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	<title>50 Anos de Textos &#187; Música</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Inês e Sweet Baby James</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 00:49:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Sweet Baby James cantou hoje na Philarmonie, em Munique, e Inês estava lá. Não tenho idéia, é óbvio, de que tipo de teatro seja a Philarmonie de Munique, mas deve certamente ser um belíssimo lugar, germanicamente organizado, com uma senhora acústica. Inês diz que show foi lindo, lindo. E, o show à parte, impressionou Inês [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sweet Baby James cantou hoje na Philarmonie, em Munique, e Inês estava lá. Não tenho idéia, é óbvio, de que tipo de teatro seja a Philarmonie de Munique, mas deve certamente ser um belíssimo lugar, germanicamente organizado, com uma senhora acústica.<span id="more-7007"></span></p>
<p>Inês diz que show foi lindo, lindo. E, o show à parte, impressionou Inês o jeito cativante do cara que admiro há mais de quatro décadas: “Ficou sentadinho na beira do palco dando autógrafos e tirando fotos até a última pessoa ir embora!”, ela contou. “Fiz uma foto com ele pra te mostrar. Ele me disse: so nice to meet you, so brief&#8230; Fiquei encantada. O povo da organização querendo acabar logo e ele uma paciência e delicadeza.”</p>
<p>Vejo que Sweet Baby James está no meio de uma turnê intensa. Depois de Munique, ele canta amanhã, domingo, 13 de maio, em Zurique; em seguida faz Paris, Amsterdã, Reikjavik. Em seguida, em junho, faz 22 shows nos Estados Unidos, intercalados por dois em Montréal.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzines.png"><img class="alignright size-full wp-image-7008" title="zzines" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzines.png" alt="" width="597" height="419" /></a>Me emocionou o fato de Inês ter se lembrado de mim no show. Me mandou mensagens via Facebook no intervalo e depois do final do show.</p>
<p>É um tanto esquisito pensar isso, mas Inês herdou de mim o gosto por muita coisa de música que ela ouvia no som da nossa casa. James Taylor, Joan Baez, gente que ela, garotinha, ouviu muito, mas não só: gosta até hoje de Beto Guedes e Fagner, por exemplo – tudo herança do meu toca-discos.</p>
<p>Quando Maria, a primogênita dela, era novinha, Inês me pediu uma fita com <em>Peter, Paul and Mommy</em>, o disco de 1969 de Peter, Paul and Mary só com canções infantis. Queria que a filha ouvisse as canções que ela ouvia quando criança. Quase chorei de emoção.</p>
<p>De tempos em tempos, quando vem ao Brasil, Inês gosta de fuçar nos meus discos e no meu iTunes. Numa das últimas vezes em que veio, estava apaixonada por “The Scarlet Tide”. Ficamos ouvindo as versões de Alison Krauss, Joan Baez e Elvis Costello com Emmylou Harris.</p>
<p>Canções folk. Que coisa fantástica: quis o destino que os ouvidos de Inês se apaixonassem por canções folks. Uma herança minha.</p>
<p>As coisas têm duas mãos, na vida, e foi com Inês que aprendi a gostar do Police e de Cazuza, da mesma maneira que aprendi com Fernanda a gostar do Legião e mais tarde do Karnak e da Orquesta Tipica Fernandez Fierro.</p>
<p>Então vamos combinar, Inês querida: da próxima vez, vamos a um show juntos. Tomara que tenha coisa boa rolando.</p>
<blockquote><p><em>12 de maio de 2005</em></p></blockquote>
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		<title>Orra, meu: magina de pipo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 03:29:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra. Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui. “Magina de pipo&#8221;, letra e música de André Abujamra, do disco Infinito de Pé, de 2004. André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra.<span id="more-6979"></span></p>
<p>Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui.</p>
<p>“Magina de pipo&#8221;, letra e música de André Abujamra, do disco <em>Infinito de Pé</em>, de 2004.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzkarnak1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6993" title="zzkarnak1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzkarnak1.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a>André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em que há tanta coisa sendo criada e lançada no mercado que não dá mais para separar o melhor trigo em meio a tanto joio. É joio demais – e é até trigo demais.</p>
<p>Nos anos 60, houve uma explosão de talentos: Edu, Chico, Caetano, Gil, Milton, Sidney Miller, Paulinho da Viola.</p>
<p>O país inteiro os acompanhava.</p>
<p>Depois dos anos 90, tudo se estilhaçou. Há uns 78 tipos de música sendo feitos no Brasil, uns 438 no mundo. É absolutamente impossível conhecer tudo. O que era amplo, geral e irrestrito virou uma grande quantidade de nichos.</p>
<p>Faz muito tempo que deixei de tentar acompanhar tudo o que surge de bom na música popular, brasileira ou internacional. Não dá – é impossível, é coisa demais.</p>
<p>Mas há algumas coisas tão extraordinariamente boas que a gente acaba conhecendo – mesmo quem, como eu, é cada vez mais pré-antigo num mundo pós-moderno.</p>
<p>André Abujamra é uma dessas coisas.</p>
<p>Não conheci o Mulheres Negras, formado em 1985 pelo André e Maurício Pereira. Só fui conhecer o André na sua fase Karnak, que me foi apresentado pela minha filha. O Karnak é genial, faísca de talento saindo pelo ladrão. Em seus dois discos, de 1995 e 1997, fez algumas canções extraordinárias, da melhor qualidade: “Alma não tem cor”, “O Mundo”, “Espinho na Roseira/Drumonda” são algumas das melhores canções feitas nos anos 90 que ouvi.</p>
<p>André tem um tipo peculiar de humor. Mistura, como numa salada, assertivas sérias, seriíssimas, com frases que parecem babacas, bobocas. Em “Alma não tem cor” e “O Mundo”, faz panfletos contra todos os racismos, todas as discriminações – mas panfletos em forma de piada gostosa.</p>
<p>Em “Magina de Pipo” ele faz o seu hino da utopia. Um hino piada, que ri dele próprio.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>A música brasileira e o bom humor sempre se deram bem. Houve muita fossa, muito, como diria Regina Berlim, kit gilete na música brasileira – Dolores Duran, Maysa, Antônio Maria –, mas sempre houve bom humor, gozação, tiração de sarro. Noel, o gigante Noel, era um grande sarrista. Lamartine Babo era tão ou mais irreverente, engraçado, escrachado, gozador, que no cinema são Mel Brooks e Woody Allen.</p>
<p>A Tropicália foi, entre muitas outras coisas, um movimento bem humorado, apesar de ter surgido (ou por isso mesmo) na ditadura, nos tempos mais sombrios da nossa História recente. TomZé sempre foi um grande gozador. Os Mutantes foram gozadores homéricos – gozaram de maneira espalhafatosa, melbrooksiana, uma das maiores glórias do cancioneiro nacional, “Chão de Estrelas”. Tropicália, o disco, gozava tudo – inclusive Vicente Celestino e o coração materno que quicava na estrada.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Uma década depois do Tropicalismo, o Rumo trouxe de volta o bom humor dos mestres, Noel, Lamartine, e ainda acrescentou o seu próprio humor – ferino, inteligente, letrado, estudado, uspianizado.</p>
<p>E não é que a união música-bom humor seja uma coisa brasileira. De forma alguma. Ainda nos anos 70, o conjunto argentino Les Luthiers fez música cômica da melhor qualidade – gozando tudo que vinha pela frente, inclusive a música brasileira, a bossa nova, a eterna saudação do é sol, é sal, é sul.</p>
<p>Muito mais recentemente, teve e tem Kevin Johansen, mezzo porteño, mezzo Alasca – mas nada a ver com Sarah Palin, muito ao contrário.</p>
<p>E agora mesmo tem o Fernandez Fierro, o conjunto (a banda?) de tango pós-tudo, que tem quatro bandoneons e quatro violinos, para fazer um som que deixaria Piazzolla de queixo caído. Fernandez Fierro faz avançar o tango como se ele tivesse – como diz o Caetano em relação à música brasileira – uma linha evolutiva. É o tango pós-Piazzolla, se é que isso pode haver. (Ouvindo um e outro, penso que Piazzolla é mais avançado que os bravos garotos do Fernandez Fierro – mas talvez isso seja só uma visão de um velhinho conservador.)</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Vixe! Acho que viajei um pouco.</p>
<p>Eu só queria fazer um elogio a “Magina de Pipo”.</p>
<p>A pérola, enão, como eu dizia, foi gravada num disco de 2004, <em>O Infinito de Pé</em>. Pós Mulheres Negras, pós Karnak, André Abujamra fazia um disco dele mesmo.</p>
<p>A 14ª faixa é “Magina de pipo”.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzar-a.png"><img class="alignright size-full wp-image-6994" title="zz,ar a" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzar-a.png" alt="" width="589" height="434" /></a>“Magina de Pipo”, uma belíssima, ousadíssima gozação de “Imagine”, de John Lennon, começa com um monte de cordas. Paul McCartney fazia isso, por que André Abujamra não poderia?</p>
<p>Vem então um dueto de André Abujamra com Miriam Maria, cantando várias vezes a frase “magina de pipo”.</p>
<p>André é um ator, um artista multimídia. Quando quer, sabe fazer uma voz bonita.</p>
<p>Miriam Maria tem um timbre de voz de anjo.</p>
<p>Os dois ficam repetindo as palavras “magina de pipo”.</p>
<p>Não é comum alguém gozar um herói com toda a aparência de que está acima de qualquer suspeita. Gozar a cara de John Lennon, que virou um emblema como o Che, é enfrentar jogo pesado. É preciso coragem. André tem, de sobra.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Não tem graça alguma este texto se o eventual leitor não conhecer &#8220;<a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/14-Magina-de-Pipo3.m4a">14 Magina de Pipo</a>&#8220;, ou não puder conhecê-la na internet.</p>
<p>Parece, no entanto, que ela não está.</p>
<p>As canções de André Abujamra que citei lá pra cima estão disponíveis no YouTube. “Magina de pipo” não está.</p>
<p>Um absurdo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Eis aí a letra da canção.</p>
<p>Maysa, Antônio Maria e Dolores Duran certamente morreriam de inveja dos versos que falam da separação.</p>
<p>Eu sinto uma inveja danada é do letra inteira. Gostaria de ter escrito estes versos maravilhosos. A bela canção, a melodia, bem, esta eu jamais saberia como fazer.</p>
<p><em><strong>Magina de Pipo</strong></em></p>
<p><em>André Abujamra</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.</em></p>
<p><em>Deus fez o homem, colocou o sentimento</em></p>
<p><em>Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.</em></p>
<p><em>Deus fez o homem, colocou o sentimento</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ai meu Deus, como dói meu coração</em></p>
<p><em>Separação é pior que morte</em></p>
<p><em>Só que o fantasma é de carne e osso</em></p>
<p><em>e ainda vai casar com outro moço</em></p>
<p><em>Ai meu Deus, como dói meu coração</em></p>
<p><em>Separação é pior que morte</em></p>
<p><em>Só que o fantasma é de carne e osso</em></p>
<p><em>e ainda vai casar com outro moço</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Foi, foi, foi,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Foi, foi, foi,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão</em></p>
<p><em>mas ficou a mancha negra no fundo do coração</em></p>
<p><em>Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão</em></p>
<p><em>mas ficou a mancha negra no fundo do coração</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Se eu pudesse mudar o mundo ia fazer você me amar</em></p>
<p><em>ia trocar a cor do céu, ia trocar a cor do mar</em></p>
<p><em>Os bichos iam falar, quem tivesse fome ia poder se alimentar</em></p>
<p><em>não haveria religião e eu mudaria o gosto do pimentão</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Não teria câncer, anemia</em></p>
<p><em>e eu tiraria semente da melancia</em></p>
<p><em>não teria classe social, não teria guerra, não teria arma mortal</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>(recitado) Se não tivesse tristeza só teria alegria, mas depois de um certo tempo ficaria uma porcaria</em></p>
<p><em>por isso se eu pudesse não tiraria nem o sofrimento nem a dor</em></p>
<p><em>pra que quando viesse a felicidade sentíssemos o sabor do amor</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<blockquote><p><em>Maio de 2012</em></p></blockquote>
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		<title>A descoberta de um novo amor</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 16:04:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Como um raio que nos enche de emoção, a paixão inesperada às vezes nos invade e revolve nosso coração, nosso corpo, nossa sensibilidade. Damos e recebemos choques que não machucam, apenas arrepiam, estremecem e alegram. Geralmente acontece com um casal que se revela em comunhão de sentidos. Mas pode ser um amigo que entra em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como um raio que nos enche de emoção, a paixão inesperada às vezes nos invade e revolve nosso coração, nosso corpo, nossa sensibilidade. Damos e recebemos choques que não machucam, apenas arrepiam, estremecem e alegram.<span id="more-6966"></span> Geralmente acontece com um casal que se revela em comunhão de sentidos. Mas pode ser um amigo que entra em nossa vida como uma dádiva, um irmão. Os primeiros momentos desse terremoto sentimental são indeléveis, impossível esquecer esse arrebatamento.</p>
<p>Pode ser a felicidade de ter nos braços, pela primeira, os filhos que o amor e a vida nos deram, esse sentir intransferível, inexplicável. Só quem passa pela mesma experiência pode entender. Os primeiros tempos de quem adquire a paternidade mudam a existência da pessoa, o que pode ser notado por todos, na rua, no trabalho ou em casa. E quem incorpora com força esses acontecimentos pode levar para sempre esse sentimento eterno de alegria, o que será muito bom para quem circula ao seu redor. Isso se acentua, mais tarde, com a chegada dos netos, motivo de inveja justa para quem não os possui.</p>
<p>Mas não é só nas relações pessoais que isso ocorre. Nunca fui o mesmo depois de bater de frente com a poesia. Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca e tantos outros admiráveis autores, no instante primeiro da revelação que tomou conta de mim, me provocaram esse tipo de distúrbio benigno que o leitor tem diante do inusitado. O que mesmo se deu no dia em que vi o filme <em>Oito e Meio</em>, de Fellini. Essa luz que acende em nós a estrada da beleza artística permanece, ao longo nos anos, com seu clarear constante e não nos abandona, nos orienta.</p>
