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	<title>50 Anos de Textos &#187; Reportagens</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Carlos Cachoeira, cidadão honesto e trabalhador</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 00:18:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Se alguém disser a Carlos Cachoeira que é um bandido e deve ser preso, ele acha graça. Não é cinismo. Esse Carlos Cachoeira é pessoa de bem. Só tem o mesmo nome do outro, o poderoso bicheiro, cheio de tentáculos, investigado pela CPI do Congresso. Carlos Cachoeira Ibanez é contador, casado, com filhos. Mora em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se alguém disser a <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/o-cachoeira-do-itaim-bibi/">Carlos Cachoeira</a> que é um bandido e deve ser preso, ele acha graça. Não é cinismo. Esse Carlos Cachoeira é pessoa de bem. Só tem o mesmo nome do outro, o poderoso bicheiro, cheio de tentáculos, investigado pela CPI do Congresso.<span id="more-6957"></span></p>
<p>Carlos Cachoeira Ibanez é contador, casado, com filhos. Mora em Interlagos, na zona sul de São Paulo. Diz que procura manter o humor, porque as brincadeiras são inevitáveis. “Até minha professora de espanhol faz piada. Fica dizendo para eu desviar dinheiro para a conta dela.”</p>
<p>O que Carlos não gostaria mesmo nada é que o chamassem pelo diminutivo, como se faz com o bicheiro. “Graças a Deus não me chamam de Carlinhos.”</p>
<p>Estas poucas palavras foram tudo o que Carlos disse. Como outros Cachoeira procurados pelo <em>DC</em>, não quis saber de reportagem, muito menos com família, fotos. O propósito da pauta era mostrar como vivem os Cachoeira comuns, trabalhadores e honrados. Um contraponto a Carlinhos Cachoeira, o bicheiro. Mas a simples referência a este nome parece causar arrepios.</p>
<p>Um empresário do Cambuci enviou esta resposta: “Obrigado pelo contato, mas gostaríamos de ficar anônimos.” Um vereador de cidade do sul da Bahia, que criou página na internet sobre os Cachoeira, despistou o repórter por dois dias.</p>
<p>Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, vive uma Cachoeira, empresária, que busca as origens de sua família. Ela informou que ainda não chegou a resultados. E sobre pedido de entrevista: “A respeito da pessoa que usa Cachoeira como apelido, lamento, mas pela repercussão do caso, qualquer exposição na mídia, mesmo para mostrar que não existe conexão com os verdadeiros Cachoeira, é uma ideia que não me agrada”.</p>
<p>Em São Paulo, Rodrigo Cachoeira, 22 anos, técnico em edificações, foi ao ponto: “Ter o nome exposto fica ruim para a família Cachoeira.” A exposição do nome no noticiário o exaspera. “Fico bravo com isso, esse sujeito (o bicheiro) estar sujando o nosso nome”. Pois, afinal, “quando falam Cachoeira no noticiário, as pessoas que nos conhecem podem pensar ‘será que é parente do Cachoeira’?”</p>
<p>A situação, para Rodrigo, é ainda mais grave, “quando se sabe que o sujeito não se chama Cachoeira, é apenas um apelido.” A família mora na Ponte Rasa, na região da Penha, zona leste de São Paulo. Em curta conversa por telefone, Rodrigo diz que seu avô paterno veio da Bahia.</p>
<p>Não tem mais detalhes. Sabe apenas que, em São Paulo, o avô se instalou como feirante. Teve sete filhos. Um deles, o pai de Rodrigo, é metroviário. Teve, por sua vez, seis filhos.</p>
<p>Rodrigo conta que é chamado pelos amigos de Cachoeira. “Eu gosto, é um nome bonito.” Se num lugar público, uma lanchonete, chamam seu nome, todo mundo olha? “Não sei, nunca notei.” Ele pesquisou nas redes sociais, e encontrou cinco pessoas com seu nome e sobrenome. “É uma família grande, mesmo. Será que aqueles são meus primos?”</p>
<p>A advogada aposentada Zenaide Cachoeira da Silva, que mora na Liberdade, perdeu o pai há 17 anos. Sabe que sua família veio de Vitória da Conquista, na Bahia, a 512 quilômetros de Salvador. O pai era agricultor, e aqui trabalhou como taxista.</p>
<p>Zenaide diz não ter “interesse especial” pelo noticiário sobre Carlinhos Cachoeira, o bicheiro. “Também não me preocupo com o nome dele, não tem nada a ver com a família Cachoeira. Cada um responde por seus atos.”</p>
<p>Há dois anos, o gol de um craque deu ao ABC de Natal, no Rio Grande do Norte, o título mais importante do Estado. Sagrou-se campeão brasileiro da série C. O jogador por pouco não se inclui entre os que têm relação com o nome Carlinhos Cachoeira. Estamos falando, neste caso, do atacante Cascata.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio</p></blockquote>
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		<title>O Cachoeira do Itaim-Bibi</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 00:12:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Parece improvável, mas nunca se sabe, que Carlinhos Cachoeira venha a ter uma rua batizada com seu nome. Já João Cachoeira, que abria a porteira para o patrão passar, deu nome à mais conhecida rua do Itaim Bibi – o valorizado bairro no sudoeste de São Paulo. Cachoeira, o Carlinhos, era filho de um motorista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Parece improvável, mas nunca se sabe, que <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/carlos-cachoeira-cidadao-honesto-e-trabalhador/">Carlinhos Cachoeira</a> venha a ter uma rua batizada com seu nome. Já João Cachoeira, que abria a porteira para o patrão passar, deu nome à mais conhecida rua do Itaim Bibi – o valorizado bairro no sudoeste de São Paulo.<span id="more-6954"></span></p>
<p>Cachoeira, o Carlinhos, era filho de um motorista de caminhão que morava com a mulher e uma penca de filhos em uma fazenda de Araxá, Minas Gerais. O nome da fazenda era Cachoeira. O motorista chamava-se Sebastião Almeida Ramos, mas ficou conhecido como Tião Cachoeira.</p>
<p>Certo dia, Tião Cachoeira resolveu mudar de profissão e de cidade. Assim chegou a Anápolis, Goiás, com a família. Trabalhou um pouco como camelô, mas acabou se envolvendo com o jogo do bicho. Fez carreira. De cambista, que anota as apostas, passou a sócio de um bicheiro.</p>
<p>O nosso Cachoeira, o João, vivia em um lugar chamado Chácara do Itahy. As terras não valiam muito, por serem inundáveis. Em compensação, eram um paraíso para caçar e pescar, e apanhar frutas das incontáveis árvores. Cenário propício para um episódio que faria jus a um romance do nosso José de Alencar.</p>
<p>O dono das terras era um general, José Vieira de Couto Magalhães. O general nunca casou; viveu e morreu solteiro. Mas, em certo momento de sua vida, conheceu uma índia do Pará, e se relacionou com ela. Da aventura nasceu um menino, batizado José Couto de Magalhães. Quando o pai morreu, José herdou a chácara. Mas vendeu-a para um tio, irmão do general.</p>
<p>O filho deste, Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, um dos herdeiros, morou na chácara a vida toda.</p>
<p>Hoje dá nome a outra importante rua do Itaim Bibi. Destinos cruzados: a rua corta a João Cachoeira.</p>
<p>João vivia com a família de Leopoldo. O que se registra, hoje, é que era um agregado. Brincava com as crianças, contava histórias e cantava. Um de seus trabalhos era abrir a porteira da chácara, quando alguém da família saía ou chegava. “Mas quando procurado, onde está o João? A resposta era: o João está na cachoeira.”</p>
<p>É isto que conta um estudioso do bairro, o professor Helcias Bernardo de Pádua, presidente da Associação Grupo Memórias do Itaim-Bibi. A cachoeira em questão era uma pequena queda d´água do Córrego do Sapateiro, que corria ali perto. O pequeno curso d’água ainda existe, mas não está mais à vista. Foi canalizado.</p>
<p>Há uma segunda versão, que Helcias considera menos provável. “João era alegre, violeiro e frequentador das vendinhas da época, onde bebia. Ficava sempre numa água só, ou seja, bêbado.” Seja como for, Cachoeira vivia bem. “Era muito querido pela família Couto de Magalhães e grande amigo, desde pequeno, de Leopoldo Couto de Magalhães Júnior.”</p>
<p>O Cachoeira dos escândalos de hoje, Carlinhos, tinha 13 irmãos. Quando seus pais se separaram, ainda nos primeiros tempos, quatro dos filhos ficaram com Cachoeira pai. Um deles, Cachoeira filho &#8211; Carlinhos. Como se disse, estavam em Anápolis. Tião Cachoeira e o sócio expandiram seus domínios do jogo do bicho pela cidade.</p>
<p>Carlinhos demonstrou talento para o negócio. Assumiu a parte do pai e não parou mais. Jogo do bicho, bingo eletrônico, caça-níqueis. Seu império não cabia mais em Anápolis. Mudou para Goiânia, a capital. Enredou políticos, empresários e policiais. A história toda deve ser contada na Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI, em curso no Congresso Nacional.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>O esplendor dos filmes japoneses na Liberdade</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Apr 2012 17:35:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma menina de quatro anos ia ao cinema, sem saber o que era cinema. O grande carro preto importado – o táxi – partia da Rua da Cantareira, onde a família morava e trabalhava. No banco da frente, o pai, de terno e gravata. Atrás, bem penteadas e vestidas, a mãe e as duas irmãs. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6828" title="zzjapa2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa2.jpg" alt="" width="760" height="530" /></a>Uma menina de quatro anos ia ao cinema, sem saber o que era cinema. O grande carro preto importado – o táxi – partia da Rua da Cantareira, onde a família morava e trabalhava. No banco da frente, o pai, de terno e gravata. Atrás, bem penteadas e vestidas, a mãe e as duas irmãs.<span id="more-6815"></span> A menina ia em pé, segurando-se em uma correia. Era uma corrida curta, até um dos quatro cinemas do bairro da Liberdade. Em cartaz, filmes japoneses. Que tal aquele com o grande Toshirô Mifune?</p>
<p>A menina Olga não podia assistir aos filmes; a idade mínima era cinco anos. Então, ganhava uma “casquinha” com caramelos, e ficava sob os cuidados da funcionária da bilheteria. De vez em quando, corria até o cortinado verde, no fim do saguão, e espiava por uma fresta. Via um lugar escuro, cortado por um facho de luz. Isso lhe parecia muito misterioso, mas sentia que alguma coisa importante estava acontecendo. Por que seu pai saía de lá pensativo, e sua mãe, muitas vezes, enxugando os olhos?</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia42.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6824" title="zzjoia4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia42-300x243.jpg" alt="" width="300" height="243" /></a>Se Olga, hoje a cineasta Olga Futemma, voltasse ao único sobrevivente daqueles quatro cinemas veria o mesmo prédio, reluzindo como novo. O Cine Jóia, com o formato de um diamante, viveu dias inesquecíveis nas décadas de 1950 a 1980. Depois, serviu de templo evangélico. Há quatro meses é uma badalada casa de shows.</p>
<p>Uma reforma deu-lhe três ambientes, mas manteve alguns elementos originais. A lotação de 1.500 pessoas está frequentemente no limite. Kurosawa, quem? Os gritos dos samurais do imortal diretor japonês não ecoam mais por ali. O que reverbera hoje é a voz amplificada de cantores do momento, ou o som metálico das bandas.</p>
<p>“Quando eu tinha nove anos, resolvi ir ao cinema sozinha”, recorda Olga. “A censura era para dez anos. Eu fiquei me preparando para dizer que tinha essa idade. Quando cheguei ao cinema, e perguntaram, acabei dizendo que tinha nove anos. Então eu quis saber que tipo de filme uma menina de nove anos não pode ver, e uma de dez pode. E me deixaram entrar. Era um filme de espadachim muito violento, lembro dos braços sendo cortados.”</p>
<p>Ela não sabia, mas estava testemunhando a época de ouro do cinema japonês. Produções que faziam sucesso em outras partes do mundo podiam ser vistas naqueles quatro cinemas da Liberdade. <em>Guerra e Humanidade</em>, do diretor Nakasi Kobayashi, um épico com nove horas de duração, foi o filme que mais a marcou. “Uma obra-prima, apresentada em três programas de três horas.”</p>
<p>Aquelas fitas em preto e branco encantaram também muitos diretores de cinema que nada tinham a ver com o Japão. Um deles, Walter Hugo Khouri, admitiria mais tarde ter absorvido em sua obra muito do intimismo dos mestres japoneses. E o diretor de teatro Antunes Filho considerou os filmes “a revelação de um outro mundo”. Escreveu, em artigo recente: “Sabor trágico, dramático, os rostos e posturas imóveis, de sentido enigmático, fatal”.</p>
<p>Os avós de Olga cumpriram a saga dos imigrantes japoneses. Desceram de um navio em Santos, e foram para o interior, trabalhar na lavoura. Em 1937, estavam em São Paulo. Um arranjo de famílias resultou no casamento dos pais da cineasta, juntos até hoje. Como ganharam a vida? Em um mercadinho ao lado do Mercado Central, na Rua da Cantareira. O pai como atacadista, a mãe vendendo legumes. Lazer? O cinema.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa12.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6896" title="zzjapa1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa12.jpg" alt="" width="760" height="584" /></a>“Chegávamos e víamos a fila na porta. Parecia um espaço de footing (onde se trocam olhares). As moças na fila, todas chiques. E os rapazes do outro lado da calçada, alguns encostados em carros, ou em bares.” Algumas famílias levavam a caixinha com o bentô. Na caixinha, descreve Olga, havia geralmente bolinhos de arroz e acompanhamentos. O bentô era mais frequente em cinemas do interior.</p>
<p>Na sala escura, na parte de baixo da cena exibida, vazava uma luz, que resultava na legenda do filme. Uma máquina importada, o contratipo, fazia queimaduras com a forma de letras no celuloide (a película com as cenas). Pela área queimada passava luz. Assim, era possível ler as letras.</p>
<p>Olga podia entender a ação de <em>Barba Ruíva</em>, o filme que mais a agradou. Toshirô Mifune no papel de um médico que ensina aos recém-formados o significado humanitário de seu trabalho. Direção de Akira Kurosawa. Ela assistiu aos 30 filmes que Kurosawa dirigiu, em 50 anos de atividade. Entre eles o consagrado <em>Os Sete Samurais</em>, de 1954, com o mesmo Toshirô Mifune.</p>
<p>“Mas aos 14 anos, com minhas irmãs, aprendi o caminho para a cidade além da Liberdade. Nos cinemas do centro, me afundei nos filmes de Hollywood, maravilhosos”. Os samurays e heróis de enredos dramáticos foram trocados por Doris Day e Rock Hudson&#8230;</p>
<p>Depois, Olga dedicou-se ao cinema brasileiro, formou-se em cinema na Escola de Comunicação e Artes, ECA, da Universidade de São Paulo, USP. Hoje é um dos diretores da Cinemateca Brasileira. Uma profunda conhecedora dos filmes japoneses. Sobre os tempos dos cinemas da Liberdade, diz que houve “uma convivência feliz da força da colônia japonesa com a extraordinária, maravilhosa produção do cinema japonês – que, na época, só perdia para a cinematografia italiana”.</p>
<p>Um neto de japoneses, Alexandre Kishimoto, integrante do Grupo de Antropologia Visual da USP, Gravi, também mergulhou nessa história. Em “A experiência do cinema japonês no bairro da Liberdade”, sua tese de mestrado em antropologia social, detalha fatos daquelas marcantes três décadas.</p>
<p>“Ir ao cinema, para as famílias japonesas, era um programa extraordinário”, diz. “Era ritualizado, elas não tinham outra opção de cultura e lazer.” E acessível: os ingressos saiam baratos.</p>
<p>“Iam as famílias, suas crianças, amigos e vizinhos. Colegas de escola. Todos com roupa bem cuidada, em respeito ao decoro das salas de cinema.” (Na época, as salas do centro da cidade exigiam dos homens gravata e paletó.)</p>
<p>O trabalho de Alexandre conta que em 1952, quando surgiu na Liberdade, o Jóia era um simples cinema de bairro. As outras três salas viriam depois: Niterói, Tókio (mais tarde Nikkatsu) e Nippon. Passados sete anos, a empresa japonesa Toho alugou o Jóia, para exibir com exclusividade seus filmes. A Toho tinha as fitas de diretores de renome internacional, como Mikio Naruse, Elzo Sugawa e Kurosawa. Foi assim durante dezenove anos, de 1959 a 1978.</p>
<p>Depoimentos colhidos por Alexandre descrevem o Jóia como um cinema grande (987 lugares), com sala de espera muito pequena. A fachada era verde, grande e bonita. Mas a mais simples e desconfortável dentre as quatro salas. As cadeiras, de madeira, são descritas como muito finas. Se a pessoa colocasse o joelho ou o pé nas costas da cadeira à sua frente, quem estava nela sentia a pressão. O que causou o declínio desses cinemas foi a ausência cada vez mais acentuada de público. O motivo foi o mesmo, para salas de todo o País. A chegada do videocassete transferiu os filmes para a tela da TV.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Nas fazendas do interior,</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>cinema ao ar livre para os trabalhadores</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>e suas famílias</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os imigrantes japoneses do interior faziam festa quando o velho caminhão chegava, com suas tralhas. Este caminhão podia ser um Ford “Pé de Bode”. As tralhas, um projetor de cinema, um gerador, um pedaço de pano branco. Ah, sim. E havia aquele homem, o katsuben.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia3.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-6821" title="zzjoia3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia3-1024x704.jpg" alt="" width="1024" height="704" /></a>Estamos falando de 1926, 1927. O cinema ambulante corria as fazendas onde os japoneses trabalhavam. Na hora marcada, o dono estendia um pano branco, que seria a tela. Energia elétrica muitas vezes não existia. Mas havia o “Pé de Bode”. Uma roda de trás em movimento acionava um gerador, e este alimentava o projetor (perfeito, não fosse o barulho).</p>
<p>A platéia esperava, sentada no chão, em cima de um pano. Quando o filme começava, empolgava-se; as crianças, principalmente. Mesmo que fosse um documentário. As histórias de ficção, as preferidas, tinham geralmente o defeito de ser curtas.</p>
<p>Eram tempos do cinema mudo. Por isso estava lá o Katsuben. Ao lado da tela, ele narrava e explicava o filme, com o tom de voz e expressões exigidas pela cena. Dramáticas, hilárias. Muitas vezes, o narrador era mais aplaudido do que o filme. Não era nada difícil que o celulóide se rompesse no meio da exibição. Às vezes no melhor momento da história. Enquanto se consertava a fita, os adultos tomavam um pouco da pinga trazida de casa.</p>
<p>Não se comprava ingresso, mas davam-se contribuições. O dinheiro era colocado num envelope, com o nome do pagador. Antes da exibição, o dono do cinema dizia: “Vamos proceder aos agradecimentos pelas contribuições recebidas”. E lia os nomes dos envelopes. O dono era justo. Se o filme a ser exibido fosse curto, haveria uma segunda sessão.</p>
<p>(Os dados sobre o cinema nas fazendas do interior paulista foram extraídos da tese de mestrado “A experiência do cinema japonês no bairro da Liberdade”, de Alexandre Kishimoto. As fotos são do Acervo Alexandre Kishimoto.)</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O treino para o Mundial de Dominó é no bar</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/o-treino-para-o-mundial-de-domino-e-no-bar/</link>
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		<pubDate>Fri, 30 Mar 2012 18:08:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Entre bolinhos de bacalhau e coxinhas, a Federação Paulista de Dominó forja seu destino. Sua sede não tem pompa, mas o agradável clima de uma confraria de vizinhos de bairro. Onde os vizinhos se encontram? No Bar do Valdeci. Pois o bar, em Cidade Patriarca, na zona leste, é a sede da Federação. O dominó, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entre bolinhos de bacalhau e coxinhas, a Federação Paulista de Dominó forja seu destino. Sua sede não tem pompa, mas o agradável clima de uma confraria de vizinhos de bairro. Onde os vizinhos se encontram? No Bar do Valdeci. Pois o bar, em Cidade Patriarca, na zona leste, é a sede da Federação.<span id="more-6685"></span></p>
<p>O dominó, em São Paulo, sempre foi um jogo agradável e descompromissado. Aposentados são vistos à sombra de árvores, em praças, distraindo-se com ele. Pois hoje é um esporte, com Estados brasileiros preparando-se para disputar o campeonato mundial. Como o de futebol, o Mundial de Dominó de 2014 será no Brasil. Pena que, por aqui, esse esporte não seja reconhecido oficialmente.</p>
<p>Cidade Patriarca fica adiante da Penha, zona leste adentro. Não tem agência de banco, nem de correio; o comércio, disperso, oferece apenas um pequeno supermercado. Mas o bairro pode se orgulhar de ter uma federação paulista, justamente a de dominó. No começo eram meia dúzia de pessoas que, aos domingos, se distraiam com o jogo. Em 2000, resolveram disputar campeonatos. Fundaram o Unidos do Dominó, no ponto de encontro – o Bar do Valdeci.</p>
<p>Hoje, como antes, o Valdeci prepara pessoalmente os petiscos. Quando há reunião de diretoria da federação, ocupa seu posto de diretor financeiro. O presidente da entidade, por sua vez, perfila-se entre os que aperfeiçoam sua técnica nas mesas do bar. É Manoel Mendes Vieira, o Nildo, um representante comercial em vias de se aposentar.</p>
<p>Muitas vezes Nildo mais atua como presidente do que joga dominó. A luta da federação é consolidar o dominó como esporte oficial, e conseguir patrocínios para disputar campeonatos pelo País, e fora dele. Tarefa complicada.</p>
<p>No ano passado, em janeiro, foi fundada a Confederação Brasileira de Dominó, com sede em Brasília. Em novembro, teve lugar, na cidade, o 1º Torneio Oficial de Duplas. De Cidade Patriarca partiram o que Nildo chama “os dez heróis”. Ele e os outro nove foram à capital do País, participar do torneio, “por conta própria”, como diz Nildo. Ou seja, com dinheiro do próprio bolso.</p>
<p>Comerciantes do bairro, em todo caso, “entraram com alguma coisa”. Os nomes deles estão estampados nas costas da camisa oficial da Federação Paulista de Dominó, envergada pelos jogadores durante a disputa. Ela tem 13 listras pretas e gola vermelha, “as cores da bandeira paulista”. No torneio, Brasília ficou com o primeiro lugar. São Paulo, com o sétimo.</p>
<p>A pedida, agora, é o campeonato mundial de duplas da Jamaica, no Caribe, em junho. Os jogadores classificados em Brasília (não é o caso de São Paulo) terão recursos para ir? As experiências anteriores não recomendam nada.</p>
<p>O dominó tem dois mundiais por ano. Os brasilienses participaram dos da Costa Rica e na Abcácia, na ex-União Soviética, ambos no ano passado. O critério foi o “vai quem pode”. Os próprios competidores pagaram passagens e hospedagem. As entidades do dominó têm buscado patrocinadores, mas é tarefa inglória. As empresas não se animam porque ainda vêem o dominó como um passatempo de idosos.</p>
<p>Em maio do ano passado, entidades estaduais foram recebidas pelo então ministro interino do Esporte, Vicente Neto. O ministro prometeu apoiá-las institucionalmente. Em termos práticos, o que isso significa? “Apoio moral”, diz Nildo. Orientação, por exemplo, para montar processos de acesso à Lei do Incentivo ao Esporte, caminho para atrair patrocinadores.</p>
