havia muita coisa da décima quarta geração do pós punk inglês, mas, em compensação, não havia um único disco de música chilena próxima do tradicional; em espanhol, só rock bravo. Quem pedir um Victor Jara nessa loja corre o risco de levar porrada.</p>
<p>Entre a linha quase reta desse corredor Providência-11 de Septiembre-Apoquindo, com a linha 1, vermelha, do Metro por baixo, e o Mapocho ao Norte, há o que parece ser a região mais rica, fina e chique do comércio de Santiago. Esse trecho aí inclui uma trolha gigantesca, o que se promete ser o edifício mais alto da América do Sul, ainda em construção, e também a região das lojas chiques, de grife, as Louis Vitton da vida, nas Avenidas Vitacura e Alonso de Córdova. Não botamos os pés lá. Tudo bem que a gente não foi a Nuñoa porque faltou tempo – mas mesmo se tivéssemos tempo de sobra jamais iríamos ficar passeando pelas Oscar Freire de Santiago. Somos turistas, mas não somos bestas.</p>
<p>O mais perto que chegamos dessa parte da cidade, da região de Vitacura, foi quando fomos jantar no Nolita, na Avenida Isadora Goyenechea. Lugar bom, fino sem ser fresco, bonito, elegante sem ser veado, boa comida, ainda mais para quem pouco antes havia caído no conto do vigário do Astrid y Gastón.</p>
<p>Na saída do Nolita, no entanto, rara vez em que não usamos o Metro, fomos roubados pela segunda vez. Foi o golpe do motorista de táxi esperto. O prejuízo foi menor do que no roubo na área mais popular, que nos levou a Sony Cyber Shot. Foi de exatos 13 mil pesos – R$ 52,00, pelas contas simplificadas. Para o bolso, coisa de pouca monta. Para meu orgulho, meus brios, golpe pesado. Me senti um perfeito idiota. Mary tentou me consolar: o que a gente poderia fazer? Se reagíssemos, poderia haver violência. Consola um pouco, mas não resolve. Fui um perfeito idiota duas vezes, em Santiago: me expus a ter uns cobres roubados, e eles se aproveitaram, o ladrãozinho da área central e o ladrãozinho da região mais rica.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“El rio que yo más quiero”</strong></p>
<p>Por mais que eu queira continuar este texto, indefinidamente &#8211; assim como Mary queria continuar em Santiago, falando brincando mas na verdade muito a sério em alugar um apartamento, ali em Lasturrias, perto do Bellas Artes, do Parque Florestal, do Mapocho, em alguma coisa mais bela, mais feliz que este desgraçado país tomado de assalto pelo lulo-petismo-peemedebismo –, em alguma hora é preciso acabar.</p>
<p>Como diz a canção do grupo Rumo, em alguma hora tem que acabar.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-5.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4883" title="zSantiago 5" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zSantiago-5.jpg" alt="" width="620" height="465" /></a>Encaminho o fim do texto para o Mapocho, que está aí na foto &#8211; a calha gigantesca para a quantidade de água do inverno. (À direita está o Cerro San Cristóbal.)</p>
<p>Mary brincou com o Mapocho, riu do Mapocho. Corguinho de merda, disse ela, em mineirês autêntico. Filetinho d’água de merda, espécie de Arrudas.</p>
<p>(Ninguém é obrigado a saber, mas o Ribeirão Arrudas é o filete de água que atravessa Belo Horizonte. Quando chove, arrasa, destrói. Quando não chove – e, na imensa maior parte do tempo, não chove em Belo Horizonte –, o Arrudas é isso mesmo, um corguinho de merda.)</p>
<p>Não era uma ofensa, uma assertiva brava. Mary é sempre bem-humorada, brincalhona, frasista.</p>
<p>O Mapocho foi provavelmente a única coisa de Santiago da qual ela poderia rir, que ela poderia gozar.</p>
<p>Ao longo de uma semana de viagem, Mary comentou umas trocentas vezes que é de dar vergonha comparar São Paulo a Santiago, o Chile ao Brasil.</p>
<p>Então acho que não sobrou nada que ela pudesse condenar, criticar &#8211; ainda que brincalhonamente – a não ser o Mapocho.</p>
<p>Corrguinho de merda, dizia e repetia ela.</p>
<p>O Mapocho que vimos neste mês de junho, início de julho, é de fato uma coisa pequena dentro de uma calha imensa.</p>
<p>No passado, nas épocas do degelo da cordilheira, onde ele nasce, o Mapocho crescia tanto que assustava a cidade. Mesmo depois que abriram e aprofundaram sua calha, no degelo ele chegava a subir tanto que batia nas pontes.</p>
<p>Hoje em dia isso não acontece mais. Parece que fizeram espécies de piscinões para reter a água que vem da cordilheira, para que aquilo tudo a) não se perdesse, fosse aproveitado para o abastecimento; e b) não fosse embora toda no leito do rio, ameaçando a cidade.</p>
<p>Eu, euzinho (e Mary também, se for falar a sério), eu tenho o maior respeito pelo rio – riacho, arroio, creek, córrego, corguinho, seja lá o que for – Mapocho.</p>
<p>Lembro da canção belíssima: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=DKV1JVbp488">“El rio que yo más quiero&#8230;”</a></p>
<p>Santiago trata seu rio com imenso respeito. Como Paris faz com o Sena, como Londres faz com o Tâmisa. Ao contrário do que São Paulo faz com o rio dela.</p>
<p>Santiago trata seu rio e seus cidadãos com muito mais respeito do que São Paulo trata os dela.</p>
<p>O Mapocho cruza uma cidade que me faz ter vergonha da minha.</p>
<blockquote><p><em>Santiago e São Paulo, junho e julho de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Aventuras de um casal paulistano em L.A.</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 23:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Fala, Sérgio. Tenho novidades. Fomos pra Los Angeles novamente, estou repleto de novas historinhas maravilhosas! Assistimos ao show do James Taylor com a Carole King juntos no Santa Barbara Bowl. Um puuuuuta lugar ao céu de estrelas. Tudo super organizado, sem stress, nada parecido com Corintians e Palmeiras no Pacaembu. Fomos a uma casa de jazz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fala, Sérgio.</p>
<p>Tenho novidades. Fomos pra Los Angeles novamente, estou repleto de novas historinhas maravilhosas!<span id="more-2413"></span></p>
<p>Assistimos ao show do James Taylor com a Carole King juntos no Santa Barbara Bowl. Um puuuuuta lugar ao céu de estrelas. Tudo super organizado, sem stress, nada parecido com Corintians e Palmeiras no Pacaembu.</p>
<p>Fomos a uma casa de jazz em Fullerton, chamado Steamers Jazz Club, tipo o Bourbom Street, porém menor. Rola jazz as sete noites da semana, foi nota 10!</p>
<p>E essa vai pro seu blog&#8230; Olha só&#8230; Tíquetes comprados para o Tom Petty &amp; Heartbreakers com abertura do Joe Cocker no Hollywood Bowl. Get the picture? Eu sonhei boa parte da minha vida em conhecer esse local.</p>
<p>Saímos sábado cedo de Costa Mesa, fomos pra Santa Monica, que dá uma hora e poucos minutos de freeway. Largamos as coisas no hotel Carmel, uma espelunca com a sorte de ser bem localizado e com o staff mais seco do planeta. Só respondem o mínimo possivel: sim, não, ok, no problem&#8230; Demos um rolê na Promenade pra ver os performers antes de nos aprontamos para ir ao show. Pedi gelo no quarto pra tomar meu remedinho 12 anos. Não veio, desci pra pegar.</p>
<p>Após uma hora de transito até Hollywood, largamos o carro a uns 600 metros do Bowl e marchamos até o local&#8230;. Achei meio vazio mas não cabia qualquer pensamento negativo naquele momento. De repente aparece um casal enrolado num cobertor dizendo “Ahhhh&#8230;Tom Petty, blá&#8230; No Show!!”</p>
<p>Estávamos lá maior boa, orbitando, sem acessar internet, jornal, nada, e só soubemos quando chegamos lá.</p>
<p>Eu tava achando estranho ele fazer show dias antes de lançar o disco <em>Mojo</em>, que estava na boca do forno!</p>
<p>O cara da bilheteria não acreditou quando dissemos que viemos do Brasil e, pelo inconveniente, deu seis ingressos para assistir a qualquer evento até setembro – e olha que tem evento, umas 20 bandas diferentes, até o aniversario de 70 anos do Herbie Hancock com convidados vai rolar.</p>
<p>Aí, pra não morrer seco, pedi pra conhecer o local e ele acabou liberando, acho que por caridade. Fiz questão de ir até meu lugar, dali eu via aquele famoso letreiro HOLLYWOO D nas montanhas. Notei que entre o O e o D tem um espaço, acho que o instalador se desequilibrou na escada na hora de grudar o D com Tenaz&#8230; rs..rs&#8230; Daí fui até o palco, mas não pude subir, tem aquelas redes dessas de varanda de apartamento e um ne&#8230; um afroamericano do tamanho de urso fazendo o patrulhamento. Mas fiquei ali sentindo aquela aura encostado na borda do palco passando frio e olhando a platéia vazia.</p>
<p>Fazendo um balanço geral e otimizando apenas o lado positivo do ocorrido:</p>
<p>Conclui que eu fui ao show (eles é que não foram).</p>
<p>Conheci o Hollywood Bowl; e mais: encostei naquele palco.</p>
<p style="text-align: center;">         ***</p>
<p>Mas a sorte não estava conosco. Passamos direto pela casa Troubador para ir ao House of Blues. Chegando lá estava fechado para uma festa particular. Pô, de quem? Nem me convidam?</p>
<p>Passamos a pé na Calçada da Fama, pisei no Nicolas Cage e outros tantos. Ainda notei que tem muita estrela sem dono, só que já estão quase no “Cambuci” rs..rs.. Pra não perder o clima, tinha aquela moçada fantasiada de Marilyn, Freddy Kruger, etc&#8230; Só faltou o nosso saudoso ator Ferrugem pra fechar.</p>
<p>Depois desse massacre e de andar uns 5 km a pé, quis usar o banheiro; entrei num McDonald’s que cobrava U$ 1,50 se eu não engolisse nada ali. Segui para um Starbucks, que é sempre igual, todo mundo com aquela cara de paisagem afundado numa poltroninha, com o Macbook conectado e chupando aquele café de US$ 4,00 via canudinho. Detalhes à parte, pedi pra usar o banheiro. O cara responde: ok, six, eight, nine, four, triple zero. Sem entender nada, segui apertado em direção à porta do banheiro que tinha um “ferrolho digital” maior que o do Citibank. È mole? O cara pra fazer xixi ali tem que pertencer à SWAT!</p>
<p>É que em Los Angeles a única coisa que chove é mendigo.</p>
<p>Ao final dessa marcha dos injustiçados, estávamos sem pique para voltar ao Troubador, e acabamos a noite rachando de comer numa trattoria em frente ao hotel. Game Over!</p>
<p>E o Dennis Hoppper, hein? Foi pra outra. Em Venice ouvi um zumzum sobre o cara, só depois soube que ele estava mal e que morava lá&#8230; Achei que ele ia sair dessa.. Enfim&#8230;</p>
<p>Vamos nos falando. Depois preciso te levar uns CDs do show do JT, etc&#8230;</p>
<p>Abs.</p>
<p>Fabio</p>
<blockquote><p><em>Uma explicaçãozinha</em></p>
<p><em>Esta mensagem do meu amigo Fabio De Domenico é tão absolutamente saborosa, divertida, bem humorada, e cheia de informações gostosas, que não teria sentido guardar só para mim. Pedi a autorização dele para publicar aqui.</em></p>
<p><em>Julho de 2010</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Porto Alegre, uma fascinante cidade onde não vale o que está escrito</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Mar 2009 07:00:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Porto Alegre, ao contrário de no Brasil do jogo do bicho, não vale o que está escrito. E a maior atração da cidade é – como dizem a respeito da macheza da gente daquele estranho país ao Sul de Santa Catarina – uma ficção. Ou, no mínimo, uma gigantesca dúvida. Não vale o que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Porto Alegre, ao contrário de no Brasil do jogo do bicho, não vale o que está escrito. E a maior atração da cidade é – como dizem a respeito da macheza da gente daquele estranho país ao Sul de Santa Catarina – uma ficção. Ou, no mínimo, uma gigantesca dúvida.<span id="more-3"></span></p>
<p>Não vale o que está escrito. As placas e os mapas dizem Rua dos Andradas, mas na verdade ali é a Rua da Praia – e não há praia alguma por perto. Está escrito Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, mas o povo fala Parque Harmonia. Oficialmente, é Parque Moinhos de Vento, mas o que vale é o nome de Parcão. O Parque Farroupilha só é Farroupilha nas placas e mapas, porque de fato ali fica o Parque Redenção. Na Rua da República, há o Armazém da Esquina – que fica não numa esquina, e sim bem no meio de uma quadra.</p>
<p><img class="alignleft size-large wp-image-73" title="DSC00571" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00571-1024x768.jpg" alt="DSC00571" width="1024" height="768" />Ficção, ou gigantesca dúvida. A grande atração da cidade, uma beleza danada, o Rio Guaíba, famosíssimo, cantado em prosa e verso, até porque aquele povo escreve muito, e escreve bem, não chega a ser um rio. Parece mais um lago. Passa, atualmente, por uma séria crise de identidade. A moça cuja voz gravada sai dos alto-falantes do Cisne Branco, o belo barco que faz passeio naquelas águas às vezes barrentas, às vezes escuras, às vezes azuis, abre a discussão: informa que o Guaíba sempre foi chamado de rio, mas os especialistas dizem que é um lago. O guia do ônibus de dois andares sem teto em cima – como os de Paris – também lança o questionamento. E o mapa oficial distribuído pela Secretaria Municipal de Turismo crava: Lago Guaíba.</p>