<p>É o que está acontecendo, nestes dias, com o Leo, talentoso amigo uruguaio, produtor musical preciso, exato, em suas escolhas. Acabou de nos oferecer, junto com seu parceiro, Ronaldo Bastos, o CD <em>Liebe Paradiso</em>, obra-prima irretocável, mas que toca os que amam a boa música popular do Brasil.</p>
<p>Leo está passando por um tempo de espanto. Por obra da quantidade de artistas que gravam no país e pelo mau gosto explícito dos nossos meios de comunicação, só agora, nestes dias, ele conheceu a obra de um compositor de qualidade rara, o nosso Tavinho Moura, de harmonias e melodias supimpas. Eletrizado por esse mundo novo que se abriu aos seus ouvidos, ele passa os dias e as noites ouvindo, apreendendo e buscando entender os mistérios do compositor mineiro. Imagino a felicidade dele, envolvido nessa viagem que é uma floresta de beleza e de uma diversidade incomum.</p>
<p>Acabei de lhe enviar o único CD que ele não tinha, O aventureiro do São Francisco, que tem parcerias com Gonzaguinha, Milton, Murilo Antunes, Márcio Borges e este humilde escritor de canções que lhes fala. As ideias devem estar fervendo na cabeça do Leo e daí certamente virá coisa boa, de espantar.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em abril de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Sá &amp; Guarabyra: garimpo no interior</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 18:03:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Milton Nascimento, carioca criado entre as montanhas e os sons de Minas Gerais, soube sintetizar muito bem, com o parceiro Fernando Brant, o cansaço que dão os modismos culturais criados no eixo Rio de Janeiro – São Paulo e impostos ao resto do País: “O Brasil não é só litoral, é muito mais, é muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Milton Nascimento, carioca criado entre as montanhas e os sons de Minas Gerais, soube sintetizar muito bem, com o parceiro Fernando Brant, o cansaço que dão os modismos culturais criados no eixo Rio de Janeiro – São Paulo e impostos ao resto do País: “O Brasil não é só litoral, é muito mais, é muito mais que qualquer zona sul (&#8230;) Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer deste lugar um bom país” (“Notícias do Brasil”, de 1981).<span id="more-6935"></span></p>
<p>Milton, figura maior no universo da música popular feita aqui, sempre soube disso. Como ele, um punhado de outros artistas, embora menos bem-sucedidos comercialmente, há muitos anos procura extrair do Interior os riquíssimos elementos para os quais a indústria cultural dos grandes centros dá as costas. Um dos casos mais interessantes desses compositores-garimpeiros da cultura do interior brasileiro – embora nem sempre a notícia saia nos jornais ou na televisão – é, sem dúvida, o de Luís Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra.</p>
<p>Os dois primeiros LPs da carreira do carioca Sá e do baiano (do sertão) Guarabyra, que então formavam um trio com o carioca Zé Rodrix, gravados em 1972 e 1973, não abriam mão dos elementos urbanos, das guitarras elétricas, do rock, de temas como os bailinhos e os programas dos adolescentes criados na cidade grande. Mas misturavam com isso pitadas fortes da cultura do interior e falavam do cheiro do pó da estrada, os bichos que cantam alto na noite, as romarias, o mato do jardim, o brilho das pedras, o fascínio dos rios. Foram os primeiros dentro da música “universitária” – garante Luís Carlos Sá – a usar a viola caipira, ao lado da guitarra e dos órgãos elétricos, a procurar arranjos instrumentais e vocais que evocassem a música feita no Interior.</p>
<p>Naqueles dois primeiros LPs – <em>Passado, Presente, Futuro</em>, de 1972, e <em>Terra</em>, de 1973 – eles fizeram baladas, baiões, rumbas, congas, xotes, valsas e rocks, o que não impediu que sua música ficasse sendo conhecida pelo rótulo de rock mural. Nunca engoliram muito esse rótulo – Sá diz que preferia o termo caipira progressivo, mais vasto e abrangente do que o rock rural. Mas fizeram algum sucesso e influenciaram, naquele começo dos anos 70, muitos outros grupos e compositores (entre estes, Sá cita os Secos &amp; Molhados da primeira fase, ainda com Ney Matogrosso, e mais os Almôndegas, de onde saíram Kleiton e Kleidir; o próprio Renato Teixeira, talvez o mais bem-acabado exemplo de caipira progressivo, ainda não havia, naquela época, definido inteiramente o seu estilo, o que só aconteceria no seu LP de 1978, <em>Romaria</em>).</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzsá.png"><img class="alignleft size-medium wp-image-6938" title="zzsá" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzsá-300x300.png" alt="" width="300" height="300" /></a>Desfeito o trio Sá, Rodrix e Guarabyra, com a saída de Rodrix, os outros dois prosseguiram no seu trabalho de mesclar o caipira com o urbano. Gravaram dois LPs pela Continental (<em>Nunca</em>, de 1974, e <em>Cadernos de Viagem</em>, de 1975), bons LPs, mas que nunca chegaram a vender muito bem. Tanto que estes dois discos, mais os dois iniciais do trio, não são mais produzidos pelas gravadoras e raramente tocam no rádio – embora, curiosamente, sejam disputados, nas lojas especializadas em discos usados de São Paulo, a preços que chegam a três vezes o valor de um LP novo.</p>
<p>Com o LP de 1978, <em>Pirão de peixe com pimenta</em>, conseguiram pelo menos um sucesso nacional, o maravilhoso xote “Sobradinho”, sobre as cinco cidades do Norte do sertão baiano inundadas pela formação do lago de Sobradinho. Mas só voltariam a gravar – ao contrário da grande maioria dos outros artistas, que faz um disco a cada ano – em 1980, com o LP <em>Quatro</em>.</p>
<p>O quinto LP de Sá e Guarabyra (e sétimo, contando com os dois do trio Sá, Rodrix e Guarabyra), lançado há algumas semanas pela RCA, é exatamente uma retrospectiva destes dez anos de carreira. Chama-se <em>10 Anos Juntos</em> e foi gravado ao vivo durante as cinco apresentações da dupla no final de outubro do ano passado (1982) em São Paulo. Muito sintomaticamente, o show que resultou no LP não foi apresentado no Tuca, no Pixinguinha ou em qualquer outro dos teatros dos bairros nobres de São Paulo, mas no Paulo Eiró, teatro simples, da Prefeitura, em um trecho barulhento de Santo Amaro (“O Brasil é muito mais do que qualquer zona sul&#8230;”). Diante de uma casa lotada, com a platéia ocupando todos os espaços, inclusive dos corredores, Sá e Guarabyra contaram histórias de suas vidas e carreiras e apresentaram músicas de antes e depois de 1972, ano em que começaram a trabalhar juntos.</p>
<p>Das várias composições que apresentaram, escolheram 11 para compor o LP – o qual, fazem questão de dizer no encarte, não tem adicionais de estúdio e reproduz fielmente o que foi apresentado no espetáculo. (O ouvinte não perde nada com isso: a qualidade de som é muito boa). Para a legião relativamente pequena, mas muito fiel, dos admiradores da dupla, é um disco imprescindível – mesmo porque nada garante que daqui a uns dois anos ele ainda possa ser encontrado em qualquer loja. Para quem não conhece bem o seu trabalho, é uma experiência no mínimo agradável.</p>
<p>As vozes são gostosas, afinadas, corretas, simpáticas; as interpretações são sensíveis, às vezes comoventes (Luís Carlos Sá consegue a proeza de regravar uma música que ficou muito conhecida na voz de Milton Nascimento e fazer-nos até esquecer da versão do grande cantor, na faixa “Caçador de mim”, de Sá e Sérgio Magrão). Os arranjos são simples, nada grandiosos ou grandiloqüentes, e muito bem cuidados; o acompanhamento, do conjunto Ponte Aérea, que há cinco anos toca com a dupla e até já gravou um LP solo, é muito bom (nada mais que guitarras, baixo, teclados e bateria, com o acréscimo de violas e violões tocados por Sá e Guarabyra).</p>
<p>E as canções são, todas, no mínimo gostosas, agradáveis (até mesmo as mais fracas, como “Dança o atrevido”, bela melodia para uma letra muito pobre), às vezes inteligentes e sensíveis (como “Vem queimando a nave louca” e “Sete Marias”), às vezes brilhantes (como “O Pó da Estrada”, “Dona”, do último festival da Globo, e “Sobradinho”). Uma bela lição de simplicidade, coerência e competência. E mais uma bela prova de que o Brasil – felizmente – é muito mais do que qualquer zona sul.</p>
<blockquote><p><em>Este texto foi publicado na revista </em>Ato<em>, na edição de março/abril de 1983.</em></p></blockquote>
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		<title>Dylan soberbo, para uma platéia que merecia Dylan</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Apr 2012 04:11:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[As 17 canções que Bob Dylan escolheu para apresentar na turnê que passou pelo Brasil neste mês de abril de 2012 foram lançadas em um espaço de 46 anos. A mais antiga é de 1963, e as mais recentes, de 2009. Carreira gloriosa é isso aí. Não dá para dizer com certeza, é claro, mas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As 17 canções que <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/dylan-volume-4-um-genio-que-nao-para/">Bob Dylan</a> escolheu para apresentar na turnê que passou pelo Brasil neste mês de abril de 2012 foram lançadas em um espaço de 46 anos. A mais antiga é de 1963, e as mais recentes, de 2009.<span id="more-6866"></span></p>
<p>Carreira gloriosa é isso aí.</p>
<p>Não dá para dizer com certeza, é claro, mas, pelo que vimos, Mary e eu, bem mais da metade da platéia que encheu o monstruoso Credicard Hall na segunda noite, a de domingo, 22, não tinha nascido sequer em 1974, o ano do disco <em>Blood on the Tracks</em>, de onde Dylan pinçou duas canções para apresentar aqui, “Tangled up in blue” e “Simple twist of fate”.</p>
<p>Tinha gente de todas as faixas etárias, é claro, como não poderia deixar de ser, como foi, por exemplo, nos shows de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/nao-ha-fenomeno-no-mundo-como-paul-mccartney/">Paul McCartney</a> em 2010 e de Eric Clapton no Morumbi em 2011. Mas me impressionou profundamente a quantidade de jovens – meninas e meninos na faixa dos 20 a 30 anos. Nos sentamos cercados de garotos por todos os lados.</p>
<p>Até porque, vamos e venhamos, Dylan é muito menos “popular” no Brasil do que Paul, e mesmo do que Clapton. Sua música é muitíssimo mais cerebral, menos dançante, menos quente que a dos dois mestres ingleses que lotaram o Morumbi.</p>
<p>E o impressionante, mas muito, muito impressionante, foi que a platéia parecia composta por fanáticos por Dylan, por conhecedores de sua obra.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/BOB-DYLAN-006.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6870" title="BOB DYLAN 006" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/BOB-DYLAN-006-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Era a platéia ideal, diria, com toda certeza, qualquer artista: respeitosa, atenta, silenciosa quando necessário, barulhentérrima quando possível. Os aplausos e urros eram intensos – e às vezes não apenas ao final de cada canção, mas mesmo no meio de algumas delas.</p>
<p>A primeira vez que o homem tocou sua harmônica, por exemplo, o lugar quase veio abaixo.</p>
<p>O Brasil é um lugar muito estranho, muito louco mesmo, como bem pôde perceber James Taylor no Rock in Rio, em 1985. O doçamargo Babe James não andava muito bem, naquela época, com problemas com drogas e uma carreira um tanto estacionada. De repente, neste distante país tropical de língua bárbara, que não tem nada a ver com o inglês, ouviu uma multidão de centenas de milhares de pessoas cantando junto com ele suas pérolas do início dos anos 60. “And my heart came back alive”, escreveria ele em “Only a dream in Rio”, do disco que lançou em seguida.</p>
<p>O fato é que a platéia do Credicard Hall, em Santo Amaro, aquela estranha cidade ao Sul de São Paulo, parecia ser de San Francisco, ou Boston.</p>
<p>Parecia que todo mundo – ou pelo menos a imensa maioria – conhecia a obra do compositor, sabia o que estava sendo cantado.</p>
<p>Foi muito, muito impressionante.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Dylan é um atroz assassino de canções”</strong></p>
<p>Se a platéia era a ideal, o artista estava soberbo.</p>
<p>E vou logo dizendo: não acho que Bob Dylan seja um artista bom para se ver em show. Acho o Dylan de estúdio melhor que o Dylan ao vivo. No estúdio, acho que ele capricha mais. Soa mais limpo, mais límpido.</p>
<p>Claro: Dylan não é uma perfeição de cantor. Seu timbre de voz não é educado, sequer é belo, dentro dos padrões tradicionais. Está muito longe, é óbvio, de um Bing Crosby, um Frank Sinatra, um Nat King Cole. Agora, já velho, tem a voz que mostra a idade.</p>
<p>Por uma grande coincidência, no mesmo domingo do show, horas antes de empreender a longa viagem até Santo Amaro, li um comentário no blog português <a href="http://www.escreveretriste.com/">Escrever é Triste</a>, onde escreve o Manuel S. Ferreira, que é arrasador. Diogo Leote faz ali duas afirmações. A primeira: Dylan “é o mais brilhante escritor de canções de sempre”. A segunda: Dylan “é um atroz assassino de canções. Das suas próprias e brilhantes canções”.</p>
<p>E ele prossegue, esse Diogo Leote: “Bob Dylan devia ser impedido de usar a sua horrorosa voz para cantar e, assim, destruir dezenas e dezenas de obras-primas. Pela parte que me toca, não conheça uma versão de uma música de Bob Dylan que não seja melhor do que o original”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Na minha opinião, o Dylan cantor é melhor no estúdio que ao vivo</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/dylan_vale.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6871" title="dylan_vale" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/dylan_vale.jpg" alt="" width="305" height="185" /></a>Naturalmente, essas afirmações parecem mais uma coisa de épateur les bourgeois do que dito com grande seriedade.</p>
<p>Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.</p>
<p>Na minha opinião, o Dylan cantor não chega à maravilha que são, por exemplo, Caetano Veloso e Paul Simon, compositores que foram dotados pelo Criador (ou pela natureza, sei lá) de vozes gostosas, belas, elásticas, suaves, elegantes. Mas é um cantor tão bom quanto outros cantautores, singers-songwriters, como Chico Buarque, José Afonso, Paolo Conte, Georges Moustaki, Jacques Brel, Victor Jara, para citar só gente do primeiríssimo time. (<em>A foto é de Eduardo Nicolau/AE</em>).</p>
<p>Mas é melhor cantor no estúdio que no palco.</p>