<p>O ministro não se comprometeu com o reconhecimento oficial do esporte. “Disse que para ser reconhecido basta jogá-lo.”</p>
<p>Entre os dominoístas, como chamam a si próprios, estava o presidente da Federação Internacional de Dominó, FID, Lucas Guittard. Citou Nildo, por ter sido o primeiro brasileiro a fazer contato com a federação, hoje sediada nos Estados Unidos. “Dei o pontapé inicial”, diz o referido, na mesa da diretoria, no Bar do Valdeci. Em janeiro último, os representantes dos Estados estiveram com o ministro dos Esportes Aldo Rebelo. Tratou-se do campeonato mundial de 2014 no Brasil. Rebelo elogiou a iniciativa, e prometeu apoio institucional.</p>
<p>Enquanto isso, os dias passam tranquilos no Bar do Valdeci, há 17 anos na mesma rua. “Este bairro parece uma cidadezinha do interior, todos se conhecem”, diz o proprietário, de trás do balcão. “Se um estranho entra no bar, é trazido por um conhecido nosso.” Os que jogam dominó ocupam as mesmas mesas que a freguesia comum, entre as que ficam nos fundos da casa. O lugar é adornado por troféus, alguns grandes, conquistados nas partidas de dominó na região.</p>
<p>A federação ocupa o andar de cima. Nesse espaço, desimpedido, são jogadas as partidas dos campeonatos. Perto da janela, há uma mesa maciça, guarnecida pelas bandeiras brasileira e paulista. Nela a diretoria despacha. Nildo passa ao visitante um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona, na Espanha, sobre a relação entre o dominó e o mal de Alzheimer. O trabalho diz que a atividade intelectual e a sociabilidade, proporcionadas por esse jogo, podem reduzir o risco de se contrair a doença.</p>
<p>O Valdeci deixa que o presidente Nildo fale sobre dominó. Mas pode dar conselhos sobre sua cozinha. Alerta que o bacalhau congelado, vendido nos supermercados, não é bom para fazer bolinhos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>No dominó, não há drible, gol de placa,</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>exibição de boa forma física.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>grande virtude está na concentração</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É proibido falar, claro. E usar o celular. As mãos têm que estar sobre as pernas, imóveis. Quando a mão se mover para pegar uma pedra, e colocá-la em jogo, o gesto tem que ser direto e determinante. “Pedra pegada, pedra jogada”, diz a tradição, apoiando a regra. Se a mão vacilar, o juiz pune. O faltoso perde pontos.</p>
<p>Nos campeonatos de dominó, os jogadores comparecem com a camisa do clube. Vistosa, como as do futebol. E, como neste, o juiz tem à mão o cartão amarelo e o vermelho. E mais um, o negro. No jogo de duplas, o palco da disputa são uma mesa e quatro cadeiras. Os parceiros, agora como em um jogo de buraco, sentam-se frente à frente.</p>
<p>Duas duplas, 28 peças de dominó, com seus pontinhos desenhados, de um a seis (algumas sem pontinho, valor zero). Sete peças por jogador. No geral, as partidas duram 300 pontos ou 55 minutos. Mas podem ser menores, de 30 a 80 pontos, por exemplo. Em grandes eventos, com 40 mesas, há cinco ou seis juízes de olho. E pessoal da organização do torneio.</p>
<p>A única concessão ao rigor é a “pensada”. Na sua vez, o jogador demora alguns momentos para agir. Isso funciona como um sinal para seu parceiro. Ele tem que entender o que o autor da “pensada” está justamente pensando, o que está querendo. A experiência e a concentração fazem com que isso seja possível. O parceiro, então, joga de forma a favorecer o pensador.</p>
<p>Os juízes e fiscais ficam atentos a outra possibilidade, esta proibida: o trampo. O jogador pode erguer sutilmente um ombro (por exemplo) e assim dar ao parceiro o sinal da jogada a ser feita. No Maranhão, diz Manoel Mendes Vieira, da federação paulista, o trampo é tolerado. Isso, afinal, pode tornar as partidas mais divertidas. Mas está descartado em campeonatos nacionais.</p>
<p>No comum, se o juiz perceber alguma irregularidade levanta o cartão amarelo, como advertência. Na reincidência ou caso mais grave, ergue o vermelho. O infrator perde de 10% a 20% do total de pontos da partida (em uma de 300 pontos, pode ficar sem 60, 20%). O cartão negro expulsa o jogador, em caso de indisciplina. Discutir com o adversário ou o próprio parceiro, por exemplo.</p>
<p>Se o jogador pegar a pedra e a deixar cair, terá que colocá-la sobre a mesa, à vista de todos. Na sua vez de jogar, é obrigado a usá-la assim que for possível. Se a pedra se encaixa em uma jogada, não pode deixar de fazê-la, mesmo que isso lhe seja desinteressante.</p>
<p>No dominó, não há drible, gol de placa, exibição de boa forma física. A grande virtude está na concentração. Se Ronaldo jogasse dominó, com suas excepcionais qualidades, ainda seria o Fenômeno.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tudo é muito novo, na organização do esporte.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A Confederação Brasileira de</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Dominó foi criada em janeiro de 2011</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Campeonato Mundial de Dominó de 2014, a ser disputado em Brasília, em setembro, deverá contar com mais de 300 duplas de esportistas, vindos de 37 países. Destas, pelo menos cem serão brasileiras. Em junho, o Brasil participa do Mundial da Jamaica, no Caribe, com duas duplas. Depois haverá outro na Venezuela; há dois campeonatos por ano.</p>
<p>Quem serão esses nossos craques? Não há nomes de destaque ou favoritos. As duas duplas vão surgir das disputas em campeonatos estaduais e nacionais. O próximo nacional está previsto para ocorrer em São Paulo, em março. Com essas disputas, a Confederação Brasileira de Dominó, Conbrad, está criando um ranking de jogadores, ainda inexistente. Tudo é muito novo, no esporte. A Conbrad foi criada em janeiro do ano passado.</p>
<p>Os brasileiros que nos representarão certamente são craques, mas isso não basta. Sem patrocínio ou outro apoio financeiro, o jogador tem que custear viagem e estadia. Para o Mundial de Brasília, espera-se que este problema esteja resolvido.</p>
<p>A decisão sobre o Mundial no Brasil foi tomada em junho do ano passado, na Costa Rica, na América Central, que sediou um mundial daquele ano. A Federação Internacional de Dominó, FID, com sede na Flórida, Estados Unidos, nomeou o Brasil como integrante, e deu-nos o mundial.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi escrita para o <a href="http://www.dcomercio.com.br/">Diário do Comércio</a>, e publicada na edição de 20 de março de 2011.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Um bom 2012. Se o ano não acabar</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/um-bom-2012-se-o-ano-nao-acabar/</link>
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		<pubDate>Sat, 31 Dec 2011 16:41:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[2012 é um ano interessante, para muitos místicos e videntes: tem fim do mundo. Crêem que no dia 21 de dezembro o sol nascerá alinhado com o centro da Via Láctea, coincidindo com o fim do calendário maia. Isso destruirá a Terra. Se não for assim, acredita outra corrente, um corpo celeste chamado Nibiru, ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>2012 é um ano interessante, para muitos místicos e videntes: tem fim do mundo. Crêem que no dia 21 de dezembro o sol nascerá alinhado com o centro da Via Láctea, coincidindo com o fim do calendário maia. Isso destruirá a Terra.<span id="more-6095"></span></p>
<p>Se não for assim, acredita outra corrente, um corpo celeste chamado Nibiru, ou Planeta X, se chocará (na mesma data), com nosso planeta. A Nasa, a agência espacial americana, se deu o trabalho de desmentir. Mas o frisson está no ar.</p>
<p>Outra previsão, esta sem desmentido: o Corinthians será o campeão paulista de 2012. O autor desta profecia se assina ZYON3000, em página da web. Prevê, em compensação, que o Palmeiras vencerá o Campeonato Brasileiro.</p>
<p>Ficaria mesmo bom para os times paulistanos, se a previsão de Mãe Dinah, vidente famosa, se concretizasse: o São Paulo vencerá a Libertadores, embora eliminando o Corinthians. Isso não vai acontecer, pois o time do Morumbi está fora do torneio. Mas tem que se dar um desconto: Mãe Dinah entende de sua arte, não de futebol.</p>
<p>Na política, outro conhecido vidente, José Acleíldo, tem uma boa notícia para a presidente Dilma Rousseff. “Dilma terá muita vantagem, já que o 2012 será comandado por, entre outros signos, Sagitário, o mesmo da presidente”, disse em seu site (abaixo, como será o ano dos sagitarianos).</p>
<p>E Lula? Os búzios, a numerologia, as runas (baseadas em pedras) prevêem melhora de saúde. Mas o tarólogo (joga as cartas) Maurício Mantelli é mais otimista. Diz que Lula vai voltar à política com muita força. “Estará tão bem, que vai tentar a presidência novamente.” Lula para presidente, quem diria&#8230;</p>
<p>No embalo do otimismo, vai também José Acleíldo. O Brasil virou vitrine do mundo. Em 2012 será o berço da conciliação mundial e do diálogo. O Rio de Janeiro, por sua vez, sofrerá “limpeza profunda”. “Poderemos atravessar aquela cidade com nossos anéis e relógios, sem sermos molestados.”</p>
<p>Não fala em limpeza em Brasília, onde mora. E prevê que, apesar das acusações de malfeitos, o governador Agnelo Queiroz conseguirá “concluir seu destino político”.</p>
<p>Em outra área, a artística, uma espécie de obituário premonitório frequenta blogs e sites. Mas a informação desejada – quem vai morrer em 2012 – não é confirmada por búzios, cartas de tarô, números, mapa astral, guias de pais e mães de santo.</p>
<p>Em um deles: “Famosa apresentadora da TV brasileira deve falecer em 2012”. Podia-se talar também em famoso cantor. A aposta na morte de Hebe Camargo e Roberto Carlos vem de pelo menos 2008, e no entanto eles continuam sãos e lampeiros.</p>
<p>Os dois estão em uma lista de 12 nomes, ao lado de Sílvio Santos, Sean Connery, Michael Douglas e Roger Moore. Antes dos nomes, há uma advertência: “Essa lista não afirma quais artistas morrem em 2012, apenas mostra os que devem cuidar melhor da saúde.” Toc, toc, toc (três pancadas na madeira).</p>
<p>Na área ambiental, no drama do aquecimento global, o Brasil não vai mal, a se confirmarem as premonições de Juscelino Nóbrega da Luz, premonitor. Num vislumbre de 31 anos, até 2043, enumera os países que mais sofrerão com o fenômeno.</p>
<p>Holanda em primeiro lugar. Japão em quinto. Estados Unidos em sétimo. No fim da lista o Egito, 70% do continente africano, Rússia, China e, no 52º lugar &#8211; o topo -, o menos prejudicado, o Brasil. Apesar disso, Juscelino alerta para tempestades em vários Estados e aconselha: “Proteja sua família, pois os ventos ficarão muito piores a partir do ano que vem.”</p>
<p>O astrólogo Guilherme Salviano, há 23 anos vergado sobre o mapa asstral, tem uma informação que traz grande alívio: o mundo não vai acabar em dezembro de 2012. “Assim como em 2011, 2000, 1999, 1988, e em outras diversas vezes, em que alguns provavelmente ouviram algo a respeito, o novo fim do mundo marcado para 2012 certamente passará batido”, escreve em seu site.</p>
<p>Tudo não passa de uma confusão criada pelo fim do calendário maia, de 5126 anos. “É como se a conta de dias do calendário começasse em 3114 antes de Cristo e se encerrasse no final de 2012”. Neste período, ocorrerá apenas o final do calendário. “Se isso fosse o fim do mundo, o mundo acabaria todo 31 de dezembro.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Os sagitarianos</strong></p>
<p>A presidente Dilma Rousseff estará muito bem em 2012, porque é de Sagitário. E esse será um dos signos que comandará o ano, como revela o vidente José Acleíldo.</p>
<p>A astróloga Andréia Modesto traçou o horóscopo de Sagitário para 2012. Alguns trechos:</p>
<p>“É antes de tudo um signo de autoridade, um signo masculino de concentração e poder. Não raro é franco demais ou economiza palavras, falando pouco e tendo pouco interesse em se expor.”</p>
<p>“Nos últimos tempos, Sagitário aprendeu muito sobre relacionamentos. É um signo de temperamento forte e refletiu bastante sobre quando se doa e quando se pode receber nas relações.”</p>
<p>“É possível que encontre espaço para (&#8230;) vencer desafios, sobretudo no primeiro semestre de 2012, considerando que muitas das posições planetárias já marcaram o ano de 2011.”</p>
<p>“Se existirem gastos excessivos no primeiro semestre, poderá ter que apertar o cinto depois de agosto.”</p>
<p>“Cuidados com a saúde, porque pode ganhar peso, pular de um manequim para outro, e o fígado sofrer com isto também.”</p>
<p>Em suas previsões, José Acleíldo descobriu que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, tentará impressionar Dilma para uma possível formação de chapa à vice-Presidência.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada do </em>Diário do Comércio<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Em um site, o mar sem fim</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 16:34:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Aviso aos navegantes da web. Tempo bom e vento a favor para quem estiver disposto a viajar pelos quase 7.500 quilômetros da costa brasileira, descobrir sua dramática realidade, sua beleza, riqueza cultural, tradições. A partir de hoje, um clique em http://www.marsemfim.com.br/ oferecerá ao navegante 45 horas de documentários, cerca de 4 mil fotos, mapas, dezenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aviso aos navegantes da web. Tempo bom e vento a favor para quem estiver disposto a viajar pelos quase 7.500 quilômetros da costa brasileira, descobrir sua dramática realidade, sua beleza, riqueza cultural, tradições.<span id="more-5780"></span></p>
<p>A partir de hoje, um clique em <a href="http://www.marsemfim.com.br/">http://www.marsemfim.com.br/</a> oferecerá ao navegante 45 horas de documentários, cerca de 4 mil fotos, mapas, dezenas de entrevistas com professores universitários, ambientalistas, técnicos do governo, e gente simples e sofrida, os nativos.</p>
<p>O navegante ainda pode escolher outro destino, a Antártica. Esta expedição, que o levará à Ilha Rei George, onde está a base brasileira, resultou em cinco horas de documentários.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar41.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5785" title="zzmar4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar41.jpg" alt="" width="700" height="464" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O criador do site e autor de todo o material é João Lara Mesquita, da família proprietária do jornal <em>O Estado de S. Paulo</em>. Apaixonado pelo mar desde criança, esse foi seu caminho natural quando deixou o comando da Rádio Eldorado de São Paulo, em 2003.</p>
<p>Capitão amador, transformou-se em um minucioso explorador e documentarista. Em uma viagem de dois anos (2005 a 2007) palmilhou a nossa costa. Partiu da foz do Rio Oiapoque, no Amapá, e chegou a Rio Grande, no sul do Rio Grande do Sul.</p>
<p>Durante a viagem, mandava para a TV Cultura episódios do documentário que ia produzindo, o <em>Mar Sem Fim</em>. Foram 90 episódios de meia hora, que somaram 45 horas.</p>
<p>“Afirmo sem medo de errar: este é um dos mais completos sites privados em conteúdo sobre o mar e a zona costeira”, diz João.</p>
<p>A programação para o ano que vem já está pronta. Ainda no primeiro semestre aproa o barco para o Norte. Vai refazer a viagem pela costa, desta vez no sentido contrário, de Rio Grande para o Amapá. A viagem estará no site e na TV Cultura.</p>
<p><em>Mar Sem Fim</em> não é apenas o nome do documentário já produzido e desse por fazer. Nem só o deste site. Foi o nome do veleiro usado na primeira viagem; e é o do barco atualmente em uso.</p>
<p>João é entusiasta da vela, mas a expansão de seus projetos obrigou-o a trocar seu veleiro por um troller. É uma traineira, um barco de pesca grande, robusto, de grande autonomia, que os americanos adaptaram para embarcação de cruzeiro. O de João tem 20 metros, três cabines e leva até seis pessoas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5786" title="zzmar2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar2.jpg" alt="" width="276" height="183" /></a>O barco é um dos personagens na viagem à Antártica. A expedição resultou também em uma caixa com três DVDs, que estão sendo lançados agora: <em>Mar Sem Fim/ Viagem à Antártica</em> (veja em <a href="http://www.marsemfim.com.br/livros-dvds">Livros/DVDs no site</a>).</p>
<p>João criou um site de apoio durante a viagem de dois anos pela costa. Queria mostrar o que não cabia nos episódios da televisão. “Fazia uma entrevista de duas horas com um especialista, e tinha que escolher um minuto para pôr no ar.” Na viagem à Antártica, abriu “mais um pedaço no site”. Depois, incorporou um blog. ”Ficou confuso, feio, difícil de navegar”.</p>
<p>Precisava de um site novo, para colocar todo o conteúdo que acabou juntando (tem 25 mil a 30 mil fotos). Uma amiga o ajudou na criação do site. Abriu nele um banco de imagens, que podem ser compradas (há boa procura) por publicações. Mas basicamente está à disposição de estudantes e pesquisadores da costa brasileira.</p>
<p>O www.marsemfim.com.br é, por assim dizer, um site com trilha sonora. Basta clicar em Música p/ Navegar, e escolher uma das seleções. A música acompanhará a navegação pelo site. Nisto entrou a formação de João, que estudou música e foi programador de rádio (a Eldorado).</p>
<p>A página inicial do site poderia ser a foto de um belo recanto do litoral. Mas João buscou algo diferenciado. Assim, ao abrir a página, o navegante se depara com a foto da tela de um radar, que domina todo o espaço. O radar é o do barco de João.</p>
<p>Faz sua varredura, ao mesmo tempo em que soa o código morse: três toques curtos, três longos, três curtos. Ou seja, SOS, o pedido internacional de socorro. “É um recado subliminar”, explica João. “O pedido de socorro dos nossos mares.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Tem que ocupar. Uma ocupação bem feita, ordenada, com regras”</strong></p>
<p>Na entrevista exclusiva abaixo, João Lara Mesquita conta como se transformou num especialista da costa brasileira entrevistando mestres, e depois se deslocando aos lugares para ver tudo com seus próprios olhos. A situação dramática que testemunhou também está relatada aqui.</p>
<p>“Eu sempre gostei de mar. Tive sorte de ter pai que gostava de pescar e desde o final dos anos sessenta (aos doze anos) comecei a sair de barco com ele. Eu nunca gostei daquele programa, eu sentia uma atração e repulsa ao mesmo tempo. Porque meu pai é pescador, é obcecado, fanático. Pescava doze horas por dia e eu achava aquilo um horror, chatíssimo, enjoava. Mas eu gostava do ambiente, gostava do mar. Quando ele parava de pescar eu dizia, que delícia, que espetáculo, que paisagens.</p>
<p>Durante os anos setenta, tive o privilégio de assistir as costas entre Rio de Janeiro e São Paulo desocupadas. Era antes da BR-101. Nós chegávamos a passar quinze a vinte dias em Angra dos Reis sem ver vivalma. E depois abriu a estrada, que não tinha um plano de ocupação, de zoneamento. Em três, quatro anos, detonaram o litoral. Se não tem regra de ocupação é o Deus dará.</p>
<p>Eu não sou xiita, como alguns ecologistas que dizem ‘não pode ocupar’. Tem que ocupar. Tem que fazer girar a economia, tentar fazer com que a vida desse pessoal que está na costa melhore. Agora, você pode fazer uma ocupação bem feita, ordenada, com regras. E você mantém aquela beleza para o resto da vida.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Frágil, sob pressão</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzjoão.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5787" title="zzjoão" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzjoão-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>“O saneamento básico no Brasil é uma piada. Ninguém quer fazer porque custa muito caro, é uma obra demorada, ninguém vê e não dá voto. No Brasil só 20% só do nosso coco e xixi recebem algum tipo de tratamento. E isso tudo se reflete no litoral. Nós temos uma densidade muito mais alta no litoral que no interior, dezessete metrópoles brasileiras estão na costa. Esse lugar onde existe uma tremenda pressão humana, uma pressão gigantesca de ocupação, é um lugar fragilíssimo. Como dizem os especialistas, é uma zona de encontro entre o mar e o continente, assolada por ventos, por maré, por ressaca, há uma série de forças naturais que maltratam essa faixa de zona de transição.</p>
<p>E nós adoramos o mar, a praia, vamos viajar e se constroem casas, fazem condomínios, hotéis, em lugares onde não pode. Tudo isso, mais os esgotos mal tratados, está contribuindo para a gente detonar a vida dos oceanos. E se a costa brasileira já não tinha estrutura , hoje, com a redução da pobreza, há 31 milhões de pessoas a mais.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Aulas antes do embarque</strong></p>
<p>“Quase todos os professores que entrevistei diziam: o poder público não nos ouve, não nos chama’. Ou seja, quando vão fazer uma obra preferem chamar uma ONG, um guru qualquer. Não vão à faculdade, onde estão os brasileiros pagos com dinheiro público. O professor fica a vida inteira estudando o mangue, a duna, sabe tudo daquilo, e não é chamado.</p>
<p>Na série do Mar Sem Fim, era estratégia nossa antes de começar qualquer Estado ver o que ele tem. Praia, costão, serra. Então íamos procurar os especialistas nisso para eles explicarem. Eu virei um expert. Com cada um desses eram duas horas, duas horas e meia. Depois, a gente fazia as perguntas e gravava. E a seguir eu entrevistava ambientalistas, procurava as ONGs, em cada Estado. Por fim, buscava a secretaria estadual ou municipal do Meio Ambiente.</p>
<p>Só depois a gente pegava o barco e fazia a costa. Então, eu fui aprendendo coisas do arco da velha. Geologia, biologia marinha, e aí ficava ainda mais grosseiro quando a gente via as barbaridades cometidas pela costa.</p>
<p>Os professores ficaram fãzíssimos da série Mar Sem Fim, porque eu fui, modéstia à parte, um dos primeiros jornalistas a ouvi-los e dar espaço para eles. Como eu vinha fazendo a costa do Amapá para baixo, quando cheguei no Paraná, por exemplo, estavam todos esperando pela gente, no campus de Paranaguá (no litoral).</p>
<p>Eu entrevistava hoje, semana que vem estava no ar. Então eles começaram a assistir aos programas, esperando a vez deles. Foi assim ao longo de toda a costa brasileira.”</p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Brasileiros ao Deus dará</strong></p>
<p>“Eu fiz questão de conversar com os nativos também, conhece-los. Eu considero esses brasileiros os mais deixados ao Deus dará entre todos. Porque eles não são unidos. As populações nativas não são unidas em lugar nenhum do mundo. Até pela dificuldade. Alguns pescadores, um pouco mais evoluídos, semi-profissionais, começam a tentar se unir para defender alguma coisa.</p>