<p>Só que não é bem um lago, já que as águas andam do Delta do Jacuí, ao Norte, em direção à Lagoa dos Patos, ao Sul.</p>
<p>Vai entender.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-72" title="DSC00650" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC006501-300x225.jpg" alt="DSC00650" width="300" height="225" />E a mais recente atração da cidade, o prédio da Fundação Iberê Camargo, debruçado numa elevação sobre a beleza do Guaíba, com uma vista espetacular para os prédios da cidade ao longe, como se fosse um morro em Sausalito de onde se vê a silhueta deslumbrante de San Francisco do outro lado da baía, é um horroroso, grotesco caixote de concreto pintado de branco, com apenas umas três minúsculas janelinhas, mais parecidas com vidros de aquário, dando para aquela imensidão toda.</p>
<p>Mas que não se pense que as constatações acima são uma crítica à cidade. Porto Alegre é uma cidade belíssima, calorosa, agradável, apaixonante.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As belas se mostram</strong></p>
<p>Então, para começar: eta cidade para ter mulher bonita, tchê. Talvez seja – deve ser – por causa da mistura, da miscinegação. Miscigenação embeleza, e lá teve de tudo, índio, português, italiano, alemão, preto. Muita mulher longilínea, lindilínea, altas, bonitas, gostosas. Mary, que não tem absolutamente nada de homo, ficou impressionada, talvez tanto quanto eu.</p>
<p>Reparei muitas mulheres de vestidão comprido, até o pé. Tem mesmo – mas também tem um bando de mulher de jeans apertados, bunda bonita, e um bando de mulher sem nenhuma vergonha de mostrar belas coxas. Às vezes dá a impressão de que todas tinham passado o verão inteiro na praia, coxas bronzeadinhas.</p>
<p>E elas sabem que são bonitas, e que estão sendo olhadas – e mulher que sabe que está sendo olhada fica ainda mais bonita.</p>
<p>Não se constrangem. Se mostram.</p>
<p>Tive o exemplo perfeito no Shopping da Rua da Praia, que tem uma galeria que liga a Rua da Praia à Riachuelo, mais acima, logo no ponto em que ficava o nosso hotel. Tomamos café da manhã numas mesinhas lá, duas vezes em que perdemos o horário do café no hotel; na segunda vez, numa hora em que a Mary foi comprar não sei o quê, fiquei olhando feito bobo pra garotinha da loja de chocolates em frente, que chamei de Mezzagiorninho, porque é uma espécie assim de Giovanna Mezzogiorno – jeitinho de descendente de italianos, pele claríssima, olhos verdes claros, calça jeans de cintura baixa, blusinha apertadinha acima da cintura, deixando ver a carne jovem da barriga, os ossos da bacia aparecendo dos dois lados. Diante do olhar insistente do velho careca, poderia ter perfeitamente andado pro outro lado da loja dela; que nada – enfrentou. Tirou o celular e veio conversar fiado com alguém bem perto de onde eu estava. Por nada, não – só pra dizer que sabia que estava sendo olhada, a Mezzagiorninho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tem vida no Centro - e é uma cidade da classe média</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-97" title="DSC00704" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00704-300x225.jpg" alt="DSC00704" width="300" height="225" />O Centro de Porto Alegre é um formigueiro como todo centro de grande cidade, durante os dias de semana – mas, ao contrário do que acontece em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte, ele não fica deserto nem à noite, nem no fim de semana. Por uma sorte grande da cidade, a população não abandonou o Centro; há ali muitos edifícios residenciais. Reparamos isso desde o primeiro dia. Na própria Rua Riachuelo, na Praça da Matriz – onde ficam a Catedral Metropolitana, o Palácio Piratini, do governo, a Assembléia Legislativa, o Tribunal de Justiça e o Theatro São Pedro, todos os cinco poderes, contando com a religião e a cultura – e ao redor dela existem belos prédios de apartamentos, de classe média, e mesmo média alta. Por isso, o Centro não degradou. Sorte grande.</p>
<p>Classe média nas ruas – uma cidade da classe média. Mary e eu ficamos muito impressionados com isso. Há lugares ricos, de gente muito rica, como a região de Moinhos de Vento, mansões impressionantes em algumas das ilhas do Delta do Rio Jacuí, na Praia de Ipanema, ao Sul, e há lugares mais classe média baixa, como alguns bairros ao Sul e também ao Norte, perto da ponte móvel que vai rumo a Pelotas, Rio Grande e Chuí; e há também classe média baixa em alguns lugares do Centro, perto do porto. Mas praticamente não há miséria – a pobreza que se vê é digna. E a sensação que se tem é de que, sobretudo, Porto Alegre é uma cidade que tem uma grande, uma dominante classe média.</p>
<p>Fiquei pensando, à luz (ou à sombra) dos meus parcos conhecimentos, quais seriam as razões disso. Ao contrário de tantas outras grandes cidades brasileiras – como São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Salvador –, Porto Alegre não inchou demais, não teve imensa explosão demográfica, nas últimas décadas. Em parte, provavelmente, porque a população do Sul é historicamente mais letrada, mais estudada, mais desenvolvida. Em parte porque o Rio Grande do Sul tem diversas boas cidades médias, com escolas, hospitais, os equipamentos urbanos básicos que impedem o êxodo para os centros maiores. Houve êxodo de gaúchos, sim, e forte, pelo que eu saiba, mas não tanto para as grandes cidades, e sim para fronteiras agrícolas – o Sudoeste do Paraná, Rondônia, Mato Grosso, a região do cerrado em Minas e Bahia, a Oeste do São Francisco.</p>
<p>Um conjunto de diversos fatores, como sempre; deve haver outros, mas esses aí, sobre os quais pensei, devem ter influência no fato de Porto Alegre não ter inchado demais.</p>
<p>Não achei números que pudessem comprovar minhas teorias e lembranças, mas sei, ou ao menos acho que na década de 60 Porto Alegre era uma das cinco maiores cidades do Brasil – São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, essa era a relação, talvez não necessariamente nesta ordem. Segundo números do IBGE para 2008, Porto Alegre estava em décimo lugar. Salvador, Brasília, Fortaleza, Curitiba e Manaus passaram à frente.</p>
<p>Não tenho os números anteriores, repito, mas acho que, uns 40 anos atrás, Porto Alegre tinha cerca de 1 milhão, assim como Belo Horizonte e Salvador; em 40 anos, BH pulou de 1 milhão para 2,4 milhões, Salvador, de 1 milhão para 2,9 milhões. Porto Alegre cresceu estupidamente menos, não inchou: tem hoje 1 milhão e 400 mil habitantes.</p>
<p>Bom, ótimo, excelente pra Porto Alegre.</p>
<p>A cidade – segundo disse o guia do ônibus turístico – tem quase o mesmo número de árvores e de habitantes: 1 milhão e 400 mil árvores é coisa pra burro. E isso é visível. A cidade tem verde de fazer inveja. A quantidade de parques é um absurdo, e os parques são imensos, Ibirapueras espalhados numa área várias vezes menor que a de São Paulo.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-78" title="DSC00659" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00659-300x225.jpg" alt="DSC00659" width="300" height="225" />E ainda tem o Guaíba, aquela absurda quantidade de água em crise de identidade – rio ou lago? Como acontece no Porto da Barra em Salvador, e em Ipanema no Rio, o povo vai para a margem do Guaíba ver o pôr-do-sol, especialmente na região do Gasômetro. E a margem do Guaíba é um imenso parque que se une a outro e se une a outro e vai embora, desde o Gasômetro, no limite Sul do porto, até bem lá embaixo, na região onde fizeram o monstrengo em homenagem ao pintor gaúcho Iberê Camargo. O povo vai ver o Guaibão tingido de vermelho – só não aplaude, como às vezes fazem no Porto da Barra e em Ipanema, mas vai.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não é todo lugar que tem um Guaibão daqueles</strong></p>
<p>Ainda não é hora de falar de comida nem de táxi, mas o motorista de táxi que nos levou na primeira noite à churrascaria Barranco, um garotão, observou o seguinte: as cidades são todas iguais, o que é diferente é a comida. Lembrei do hippie de Easy Rider que diz que veio de uma cidade e, perguntado de qual cidade, responde apenas: “Uma cidade; são todas iguais”. Mas respondi para o garoto gaúcho que não é bem assim: não é toda cidade, por exemplo, que se dá ao luxo de ter um Guaíba.</p>
<p>São Paulo transformou o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí em esgotos. Belo Horizonte, tadinha, sequer tem um rio – tem só um ribeirão, o Arrudas, e a única lagoa, lembra a Mary, é postiça, foi invenção do JK no tempo em que o Nieyemer ainda não tinha a mania de acabar com a grama e todo tipo de vegetação pra cimentar o chão nos lugares por onde passa. (Pobres lugares por onde ele passa.)</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-79" title="DSC00461" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00461-300x225.jpg" alt="DSC00461" width="300" height="225" />Duas empresas, com tipos bem diferentes de barcos, fazem passeios pelo Guaíba. O Cisne Branco é um barcão elegante, tem deck superior ao ar livre com cadeiras e mesinhas, um grande salão envidraçado com mesinhas e cadeiras no pavimento médio, e um salão para festas e dança no deck inferior, quase abaixo do nível do rio – ou do lago, whatever. Faz dois passeios diferentes – um rumo ao Norte, às ilhas do Delta do Rio Jacuí, e um rumo ao Sul, à praia de Ipanema, os clubes de vela, quase até a Lagoa dos Patos, “dos sonhos, dos barcos, mar de água doce e paixão”, como diz a canção do Kledir e do à época poeta Fogaça, hoje prefeito reeleito da cidade. Sai do porto bem diante da Praça da Alfândega, perto de grandes prédios históricos, a duas quadras do Mercado Público. O endereço exato é Avenida Mauá, 1050 – Portão Central do Porto.</p>
<p>Tem um problema: o passeio das 18 horas só sai se houver um quórum mínimo de 20 pessoas. No primeiro dia em que fomos até lá na esperança de fazer o passeio, não deu nem metade do quórum. A garota do atendimento, simpaticíssima – e bonitinha –, nos avisou que o passeio das 15 horas sai todos os dias, sem depender de quórum. Fizemos o passeio, o do Delta do Jacuí, no dia seguinte; tinha cerca de dez pessoas, apenas, pouco mais que o número de tripulantes. Um único grupo reunia cinco pessoas: uma gauchinha, simpática, bonitinha e meio sonsa, o namorado alemão, os pais e o irmão dele. Lá pelas tantas a gauchinha veio falar com a gente, pedindo explicações geográficas: o sogro a enchia de perguntas e ela não sabia responder; nunca tinha feito o passeio de barco antes, e não sabia onde era o Norte, onde era o Sul. Demos explicações para ela, e depois para o próprio sogro, simpático alemãozão de Berlim com um inglês quase tão precário quanto o meu atual. (A gente encontraria o grupo outro dia, eles saindo e nós chegando para o passeio de ônibus de turismo.)</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-109" title="DSC00509" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC005091-300x225.jpg" alt="DSC00509" width="300" height="225" />Há muitas ilhas, e lindas, verdíssimas, de grandes, belas árvores, no Delta do Jacuí, que nos fez lembrar bastante o Delta do Paranazão, antes de virar o Rio de La Plata, “mi Rio de la Plata lindo e sucio”, ao Norte de Buenos Aires. Em algumas delas há as tais mansões de ricaços, milionários, coisa cinematográfica. Uma das ilhas é a das Flores, que é, acho, aquela em que existe, ou existia, um lixão filmado nos anos 80 num curta-metragem que ficaria famoso, Ilha das Flores, do porto-alegrense Jorge Furtado, que depois faria os ótimos <em>O Homem que Copiava</em> e <em>Meu Tio Matou um Cara</em>. Lembro que Fernanda viu o documentário na Nova Horizonte e se apaixonou por ele. No passeio, não dá para ver o lixão.</p>
<p>Os outros barcos que fazem passeio pelo Delta do Jacuí e pelo Guaíba são dois irmãos gêmeos, Noiva do Caí I e Noiva do Caí II, bem menores e bem mais humildes que o Cisne Branco. Não têm a infra-estrutura portuária do Cisne Branco, cuja empresa tem escritório naquele ponto nobre e central do porto; ficam baseados na Ilha da Pintada, do outro lado do braço do Jacuí. Na hora dos passeios, atracam ao lado do Gasômetro. Não planejamos passear em um deles – foi um acaso. No final da tarde de sábado, véspera da nossa volta para São Paulo, estávamos no Gasômetro, para ver o povo aglomerado para assistir ao pôr-do-sol no Guaíba; precisávamos de um lugar para sentar, porque eu tinha dado uma canseira danada na Mary, propondo uma caminhada a partir do caixotão do Iberê Camargo até depois do estádio do Inter – e foram alguns bons não sei quantos quilômetros.</p>