<p>No palco, tende, há muito tempo, em especial a partir da segunda metade da década de 70, quando começou a sua Never Ending Tour, de anos a fio, a desconstruir suas canções, a transcriá-las, a reinventá-las, a apresentá-las em arranjos, andamentos, completamente diferente da gravação original. Transformando-as – para sintetizar – em irreconhecíveis.</p>
<p>Escreveu-se, com ironia, sobre a turnê que Dylan iniciou nos últimos anos da década de 70 e que parecia não terminar nunca, daí o apelido que ganhou, que ele precisava fazer tantos shows, em todos os continentes, para pagar a cara pensão alimentícia de Sara e da penca de filhos que teve com ela.</p>
<p>Mas o fato é que parecia – dá para ver pelas diversas gravações ao vivo que saíram em disco – que Dylan estava mais cumprindo uma obrigação do que tendo prazer em fazer tantos shows.</p>
<p>Parecia que ele transcriava suas maravilhosas canções porque estava cansado delas, e cansado de ter que se apresentar no palco para ganhar a vida. Mordia as palavras, mastigava as palavras e as jogava para o público como se estivesse querendo maltratar as pessoas que tinham pagado para vê-lo. Parecia que ele tinha raiva – das canções e do público.</p>
<p>Foi exatamente esta a sensação que tive quando vi Dylan no antigo Palace, na primeira metade dos anos 90.</p>
<p>Não guardei boa lembrança daquela experiência. Muito ao contrário. E não tive interesse em vê-lo quando se apresentou no Morumbi, se não me engano num daqueles Hollywood Rock.</p>
<p>Elói Gertel e Vera Dantas viram um show dele em Paris, numa turnê de 2007, depois do lançamento do disco <em>Modern Times</em>. Elói falou muito bem do show: tinham ficado encantados com o profissionalismo do cantor, com a excelência da banda. (E até ganhei de presente a revista-programa, de edição limitada, lançada para aquela turnê – mais uma das muitas coisas, da minha coleção de memorabilia de Dylan.)</p>
<p>Cheguei até a pensar em não ir ao show do Credicard Hall. Já com os ingressos comprados, ainda tive dúvidas. Quase desisti na última hora.</p>
<p>Jamais me perdoaria, se tivesse deixado de ir.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma banda integradíssima, um Dylan profissionalíssimo, até mesmo jovial</strong></p>
<p>Profissionalíssimo. A definição que o Elói tinha dado é exata. O show é todo feito com o mais profundo profissionalismo.</p>
<p>A banda – baixo, duas guitarras, bateria, trompete &#8211; está afinadíssima. Percebe-se perfeitamente que todas as canções foram exaustivamente ensaiadas. Tudo funciona como um relógio suíço da mais alta qualidade.</p>
<p>(Eis os nomes dos excelentes, experientes músicos que acompanham Dylan na turnê: Tony Garnier, baixo; Charlie Sexton e Stu Kimball, guitarras; George Recelli, bateria; e Donny Heron, violino, mandolim, trompete e pedal steel.)</p>
<p>Está roqueiro, abertamente roqueiro, com som alto e forte – e, felizmente, a acústica do Credicard Hall é ótima. Ouve-se com perfeição cada instrumento, nada tampa, obscurece, abafa nada.</p>
<p>E Dylan, aos 71 anos (completa 72 em maio agora, no dia 24), parece mais em forma que quando o vi no Palace, mais de 15 anos atrás.</p>
<p>E não parece estar cansado, querendo despejar as canções o quanto antes, doidinho pelo momento de terminar o show. Muito ao contrário. Chega até mesmo a estar jovial; parecia estar percebendo que tinha diante dela uma platéia fiel e embevecida.</p>
<p>Claro: não diz nem boa noite nem obrigado. As únicas palavras que pronuncia – além daquelas das canções – são para apresentar os nomes dos músicos. Não é o estilo dele conversar com a platéia. Não é Paul McCartney: é Bob Dylan.</p>
<p>Mas chega até mesmo a gingar o corpo, as pernas, em alguns momentos. Parece estar gostando de estar no palco.</p>
<p>E se alterna entre a guitarra elétrica, a harmônica e o órgão elétrico – com um profissionalismo, uma segurança, um domínio absoluto do que está fazendo.</p>
<p>A voz está velha, sim, é claro. Mas Dylan não está comendo e roendo as palavras como já o ouvimos fazer tantas vezes em discos gravados ao vivo. Pronuncia as palavras com clareza, como fazia nos primeiros discos, na fase folk, anterior ao rock, e também como fez depois do acidente de moto de 1968, de <em>John Wesley Harding</em> até a fase maravilhosa de <em>Blood on the Tracks</em> e <em>Desire</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Canções dos anos 60, 70, 90 e 2000</strong></p>
<p>Eis a set-list do show:</p>
<table border="1" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> </span></td>
<td valign="top" width="274"><strong><span style="font-family: Times New Roman;">Música</span></strong></td>
<td valign="top" width="269"><strong><span style="font-family: Times New Roman;">Disco</span></strong></td>
<td valign="top" width="97"><strong><span style="font-family: Times New Roman;">Ano</span></strong></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 1</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Leopard-Skin Pill-Box Hat </span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Blonde on Blonde</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1966</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 2</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">It ain’t me, babe</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Another Side of Bob Dylan</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1964</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 3 </span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Times have changed</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Trilha sonora do filme Wonder Boys</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">2000</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 4</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Tangled up in blue</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Blood on the Tracks</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1974</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 5</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Beyond here lies nothin’</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Together through life</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">2009</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 6</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Not dark yet</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Time out of mind</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1997</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 7</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Summer days</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Love and theft</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">2001</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 8 </span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Simple twist of fate</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Blood on the Tracks</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1974</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;"> 9 </span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">High Water (for Charley Patton)</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Love and theft</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">2001</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">10</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Trying to get to heaven</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Time out of mind</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1997</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">11</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Highway 61 Revisited</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Highway 61 Revisited</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1965</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">12</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Forgetful heart</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Together through life</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">2009</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">13</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Thunder on the mountain</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Modern Times</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">2006</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">14</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Ballad of a thin man</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Highway 61 Revisited</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1965</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">15 </span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Like a rolling stone</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">Highway 61 Revisited</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1965</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">16</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">All along the watchtower</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">John Wesley Harding</span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1967</span></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="92"><span style="font-family: Times New Roman;">17</span></td>
<td valign="top" width="274"><span style="font-family: Times New Roman;">Blowin’ in the wind</span></td>
<td valign="top" width="269"><span style="font-family: Times New Roman;">The Freewheelin’ Bob Dylan </span></td>
<td valign="top" width="97"><span style="font-family: Times New Roman;">1963</span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Fiz as contas. São 7 canções dos anos 60, 2 dos anos 70, 2 dos anos 90 e 6 dos anos 2000.</p>
<p>Só a década de 80 ficou de fora.</p>
<p>Não tenho uma contabilidade recente de quantas canções Dylan já compôs, mas acredito que devam beirar aí umas 500. Pelo menos umas 200 são magníficas. Daria para o cara fazer uma dúzia de set-lists de 17 canções sem repetir nenhuma.</p>
<p>Assim, é absolutamente natural que uma ou outra preferida do público fique de fora. No táxi de volta de Santo Amaro para São Paulo, em que se fez um esquema de lotação (em uma única corrida Santo Amaro-São Paulo, o motorista amealhou R$ 280,00), duas moças muito jovens, belas e descoladas, que não se conheciam, comentaram que gostariam de ter ouvido “Hurricane”. Natural. Eu, por mim, gostaria de ter ouvido outras 17 das minhas preferidas – se possível com um som mais acústico, menos roqueiro.</p>
<p>Mas não dá para reclamar. Foi uma beleza de show, uma maravilha.</p>
<p>O entusiasmo da platéia &#8211; que era grande desde o início do show, precisamente às 8h0h5 &#8211; pareceu subir algumas oitavas na apresentação de &#8220;Ballad of a thin man&#8221;, a que diz que alguma coisa está acontecendo, mas você não sabe o que é &#8211; sabe, Mr. Jones? E literalmente explodiu quando a banda atacou com som e fúria &#8220;Like a Rolling Stone&#8221;. A canção seguinte, &#8220;All Along the Watchtower&#8221;, veio como a catarse final, com um show de guitarras que deixaria feliz Jimi Hendrix, autor de uma das versões mais conhecidas da canção.</p>
<p>No bis, a melodia de &#8220;Blowin&#8217; in the wind&#8221; estava praticamente irreconhecível. Mas os versos poderosos, criados em 1963, quando uns 70% daquela platéia de umas 4 mil pessoas ainda não tinham nascido, continuam tão belos hoje quanto na época da luta pelos direitos civis.</p>
<p>Uma hora e 40 minutos de um show emocionante, impressionante.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>É preciso ouvir mais e melhor os discos mais recentes</strong></p>
<p>Agora, uma confissão: o Dylan-maníaco aqui está fora de forma.</p>
<p>Não tinha lido sobre os shows anteriores (ele fez Rio de Janeiro dia 15, depois Brasília e Belo Horizonte), nem visto a set-list. Assim, resolvi anotar as músicas durante o show, numa cadernetinha. Simplesmente não reconheci a quinta música. Nem a sétima, nem a nona, nem a 12ª, nem a 13ª.</p>
<p>Em casa, comecei a montar a set-list no Word. Em 17, não reconheci cinco! Um absurdo total, uma vergonha!</p>
<p>São, essas cinco, canções dos discos mais recentes, <em>Love and Theft</em>, <em>Modern Times</em> e <em>Together Through Life</em>.</p>
<p>Preciso ouvi-los mais, e melhor.</p>
<p>Comentei com Mary que estou absolutamente fora de forma. O Dylan está em ótima forma, eu não.</p>
<p>E tive que ouvir o seguinte: “Ainda bem que não é o contrário”.</p>
<p>A turnê prossegue por Porto Alegre, no dia 24, terça. Fará em seguida quatro shows em Buenos Aires, um em Santiago, um na Costa Rica, três no México. Em junho faz uma apresentação na Inglaterra, e depois tem Alemanha, Áustria, Suíça, Espanha, França, Itália e França de novo.</p>
<p>O sujeito não pára.</p>
<blockquote><p><em>22 e 23 de abril de 2012</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Se não está, ainda estará nos dicionários</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/se-nao-esta-ainda-estara-nos-dicionarios/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 Mar 2012 16:16:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Resolvi fatiar o dia com uma pequena sesta antes do anoitecer. Certas tardes exigem um reforço de sono, para que a mente descanse e as energias da criação possam ser ativadas. Acordo em meio a notícias sobre os problemas criados para a população com a greve de ônibus, que deve ser justa mas pune injustamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resolvi fatiar o dia com uma pequena sesta antes do anoitecer. Certas tardes exigem um reforço de sono, para que a mente descanse e as energias da criação possam ser ativadas. <span id="more-6619"></span></p>
<p>Acordo em meio a notícias sobre os problemas criados para a população com a greve de ônibus, que deve ser justa mas pune injustamente os que dependem do transporte coletivo para trabalhar, estudar e circular com conforto pelas ruas da cidade. Os que não têm carro nem outra opção, pois o metrô, prometido há mais de trinta anos, não avança por mais que seja necessário, essencial, indispensável.</p>
<p>O telefone toca e meu amigo me consulta sobre um livro passarinheiro que anda construindo. Quer aportuguesar a palavra “loop” do inglês. Respondo argumentando sobre o fato de que se tantos usam o inglês para expressar o que poderia ser dito em bom português não há nenhum impedimento se adaptarmos para a língua pátria o idioma gringo. É o que mais se faz por aí. No momento em que publicar que as andorinhas fazem um “lupe” rasante, ele estará se antecipando aos dicionários e introduzindo um novo termo que logo estará na boca do povo, que o adotará.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzjourney11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6623" title="zzjourney1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzjourney11.jpg" alt="" width="280" height="280" /></a>Foi o que aconteceu com uma canção minha e do Milton Nascimento. Estávamos nos Estados Unidos e ele iria gravar um disco. Para contar a história de um amigo músico que conhecera lá, ele começou a escrever uma letra em inglês e me chamou para que a terminássemos juntos. Era um caso, comum na vida de todos nós, de encontros e desencontros. Um se vai, o outro fica. Quando o primeiro volta, o outro já se foi. Porque você também deixou a cidade, meu amigo?</p>