<p>Em São Paulo, o Estado mais rico da nação, você vai para Ilha Bela (litoral norte), e vê o lado do Canal de São Sebastião: um primeiro mundo. Você sobe no carro e vai até Castelhanos, está praticamente na idade da pedra. Um morro e uma estrada de trinta quilômetros separam o cara do inferno e do céu.</p>
<p>Se em São Paulo você vê casos assim, imagine no Maranhão. Vi as casas da Ilha Cajual, de pau a pique, uma miséria absoluta, você entra é tão limpa ou mais limpa do que a minha. Chão de terra, mas você não vê uma folha fora do lugar. Eles se ressentem da ausência do Estado.</p>
<p>Um dia nós chegamos na ilha de Santana, no sul do Maranhão, e estava um pescador desesperado. Ele tinha dado em cima de um cardume de xaréu, tinha chapado o barco, e aquilo tudo apodreceu porque não tinha como escoar. Eles vivem com tão pouco, que se ele conseguisse transformar aquilo em dinheiro vivia dois três anos sossegadamente.</p>
<p>Só que não conseguiu, porque o governo fica fazendo essas coisas de demagogia que o Lula quer fazer, reforma aquária e não sei o quê. Bastava dar um mínimo de condições para esse pessoal espalhado ao longo da costa escoar a produção. Um geradorzinho com um freezer, por exemplo, uma merreca. Dava isso, o cara pescava o peixe dele, congelava, podia esperar um dia bom, pôr aquilo no barquinho e vender no centro mais próximo.</p>
<p>Eu ia falar com os professores e eles cansavam de me dar teses, tem aí duzentas teses que eles fizeram tentando subsidiar políticas públicas, seja para melhorar a vida do caiçara, seja para não ocupar duna. Está tudo espalhado por aí. Tinha os estudos, mas o Poder Público não chegou lá para conhecer.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Com a TV, dramas reais</strong></p>
<p>“Na Ilha do Mel, quando nós estivemos lá, em 2006, a luz elétrica tinha chegado fazia um ano. Até então, ninguém via televisão, não tinham vontade de consumir. Com a televisão surgiram os dramas. Os filhos abandonaram a profissão, não querem mais saber de virar pescador. Querem ir para a cidade consumir, ter o tênis bacana, e não têm dinheiro. Então começa o tráfico de droga, entrar para a bebida de uma forma violenta, porque o cara quer tudo aquilo que a televisão leva para ele e ele não vê possibilidade.</p>
<p>Numa dessas, um sujeito lá, que não tinha um dente na boca, tenho o depoimento dele, contou que um caiçara trocou a casa dele por uma garrafa de cachaça. Isso você vê acontecer ao lado da costa, não é de agora. Desde o tempo em que eu era garoto, eu via caiçara vender a casa por um maço de dinheiro deste tamanho em nota de um. Achava que estava rico e dava a posse.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Mansão na areia</strong></p>
<p>“Aqui em São Paulo tem gente que vai para o litoral, compra a casa do sujeito para ter a posse, depois derruba a casa e faz aquela grande mansão em estilo neo-clássico, que destrói a beleza cênica. Constrói no meio da areia, muitas delas eu tenho fotos. A casa mal pronta, já está cheia de muro de arrimo para a ressaca não levar embora.</p>
<p>A praia é móvel, é o que os professores, os cientistas falam. Existe um equilíbrio dinâmico, e a hora em que você tenta parar esse equilíbrio, você arruína o negócio. Porque é para ser dinâmico. A foz de um rio um ano está aqui, outro ano está lá. Isso varia em função da ressaca, do vento, da coisa toda. A areia é móvel. Não pode tentar segurar. E toda vez que você tenta fazer isso gera erosão, gera desastres homéricos, um desastre em cadeia. Uma coisinha aqui, vai redundar lá na frente.”</p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Brasil que ninguém vê</strong></p>
<p>“O que eu mostrei no documentário, e está no site, é um Brasil que não se conhece. É preciso ir aos lugares para ver. Lugares que não atraem muita atenção da mídia. Esse Brasil continua lá atuando, sofrendo, maravilhoso, bonito, rico em cultura, em tradição oral, em festas tradicionais, e muito pouca gente vê, dá pelota para isso.</p>
<p>É por isso que eu fico mais apaixonado pelo meu trabalho. Eu vejo que por mais que eu possa fazer, e tentar ajudar para contribuir, é muito pouco. Tem muito a ser feito ainda. Isso para mim é maravilhoso, mostra que eu posso me dedicar a vida inteira a esse assunto, que ele é inesgotável.</p>
<p>Além de tudo eu amo isso, eu adoro as duas coisas: eu adoro ter uma bandeira para defender, eu adoro ter um assunto que me obrigue a estudar, eu adoro estar no mar. Então isso tudo&#8230; minha profissão acabou sendo jornalismo, então eu falei caramba, o prato do dia está aqui, é eu transformar isso no que eu sei fazer, e procurar divulgar, e não vai acabar nunca. Tem outros enfoques, tem outras coisas, por mais que eu faça eu não vou conseguir esgotar esse assunto jamais.”</p>
<blockquote><p> <em>Esta reportagem e a entrevista foram originalmente publicados no </em><a href="http://www.dcomercio.com.br/">Diário do Comércio</a><em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Edmundo, brasileiro Prêmio Nobel, conta sua saga</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 17:51:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Em sua casa, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, Edmundo Manzini de Souza, Prêmio Nobel da Paz, recorda a noite em que, comandando um grupo de combate, no Deserto do Sinai, sentiu que o solo por onde caminhavam havia ficado diferente. Seguiam à noite, como cegos, sob uma tempestade de areia. Iam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em sua casa, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, Edmundo Manzini de Souza, Prêmio Nobel da Paz, recorda a noite em que, comandando um grupo de combate, no Deserto do Sinai, sentiu que o solo por onde caminhavam havia ficado diferente.<span id="more-2160"></span></p>
<p>Seguiam à noite, como cegos, sob uma tempestade de areia. Iam grudados uns aos outros. Grudados mesmo: o de trás segurava um cadarço do uniforme do que ia à frente. O que acontecia com o solo é que os pés não afundavam mais na maciez da areia. Havia alguma coisa, sob eles, dura como cimento.</p>
<p>Era cimento mesmo. Haviam invadido, sem perceber, o acampamento de um grupo de nômades da Al Fatah. Se em vez de brasileiros fossem judeus estariam perdidos. Mas eram da terra de Pelé, e integrantes da Força de Emergência da ONU, a Organização das Nações Unidas. Os Boinas Azuis. Portanto, neutros.</p>
<p>Estavam lá para garantir a paz, ou, mais apropriado, impedir a guerra entre judeus e egípicios. Em 1963, a Faixa de Gaza, onde se encontravam, já era um barril de pólvora, se é que a expressão ainda faz sentido. A tensão era muito maior do que a de hoje, depois do ataque de Israel aos navios humanitários a caminho da Faixa de Gaza.</p>
<p>Naquela noite, os nômades do acampamento invadido, bem armados, imobilizaram o comando brasileiro. Mas o trataram bem. Respeitaram o comandante. Deixaram que Edmundo ficasse com suas armas, uma metralhadora e uma pistola. Desarmaram os outros e os mandaram sentar no chão.</p>
<p>Interessaram-se pelos cantis dos invasores. Não teriam araque, a aguardente árabe? Não, mas cachaça podiam garantir. Falando uma mistura de árabe, inglês e francês, trocaram amabilidades. Cigarro brasileiro (Minister) por chaveirinhos da Al Fatah. Quando o dia clareou, os nômades revistaram os invasores, conferiram a nacionalidade, na etiqueta dos uniformes, e os liberaram.</p>
<p>“Eu tinha 26 anos, era sargento, e comandava 22 homens no 1º Grupo de Combate do 3º Pelotão (Pelotão Paraná) da 7ª Companhia de Fuzileiros do 13º Contingente do Batalhão Suez. No deserto, todo dia tem tempestade de areia. Sob sol, a temperatura era de 52 graus. À noite, caía para 4 graus. A areia não retém o calor, mas reflete o sol.</p>
<p>“A nossa missão era evitar o confronto entre judeus e árabes. Os grupos nômades, como a Al Fatah e o Fedayin , estavam armados para pegar judeus. E era complicado. Às vezes a molecada jogava pedra na viatura. Para os nativos, nós éramos intrusos.</p>
<p>“Nosso acampamento, com barracas de lona, ficava no Deserto do Sinai, na Faixa de Gaza. Uma de nossas missões era cuidar de um trecho da Linha de Demarcação de Armistício, uma valeta cavada na areia, de 60 cm de fundo por 60 cm de largura. Separava Israel da Faixa de Gaza (os brasileiros cuidavam de 32 quilômetros). Se houvesse problemas, nós seríamos o alvo, dos dois lados.</p>
<p>“A valeta tinha que ser limpa todo dia, para marcar a divisa. Era um trabalho insano. A tempestade cobria de areia, e tínhamos que cavar de novo.”</p>
<p>Edmundo servia como sargento no Quartel General do 2º Exército (hoje 2ª Região Militar), em São Paulo, quando soube que o Exército Brasileiro integraria as forças de paz da ONU. Disputou uma vaga. Um dos seus interesses era o soldo, três vezes maior do que ganhava aqui (não lembra valores). Havia um detalhe: estava noivo.</p>
<p>O navio em que embarcou, em Santos, levou-o a&#8230; Porto Alegre. Na capital gaúcha passou por treinamento, recebeu vacinas e instruções. Tudo pronto, integrou a força de 380 homens embarcados no navio Ary Parreiras, com seus beliches de seis andares. Demoraram-se muito tempo nas Ilhas Tenerife, próximo às costas da África. Com mais de um mês de viagem, desde a partida, chegaram a Port Said, no Egito.</p>
<p>Nesse porto começa o Canal de Suez, que liga dois mares &#8211; o Mediterrâneo ao Vermelho &#8211; e permite a navegação da Europa para a Ásia, e vice-versa, sem contornar a África. O canal estava no centro dos incidentes da região. O destino seguinte dos desembarcados foi Rafah Camp, na Faixa de Gaza.</p>
<p>Perto desse lugar, no antigo Forte Inglês, o Brasil instalara seu QG. Dali, os recém-chegados foram enviados para suas bases, à frente da Linha de Demarcação de Armistício, em lugares pouco habitados do deserto.</p>
<p> “Durante o dia, fazíamos vigilância em três postos de observação, separados entre si por três quilômetros. Ficávamos em uma caixa de cimento, com o visor voltado para Israel, a uns 50 metros da linha. Usávamos binóculos, telefone magnético de campanha e armas de defesa.</p>
<p> “Às seis da tarde saía a patrulha à pé. Ficávamos 12 horas andando ao longo da linha. Em silêncio, sem fumar. Não falávamos, se preciso cochichávamos. Quando uma patrulha motorizada se aproximava, ficávamos em posição de defesa e dávamos sinal de lanterna. Pedíamos a senha. Eles davam, e nós dizíamos a contra-senha.</p>
<p>‘Essas senhas eram criadas pelo QG da ONU, e mudavam toda noite (palavras do alfabeto de radiocomunicação, como ‘charles’, ‘delta’, ‘victor’). A situação era: quem não tem senha come chumbo.</p>
<p> Às vezes, no começo, apareciam alguns soldados de outro país, bêbados. Dávamos sinal, eles paravam. Mas não sabiam dizer a senha, só falavam de onde eram e queriam prosseguir. Nós dávamos a ordem: ‘Volta!’. E eles não tinham jeito senão obedecer.”</p>
<p>Para distrair, não ficar só pensando na família, os soldados construíram uma praça em frente ao acampamento (que, então, já tinha base de alvenaria). Instalaram uma placa, com o nome dos 23 homens do grupo. Uma frase de Edmundo encimava a relação de nomes: ‘Somente os bravos vencem a solidão do deserto’.</p>
<p>O Canadá, que cuidava da logística, fazia as cartas das famílias chegar pela mala diplomática. Vinham em aviões canadenses ou no Hércules C-130 da FAB (Força Aérea Brasileira). Às vezes atrasavam muito. Um bolo de Natal só chegou para Edmundo em fevereiro.</p>
<p>Em março de 1964, quando os militares assumiram o poder no Brasil, Edmundo e seus homens ficaram angustiados. Não tinham notícias da pátria, dizia-se que estava havendo uma guerra civil. Às vezes conseguiam uma informação melhor, do noticiário de rádios estrangeiras que falavam um pouco de português.</p>
<p>Em 25 setembro de 1964, Edmundo e seus companheiros iniciaram a longa viagem de volta. Em Port Said, à entrada do Canal de Suez, embarcaram no Barroso Pereira, navio da Marinha de Guerra brasileira. Escalaram em diversos portos, entre eles o de Marselha, na França. Só em 13 de outubro desembarcaram no Rio. Um ano e três meses depois da partida.</p>
<p>No cais do Arsenal da Marinha estavam a mãe e a noiva de Edmundo, que haviam viajado de São Paulo. “Foi uma alegria indescritível, uma emoção que ninguém pode imaginar.” Edmundo está casado há 44 anos. Tem quatro filhos e dois netos. É professor doutor cirurgião dentista, e sanitarista, formado pela Universidade de São Paulo, USP. Na última quarta-feira fez 73 anos.</p>
<p>Em 1988, o Prêmio Nobel da Paz foi destinado às Forças de Paz da ONU. O Batalhão Suez, dos brasileiros que atuaram durante dez anos (1957-1967) na Faixa de Gaza, estava incluído. Edmundo guarda sua medalha e seu diploma de Nobel da Paz junto com outras medalhas, como a do Exército Brasileiro e do Pacificador.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O contexto que levou o brasileiro Edmundo a Gaza</strong></p>
<p>Inaugurado em 1869, o Canal de Suez, no Egito, liga o Mar Mediterrâneo ao Vermelho. Viabiliza a navegação da Europa para a Ásia, e vice-versa, sem precisar contornar a África. Foi construído por iniciativa da França. Este país e o Egito eram seus maiores acionistas. Mas o Egito vendeu sua parte aos ingleses.</p>
<p>Em 1953, Gamal Abdel Nasser liderou uma revolta e assumiu o governo do Egito. Três anos depois, em 1956, nacionalizou o canal e fechou o porto de Eilat, no Mar Vermelho, o que impossibilitou o trânsito de Israel.</p>
<p>Negociações entre os países envolvidos fracassaram. Com isso, Israel invadiu a Faixa de Gaza, controlada pelo Egito, e a Península do Sinai, em território egipício. As aviações francesa e britânica atacaram o Egito, e Nasser afundou 40 navios no canal, e o fechou.</p>
<p>Os ingleses e franceses passaram a controlar o canal, mas os Estados Unidos condenaram o emprego da força. Em março de 1957, os ocupantes se retiraram e o canal foi reaberto. Israel deixou o Egito, mas o risco de confronto entre os dois países continuou latente.</p>
<p>Nasser procurou o apoio da ONU para garantir a paz. Criou-se, assim, a Força de Emergência da ONU, com dez países integrantes – entre eles o Brasil. Para pacificar a região, e evitar novos confrontos, essa força – apelidada dos Boinas Azuis &#8211; interpôs-se entre as de Israel e Egito.</p>
<p>Com 6 mil homens revezando-se, a Força de Emergência garantiu a paz de 1957 a 1967, quando se retirou, a pedido de Nasser. Ainda havia soldado da força na região, brasileiros inclusive, esperando embarque, quando eclodiu a Guerra dos Seis Dias, em que Israel bombardeou Egito, Síria e Jordânia.</p>
<p>Mas este já não era assunto para os Boinas Azuis.</p>
<blockquote><p><em>Junho de 2010.</em></p>
<p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>. </em></p></blockquote>
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		<title>O pianista da máquina de escrever</title>
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		<pubDate>Sun, 09 May 2010 21:33:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Jorge Sabongi foi ao escritório de uma metalúrgica pedir emprego. Com um pouco de má vontade, é verdade. Não estava interessado em trabalhar. Contava 14 anos. Seu bisavô e seu avô tinham tido escolas de datilografia. Seu pai também tinha uma.  O encarregado do pessoal, na empresa, olhou para aquele menino e não deu grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Jorge Sabongi foi ao escritório de uma metalúrgica pedir emprego. Com um pouco de má vontade, é verdade. Não estava interessado em trabalhar. Contava 14 anos. Seu bisavô e seu avô tinham tido escolas de datilografia. Seu pai também tinha uma.<span id="more-1812"></span></p>
<p> O encarregado do pessoal, na empresa, olhou para aquele menino e não deu grande coisa por ele. Mandou que se sentasse à máquina de escrever e redigisse uma carta comercial. Jorge costumava datilografar 60 palavras por minuto. Metralhou um texto de memória, rápido e perfeito.</p>
<p> “Você começa amanhã”, disse o homem do pessoal, assombrado. Ligou para todas as seções, e chamou os funcionários. Umas doze pessoas vieram. O homem pediu a Jorge que datilografasse outra carta. Ele o fez, com a mesma rapidez. “É assim que eu quero que vocês escrevam”, disse o encarregado à platéia.</p>
<p> “Eu gostava muito de jogar botão, formava times”, lembra-se Jorge em seus 50 anos. “Meu pai me mandava procurar emprego, mas eu ia à feira comer pastel”. Naquela vez, não teve jeito. Assumiu o trabalho.</p>
<p> Estava havia seis meses na firma quando uma moça bonita fez o teste, cometeu 15 erros, mas foi contratada com um salário maior que o dele. Demitiu-se.</p>
<p> Mal chegou em casa, alguém veio com a notícia: a metalúrgica em frente precisava de um datilógrafo. Empregou-se pelo dobro do salário. Fez carreira, e chegou a assistente de diretoria.</p>
<p> Cursava faculdade de Economia. Resolveu que era hora de mudar de vida. De família árabe, pai espanhol, ele próprio cozinhava bem. Em 1982, abriu uma casa de chá egípcia, a Khan el khalili, até hoje famosa pela apresentação da dança do ventre. Está no mesmo lugar, na Vila Mariana.</p>
<p> Jorge aprendeu datilografia aos oito anos. As aulas na escola de seu pai pautavam-se por um método de seis meses. Uma hora de aula, de segunda a sexta-feira. Preço módico, o equivalente a R$ 40 por mês.</p>
<p> Na primeira lição, o aluno treinava durante uma hora as letras a,s,d,f,g com a mão esquerda. E h,j,k,l, ce-cedilha, com a direita. Mais para frente, uma taboinha era colocada um palmo acima do teclado. O aluno não via as teclas, assim aprendia a escrever sem olhar para elas.</p>
<p> Ao ser diplomado, no fim do curso, tinha não só a habilidade para datilografar, mas conhecia o texto de cartas comerciais, ofícios, e outras exigências da época. Também aprendia postura para sentar à frente da máquina. Estava pronto para o mercado de trabalho.</p>
<p> Nas horas de folga, pai e filho faziam “corrida” de datilografia, cronômetro na mão. Aos 11 anos, Jorge já batia 60 palavras por minuto. Seu pai, afinal o mestre, 67.</p>
<p> O texto comercial formal, e as escolas de datilografia, desapareceram. Nos primeiros tempos de sua casa de chá, Jorge precisou algumas vezes de datilógrafo. Mas não teve paciência com eles. Sentou à máquina de escrever e disparou a metralhadora.</p>
<blockquote><p><em><strong>Uma notinha</strong></em></p>
<p><em>Valdir Sanches me mandou este texto com a seguinte explicação:</em></p>
<p><em>“Este mês, no dia 24, comemora-se o Dia do Datilógrafo. Uma data que a informática tornou sem sentido. Este é um dos textos que fiz para matéria publicada no </em>Diário do Comércio<em>.”</em></p>
<p><em>Pensei em botar aqui no pé do belo texto de Valdir umas mal traçadas sobre datilografia. Depois pensei melhor: vou querer escrever umas mal traçadas sobre o tema num post à parte.</em></p>
<p><em>Maio de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Gil, depois do Domingo</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 03:57:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de “Domingo no Parque”, segunda colocada no Festival da Record (1967), Gilberto Gil já compôs várias músicas e está preparando um novo LP. InTerValo antecipa para seus leitores algumas dessas músicas, com interpretação do autor. “A primeira que fiz”, conta Gil, “com letra de Torquato Neto, chama-se ‘Domingou’ (uma corruptela do verbo domingar, seria). [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de “Domingo no Parque”, segunda colocada no <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/01/21/eu-vi-disparada-tomar-forma-e-outras-historias-dos-festivais/">Festival da Record</a> (1967), Gilberto Gil já compôs várias músicas e está preparando um novo LP. <em>InTerValo</em> antecipa para seus leitores algumas dessas músicas, com interpretação do autor.<span id="more-1680"></span></p>
<p>“A primeira que fiz”, conta Gil, “com letra de Torquato Neto, chama-se ‘Domingou’ (uma corruptela do verbo domingar, seria). Trata-se de um domingo no Rio, mas não tem nada a ver com ‘Domingo no Parque’.</p>
<p>Fiz uma segunda, com letra de Capinam, bilíngüe”. Chama-se ‘Soy loco por ti América’<strong> </strong>e tem uma estrutura musical toda latino-americana. É uma canção em português e castelhano, de todas as Américas. Ela vai ser gravada por Caetano Veloso em seu LP.”</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/gil.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1683" title="gil" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/gil.jpg" alt="" width="550" height="361" /></a>Da terceira música, Gil fala com um carinho todo especial: “Ainda não tem nome, é uma música existencialista, feita sobre uma canção surrealista do Recife. Não se preocupe, quando sair ela será logo identificada”.</p>
<p>Uma outra mais, vamos ver: “chamada ‘Bem-vindo’, que fiz com Capinam e Torquato, um baião que traz uma característica de monotonia porque se repete muito”.</p>
<p>Gil pára um pouco para pensar e volta ao assunto falando de letras. Ele explica, então, por que tem feito músicas com letras compridas: “As coisas que têm que ser ditas, têm que ser ditas. Em uma ou dez palavras. A gente abre mão da letra curta, às vezes, para dizer o que quer”.</p>
<p>Gilberto deixa para o fim a música “Panis et Circenses” (pão e circo, em latim), que também irá para o próximo disco. Sua letra, entre outras coisas, diz: <em>“eu quis cantar/ minha canção iluminada de sol/ ergui os panos sobre os mastros no ar/ soltei os tigres e os leões nos quintais/ mas as pessoas da sala de jantar/ estão ocupadas em nascer e morrer&#8230;”</em></p>
<blockquote><p><em><strong>Laïs de Castro conta a historinha por trás do texto</strong></em></p>
<p><em>Em 1968, Gilberto Gil era gordinho e usava um chapéu de couro que parecia pequeno para o seu grande coco. Uma cabeça grande, bela, por dentro e por fora, fazendo maravilhas como “Soy loco por ti América” e outras. Apenas alguns anos depois ele iria aderir à comida macrobiótica que o tornou magro e, até hoje, saudável. Abriu mão de todas as gorduras&#8230;</em></p>
<p><em>Ele andava sempre pelos lados da TV Record. A partir de “Domingo no Parque” (segunda colocada no Festival da Record de 1967), revolucionou a MPB com a tropicália. </em></p>
<p><em>As revistas de TV, como a</em> InTerValo<em>, passaram a se interessar por ele e a publicar seu trabalho. Eu tive a alegria de sair para uma sessão de fotos com Gilberto Gil pelo centro de São Paulo e de fazer essa entrevista, pequenina (a revista era pequenina), mas que traz muitas informações nas entrelinhas&#8230;</em></p>
<p><em> </em><em>A canção “existencialista”, identifico hoje, em 2010 é a seguinte:</em></p>
<p><strong><em>BATMAKUMBA</em></strong></p>
<p><em>Gilberto Gil &amp; Caetano Veloso<br />
1968 </em></p>
<p><em>Batmakumbayêyê batmakumbaoba<br />
Batmakumbayêyê batmakumbao<br />
Batmakumbayêyê batmakumba<br />
Batmakumbayêyê batmakum<br />
Batmakumbayêyê batman<br />
Batmakumbayêyê bat<br />
Batmakumbayêyê ba<br />
Batmakumbayêyê<br />
Batmakumbayê<br />
Batmakumba<br />
Batmakum<br />
Batman<br />
Bat<br />
Ba<br />
Bat<br />
Batman<br />
Batmakum<br />
Batmakumba<br />
Batmakumbayê<br />
Batmakumbayêyê<br />
Batmakumbayêyê ba<br />
Batmakumbayêyê bat<br />
Batmakumbayêyê batman<br />
Batmakumbayêyê batmakum<br />