<p>Foi aí que ouvimos um nego propagandeando, como os camelôs de antigamente: “Passeio no Guaíba para ver o pôr-do-sol no rio – só 5 pilas”. O preço normal é 10 reais, contra 15 do Cisne Branco, mas crise é crise, e neguinho estava ali tentando atrair freguês a laço. Grande liquidação para ver o pôr-de-sol no Guaíba. Topei na hora, claro; os caras atrasaram a saída, em busca de mais 5 pilas dali, 5 pilas daqui, mas o fato é que o barco saiu cheio, pouco depois de 18h30, o sol já quase no horizonte.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-82" title="DSC00681" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00681-300x225.jpg" alt="DSC00681" width="300" height="225" />Ao passar junto de uma das ilhas, o barco, numa ação ecologicamente incorreta mas empresarial-turisticamente compreensível, apita aquele apito altíssimo de barco, e centenas e centenas de aves saem das árvores e voam no céu vermelho-laranja sobre o Guaíba, para delírio da turistada. Gaúchos passeavam em lanchas e em jet-skis, passando diversas vezes diante do barco, num show de exibicionismo.</p>
<p>No Cisne Branco, alto-falantes tocavam Credence, Dire Straits, Sinatra e bossa nova; no Noiva do Caí I (ou seria o II?), tocou sertanejo-brega. As pessoas eram classe média-média, ou média-baixa, e a maioria parecia ser gaúcha mesmo, do interior, enquanto os turistas do Cisne Branco são média-média para média-alta. Naquele fim de semana, Porto Alegre tinha sido invadida por uma multidão de gaúchos do interior, que foram participar, no Anfiteatro do Pôr do Sol, de uma reunião de evangélicos com música gospel e um pastor americano famoso pacas do qual jamais tínhamos ouvido falar.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um parque imenso e um Parcão menor</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-83" title="DSC00636" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00636-300x225.jpg" alt="DSC00636" width="300" height="225" />Em termos assim do nível sócio-econômico de seus passageiros, os Noivas do Caí estão para o Cisne Branco exatamente como o Parque Farroupilha, ou melhor, Redenção, está para o Parque Moinho de Ventos, ou melhor, Parcão. O Farroupilha-Redenção é maior e mais central; naquele sábado, os freqüentadores eram, na maioria, classe média-média ou média-baixa, gente mais simples. No belo, detalhado e bem escrito roteiro que tinha nos enviado, a Vivi, porto-alegrense da gema, o sobrenome Kulzcynski para comprovar, tinha dito que o Farroupilha-Redenção estava meio caidaço. Não nos pareceu caidaço; é um belíssimo parque, com árvores gigantescas, um belo lago com pedalinhos, um mini-zôo e, como os demais parques que vimos, com o europeu e absolutamente salutar costume de não botar cimento no chão – o chão é de chão mesmo. O único defeito que notamos nele foi uma certa ausência de bancos com encosto. É mantido apenas pela Prefeitura, ao contrário do Parcão, que tem empresas particulares como co-patrocinadoras, mas estava bastante limpo.</p>
<p>Numa das extremidades do Farroupilha-Redenção, a Avenida José Bonifácio – onde há os prédios gigantescos e bem antigos de uma escola militar por onde devem ter passado os gaúchos ditadores do golpe de 1964 –, aos sábados funciona uma imensa feira de artesanato, a Brique de Sábado. Tudo muito organizado, com barraquinhas todas iguais, colocadas no canteiro central da avenida, os expositores com crachá da Prefeitura. Várias pessoas nos disseram que a feira dos domingos, que ocupa também uma das pistas da avenida, é muito maior que a Brique de Sábado.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-84" title="DSC00602" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00602-300x225.jpg" alt="DSC00602" width="300" height="225" />Então: o Farroupilha-Redenção é um belo parque. Mas o Parcão é mais granfo, mais finório, em tudo por tudo. Fica bem no meio do bairro Moinhos de Vento, no alto de um morro – Porto Alegre é uma cidade cheia de morros; Roma tem sete colinas, mas Porto Alegre, tchê, tem bem mais, parece que 27. O Parcão também é bem grande, com várias áreas para crianças, quadras para esportes, muita árvore, muito banco com encosto, na sombra e ao sol, bom pra namorar ou pra ler, um laguinho bonito com patos, garças e uma infinidade de tipos de passarinhos de diversas cores que já se habituaram com os vizinhos humanos e passeiam pertinho deles. A sem-cerimônia dos pássaros gaúchos em chegar perto da gente impressionou a Mary.</p>
<p>Os porto-alegrenses que freqüentam o Parcão – Vivi tinha nos avisado disso, com o advérbio perfeito – fazem jogging enlouquecidamente. De fato: fazem jogging enlouquecidamente, alucinadamente, loucamente, insanamente. Centenas de neguinhos de classe média para média-alta, desde jovens até senhores e senhoras de mais de 60, 70 anos, andam e correm pra lá e pra cá como se aquilo fosse a coisa ao mesmo tempo mais prazerosa e mais obrigatória da vida. Fiquei exausto de vê-los.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Como na Recoleta, mas sem o cemitério</strong></p>
<p>Moinhos de Vento é algo assim como os Jardins ou Higienópolis em São Paulo, ou, mais apropriadamente, como a Recoleta de Buenos Aires – sem o cemitério. Belíssimos prédios residenciais, ainda belos casarões, bom comércio, um shopping chicaço, com vários cinemas, uma Saraiva Megastore (onde comprei dois CDs) e de onde Mary, uma anticonsumista praticante, quis sair o mais rápido possível, xingando que shopping é igual em tudo quanto é lugar do mundo e que shopping mata as cidades.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-104" title="DSC00533" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC005331-300x225.jpg" alt="DSC00533" width="300" height="225" />Pertinho do shopping, e pertinho do Parcão, fica a Rua Padre Chagas, que Vivi tinha nos indicado, e que uma outra jornalista porto-alegrense, num site que Mary descobriu no iPhone, descreve como a mais charmosa da cidade.</p>
<p>É charmosa mesmo, a Padre Chagas. Pequena, umas três quadras – assim uma espécie de Lorena cravada na Recoleta. Um monte de cafés e sorveterias simpaticíssimos – aliás, como tem cafés e sorveterias aquela cidade; é impressionante. E todos cheios. Todos os lugares naquela cidade ficam cheios. É, de fato, a cidade da classe média.</p>
<p>Os cafés, sorveterias e bares da Padre Chagas estavam começando a se encher naquela hora, sexta começo da noite. Numa das extremidades dela fica uma rua com uma seqüência de restaurantes, vários deles bem finórios. Meio esnobemente finórios demais. Acabamos optando por um Irish pub, o Mulligan, na própria Padre Chagas, num casarão antigo, lotadinho na parte da frente, quintal ao ar livre atrás vazio quando chegamos (depois foi enchendo com a fauna das sextas-feiras, claro), e dezenas de opções de chope e cerveja, quase tantas quanto o Frangó. Tomamos uma Guiness, uma tcheca e muitos chopes Eisenbah, com um filé com molho preto excelente.</p>
<p>Nessa sexta à noite, depois do Mulligan, demos mais uma passeada por Moinhos de Vento; tomamos um chope num bar-livraria simpaticíssimo (com banheiro unissex, um dos três que vi em Porto Alegre), e, como eu ainda estava com sede de chope, fomos parar no Baskaria, um restaurante debruçado sobre o Parcão, que tem esse nome porque pertence a descendente de bascos; lá dentro há um belo mapa do País Basco. No Baskaria veio um carpaccio não muito bom – a única comida que provamos na cidade abaixo do nível do ótimo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Come-se muito, e bem, e barato</strong></p>
<p>Claro, comida boa e farta é uma das tradições de que os gaúchos mais se orgulham – e em Porto Alegre de fato come-se muito, muito bem, e barato.</p>
<p>Vivi tinha indicado uns 35 lugares para a gente comer, e claro que não deu para ir a todos, mas fomos a vários. Um italiano chiquetérrimo e não absurdamente caro, Peppo Ristorante, em Moinhos de Vento – este não foi indicação da Vivi; gostei do folhetinho deles colocado no hall do hotel. O mais tradicional churrasco para turistas, no sistema espeto corrido, o Galpão Crioulo, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, ou melhor, Harmonia, com show ao vivo de gauchada gauchesca, dezenas de gaúchos de bombacha e gaúchas fantasiadas de gaúchas, som altíssimo – em vez de ficarmos putos, entramos no clima e deu tudo certo.</p>
<p>Mas o melhor lugar de todos, onde fomos na primeira e de novo na última noite, foi o Barranco. Vivi tinha dito que a esse lugar vão os próprios gaúchos, nada de turistas, e é bem verdade. Fica um pouco longe do Centro, no bairro Petrópolis, a quase 6 km da Praça da Matriz (Moinhos de Vento fica a 3 km), fora de qualquer circuito turístico. Ocupa uma área imensa, no meio de árvores gigantescas. Chope excelente, bem tirado, e uma lingüiça caseira que meu Deus do céu e também da terra, o que que é aquilo. Barato: o mesmo preço que pagamos pra comer em lugares sem qualquer charme e comida nada especial em Matinhos, no Paraná. E lotado, lotado de gente da terra. Na primeira noite, a de segunda, dia 16, tinha uma área grande, das várias áreas ao ar livre, reservada para uma festa particular, com famílias inteiras, avós, mães, titias, crianças, bebês de colo – depois vimos que era de uma confraria de produtores de vinho. Segundo o motorista de táxi que nos levou até aquela lonjura da Avenida Protásio Alves (o tal garotão que acha que todas as cidades são iguais, a não ser pela comida) nos disse que tanto o Inter quanto o Grêmio costumam jantar lá, em ocasiões festivas.</p>
<p>Inter e Grêmio. Inter e Grêmio é tema obrigatório em Porto Alegre, claro. Como nas Minas Gerais do Atlético e Cruzeiro, Inter e Grêmio são um duopólio; os outros times são só sparrings, só para preencher tabela e o Gauchão não ser uma infinita seqüência de Gre-Nals. Muito mais do que entre chimangos e maragatos, do que entre brizolistas e antibrizolistas, do que iedistas (4,5% da população, segundo o último Datafolha, incluindo um dos motoristas de táxi que conhecemos) e anti-iedistas (os outros 95,5%), do que petistas e antipetistas, os gaúchos se dividem entre colorados e gremistas. Nas ruas, dezenas e dezenas de neguinhos andam com camisas do Inter, e outras dezenas e dezenas com camisas do Grêmio. Em todos os lugares vendem-se camisas do Inter e do Grêmio, em geral lado a lado: no Shopping da Rua da Praia há duas lojinhas idênticas, seguramente pertencentes aos mesmos donos, uma do lado da outro, uma com tudo possível e imaginável do Inter, a outra com o mesmo tudo possível e imaginável do Grêmio.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-111" title="DSC00653" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC006531-300x225.jpg" alt="DSC00653" width="300" height="225" />Os estádios de Inter e Grêmio ficam não muito distantes um do outro, ambos na região Sul da cidade, ambos com a inscrição Campeão do Mundo bem visível. O guia do ônibus turístico presta muita atenção e muito cuidado para dedicar o mesmo número de palavras e segundos a falar de cada um dos dois times, com o bem fundamentado temor de provocar uma revolta entre gaúchos de um ou do outro lado.</p>
<p>Quando comentei com o Sandro a coisa da crise de identidade do Guaíba, se é rio ou se é lago, ele notou que o problema é de fato muito sério: afinal, o estádio do Inter (Porcão, segundo os gremistas) é o Beira-Rio. Diz ele, no seu texto sempre brilhante:</p>
<p>“Descobri há pouco tempo que o Rio Guaíba é um lago, e isso é muito grave. Pois o estádio do Inter deveria mudar o nome para Beira-Lago? Isso provocaria um terremoto cultural inenarrável. Seria mais ou menos como mudar o nome da Bombonera para, sei lá, Floreira, ou Lixeira.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tropeça-se em cultura</strong></p>
<p>Este texto já está grande demais, está ficando do tamanho do que fiz sobre Paris (e daí? tem que ficar mesmo, tchê, diriam os gaúchos), e, como dizia o Celso Ming para o Mitre, ao chegar à linha de número 400 sem ter ainda alcançado o que descreveu como “o fulcro da questão”, ainda não falei nada de cultura – e é impressionante a coisa da cultura em Porto Alegre.</p>
<p>Os belo-horizontinos, os curitibanos que me perdoem, mas em Porto Alegre se tropeça em cultura. É impressionante. Como a Mary bem notou: as pessoas comuns na rua falam de cultura, de livros, de filmes, de música.</p>
<p>Na Praça da Alfândega – belíssima –, vimos um dia uma apresentação de um conjunto de música andina, à espera de algum trocado. Umas dez pessoas, em trajes típicos, cantando e tocando com a ajuda de um playback que tocava outros instrumentos. Tinha visto um assim na Union Square, em San Francisco, e comprado um disco deles, e por isso fui lá ver se os andinos porto-alegrenses tinham disco; claro que tinham, 20 reais. Ouvi mais tarde o disco em casa. É uma família de equatorianos. Bah, um som bom – uma coisa andina mas com um toque de world, com as flautinhas e violões típicos mas também com sintetizador, um toque meio techno, meio de índio norte-americano forte com brinco de ouro na orelha.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-87" title="DSC00491" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00491-300x225.jpg" alt="DSC00491" width="300" height="225" />No dia seguinte, em outro ponto da Praça da Alfândega, tinha um rapaz solitário, guitarra elétrica e gaita pendurada no pescoço à la Woody Guthrie (os mais jovens diriam à la Bob Dylan, ou à la Neil Young; os mais jovens são assim, acham que o mundo começou no dia em que eles nasceram). Cantava, e bem cantado e bem tocado, &#8220;Wild Horses&#8221;, dos Stones. Paramos pra ver, mas paramos atrás dele, para não distraí-lo, e também para tentar observar as reações. Quase nenhuma reação: tinha uma garotinha meio punk parada diante dele, pele muito clara, cabelo vermelho fogo vivo, cara de mesmerizada, e só; o resto das pessoas passava direto, sem parar nem um segundo para ouvir. O cara aí atacou de &#8220;Like a Rolling Stone&#8221; – cantou a letra inteirinha, certinha. Sugeri à Mary que deixasse uma moeda para ele, ela andou até lá, botou a moeda. Ao terminar &#8220;Like a Rolling Stone&#8221; ele se virou para trás, olhou para nós e perguntou: Algum pedido? Respondi que não, que ele ficasse na dele, e o bicho foi de &#8220;The Boxer&#8221;.</p>