<p>Feita a letra, e terminada a melodia e a harmonia, fomos mostrar a nossa cria, que já tinha um nome: “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=rxh1ubAuXDA">Unencounter</a>”. Os letristas americanos que a ouviam logo argumentavam que aquela palavra não existia em inglês. Foram dizer isso logo para mim que, depois da segunda dose, improvisava na língua deles, dando terminações inglesas para vocábulos latinos. Eles se admiravam: você diz que não fala inglês mas emprega palavras eruditas.</p>
<p>Juntamos, eu e o Milton, a partícula negativa “un” ao termo “encounter”, encontro.</p>
<p>Perguntávamos se eles entendiam o que queríamos dizer, eles assentiam. E se há encontro, como não existe desencontro? Que país é este em que o encontrar é eterno e não há nunca o desencontrar? Naqueles tempos nem me lembrei do verso de Vinícius: “ a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida.”</p>
<p>Se eles entendiam o que queríamos dizer e se era nosso desejo, introduzimos, com a gravação do disco <em>Journey to dawn</em>, a palavra “unencounter” no idioma deles.</p>
<p>Em português, nossa cria veio a se chamar “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=OlcQE4NeXow">Canção da América</a>”, canto à amizade que resiste ao tempo, à distância e às intempéries.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em março de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Os poetas</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Mar 2012 19:18:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Os poetas escrevem versos e os enviam aos leitores como carta de náufrago. Não têm esperança de serem muito lidos, mas almejam pelo menos a atenção dos colegas de profissão. Se o acaso, após várias edições minúsculas bancadas por suas pequenas economias, os levam a alguma espécie de reconhecimento público, é como se o mundo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os poetas escrevem versos e os enviam aos leitores como carta de náufrago. Não têm esperança de serem muito lidos, mas almejam pelo menos a atenção dos colegas de profissão.<span id="more-6579"></span> Se o acaso, após várias edições minúsculas bancadas por suas pequenas economias, os levam a alguma espécie de reconhecimento público, é como se o mundo se debruçasse diante de seu talento. Poetas escrevem para poetas, o que nos leva a concluir que os que o lêem também o são ou, no mínimo, comungam da mesma sensibilidade. O leitor de poesia fornece o combustível para que eles prossigam.</p>
<p>A poesia, por mais que digam o contrário os práticos do mercado, tem um poder avassalador. Inocula a alma das pessoas e se transmite por gerações. Criada sem nenhuma ambição econômica, ela acaba por criar uma força tão forte como o dinheiro. Ela ri dos poderosos e expõe o ridículo dos ditadores, pois todos eles têm tempo de validade. A poesia não.</p>
<p>Nos tempos de Homero, Virgílio ou Camões, séculos e até milênios antes do capitalismo, a recompensa pelas obras criadas por eles era, no máximo, a glória contemporânea ou futura. O mesmo se pode dizer das artes da pintura e da escultura. Até que os mecenas financiassem o trabalho desses gênios.</p>
<p>Aí vieram o iluminismo, a idade das luzes, a revolução francesa e os direitos humanos.</p>
<p>A valorização do cidadão, senhor do Estado, a quem somente delegava poderes, a conquista da democracia, do governo para todos, da igualdade, da fraternidade e da liberdade. Nos versos de Cecília Meireles, “liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”</p>
<p>Depois de 14 de julho de 1789, os cidadãos escritores, poetas e artistas se levantaram na defesa de seus direitos de autores. No restaurante “Les Ambassateurs”, textos escritos por eles eram encenados e eles não recebiam nada. Tudo ali era pago: os vinhos e champagnes, as requintadas refeições.</p>
<p>Numa certa noite, toda a Paris cultural se dirigiu àquela casa de pasto e espetáculo.Todos comeram e beberam do melhor. Na hora da conta, disseram que não pagariam nada, da mesma forma que suas obras não eram remuneradas. Chamou-se a polícia, instaurou-se a polêmica e daí resultou a criação da primeira sociedade de autores teatrais. Depois dela, centenas foram fundadas em todos os países, no ocidente e no oriente, em defesa dos criadores e de suas obras.</p>
<p>Disse acima que o leitor de poesia também é poeta, pois participa com sua sensibilidade da criação que o autor lhe oferece. O mesmo vale para quem escuta e canta canções, assiste a filmes, contempla as belezas plásticas e lê romances.</p>
<p>Mas essa parceria inexiste quando, em nome da existência de novos meios de comunicação, pessoas e empresas renegam o que é conquista da civilização e burlam o direito dos autores que dizem amar. Não amam.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em março de 2012. </em></p>
<p><em>Sobre as tentativas de atacar os direitos autorais, vale a pena ler <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cortesia-com-o-chapeu-alheio-,849983,0.htm">editorial de </a></em><a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cortesia-com-o-chapeu-alheio-,849983,0.htm">O Estado de S. Paulo</a><em><a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cortesia-com-o-chapeu-alheio-,849983,0.htm"> sobre projeto de autoria do Ministério da Cultura</a>, &#8220;Cortesia com chapéu alheio&#8221;. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Quando o grande músico deu destaque à palavra</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 18:19:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Caçador de Mim, 15º LP em 14 anos de carreira profissional de Milton Nascimento, é um disco musicalmente riquíssimo. Os arranjadores, os regentes, os instrumentistas são alguns dos melhores do País: Wagner Tiso, Hélio Delmiro, Robertinho da Silva, Mauro Senise, Luiz Alves, para citar apenas alguns dos mais conhecidos. Mais: é um disco de produção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Caçador de Mim</em>, 15º LP em 14 anos de carreira profissional de Milton Nascimento, é um disco musicalmente riquíssimo. Os arranjadores, os regentes, os instrumentistas são alguns dos melhores do País: Wagner Tiso, Hélio Delmiro, Robertinho da Silva, Mauro Senise, Luiz Alves, para citar apenas alguns dos mais conhecidos.<span id="more-6409"></span></p>
<p>Mais: é um disco de produção rica, pródiga. Apesar dos tempos de crise na indústria fonográfica, a Ariola não faz qualquer economia na arregimentação dos músicos. Há de tudo, desde os instrumentos mais tradicionais na música popular, como violões, baixo e bateria, até uma orquestra de cordas de 21 membros, passando por metais (trompetes, trombones, flautas) e os instrumentos experimentais feitos com tubos de PVC, panelas, caçambas e quetais pelo <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/o-primeiro-disco-do-uakti/">Grupo Uakti</a> – e até mesmo o chicote de um domador do Circo Garcia.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaça1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6410" title="zzcaça1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaça1.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a>Tudo isso, é claro, bem usado, aproveitando as sempre ricas melodias desse artista maior da música brasileira (Milton é autor de seis das dez músicas do LP) e as de outros compositores que ele escolhe para interpretar.</p>
<p>Mas a riqueza musical de Milton Nascimento não chega a ser novidade.</p>
<p>A característica mais marcante deste novo LP – mais do que a própria música – é a palavra. <em>Caçador de Mim</em>, certamente mais que todos os outros trabalhos deste mineiro nascido no Rio de Janeiro, é um disco que privilegia a palavra, o discurso.</p>
<p>Não que a palavra não fizesse parte das preocupações desse músico bem-dotado, desde o início de sua carreira. A questão é que sua carreira ganhou impulso e floresceu numa época pouco dada ao discurso. Pelo menos aquele que Milton Nascimento e seus parceiros tinham para oferecer. Seu primeiro disco, <em>Travessia</em>, apareceu em 1967. Os outros surgiram depois do dia 13 de dezembro de 1968, sob o império do AI-5.</p>
<p>Era o tempo das metáforas, para Milton e seus amigos. Eles eram obrigados a escrever imagens sinuosas, como esta, por exemplo: “O que vocês diriam desta coisa que não dá mais pé? O que vocês fariam pra sair dessa maré? Sair desta cidade, ter a vida onde ela é: subir novas montanhas, diamantes procurar no fim da estrada e da poeira um rio com seus frutos me alimentar” (“Saídas e bandeiras”, Milton-Fernando Brant, 1972, governo Médici).</p>
<p>Houve um tempo em que sequer as metáforas foram permitidas. Depois desse disco de 1972, o álbum duplo <em>Clube da Esquina</em>, Milton gravaria <em>Milagre dos Peixes</em>. São 11 músicas; apenas três são cantadas. No encarte que acompanha o disco, está escrito, em várias delas: letra de fulano de tal. Só que no disco não há letra. Um crítico observou, na época, que Milton Nascimento conseguiu fazer da censura do regime Médici um excelente parceiro – porque ele gravou o disco mesmo assim, sem letras, apenas cantarolando, fazendo improvisos com a voz magnífica, enchendo de sons o vazio das palavras. E o resultado foi brilhante.</p>
<p>Interessante: uma das letras que a censura permitiu fosse gravada naquele disco foi a da música “Sacramento”. O autor era o próprio Milton, letrista bissexto – nos 14 discos anteriores a este<em> Caçador de Mim</em>, tem-se notícia de apenas oito letras feitas por ele. “Sacramento” é uma obra pesada, sombria, quase funérea. A letra, esmagada pelas metáforas, é quase desesperadora: “Com o pranto calado me casei, um banho de cinzas batizou o quarto fechado que afastei. No crisma de busca assumi dois olhos que ainda não achei”.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaça2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-6411" title="zzcaça2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaça2.jpg" alt="" width="440" height="330" /></a>É curioso lembrar aqueles tempos sombrios ao se ouvir agora este <em>Caçador de Mim</em>, um disco que privilegia a palavra, o discurso. Aqueles tempos parecem incrivelmente distantes, quando se ouve o novo LP.</p>
<p>O encarte que acompanha o disco, com uma bela foto de uma paisagem colorida de azul, traz de início um texto de Fernando Brant, parceiro de Milton desde os primeiros tempos de fama, a partir de 1966, e um dos letristas mais assíduos nos discos do músico. O pequeno texto chama-se “A caminho da utopia”, e diz: “A semente do amor, dignidade e justiça que recebemos frutifica e também estende seus braços. Está plantada nos corações dos jovens. Esteve e está em todos os nossos discos. Como sempre, continuamos a repetir palavras essenciais: justiça, crença, esperança, alegria”. E finaliza: “Apostamos tudo na utopia”.</p>
<p>Assim como muita gente gastou energia cobrando de Caetano Veloso e Gilberto Gil declarações políticas, certamente haverá quem vá criticar Milton Nascimento por atacar de discurso. E o artista já sabia e sabe disto. Por isso, ele diz, um “Sonho de Moço” (música do parceiro novo Francis Hime, letra dele mesmo, o poeta bissexto Milton Nascimento): “Pensam que não vale mais eu vir cantar rumos de povo, coisa e tal, e sonhos de moço pensam ser devagar, morreram com quem já não é. É hoje, é sempre, amanhã, sempre está; sou homem, sou jovem, menino, sou eu. Por mais que me mate o amanhã, a fé me transborda esta manhã”. Para mais adiante dizer, sem qualquer metáfora: “Que importa se estou a repetir sessenta e oito, qualquer dano, o dano todo. Quero acreditar”.</p>
<p>O letrista Milton Nascimento está presente em outra faixa do disco (ele é também o autor da música), “De magia, de dança e pés”. “Ninguém pode impor, meu irmão, o que é o melhor pra gente”, diz ele, a voz junto com o som estranho e bonito dos instrumentos do Grupo Uakti.</p>
<p>As outras faixas inéditas do disco são “Amor Amigo”, “Vida”, “Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)”, e “Coração civil”, todas as quatro da parceria Milton-Fernando Brant. Destas, as duas primeiras, mais lentas, com o acompanhamento de orquestra de cordas, são belos poemas de amor. (“O amor bateu na porta; eu de dentro respondi: minha casa é aberta, pode entrar, estou aqui”, diz ele, em “Vida”). As outras duas falam de utopia, justiça, Brasil (“o Brasil não é só litoral, em muito mais, é muito mais que qualquer zona sul”); nelas, o andamento é mais rápido, o ritmo mais marcado, a voz de Milton mais leve, alegre.</p>
<p>As quatro músicas restantes são regravações. “Caçador de Mim”, a faixa que dá título ao LP, de Sérgio Magrão e Luís Carlos Sá, já está no segundo LP do conjunto a que pertencem os autores, o 14 Bis. A voz de Milton casa-se perfeitamente à melodia e à bela letra – como milhares de paulistas puderam ouvir n<a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/quando-milton-lotou-o-ibirapuera-para-lancar-sentinela/">o show “Sentinela”, no Ibirapuera</a>, no primeiro semestre, mas é impossível deixar de assinalar a magnífica guitarra de Hélio Delmiro.</p>
<p>“Bela bela”, poema de Ferreira Gullar que Milton musicou, já estava no LP <em>Assim seja</em>, de Wagner Tiso, e no disco de estréia do conjunto Viva Voz. E “Nos bailes da vida” foi lançado por Joanna em seu terceiro LP, que chegou às lojas em julho deste ano – mas a interpretação de Joanna parece pálida e sem emoção, depois da gravação de Milton.</p>
<p>Finalmente, há a música que abre o disco – “Cavaleiros do céu”, versão de Haroldo Barbosa para a balada “Riders in the Sky”, de um certo Stan Jones. As pessoas com mais de 30 anos certamente se lembrarão dela – uma música desagradável que o hoje esquecido Carlos Gonzaga, cantor especializado em versões de músicas de categoria duvidosa, obrigava os ouvintes de rádio a tolerar, no final da década de 50, início dos anos 60. A música tem um sentido especial para Milton – como ele disse à repórter Maria Amélia Rocha Lopes. E, de fato, só um motivo pessoal poderia explicar a sua inclusão no disco.</p>