Batmakumbayêyê batmakumbao<br />
Batmakumbayêyê batmakumbaoba</em></p></blockquote>
<p><em> </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sinatra</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 04:20:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[“Quando Frank Sinatra morrer e for para o céu, a primeira coisa que ele fará será procurar Deus e gritar com ele por tê–lo feito careca.” (Marlon Brando) Quando, no show de encerramento da Copa do Mundo, no Dodgers Stadium, em Los Angeles, os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo cantaram os primeiros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Quando Frank Sinatra morrer e for para o céu, a primeira</em></p>
<p><em>coisa que ele fará será procurar Deus e gritar com</em></p>
<p><em>ele por tê–lo feito careca.”</em> (Marlon Brando)<span id="more-1503"></span></p>
<p>Quando, no show de encerramento da Copa do Mundo, no Dodgers Stadium, em Los Angeles, os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo cantaram os primeiros acordes de “My Way”, os três acenaram e sorriram para um senhor de cristalinos olhos azuis sentado em uma das primeiras filas. Os olhos azuis brilharam, mas o corpo não executou todos os comandos e ele teve que ser apoiado para erguer-se e acenar de volta, retribuindo o cumprimento.</p>
<p>Era Frank Sinatra. Aos 78 anos, o velhinho vivia a emoção de ver–se homenageado pelos três mais disputados tenores do mundo, todos eles dando o melhor de si na interpretação de uma música que é Sinatra da cabeça aos pés.</p>
<p>Nada mau para um garotinho desenganado no parto e deixado de lado para morrer.</p>
<p>Um adolescente problemático que vivia brigando nas ruas e dizendo que seria um gângster.</p>
<p>Um sujeito de escrúpulos duvidosos que chegou a envolver–se com o inimigo público número um da América.</p>
<p>Ou para um cantor que se tornou tão formidável que é praticamente impossível apontar alguém, entre nós, nossos pais e avós, que não tenha cantarolado, ou dançado, ou namorado ao som de uma de suas canções.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1514" title="Frank jovem" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem.jpg" alt="" width="394" height="510" /></a>Esta história real (ou uma lenda real?) começou em uma cidadezinha de Nova Jersey, ao lado do Rio Hudson, chamada Hoboken. Ali moravam, no número 415 da Monroe Street, o ex–boxeador Anthony Martin Sinatra e sua mulher, uma enfermeira e parteira, nascida Natalie Garaventi e chamada na época simplesmente Dolly, Dolly Sinatra. Os dois italianos: ele siciliano, ela genovesa.</p>
<p>Francis Albert Sinatra nasceu no dia 12 de dezembro de 1915. O parto foi difícil e o fórceps o marcou.</p>
<p>Um superbebê. Pesava seis quilos e pouco, tinha ferimentos no queixo e em uma das orelhas.</p>
<p>– Não acho que sobreviverá – disse o médico. – O melhor é que nos concentremos na mãe.</p>
<p>Rosa Garaventi, a avó, não levou o médico a sério: colocou o garotinho sob uma torneira de água fria e o choque fez com que respirasse.</p>
<p>Em dezembro de 1915 os Estados Unidos acompanhavam a guerra na Europa e dois anos depois entrariam nela. No cinema, chorava-se a morte de John Bunny, a primeira grande estrela da comédia americana, um abre-alas para Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. E, enquanto o garotinho Sinatra crescia, outro gênero de filmes ia se firmando: o de gângsteres. Muitos consideram <em>Underworld</em>, de 1927, o primeiro deles.</p>
<p>O Sinatra adolescente acompanhou as aventuras de Little Caesar, <em>O Pequeno César</em>, com Edward G. Robinson, em 1930, e <em>Scarface</em>, com Paul Muni, em 32. Na tela eles eram vistos como heróis e, para os garotos com que Frank convivia, ser gângster estava na moda. Ele chegou a declarar, muitos anos depois, que gostara daquilo e talvez tivesse levado a coisa um pouco longe demais. Queria ser considerado um bandido, e chamava gângsteres por apelidos, era grosseiro, ameaçava pessoas e procurava exibir mau-caratismo entre maus-caracteres. Falava de uma garrafa que partiu sua cabeça em uma briga de quadrilhas, e de uma corrente de ferro que quase o aleijou, mas muita gente achou aquilo papo-furado, e que tudo o que Sinatra queria era aparecer.</p>
<p>Ele retrucou afirmando que foram apenas a música e seu talento que o impediram de tornar–se um bandido de verdade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Imitando Bing Crosby</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>ao som do cavaquinho</strong></p>
<p>Quando Frank tinha 15 anos, seu tio Dominick Garaventi deu-lhe um ukelele (irmão do cavaquinho) – um instrumento havaiano de quatro cordas, parecido com a guitarra. Ele conhecera há pouco uma garota morena chamada Nancy Barbato, e usou o ukelele em serenatas para ela: sentava–se em frente ao poste de rua na calçada e cantava imitando Bing Crosby.</p>
<p>Dolly não gostava disso: aquele garoto tinha que se formar em engenharia pela universidade ou, pelo menos, tinha que se dedicar a negócios. E ela é quem comandava a casa. O marido era do corpo de bombeiros, e Dolly, mulher muito ativa na política da comunidade, não descansou enquanto não conseguiu que ele fosse promovido a capitão. Dizia-se que ela gostava muito de ajudar as pessoas, mas esta é uma imagem que a escritora Kitty Kelley procurou retocar ao escrever <em>His Way</em>, a biografia não autorizada de Sinatra. Dolly, escreveu, vivia fazendo abortos nas mulheres de Hoboken, e uma vez foi presa por isso.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1515" title="Frank jovem 2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-2.jpg" alt="" width="630" height="690" /></a>Na época das serenatas, mais precisamente em março de 1935, Frank – que era repórter iniciante, um foca, na seção de esportes do Jersey Observer, e pretendia fazer carreira como jornalista –, levou Nancy para ver Bing Crosby em pessoa, em um show em Jersey City.</p>
<p>Quando deixaram o teatro, Nancy percebeu que algo havia acontecido.</p>
<p>– O que há? Você não parece bem.</p>
<p>Ele engoliu em seco antes de responder:</p>
<p>– Vou me demitir do meu emprego.</p>
<p>E explicou:</p>
<p>– Quando vi aquele cara no palco, alguma coisa me aconteceu. Parecia que eu é que estava lá, não o Crosby. Eu tenho que ser um cantor.</p>
<p>Foi o que repetiu em casa. Dolly, dizem, pegou um sapato e esmigalhou o Bing Crosby sorridente que enfeitava uma das paredes do quarto do rapaz. Ela já não andava gostando muito daquele quadro desde o dia em que surpreendeu o filho penteado como o cantor e, como ele, com um cachimbo pendurado no canto da boca. Imitação tem limites, esperneou.</p>
<p>Era ela quem dava as ordens em casa, mas era também muito esperta, sabia que de nada adianta remar contra a maré: quando percebeu que não havia jeito, concordou com o filho e aceitou que ele deixasse a escola e procurasse um emprego em que pudesse cantar. Frank passou a apresentar-se em casamentos, em clubes, na escola,&#8230;</p>
<p>– Ele não tinha um emprego na época – lembra Marian Bush Schrieber, uma de suas primeiras namoradas – mas estava sempre metido com músicos. Sugeri que montasse uma banda para animar nossos bailes das quartas-feiras na escola, e em troca a banda permitiria que ele cantasse algumas canções.</p>
<p>Sinatra decidiu que aprenderia a cantar cantando e ouvindo cantar. Gastava todo o seu dinheiro em discos, que ouvia até se estragarem. Escolheu Bing Crosby e a orquestra de Tommy Dorsey como seus modelos de tom e balanço. Comprou um fone de ouvido e passava boa parte da madrugada girando um dial e ouvindo tudo o que as rádios tocavam.</p>
<p>– Havia apenas uma coisa que eu tinha no começo – lembra. – Era bom gosto. Eu podia dizer quando um cantor era horrível e quando ele era maravilhoso, e não muito tempo depois comecei a descobrir por quê. Eu aprendi que uma voz não muito diferente de outra me parecia mais sólida só por uma coisa: sinceridade. O cantor que colocava seu coração em uma canção, e com isso conseguia que ela significasse alguma coisa, era o meu cantor.</p>
<p>Em casa, as coisas melhoraram um pouco. Ainda que os pais não tivessem lá grandes esperanças de vê–lo fazer sucesso, a mãe contou–lhe que às vezes ela e Papai Sinatra iam às apresentações do filho, e que o marido se entusiasmava e aplaudia mais alto que ela. Mas faziam questão de sentar-se numa das últimas filas, para que Frank não os visse.</p>
<p>Em 1938 ele estaria cantando com grupos jovens em 18 shows de rádio em cinco estações de Nova York e Nova Jersey. É o que havia começado a fazer três anos antes, como parte de um quarteto, o The Hoboken Four, que nasceu por acaso. Naquela época – 1935 – havia em Nova York um programa de rádio que promovia concursos de calouros, o Major Bowes Amateur Hour, considerado o melhor primeiro passo que um aspirante a cantor poderia dar, já que era uma rádio de boa potência, captada por um grande número de ouvintes. Alguém que fizesse sucesso ali poderia ter seu nome lembrado depois.</p>
<p>Frank inscreveu–se para o concurso e foi aceito. Por coincidência, um trio de cantores de Hoboken havia se inscrito também, o que deu ao Major Bowes a idéia de juntar os quatro e formar um quarteto. Bowes mesmo escolheu o nome do quarteto. A estréia aconteceu no dia 8 de setembro de 1935, com o programa transmitido ao vivo do palco do Capital Theatre e Frank ocupando a posição de cantor principal do grupo. O júri era a própria audiência, convidada a ligar para Murray Hill 8–9983 e manifestar sua preferência. O Hoboken Four foi o vencedor. E o programa daquele dia ficou marcado por ser o último de Frank como amador: os classificados em primeiro passavam a integrar uma equipe formada pelo Major Bowes para excursionar por várias cidades do interior. Frank Sinatra e seus três companheiros receberiam um salário de 50 dólares semanais, mais refeições.</p>
<p>Alguns meses depois, quando ficou claro que a estrela do grupo era Frank, e começaram a surgir as primeiras brigas entre os quatro, ele se despediu dos companheiros e voltou para Hoboken, passando a cantar sozinho. Era o que fazia em 1939, num restaurante de beira de estrada em Nova Jersey, o Rustic Cabin, com o salário de 15 dólares por semana. Além de cantar, era também o chefe de cerimônia, e conduzia os clientes até as mesas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1516" title="Frank jovem 3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-3.jpg" alt="" width="240" height="355" /></a>Foi quando transformou a garota Nancy Barbato na senhora Sinatra, ganhou dos pais um Chrysler preto e fez um passeio de lua-de-mel durante quatro dias. Na volta o casal mudou-se para um apartamento de três dormitórios alugado no 487 da Avenida Garfield, pagando 42 dólares por mês. Frank tivera um aumento, passando a receber 25 por semana, e Nancy conseguiu um emprego como secretária, para ajudar nas despesas.</p>
<p>Neste mesmo ano de 1939, um trompetista desempregado, que saiu da banda de Benny Goodman para formar a sua própria, ouvia a Parada Dançante na estação WNEW quando teve sua atenção despertada por um cantor. Não conseguiu pegar o nome, mas descobriu o lugar em que ele cantava, em Jersey. Na noite seguinte, o mesmo trompetista – seu nome era Harry James – estava lá ouvindo Frank Sinatra. Gostou. Contratou–o por dois anos com o salário de 75 dólares semanais.</p>
<p>– Peça demissão – disse Frank a Nancy pelo telefone. – Nós vamos viajar por aí com Harry James.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Aquele garoto magrinho</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>na banda do Harry</strong></p>
<p>“Wishing” foi uma das duas canções de sua estréia com a banda de James no Hyppodrome Theater, em Baltimore, na última semana de junho de 39. Nancy o ouvia na platéia, e ele cantou também “My Love For You”. Como pouca coisa na vida é sublinhada por fogos de artifício, nada de especial aconteceu naqueles dias. Depois de Baltimore a banda foi para Nova York e continuou seu trabalho. O empresário, Gerry Barrett, convenceu a George Simon, crítico musical de <em>Metronome</em>, a ouvir o pessoal e escrever a respeito.</p>
<p>Sinatra não seria Sinatra se não metesse aí sua colher. Insistiu tanto que Gerry Barrett pediu a Simon para dizer duas ou três palavras a respeito do cantor. Simon concordou, e sua crítica citou “o vocal muito agradável de Frank Sinatra, cujo frasear simples é especialmente recomendável”.</p>
<p>A partir disso, aquele ego foi inchando com tal rapidez que Harry James, em certa ocasião, chegou a pedir a um repórter que não o citasse com muito entusiasmo. – Veja – argumentou – se ele souber de um elogio seu, vai me pedir aumento na mesma noite.</p>
<p>Na verdade, havia sinais de que James estava tendo alguma dificuldade em conviver com o nariz empinado da principal estrela de sua banda. Uma frase dele ficou gravada: “Seu nome é Sinatra, e ele se considera o melhor cantor em atividade. É demais! Ninguém jamais ouviu falar dele! Ele nunca gravou uma canção de sucesso, e parece uma peça de roupa velha, mas diz que é o maior de todos!”</p>
<p>Entre sucessos (Harry James foi considerado o trompete número um da América na pesquisa da revista <em>Down Beat</em> em 39) e fracassos (apresentando–se em Beverly Hills, Los Angeles, para um público que não gostou da batida da banda, James e todo seu pessoal, Sinatra incluído, foram despedidos), Frank começou a questionar se o seu lugar era realmente ali.</p>
<p>E então, no início de 1940, ele recebeu um convite para cantar com a banda de Tommy Dorsey. Aqui, como dizem vários de seus biógrafos, ninguém sabe exatamente como a coisa aconteceu, porque todo mundo gosta de se proclamar responsável pela aproximação dos dois. Uma das versões é a de que, depois de alguns meses com James, Frank havia conquistado certo número de admiradores e um deles era um executivo da CBS que, um belo dia, soprou para Dorsey: “Vá ver um garoto magrinho que está cantando com a banda de Harry”.</p>
<p>Foi o que fez Sinatra realmente decolar. O contrato com Harry James ainda estava valendo, mas este o cancelou com um aperto de mão e um conselho: “Não perca esta chance”. Naquela época, apenas Glenn Miller rivalizava com Dorsey, que tinha uma orquestra considerada a banda dos cantores: ele sempre valorizava seus arranjos dando destaque ao crooner. Frank foi contratado por 100 dólares semanais.</p>
<p>Ele sempre disse que Tommy Dorsey foi o seu “treinador”, e o ensinou a respirar durante o canto. Foi Dorsey quem recomendou a ele exercícios físicos, como jogging e natação, para aumentar sua capacidade pulmonar. Frank dava longos mergulhos na piscina, e cada vez ficava mais tempo embaixo d’’água. Com isso passou a cantar vários versos seguidos sem respirar, o que lhe permitiu também aperfeiçoar o ritmo e o balanço das canções.</p>
<p>Frank prestava enorme atenção ao trabalho de Dorsey. O jornalista e publicitário Alan Frank, em seu livro <em>Sinatra</em>, de 1978, reproduz uma declaração dele:</p>
<p>– Eu descobri – contou Sinatra – um truque dele, um pequeno orifício que havia entre um canto dos lábios de Tommy e o bocal do trombone. E percebi que aquilo não era natural, mas uma fresta através da qual ele respirava. No meio de um compasso, quando uma nota ainda estava fluindo através do trombone, ele dava uma rápida aspirada, e aquilo permitia que tocasse quatro escalas mais.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1517" title="Frank jovem 4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-4.jpg" alt="" width="466" height="425" /></a>Ele fez uma adaptação dessa técnica para o seu canto, praticando exaustivamente e aprendendo a usar o nariz como Dorsey usava aquele orifício. Fez muito mais: treinou tanto para desenvolver os pulmões que alguns de seus biógrafos afirmam que ele podia ficar sem aspirar o dobro do tempo de uma pessoal normal.</p>
<p>Dois traços marcantes de sua personalidade se desenvolveram a partir daí: a vaidade, o cuidado com as roupas, com a elegância – e o mau humor, a irritação. Ele costumava interromper a banda quando achava que algum instrumento tocava alto a ponto de interferir com sua voz. Em um show, certa vez, alguém lhe atirou pipocas. Ele voou para cima do público, querendo arrebentar o atrevido. Em outro, Buddy Rich, o homem do surdo, interrompeu uma canção de Frank para fazer um solo. Sinatra atirou–lhe um copo.</p>
<p>O sucesso foi crescendo e atingiu um ponto em que passou a incomodar Tommy Dorsey porque, se a questão era vaidade, ele também tinha a sua, e não era pequena. Ele também, Dorsey, era um brigão, o que dava à orquestra, muitas vezes, um clima de violência. Outro inconveniente era que o público queria ouvir a Voz, não os instrumentos e, muitas vezes, no momento em que a banda, até então tocando só, passava a acompanhar o cantor, as pessoas paravam de dançar para cercar o palco e apenas ouvi-lo cantar. Dorsey não suportava essa humilhação.</p>
<p>Em julho de 1942 Sinatra resolveu sair. No ano anterior uma pesquisa da revista <em>Billboard</em> entre estudantes deu–lhe o título de Vocalista Masculino Número Um. No final de 41, ele realizou um sonho antigo ao ser declarado, pela revista <em>Down Beat</em>, o Melhor Vocalista Masculino de Orquestras dos Estados Unidos, dando uma rasteira em ninguém menos do que Bing Crosby, detentor do título de 1937 a 1940. E, em janeiro de 42, os leitores de <em>Metronome</em> o elegeram o Melhor Cantor de 1941. Se, no período em que esteve com Harry James, eles tiveram cinco discos gravados, com Dorsey ele havia gravado noventa. Decididamente, concluiu Frank, era o momento de deixar a orquestra e prosseguir sozinho.</p>
<p>Mas o contrato de cinco anos estava praticamente pela metade, e Dorsey foi inflexível nas negociações: certo, ele liberaria Frank, mas com novo contrato, em que receberia 33% da renda bruta de Sinatra durante os dez anos seguintes, sendo que mais 10% iriam para o gerente de sua banda, Leonard Vannerson. O contrato foi assinado. E aqui entra a lenda&#8230; ou a verdade? Sinatra filiou–se depois à Music Corporatin of America, a MCA, a maior de todas, e ela queria livrá–lo de qualquer compromisso anterior, principalmente daquele contrato com Dorsey. Oficialmente, dizem que isso custou 35.000 dólares à MCA, e mais 25.000 ao próprio Frank.</p>
<p>A outra versão é a que envolve a Máfia. Frank Sinatra, de origem ítalo-americana, cresceu em uma área de Nova Jersey que era território da Máfia. E, já que ele estava lá, e a Máfia também&#8230; E então, diz a lenda, certo Don mafioso, de nome Willie Moretti, teria entrado nas negociações, feito uma visita a Dorsey, em seu camarim, e delicadamente – “Não é nada pessoal&#8230;” – o convenceu, com o cano de seu revólver literalmente enfiado na boca do atônito maestro, a “vender” o contrato de Sinatra pela quantia, acertada ali mesmo, de um dólar. Negócio fechado!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O magrinho no paletó</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>de grandes ombreiras</strong></p>
<p>Depois que Sinatra se separou de Dorsey foi tudo muito rápido. Houve um contrato de dois meses com o Teatro Paramount, em Nova York, salário de mil dólares por semana. Também a oportunidade de participar de um filme da RKO e de gravar discos pela Colúmbia. Nas noites de sábado, ele cantava no programa Lucky Strikes Hit Parade e, em março de 43, estrearia em um night–club de Manhattan chamado Riobamba. Aqui, um acontecimento curioso multiplicou o nome Frank Sinatra na mídia da época.</p>
<p>Ele cantava no Riobamba, em uma daquelas noites quentes de março, quando uma garota na platéia, particularmente sensível ao calor, sentiu-se mal e teve um desmaio. Foi o suficiente. Logo surgiu o rumor de que a voz aveludada daquele cantor magrinho, metido em paletós de grandes ombreiras, abalava as garotas e provocava síncopes. O rumor foi publicado pela revista <em>Newsweek</em>, e tornou–se verdade.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Em setembro daquele mesmo ano, 1943, a revista <em>The American Magazine</em>, de Nova York, trazia o seguinte relato de seu repórter Jack Long:</p>
<p>“Se os jovens da costa Oeste são iguais aos de Nova York – e nunca ouvi nada ao contrário – um bando de rapagões de Hollywood vai se sentir abandonado brevemente. Porque, enquanto escrevo, um jovem garoto está a caminho de lá, e ele não é alto nem bonito, mas tem algo que faz com que as garotas o sigam lacrimejando, comportando-se como uma manada, e esquecendo todos os outros homens. Por um olhar dele elas arrancam o cabelo, e por uma foto autografada são capazes de assassinato. Eu as vi em ação, e foi uma experiência incrível.</p>
<p>“Ia andando pela Times Square em uma manhã de sábado, pensando em coisas minhas, quando fui envolvido por uma turbulenta massa humana e jogado da calçada para a rua. Um policial a cavalo trotou em minha direção com o chicote em riste e gritando ‘Volte para a fila, seu&#8230;’, e me ameaçando. Veio uma nova onda, mais gritos, e fui despejado no meio da rua outra vez. Daí aproveitei um sinal fechado para o trânsito e cruzei a rua, dando de cara com outro policial.</p>
<p>“– Escute aqui – gritei – sou um cidadão pacífico e, seja qual for o motivo desta demonstração, eu estou fora dela. E, a propósito, o que é que está acontecendo?</p>
<p>“O policial me lançou um olhar infeliz. ‘Estão abrindo as portas para o primeiro show do Teatro Paramount. Tem sido assim nas últimas seis semanas’, acrescentou, lamentando. ‘Todo dia ele canta, e todo dia é assim’.</p>
<p>“Fui embora, mas o mistério me incomodou por vários dias. Frank Sinatra. O nome era familiar, eu o ouvi no rádio sem prestar muita atenção. Mas o que, eu me perguntava, pode trazer cinco ou seis mil jovens para a Times Square, num sábado de manhã, querendo ouvir alguém chamado Sinatra cantar algumas canções?”</p>
<p>O fenômeno era pra valer. Vejamos o relato de Bruce Bliven, na revista <em>The New Republic</em>, um ano depois, em novembro de 44:</p>
<p>“Às nove horas da manhã o Teatro Paramount está cheio e, mesmo assim, a fila para comprar ingressos dá volta ao quarteirão. Mas isso não é nada. Vocês deveriam ver isto aqui na quinta-feira, que foi um feriado. Mais de dez mil pessoas tentavam entrar e 150 policiais de reforço não conseguiam manter a ordem. Vitrines de lojas eram quebradas, pessoas se feriam e ambulâncias as levavam. Os que entravam ficavam para assistir duas ou três apresentações, o que fez com que a confusão fora do teatro durasse o dia todo. Das 3.500 pessoas que estavam em suas cadeiras quando o primeiro show começou, apenas 250 saíram quando o segundo ia começar. Tinha gente na fila desde a meia-noite do dia anterior. Um senhor disse que tentou comprar um ingresso para sua filha oferecendo oito dólares para alguém que o tinha (o preço normal dificilmente ultrapassaria um dólar), mas não conseguiu. Uma senhora, que estava na fila com sua filha horas depois de o show ter começado, disse que a garota havia ameaçado matar-se se tivesse que ficar em casa”.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Na época, algumas expressões criadas pelas adolescentes de meias soquete que suspiravam por Sinatra passaram a fazer parte de seu dia-a-dia. Swoon (a pronúncia é swúm) é o termo em inglês para desmaio, síncope. Os desmaios eram tantos durante os shows que Frank foi logo apelidado de Swoonatra. As mães das garotas tiveram acessos de cobras e lagartos quando descobriram que suas filhas chamavam seus pijamas de Sinatra Suits (conjuntos Sinatra). Em suas cartas, as garotas substituíram a expressão final, Sincerelly Yours (Sinceramente Sua), por Sinatrally Yours. E, quando preguiçosamente se esticavam em suas camas, diziam que estavam em Sinatrance.</p>