<p>Um dia, saindo do Centro Nova Olaria, na Cidade Baixa, onde ficam as salas do Cine Guion e uma beleza de loja de discos e livros, e há diversos cafés e bares que fazem lembrar demais Buenos Aires, entramos num táxi e no rádio Dylan estava cantando &#8220;Jokerman&#8221;. Não ouço rádio, mas imagino que não haja uma emissora de São Paulo que toque &#8220;Jokerman&#8221;, e então me peguei dizendo “uau, Bob Dylan” – e o motorista do táxi, um garoto, disse, tranquilamente: “É, essa música o Caetano gravou”. Juro de pé junto que nenhum motorista de táxi do meu bairro – e eu conheço dezenas deles – sabe que Caetano gravou &#8220;Jokerman&#8221;.</p>
<p>Aproveito o gancho para matar o assunto táxi: seguramente não há cidade alguma no Brasil em que o táxi é mais barato e farto. Um taxista me falou em 3 mil táxis, mas parecem 30 mil – estão em todos os lugares, a qualquer hora. As corridas em geral não passam de 12 reais; fizemos várias de menos de 7. Do aeroporto até o Centro foram 25 reais – a metade do que em São Paulo se gasta de Perdizes até Congonhas, para não falar de Cumbica. E os motoristas – não vimos exceção – são falantes, comunicativos, o que é normal, mas bem humorados e não reclamam da vida e de que a praça está ruim, o que é digno de entrar no Livro Guinness dos Recordes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não contaram a eles que CD está acabando</strong></p>
<p>De volta à música, Porto Alegre tem outro recorde: o número de lojas de discos. As lojas de disco estão sumindo, com as compras e os downloads via internet, os tocadores de MP3, as livrarias megastore e a imbecilidade das gravadoras, mas ainda não disseram isso para os porto-alegrenses. Numa galeria bem no Centrinho, que liga a Rua da Praia à Sete de Setembro (ou seria à Siqueira Campos? bem, oficialmente o endereço é Rua dos Andradas, 1444), tem uma loja de disco junto da outra. Numa delas, onde quem atende é um hippão envelhecido e com cara de quem já fumou todos, há uma imensa variedade de CDs importados – estão lá todos os da Joan Baez na fase Vanguard, a primeira, dos anos 60 – e também dos novos LPs bilionários, perto de 200 reais a peça, de não sei quantas gramas de peso. Vi vários do Dylan, em nova edição para a tribo dos neo-elepeístas pós-CD como o Pedro da Lu Fernandes.</p>
<p>Chegamos a essa galeria por mero acaso, durante um dos vários passeios pelo Centrinho. Depois vi, em um desses guias que os hotéis distribuem (um chamado Programa Rio Grande do Sul, 3 reais o exemplar), um anunciozinho e um textinho picareta falando da “Chaves, a galeria do CD”: tem a Via Imports CDs, “especializada em CDs importados”, a Sala dos Clássicos, “uma das melhores do gênero no país”, e a Sinthonia Musycal, “cartas, tarôs, astrologia e reike com hora marcada, artigos esotéricos, CDs e DVDs”.</p>
<p>(Que diabo será reike?)</p>
<p>A loja do Cine Guion do Centro Nova Olaria tem uma variedade absurda de CDs de trilhas sonoras; tem de tudo um pouco, mas a especialidade é trilha sonora; achei e comprei um Ennio Morricone ao vivo que nunca tinha visto e, outra surpresa, a trilha do Vestida para Matar, do Pino Donaggio. É uma edição americana meio antiga; dentro da capinha-encarte bem vagabundinha, de 4 folhas, uma delas ocupada por uma foto de impressão ruim não da Angie Dickinson, e sim da Nancy Allen, há a informação – coisa de que eu jamais tinha ouvido falar – de que se trata de um CD de “edição limitada, não disponível em todas as lojas”: “Varèse Sarabande está se propondo a lançar um clube de CDs para atender a pedidos feitos via correio, devotado a fazer discos de edição limitada de grandes trilhas sonoras. Esses CDs só estarão disponíveis para membros do clube. Se você estiver interessado em receber informações sobre o Varèse Sarabande CD Club, escreva para&#8230;”</p>
<p>Vivendo e aprendendo.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-88" title="DSC00623" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00623-225x300.jpg" alt="DSC00623" width="225" height="300" />Na Avenida Borges de Medeiros, embaixo dos arcos – lugar muito bonito, e diferente de tudo o que conheço de cidade grande –, e mesmo depois do viaduto dos arcos, o Otávio Rocha, há diversas lojinhas, sebos de CDs e LPs, LPs dos antigões, tradicionais, pré-CD. Numa delas, que o senhor que atendia dizia ser a melhor loja de Porto Alegre com música para a nossa geração, achei uma caixinha chique da CBS, série Masterworks, o selo de música erudita da gravadora, da Ópera dos Três Vinténs, da dupla Brecht-Weill; a gravação é de 1958, com Lotte Lenya, a senhora Kurt Weill em pessoa, no papel de Jenny, e a edição é holandesa, de 1982; o encarte tem 96 páginas, traz notas imensas e todas as letras e é trilingue – alemão, inglês, francês. Pertenceu a alguém que estudou as letras, fez diversas anotações no encarte. Paguei 10 reais pela preciosidade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Livrarias, livraria-bar, livraria-café, feira de livros</strong></p>
<p>E Porto Alegre tem tantas livrarias quanto tem lojas de discos. Todo o Centro é coalhado de livrarias, e, como já citei, em Moinhos de Vento há até livraria-bar, onde vimos duas duplas de mulheres conversando sobre literatura e trabalhos de pós-graduação. Aos sábados, há uma feira de livros na Rua Riachuelo; pelo que deu para entender, não é propriamente uma feira fisicamente falando; cada uma das diversas livrarias da região promove, aos sábados, ofertas de alguns de seus livros, e a isso chamam de feira.</p>
<p>(Mais adiante pela Borges de Medeiros rumo ao Sul, há um ajuntamento de lojas de antiguidades, e aos sábados uma feira de antiguidades – esta uma feira mesmo, no meio da rua.)</p>
<p>Entre os prédios históricos, antigos, do Centro, há o da Livraria do Globo. A Livraria do Globo foi também a importantíssima Editora Globo, que, até os anos 60, lançou toda a obra dos gaúchos Érico Veríssimo e Mário Quintana e um punhado de clássicos importantes, se não me engano Tolstói, Dostoiévski, Thomas Hardy e Theodore Dreiser entre eles, mais um bando de autores franceses. A parte editora da empresa – se não estou redondamente enganado – foi comprada no final dos anos 80 ou começo dos 90 pelas Organizações Globo, que juntou a Globo gaúcha com o que era antiga Rio Gráfica Editora e passou a chamar de Editora Globo, a que publica as revistas Marie Claire e Época, hoje o carro-chefe da empresa.</p>
<p>A Livraria do Globo está lá no prédio do início do século XX onde, parece, também funcionou a antiga Editora Globo; atualmente, no térreo fica a área de papelaria, material para escritório, uma grande Kalunga; no segundo piso fica material escolar, e, no terceiro, finalmente, a livraria em si – com um grande e belíssimo café, adornado com pôsteres de reproduções de fotos da empresa ao longo dos anos, dos autores publicados pela velha Globo e dos seus proprietários. Espalhados pelo salão de pé direito alto, há peças das velhas, velhíssimas impressoras, caixas de tipos, prensas, máquinas de escrever da era pré-Remington e pré-Olivetti – uma maravilha. No sábado por volta do meio-dia, apenas uma das cerca de 15 belas mesas estava ocupada, por um bando de velhinhos – intelectuais, escritores, jornalistas, muito provavelmente. Não tive coragem de me dirigir a eles para fazer perguntas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Sem um novo Puerto Madero, por favor</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-89" title="DSC00477" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00477-300x225.jpg" alt="DSC00477" width="300" height="225" />Montes de lojas de disco, montes de livraria – e montes de centros culturais. Montes e montes de centros culturais. Ao ver os muitos armazéns vazios do porto (o movimento pesado de navios foi levado mais para o Norte, para um ponto mais afastado do centrinho histórico), Mary imaginou um plano de revitalização do porto, à la o que fizeram em Barcelona e Buenos Aires e há décadas dizem que vão fazer no Rio, mas briguei ferozmente contra a idéia, com o argumento de que é melhor deixar tudo do jeito que está: se inventarem revitalização do porto, é capaz de esvaziar a cidade em si e seus muitos centros culturais. Eles têm boa freqüência hoje, estão sempre com gente – melhor deixar como está. Mary acabou concordando, e fica combinado assim: não haverá uma novo Puerto Madero em Porto Alegre.</p>
<p>Há um centro cultural no Gasômetro, com café e cinema, e, entre outros, cursos de informática. Quando estivemos lá, tinha também uma exposição de fotos de Porto Alegre em várias épocas, bancada pelo jornal Correio do Povo, que, aparentemente, o poderio do grupo RBS ainda não conseguiu sufocar. A rigor, nem precisava de exposições, porque o prédio do Gasômetro em si, entre o início do porto, de um lado, e, do outro, o início dos parques que prosseguirão acompanhando o Guaíba rumo ao Sul, já é uma belíssima atração. A vista que se tem do Guaíba e das ilhas do delta na grande varanda do terceiro andar do prédio onde funcionou a antiga usina termoelétrica da cidade é de babar.</p>
<p>No centrinho do centrinho, junto da Praça da Alfândega e suas belas árvores, estão três prédios imponentes, maravilhosos, construídos na década de 20, ou por aí, onde hoje funcionam o Margs, o Memorial do Rio Grande do Sul e o Santander Cultural.</p>
<p>O prédio onde está o Margs, o museu de arte do Estado, foi construído para ser a alfândega, se não me engano. Tem um bistrô francês dando para fora, para a praça, bem simpático, e, lá dentro, um café, e um bom acervo, com Di, Portinari, um monte de gaúchos, é claro, alguns bem bons, e diversos europeus.</p>
<p>O prédio que hoje é o Santander Cultural foi construído para ser um banco, não sei exatamente qual – talvez o antigo Banco da Província do Rio Grande do Sul. Hoje tem salas de cinema, mas estava sem exposição nos salões principais, e por isso as recepcionistas não nos deixaram entrar neles. Foi o único lugar em que vimos pessoas antipáticas – as recepcionistas em vez de recepcionar afastam os eventuais visitantes. Como se não houvesse outros centros culturais para ver naquela cidade. A principal atração do belo predião, assim, acaba sendo um café construído dentro do lugar que era o antigo cofre central do banco. Comemos lá uma bobagem qualquer, servida por um garçom veado, afetado, metido a besta.</p>
<p>O Memorial do Rio Grande Sul funciona no prédio que foi construído para ser o Correio central de Porto Alegre, nos moldes do prédio do Correio no Anhangabaú com São João. A construção é uma beleza, como os demais vizinhos, e havia lá uma exposição de grandes painéis contando os principais fatos da história gaúcha. A exposição é muito boa, os painéis são bonitos e bem montados – o duro é tentar entender a história gaúcha, com tanta revolução, tantos farroupilhas, tantos positivistas, maragatos, chimangos, caudilhos, invasão disso, invasão daquilo. Lutam muito, aqueles povos do Sul.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-91" title="DSC00446" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00446-300x225.jpg" alt="DSC00446" width="300" height="225" />Ali perto tem o Mercado Público Central – um belo centro cultural-gastronômico, maravilha de mercadão, assim uma mistura do Mercado paulista da Rua da Cantareira com o Mercado Modelo da Cidade Baixa em Salvador. Entre as mil bancas de comida de todos os tipos e as dezenas de bares e restaurantes, alguns antiqüíssimos, com cheiro de mate e peixe fresco, segundo tinha avisado a Vivi, há um grande sebo de revistas e livros e a sensacional Banca 40, que também nos tinha sido indicada por nossa amiga gaúcha. A Banca 40 serve ali, há 82 anos, sorvetes de todos os tipos; Mary e eu dividimos uma Bomba Royal – acho que é esse o nome de uma gigantesca salada de fruta com sorvete de chocolate, morango e nata batida. Quando chegamos, havia uma única mesa desocupada, e para pagar, na saída, tem fila.</p>
<p>Entre o prédio do Mercado e o porto há a estação inicial do antigo trem de subúrbio, que vai rumo ao Norte, até&#8230; ih, sei lá até onde, algo no Vale dos Sinos – seria Novo Hamburgo? Hoje é chamado de metrô, é coisa ainda do governo federal, uma estatal chamada Trensurb. Andamos nele até a quarta estação, para experimentar; estações bem limpas, bem cuidadas. O fascinante, e louco, é que, nessa estação central, a primeira delas, não há uma única placa, um único aviso de que aquelas escadas para debaixo da terra levarão a um trem, ou a um metrô. Ou você sabe que ali é a Estação da Sé deles, ou você não sabe, e pronto. Quem mandou não ser porto-alegrense?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As jóias da coroa</strong></p>