<p>Não faz mal. Basta pular a primeira faixa, e ir direto à segunda. Aí o disco mostra-se impecável.</p>
<blockquote><p><em>Esta resenha foi publicada no </em>Jornal da Tarde<em>, em 26/9/1981.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Dois dos mais belos contos estão num disco</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 05:37:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Dois dos mais brilhantes contos que já li na vida estão no disco The Caution Horses, que os Cowboy Junkies lançaram em 1990. Foram escritos pelo guitarrista Michael Timmins quando era bem jovem. Há no mundo um número absurdo de críticos de música; críticos de rock, ou rock &#38; pop, deve haver seguramente mais de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dois dos mais brilhantes contos que já li na vida estão no disco <em>The Caution Horses</em>, que os Cowboy Junkies lançaram em 1990. Foram escritos pelo guitarrista Michael Timmins quando era bem jovem.<span id="more-6351"></span></p>
<p>Há no mundo um número absurdo de críticos de música; críticos de rock, ou rock &amp; pop, deve haver seguramente mais de um milhão; só a <em>Folha de S. Paulo</em> tem uns 437,  ou 438. Há seguramente mais de 437, ou 438 rótulos de música pop – e, no entanto, jamais criaram um rótulo para as canções que são contos.</p>
<p>Críticos literários, isso há menos que críticos de música, certamente, mas também são milhares, dezenas de milhares. A definição de conto, no entanto, é difícil. É algo fluido. Não é, de forma alguma, uma coisa absolutamente clara. Onde exatamente o conto se separa da novela? Em que especificamente o conto se difere da crônica?</p>
<p>Dou uma olhadinha no verbete “conto” do <em>Dicionário de Termos Literários</em> do professor Massaud Moisés. Oito longas colunas, concluindo com indicações para outras doutas obras. De objetivo, fica o seguinte: “narrativa breve e concisa”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Contos sobre solidão, abandono, dor, crime, suicídio</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaution.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-6365" title="zzcaution" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaution-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Não sou douto em absolutamente nada, e minha opinião vale menos que uns três guaranis furados, mas, para mim, a música popular tem contos de qualidade tão grande quanto os de Tchecov, Hemingway, Fitzgerald, Dalton Trevisan, e quem mais houver.</p>
<p>Milton Nascimento, voz de sino de cobre, compositor de belíssimas melodias, que costuma se atrapalhar com as palavras quando tem que falar, tímido que é, escreveu, quando muito jovem, um conto perfeito, chamado “Morro Velho”, em que narra a amizade de dois garotos, que, muitos anos mais tarde, se reencontram, já adultos, de lados opostos na escala social. O professor Massaud Moisés talvez questionasse a definição de conto para “Morro Velho”, já que, segundo ele, os contos decorrem “num restrito lapso de tempo, horas ou dias”. “Caso o tempo se dilate, parte dele se escoa sem carga dramática”, ensina. No conto de Milton, há duas épocas diferentes – mas é narrativa breve e concisa, e então é um conto.</p>
<p>Paul Simon, também quando bastante jovem, escreveu alguns belos contos sobre dor, solidão, suicídio, crime. “Richard Cory” e “A Most Peculiar Man” falam de dois homens que se matam – um milionário, o primeiro, um pobre solitário, o segundo. Nos dois, assim como em “Morro Velho”, o narrador é externo – relata os fatos em terceira pessoa. Em “Wednesday Morning, 3 A.M”, Simon cria um conto narrado na primeira pessoa: quem relata os acontecimentos é o rapaz que acabou de assaltar uma loja e agora, no meio da madrugada, teme a chegada da polícia, enquanto a namorada dorme a seu lado, seu peito arfando sob a roupa pouca. A narrativa deve ter fascinado o jovem artista, porque, no ano seguinte, ele reescreveu a mesma história, embalada numa melodia bastante diferente, em “Somewhere they can’t find me”; o que era uma gentil melodia folk se transforma num pop acelerado, ritmado, mas o roubo é o mesmo, e alguns versos permanecem idênticos.</p>
<p>O jovem Paul Simon reescreveu seu pequeno conto sobre o garoto que assalta uma loja como Dalton Trevisan passaria a vida reelaborando suas próprias histórias.</p>
<p>E mesmo “The Boxer”, o que é “The Boxer”, se não um breve, conciso, emocionante conto sobre um rapaz que vem do interior para a metrópole à procura de emprego e as únicas ofertas que recebe são das putas?</p>
<p>“Eleonor Rigby”, que impressionou o mundo porque Paul McCartney mostrava que os Beatles sabiam fazer música de câmara, para violino, viola e violoncelo, é também um belo conto, o pobre padre McKenzie cerzindo suas próprias meias e preparando as palavras de um sermão que ninguém ouviria. Para ornar outra peça de câmara do fantástico melodista que é, “She’s leaving home”, McCartney faria outro pequeno conto, em que descreve, de forma breve, concisa, o dia em que um casal acorda e descobre que sua filhinha simplesmente desapareceu – caiu no mundo, foi se encontrar com o comerciante de carros.</p>
<p>No conto de McCartney, a garota foge de casa na quarta-feira. No conto de Simon, o garoto se esconde após assaltar a loja na quarta-feira. Por que será que as quartas-feiras fascinam tanto os contistas da melhor música pop que existe?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“E eu até que gosto desses centímetros a mais na minha cama”</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzmargo1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6366" title="zzmargo1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzmargo1.jpg" alt="" width="600" height="532" /></a>A personagem do belíssimo conto do guitarrista canadense Michael Timmins, ela mesma a narradora da história, acorda numa terça-feira, e não numa quarta. O título do conto-canção é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=F91wGhbOjLA">“Sun comes up, it’s Tuesday morning”</a>. O sol bate nos olhos dela, e o primeiro pensamento que tem é de que o namorado se esqueceu de fechar as cortinas. Pouco depois cai a ficha: não foi ele, foi ela mesma. Até porque, na noite anterior, ele já não estava mais na casa dela.</p>
<p>A personagem-narradora se dirige o tempo todo ao amante que não há mais. Conta para ele, que não está mais lá para ouvi-la, os fatos que foram se desenrolando ao longo daquela terça-feira. Tocou o telefone, mas ela não quis atender, até porque todo mundo sabe que as boas notícias sempre dormem até o meio-dia. Ela pensa em fazer um chá e uma torrada de novo, mas decide ir até a vizinha Jenny. Jenny exibe uma mancha negra em torno dos olhos, e confessa que o seu namorado, Bobby, perdeu os modos na noite anterior.</p>
<p>Na hora do almoço, ela chega a começar a discar o número do namorado, mas desiste: prefere ouvir Coltrane a enfrentar toda aquela merda de novo. Passa então a tarde sem fazer nada, só ouvindo música e vendo o sol se pôr. E imagina que talvez à noite pudesse ver um filme, um pacote de pipocas só para ela, preto-e-branco, com uma mulher forte no papel principal. E, se por acaso não gostar, resta sempre a opção de sair, ir para a rua, para um bar.</p>
<p>“E aqui vem aquela sensação da qual tinha me esquecido: como são estranhas estas ruas quando você está sozinho, cada par de olhos cheio de sugestões. Então eu baixo a cabeça, vou reto para casa, fervendo por dentro. Engraçado, nunca tinha notado o som que os bondes fazem ao passar pela minha janela. O que me faz lembrar, esqueci de fechar as cortinas de novo. Sim, claro, admito que há momentos em que sinto falta de você, especialmente como agora, em que preciso de alguém pra me abraçar, mas há algumas coisas que nunca podem ser perdoadas, e eu até que gosto desses centímetros a mais na minha cama.”</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Ah, mas puta que o pariu!</p>
<p>Só as palavras, só o conto escrito em palavras já é um brilho, o primeiro dia da mulher solitária depois que o amante vai embora, a primeira terça-feira do resto de sua vida sem o cara – e as diversas referências à opressiva falta dele, e a ironia repetida de dizer que na verdade ela está curtindo o vazio que ele deixou na cama.</p>
<p>Com a melodia triste, pesada, lenta, criada por Michael Timmins, e a voz de sua irmã Margo (<em>na foto acima</em>), uma voz expressiva, profunda, um tanto grave, que sai sem qualquer esforço, que faz questão de não ser ampla, “Sun comes up, it’s Tuesday morning” é uma das canções que mais me encantam na vida. <em>The Caution Horses</em> é de 1990 – faz 22 anos que ouça “Sun comes up&#8230;”, e jamais me canso de ouvi-la.</p>
<p>Quando um dos meus casamentos acabou, o que acabou não por minha vontade, ouvi essa música umas trocentas vezes. Depois continuei a ouvi-la não porque ela me lembrasse da minha separação que não queria, mas simplesmente porque é bela demais.</p>
<p>O You Tube tem <a href="http://www.youtube.com/watch?v=sWOuyE-b1tA">a gravação original, de estúdio</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>De novo, a narradora se dirige ao amante que não existe mais, se dissolveu no passado</strong></p>
<p>“Sun comes up&#8230;” é urbanóide até a medula, até a dor de cada verso. Passa-se necessariamente em uma cidade grande, uma metrópole. Quando a ouvi na época do lançamento do disco, imaginava as ruas de Toronto à noite – os Cowboy Junkies são de Toronto, e eu tinha tido a sorte de conhecer a metrópole canadense pouco antes. Mas pode ser qualquer grande cidade. Como dizia aquele personagem de <em>Easy Rider</em> que se recusava a dizer o nome da cidade de onde tinha saído, todas as grandes cidades são iguais.</p>
<p>O outro conto maravilhoso escrito por Michael Timmins e cantado/contado pela voz hipnotizante da bela Margo no disco de 1990 é suavemente mais country. A protagonista-narradora é essencialmente urbanóide, também – mas a ação pode se passar num bar de estrada, ou num bar de cidadezinha próxima à metrópole.</p>
<p>Não vou tentar fazer uma adaptação de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=hwJu1xW51BM">“Where are you tonight”</a>, como tentei fazer como “Sun comes up&#8230;” Vou tentar fazer uma versão. Ficará bem mais pobre que o original, é claro. Mas acho que será menos ruim do que tentar relatar o que o original relata muito melhor.</p>
<p>De novo, a protagonista-narradora se dirige ao amante que já não existe mais, que se dissolveu no passado.</p>
<p>É preciso imaginar o bar na beira da estrada, ou no centro da cidadezinha pequena do interior perto da cidade grande. É preciso imaginar que haja muita fumaça de cigarro no bar. Se não houver fumaça de cigarro, se formos ser não-nicotinamente corretos, então simplesmente não há a história.</p>
<p><em>Tem um rapaz no canto brincando de doido a noite inteira,</em></p>
<p><em>As bolachas se empilhando alto na mesa</em></p>
<p><em>Ele pede Wild Turkey e, com um gesto rápido e um sorriso,</em></p>
<p><em>Diz “minha cara, você é aquela que eu vestiria de pele”.</em></p>
<p><em>Mas seu boné de beisebol e seu jeitão de frequentador de bar me conta uma história completamente diferente,</em></p>
<p><em>Que este não é o príncipe que atenderá a todos os meus desejos.</em></p>
<p><em>Apenas mais um garoto caipira solitário cansado da noite,</em></p>
<p><em>Apenas mais um garoto com uma pia cheia de pratos sujos.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Quando deixei você em meus sonhos na noite passada</em></p>
<p><em>Você prometeu que estaríamos livres um do outro.</em></p>
<p><em>Onde está você nesta noite?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ele me conta sobre as estradas secundárias e como vamos andar por elas a noite inteira,</em></p>
<p><em>Como os dias vão sumir e a lua vai ficar no alto para sempre</em></p>
<p><em>E a nuvem de poeira que vamos soltar ficará presa a nós como uma alma</em></p>
<p><em>E o mito vai crescer sobre os dois que se recusaram a se render</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Mas quando eu nos vejo no espelho do bar, ele com seu braço nos meus ombros,</em></p>
<p><em>Essa moça que vejo se tornou tão desconhecida.</em></p>
<p><em>E enquanto ela fica de pé para sair ao lado de um desconhecido</em></p>
<p><em>Ela não consegue deixar de rir da vida que ficou tão estranha.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Acho que não vou conseguir enfrentar a luz amanhã</em></p>
<p><em>Sem saber se você estará lá para me guiar.</em></p>
<p><em>Onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Acho que vou conseguir sobreviver, afinal,</em></p>
<p><em>Mas gostaria tanto de ter você pelo menos mais uma vez a meu lado.</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Ah, mas puta que o pariu!</p>
<p>A protagonista-narradora olhando para o espelho e vendo uma mulher estranha, diferente, que ela não reconhece, faz lembrar “Those Were the Days”.</p>
<p>E, no mesmo disco <em>The Caution Horses</em>, os Cowboy Junkies ainda fizeram um cover de “Powderfinger”, de Neil Young – outro conto, um conto um tanto chegado ao fantástico, em que o narrador está morto.</p>
<p>Mas aí acho que já são outras histórias, outros posts.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2012</em></p>
<p><strong><em>Sun comes up, it’s Tuesday morning</em></strong></p>
<p><em>(Michael Timmins)</em></p>
<p><em>Sun comes up, it&#8217;s Tuesday morning</em></p>
<p><em>Hits me straight in the eye, guess you forgot to close the blind last night</em></p>
<p><em>Oh, that&#8217;s right. I forgot. It was me.</em></p>
<p><em>I sure do miss the smell of black coffee in the morning</em></p>
<p><em>The sound of water splashing all over the bathroom</em></p>
<p><em>The kiss that you would give me even though I was sleeping</em></p>
<p><em>But I kind of like the feel of this extra few feet in my bed</em></p>
<p><em>Telephone&#8217;s ringing, but I don&#8217;t answer it</em></p>
<p><em>&#8216;Cause everybody knows, good news always sleeps till noon</em></p>
<p><em>Guess it&#8217;s tea and toast for breakfast again</em></p>
<p><em>Maybe I&#8217;ll add a little TV too</em></p>
<p><em>No milk! Oh God how I hate that</em></p>
<p><em>Guess I&#8217;ll go to the corner, get breakfast from Jenny</em></p>
<p><em>She&#8217;s got a black eye this morning, Jenny how&#8217;d ya get it</em></p>
<p><em>She says, Last night, Bobby got a little bit out of hand</em></p>
<p><em>Lunchtime, I start to dial your number</em></p>
<p><em>Then I remember so I reach for something to smoke</em></p>