<p>Evidentemente havia os céticos, os críticos que diziam ser tudo aquilo tramado pelos empresários que cercavam os shows de Frank, e os acusavam de pagar pelos desmaios para promover o cantor. Em julho de 46 os jornais publicaram esta nota: “George Evans, assessor de imprensa de Frank Sinatra – que mantém o compromisso de doar mil dólares para a instituição de caridade indicada por alguém que prove que um ingresso, um passe, ou um presente de qualquer tipo foi dado a uma garota para que ela gritasse num show de Sinatra – aumentou a importância para cinco mil, por causa da inflação”.</p>
<p>A febre Sinatra era tão grande que provocava incidentes ruidosos. Em um show em Filadélfia, seis policiais formaram uma ala entre a porta do teatro e o ponto de táxis (ele ainda usava táxis), para garantir que deixasse o local. Eram policiais fortes, massudos. A multidão atacou e, em fração de segundos, ele perdeu o chapéu, o sobretudo, a maleta de viagem, os botões da camisa e vários fios de cabelo. Foi protegido por dois enormes funcionários do teatro, dois cenógrafos, que evitaram um estrago maior. “Duas garotas arrancaram minha gravata e quase me enforcaram” – contou Frank.</p>
<p>Ao chegar à estação estava sendo perseguido por aproximadamente 50 jovens excitadíssimos que vinham em uma fila de táxis. Ele correu para uma lanchonete e conseguiu esconder-se atrás de alguns caixotes de refrigerantes. Quando os garotos perceberam que o haviam perdido, e foram embora, ele saiu do esconderijo e pediu que o garçon lhe desse uma coca.</p>
<p>– Ei – respondeu o rapaz. – Você é Frank Sinatra. Que tal um autógrafo?</p>
<p>E o dinheiro ia chegando. Os números podem parecer modestos hoje, mas considerando-se o dólar na década de 40, era muita coisa. Alguns dados disponíveis referentes a 1944 (previsões feitas em 43): seus shows de rádio para a CBS renderiam seis mil dólares por semana. Os royalties pelos discos seriam de 150 mil, e ele receberia 250 mil por participações em filmes. Por sete apresentações diárias em teatro ele teria 15 mil garantidos, recebendo a diferença se 50% da renda bruta ultrapassasse esse valor – foi o maior contrato já firmado no ramo das diversões até então.</p>
<p>Frank já era chamado, simplesmente, The Voice, A Voz. Difícil dizer precisamente quando o apelido surgiu, mas uma reportagem publicada em <em>Newsweek</em> no dia 20 de dezembro de 1943 já a registrava com naturalidade, ao relatar dois incidentes do cantor com suas Sinatra Swooners (aproximadamente, as Desmaiadoras de Sinatra): “A Voz mesmo teve de dizer–lhes que se calassem em um show. A algumas mães de fãs mais exaltadas foi pedido que mantivessem suas filhas em casa”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Lana Turner, primeira</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>de uma lista de vinte</strong></p>
<p>Hollywood, 1943. Aquele magrinho de nariz empinado chegou aos estúdios da RKO, depois da revolução do Teatro Paramount, para filmar <em>Higher and Higher</em> (<em>A Lua ao seu Alcance</em>). Já havia feito <em>Las Vegas Nights</em> (<em>Noites de Las Vegas</em>) em 41, <em>Ship Ahoy</em> (<em>Ó de bordo</em>), em 42, e <em>Reveille with Beverley</em> (<em>Alvorada com Beverley</em>) no próprio ano de 43. Mas naqueles filmes ele apenas cantava com a orquestra de Tommy Dorsey. Agora não: <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-crime-sem-perdaothe-detective-e-tony-rome/">Sinatra ia estrear como ator</a>. Em <em>Higher&#8230;</em>, ele faz o papel de Frank, um rico pretendente à mão de uma garota supostamente herdeira de uma fortuna.</p>
<p>E o que faz Sinatra, na iminência do novo desafio? Apanha um papel, lista as 20 atrizes mais atraentes de Hollywood, prega–o em seu camarim e anuncia:</p>
<p>– Vou faturar uma por uma.</p>
<p>Primeiro nome a receber um X na frente dele: Lana Turner. Antes do final das filmagens, todos os nomes estavam ticados.</p>
<p>Nancy sempre soube, a partir da chegada à Costa Oeste, que o marido tinha casos. E sempre os tolerou. Sabia que tudo iria bem desde que ela não interferisse nas vontades e nos caprichos dele. Até o início da carreira solo de Frank, ela o ajudava nas despesas, usando parte de seu salário de secretária para pagar aluguel e supermercado e deixando o resto para que ele gastasse com suas roupas elegantes. Até então, foram felizes. Mas em 1946, no pico do sucesso – Frank chegou a fazer 45 shows em uma semana – o esforço e a tensão começaram a pulverizar seu trabalho. Já há algum tempo interferiam no casamento.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Ava.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1518" title="Frank com Ava" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Ava.jpg" alt="" width="396" height="516" /></a>Em uma daquelas noites, em uma festa de um nightclub em Palm Springs, Sinatra tirou para dançar uma mulher que viera acompanhada do milionário Howard Hughes. Era Ava Gardner.</p>
<p>No dia 7 de outubro anunciou–se oficialmente que Nancy e Frank estavam separados, e isso não foi propriamente surpresa, pelo pouco tempo que ele dedicava à mulher e aos filhos Nancy e Frank Jr. Uma separação que não durou muito: o esforço de amigos provocou a reconciliação, e os dois ainda tiveram a filha Cristine, nascida em julho de 48. A separação definitiva viria em dezembro de 49. Quando Nancy entrou com o pedido de divórcio, o que se comentava, em Hollywood, é que ela poderia agüentar qualquer uma, menos Ava Gardner.</p>
<p>É desta época um carinhoso puxão de orelhas enviado a Frank, em forma de telegrama, por, nada mais, nada menos, que don Moretti, o mafioso que teria “convencido” Tommy Dorsey a cancelar aquele famoso contrato:</p>
<p>“Querido Frank. Estou muito surpreendido pelo que tenho lido na imprensa a respeito de você e sua querida esposa. Lembre–se de que você tem uma esposa decente e filhos. Você deveria estar muito feliz. Lembranças a todos. Willie Moore.”</p>
<p>Mas o caso com Ava era sério e se tornou barulhento. Ela tinha uma carreira e não conseguia dedicar a Frank o tempo que ele exigia. Vinham então as brigas, tão públicas quanto as reconciliações que acabavam acontecendo. Só que isso prejudicava os dois: o público de então não estava preparado para ver um homem ainda casado, mesmo que ele fosse Frank Sinatra, correndo atrás de uma outra mulher, mesmo sendo ela Ava Gardner. Em uma das brigas, Ava recorreu a seu ex–marido, Artie Shaw. Quando Sinatra soube disso, entrou em parafuso. Primeiro tentou localizar os dois. Quando não conseguiu, foi para um hotel e – dizem – tentou o suicídio.</p>
<p>A vontade de matar-se, entretanto, parece que não era muito grande: tudo o que ele conseguiu foi dar dois tiros em um colchão. Com o ruído dos tiros, a polícia foi chamada. Quando chegaram, os policiais não tinham nada para ver – o colchão fora trocado.</p>
<p>O divórcio de Nancy, e a queda, vieram juntos. Os filmes de Frank estavam sendo cada vez mais criticados, e a venda de seus discos despencou em 1948 e 49: parecia bastante claro que a carreira como cantor chegava ao fim (diziam que as garotas que urravam por ele nos shows, as Swooners, haviam crescido). Surgiu ainda uma acusação, sem provas, de ligação com comunistas, feita pelo Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas. Então veio o nocaute: Frank Sinatra acusado de envolvimento com a Máfia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Dores de cabeça com</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>a Máfia de Luciano</strong></p>
<p>Sinatra foi denunciado pela primeira vez pelo repórter Robert Ruark, colunista da rede Scripps–Howard, que acompanhava a visita do mafioso Lucky Luciano a Havana, Cuba, em 1947. Lucky Luciano havia sido preso em 1936, nos Estados Unidos, e conseguiu liberdade condicional dez anos depois, como reconhecimento do governo norte–americano pelos seus relevantes esforços, durante a II Guerra, ajudando o desembarque aliado na Sicília. Foi então deportado para a Itália.</p>
<p>Em 1947 – já no ano seguinte, portanto – Luciano estava em Havana, hospedado no Hotel Nacional, preparando–se para voltar ao território americano. O repórter Robert Ruark, enviado especial a Cuba, fez uma série de reportagens mostrando que ele, enquanto fazia sua escala na ilha, vinha sendo visitado pelos grandes gângsteres da Máfia nos EUA. E, no dia 20 de fevereiro, Ruark publicava:</p>
<p>“Sinatra esteve aqui por quatro dias na última semana, e durante esse tempo sua companhia em público e em particular era Luciano, os guarda-costas de Luciano, e uma rica coleção de jogadores e comparsas. A amizade foi linda. Eles eram vistos juntos nas pistas de corridas, no cassino e em festas especiais. Além de Luciano, fui informado de que Ralph Capone também estava presente&#8230; e ainda uma grande variedade de assassinos que acham o Sul saudável no inverno, ou nos dias de Grande Júri”.</p>
<p>Dizia-se que Sinatra voou de Miami para Havana com Rocco e Joseph Fischetti, dois gângsteres conhecidos. Mais tarde, em 1951, o repórter Lee Mortimer, do <em>New York Mirror</em>, relatava aquele que dizia ser o propósito da visita de Sinatra a Havana: entregar a Luciano dois milhões de dólares em cédulas de pequeno valor.</p>
<p>Sinatra respondeu com um gracejo:</p>
<p>– Imaginem a mim, o magro Frankie, carregando dois milhões de dólares em notas pequenas. Mil dólares em notas de um dólar pesam um quilo e 300 gramas, o que significa que eu teria que carregar 27.000 quilos. Mesmo supondo que as notas eram de 20 dólares, seria necessário uma dupla de estivadores para levá-las. Esta é sem dúvida a mais ridícula acusação que já fizeram a mim&#8230; Eu embarquei para Havana com uma pequena maleta em que carreguei meus óleos, as minhas anotações e jóias pessoais, que nunca despacho com minha bagagem.</p>
<p>Aproximadamente cinco anos mais tarde, na revista <em>American Weekly</em>, Sinatra voltaria a falar do episódio:</p>
<p>– O que realmente aconteceu em 1947 é que eu tirei uns dias de folga e decidi gozá-los em Havana e na Cidade do México. No caminho, parei em Miami para um show beneficente para o Fundo Damon Runyon Contra o Câncer. Encontrei Joe Fischetti lá, e quando ele soube que eu ia para Havana, disse-me que ele e seus irmãos estavam indo também, e mudaram suas reservas para estarem em meu vôo.</p>
<p>– Naquela noite eu tomava um drinque no bar, com Connie Immerman, dono de um restaurante em Nova York, e encontrei um grande grupo de homens e mulheres. Como sempre acontece em grandes grupos, as apresentações foram superficiais. Fui convidado para jantar com eles e, enquanto jantava, vi que um dos homens na festa era Lucky Luciano. Percebi subitamente que estava me expondo a críticas ficando na mesa, mas não consegui imaginar uma maneira de sair dali sem provocar uma cena.</p>
<p>– Depois do jantar fui ao jogos de jai alai, e então, com alguém que eu acabara de conhecer, dei um passeio pela noite. Finalmente fomos para o cassino, onde passamos por uma mesa em que estavam Luciano e vários outros homens. Eles insistiram para que sentássemos para um drinque, e, mais uma vez, para não provocar confusão, tomei um rápido drinque e me retirei. Estas foram as únicas vezes em que vi Luciano em minha vida.</p>
<p>Em 1962, em Nápoles, quando a polícia italiana revistou o apartamento em que Luciano acabara de morrer, de ataque cardíaco, encontrou uma cigarreira de ouro com a inscrição “Para Charlie, do seu camarada Frank Sinatra”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Na cama com</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Marilyn Monroe</strong></p>
<p>Sinatra teve como amigo o homem mais importante do mundo em sua época: John Kennedy.</p>
<p>Ele fez campanha para Kennedy e ajudou-o a eleger-se – é o que consta – conseguindo que amigos mafiosos, que controlavam sindicatos, trabalhassem por ele. Frank foi recebido na Casa Branca para que o presidente pudesse agradecer sua ajuda. A amizade era grande, apesar dos olhares enviesados de Robert Kennedy, nomeado Procurador Geral pelo irmão, e que estava empenhado em varrer das proximidades de John qualquer coisa que prejudicasse sua imagem, principalmente alguém acusado de ser amigo de bandidos. Bob havia escolhido o crime organizado para seu principal inimigo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Dean-e-Sammy.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1519" title="Frank com Dean e Sammy" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Dean-e-Sammy.jpg" alt="" width="300" height="376" /></a>Outros amigos de Frank eram Dean Martin, Sammy Davis Jr., Shirley MacLaine, Joey Bishop, Peter Lawford e sua mulher, Pat Kennedy Lawford, irmã de John Kennedy – o que fazia de Peter cunhado do presidente. Eles costumavam reunir-se sempre, em restaurantes, hotéis (principalmente o Sands, em Las Vegas, que era da Máfia), cassinos e na casa dos Lawford.</p>
<p>E havia Marilyn Monroe.</p>
<p>Norman Mailer diz que Sinatra deu a ela um cachorrinho branco, que Marilyn, fazendo graça, resolveu chamar de Maf, por causa das ligações dele com mafiosos. Os dois tiveram um caso, e uma amiga contou a Mailer que, certa vez, levou Marilyn para encontrar-se com o cantor no hotel Waldorf Astoria, onde ele estava hospedado. No dia seguinte, procurou Marilyn para perguntar como havia sido o encontro.</p>
<p>– Bem – disse ela – tivemos um problema. Nós juntamos duas camas que havia no quarto, mas algo deu errado com os colchões e eu ou Frank estávamos sempre caindo no meio deles.</p>
<p>(Uma falha no serviço do Waldorf!!!, horrorizou-se Mailer.)</p>
<p>– Mas e Sinatra? – quis saber a amiga. – Ele é bom?</p>
<p>– Não é nenhum Di Maggio.</p>
<p>Na casa dos Lawford, Sinatra apresentou Marilyn a John e a Bob Kennedy, e ela teve um namoro com o presidente. Não foi a primeira garota que apresentou a John. Antes dela já havia apresentado outra mulher com quem andara saindo, Judith Campbell Exner, que Sinatra apresentou também ao capo mafioso Sam Giancana.</p>
<p> Mais tarde Judith acabou rompendo com Sinatra e, dando uma entrevista coletiva à imprensa, declarou que deixara de manter relações sexuais com ele por causa de seus modos pervertidos.</p>
<p> – Diabos! – respondeu Frank. – Não há fúria maior do que a de uma prostituta com um agente literário.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Cuidado. O homem</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>tem um resfriado</strong></p>
<p>Mas, afinal: como é Frank Sinatra pessoalmente? Vejamos o que nos conta Gay Talese, o grande repórter norte–americano que tentou entrevistá–lo quando Frank completou 50 anos, em 1965. Sinatra recusou–se a dar entrevista, mas topou um acordo de cavalheiros: Talese poderia manter–se próximo, durante alguns dias, e também entrevistar pessoas ligadas a ele.</p>
<p>Talese conta, em seu livro <em>Fame and Obscurity</em>, capítulo “Frank Sinatra Está Resfriado”:</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-maduro-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1524" title="frank maduro 1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-maduro-1.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a> “Frank Sinatra, copo de bourbon numa das mãos e cigarro na outra, encontrava-se no recanto escuro do bar, entre duas louras atraentes, embora um tanto maduras, e que esperavam que ele dissesse qualquer coisa. Mas ele nada dizia; conservara-se silencioso quase toda a noite e, no momento, em seu clube particular de Beverly Hills, parecia ainda mais distante, olhando através da fumaça e da obscuridade para o salão além do bar, onde dezenas de jovens casais sentavam-se juntinhos ao redor das mesas, ou contorciam-se na pista, ao som do folk–rock despejado pelo estéreo. As duas louras sabiam, assim como os quatro amigos de Sinatra que se encontravam nas proximidades, que seria má idéia impor-lhe conversação quando ele se inclinava ao silêncio taciturno, disposição freqüente naquela primeira semana de novembro, um mês antes do seu quinquagésimo aniversário.</p>
<p> “Sinatra estava doente. Era vítima de moléstia tão comum que a maioria a considera trivial. Mas, tratando-se de Sinatra, era capaz de mergulhar a vítima num estado de angústia, depressão profunda, pânico e até raiva. Frank Sinatra estava resfriado.</p>
<p> “Sinatra resfriado é Picasso sem tintas, Ferrari sem gasolina – só que pior&#8230; Pois o resfriado comum rouba-lhe aquela jóia inestimável, a voz, mergulhando até o âmago de sua segurança e afetando não só a psique como também aparentemente causando uma espécie de coriza psicossomática em dezenas de pessoas que trabalham, bebem, amam com ele e dele dependem para o seu bem-estar e estabilidade. Sinatra resfriado pode, de certo modo, causar vibrações que percorrem toda a indústria do entretenimento e vão mais além, tão certo como o presidente dos Estados Unidos, adoecendo subitamente, pode abalar a economia nacional”.</p>
<p> (Em determinado momento, ele afastou–se do bar e caminhou para uma sala ao lado, onde um de seus amigos disputava uma partida de sinuca. Encostou-se em um banquinho e pôs-se a observar os jovens que por ali circulavam – e que, definitavamente, não faziam seu gênero – concentrando-se em um sujeito baixinho e irrequieto. O rapaz chamava-se Harlan Ellison, escritor em princípio de carreira. Calçava um par de botas Game Warden que lhe custara sessenta dólares, um preço alto na época. Voltemos a Gay Talese.)</p>
<p>“Finalmente, Frank Sinatra não conseguiu conter-se.</p>
<p>– Ei – gritou, voz ligeiramente áspera, que ainda assim apresentava aquela inflexão macio-cortante – essas botas são italianas?</p>
<p>– Não – respondeu Ellison.</p>
<p>– Espanholas?</p>
<p>– Não.</p>
<p>– São botas inglesas?</p>
<p>– Olhe, não sei, homem – replicou Ellison, olhando Sinatra de cenho franzido e voltando-lhe as costas.</p>
<p>A sala tornou–se subitamente silenciosa. (&#8230;) Sinatra encaminhou-se com aquele andar lento, arrogante, em direção a Ellison, e o ruído de seus passos era a única coisa que se ouvia.</p>
<p>– Está esperando uma tempestade?</p>
<p>Harlan Ellison desviou–se um passo.</p>
<p>– Ouça, há algum motivo para você falar comigo?</p>
<p>– Não me agrada a sua maneira de vestir.</p>
<p>– Detesto causar–lhe um choque, – replicou Ellison – mas visto-me como quero.</p>
<p>Ouviram–se então murmúrios na sala, e alguém disse:</p>
<p>– Vamos, Harlan. Vamos dar o fora daqui. (&#8230;)</p>
<p>Mas Ellison não se abalou.</p>
<p>– O que é que você faz? – perguntou Sinatra.</p>
<p>– Sou bombeiro.</p>
<p>– Não, não é – gritou um rapaz, que se encontrava do outro lado da mesa. – Ele escreveu <em>The Oscar</em>.</p>
<p>– Ah, é? – falou Sinatra. – Já vi e é pura merda.</p>
<p>– É estranho, porque ainda nem foi distribuído – replicou Ellison.</p>
<p>– Mas eu já vi – repetiu Sinatra – e é pura merda.</p>
<p> “A cena estava se tornando ridícula e, aparentemente, Sinatra não falava a sério, reagia apenas ao tédio ou ao desespero interior. Seja como for, após mais uma troca de palavras, Harlan Ellison saiu da sala.</p>
<p> “A história não ultrapassara três minutos. E três minutos depois de encerrada, Sinatra esquecera-a, provavelmente pelo resto da vida – assim como Ellison a recordará, provavelmente para o resto da vida”.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Sinatra certamente não falava a sério e certamente esqueceu o episódio. No ano seguinte, quando <em>The Oscar</em> foi filmado, havia uma cena em que um personagem famoso aparecia no palco, interpretando a si próprio, na entrega de uma das estatuetas. Era Frank Sinatra.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Gay Talese:</p>
<p>“Observei algo de sua faceta siciliana no verão passado, no bar Jilly’s, em Nova York, a única vez em que chegara às suas proximidades em data anterior àquela noite no clube da Califórnia. O Jilly’s, situado na Rua 52 Oeste, em Manhattan, é o local onde Sinatra bebe sempre que se encontra em Nova York.</p>
<p>“Alguns de seus amigos íntimos, todos conhecidos dos homens que guardam a porta do Jilly’s, conseguem uma escolta para penetrar até a sala dos fundos. Mas, uma vez ali, têm que se arranjar sozinhos. Uma noite, Frank Gifford, antigo jogador de futebol, não penetrou mais que um metro em três tentativas. Outros, que haviam chegado bastante próximo para apertar a mão de Sinatra, não o conseguiram; em vez, tocaram nos ombros, ou nas mangas, ou simplesmente postaram-se de modo a serem vistos e, após conseguir uma piscadela, um aceno ou um gesto de cabeça, ou talvez seu nome (ele tem uma memória fantástica para nomes) voltavam-se e iam embora. Haviam marcado o ponto.”</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Não é em todas as noites que o humor de Sinatra apresenta-se disponível para centralizar atenções. Ele também não tem a si próprio como seu único ídolo, mesmo para quem sabe, como sabemos, o volume de seu ego. Uma noite, no distante ano de 1966, ele jantava em relativa calma, longe do burburinho do Jilly’s, no restaurante Côte Basque, em Nova York. Em determinado momento, levantou–se e, com a elegância de sempre, terno impecavelmente cortado e sapatos brilhando, cruzou a sala com uma folha de papel em uma das mãos.</p>
<p>Parou ao lado de uma mesa em que jantava um homem igualmente elegante, baixinho, usando óculos de aro de tartaruga. Era Igor Stravinsky, o compositor russo. Sinatra estendeu–lhe a folha de papel.</p>
<p>– Poderia, por favor, conceder–me seu autógrafo?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um peteleco no</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>pássaro de alabastro</strong></p>
<p>Sinatra é um homem totalmente imprevisível, de humor variável, e que reage por instinto. Uma das histórias que se contam dele, Talese a contou, envolvem uma jovem chamada Jane Hoag, repórter de <em>Life</em> em Los Angeles, e que freqüentava a mesma escola da filha de Sinatra, Nancy. Jane foi convidada a uma festa na casa da senhora Sinatra, em que Frank, que mantém relações cordiais com sua primeira mulher, serviu de anfitrião. No início da festa, Jane Hoag, apoiando-se a uma mesa, bateu acidentalmente com o cotovelo num par de pássaros de alabastro, um dos quais caiu ao chão, quebrando-se em pedacinhos. Súbito, lembra Jane, a filha de Sinatra exclamou: ‘Oh, era um dos prediletos de mamãe&#8230;’ – mas, antes que pudesse completar a frase, Sinatra fitou-a, furioso, forçando-a a calar-se, e, diante de quarenta convidados, que assistiam silenciosos à cena, aproximou-se e, com um peteleco, atirou ao chão o outro pássaro de alabastro, fazendo-o em pedacinhos. Em seguida, passando o braço pela cintura de Jane, disse, para colocá-la totalmente à vontade: ‘Não tem importância, menina’.</p>