<p>Já tô cansado deste texto, mas ainda falta falar das jóias da coroa na área cultural, o Theatro São Pedro e o antigo hotel Majestic, hoje Centro de Cultura Mário Quintana. Então vamos lá.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-92" title="DSC00490" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00490-300x225.jpg" alt="DSC00490" width="300" height="225" />O Theatro São Pedro é o Municipal deles, só que mais velho: tem 150 anos de história e uma pré-história que remonta à década de 1820. Foi aí que um grupo de ricaços encaminhou um pedido ao presidente da então Província de Rio Grande de São Pedro para que um terreno no Centro da cidade fosse cedido para a construção de um grande teatro. Vimos a reprodução da carta dos tais ricaços – dez pessoas, acho, que não apenas pediram um terreno como doaram uma grande quantidade de mil-réis para o início da construção do teatro. Ele foi inaugurado (ou começou a ser construído? um dos dois) em 1833. Está lá, bonitão, na Praça da Matriz, como já falei 37 laudas atrás. Na década de 70 e começo da de 80, foi inteiramente restaurado, de cima abaixo. Atualmente, há obras no entorno do teatro, para transformar o conjunto num multipalco que eles prometem ser “o maior complexo cultural da América Latina”. Eles são assim, os gaúchos; não deixam barato.</p>
<p>Um anfiteatro, com uma concha acústica, já estava praticamente pronto, dando para a rua de trás do teatro, exatamente a Riachuelo, onde fica nosso hotel; nosso quarto dava direto para as obras.</p>
<p>No segundo piso do teatro, em cima do hall de entrada, dando para as árvores da Praça da Matriz, com uma bela varanda, há um bom, amplo café; ao fundo, um piano de cauda.</p>
<p>O interior do teatro é belíssimo, extraordinário, com vários andares de camarotes, todas as poltronas de veludo vermelho vivo. Parece (pelo que sei de ver fotos) um Scalla de Milão em miniatura. E num piso inferior tem uma exposição de fotos e painéis com textos contando a história do teatro. A uma mesa na entrada do salão de exposição estava sentada uma jovem gaúcha bonita – mais uma gaúcha bonita –, que se apresentou para nós como professora de História, à disposição para nos dar algum esclarecimento que se fizesse necessário. Dei uma reparada na professora: danada de bonita, uma cara sapeca, safada, uns 26 aninhos, toda, absolutamente toda vestida de preto, maquiagem preta nos olhos, e, sobre a mesa, o livro que estava lendo: Drácula, de Bram Stoker. Dark e safada.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-94" title="DSC00482" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00482-300x225.jpg" alt="DSC00482" width="300" height="225" />O antigo Hotel Majestic deve ter sido – estou entrando no espírito gaúcho – um dos lugares mais grã-finos da América Latina, das Américas, do planeta, da galáxia. São dois prédios (na Rua da Praia, é claro) iguais, lindos, majestosos, cor de rosa!, com uma galeria no meio e passarelas ligando um ao outro em vários dos sete andares, e, no topo, duas abóbodas cor de rosa!, numa das quais, a mais próxima do porto e do rio, funciona um gostoso bar. Avista-se ainda o rio, mas, infelizmente, entre o Hotel Majestic e o porto permitiram a construção, lá pelas décadas de 50 ou 60, de horrendos prédios modernosos que tiram parte do que seria talvez a vista mais deslumbrante da cidade. Mary, como se estivesse jogando Sim City, ficou implodindo os monstrengos.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-95" title="DSC00484" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00484-300x225.jpg" alt="DSC00484" width="300" height="225" />Mário Quintana, o Carlos Drummond de Andrade deles, viveu tempos no hotel de salões amplos, pé direito alto, portas imensas, mármore no chão. E então agora ali é o Centro de Cultura do poeta maior da terra. Tem oficina disso e daquilo, teatro, biblioteca, o escambau. No térreo, abrindo para a galeria situada entre os dois prédios, há três salas de cinema e um bando de bares e restaurantes.</p>
<p>Estávamos voltando do Gasômetro, uma noite, em direção ao hotel, quando tropeçamos, ali na galeria do Centro de Cultura Mário Quintana, com a abertura do 5º Festival de Verão do RS de Cinema Internacional. Já tínhamos ouvido falar do festival, e até ido umas duas vezes à bilheteria do cinema do Santander Cultural perguntar pelo folheto com a programação, cuja impressão e distribuição tinha atrasado. (Tem horas em que se tem a sensação de que Porto Alegre, afinal de contas, fica no Brasil.) Mas não sabíamos que a abertura seria naquele dia, e ali. Pois era.</p>
<p>Montaram na galeria um cinema ao ar livre, como se faz nesses projetos tipo Cinemagia: baita tela, caixas de som, cadeirinhas de armar enfileiradinhas. Pensamos em ficar por ali para ver não exatamente o filme de abertura, mas um pouco do clima; na metade da galeria, quando terminavam as cadeirinhas armadas, havia mesas e cadeiras de um dos restaurantes do lugar, um tal Café dos Cataventos. Sentamos ali para beber, comer, ver o clima – e até mesmo dar uma olhadinha sem compromisso no filme, já que a tela estava lá adiante de nós.</p>
<p>O filme de abertura era o <em>Cantoras do Rádio</em>, um bom documentário sobre as próprias, misturando depoimentos e apresentações delas hoje. O som não estava lá essas coisas, então me enfiei mais para perto da tela para ouvir um pouco dos discursos de apresentação; falou um garoto jovem, que imaginei ser o diretor do filme, e que dedicou, sensata e um tanto populistamente, a sessão inaugural ao porto-alegrense Lamartine Babo. Na verdade, o filme foi dirigido por Gil Baroni e Marcos Avellar; não sei qual dos dois estava lá e falou; falha de repórter ruim que sempre fui. Estavam presentes, e falaram, duas das cantoras mostradas no filme – Carmélia Alves, com seus 80 e tantos lépidos anos, e Ellen de Lima, igualmente lépida e fagueira.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A língua da potência estrangeira, questão complexa</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-108" title="DSC00579" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC005792-300x225.jpg" alt="DSC00579" width="300" height="225" />Numa mesa próxima à nossa, atrás de nós, em relação à tela, havia dois senhores; quando a gente se sentou, eu até perguntei se eles não se incomodariam, e um deles disse com segurança que não atrapalharíamos nada. Enquanto o filme não começava, reparamos que um dos dois era alguém importante na área de cultura. Não dava para não reparar, porque havia praticamente uma fila de beija-mão junto da mesa dele. Depois conversaríamos com ele, e ele, uma figura simpática como praticamente todas as pessoas com quem falamos durante a viagem a Porto Alegre, em pouco tempo já nos tratava com se fôssemos velhos conhecidos.</p>
<p>Chama-se Pedro Costa. Um tipo interessantíssimo. Uns 65, talvez 70 anos, elegante, bem cuidado (embora beba muita cerveja e fume muito), desse tipo de gente rica e culta. Foi diretor de uma empresa que chegou a ter 50 cinemas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina; uma empresa dele hoje, a Panda Filmes, é uma das responsáveis pela realização daquele festival que estava sendo inaugurado.</p>
<p>O amigo que estava com ele, Clóvis, é um técnico da área de som, que tem no currículo uma passagem pela Rádio Eldorado. Brinquei que fomos colegas da mesma empresa. Lá pelas tantas, esse Clóvis chamou o dono do restaurante para vir conhecer os jornalistas de São Paulo – embora tivéssemos insistido no fato de que somos mineiros radicados em São Paulo, até porque, dissemos, nós mineiros e eles gaúchos temos muita coisa em comum, como os fatos de que exportamos gente para todo lugar do país, temos uma grande projeção nas diversas áreas de cultura e dos dois Estados sai, modéstia às favas, um bando de gente que sabe escrever.</p>
<p>Foi uma gostosa conversa, até tardão; fechamos o bar. Na saída, já de madrugadão, o Pedro Costa nos acompanhou até perto do hotel; não que houvesse perigo de assalto ou coisa parecida – apenas por gentileza. E também porque ele mora por ali, no Centro da cidade. Ao contrário do que acontece em tanto lugar, a classe média de Porto Alegre não abandonou seu Centro.</p>
<p>Uma beleza de cidade, Porto Alegre. Mary e eu concluímos que, se em vez de belo-horizontinos, fôssemos porto-alegrenses, muito provavelmente não teríamos saído de nossa cidade.</p>
<p>Antes da viagem, eu tinha brincado com os amigos que talvez fosse ter dificuldades com a língua do povo daquele país estrangeiro. Sandro achou que eu deveria ter adotado a política protecionista do ‘brazilian buy’ e passar as férias no Brasil mesmo: “Para que engordar a receita turística de uma potência estrangeira? Já que não há alternativa, pelo menos coma-lhes a picanha.” Já o Valdir disse que eu não deveria ter problemas, pois o gauchês é simples: “linguiça é salsichão, PM é brigadeano, menino é guri ou piá, farol é sinaleira, estádio de futebol é cancha, lanchonete é lancheria. Carne moída, boi ralado. Helicóptero, avião de rosca.”</p>
<p>Bem, os preços cobrados na potência estrangeira não são absurdos, e a picanha é maravilhosa. Já a questão da linguagem é complexa, bem complexa. (<em>E os exemplos dados pelo Valdir foram contestados por uma gaúcha legítima, Dininha Torres Luize, conforme se vê no belo comentário que vai aí abaixo.</em>) No aeroporto, pouco antes de embarcar de volta para São Paulo, comprei o Dicionário de Porto-Alegrês, publicado pela gaúcha e porto-alegrense L&amp;PM, atualmente na 14ª edição, revista e ampliada. O autor, Luís Augusto Fischer, vai logo explicando que existe o gauchês e existe o porto-alegrês – são coisas distintas.</p>
<p>Bah, tchê, e tu queres que a gente entenda aquele povo?</p>
<p><img class="alignleft size-large wp-image-101" title="DSC00639" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC006391-1024x768.jpg" alt="DSC00639" width="1024" height="768" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Paris</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Oct 2003 04:08:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Hemingway tinha razão: Paris é mesmo uma festa. Milhões e milhões de pessoas que souberam disso antes de mim tinham razão: Paris é escandalosa, despudorada, absurdamente linda. Comer e beber em Paris Ver comprova o que se sabe por ouvir dizer e ver nos filmes: há lugar demais para se comer e beber em Paris. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hemingway tinha razão: Paris é mesmo uma festa. Milhões e milhões de pessoas que souberam disso antes de mim tinham razão: Paris é escandalosa, despudorada, absurdamente linda.<span id="more-1239"></span></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Comer e beber em Paris</strong></p>
<p>Ver comprova o que se sabe por ouvir dizer e ver nos filmes: há lugar demais para se comer e beber em Paris. Parece que há mais lugares para se comer do que gente para comer. Será que os donos dos lugares e seus empregados saem do seu pra comer no vizinho?</p>
<p>Conforme ensinam os entendidos como o Saul Galvão e os já viajados como a Mary, há toda uma hierarquia militar nos lugares para se comer e beber. De soldado raso a general, há bares, crepéries, bistrôs, brasseries, restaurants. Não entramos nos lugares de capitão pra cima, é claro, mas, pelo que se vê, em todos há uma mesma regra: bebe-se e come-se apertado, mais perto da mulher do vizinho de mesa do que da nossa.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014800251.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1257" title="01480025" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014800251-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Só que, ao contrário do que acontece nas cantinas italianas dos filmes socialistas à la <em>Nós Que Nos Amávamos Tanto</em>, o fato de se sentar grudado nos desconhecidos da mesa ao lado não nos torna uma grande união solidária. Ao contrário: il faut fingir que estamos a uma distância civilizada do outro, e que não estamos ouvindo a conversa dele, e vice-versa. Mas – paradoxo – ao final da refeição não é incomum que o companheiro de lado se vire para você e se despeça como se fosse um conhecido dos tempos do colégio. Uma senhora de mais de 60 anos se despediu simpaticamente de nós ao sair do Pepone, um italiano miúdo como a generosidade dos americanos numa ruazinha pequena de Saint Germain, a Rue Gregroire; e uma moça très charmante de seus 40 e tantos fez o mesmo no Bristrô Saint Emillion, gostoso lugar na Rue de Harpes, na fronteira de Saint Germain com Quartier Latin, a duas quadras do Sena.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480025.jpg"></a>Há algo surpreendente no fato de que, na capital mundial da boa comida, os lugares pra se comer mais parecem aqueles hotéis modernos do supersuperpovoado Japão, onde os fregueses dormem em locais pouco maiores do que um armário ou escaninho pessoal de clube ou fábrica.</p>