<p><em>Anyways I&#8217;d rather listen to Coltrane</em></p>
<p><em>Than go through all that shit again</em></p>
<p><em>There&#8217;s something about an afternoon spent doing nothing</em></p>
<p><em>Just listening to records and watching the sun falling</em></p>
<p><em>Thinking of things that don&#8217;t have to add up to something</em></p>
<p><em>And the spell won&#8217;t be broken by the sound of keys scraping inthe lock</em></p>
<p><em>Maybe tonight it&#8217;s a movie</em></p>
<p><em>Plenty of room for elbows and knees</em></p>
<p><em>A bag of popcorn all to myself</em></p>
<p><em>Black and white with a strong female lead</em></p>
<p><em>And if I don&#8217;t like it, no debate, I&#8217;ll leave</em></p>
<p><em>Here comes that feeling that I&#8217;d forgotten</em></p>
<p><em>How strange these streets feel when you&#8217;re alone on them</em></p>
<p><em>Each pair of eyes just filled with suggestion</em></p>
<p><em>So I lower my head, make a beeline for home</em></p>
<p><em>Seething inside</em></p>
<p><em>Funny, I&#8217;ve never noticed</em></p>
<p><em>The sound the streetcars make as they pass my window</em></p>
<p><em>Which reminds me, I forgot to close the blind again</em></p>
<p><em>Yeah sure I&#8217;ll admit there are times that I miss you</em></p>
<p><em>&#8216;Specially like now when I need someone to hold me</em></p>
<p><em>But there are some things that can never be forgiven</em></p>
<p><em>And I kind of like this extra few feet in my bed</em></p>
<p><strong><em>Where are you tonight?</em></strong></p>
<p><em>(Michael Timmins)</em></p>
<p><em>There&#8217;s a young man in the corner playing Crazy all night long</em></p>
<p><em>Quarters piled high upon the table</em></p>
<p><em>He orders Wild Turkey and with a quick wit and a smile</em></p>
<p><em>He says, my darlin&#8217; you&#8217;re the one I&#8217;ll drape in sable</em></p>
<p><em>But his baseball cap and his barroom rap tell me a differentstory</em></p>
<p><em>That this is not my prince to grant all my wishes</em></p>
<p><em>Just another lonely country boy grown weary of the night</em></p>
<p><em>Just another boy with a sinkful of dirty dishes</em></p>
<p><em>And where are you tonight</em></p>
<p><em>When I left you in my dreams last night</em></p>
<p><em>You promised me that we would be breaking free</em></p>
<p><em>Where are you tonight</em></p>
<p><em>He tells me of the back roads and how we&#8217;ll ride them all nightlong</em></p>
<p><em>How the days will fade and the moon will hang forever</em></p>
<p><em>And the cloud of dust we&#8217;ll kick off will linger like a soul</em></p>
<p><em>And the myth will grow that the two will refuse to surrender</em></p>
<p><em>But as I catch us in the barroom mirror with his arm around myshoulder</em></p>
<p><em>This girl I see has grown so unfamiliar</em></p>
<p><em>And as she stands to leave with the stranger by her side</em></p>
<p><em>She can&#8217;t help but laugh at a life grown so peculiar</em></p>
<p><em>And where are you tonight</em></p>
<p><em>I don&#8217;t think I can face tomorrow&#8217;s light</em></p>
<p><em>Not knowing if you&#8217;ll be there to guide me</em></p>
<p><em>Where are you tonight</em></p>
<p><em>And where are you tonight</em></p>
<p><em>I think I can make it through all right</em></p>
<p><em>But I&#8217;d love to have you just one more time beside me</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Nara Tropicália</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 03:09:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[É muito por causa de Nara que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu. Ao anunciá-lo, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É muito por causa de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/nara-e-elis/">Nara</a> que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu.<span id="more-6224"></span></p>
<p>Ao anunciá-lo, o site da empresa dizia tratar-se de uma homenagem &#8220;ao movimento encabeçado por Caetano Veloso e Tom Zé&#8221;. Nomes de outras canções minhas estavam sugeridos para praças internas. Será que os compradores de apartamentos gostariam de viver num lugar que se vende como homenagem sabendo que o(s) homenageados(s) não quer(em) que suas obras nomeiem o empreendimento?</p>
<p>Homenagem é a que a Escola de Samba Águia de Ouro, de São Paulo, vai prestar ao movimento tropicalista. Para isso tomo um avião e vou a Sampa juntar-me a Rita Lee. Os organizadores, ao expor seu enredo, mostraram conhecimento do que significa a Tropicália.</p>
<p>Mas um condomínio fechado, como parte do modo desregulado como vem se dando o crescimento da Cidade do Salvador, não condiz com nosso trabalho: nem o meu, nem o de Tom Zé, nem o de Gil, nem o de Rita, nem o dos irmãos Baptista, nem o de Duprat &#8211; nem o de Nara.</p>
<p>É natural que quase todos pensem em Nara como a musa da bossa nova e a pioneira da música participante: ela foi principalmente isso. Mas quero falar da Nara tropicalista. Bem, se ela é sempre retratada como uma moça tímida, um tropicalista ressaltaria antes sua personalidade determinada, seu desassombro em perguntar pela verdade crua das coisas, sua pesquisa permanente sobre a liberdade.</p>
<p>Três cenas representam Nara para mim. A primeira (nunca entendida corretamente pelo objeto da discussão): Nara me pergunta se eu concordo com amigos seus que, ao ouvirem Jorge Mautner falar em bomba atômica, contestam que &#8220;esse assunto não tem nada a ver com a realidade brasileira&#8221;, o que explicaria que Mautner fosse tido por eles como alienado.</p>
<p>A pergunta era feita por Nara como um pedido de socorro de sua inteligência franca, trazia o desconforto com o modo de pensar vigente nos meios em que andávamos. Ela não aceitava o veredicto e estava pescando argumentos para se posicionar responsavelmente.</p>
<p>A segunda cena suponho que esteja em &#8220;Verdade tropical&#8221;. Caía a audiência do &#8220;Fino da bossa&#8221; e subia a da Jovem Guarda. Paulinho Machado de Carvalho, dono da TV Record, marca reunião com Elis, Vandré, Simonal, Gil e Nara para buscar uma solução.</p>
<p>Gil pede que eu o acompanhe. Paulinho admite, mas não tenho voz, só posso ouvir.</p>
<p>Ouço. Vandré se arrepia e enche os olhos de lágrimas na defesa da cultura nacional contra o pop americanizado.Os outros, com bem menor veemência, repetem o discurso. Nara cala.</p>
<p>Paulinho pergunta:&#8221; E você Nara, não vai dizer nada? &#8221; Nara dirigi-se exclusivamente a ele: &#8221; Paulinho, você é o dono da emissora, eu sou contratada, canto nos shows para que for escalada. Só peço que, se for possível, não me escale num programa em que esteja Elis Regina: ela disse numa revista que eu não sou cantora&#8221;.</p>
<p>A terceira ressurgiu em minha cabeça anteontem à noite, ao ouvir Criolo dizer a Marília Gabriela o quão grande é sua admiração por Ney Matogrosso: numa minifesta na casa de Guilherme Araújo, Nara se aproxima de mim e propõe que saiamos, ela, Ney e eu: ela nutria fascinada curiosidade a respeito dele e queria ter uma aproximação sincera.</p>
<p>Saímos. Conversamos e muita coisa se revelou para ela. Sem sombra de obscenidade ou cafajestice, Ney, Nara e eu aprendemos muito sobre nós mesmos e sobre as complexidades da vida. Ela não teve nenhuma hesitação ao nos convidar a sair daquela casa, nem um milímetro de preocupação pelo que os outros poderiam pensar.</p>
<p>Nara não era tímida. Com sua voz trêmula e pura, com seu violão aplicado, ela foi uma grande artista, uma grande investida brasileira na modernidade. O mesmo impulso que a levou a perguntar sobre o Brasil e a bomba, a desmascarar a farsa do dono da estação de TV, a sair de uma festa pequena com dois colegas esquisitos, a fez ter a ideia de encomendar uma canção sobre um quadro de Rubem Gerschaman.</p>
<p>Assombrada com a passeata contra as guitarras elétricas (o segundo ato da comédia da TV Record para resolver problemas de Ibope), ela viu ali uma marcha integralista, protofascista. E assim me disse. Num dia 25 de dezembro, ela me contou que, na véspera, estando sozinha na cozinha de sua casa, sentiu-se invadida de súbita e intensíssima felicidade: &#8220;Será motivo para preocupação ou comemoração?&#8221;, ela perguntou.</p>
<p>&#8220;Bem, foi um feliz Natal&#8221;, concluiu com um sorriso preocupado. Pouco depois apresentou sintomas mais sérios. Ela tinha algo de poeta. Tudo o que há de corajoso, livre, luminoso no tropicalismo é como o espírito de Nara Leão. Não posso trair sua memória: tenho que pedir à Odebrecht que retire o nome que batizou algo em que ela esteve envolvida de um projeto que representa, no limite, a ameaça de encher a Ilha dos Frades de prédios altos.</p>
<p>Copacabana (onde Nara cresceu) livrou-se da sombra sobre a areia com um aterro feito nos anos 70; Recife sofre ainda desse mal; Salvador, que teria tudo para ser uma joia, deve ao menos poder manter suas praias ao sol.</p>
<p>Nara era uma praia ao sol. Franca, livre. Por causa dela, não posso fazer por menos. &#8220;Tropicália&#8217; não deve se confundir com o seu oposto. A morte prematura de Nara lançou uma sobra em minha vida; sua lembrança mantém o sol no meio do céu.</p>
<blockquote><p><em>(*) Transcrevo aqui o artigo de Caetano Veloso para </em>O Globo<em> deste domingo, 22/1/2012, sem a devida autorização do autor. Fiz isso pouquíssimas vezes na vida: tenho o maior respeito pelos direitos autorais. Mas creio que Caetano não se oporia à republicação aqui de seu texto brilhante. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A mulher música</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 02:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Acordei naquele dia 19 de janeiro do ano de 1982 com duas tarefas, uma burocrática e outra, poética. Saí pela manhã em direção ao banco para tratar de assuntos tributários que já nos afligiam em todo o começo de ano. De volta para casa, ajeitei meu gravador, papéis e canetas e deixei tudo preparado para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordei naquele dia 19 de janeiro do ano de 1982 com duas tarefas, uma burocrática e outra, poética. Saí pela manhã em direção ao banco para tratar de assuntos tributários que já nos afligiam em todo o começo de ano.<span id="more-6219"></span> De volta para casa, ajeitei meu gravador, papéis e canetas e deixei tudo preparado para o trabalho daquela tarde. Na hora do almoço, sentei-me à mesa com a família. Toca o telefone. Era o Claudinê Albertini, voz chorosa, me perguntando, &#8221; você está sabendo?&#8221;. Sabendo o quê?, perguntei inocentemente. Elis morreu, ele me decretou do outro lado do fio. Atônito, corri para ligar o aparelho de televisão e me deparei com a confirmação trágica do inesperado e dolorosamente triste.</p>
<p>Não houve mais almoço, apenas o início de um vazio que se foi se ampliando com o passar das horas e do dia. Mas como? Eu tinha combinado com ela que faria a letra da canção do Bituca naquele dia e levaria para São Paulo na semana seguinte, durante as gravações do novo disco.A inédita iria se juntar a uma gravação dela para &#8221; Nos bailes da vida&#8221;, imaginem.<br />
O mundo caiu sobre mim, fiquei arrasado. Minha cantora, minha amiga não poderia ter sido atingida pelo raio da morte. Meses atrás ela me apresentara, no restaurante do Othon Beagá, seu novo namorado. Antes me levara a seu apartamento para ouvir aquela gravação arrepiante de &#8220;me deixas louca&#8221;.Quanto ao namorado, senti que ela tinha necessidade de minha aprovação. Falou-me de sua inteligência e cultura. Na saída do jantar eu lhe dei um reservado recado de aprovação. E lá se foi ela, de trem azul.</p>
<p>Sentei-me no chão do meu quarto para que os repórteres que batiam à minha porta não soubessem que eu lá estava. Não tinha nada a dizer, não queria dizer nada. Sofri pela amiga, pela artista imensa, pela intérprete maior de minhas canções, de minhas idéias. Ela que armou um subterfúgio para que &#8221; Saudades dos aviões da Panair&#8221; não fosse proibida pela censura. Ela que, em pessoa, vi poucas vezes em minha vida. Mas como nos falamos pelo telefone, quanta beleza trocamos.</p>
<p>Fiquei mais de um ano sem ouvir voz de mulher cantando. E a letra que eu faria para ela cantar eu só fiz muito tempo depois, em sua homenagem. &#8220;Essa voz&#8221;, que o Milton gravou:</p>
<p>&#8220;Não se apaga, não se cala essa voz/ não se esquece, permanece essa voz/ voando livre no espaço essa voz/ eterno canto de esperança essa voz/ ela é humana e divina essa voz/ nossa amiga não parou de cantar /ela é a voz/ de todos nós/</p>
<p>não se apaga, não se cala a mulher/ o seu sorriso, o seu sonho, a fé/ sua coragem, sua enorme paixão/ canção de vida e amor vai ficar/ com as pessoas que não param de ouvir/ a sua voz, a voz /que é a voz /de todos nós.”</p>
<p>P.S.: Na última vez que eu falei aqui da minha Tia Lourdes, ela me ligou para me dizer que não aceitava visita pelo jornal. Comprei para ela um disco da Celma e Célia, de canções religiosas, antigamente cantadas nas igrejas. No dia em que eu iria lá, ela teve um problema e foi hospitalizada. E ficamos sem sua ciência,humildade e sabedoria no último dia 9. Outra mulher alma e música.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em janeiro de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Nara e Elis</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 02:59:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[As coincidências. Neste dia 19 de janeiro, quinta-feira, faz 30 anos que Elis Regina morreu, e completam-se 70 anos do nascimento de Nara Leão. É extraordinariamente fascinante que uma única data una essas duas cantoras excepcionais, tão distintas, tão distantes uma da outra, embora com muitas coisas em comum. Em comum: nasceram na mesma década, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As coincidências. Neste dia 19 de janeiro, quinta-feira, faz 30 anos que Elis Regina morreu, e completam-se 70 anos do nascimento de Nara Leão.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/elisnara.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6175" title="elisnara" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/elisnara.jpg" alt="" width="760" height="270" /></a></p>
<p><span id="more-6173"></span></p>
<p>É extraordinariamente fascinante que uma única data una essas duas cantoras excepcionais, tão distintas, tão distantes uma da outra, embora com muitas coisas em comum.</p>