<p> “A violência tem acompanhado Frank há anos (fala Kitty Kelley, biógrafa não autorizada de Sinatra), mas a maioria das pessoas sempre relutou em combatê–lo. Uma pessoa que o fez foi Frank J. Weinstock. Agente de seguros de Salt Lake City, ele processou Sinatra por assalto e agressão, dizendo que Frank dera ordens para que fosse agredido por Jilly Rizzo e Jerry ‘O Demolidor’ Arvenitas, em um restaurante de Palm Springs. Ele disse em sua queixa que estava no banheiro do Trinidad Hotel, no dia 5 de maio de 1973, quando Frank entrou com seus guarda-costas e disse: ‘Aí está o esperto filho da puta que quer interceptar minha mulher’. Frank estava no restaurante jantando com a mulher Barbara Marx e outras pessoas. Weinstock estava com sua mulher e alguns parentes.</p>
<p>– Você está brincando – disse Weinstock. – Você não pode acreditar no que está dizendo. Eu não conheço sua mulher. Eu nunca a vi antes em minha vida. Eu não sei do que você está falando. Olhe, não é você o Sinatra sobre o qual li que pode ter todas as mulheres que quiser? Você quer realmente dizer que tem medo de mim? Eu, um caipira de Salt Lake City, Utah, incomodando um homem poderoso como você?</p>
<p>– Tenha respeito pelo chefe – disse um dos guarda-costas de Frank. – Mantenha suas mãos para baixo se quer continuar a viver, e faça aquilo que dissermos para fazer. Ponha suas mãos para cima e vou quebrar todos os ossos que você tem no corpo.</p>
<p>– Olhe, seu filho da puta, o nome é Frank, ou Senhor Sinatra – disse Frank, que então estalou os dedos para sua turma. – Ok, rapazes – e os três deixaram o banheiro.</p>
<p> “Minutos depois, de volta ao salão, Weinstock foi agredido por vários homens, que o deixaram com ferimentos, cortes no rosto e marcas por todo o corpo. Aterrorizada, sua irmã correu para Frank.</p>
<p>– Senhor Sinatra, – ela disse – o senhor deve ter cometido um engano. Este é meu irmão. Ajude-o, por favor’.</p>
<p>– Não fale comigo, garota – respondeu Frank.”</p>
<p>Depois disso, termina o relato, Frank e seus amigos foram embora pela porta da cozinha.</p>
<p>Weinstock processou Sinatra e sua turma. No fim do processo, Jilly Rizzo, o dono do Jilly’s e amigo inseparável, foi condenado a pagar 101 mil dólares a Weinstock. Sinatra e Jerry ‘O Demolidor’ foram absolvidos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Todas as fichas por</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>um lugar na eternidade</strong></p>
<p>Em 1952, casado com Ava Gardner logo após o divórcio de Nancy, Frank Sinatra apaixonou-se por um soldado. Um soldado de ficção, o torturado Angelo Maggio da obra de James Jones, que ficou conhecendo ao ler o roteiro de <em>From Here to Eternity</em> (<em>A Um Passo da Eternidade</em>). Ele sentiu que o papel do soldado Maggio era o seu papel, e que aquela poderia ser a maior chance de sua vida desde o dia em que, num show em Hoboken, com Nancy ao seu lado, decidiu seguir os passos de Bing Crosby.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-eternity.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1523" title="frank eternity" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-eternity.jpg" alt="" width="550" height="448" /></a>Só que Harry Cohn, o chefe dos estúdios Paramount, disse não a Sinatra e anunciou que contrataria Eli Wallach. Sinatra contra-atacou. Em primeiro lugar, pediu a Ava Gardner que tentasse convencer Cohn. Ela não conseguiu. Pediu então que Ava tentasse convencer a mulher de Cohn a convencê-lo. Nada. Sinatra foi ao produtor do filme, Buddy Adler. Adler disse não. Sinatra marcou um encontro com o próprio Cohn. “Nós precisamos de um ator. Você é um cantor, não um ator” – disse–lhe Cohn. Sinatra respondeu que, como em outras produções, queria apenas 150.000 dólares pelo papel. Cohn abanou a cabeça. Sinatra mandou dizer que aceitaria 1.000 dólares por semana, 8.000 dólares pelo total de oito semanas, o tempo da produção.</p>
<p>Cohn mandou-lhe um telegrama: o papel era dele.</p>
<p>Esta é a história oficial. A lenda – algo que jamais poderá ser dissociado do nome Frank Sinatra – é outra, e milhões de pessoas a leram e viram nas telas, em <em>O Poderoso Chefão</em>, de Francis Ford Coppola e Mario Puzo. Don Corleone – seria novamente o senhor Moretti? – “convenceu” o produtor a entregar o papel a Frank. Harry Cohn teria cedido depois que a cabeça de seu cavalo de 500.000 dólares foi cortada e colocada em sua cama, enquanto dormia.</p>
<p>Mario Puzo tem uma interessante história a contar. Ele havia acabado de escrever <em>The Godfather</em>, <em>O Chefão</em>, e o manuscrito estava com seus editores. Começaram a surgir mexericos de que, um dos personagens, Johnny Fontane – um cantor que, com a ajuda da Máfia, consegue um papel em um filme – havia sido inspirado em Frank Sinatra. Antes da publicação do livro, os editores receberam uma carta dos advogados de Frank pedindo para ver o texto. O que foi polidamente recusado.</p>
<p>– No ano seguinte – conta Mario Puzo – quando trabalhava no script, fui convidado para uma festa de um milionário em Hollywood. John Wayne e Sinatra estavam lá. Na saída, o milionário pegou-me pelo braço e me levou até um grupo de pessoas. ‘É preciso que você conheça Frank,’ – disse – ‘é um dos meus melhores amigos. Eu gostaria que você conhecesse Mario Puzo,’ – disse ele a Sinatra – ‘é um dos meus amigos’. ‘Acho que não tenho vontade de conhecê-lo’, – respondeu Sinatra.</p>
<p>– O milionário se desmanchou em desculpas. Quase chorava. ‘Frank, estou desolado, meu Deus, Frank, eu não sabia, estou angustiado&#8230;’</p>
<p>- Sinatra cortou–lhe a palavra. Com sua voz de veludo, disse–lhe: ‘A culpa não é sua’.</p>
<p>– Eu sempre evito discussões, –continua Puzo – mas não pude deixar de dizer a Sinatra: ‘Escute, a idéia não partiu de mim’.</p>
<p>– Então aconteceu a coisa mais extraordinária possível. Sinatra enganou-se completamente com o sentido de minha resposta. Pensou que eu me desculpava pelo personagem Johnny Fontane.</p>
<p> – Voz amável, ele perguntou: ‘Quem mandou você botar isso no seu livro – seu editor?’</p>
<p>– Fiquei estupefato. Finalmente disse: ‘Estou falando dessa idéia de nos apresentarem um ao outro’. Então Sinatra começou a insultar–me. Fiquei com a impressão de que ele detesta meu romance e pensa que eu o ataquei pessoalmente ao criar Johnny Fontane”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Desbancando os Beatles</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>na parada de sucessos</strong></p>
<p>Frank Sinatra ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel do recruta Maggio em <em>From Here to Eternity</em>. Então, como que por mágica, seus discos voltaram às paradas musicais, com aumento das vendas e uma glória inesquecível, em 1966, quando gravou “Strangers in the Night” e desbancou os Beatles nas paradas de sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra.</p>
<p>Ele já havia se divorciado de Ava Gardner.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Nos jornais, em julho de 1966:</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-e-mia.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1525" title="frank e mia" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-e-mia.jpg" alt="" width="400" height="324" /></a>“A atriz Maureen O’Sullivan anuncia o noivado de sua filha, Mia Farrow, com o cantor Frank Sinatra. “Frank é uma ótima pessoa e eu sei que eles serão muito felizes”, disse a senhora O’Sullivan.</p>
<p>O casamento entre a jovem Farrow, 21 anos, e Sinatra, 50, está planejado para o final do ano.”</p>
<p> Nos jornais, em julho de 1966:</p>
<p>“Em decisão surpreendente, Frank Sinatra casou–se com Mia Farrow no Hotel Sands, em Las Vegas, em uma cerimônia de cinco minutos. O noivado do casal havia sido anunciado na semana passada. Ninguém da família de Sinatra, nem da senhorita Farrow, estava presente. Este é o terceiro casamento de Sinatra, e o primeiro de Farrow.”</p>
<p>Nos jornais, em dezembro de 1967:</p>
<p>Frank Sinatra e sua esposa há 16 meses chegaram a um acordo hoje em audiência de separação. O cantor, de 52 anos, concorda em que ele e Farrow, 22 anos, passaram muito pouco tempo juntos.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Ele voltou a casar–se, aos 60 anos, com Barbara Marx, ex–mulher de Zepo Marx, e com ela esteve no Brasil duas vezes.</p>
<p>Parece mais calmo ao lado de Barbara, mas jamais deixou as primeiras páginas dos jornais. Como, aos 75 anos, quando falava de Sinead O’Connor, a cantora irlandesa que encanta milhões de pessoas com sua voz macia e sensual. Falava para uma multidão, em um show no Garden State Arts Centre, de Nova York, e dizia:</p>
<p>– Se encontrar-me com ela, vou dar–lhe um chute no traseiro.</p>
<p>A multidão urrou, gargalhou e aplaudiu.</p>
<p>Quem mais, além de Sinatra, prometeria publicamente chutar o traseiro de Sinead O’Connor? Quem mais, além de Sinatra, ameaçaria chutar o traseiro de alguém aos 75 anos de idade?</p>
<p>(Motivo da ameaça de Sinatra a O’Connor: ela havia se recusado a cantar naquele mesmo estádio, dias antes, se sua apresentação fosse precedida do hino nacional norte–americano, como é de praxe no Garden State Arts Centre. O’Connor não respondeu ao cantor.)</p>
<p>Quem mais, além de Sinatra, surpreenderia o mundo gravando um punhado de canções aos 78 anos e passando uma rasteira nos primeiros lugares das paradas de sucesso? Pois foi o que ele fez com <em>Duets</em>, no final de 93. O projeto previa a participação de Liza Minelli, Barbra Streisand, Tony Bennett e Julio Iglesias, entre outros, mas poucos acreditavam que Sinatra, que não entrava em um estúdio de gravação havia sete anos, e com a voz rouca pela idade, pudesse fazê–lo.</p>
<p>Quando ele pegou o microfone, e começou a cantar, as pessoas sentiram que algo de mágico estava acontecendo. Cantou com tanta emoção e empenho na interpretação que a orquestra o aplaudiu demoradamente no final. Foi um sucesso mundial. Em fevereiro do ano passado a Associação da Indústria de Discos da América deu a Sinatra o primeiro disco de multi-platina de sua carreira, pelos dois milhões de exemplares de <em>Duets</em> vendidos. Ele já havia recebido um disco de platina, em 1966, com a gravação de “Strangers in the Night”. Recebeu também, em 55 anos de carreira, 21 discos de ouro.</p>
<p>Não satisfeito com o sucesso de <em>Duets</em>, ele o fez de novo, e lançou <em>Duets II</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Memória fraca ganha</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>apelido: malandragem</strong></p>
<p>Há muito se diz que Sinatra não pode mais cantar, que esquece letras que canta há mais de 50 anos, que a esclerose o atacou. Mas, como Sinatra é Sinatra, tudo isso vem também cercado de lenda e desconfiança: não será malandragem? Não estará fingindo? Um episódio divertido foi contado por Nelson Motta, aqui mesmo, no <em>Estadão</em>.</p>
<p><em>Duets</em> estava sendo planejado e alguém propôs a ele que gravasse com Bono. Ficou furioso, gritou palavrões e quase recorreu a sopapos. Achou que se tratava de Sonny Bono, cantor medíocre que, acha Motta, tem como único crédito ter sido marido de Cher, com quem fez a dupla Sonny and Cher, de quinta categoria. Explicaram a ele que não, que se tratava do irlandês Bono Vox, excelente cantor. Ele não se lembrava de Bono Vox. Colocaram um CD de Bono para rodar, e Sinatra adorou.</p>
<p>Gravaram a maravilhosa “I’ve Got You Under My Skin”, Sinatra cantando em Los Angeles, Bono em Dublin.</p>
<p>Algum tempo depois, na fase de divulgação do disco, a produção marcou a gravação de um clipe promocional, com Bono e Sinatra cantando a música em um bar de Palm Springs. Bono estava lá. Sinatra foi levado por assessores. No meio da confusão, quando a técnica preparava câmaras, microfones e luzes, alguém informou a Sinatra de que se tratava. Ele explodiu:</p>
<p>– Que história é essa? Que vídeo? Que dueto? Tô fora.</p>
<p>Bono espantou–se. A produção então, cheia de mesuras e salamaleques, tentou acalmar Frank, pediu–lhe que pelo menos posasse para algumas fotos ao lado de Bono. E Bono praticamente foi à lona com a resposta dele:</p>
<p>– Quem é esse cara?</p>
<p>O desastre tinha acontecido e era irreversível. Recorreu–se então ao expediente de dizer a Sinatra que não era nada demais: tratava–se apenas de tirar algumas fotos que o dono do bar guardaria como recordação. Ele concordou, posou para duas ou três fotos, alegou que um avião o esperava e bateu em retirada. Bono teve certeza de que ele fingia. Comentou com amigos: Sinatra diz que não se lembra das coisas quando acha que o estão incomodando.</p>
<p>É possível que haja uma dose de malandragem. Mas, certamente, não é só isso. Pouco tempo depois do incidente com Bono, no dia 6 de março de 94, um domingo, Frank dava um concerto em Richmond, na Virgínia, no teatro Richmond Mosque. A orquestra tocava “My Way”, e ele cantava os versos desta que é uma de suas canções mais famosas. Mais duas músicas e o concerto estaria terminado, mas Sinatra estava visivelmente incomodado pelo forte calor, e tinha um lenço nas mãos, que passava no rosto, no queixo. “My Way” estava sendo demais para ele, e então pediu uma cadeira ao filho Frank Jr., diretor da orquestra.</p>
<p>Antes que a cadeira chegasse, a platéia viu, perplexa, Frank Sinatra desabar no palco. Foi um momento tenso: todo o teatro emudeceu, e as pessoas passaram a acompanhar, no mais absoluto silêncio, o trabalho dos enfermeiros que o socorriam, abriam seu colarinho e o colocavam em uma cadeira de rodas. Ao ser retirado, ele, com muita dificuldade, tentou um aceno para a platéia. As 3.700 pessoas presentes, em pé, o aplaudiram forte e demoradamente.</p>
<p>Foi atendido no hospital local, onde ficou três horas antes de receber alta e voar em seu jato particular para a Califórnia.</p>
<p>Alguns meses depois voltou a sentir–se mal, um de seus shows foi cancelado e seu staff anunciou que ele não mais participará de shows ao vivo.</p>
<p>Depois disso os jornais disseram que Frank Sinatra está surdo, e só consegue ouvir música com fones de ouvido. Que sofre do mal de Alzheimer. Que tem câncer. O <em>Jornal da Tarde</em>, de São Paulo, noticiou que ele pode vir a Pouso Alegre, em Minas Gerais, para tratar-se com o paranormal Thomaz Green Morton. Sabe-se que a mulher de Sinatra, Barbara, vendeu a casa que tinha em Palm Springs, e o casal mudou-se para Los Angeles. Onde os médicos estão mais próximos.</p>
<p> A última aparição pública de Frank Sinatra foi na segunda quinzena de setembro passado, em Los Angeles, na estréia de uma ópera. Apoiava-se em Barbara, usava aparelho para surdez, tinha uma barba branca cortada à Abraham Lincoln e estava sem peruca, a careca à mostra.</p>
<p>Nesta terça–feira, 12, ele completa 80 anos.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Em fevereiro de 1963 a revista <em>Playboy</em> trazia uma entrevista com Frank Sinatra. Uma coisa excepcionalmente difícil, porque Sinatra não dá entrevistas.</p>
<p><em>Playboy</em>: Você acredita em Deus?</p>
<p>Sinatra: Acho que posso resumir meus sentimentos religiosos em poucos parágrafos. Primeiro: eu acredito em você e em mim. Sou como Albert Schweitzer e Bertrand Russel e Albert Einstein, na medida em que tenho respeito pela vida, sob qualquer forma. Eu acredito na natureza, nos pássaros, nos oceanos, no firmamento, em tudo o que posso ver ou que tenha evidências reais. Se essas coisas são aquilo que você chama de Deus, então acredito em Deus. Mas não acredito em um Deus pessoal, no qual eu procuro conforto ou a vitória em um jogo de dados. Não sou inconsciente em relação à necessidade de o homem ter fé. Sou a favor de qualquer coisa que faça você atravessar a noite, sejam orações, tranquilizantes ou uma garrafa de Jack Daniels. Mas, para mim, religião é uma coisa mais profundamente pessoal, na qual o homem e Deus vão juntos por si só, sem intermediários. Não é necessário para nós ir à igreja aos domingos para alcançá-Lo. Você pode encontrá-Lo em qualquer lugar. E, se isso soa herético, minha fonte é muito boa: Mateus, versículos cinco a sete, Sermão da Montanha.</p>
<p><em>(Estive em um show de Sinatra em Atlantic City, em 1980, mas se quisesse realmente vê-lo naquela ocasião teria que usar um binóculo, e potente. Já na visita dele a São Paulo, no Maksoud Plaza, em 13 de agosto de 1981, eu estava ao lado do palco. Vi quando reclamou do uísque: “Muita água, ou soda, não sei o que”, e quando disse a um insistente senhor da platéia que não poderia cantar ‘The Shadow of Your Smile’ porque não sabia a letra: “Eu realmente não sei”.</em></p>
<p><em>Mas as informações que utilizei neste perfil foram obtidas em inúmeras reportagens, artigos e livros sobre Sinatra, principalmente </em>Fame and Obscurity<em>, Doubleday, N. York, 1970, de Gay Talese, em que ele coloca um de seus textos mais famosos – “Frank Sinatra está resfriado”. </em>Fame<em> foi traduzido no Brasil pela primeira vez pela editora Expressão e Cultura com o título </em>Aos olhos da multidão<em>. E depois, em 2004, pela Companhia das Letras, com a tradução do título original, </em>Fama e anonimato<em>. Outras fontes foram </em>His Way<em>, Bantan Books, N. York, 1986, biografia não autorizada, por Kitty Kelley; </em>Sinatra<em>, Hamlyn Publishing Group, 1978, por Alan Frank, </em>Legend: Frank Sinatra and the American Dream<em>, Boulevard Books, N. York, 1995, uma compilação de mais de 50 anos de reportagens, artigos e críticas na imprensa reunidos por Ethie Ann Vare. Além, é claro, de jornalistas e autores já citados ao longo do texto.)</em></p>
<blockquote><p>Esta reportagem foi escrita para <em>O Estado de S. Paulo</em> e publicada em 10 de dezembro de 1995, por ocasião dos 80 anos do cantor.</p></blockquote>
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		<title>Dificilmente algo no mundo se parecerá com a Vila Itororó</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Mar 2010 03:00:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Seria um absurdo alguém, em pleno centro de São Paulo, ter a sensação de que chegou a uma civilização perdida do fim do mundo. Mas dificilmente, em qualquer parte do planeta, algo se parecerá com o palacete da Vila Itororó. E mesmo o caminhozinho incerto que leva à vila, com suas casinhas de fachada deteriorada, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Seria um absurdo alguém, em pleno centro de São Paulo, ter a sensação de que chegou a uma civilização perdida do fim do mundo. Mas dificilmente, em qualquer parte do planeta, algo se parecerá com o palacete da Vila Itororó. <span id="more-1377"></span>E mesmo o caminhozinho incerto que leva à vila, com suas casinhas de fachada deteriorada, fortalecem essa sensação. No entanto, as cores fortes dos grafites, pintados em muitas fachadas, em muros e por todo lado, trazem de volta à realidade: estamos em São Paulo.</p>
<p>No bairro da Bela Vista, o tradicional Bexiga. O estilo do palacete, que pode ser chamado eclético, mas bem comportaria a pecha de bizarro, revela na verdade um Frankenstein, feito com restos de demolição. Não é tão raso assim. O material foi o que sobrou do notável Teatro São José, depois que um incêndio o destruiu, em 1917.</p>
<p>Entenda-se: é uma construção fora de qualquer padrão, mas bela em sua caótica concepção. As colunas trazidas do teatro, que a envolvem, as carrancas e adornos, dão-lhe, à sua maneira, um ar nobre.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/ito1.png"><img class="alignleft size-full wp-image-1381" title="ito1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/ito1.png" alt="" width="400" height="300" /></a>O palacete pertenceu a um rico tecelão português, Francisco de Castro. Ele levou os salvados do teatro para seu terreno de 5 mil metros quadrados, no Bexiga. Ali construiu primeiro, com material do comércio, 37 casas, com duas portas no térreo. A primeira serve à moradia do próprio térreo. A segunda abre para uma escada que leva à outra moradia, no andar de cima.</p>
<p>A história registra que, com o dinheiro dos aluguéis, ergueu então seu palacete, de quatro andares. O ano da inauguração está escrito em alto relevo, solenemente, na fachada: MCMXXII. Por acaso, e só por isso, 1922 é o ano em que São Paulo viveu a Semana da Arte Moderna.</p>
<p>Outra singularidade do palacete é ter entradas independentes para cada um de seus quatro andares. Um andar não comunica com outro. A obra foi construída ao pé de uma escarpa de uns dez metros, na margem direita da Rua Martiniano de Carvalho. Aqui em cima, há quatro entradas.</p>
<p>Uma, diretamente para o quarto e último andar. As outras três servem escadas que levam, cada uma, a um dos três andares restantes. Em alguma época, foram construídas passarelas para ligar a rua com os andares. As escadas, hoje deterioradas, perderam seu uso.</p>
<p>Quando chega em casa, muitas vezes vindo dos ensaios da escola de samba Vai-Vai, André Tavares dos Santos, de 22 anos, abre um velho portão de ferro. A peça está na calçada da Martiniano de Carvalho. Transposta, André passa por um leão de pedra, hoje tomado pela hera. O leão fazia par com outro, que se desfez (mas Antonia Souza Cândido, da associação amigos do bairro, guardou seus pedaços).</p>
<p>Caminha então, André, pela passarela que o conduz à área externa que circunda todo aquele andar, o quarto. Encostada à parede da casa, espera por ele a estátua de ferro de uma mulher, sentada, com um cacho de uva em uma mão, e ramos de trigo na outra. É a Deusa da Fartura, embora muita gente insista em dizer que é a Princesa Isabel.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/ito00.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1382" title="ito00" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/ito00.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a>Em outra face da parede, há pequenas janelas circulares com vitrais, cada uma homenageando um Estado da União.</p>
<p>Vê-se também um pequeno tocheiro, que, na verdade era uma das luminárias do teatro.</p>
<p>Nosso André gira então a grossa maçaneta, grande, de bronze trabalhado, e abre a porta (nesta existe também um puxador do mesmo material, que compõe com a caixa de correio). Entra na sala assoalhada, com forro de madeira. Ali estão, entre os móveis, os instrumentos de percussão que o sambista toca na Vai-Vai.</p>
<p> Na sala seguinte há duas colunas impressionantes. Uma cariátides, em forma de mulher. E um atlante, com forma de homem. Suportam o peso do telhado, ao tempo em que decoram com surpreendente beleza o aposento. Há um janelão, fechado pela persiana. Mas outros dois vitrais redondos deixam entrar uma luz coada e agradável.</p>
<p>Como é morar num palacete de 88 anos? “É muito bom, a gente se sente parte da História”, André responde. Está aqui há 12 anos, com a mãe, a tia e dois outros parentes. A tia, Rita, chegou há 40 anos. O aluguel, quanto é? Um salário-mínimo.</p>
<p>Na verdade, era isso em 2006, quando a Prefeitura decretou a desapropriação da vila. As famílias deixaram de pagar o aluguel, enquanto se define se serão mudadas para um prédio de apartamentos. Pagam suas contas de água e luz, para comprovar que vivem lá. Esperam também o julgamento de uma ação de usucapião, movida pela associação de moradores.</p>