<p>E o fato é que paga-se não tanto pela comida ou pela bebida, mas pelo preciosíssimo espaço que você ocupa à mesa. Assim, por exemplo, pagamos mais de 9 euros – cerca de 12 dólares – por uma água mineral (ruim e não gelada) e dois cafés puros em duas ocasiões, em que na verdade estávamos mais interessados em descomer e desbeber no toilette do estabelecimento do que nas iguarias servidas à mesa. (Mais sobre os preços das coisas no item específico.)</p>
<p>Mas de uma coisa não se pode reclamar: uma vez você instalado à mesa, o espaço é seu, não importa quantos pobres coitados se amontoem na fila de espera. O garçom que olhou pra você com desprezo na hora em que você entrou e fez seu pedido não sugerirá nunca, nem sequer da maneira mais sutil, que você se levante.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong><span style="text-decoration: underline;">Les carissimes </span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01450035.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014500351.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1249" title="01450035" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014500351-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>No final dos anos 80, começo dos 90, os brasileiros invadiam Buenos Aires à cata de quinquilharias, achando tudo baratíssimo. Saíam das lojas de artigos de couro ou outras do tipo dizendo “foi baratíssimo”. Numa sacada de brilho, o Paulo Totti os apelidou de los baratissimos.</p>
<p>Na Paris em que uma garrafa de água, pequeniníssima como os espaços nos restaurantes, custa 3,20 euros, ou quase 4 dólares, ou cerca de 11 reais, ou seja, umas dez garrafas de água de melhor qualidade, hoje há uma fantástica variedade de homo brasiliens, que se vangloria de ir às Galleries Lafayette e mandar baixar o estoque, e sai feliz da vida dizendo pras amigas: comprei coisas carííííssimas! Na fila para o check in de volta de Paris para São Paulo um ser dessa espécie exultava: tinha gastado uma média diária de 241 euros, excluído o hotel.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong><span style="text-decoration: underline;">Os franceses gostam quando você tenta falar francês</span></strong></p>
<p>Isso é o que sempre se diz. Pela minha humilde experiência, é uma lenda, uma invenção, uma criação literária sobre um país que adora a literatura (todos os escritores franceses são nomes de rues, avenues, boulevards).</p>
<p>Os franceses ficam très ennuyés quando você tenta falar francês com eles. Bom, ao menos com quem tem, como eu, um francês um pouco mais porco do que um imigrante argelino recém-chegado.</p>
<p>Você está lá tentando formar uma frase que não seja nóis vai, e ele já passa rápido, bored como um lord, para o inglês. Foi assim com a gente com garçons, atendentes de loja de disco, de tabaco, de bar.</p>
<p>Uma garçonete da Toastíssimo!, fast-food de uma rede, na Odeon, de imensos olhos verdes, me olhou como se eu fosse o mais horroroso dos ETs do bar do Star Wars volume 3, quando eu pedi um francesímo croissant, e vomitou pra mim: INERÔ! Mas não disse one euro, e por isso essa observação está fora do contexto.</p>
<p>Mary não concorda com essa minha impressão. Acha que os franceses gostam, sim, quando você tenta falar francês. E atribuiu minha impressão ao fato de que eu fico me cobrando falar um francês nativo tendo tido apenas parcas lições no ginásio.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong><span style="text-decoration: underline;">A falta de lógica dos preços </span></strong></p>
<p>No país de René cogito ergo sum Descartes, a lógica não impera – ao menos nos preços. Condescendente, cheio de boa vontade, fiquei imaginando que isso se devia, ao menos em parte, ao fato de que eles estão tendo uma experiência radicalmente inédita de estar lidando com uma nova moeda, depois de centenas de anos de convivência pacífica com o franco.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Um parênteses: o franco e o euro</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600011.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1251" title="01460001" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600011-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>O que requer um parênteses. O euro entrou em circulação definitiva em janeiro de 2002 – ou seja, um ano e dez meses antes da minha primeira visita a Paris. E entrou em circulação depois de um bom período de tempo de convivência com o franco: durante pelo menos um ano antes de janeiro de 2002, ao lado dos preços em franco gravava-se o valor em euro.</p>
<p>Aqui nesta terra bárbara, usou-se a URV, antecedente do real, durante uns três meses, e aí pá: entrou o real, dançou o cruzeiro. (Ou será o cruzeiro novo? Ou o cruzado novérrimo? Não me lembro mais.) Tudo bem: a comparação não é plausível, já que aqui trocamos mais de moeda do que eles de camisa, mas a troca de camisa deles já é assunto para outro tópico. Mas, cacildabecker, que gente danada de vagarosa, não?</p>
<p>Até agora, quase dois anos depois de o país ter uma nova moeda, tudo, mas radicalmente tudo, vem expresso nos dois valores: em euro, e também em franco, uma coisa que não existe mais, a não ser na história. Também tudo bem que eles gostam de história – e eles gostam demais; mas, cacildabecker, que dificuldade danada pra aceitar uma mudança, não?</p>
<p>Mary chegou a pensar que talvez a expressão dos valores em francos após um período tão longo de existência do euro fosse uma forma de mostrar aos franceses, na prática, que os valores das coisas não mudaram, que tudo continua como antes, que não houve inflação na passagem do franco para o euro.</p>
<p>Pode ser.</p>
<p>E, afinal, se aqui, na hora de comprar um disco, na capa viessem pregados os valores das moedas anteriores, como acontece lá, não poderia haver CD, nem compacto simples, nem 45 – só LPs duplos, pra haver espaço pro valor em cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado mais que novo, cruzeiro da zélia, pós-cruzeiro do funaro, mil-réis, etc.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A falta de lógica dos preços (2)</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460006.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1252" title="01460006" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460006-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Agora, se de fato a lógica dos preços lá não se dever à introdução da nova moeda, se os valores tiverem sido sempre esses mesmos, que louca é a lógica do país da lógica.</p>
<p>Uma Coca-Coca custa 3,20 euros, o mesmo preço de uma água mineral. Mas a mesmíssa Coca-Coca pode custar 0,50 euros como parte de um menu numa creperie do Boulevard Saint-Germain, ou 1,20 euros num vizinho mercado. OK, o Maksoud pode cobrar 20 reais por um Guaraná que custa 1,20 num bar ao lado, e isso é lógico.</p>
<p>Mas que tal esta? Um sanduíche quente com queijo, presunto, manteiga, custa 2,50 euros, enquanto uma água mineral custa 3,20.</p>
<p>Uma viagem de avião a Londres custa 29,50 euros, o equivalente a dois menus médios em qualquer lugar.</p>
<p>Uma bicicleta de várias marchas custa 145 euros, enquanto uma miniatura de super-herói, anunciada a poucos metros, ultrapassa 300 euros.</p>
<p>Ou seja: com uma miniatura de super-herói, vai-se a Londres e se volta dez vezes.</p>
<p>Uma passagem de metrô, com quantas transferências forem necessárias, custa 1,30 euros, quase três vezes menos que uma água mineral.</p>
<p>Uma revista mensal de papel de extraordinária qualidade, cheia de fotos, custa 3 euros, ou menos que uma Coca-Cola.</p>
<p>Ou ainda: compram-se três revistas mensais por menos do que se paga por dois cafezinhos e uma água de má qualidade, e quente.</p>
<p>Uma entrada para uma exposição extraordinária como a de 300 obras do Gauguin sobre o Taiti custa 7 euros, o preço de duas Coca-Colas. Menos que uma entrada de um cinema da rede mk2, que sai a 8,20 euros.</p>
<p>E o fato é que, além de ilógicos, os preços são altos. Paris é uma das cidades mais caras do mundo. Quando a gente precisa de suados 3,45 reais para comprar um único euro, então, aí é coisa de louco.</p>
<p>Só pra dar um pequeno exemplo. Ainda no free shop do aeroporto de São Paulo, anotei que a garrafa de Cutty Sark custava 14 dólares. Numa mercearia da Rue de Bac, a mesma garrafa do mesmo Cutty Sark custava 14,95 euros – e 1 euro vale 1,18 dólares!</p>
<p>Uma única dose de um uísque oito anos custa, nos mais simples lugares de se comer em Paris, 6 euros, ou até mais. </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Os nomes das praças e ruas</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01540027.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1253" title="01540027" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01540027-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>Cidade em que cada esquina reserva uma surpresa, em que cada casa antiga é umas 200 vezes mais preciosa que o conjunto da obra do Niemeyer, Paris, assim como a língua francesa, não se contenta com pouco. Há as mais variadas palavras para designar os acidentes geográficos urbanos. E todos são lindos, sonoros, charmosos: Place, Square, Carrefour, Quai, Rue, Avenue, Boulevard, Alée, Passage, Impasse.</p>
<p>Impasse não é fantástico?</p>
<p>Square também é uma delícia.</p>
<p>Por exemplo, a Place des Vosges, aquele conjunto arquitetônico que vale por umas quatro Brasílias. Ela é uma praça, certo? Um quadrado formado por construções em quatro ruas que formam um quadrado. Pois dentro dela existe a Square Louis XIII. Eta língua fantástica. Uma palavra para o contendor – as construções – e outra para o conteúdo – o jardim.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Os sons das ruas</span></strong></p>
<p>Nas ruas de Buenos Aires não se ouve tango, ao contrário do que seria normal se esperar. Nas ruas de Paris ouve-se ainda, neste início de novos século e milênio, o som que se espera ouvir nas ruas de Paris.</p>
<p>Nossa viagem teve o som das ruas de Paris no começo e no fim. No primeiro dia, a sexta-feira, 26 de setembro, depois de entrarmos na Notre Dame, fomos andando pela pracinha que fica atrás dela, à direita, junto do rio; sentamos num banco ao som de um velhinho que tocava ao acordeon – como se tivesse sido contratado para fazer isso naquele exato momento – “Sous le Ciel de Paris”. Era finalzinho da tarde; ficamos um bom tempinho sentados ali ouvindo o velhinho e observando se as pessoas que passavam davam bola ou dinheiro para ele. Algumas deram, sim, observou Marynha.</p>
<p>Um pouquinho adiante, tinha um grupo, na ponte que une a Île de la Cité à Île de Saint Louis, tocando um jazz.</p>
<p>No penúltimo dia, a segunda-feira, 6 de outubro, andávamos exatamente naquele mesmo lugar, os fundos de la Cité, diante da Saint Louis, quando vimos outro velhinho tocando acordeon. Era comecinho da noite, e chovia fininho. Paramos diante dele, no outro lado da ponte. Marynha atravessou a rua pra dar a ele 30 centavos de euro (e agora penso que fomos pão-duros, na nossa despedida dos sons das ruas de Paris). Marynha diz que ele agradeceu muito, sorriu e desejou “boa semana”.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460002.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1254" title="01460002" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460002-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Outros sons:</p>
<p>- Na frente da Notre Dame, dois violinistas tocavam um jazz bem swingado;</p>
<p>- Em um túnel de estação de metrô, não me lembro mais qual (passamos por tantas&#8230;), três sujeitos com cara de índios andinos tocavam naquelas flautinhas andinas – pífanos, segundo a Marynha – “Sounds of Silence” e depois “Let it be”.</p>
<p>- Também na praça diante da Notre Dame, à direita dela, na Nuit Blanche, um rapaz cantou “Revolution”, de <a href="http://50anosdetextos.com.br/1990/10/01/john-no-ceu-com-diamantes/">John Lennon</a>, acompanhando-se à guitarra. A voz era boa, a pronúncia das palavras muito nítida, mas o amplificador dele era uma droga absoluta, coitado.</p>
<p>- Na praça diante da Église de Saint-Germain de Près, a do café Les Deux Magots, onde Sartre tomava café e agora os turistas gastões se espremem feito bocós, cinco caras tocavam jazz tradicional.</p>
<p>- Juntinho do rio, na Ile de la Cité, na Nuit Blanche, um grupo de jovens mandava ver uma batucada até melhor que as que se ouvem nos botequins paulistanos. Pairava no ar um nítido cheiro de maconha e um clima de festa gostosa.</p>