<p>Em comum: nasceram na mesma década, Nara em 1942, Elis em 1945. Começaram as carreiras na mesma época, a primeira metade dos anos 60. Rapidissimamente, tornaram-se duas das artistas mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Gravaram canções dos mesmos compositores. Cada uma delas foi a primeira cantora importante a gravar compositores novos, até então desconhecidos do grande público. Foram contratadas pela mesma empresa – a Philips, que depois virou PolyGram, que virou Universal. Tiveram programas na mesma emissora de TV, a Record de São Paulo. Passaram pela vida como cometas, e desapareceram cedo demais – Elis em 1982, aos 37 anos, Nara em 1989, aos 47.</p>
<p>Tão distintas, tão distantes. Para começo de conversa: nunca se bicaram, nunca foram amigas. Ao contrário. Há quem diga que a rivalidade, quase inimizade entre as duas começou quando Elis passou a namorar Ronaldo Bôscoli, ex-namorado de Nara.</p>
<p>Tinham temperamentos opostos. Nara sempre foi mais tímida, low profile, Elis sempre foi explosiva, expansiva. No seu programa da Record, <em>O Fino da Bossa</em>, Elis e Jair Rodrigues eram show-woman, show-man. Sobre o programa que Nara dividiu com Chico Buarque na mesma Record, e que durou pouco, dizia-se que eram desanimadores de auditório.</p>
<p>Elis tinha voz possante, poderosa; de Nara sempre se disse que tinha voz pequena.</p>
<p>Elis mudava de idéia como quem muda de roupa. Começou cantando versões de canções americanas de sucesso (seu primeiro disco, de 1961, se chamava <em>Viva a Brotolândia</em>), e só depois chegou ao samba e à MPB. Em 1968, liderou uma passeata em São Paulo contra a guitarra elétrica na música brasileira. No auge da ditadura militar, no final dos anos 60, cantou numa festa organizada pelo Exército. Poucos anos depois, passou a cantar músicas de protesto.</p>
<p>Nara teve uma trajetória exemplarmente reta, coerente, em termos de idéias. Esteve contra a ditadura desde o primeiro momento, e jamais arredou pé dessa posição. Musicalmente, no entanto, sempre foi aberta a tudo, a todos os estilos, desde sempre. Tida como musa da bossa nova, não gravou uma música de bossa nova no seu primeiro disco, <em>Nara</em>, de 1964, em que reuniu canções de mestres do samba tradicional, do morro – Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho – a canções modernas de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, Edu Lobo e Ruy Guerra, Baden e Aloysio de Oliveira.</p>
<p>Enquanto Elis marchava contra as guitarras elétricas, Nara se unia a Caetano Veloso e Gilberto Gil no tropicalismo; participou do disco-manifesto <em>Tropicália – Panis et Circensis</em>, de 1968. No documentário <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/uma-noite-em-67/">Uma Noite em 67</a></em>, Caetano conta se lembrar de ter olhado a passeata de uma janela do Hotel Danúbio, na Brigadeiro Luiz Antônio, ao lado de Nara, e Nara dizia para ele: “Parece coisa de fascista!”</p>
<p>Elis virou uma grande estrela popular. Nara jamais teve o mesmo sucesso popular de Elis.</p>
<p>As imensas distâncias entre Nara e Elis se evidenciam também agora, quando se aproximam as duas efemérides, os 70 anos de nascimento de uma, os 30 anos da morte da outra. Elis será lembrada “em shows, CDs, livros e exposição, numa reunião inédita de acervos que fãs preservaram por conta própria para manter viva a memória da cantora”, como informa o Segundo Caderno de <em>O Globo</em>, numa edição que dedica quatro páginas à cantora gaúcha.</p>
<p>O mesmo <em>Globo</em>, tão arraigadamente, bairristamente carioca, praticamente ignorou a outra efeméride, a que diz respeito à carioquíssima (embora nascida em Vitória) Nara. Apenas registrou, em notinha na coluna de Ancelmo Gois, o lançamento do site oficial de Nara, o <a href="http://www.naraleao.com.br/index.php">naraleao.com.br</a>.</p>
<p>O site é uma maravilha. Contém os 23 discos oficiais de Nara: o visitante pode ouvir todas as faixas de todos eles. Reproduz com rigor as fichas técnicas de cada disco, os textos da contracapa – vários deles da própria Nara, que escrevia muitíssimo bem. Traz ainda vídeos, alguns deles bem raros, como uma bela interpretação de &#8220;As tears go by&#8221;, rica galeria de fotos. Foi feito por Isabel Diegues, uma dos dois únicos filhos de Nara, de seu casamento com o cineasta Cacá Diegues – e Isabel não usou um tostão de órgão ou empresa oficial, nem recorreu a patrocínios de empresas interessadas em fazer deduções de seu imposto de renda. É um trabalho independente – tão independente quanto Nara sempre foi.</p>
<p>(Em tempo: postei este texto pouco antes das 2 horas da terça, 17. É preciso acrescentar, a bem da verdade, que, nesta terça, o Segundo Caderno de <em>O Globo</em> trouxe matéria de meia página sobre o site criado por Isabel Diegues. O <em>Estadão</em> e a <em>Folha</em> tinham publicado matéria no sábado passado.)</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>O <strong>50 Anos de Textos</strong> traz oito sobre Elis e sobre Nara. Faço aqui um pequeno índice-propaganda deles.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/elis-querendo-ser-livre-leve-e-solta/">Elis, querendo ser livre, leve e solta</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Elis</em>, de 1980. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 10/2/1981.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/nara-num-momento-especial/">Nara, num momento especial</a>.</p>
<p>Uma reportagem minha, a partir de uma entrevista que tive a sorte de fazer com a cantora, no apartamento em que ela morava em Ipanema, em 1981, na época do lançamento do disco <em>Romance Popular</em>. A reportagem foi publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 27/6/1981.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/um-grande-momento-da-cantora-de-sensibilidade-rara/">Um grande disco da cantora de sensibilidade rara</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Romance Popular</em>. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 27/6/1981.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/elis-brilhante-ate-no-disco-que-ela-nao-quis/">Elis, brilhante. Até no disco que ela não quis</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Elis Regina – 13th Montreux Jazz Festival</em>. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 10/4/1982.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/o-belo-disco-de-uma-nara-alegre-e-segura/">O belo disco de uma Nara alegre e segura</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Nasci para Bailar</em>. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 1º/10/1982.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/recordacoes-de-uma-final-de-festival/">Recordações de uma final de festival</a>.</p>
<p>Texto de Laïs de Castro, especialmente para o <strong>50 Anos de Textos</strong>, sobre o Festival da Record de 1967, que a autora cobriu como repórter da revista <em>Intervalo</em>.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/eu-vi-disparada-tomar-forma-e-outras-historias-dos-festivais/">Eu vi “Disparada” tomar forma (e outras histórias dos festivais)</a>.</p>
<p>Texto de Laïs de Castro, especialmente para o <strong>50 Anos de Textos</strong>.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/o-fim-do-fino/">O fim do Fino</a>.</p>
<p>Laïs de Castro conta como invadiu o apartamento de Elis Regina em 1967 e conseguiu uma entrevista exclusiva com ela.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/naraelisvarias.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6183" title="naraelisvarias" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/naraelisvarias.jpg" alt="" width="760" height="484" /></a></p>
<blockquote><p><em>17 de janeiro de 2012</em></p>
<p><em>Agradeço aos autores das fotos das quais me apropriei. E à Mary, que fez essa beleza de trabalho com elas, coisa que eu jamais vou saber fazer. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Quando Gal Costa provou que era também superstar</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/quando-gal-costa-provou-que-era-tambem-superstar/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 Dec 2011 16:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Gal Costa já não precisa mais provar que é uma cantora maior, afinadíssima, versátil, que domina perfeitamente a técnica e possui uma das vozes mais belas da música brasileira: o reconhecimento de que ela é uma das duas melhores cantoras surgidas no País nas últimas duas décadas é praticamente unânime. Assim, o show Festa do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gal Costa já não precisa mais provar que é uma cantora maior, afinadíssima, versátil, que domina perfeitamente a técnica e possui uma das vozes mais belas da música brasileira: o reconhecimento de que ela é uma das duas melhores cantoras surgidas no País nas últimas duas décadas é praticamente unânime.<span id="more-5995"></span> Assim, o show <em>Festa do Interior</em>, que ela apresentou sexta, sábado e domingo passados no Anhembi (o texto é de março de 1982), e volta a apresentar hoje e amanhã, e também no próximo final de semana, comprova mais do que isso. Comprova definitivamente que Gal Costa é, além de uma cantora maior, uma grande estrela. Uma superstar, como existem poucas no ramo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal22.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-6002" title="zzgal2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal22.jpg" alt="" width="456" height="1067" /></a>Assim como já havia acontecido na sua única apresentação no Rio (25 mil pessoas no Maracanãzinho) e nas outras capitais por onde já passou com este Festa do Interior, Gal lotou inteiramente os quatro mil lugares do Anhembi em todas as três apresentações do fim de semana passado – e certamente voltará a lotá-los neste agora e no próximo. Os ingressos são caros (o mais barato, que os jornais anunciaram ao preço de 500 cruzeiros, estava sendo vendido na última quinta-feira por 1.500 cruzeiros, não pelos cambistas, mas pela própria bilheteria do Anhembi); de poucos lugares se tem uma boa visão do palco; dezenas das cadeiras de couro do Palácio de Convenções do Anhembi foram destruídas, nos últimos meses, sendo substituídas por cadeiras duras, de plástico, mas altas do que as originais (tornando, assim, ainda mais difícil a visão do palco gigantesco); o sistema de som apresentou problemas graves na noite de estréia; em alguns momentos, os arranjos estridentes de Lincoln Olivetti quase encobrem a voz da estrela.</p>
<p>Apesar de tudo isso, no entanto, Gal faz lotar a nossa maior sala de espetáculos. E mais, muito mais que isso: deixa inegavelmente satisfeita à multidão que paga caro para vê-la. E faz os quatro mil espectadores de cada show ficarem de pé para dançar (ou simplesmente aplaudir) durante o festivo encerramento, que reúne quatro sucessos carnavalescos do repertório da cantora.</p>
<p>Todo o repertório do show, aliás, foi escolhido para isso: para obter uma resposta garantida da platéia. Não se ousou um milímetro, não se experimentou nada – não há muito lugar para ousadias e experiências em um espetáculo feito somente para grandes platéias (o Anhembi é o menor local em que o show se apresentará; nas outras cidades, são ginásios, ou teatros ainda maiores). Gal canta apenas o que o público quer ouvir – ou seja, músicas que as rádios mais tocaram de <em>Fantasia</em>, seu último LP, lançado em novembro passado, e outros sucessos anteriores. Na sua maioria, músicas rápidas, alegres, festivas, carnavalescas.</p>
<p>Já na terceira música que cantou, “Meu bem, meu mal” (Caetano Veloso), Gal pediu a participação do público: no refrão, afastava o microfone sem fio da boca e o colocava na direção da platéia, para ela cantasse em coro. Muita gente cantou junto, mas não chegou a ser uma reação impressionante. Quando, depois de “Açaí”, de Djavan, ela cantou dois frevos – “O bater do tambor”, de Caetano, e “Vassourinha elétrica”, de Moraes Moreira, e que ela não gravou em disco – boa parte da platéia ficou de pé, dançando e aplaudindo. Mas ainda sob os protestos da outra parte da platéia, que preferia ver o show sentada.</p>
<p>O momento de maior emoção, no entanto, viria depois dessa sessão de frevos, quando Gal homenageou nossa outra cantora maior, Elis Regina, e dedicou-lhe a música “Força estranha”. Gal precisou esperar um minuto inteiro de muito aplauso para poder começar a cantar. E a linda música que Caetano fez para Roberto Carlos ficou ainda mais linda, na voz brilhante de Gal, acompanhada, então, apenas por um violão e um baixo. E, infelizmente, também por um alto e insistente zumbido em uma das caixas de som à direita do palco, que começou já na terceira música e prolongou-se até o fim do show.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6003" title="zzgal1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal11.jpg" alt="" width="400" height="298" /></a>Igualmente emocionante foi a interpretação, a seguir, de “O amor”, que Gal gravou em <em>Fantasia</em> e que Elis planejava gravar no seu próximo disco. Depois dessas músicas mais lentas, a grande cantora deu lugar novamente à superstar, com o xaxado “Sebastiana” e o rock “Bem me quer, mal me quer”, com que homenageou essa “Maria-sem-vergonha do jardim da música popular brasileira”, Rita Lee.</p>
<p>Durante todos os 60 minutos e as 18 músicas do show, Gal, aos 36 anos, exibiu um vigor e uma garra dignos de uma adolescente: dançou, correu por todos os lados do palco, requebrou, exibiu as pernas deixadas à mostra pelo vestido aberto do lado, suou muito, encharcou o peito fartamente exibido pelo decote. Foi uma Gal já muito suada – mas sem dar mostras de cansaço – que chegou à apoteose final, sob uma chuva de confetes e serpentinas, para cantar, de um fôlego só, seus sucessos “Chuva, suor e cerveja”, “Massa real”, “Balance” e, obviamente, “Festa do interior”. A partir do primeiro destes quatro números finais, já não havia ninguém sentado no Anhembi. E a platéia continuaria de pé, dançando, até exigir que ela voltasse ao palco pra bisar “Festa do interior”. Gal Costa voltou com um rosto feliz, exuberante, seguro de si. Uma superstar. Merecidamente.</p>
<blockquote><p><em>Esta resenha foi publicada no </em>Jornal da Tarde<em>, em 12/3/1982, com o título “Afinadíssima, versátil, alegre: Gal, a nossa superstar”.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>De volta, o primeiro disco do mestre Vanzolini</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Dec 2011 02:25:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Está sendo relançado o disco Onze Sambas e uma Capoeira. Que maravilha. Nem só de tristes notícias vive este país. Onze Sambas e uma Capoeira é uma gema, uma pérola rara. Lançado em 1967, foi o primeiro disco só com obras de Paulo Vanzolini, esse extraordinário compositor paulista, paulistano, ele próprio uma avis rara, dublê [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Está sendo relançado o disco <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>. Que maravilha. Nem só de tristes notícias vive este país.<span id="more-5946"></span></p>