<p>Bem perto da cariátides e do atlante, à frente do sofá, ao lado da mesa, na sala de André, há dois grandes vasilhames. Destinam-se a aparar a água que vem das goteiras. André diz que já gastaram bom dinheiro para consertar o telhado e as calhas. Mas não resolveram o problema.</p>
<p>A área externa que circunda a casa (dividida para duas famílias), nesse quarto andar, tinha como proteção uma cerca de madeira de lei trabalhada. Hoje, só restou um pequeno pedaço. Uma mureta de tijolos a substituiu. Quem olha lá de cima vê, quatro andares abaixo, o jardim do palacete. Muito verde, e um leão grande, de cimento, deixado.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/ito3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1383" title="ito3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/ito3.jpg" alt="" width="500" height="446" /></a>A impressão de que se chegou a um lugar perdido é de quem vem pela ruela que nasce na Rua Maestro Cardim. Ali estão as casinhas, uma em cima da outra, cada qual com suas janelas pequenas, com veneziana. A de cima, com uma grade de ferro, ao modo de sacada.</p>
<p>Nesta parte da vila, a vida está mais exposta. Uma mulher pendura roupa lavada num varal em frente a sua casa (na rua, portanto). Numa moradia nos baixos do palacete, uma cariátides, a coluna com figura de mulher, recebeu um toque inusitado. Pintaram-lhe um vestido azul, e uma máscara vermelha.</p>
<p>Em outra casa, outra dessas colunas adorna a cobertura de um galinheiro. Sob um impermeável, vivem um pomposo galo e sua companheira, uma galinha.</p>
<blockquote><p><em>Este texto foi originalmente publicado no </em>Diário do Comércio</p></blockquote>
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		<title>O trem que não existiu, mas existiu</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 22:16:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Em julho, comemoram-se cem anos de nascimento do criador de um trem que não existiu. Embora tenha existido&#8230; Falamos de João Rubinato, nascido em Valinhos, em 1910, de família pobre. É ele o autor do grande sucesso do repertório nacional “Trem das Onze”. Embora, na verdade, o autor seja Adoniran Barbosa, morto em São Paulo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em julho, comemoram-se cem anos de nascimento do criador de um trem que não existiu. Embora tenha existido&#8230; Falamos de João Rubinato, nascido em Valinhos, em 1910, de família pobre. É ele o autor do grande sucesso do repertório nacional “Trem das Onze”. Embora, na verdade, o autor seja <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/11/24/adoniran-vai-continuar-por-aqui/">Adoniran Barbosa</a>, morto em São Paulo, em 1982.<span id="more-1287"></span></p>
<p>João adotou o nome artístico de Adoniran, quando começou a fazer sucesso, em 1935. Em 1965, compôs “Trem das Onze”, uma de suas obras mais marcantes. O trem existiu, ou é só letra de samba?</p>
<p>Sim, o Trem da Cantareira, que inspirou a música, correu por ruas da São Paulo antiga por mais de um século. Chegava ao Jaçanã, na zona norte. “Moro em Jaçanã&#8230;”</p>
<p>Mas o Trem das Onze não existiu. “Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas&#8230;” Não havia partidas com esse horário.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/adoniran1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1290" title="adoniran1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/adoniran1.jpg" alt="" width="300" height="411" /></a>Adoniran de fato pegava o trem, mas não para chegar em casa. Naquela época, aí por 1955, um dos vários fazeres artísticos em que estava metido era o de ator. No Jaçanã, construíra-se o primeiro estúdio de filmagens da cidade, a Companhia Cinematográfica Maristela.</p>
<p>Na “Hollywood do Jaçanã”, como a chamavam, um dos astros de filmes como <em>A Pensão de Dona Estela</em> era aquele curioso músico de nariz marcante e voz rouquenha.</p>
<p>Em anos mais recentes, um jornalista perguntou a Adoniran porque pusera o Jaçanã na letra de “Trem das Onze”. “Porque eu precisava de uma rima, e Jaçanã rima com manhã”, foi a resposta. “&#8230;Só amanhã de manhã.”</p>
<p>Isto não deve ser visto como desamor pelo bairro. Num dia de 1966, Adoniran desceu de um carro, em frente à Estação do Jaçanã. Era o convidado especial para uma cerimônia triste. A estação seria demolida. O convidado não chegou de trem, porque os trilhos haviam sido retirados um ano antes.</p>
<p>Na plataforma da estação, misturou seus sucessos. Pôs-se a cantar: “Cada táuba que caía, doía no coração.” Trecho, como se sabe, de “Saudosa Maloca”. O episódio é contado por um ex-passageiro do trem, Silvio Bittencourt, criador da Associação Memória Museu do Jaçanã.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Na roupa dos passageiros, furinhos feitos por fagulhas</strong></p>
<p>Sílvio embarcava naquela mesma estação, nos anos 1950, para chegar ao trabalho, no centro. A Maria Fumaça corria, se é possível dizer assim, em trilhos de bitola pequena, de 60 cm. Puxava três vagõezinhos de madeira, com bancos fixos, como os dos bondes. Sempre cheio, ia a 50 quilômetros por hora, no plano. Nas subidas, bufava a 15 por hora.</p>
<p>Nesses trechos, Sílvio pulava de um vagão e subia em outro. Assim enganava o picotador, e não pagava passagem. Ia bem arrumado, geralmente um terno azul, e gravata. Quando descia do trem, no centro, sempre havia alguém para gozar: “Ô Cantareira”. Uma pessoa com um terno todo cheio de furinhos feitos por fagulhas, só podia ter descido do Trem da Cantareira.</p>
<p>As fagulhas lançadas pela chaminé da Maria Fumaça eram um problema também para as donas de casa, com quintais situados ao longo da estrada. A roupa estendida nos varais ficava como os ternos de Silvo Bittencourt.</p>
<p>Perto do Jaçanã, havia um pontilhão muito estreito. O picotador alertava os passageiros, que tinham a mania de viajar com cabeça, braços, para fora do trem. “O picotador gritava ‘olha a cabeça’”, relembrou Sílvio. “Se não tomassem cuidado, a cabeça ficava e o corpo seguia para o Jaçanã.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Entregou marmitas, foi varredor, tecelão, pintor&#8230;</strong></p>
<p>Trem, ferrovia, sempre estiveram na memória de Adoniran Barbosa. Quando era o menino João Rubinato, encontrou seu primeiro trabalho em uma ferrovia. Isso foi em Valinhos, região de Campinas, onde nasceu, sétimo da prole de um casal de imigrantes italianos. Para ajudar a família, trabalhava nos vagões de carga.</p>
<p>Estudar? Só à força. Assim, entregou marmitas, foi varredor, e em 1924, aos 14 anos, chegou a Santo André, na Grande São Paulo. Tecelão, pintor, encanador, serralheiro, mascate, garçom – não se fixou em nada. No Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, aprendeu a ser ajustador mecânico. Só aprendeu.</p>
<p>Em entrevista, contou que resolveu mascatear meias e retalhos pelas ruas &#8211; mas desistiu. “Nunca aprendi a fazer negócio. Comprava um par de meia por dez mil réis, vendia por oito, para acabar logo com a mercadoria e me mandar pra casa. Não dava pé, nem meia, muito menos lucro”.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/adoniran2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1291" title="adoniran2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/adoniran2.jpg" alt="" width="500" height="320" /></a>No entanto compunha umas músicas. Fim de semana, estava na Rádio Cruzeiro do Sul, em São Paulo. “Aos sábados, tinha a hora do calouro. Cismei e todo sábado me arriscava. Era só eu começar e lá vinha o congo. Mas eu não desistia. Um sábado, o homem do congo devia de está distraído e consegui chegar até o fim num samba do Noel, o ‘Filosofia’.” Saiu de lá contatado.</p>
<p>Isso aconteceu em 1933. Dois anos depois, João Rubinato ganhou um prêmio com uma marchinha, “Dona Boa”. Livrou-se do João, “onde já se viu um sambista com nome de João?” e do Rubinato. Adoniran era o nome de um amigo, e Barbosa de um grande cantor. Bastou-lhe juntar os dois.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Os carros já não respeitavam mais os trens</strong></p>
<p>Na cidade, o trenzinho da Cantareira cumpria seu papel. Surgira em 1894, e sua primeira missão fora levar materiais à Serra da Cantareira. Ali seria construído um reservatório de água para abastecer a cidade. Um ano depois, os passageiros chegariam a esse aprazível lugar, nos fins de semana, com suas cestas de piquenique.</p>
<p>O trem partia da Estação Tamanduateí, no Pari, que ficava na margem esquerda do rio, onde hoje passa a Avenida do Estado. Seguia para o Norte, atravessava o Tietê e ia em frente – mais ou menos como agora faz o metrô. Em certo ponto, um ramal derivava à direita, para chegar ao Jaçanã, que se chamava Guapira, e a Guarulhos.</p>
<p>O cenário oferecido nas janelas eram os arredores bucólicos da São Paulo de 1,6 milhão de habitantes. Em uma chácara de flores, a de seus avós, Antonio de Castro via o trem passar e se encantava. Em 1947, ele próprio comandava uma Maria Fumaça, das pequenas.</p>
<p>Na década de 1950, construiu-se a linha com bitola de 1 m. As Marias-Fumaça agora eram maiores, puxavam cinco vagões. Mas não podiam correr mais do que os 50 quilômetros por hora das locomotivas pequenas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/adoniran3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1292" title="adoniran3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/adoniran3.jpg" alt="" width="208" height="146" /></a>“As estações eram perto uma da outra”, lembra Antonio. “A gente saía de uma e começava a correr, e já estava chegando na seguinte.” Além disso, havia o trânsito. Os carros não respeitavam o trem. No cruzamento com ruas movimentadas de Santana, como Ataliba Leonel, Alfredo Pujol, o trem vinha apitando, com o farol aceso, “e os carros continuavam passando”.</p>
<p>“Um dia bati num carro, num cruzamento da Avenida Cruzeiro do Sul, e o motorista morreu. Quando estava chegando, ele entrou na minha frente, não deu tempo de parar.” O carro era de fora: tinha placa de uma cidade do Paraná.</p>
<p>Só havia uma linha, para ir e voltar. O trem ia de uma estação à outra. Aqui, num segundo trilho, outro trem esperava. Quando um passava, o outro saía.</p>
<p>Os maquinistas só avançavam depois de receber um bastão, o staff, com a ordem escrita de que seguissem até a a estação seguinte. Vinha escrito: linha livre.</p>
<p>Os chefes de estação continuavam atentos. Falavam entre si por Código Morse. Mais tarde, surgiu uma novidade: telefone a manivela.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Teve sucesso como humorista, mas o talento para a música prevaleceu</strong></p>
<p>“Pelo telefone” dá samba? Sim, mas esse era um samba antigo até para Adoniran Barbosa. Ele compunha e cantava, mas uma outra veia, a humorística, abriu-lhe o caminho. Na Rádio Record, onde foi parar em 1941, viveu personagens de grande sucesso, como o motorista Perna Fina. Mais adiante foi o Charutinho, de História das Malocas, sucesso de mais de dez anos.</p>
<p>O talento para a música, no entanto, prevaleceu. Gravou “Saudosa Maloca” e “Samba do Arnesto”, mais tarde transformados em grande sucesso pelos Demônios da Garoa. “Trem das Onze” venceu o concurso de músicas de carnaval, no Quarto Centenário do Rio, em 1965. Mas só aos 63 anos, em 1973, quando gravou seu primeiro long play, Adoniran alcançou na mídia o reconhecimento pleno de seu valor, e a consagração.</p>
<p>O aniversário de setenta anos, em 1980, foi comemorado com um dia inteiro de festas no Bexiga, bairro onde morou e que amava. Lá estavam Elis Regina, Clara Nunes, Djavan, MPB-4, entre outros grandes. Em 1982 Elis Regina gravou com ele “Tiro ao Álvaro”, outro sucesso de Adoniran. No dia 23 de novembro desse mesmo ano, aos 72 anos, o coração de João Rubinato deixou de bater.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>Jaçanã é um pássaro ribeirinho de peito avermelhado. Havia muitas dessas aves no Guapira, um bairro com mata exuberante das bordas da zona norte. Em 1930, quando resolveu-se mudar o nome primitivo, dado pelos índios, a escolha foi justamente o nome do Jaçanã.</p>
<p>Por aquela época, grandes porções de terra foram loteadas, o que daria origem a um bairro de classe média. Hoje, é um distrito com quase 100 mil habitantes. Em uma de suas praças, a Comendador Alberto de Souza, ficava a estação de trem. Numa das travessas da praça, está sua memória.</p>
<p> É a Associação Museu Memória do Jaçanã, fundada há 27 anos (em 1983) por um de seus moradores, Sílvio Bittencourt. O museu é singelo, mas tem preciosidades como o chapéu usado por Adoniran Barbosa. Lá, Adoniran ainda canta, o Trem da Cantareira corre e a história do Jaçanã palpita.</p>
<blockquote><p> <em>Esta reportagem foi publicada no </em>Diário do Comércio<em>, em 23 de fevereiro de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Em dois personagens de Gregory Peck, uma lição de vida</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jun 2003 23:38:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Gregory Peck interpretou muitos personagens dignos, altivos, em sua belíssima carreira. Há o janota que parece covarde de Da Terra Nascem os Homens; o militar determinado de Os Canhões de Navarone; o advogado bom pai, bom marido, mas temeroso, de Círculo do Medo; o jornalista que leva a princesa Audrey Hepburn para o quarto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gregory Peck interpretou muitos personagens dignos, altivos, em sua belíssima carreira. Há o janota que parece covarde de <em>Da Terra Nascem os Homens</em>; o militar determinado de <em>Os Canhões de Navarone</em>; o advogado bom pai, bom marido, mas temeroso, de <em>Círculo</em> <em>do Medo</em>; o jornalista que leva a princesa Audrey Hepburn para o quarto de hotel e não encosta nela porque ela estava bebinha, de <em>A Princesa e o Plebeu</em> – e tantos outros. Mas dois deles, em especial, são extremamente marcantes.<span id="more-861"></span></p>
<p>O Philip Schuyler de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2000/a-luz-e-para-todos-gentlemens-agreement/">A Luz é para Todos/Gentlemen’s Agreement</a></em>, de Elia Kazan, 1947, e o Atticus Finch de <em>O Sol é para Todos/To Kill a Mockinbird</em>, de Robert Mulligan, 1962,<em> </em>são dois dos  personagens  mais fascinantes que o cinema americano já produziu.</p>
<p>(Os dois filmes estão disponíveis no Brasil em DVD.)</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckkazan.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-864" title="peckkazan" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckkazan.jpg" alt="" width="320" height="310" /></a>São os dois, cada um à sua maneira, o protótipo ideal do ser humano bom, a personificação dos melhores valores que a humanidade já produziu – justiça, honestidade, hombridade, respeito aos outros, em especial os diferentes de você mesmo.</p>
<p>Quando começa <em>A Luz é para Todos</em>, o escritor Philip Schuyler interpretado por <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/homem-do-terno-cinza-the-man-in-the-gray-flannel-suit/">Gregory Peck</a> realmente acredita que vai conseguir, sem cutucar em gigantescas feridas ou criar novas, o seu intento: fazer-se passar por judeu – para depois relatar a experiência, em uma publicação de intelectuais liberais – em uma sociedade intrinsecamente racista. O racismo, a intolerância, a indestrutível divisão de classes sociais distintas, toda a dura e feia realidade vai aparecendo à sua frente, ameaçando a formação humanista que ele dá ao filho, destruindo a admiração que sente pela mulher que escolheu, infernizando seu dia-a-dia. O ator vai dando a seu Philip Schuyler a expressão de dor, desencanto, frustração – mas nela se mescla a cara da determinação, da pura e simples incapacidade de se deixar vencer.</p>
<p>Assim como o nova-iorquino intelectual Philip Schuyler do filme de Kazan, o advogado simples, interiorano, de uma cidadezinha do Sul profundo de <em>O Sol é para Todos</em> é viúvo, e assim carrega sozinho o peso e a responsabilidade de passar aos filhos os valores do bem em meio a uma sociedade degenerada. Atticus Finch é, nas conversas diárias com a filha de uns dez anos e o filho de uns seis, assim uma espécie de David do bem contra todo o Golias de um mundo racista, repressor, que privilegia as aparências e menospreza o conteúdo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckmulligan.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-865" title="peckmulligan" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckmulligan.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a>A cena em que Atticus Finch deixa o tribunal no qual defendeu um negro acusado de estuprar uma branca, diante do júri de brancos, é de arrepiar; era mesmo impossível que a Academia não desse o Oscar a Gregory Peck. Os negros das galerias se levantam à sua passagem, e o mais velho e respeitado deles diz para a filha do advogado que não conseguiu obter justiça: “Levante-se; seu pai está passando”.</p>
<p>Gregory Peck emprestou sua altivez a Philip Schuyler, a Atticus Finch, e o cinema ficou maior – assim como ficou um pouco maior a crença de muitos espectadores de que nem tudo está perdido.</p>
<blockquote><p><em><strong>A historinha por trás do texto</strong></em></p>
<p><em> Eu era editor-chefe do portal do jornal O Estado de S. Paulo, o estadao.com.br, quando Gregory Peck morreu, no dia 12 de junho de 2003. Trabalhava feito um condenado, muitas longas horas por dia, e sempre tinha mais umas 37 coisas para fazer a cada momento, mas, depois que demos a notícia da morte do grande ator, consegui a proeza de deixar as outras obrigações de lado para fazer o textinho aí acima – minha humilde homenagem a ele. Fiz na redação mesmo (sempre preferi escrever meus textos em casa, podendo consultar meus livros, meus alfarrábios), no meio do trabalho, as pessoas pedindo orientação para isso e aquilo e aquilo outro, quase de memória, sem muita consulta, pesquisa. </em></p>
<p><em>Pensando bem, acho que eu deveria ter feito mais isso, na vida. Ter escrito mais, em vez de dedicar todo o tempo a melhorar os textos dos outros. </em></p>
<p><em>É um texto pequenininho, sem qualquer importância, mas gosto dele, e quis que ele constasse do site.</em></p></blockquote>
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		<title>Não, glamour não é para todo mundo</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Aug 2000 17:23:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Repulsa ao Sexo, de 1965, o primeiro filme que dirigiu depois de deixar seu país, a Polônia, o cineasta Roman Polanski teve que fazer um intenso exercício para desglamourizar Catherine Deneuve, então na glória de seus vinte e poucos anos. Carol, o personagem, é uma louca varrida, uma esquizofrênica que vai se distanciando cada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em <em>Repulsa ao Sexo</em>, de 1965, o primeiro filme que dirigiu depois de deixar seu país, a Polônia, o cineasta Roman Polanski teve que fazer um intenso exercício para desglamourizar Catherine Deneuve, então na glória de seus vinte e poucos anos. <span id="more-1596"></span>Carol, o personagem, é uma louca varrida, uma esquizofrênica que vai se distanciando cada vez mais da realidade, aprisionada no universo à parte contido em seu pequeno apartamento, engolfada por um surto brabo.</p>
<p>Mais recentemente, em 1996, Sharon Stone passou por um ritual semelhante de desglamourização para viver, em <em>A Última Chance</em>, a mulher condenada à morte por ter assassinado, com extrema crueldade, um casal, quando era uma adolescente drogada. No auge da fama depois de ter, para o bem do bolso de muito cardiologista, cruzado e descruzado as pernas em <em>Instinto Selvagem</em>, Sharon Stone foi sem dúvida corajosa em se submeter ao trabalho furioso dos maquiadores para conseguir deixá-la com um rosto macilento, sem brilho, sem chama.</p>
<p>São dois exemplos radicais, exagerados, rasgados, para demonstrar que, em alguns casos, é preciso um trabalho danado para criar a falta de glamour. Da mesma maneira com que seria um trabalho imenso tentar criar glamour onde faltam as condições básicas para a existência dele.</p>
<p>Louisa Young que perdoe, mas glamour não é para todos, e não se aprende em nenhum tipo de escola.</p>
<p>Porque o glamour, afinal, é o resultado da combinação de um conjunto de atributos com os quais o Criador, ou a natureza, ou a vida não brindou a todos indistintamente; ao contrário, foi – ou foram todos – extremamente parcimonioso. Um conjunto de atributos. Beleza, é claro, dádiva rara, tão rara quanto a inteligência. Mais charme, elegância, sensualidade, esses dons difusos, complexos, multifacetados, difíceis de definir mas facilmente identificáveis, mesmo à distância. Mais uma pitada certa, exata, de luxo, de adorno, de complementos. Mais atmosfera, momento, inclinação, vontade.</p>
<p>Marilyn Monroe, enfim – se se quiser simplificar em uma única imagem.</p>
<p>Nunca Norma Jean, a garota pobre, problemática, carente, sequer bonita. Só a mulher mais madura, a partir da emblemática foto da folhinha, sobre o fortíssimo vermelho brilhante do fundo, que logo iria aí sim virar Marilyn, quanto mais exuberante melhor.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1657" title="marilyn2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn2.jpg" alt="" width="541" height="300" /></a>Até os dicionários, em geral tão sóbrios, sucintos, ao mesmo tempo se esparramam e se espantam para definir o termo. “Qualidade excitante e charmosa de algo não usual e especial, com um poder mágico de atração; atração pessoal forte que excita admiração, em especial beleza excitante sexualmente” – o Dictionary of English Language and Culture da Longman recorre a diversos adjetivos para tentar a definição certa do substantivo.</p>
<p>Na sua edição especial de 60º aniversário, a revista <em>Life</em>, que atravessou boa parte do século tentando incutir breves instantes de glamour na vida das famílias americanas, trouxe a histórica foto de Rita Hayworth em négligé, feita por Bob Landry em 1941, ao lado de um texto soberbo: “O glamour, que é muito diferente da beleza, é uma invenção moderna; não existia na arte antes do advento da fotografia. E fotos de pinups são a quintessência do glamour, uma espécie de propaganda em que beleza e celebridade se combinam para criar um ideal cujo apelo fundamental é uma promessa que jamais poderá ser cumprida.”</p>
<p>A própria expressão pinup é coisa recente; está lá no <em>Aurélio</em> como “representação da mulher e, eventualmente, do homem, em pose erótica, utilizada em impressos, como calendários, cartazes, etc”, mas o verbete omite a origem do termo, que não é nada glamourosa, embora tenha charme: pin é alfinete; pinup passou a ser o objeto que se pendura com alfinete no armário ou na parede, basicamente a foto da mulher bonita e famosa.</p>