<p>- Debaixo das arcadas centenárias da Place de Vosges, no domingão, 5 de outubro, um grupo grande de jovens – uns dez, pelo menos – tocava peças clássicas em cordas: violinos, violas, violoncelo. Uma mocinha bonita e simpática passava entre os turistas oferecendo exemplares dos dois CDs do conjunto, a 20 euros cada; agradeci polidamente, mas ela insistiu: E monsieur não quer dar algum para incentivar os rapazes? Monsieur, pão-duro e vindo do Tiers Monde pobre, não meteu a mão no bolso.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">O som de Deus </span></strong></p>
<p>Estávamos dando a volta no interior de Notre Dame, passando exatamente atrás do altar e do coro, quando o órgão centenário começou a tocar uma peça religiosa. Um senhor me entregou um papel tamanho ofício com os textos das orações e dos cânticos a serem executados – estava começando um ofício religioso. Dois padres entraram na área diante do altar, um coral de jovens tomou posição, e um solista – um garoto de não mais de 18 anos – começou a cantar bem diante de nós, ao microfone, com uma voz absolutamente angelical. Quasímodo, nas escadarias, deve ter suspirado profundamente.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Os anúncios no metrô e nas ruas</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460019.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1259" title="01460019" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460019-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Numa cidade de tantos eventos culturais (haverá alguma cidade no mundo com mais eventos culturais que Paris? Eu duvido. Nem Nova York, eu acho), nada mais natural que os anúncios de filmes, shows, peças, exposições, concertos, dominem a cena, nas ruas e nas estações do metrô. Anuncia-se mais cultura, em Paris, do que carros, comida, ou qualquer outra coisa.</p>
<p>Talvez o único item que chegue perto da cultura seja o turismo. Anuncia-se muito turismo, em Paris. Durante este período que passamos lá, o que predominava era uma campanha da British Airways para convencer os parisienses e os franceses de passagem por Paris a irem a Londres. Não havia uma estação de metrô sem um, dois, três ou mais anúncios dessa campanha:</p>
<p>Londres, Londres ou Londres? – era o titulão, em letras garrafais.</p>
<p>Embaixo, pequenininho:</p>
<p>3 aéroports: Gatewick, Heathrow et London City – E 29,50</p>
<p>Ou então o titulão:</p>
<p>E 29,50</p>
<p>E, pequenininho:</p>
<p>Londres est plus proche que vous ne l’imaginez.</p>
<p>O Eurostar, que faz o trem Paris-Londres, via Eurotúnel, replicava, mas numa campanha bem mais modesta e menos visível:</p>
<p>Plus vite au centre de Londres. 2h35. E, em corpo menor: 2h35: meilleur temps de parcours.</p>
<p>Uma campanha que me impressionou era sobre violência. Em cada estação de metrô, havia um painel dela, com uma foto de um jovem e o grande título:</p>
<p>La violence, moins on en parle, plus ça fait mal</p>
<p>Embaixo, o nome da campanha, e, acho, um telefone para contato:</p>
<p>Jeunes Violence Écoute.</p>
<p>Me pareceu que é uma campanha sobre a violência doméstica contra os jovens. Mas não é absolutamente claro; pode ser sobre a violência dos próprios jovens. Não sei.</p>
<p>O tema violência voltará em seguida, logo abaixo. Infelizmente.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/janis.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600291.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1276" title="01460029" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600291-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Nos anúncios culturais, de tudo. A gigantesca exposição da fase Taiti do Gauguin no Grand Palais em reforma. O novo disco da Cesária Évora e sua próxima turnê por Paris, em 2004. (Anunciam-se eventos culturais com uma antecedência colossal.) A próxima turnê dos The Doors 21<sup>st</sup> Century, sem Jim Morrison, enterrado no cemitério de Père-Lachaise (onde estão também Edith Piaf, Yves Montand e Simone Signoret, entre tantos outros). <em>Hedda Gabler</em>, peça do Ibsen dirigida por <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/o-inquilino-le-locataire/">Monsieur Polanski</a> en personne, com Madame Polanski, Emmanuelle Seigner, no papel título. (“Cette jeune femme passionée entretien une saine ambition, celle d’apprendre, de s’améliorer”, diz dela o <em>Figaro</em> de 7 de outubro.) A versão teatral de <em>Les Demoiselles de Rochefort</em> no gigantesco Palais des Congrés, em frente do qual passamos de ônibus voltando de La Défense (e que fez o <em>Figaro</em> dar a última página com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/houve-uma-vez-um-verao-verao-de-42-summer-of-42/">Michel Legrand</a>, em que o jornal confessa que a França andou meio esquecida do grande músico). Uma peça com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/medos/">André Dussollier, o ator de Resnais</a>. Uma peça com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/kimera-uma-estranha-seducao-the-inner-life-of-martin-frost/">Irène Jacob</a>, a atriz do Kieslowski. Uma peça com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/1986/um-homem-uma-mulher-vinte-anos-depois-un-homme-et-une-femme-vingt-ans-deja/">Richard Berry, o ator do Lelouch</a>, com texto adaptado por ele, Berry. Os filmes de ação e aventura da estação – <em>Bad Boys II</em>, com Will Smith, <em>A Liga Extraordinária</em>, com Sean Connery. Os filmes românticos da estação – <em>Le Divorce</em>, <em>Je reste!</em></p>
<p>Mas, dentro do capítulo anúncios culturais, um filme se sobressaía, e demais – <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/janis-e-john-janis-et-john/">Janis et John</a></em>. <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/janis-e-john-janis-et-john/">Janis et John</a></em> estava em todos os lugares da cidade. (O filme estrearia no dia 15 de outubro, poucos dias depois de nossa volta ao Brasil, que foi no dia 7.) E o que seguramente mais impressionava nos anúncios todos não eram as figuras lendárias de Janis Joplin e John Lennon (acharam um ator muito, muito parecido com ele), mas a da atriz que faz Janis, Marie Trintignant.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Un million et demi de femmes battues</span></strong></p>
<p>Umas duas décadas atrás, uma tragédia assombrou o mundo, mas especialmente as pessoas mais bem informadas, mais intelectualizadas: um grande filósofo francês – Louis Althusser – teve um acesso de loucura, matou a mulher, dentro de seu apartamento em Paris, e em seguida se matou, ou tentou se matar, não me lembro bem.</p>
<p>Já a tragédia de Marie Trintignant, dessa vai ser difícil esquecer.  </p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/marie.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1261" title="marie" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/marie-300x207.jpg" alt="" width="300" height="207" /></a>Ela aconteceu em junho – tão pouco tempo atrás. Três meses, apenas, antes da nossa estadia em Paris; três meses e meio antes da estréia do último filme que Marie Trintignant concluiu na vida.</p>
<p>Dentro de poucos dias ela estará nas telas. Já está nas fotos em todas as ruas, nas estações de metrô, na pele de Janis.</p>
<p>Está nas bancas de revista, na capa da <em>Paris Match</em> datada de 2 a 8 de outubro – uma foto de Nadine Trintignant em sua casa, ao lado de um porta-retrato com uma foto preto e branco de Marie, com o título: “La haine est en moi” – o ódio está em mim.</p>
<p>Está em exposição, com grande destaque, em todas as livrarias, o livro de Nadine, “Ma fille, Marie”.</p>
<p>Li as 38 primeiras páginas do livro no vôo de volta para o Brasil. Não é propriamente bem escrito – é um tanto desagradável o fato de Nadine escrever o tempo todo dirigindo-se à filha morta; vai e volta no tempo talvez um tanto desnecessariamente; não relata objetivamente os fatos da tragédia – mas não se poderia mesmo esperar objetividade, é claro. O que não se pode dizer ou pensar é que Nadine esteja fazendo sensacionalismo. Ou melhor, ela está, sim, fazendo sensacionalismo, mas claramente por uma causa. Ela quer vingança.</p>
<p>E quem não iria querer vingança contra o assassino de sua filha?</p>
<p>Os anúncios no metrô pedem que se fale às claras sobre a violência envolvendo os jovens – quanto menos se falar da violência, piores ficam as coisas. Melhor remexer no lodo que fica embaixo da água, melhor deixar a merda subir à tona, melhor expor a imundície.</p>
<p>Nadine Trintignant bota a boca no mundo contra a violência dos machos diante de suas mulheres, essa chaga aberta fenomenal que não poupa a nação que se orgulha de ser uma das mais civilizadas do mundo:</p>
<p>“Les ‘femmes batues’. Comment leur dire de ne pas accepter? Jamais! Elles sont un million et demi en France. En 1999, il n’y a eu que dix-sept mille plaintes. La plupart de cogneurs ont bénéficié de non-lieux. Un sur trois a été jugé. Ils ont écopé de peines avec sursis.”</p>
<p>O Brasil viveu uma experiência um tanto semelhante com o assassinato da jovem Daniela Perez, atriz da Rede Globo e filha da famosíssima autora de novelas Glória Perez. Glória, assim como Nadine, foi à luta contra os assassinos da filha. Causou comoção nacional.</p>
<p>Mas a tragédia de Marie Trintignant é ainda mais brutal. É muito mais brutal – o assassino é o amante! E acontece não num obscuro país do Tiers Monde, mas no coração de uma família da mais alta nobreza do cinema da pátria da solidariedade universal. </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Que triste cidade, a minha </span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460027.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1264" title="01460027" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460027-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Tempos atrás, a Miryam Lúcia, a minha amiga que virou americana, fez cara de nojo sobre São Paulo, vomitou sobre a péssima qualidade de vida daqui. Achei que era frescura de quem, como na música, voltou americanizado.</p>
<p>Em Paris, pela diferença, pelo contraste, senti fundo, na pele, na barriga, como é triste a cidade que escolhi pra viver.</p>
<p>E não é pela beleza de Paris, tão estrondosa quanto a feiúra de São Paulo. Nem pela quantidade de lindíssimos jardins, praças, parques, monumentos. Nem pela diferença tão chocante entre o Sena verde-escuro e o Tietê negro. É por tudo isso também, é claro. Mas é, sobretudo, pela tal da qualidade de vida.</p>
<p>As cidades acontecem nas ruas, muito, muitíssimo mais do que nos locais fechados. (Eu já sabia disso quando tinha 21 anos e, foca, fiz uma bela matéria sobre o carnaval do Recife, a grande festa que estava, na época, correndo o risco de deixar as ruas para se esconder nos clubes.)</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01450002.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1262" title="01450002" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01450002-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>O povo lota as ruas de Paris. Indiferente aos bandos de turistas, ao frio, à chuva, o povo lota as ruas. Formam-se bolos de gente nas esquinas, no meio das quadras, para se decidir onde ir em seguida, ou simplesmente para se conversar. Casais se agarram pelos cantos ou pelos centros. Famílias passeiam – os pais parecem um tanto impacientes com suas crianças, é verdade, mas isso é outra coisa. Os espaços diante das igrejas ficam cheios, aos domingos; as pessoas conversam na rua antes de entrar na igreja, ou depois de sair da igreja. Os 200 trilhões de bares, crepéries, bistrôs, brasseries, restaurants abraçam a rua, debruçam-se sobre a rua, avançam sobre a rua; in é estar out. As pessoas tomam as ruas no sábado, no domingo, nos dias de semana, de tarde, de noite. Pessoas muito jovens, pessoas muito velhas, pessoas entre uma coisa e outra. A rua é das pessoas, como a praça é do povo, o céu é do condor, todo mundo na praça, quanta gente sem graça no salão. </p>
<p>São Paulo perdeu a rua.</p>
<p>O centro e os centros dos grandes bairros de São Paulo ficam cheios de gente que está indo pro trabalho ou voltando do trabalho, ou indo fazer compra, ou indo tomar providência, ou indo fazer alguma coisa. Não há gente nas ruas pelo prazer de estar nas ruas, para encontrar pessoas, para se distrair, para sentar num banco de praça. Quando há gente, é gente andando, indo – nunca parando. À noite, as ruas ficam desertas, sem pessoas, só com carros. </p>
<p>São Paulo virou uma brasília, aquele triste lugar sem esquina, sem rua, autorama.</p>
<p>Não importam os motivos – se é a violência, se são os assaltos, os seqüestros relâmpago, ou a praga dos shopping centers, esses assassinos de cidades. O fato é que São Paulo há muito tempo perdeu a rua, o prazer da rua. Isso é que é o mais chocante de tudo – e essa noção terrível fica estupidamente clara na comparação com o reboliço constante das ruas de Paris.</p>