<p>O mesmo texto da <em>Life</em> sobre Rita Hayworth, “a Mona Lisa das pinups”, dizia que a famosa foto “prometia a mesma experiência compartilhada para um número infinito de observadores”. E concluía: “Mas para cada um dos milhares de milhares de soldados americanos que carregaram essa imagem para a guerra, em bolsos e malas, em tanques e aviões, a foto era sua e apenas sua, um lembrete maravilhoso do motivo pelo qual ele estava lutando”.</p>
<p>O texto da <em>Life</em> de fato tem glamour. Se a gente pensar, no entanto, em foto pendurada no armário, soldado, adolescente, <em>American Pie</em>, borracharia, aí o glamour da quintessência do glamour vai para o brejo.</p>
<p>O glamour é coisa rara e pode virar pó com muita facilidade.</p>
<p>Na verdade, o glamour não é nada extremamente objetivo. Muito ao contrário. Um exemplo: entre tantas mulheres glamourosas que o cinema descobriu para expor ao mundo, a inglesa Deborah Kerr seguramente não estaria entre os primeiros 20 ou 30 nomes que viriam à cabeça dos mais fanáticos cinéfilos. Grande atriz, excepcional atriz, sem dúvida alguma, mas não propriamente um expoente de glamour. No entanto, é exatamente com ela a cena inesquecível, antológica, histórica, sensualíssima do beijo na praia de <em>A um Passo da Eternidade</em> – um dos grandes marcos do cinema de Hollywood rumo à quebra das regras da antes rigorosa censura.</p>
<p>No sentido inverso, tome-se o exemplo de Demi Moore, um dos maiores sex symbols dos anos 90, a mulher por quem o personagem de Robert Redford paga um milhão de dólares em <em>Proposta Indecente</em>, a estrela de <em>Striptease</em>, que mostra a barriga grávida em capa de revista (décadas depois de Leila Diniz) e tira a roupa até mesmo em programa de entrevista na TV, o Jô Soares deles. Há quem ache o máximo. Mas também há quem ache aquilo tudo um amontoado desagradável de cirurgias plásticas e muita malhação.</p>
<p>E são muitos os que insistem em descrever Grace Kelly como uma loura gelada. Ela, que não era fria nem como a quaker careta de <em>Matar ou Morrer</em>, e que fez até o impassível Cary Grant suar em <em>Ladrão de Casaca</em> ao perguntar: “Você quer peito ou coxa?”</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1658" title="marilyn3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn3.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a>E há também as que se confundem quanto à quantidade de adornos. Há uma dose certa; se passar dela, deixa chapado – como bebida, ou doce desandado. Marilyn era glamour puro de jeans e camisa branca de homem em <em>Os Desajustados</em>, seu último filme (ela não chegaria a terminar <em>Something’s Got to Give</em>, no qual aparecia saindo de uma piscina – é das filmagens dessa obra inacabada a foto que está na capa desta edição do maga.zine). Assim como a Liz Taylor dos anos 50, uma das mais extraordinariamente belas visões do século. Depois de Richard Burton e muita birita, no entanto, ela passou a exagerar nas cores e nos adereços; perdeu o glamour, chegou perto de virar brega. Quase como – de novo que Louisa Young perdoe – a Joan Collins dos últimos anos.</p>
<p>Até porque a verdade dos fatos é que a TV é um meio que sempre tenta ser glamourosa como o cinema, e volta e meia tudo o que consegue é tropeçar na breguice.</p>
<p>Para a imensa maioria dos mortais a quem não foi concedida a graça rara do glamour, pode, eventualmente, servir de consolo ou lição de vida a lembrança de que tudo isso – beleza, charme, elegância, sensualidade, luxo – às vezes não vale coisa alguma. Os pouquíssimos que têm tudo isso muitas vezes querem outras coisas.</p>
<p> Aquela mesma edição da <em>Life</em> trazia uma frase exemplar de Rita, a mulher aquinhoada pela fortuna com uma quantidade everestiana de glamour:</p>
<p>“Sou uma atriz. Tenho profundidade. Tenho sentimentos. Mas eles não ligam. Tudo o que eles querem é uma imagem.”</p>
<p>Marilyn, todos sabemos, é a eterna lembrança disso.</p>
<blockquote><p><strong> <em>A historinha por trás do texto</em></strong></p>
<p><em>O texto acima foi publicado em agosto de 2000, no portal estadao.com.br.</em></p>
<p><em>Em 2000, o portal estadao.com.br tinha uma revista semanal, com textos sobre cinema, música, moda, comportamento, assuntos culturais em geral – uma coisa amena, distante do noticiário do dia-a-dia, das hard news. O portal na época era editado pela Agência Estado, onde eu trabalhava. A revista, que ia ao ar nos fins de semana, chamava-se maga.zine, e era editada por Lúcia Carneiro, que cuidava com talento e paciência tanto dos textos quanto da diagramação, do design. Algumas vezes ela me encomendou uns textinhos. </em></p>
<p><em>Uma das matérias que ela editou era sobre um livro, ou um artigo, já não me lembro mais, de uma tal de Louisa Young, a respeito de glamour. A tese da moça era de que todo mundo pode ter glamour. E a Lúcia me encomendou um texto auxiliar, secundário, para sair junto com a matéria sobre o livro ou o artigo de Louisa Young. O resultado foi o texto que está aí acima.  </em></p>
<p><em>Lúcia Carneiro publicou várias belas reportagens, muitíssimo bem diagramadas e ilustradas, no mega.zine do estadao.com.br. Todo o trabalho dela, me parece, se perdeu. Por alguma incompetência do povo da técnica, da informática, do Grupo Estado, grande parte do que se produziu no portal simplesmente desapareceu da internet, segundo me contou, chocado, Edmundo Leite, um jornalista de grande talento, que trabalha no portal do Estadão praticamente desde que ele existe. </em></p>
<p><em>Coisa de louco – como é possível tanta incompetência?</em></p>
<p><em>São Paulo, abril de 2010 </em></p></blockquote>
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		<title>As músicas que embalaram nossas paixões</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Nov 1996 04:35:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Os mais jovens, mais inexperientes (uma pena; ainda bem que a juventude é uma doença que o tempo cura), não sabem o que é isso. Mas que maravilha era “Besame Mucho” com Ray Conniff e sua orquestra. Aquelas paradinhas marotas, depois do pa-pa-rã dos metais, eram uma total delícia. Nada mais fácil do que ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os mais jovens, mais inexperientes (uma pena; ainda bem que a juventude é uma doença que o tempo cura), não sabem o que é isso. Mas que maravilha era “Besame Mucho” com Ray Conniff e sua orquestra. Aquelas paradinhas marotas, depois do pa-pa-rã dos metais, eram uma total delícia. Nada mais fácil do que ter uma paixonite por quem sabia dançar bem nos bailinhos do começo dos anos 60 &#8211; ainda mais depois de um cuba libre.<span id="more-129"></span></p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-166" title="rayconniff" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/rayconniff-150x150.jpg" alt="rayconniff" width="150" height="150" />Era a época de dançar ao som das orquestras de Ray Conniff, Billy Vaughan, Percy Faith, ou ainda Sílvio Mazzucca, Metais em Brasa, Românticos de Cuba. O estéreo ainda era uma novidade, e nem toda vitrola hi-fi o incorporava.</p>
<p>O que leva inevitavelmente a duas certezas. A primeira é: olha, faz um tempinho, hein? E a segunda: na época de nossas mães a qualidade era muito melhor. Eles tinham as big bands americanas, as fabulosas e originais, Tommy Dorsey, Benny Goodman, Les Brown, e até mesmo Glenn Miller. Eles tinham o jovem Sinatra e o perfeito Bing Crosby, e, aqui, maravilhas como Pixinguinha e Orlando Silva. Porque, é claro, aquelas coisas tipo Ray Conniff que nos faziam dançar e amar quando éramos bem jovens nos anos 60 eram uma diluição leve do que as big bands fizeram antes; em qualidade, eram tão fundas quanto pires.</p>
<p>Mas é preciso deixar claro desde já que, quando se fala de música que embala paixões, de música que nos faz sonhar de amor, ou que alivia na hora da dor de cotovelo, qualidade artística não importa nada. Fazer distinção entre “brega” e bonito é coisa de crítico – ou de quem não está apaixonado, o que é triste do mesmo jeito.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-168" title="endrigo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/endrigo-150x150.jpg" alt="endrigo" width="150" height="150" />Nos anos 60, pouco depois do auge de Ray Conniff, veio, por exemplo, o começo de uma onda italiana, um balaio onde se misturavam Sergio Endrigo, Luigi Tenco, Pino Donaggio e também Peppino Di Capri, Fred Bongusto e até John Foster, e depois Gigliola Cinquetti. E quem até hoje sabe de cor ao menos o refrão de “Io che amo solo te” e “Ho capito che ti amo” também se deixou levar por “Champagne”, “Amore, Scusami” e “Dio, come ti amo”, sem problema algum. Por que não?</p>
<p>O amor sempre foi poliglota, e as canções de amor também. Quem não se enamorou ou namorou ou teve saudade ouvindo “Et maintenant”, “Tous les garçons et les filles” ou “F&#8230; Comme Femme”, por exemplo, mesmo não sabendo patavina de francês, que atire a primeira pedra.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-169" title="françoise" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/françoise-150x150.jpg" alt="françoise" width="150" height="150" />Amor em espanhol, então, que é fácil de entender, sempre esteve em nossos ouvidos, assim como tinha estado nos de nossos pais. O bolerão – homenageado tão bem por João Bosco e Aldir Blanc na voz de Elis Regina em “Dois Pra Lá, Dois pra cá” – é certamente uma das mais importantes contribuições da América Latina à cultura e aos apaixonados de todo o mundo. Não há discoteca básica, nem trilha sonora de novela, nem história de amor que deixe de incluir “Solamente Una Vez”, “Contigo en la Distancia”, “Sabor a Mi”, “El Reloj” – aquele que pedia, como só os loucos de amor poderiam fazer, que o relógio não marcasse as horas.</p>
<p>Claro, nem só de bolero vive o amor em espanhol; canta-se a paixão também no tango, na guarânia (será que existe mesmo no Paraguai o lago azul de Ypacaraí?), na rumba, no calipso, no cha-cha-cha, no mambo, no merengue&#8230; Tanto, e de maneira tão forte, que até os americanos, que vendem sua cultura para o mundo inteiro e não gostam nada de ouvir outras línguas (eles, ao contrário do amor, são monoglotas), sempre abriram suas fronteiras à paixão cantada em espanhol. E espalharam para o mundo suas próprias versões das músicas latinas, de Ray Conniff em “Besame mucho” até os velhos LPs de Nat King Cole en español. E dá-lhe bailinhos mundo afora – Brasil inclusive, claro, e nós neles, de cuba libre ou uísque com guaraná na mão – ao som de “Aquellos ojos verdes” e “Quizás, quizás, quizás” com o sotaque horroroso na voz aveludada do grande Nat.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-170" title="elvis" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/elvis-150x150.jpg" alt="elvis" width="150" height="150" />Há quem culpe o rock’n’roll por diversos males da humanidade, entre eles o fim da época áurea das grandes orquestras, que tanto eram capazes de embelezar histórias e sonhos de amor. Bobagem – ou no mínimo um imenso exagero. A era das grandes orquestras chegou ao fim basicamente por motivos econômicos. Elas custavam caro; viraram dinossauros dentro de uma indústria que, talvez mais que qualquer outra, quer lucro fácil, rápido e grande; as emissoras de rádio e TV, os donos de boates e teatros e a própria indústria de discos foram passando, no final dos anos 50 e nos 60, a preferir gravações feitas em estúdio (e não mais em teatros ou auditórios), com grupos menores, ou a sobrepor os sons de diversos instrumentos nas fitas master, sem a obrigatoriedade de reunir muitos músicos ao mesmo tempo.</p>
<p>O rock teve sua participação no processo, sim; lá isso teve. Ele chegou como um gigante poderoso, aplastrando todo o resto, abafando os demais sons. O catalão Joan Manuel Serrat, infelizmente pouco conhecido entre nós, fez uma música muito interessante sobre isso; chama-se “Cuando duerme el rock and roll”, e a letra diz que só quando o rock, o xerife do mundo, se cansa, retira suas botas e o cinturão e finalmente dorme é que podem escapulir de seus guetos e esconderijos e andar pelas ruas o tango romântico e dançarino, o bolero que ronda a lua e parapeitos das janelas, o blues sentimental, o mambo, a rumba&#8230;</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-172" title="beegees" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/beegees-150x150.jpg" alt="beegees" width="150" height="150" />Se Elvis Presley e os Beatles pareciam para nossas mães ou tias tão agressivos, barulhentos e pouco românticos quanto hoje nos parecem os Guns N’Roses, Metallica, Nirvana e Sepultura, a verdade é que todos eles souberam cantar o amor. E dançamos e sonhamos e nos apaixonamos ao som de tanta coisa que fica abaixo do rótulo amplo, impreciso e vago de rock – de “Blue moon” a “Yesterday”, de “It’s now or never” a “Something”, passando por “You’ve lost that lovely feeling”, “Do you wanna dance”, “I Started a joke”, “Stairway to heaven”, “Three times a lady”, sem deixar de fora os mais antigos “Smoke gets in your eyes” ou “Only you” ou os mais recentes “(I’ve had) The time of my life” ou “Why worry”, até que chegassem “Patience” ou “Nothing else matters”. E se essas últimas você desconhece, fique tranquila: seus filhos ou sobrinhos ou irmãos mais novos adoram.</p>
<p>Aliás, esse negócio de rótulo – rock ou não rock, brega ou chique – é a maior asneira. Bem no meio dos anos 60, foi sob a inspiração do rock e da guitarra elétrica que estourou no País inteiro o então Rei da Juventude, hoje para boa parte dos brasileiros o maior sinônimo de música romântica. Duvido que você conheça uma única pessoa que não tenha amado, feito amor ou desejado fazer ao som de Roberto Carlos – desde os tempos de “Nossa canção”, “As flores do jardim de nossa casa” e “As curvas da estrada de Santos” até essas últimas homenagens às gordinhas, baixinhas, míopes e – aleluia! – quarentonas. Roberto é assim uma espécie de inconsciente coletivo dos corações brasileiros. E também que mulher não gostaria de um amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores e apesar da velha roupa e da calça desbotada ainda chama de querida a namorada, mesmo com alguns erros do português ruim?</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-173" title="RobertoLP" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/RobertoLP-150x150.jpg" alt="RobertoLP" width="150" height="150" />Roberto estava mandando tudo pro inferno quando começaram a surgir as primeiras músicas dessa geração de ouro de cantores e compositores que fez e ainda faz a cabeça e as emoções dos brasileiros que estão, como <strong>Barbara</strong> gosta de dizer, na melhor fase de suas vidas: Maria Bethania, Gal Costa, Edu Lobo, Milton Nascimento, Paulinho da Viola e, em especial, a santíssima trindade Chico-Caetano-Gil. É fascinante, é emocionante pensar e sentir que já faz 30 anos que crescemos convivendo com eles, aprendendo com eles, amando com eles. Desde “Sem fantasia”, “Avarandado” e “Pé da roseira”, nos anos 60, a “Futuros amantes”, “O motor da luz” e “Quanta”, agora nos 90 e tantos. </p>
<p>Tem um amigo meu que costuma dizer sempre que cada um de nós já viveu mais tempo com a música de Chico, Caetano ou Gil do que com as nossas mulheres – ou maridos, no caso das mulheres. Ele mesmo, conta, já era apaixonado por nossa santíssima trindade antes de conhecer sua primeira mulher, lá por volta de 1969; se amaram ouvindo as músicas deles, partilharam a admiração por eles, foram juntos a vários shows deles; no segundo casamento foi a mesma coisa; o terceiro está sendo igual; e se algum dia houvesse um quarto, diz ele, também seria igual. Os amores mudam, os amores passam, se transformam, quando temos sabedoria e sorte, em velhas e sólidas amizades; vêem os novos amores – e a música dessas pessoas vai embalando tudo, abençoando tudo, ao longo da passagem dos anos, das décadas. </p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-174" title="domingo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/domingo-150x150.jpg" alt="domingo" width="150" height="150" />Toda essa geração de ouro que surgiu na década de 60 e está aí firme, no auge, nasceu nos anos 40. Entre 1942 e 1946, precisamente. Quem nasceu nos anos 50 era adolescente quando eles surgiram. Pois quando eles eram adolescentes o que havia eram os grandes dos anos 30 a 50, Noel, Gonzagão e Caymmi, para falar só dos gigantes – e mais a turma da bossa nova. Todos eles, Chico, Caetano, Gil, Milton, Paulinho, estavam vivendo seus primeiros amores adolescentes quando a bossa nova apareceu; de 1958 a 1960 João Gilberto fez seus três primeiros discos, cheios de músicas de Tom e Vinícius que já nasceram clássicas e continuam absolutamente novas e eternas, embalando amores de várias gerações – não só aqui, no mundo todo.</p>
<p>As diferenças de idade, que são grandes na infância e na juventude, vão sumindo depois. Se você tem 16 e sua irmã tem 11, há um abismo aí; mas, quando você está com 46 e ela com 41, os cinco anos não parecem nada. Muito rapidamente Tom, o mestre de todos, virou parceiro de Chico, uma parceria não contínua, que só produziu frutos de tempos em tempos – e que frutos. “Retrato em branco e preto”: “Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada, seus segredos sei de cor”. “Sabiá”, a mais bela música mais vaiada da história do mundo. E que tal “Eu te amo”? “Se nós, nas travessuras das noites eternas já confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu devo seguir.” E “Anos Dourados”?</p>
<p>Antes de escrever este texto, perguntei para várias amigas quais as músicas que embalaram suas paixões, namoros, casamentos. Elas citaram mais de 50 músicas diferentes – um indício da diversidade imensa, graças aos bons deuses, de sons, tons e sensações que acompanham o amor. Impressionante como Chico e Tom predominavam, juntos ou separadamente.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-175" title="gonzaguinha" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/gonzaguinha-150x150.jpg" alt="gonzaguinha" width="150" height="150" />Teve de tudo na lista feita por elas. Roberto e Erasmo, claro. Milton Nascimento. Gonzaguinha. “Champagne” e “Io che amo solo te”, óbvio. Alcione – dor de cotovelo não é privilégio de Maysa e Dolores Duran. Marina, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso. “Não vá ainda”, da menina Zélia Duncan. “Bem que se quis”, da menina Marisa Monte.</p>
<p>E isso indica aquela coisa tão óbvia quanto deliciosa: assim como na vida e no amor, também na relação com música que fala de amor nada some, tudo se soma. As coisas novas não ocupam o lugar das velhas – passam a conviver com elas. O que é uma maravilha, uma das melhores coisas da vida.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-165" title="cazuza" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/cazuza-150x150.jpg" alt="cazuza" width="150" height="150" />Quando éramos muito jovens, nos anos 60, havia uma grande preocupação com um tal conflito de gerações. Queríamos romper com os valores antigos (e isso era fundamental, e nisso conseguimos excelentes vitórias), mas às vezes misturávamos estações e achávamos que, ao ser contra o gosto de nossos pais, ao curtir, por exemplo, Rolling Stones e detestar Nelson Gonçalves, estávamos fazendo grande progresso. Ainda bem que crescemos. Como é bom aprender com os mais velhos – e com os mais novos.</p>
<p>Seguramente foram milhares as pessoas da minha geração que aprenderam com os mais novos (no meu caso específico, foi com minha filha torta, Inês) a prestar atenção às letras de Cazuza e, um pouco mais tarde, às de Renato Russo (aqui, tenho que agradecer à minha filha Fernanda, que hoje tem 21, e desde cedo me levou pra ver e me fez ouvir o Legião Urbana.) Depois da geração de ouro, provavelmente foram Cazuza e Renato Russo quem melhor colocaram em canções o encantamento e as dores do amor.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-164" title="renato" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/renato-150x150.jpg" alt="renato" width="150" height="150" />A chegada do CD ajudou a somar. Com ele voltaram às lojas, limpinhas, purinhas, sem chiados, gravações que fizeram as delícias de nossos pais e até avós. Está tudo disponível, do “Carinhoso” que Orlando Silva gravou em 1937, do “Fools rush in (where angels fear to tread)” gravado pelo jovem Sinatra em 1940, até o último ao vivo de Marisa Monte. Passando por tudo o que foi citado aqui. Sim, até o pa-pa-rã de Ray Conniff em “Besame mucho”.</p>
<p>Outro dia mesmo, minha filha foi ao casamento de uma amiga do colégio. Tocou de tudo, ela contou. Mas foi quando o jovem disc-jockey, ele também de 21, colocou “Besame mucho” com Ray Conniff, que a pista de dança ficou mais cheia.</p>
<blockquote><p><strong><em>A historinha por trás do texto</em></strong></p>
<p><em> Tinha me esquecido desse texto, até agora, novembro de 2009, quando fiquei fuçando velharias para ver o que daria para botar neste site. Digo sem ficar envergonhado que adorei reler.</em></p>
<p><em>Foi a Laïs de Castro, na época diretora de redação da revista </em>Barbara<em>, que cometeu a loucura de me encomendar um texto sobre esse tema, “As músicas que embalaram nossas paixões”. Laïs é uma velha amiga minha, uma pessoa extraordinária. Nos conhecemos no comecinho dos anos 70, fazendo frilas para a Editora 3, eu na revista </em>Status<em>, ela na </em>Mais<em>, acho. Nos reencontraríamos muitos anos mais tarde na redação da </em>Marie Claire<em>, lá por 1993, 1994.  </em></p>
<p><em>Me lembro de maneira vaga que ela falou especificamente em músicas dançantes – até encomendou uma lista de músicas dançantes das várias décadas.</em></p>
<p><em>A </em>Barbara<em> foi uma revista que não durou muito tempo. Foi imaginada como uma revista para senhoras, para mulheres de mais de 40 anos. Era editada pela Símbolo, uma editora que fez vários títulos nos anos 90; lançou também a revista </em>Atrevida<em>, para concorrer com a </em>Capricho<em>; e ousou ao fazer </em>Raça<em>, uma espécie assim de versão brasileira da </em>Ebony<em>, uma revista dedicada aos negros.</em></p>
<p><em>Não guardei a revista </em>Barbara<em> que publicou o texto. Se não estou enganado, o texto saiu bem cortado. Não sei se Laïs ou a editora da seção não gostou do texto. É bem possível que não tenham gostado mesmo. (Depois que leu este post, Laïs me mandou uma mensagem dizendo o seguinte: &#8220;Saiu cortado porque você é maluco, escreveu um “artigo” para 8 páginas! Ele é lindo inteiro.&#8221;)</em></p>
<p><em>Ao relê-lo agora, achei que fui bem ousado ao me colocar pessoalmente no texto, ao dar opiniões pessoais, ao falar da minha filha torta, minha enteada, Inês, pessoa que a cada momento se revela mais maravilhosa, e da minha filha Fernanda. Isso não era uma coisa normal, aceitável, no jornalismo da época.</em></p>
<p><em>Até que cuidei para não aparecer tanto na matéria. Atribuí a “um amigo meu” a coisa de dizer que a gente já viveu mais tempo com a música de Chico, Caetano ou Gil do que com as nossas mulheres. </em></p>
<p><em>Não era amigo meu coisa nenhuma. Era eu mesmo.   </em></p></blockquote>
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