<p>Mais do que a diferença entre a beleza de Paris e a feiúra de São Paulo, o Sena e o Tietê, o casario escandalosamente bonito de lá e o cinzento dos prédios sem graça ou estilo daqui, os dois mil anos de civilização de lá e a nossa pobreza daqui, o que choca é essa disparidade do povo na rua.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">O Estado</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460012.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1263" title="01460012" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460012-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Paris é muito provavelmente a cidade mais cheia de grandiosidade que existe no mundo.</p>
<p>Não que tudo seja grandioso. Como já mais do que ressaltei, os espaços nos lugares pra se comer, por exemplo, são ínfimos. E há muita beleza em coisas pequenas, como as ruas apertadinhas da Île Saint Louis, do Quartier Latin ou de Saint Germain; as minúsculas lojas de miniaturas; as miniaturas; as casinhas centenárias; os pequenos edifícios tortos; as pracinhas tomadas por pequenos cafés ou restaurantes, como a Place du Marché Saint Catherine, no comecinho do Marais, ou a Place de la Contrescarpe, no início da Rue Mouffetard, ou a Place du Tertre, em Montmartre, só pra citar três em que a gente andou.</p>
<p>A própria edificação que para mim é a mais impressionante de todas, a Notre Dame, não é gigantesca; é muitíssimo menor, acho, que a Igreja de São Pedro, em Roma, a Saint Paul Cathedral, em Londres, ou talvez até a Saint Patrick, em Nova York. É menor até, acho, do que outras igrejas da própria Paris – a Basílica de Sacre-Coeur, em Montmartre, ou a Saint Eustache, na boca do que hoje é o Forum des Halles.</p>
<p>O quadro mais procurado pelos turistas, a Mona Lisa – que, é claro, não perdi tempo para ver – é pequetitinho, assim como a mais famosa escultura, a Vênus de Milo.</p>
<p>Voltando, então: não que tudo seja grandioso. Mas, cacildabecker, quanta grandiosidade tem ali.</p>
<p>Pegue-se o Hotel des Invalides, e o imenso espaço gramado à frente dele. O Champs de Mars. O Louvre. O Pantheon. O domo atrás dos Invalides. O Hotel de Ville. As Tuileries. A moderníssima Grande Arche. São espaços e construções monstruosos, monumentais, gigantescos, faraônicos, bourbônicos, absolutísticos.</p>
<p>São espaços e construções que só um Estado forte, poderoso, rico, concentrador, taxador, esfoliador da população, poderia construir. Não é nada da iniciativa privada. É do Estado absoluto.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480017.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1266" title="01480017" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480017-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>E é um Estado absoluto que permanece absoluto, por mais que passem as revoluções. Estão lá, hoje, os espaços e construções gigantescos mandados construir pelos reis Bourbon da época do L’État C’Est Moi, convivendo com os mandados construir por Napoleão, aquela figura miúda que é a própria encarnação da mania de grandeza, até mesmo no número de pessoas que suas guerras assassinaram, e que veio depois da grande Revolução de 1789, feita para acabar com a monarquia tão absoluta quanto absurda. E pelos Napoleões que vieram depois dele, e que depois viriam também a ser derrubados. E até pelos presidentes das diversas repúblicas que vieram nos últimos 130 anos, seja de direita, Pompidou e seu Beaubourg, seja de esquerda, Mitterrand e suas grandiosidades, Grande Arche, nova Biblioteca Nacional, Pirâmide do Louvre.</p>
<p>É tudo tão grandioso, e tão centenário, que tudo precisa passar eternamente por reformas. Assim, neste ano de 2003, 13 anos após o fim do Império Soviético e da supremacia sem qualquer rival do neocapitalismo selvagem, nesta época de Estados fracos, enfraquecidos ou em processo de enfraquecimento, nesta era das privatizações, de enxugamento das máquinas, de crescimento pequeno da economia mundial, Paris é um imenso canteiro de obras de reformas, feitas pelo Estado.</p>
<p>Na Avenue Winston Churchill, que separa o Grand Palais do Petit Palais, há placas quase tão gigantescas quanto o poder do Estado, informando que a Prefeitura de Paris está reformando o Petit e o Estado está reformando o Grand. O Estado &#8211; nenhuma outra palavra. “L’État restaure Le Grand Palais.”</p>
<p>Estão em reforma, com o dinheiro de L’État, além do Petit e do Grand Palais: o museu L’Orangerie, o Arco do Triunfo, a torre esquerda da Notre Dame, a ala esquerda do conjunto do Trocadéro, os vãos da Pont Neuf. Além de uma ou duas estações de metrô de cada uma das 13 linhas mais antigas – a 14ª foi concluída por Mitterrand. Em diversos boulevards, instalam-se faixas exclusivas de ônibus, inclusive na contra-mão – “Paris est un grand chantier”, constatou para nós o Jean-Marie, motorista de táxi negro honesto como São Francisco de Assis.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460029.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480016.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480014.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1269" title="01480014" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480014-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>O poder do Estado, na França, vai atravessando, incólume, os ciclos da história – o absolutismo da monarquia, a grande Revolução, as brigas internas pós-Revolução, o terror, a era napoleônica, a implantação do império, a comuna, a invasão prussiana, a instalação da república, duas guerras mundiais e inclusive a invasão nazista, a Quinta República, o colapso do centralismo estatal comunista, a era do desmanche do Estado.</p>
<p>É o Estado que convoca o povo a invadir as ruas, os monumentos e os prédios públicos, na Nuit Blanche, uma invenção recentíssima, de apenas dois anos. É o Estado que informa aos usuários de ônibus que, por causa de manifestação reivindicatória programada por trabalhadores, haverá atrasos em determinadas linhas, entre tantas e tantas horas. É o Estado que subsidia a agricultura improdutiva – e foda-se o resto do mundo.</p>
<p>Ali ao lado, em dez anos o regime Thatcher esvaziou o inchado Estado britânico, privatizou ferrovias, metrô, minas de carvão, telecomunicações, enquanto seu pupilo canastrão do outro lado do oceano arrasava a assistência pública aos enjeitados pelo sonho americano. O poder do Estado francês se manteve igual, de Pompidou a Miterrand a Chirac.</p>
<p>Chose de lóque.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Pingos nos is: a tal da iniciativa privada</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01540003.jpg"></a>Nada do que está aí acima quer dizer que só existe o Estado. Existe também, é claro, a iniciativa privada. Não há apenas guindastes gigantescos nas obras estatais – constrói-se muito, também, com dinheiro de investidores. E como existem os tais guindastes. É impressionante. Em todos os cantos da cidade.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400031.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1271" title="01540003" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400031-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>O melhor exemplo de como o Estado moderno faz a coisa gigantesca e o capital privado vem atrás é, sem dúvida, a Paris Nova, a região de La Défense. La Grande Arche (e põe grande nisso: meu estômago veio na garganta na hora de subir o elevador panorâmico no gigantesco vazio entre o chão e o teto da Grande Arche) foi feito pelo Estado; uma das estruturas verticais é ocupada por ministérios, enquanto a outra é tomada por grandes empresas, para quem seguramente o Estado vendeu ou alugou os espaços. E, na imensa esplanada diante da Grande Arche, o que se vê é o capitalismo do final do século 20, as gigantescas corporações, Citibank, Eléctricité de France, IBM, Apple, as big redes hoteleiras.</p>
<p>E aí me ocorre que o Mitterrand foi assim, mais ou menos, mutatis mutandi, uma espécie de Roosevelt do New Deal: o Estado forte puxa, o privado vem atrás.</p>
<p>Isso me parece muito mais Terceira Via do que a do Blair lambe-botas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Por falar nisso (1)</span></strong></p>
<p>E aí, só para enfatizar que as velhas noções de esquerda e direita (inventadas, aliás, na própria França) estão cada vez menos nítidas e mais confusas, basta lembrar como têm sido “esquerdas” as posições do direitista Chirac com relação ao Império Dominante, e como têm sido “direitas” as posições do trabalhista Blair.</p>
<p>E não só com relação ao Império Dominante.</p>
<p>Nossa imprensa não conta, até porque nossa imprensa é uma droga tão gigantesca quanto os monumentos que o Estado construiu em Paris, mas da mesma forma como a França “direitista” tem sido quase condescendente com o turismo jovem e a imigração, a “trabalhista” Inglaterra do Blair tem sido odiosamente discriminatória. Como bem demonstrou o caso dos guardinhas da Alfândega de Heathrow que mandaram de volta brasileiros que não sabiam responder a perguntas sobre os Beatles. E como bem demonstraram os casos contados pela mocinha gaúcha que se sentou ao nosso lado na viagem de volta – vários brasileiros rejeitados nas alfândegas do Império Britânico, sem qualquer explicação plausível, lógica ou admissível. </p>
<p style="text-align: center;"><strong>Por falar nisso (2)</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400081.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400082.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1275" title="01540008" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400082-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>Saiu há pouco um livro de um estudioso francês sobre <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/eua-europa-uma-relacao-de-amor-e-odio/">as semelhanças e as diferenças entre França e Estados Unidos, sobre o amor e o ódio</a> que os franceses têm pelo país dos Founding Fathers que aprenderam na França as noções básicas sobre a civilização (que, aliás, em seguida rapidamente seriam perdidas). Numa entrevista, o camarada simplificou as coisas da seguinte forma:</p>
<p>Os americanos, descendentes de colonizadores que dizimaram nações indígenas e roubaram-lhes as terras, contam com um dia bom após o outro, com a acumulação. A lógica deles é o <strong>e</strong> e o <strong>e</strong>. Os franceses, descendentes de camponeses, sabem que depois de um ano bom pode vir um ano ruim. A lógica deles é o <strong>ou</strong> e o <strong>ou</strong>.</p>
<p>Pode ser simplista. Mas é bonitinho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Deux ou Trois Choses que Je Sais d’Elle</span></strong></p>
<p>Un:</p>
<p>Sobre o mito de que os franceses não tomam banho e fedem, posso dizer uma coisa: vimos que muitos, mas muitos, mas muitos franceses se overdressem, com perdão pela palavra inexistente. Botam roupa demais.  </p>
<p>Chegamos no início do outono; os primeiros dias foram quentes, os últimos, bem frios. Nos dias quentes, vimos franceses com um bando de casacos desnecessários, enquanto nós, do país tropical, estávamos em mangas de camisa, só carregando na mão algum agasalho para quando o frio da noite ou da sombra chegasse.</p>
<p>Vai daí que eles entram no metrô com blusa de lã e casaco por cima. E haja suor. A condescendente Marynha lembrou que afinal eles estão saindo do verão mais absurdamente quente da história; eu mesmo observei que é mais cômodo entrar no metrô com as roupas quentes e passar um pouco de calor do que ficar tirando e pondo agasalho toda hora.</p>
<p>Mas o fato é que eles se agasalham excessivamente.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01520020.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1277" title="01520020" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01520020-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Deux:</p>
<p>Sim, é verdade que eles andam com o pão embaixo do braço.</p>
<p>Alguns quebram a baguette ao meio pra entrar no metrô. Mas muitos andam com a baguette inteira, imensa, compriiiida, debaixo do braço.</p>
<p>E, sim, eles comem na rua. Andando, ou sentados nos bancos, eles comem. Seja pão com pão, seja sanduíche. </p>
<p>Trois:</p>
<p>Eles fazem mais filhos do que seria de se supor pelas estatísticas de crescimento populacional quase zero. Tem criança pacas nas praças e nos jardins – e, como tem praças e jardins demais&#8230;</p>
<p>Muitos, mas muitos pais demonstram uma imensa falta de saco pra passear com os filhos.</p>
<p>Há muita francesa de mais de 30 anos tendo filho. E, portanto, muita francesa fazendo tratamento hormonal para ter o primeiro filho. E, portanto, muitos gêmeos. Vimos montes de gêmeos.</p>
<p>Quatre:</p>
<p>Como a capital do Império Britânico, como a capital do Império Dominante, a capital do Império Francês foi <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-cinema-e-uma-arma-quente-contra-o-racismo-e-a-xenofobia/">invadida pelos colonizados</a>. Paris deve ter mais negros que muita capital africana, mais árabes do que muita cidade da Argélia, Marrocos, Costa do Marfim. Paris é uma Babel. Paris é a vingança dos oprimidos.</p>
<p>Cinq, et ça suffit, et fin:</p>
<p>Paris é uma festa.</p>
<blockquote><p><em>Outubro de 2003</em></p></blockquote>
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