<p><em>Onze Sambas e uma Capoeira</em> é uma gema, uma pérola rara. Lançado em 1967, foi o primeiro disco só com obras de Paulo Vanzolini, esse extraordinário compositor paulista, paulistano, ele próprio uma avis rara, dublê de cientista e boêmio – doutorado em zoologia pela Universidade de Harvard, diretor do Museu de Zoologia da USP, alternava estudos de campo na Amazônia com noitadas sem fim na boate Jogral, no seu endereço original, na então descolada Galeria Metrópole, na Avenida São Luís com a Praça Dom José Gaspar, e depois no iniciozinho da Avanhandava.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze11.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5952" title="zzonze1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze11-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Sua canção <a href="http://www.youtube.com/watch?v=m1QOGybRmkQ&amp;feature=related">“Ronda”</a> – “de noite eu rondo a cidade a lhe procurar sem lhe encontrar”, “cena de sangue num bar da Avenida São João”, provavelmente o mais bem acabado retrato de uma São Paulo que, até então cidadezinha acanhada, virava veloz e vorazmente metrópole – foi composta em 1951, e gravada pela primeira vez em 1953, por Bola 7. Dez anos depois, em 1963, Noite Ilustrada transformou em sucesso nacional <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BI8dBBDL0CU">“Volta por cima”</a> – “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”.</p>
<p>As duas canções já famosas estão no disco <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>. “Ronda” é cantada por Cláudia Morena, e “Volta por cima”, por Mauricy Moura. Hoje, pouca gente deve se lembrar dos nomes desses cantores. Os outros intérpretes das 12 faixas são Adauto Santos, cantor extraordinário da noite paulistana, mas que nunca obteve grande sucesso nacional em disco, Luiz Carlos Paraná, o dono da boate Jogral, compositor também (é dele “Maria, Carnaval e Cinzas”, que Roberto Carlos cantou no festival da Record de 1967), Cristina, uma jovem então desconhecida, que mais tarde gravaria com o nome de Cristina Buarque, e um outro Buarque, irmão de Cristina, filho de Sérgio. Em 1967, o garoto Chico estava lançando seu segundo disco, e já era uma unanimidade nacional.</p>
<p>Se não estou muito enganado, as duas faixas que Chico Buarque de Hollanda canta em Onze Sambas e uma Capoeira foram as primeiras em que ele gravou músicas que não eram de sua própria autoria. Não é um cantor de gravar músicas dos outros – até porque durante muito tempo não foi considerado um bom cantor, embora seja, sim, um ótimo cantor. Só em Sinal Fechado, de 1974, faria um disco de composições dos outros – um trabalho que na verdade era um vigoroso protesto contra a censura da ditadura militar: como suas próprias canções não conseguiam passar pela censura, optou por fazer um disco quase inteiro com obras de outros. Quase inteiro, porque tinha uma, “Acorda, Amor”, que era Chico Buarque escarrado, embora creditada a um outro compositor, alter ego e criação dele próprio para driblar os censores, Julinho da Adelaide.</p>
<p>Em 1967 – exatamente como hoje, 2011, ano do relançamento de <em>Onze Sambas e Uma Capoeira</em> –, Chico era o mais famoso dos cantores reunidos para o primeiro disco só com canções de Paulo Vanzolini.</p>
<p>Minha idéia inicial, quando pensei em fazer este texto, era falar sobre “Praça Clóvis”. Mas não dá para não falar um pouco mais de <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma indústria que cresceu demais, ficou imbecil, e está morrendo de excesso de empáfia</strong></p>
<p>A indústria fonográfica é de uma burrice, de uma estupidez atroz.</p>
<p>Não é à toa que está acabando, estrebuchando, nesta era da internet, do download, da pirataria.</p>
<p>A indústria fonográfica foi, era (verbos no passado, já que hoje ela quase agoniza) cega, surda, muda, perdulária, cheia de si – idiota, estúpida.</p>
<p>Sempre apostou, investiu no certo, no que dava retorno imediato. Nunca, ou, no mínimo quase nunca, quis saber de riscos.</p>
<p>Construiu de imediato grandes, gigantescas, corporações. Pagava salários biliardários a executivos mal preparados para lidar com arte. Uma das corporações gigantescas, só para lembrar um exemplo, recusou-se a contratar uma bandinha iniciante, com um então estranho nome, The Beatles.</p>
<p>Não foi a internet que destruiu a indústria fonográfica tal como ela era conhecida até aí, digamos, a década de 1990: foi sua própria imbecilidade, sua cegueira, sua empáfia.</p>
<p>Mas peço perdão. Estou digressando.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não uma gravadora, mas um sujeito sensível, inteligente – Marcus Pereira</strong></p>
<p><em>Onze Sambas e uma Capoeira</em> não foi feito por uma gravadora, mas por um sujeito sensível, inteligente, que na época era dono de uma rentável agência de publicidade. Chamava-se Marcus Pereira, e é uma dessas pessoas para quem a gente tem que tirar o chapéu.</p>
<p>Se não estou muitíssimo me enganado, foi de Marcus Pereira a idéia de criar, como brinde de fim de ano para seus clientes, não uma besteirinha tipo caixa com uma garrafa champagne, ou qualquer outra coisa do gênero, mas um disco – único, especial, criação deles mesmos.</p>
<p>Com o nome de Discos Marcus Pereira, foram criados como brindes de fim de ano o primeiro disco de Renato Teixeira e o primeiro disco só com composições de Paulo Vanzolini.</p>
<p>Depois ficaram ainda mais ousados, ambiciosos, loucos, Marcus Pereira, o patrão, e seu braço direito, Aluízio Falcão: investiram uma grana preta (com um apoio da Finep) em pesquisa e criaram primeiro a série de quatro discos <em>Música Popular do Nordeste</em>, e depois a série do Norte, a do Sul, a do Sudeste. Cada série tinha quatro discos, e reunia gravações de artistas locais, originais, pouco conhecidos, com interpretações de artistas reconhecidos, famosos. São fantásticas pérolas: em um dos discos da Música Popular do Sul, por exemplo, há uma gravação original das primeiras décadas do século XX da canção folclórica gaúcha “Boi Barroso”, que se mistura a uma gravação feita especialmente para o disco por Elis Regina, com arranjo do Homem do Plá, o monstro Rogério Duprat. A série do Sudeste tem um então iniciante Renato Teixeira e a já gloriosa Nara Leão.</p>
<p>Pérolas, pérolas, pepitas de ouro.</p>
<p>No início da era do CD no Brasil, primeira metade dos anos 1990, a gravadora Copacabana lançou nos disquinhos digitais essas maravilhas.</p>
<p>Algumas delas começam a ser relançadas agora. Onze Sambas e Uma Capoeira está chegando às lojas pela Microservice, a empresa que durante uns 20 anos foi apenas a fabricante de CDs e DVDs para as gravadoras e distribuidoras de filmes. A Microservice licenciou o catálogo da antiga Copacabana, que inclui os discos lançados pela Marcus Pereira; teve a esperteza e a sorte de chamar como consultor na escolha do que será relançado o jornalista Eduardo Magossi, amante de música, conhecedor de discos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>12 belas canções com arranjos de um iniciante, um tal de Toquinho</strong></p>
<p>O disco que volta agora às lojas tem arranjos – ótimos – de um músico então iniciante, Antonio Pecci Filho, entre parênteses Toquinho. A produção é assinada por Luiz Carlos Paraná, e a direção de gravação é de Manoel Barenbein – um gênio, o cara que foi responsável por alguns dos melhores discos brasileiros dos anos 1960.</p>
<p>São 12 belas canções do cientista-boêmio – inclusive, como já foi dito, regravações das já então (em 1967, ano do lançamento original) muito famosas “Ronda” e “Volta por cima”.</p>
<p>Todas são ótimas. Mas, na minha opinião, as melhores faixas são “Chorava no meio da rua”, “Cravo Branco”, “Samba Erudito” e “Praça Clóvis”.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=6F45UcaFmaY">“Chorava no meio da rua”</a> é cantada pela então iniciante Cristina, depois Cristina Buarque. No ano seguinte, 1968, Cristina faria um dueto com o irmão no terceiro disco dele, na maravilhosa (mas o que esse cara faz, na música, que não é maravilhoso?) canção “Sem Fantasia” – uma das criadas para a peça <em>Roda Viva</em>, aquela que foi vítima do vandalismo dos garotões bem nutridos do CCC, comando de caça aos comunistas. Creio que esta faixa foi a primeira gravada por Cristina. É uma beleza.</p>
<p>Cristina era uma jovem, uma novata, inexperiente, com uma vozinha ainda não treinada – porém bela. Adauto Santos, muito ao contrário, era um veterano cantor da noite, um timbre forte, pessoal, uma interpretação segura. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=8wCIaKgXrhQ">“Cravo Branco”</a>, se não fosse uma canção, se fosse apenas texto, seria um conto de aplaudir de pé como na ópera. Dalton Trevisan, o vampiro curitibano que passa a vida tentando diminuir o número de palavras de seus contos já originalmente enxutos, que gostaria mesmo era de escrever hai-kais, deve se contorcer de inveja ao ouvir “Cravo Branco” – se é que o vampiro de Curitiba faz outra coisa na vida a não ser tentar reescrever enxugando seus próprios textos.</p>
<p>Minha idéia era falar da “Praça Clóvis”, mas não dá para resistir. Aí vai a letra de “Cravo Branco” – um conto perfeito, hemingwayiano, trevisaniano, um curta-metragem de gênio, se não fosse um perfeito samba sincopado vanzoliniano:</p>
<p><em>Saiu de casa de terno tropical,</em></p>
<p><em>Camisa creme, lenço e gravata igual,</em></p>
<p><em>Jantou e saiu satisfeito,</em></p>
<p><em>Pra antes da meia-noite,</em></p>
<p><em>Morrer com um tiro no peito.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ela lhe deu o cravo,</em></p>
<p><em>O outro se ofendeu,</em></p>
<p><em>Ele olhou no revólver,</em></p>
<p><em>Dava tempo e não correu,</em></p>
<p><em>Dobrou o joelho, desabou no chão,</em></p>
<p><em>Os olhos redondos,</em></p>
<p><em>E o cravo branco na mão,</em></p>
<p><em>Ai, o pobre, caído no chão,</em></p>
<p><em>De bruços no sangue,</em></p>
<p><em>Com o cravo branco na mão,</em></p>
<p><em>Com o cravo branco na mão.</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Ah, ma puta que o pariu, é genial demais. Martin Scorsese adoraria filmar aquela imagem: dobrou o joelho, desabou no chão, os olhos redondos e o cravo branco na mão.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Mas a água corre pro mar, jamais para o sertão, e as duas canções mais excepcionais foram reservadas para a voz de Chico Buarque, o único de todos aqueles artistas que já era famoso.</p>
<p>No LP, cada lado abria com Chico Buarque. O lado A abria com <a href="http://www.youtube.com/watch?v=oixH0mGPU_o">“Samba Erudito”</a>.</p>
<p>Não sei se Paulo Vanzolini, entre uma ida à Amazônia para observar bichos, entre um estudo e outro de ciência, de zootecnia, e as noitadas no Jogral com muita cachaça, tinha tempo para ouvir as letras da Grande Música Americana, aquelas letras cheias de belas, rebuscadas imagens, de gente do porte de Ira Gershwin e Cole Porter, que brincavam com as palavras do Webster Dictionary, que falavam que Gibraltar poderia virar pó, que tal coisa reunia mais drama do que qualquer peça teatral russa. Não sei, não dá pra saber. Mas tanto Ira quanto Cole seguramente gostariam de ter assinado uma letra que diz o seguinte:</p>
<p><em>Andei sobre as águas</em></p>
<p><em>Como São Pedro</em></p>
<p><em>Como Santos Dumont</em></p>
<p><em>Fui aos ares sem medo</em></p>
<p><em>Fui ao fundo do mar</em></p>
<p><em>Como o velho Picard</em></p>
<p><em>Só pra me exibir</em></p>
<p><em>Só pra te impressionar</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Fiz uma poesia</em></p>
<p><em>Como Olavo Bilac</em></p>
<p><em>Soltei filipeta</em></p>
<p><em>Pra te dar um Cadillac</em></p>
<p><em>Mas você nem ligou</em></p>
<p><em>Para tanta proeza</em></p>
<p><em>Põe um preço tão alto</em></p>
<p><em>Na sua beleza</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E então, como Churchill</em></p>
<p><em>Eu tentei outra vez</em></p>
<p><em>Você foi demais</em></p>
<p><em>Pra paciência do inglês</em></p>
<p><em>Aí, me curvei</em></p>
<p><em>Ante a força dos fatos</em></p>
<p><em>Lavei minhas mãos</em></p>
<p><em>Como Pôncio Pilatos</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Desculpem a repetição, mas, ah, puta que pariu, é genial demais. “Então como Churchill eu tentei outra vez, mas você foi demais pra paciência do inglês&#8230;” Ahhh, vai tomar&#8230;</p>
<p>Milton Nascimento ficou bravo porque Paul McCartney compôs “Ebony and Ivory”. Mirtão expôs sua braveza em “Certas Canções”, confessando, candidamente, maravilhosamente, sua inveja por não ter feito antes aqueles versos que Paul criou.</p>
<p>Não há ninguém que tenha na vida o ofício de mexer com palavras que possa não ter inveja de quem faz um texto como esse de Paulo Vanzolini.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Mas, para mim, a maior obra-prima, a maior expressão da genialidade de mestre Vanzolini é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=lBkCW2J9u1o">“Praça Clóvis”</a>.</p>
<p>E aí me permito mais uma pequena digressãozinha.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze3.png"><img class="alignleft size-full wp-image-5953" title="zzonze3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze3.png" alt="" width="573" height="409" /></a>A Praça Clóvis não existe mais. Minha filha, o melhor texto que eu jamais poderia ter escrito, trabalha hoje na João Mendes, logo atrás do que antes era a Praça Clóvis. Entre o Fórum João Mendes e o que antes era a Praça Clóvis fica o Tribunal de Justiça, onde a vi fazer a prova oral no concurso para a magistratura e depois, no mais nobre dos salões, assumir o cargo de juíza. Quando minha filha nasceu, paulistaníssima, a Praça Clóvis já não existia. Eu era um jornalista pouco mais que iniciante quando o Mendes Caldeira, predião de uns 20 andares, foi implodido, para que a Sé se unisse à Clóvis, formando a Praça da Sé tal qual ela é hoje, em cima da mais central estação de metrô de São Paulo. Fernanda nunca viu a Praça Clóvis, mas eu, imigrante pobre, a conheci, tal qual ela era – um grande terminal de ônibus, nervoso, agitado &#8211; na época em que Vanzolini a usou para compor esta maravilha:</p>
<p><em>Na Praça Clóvis</em></p>
<p><em>Minha carteira foi batida</em></p>
<p><em>Tinha vinte e cinco cruzeiros</em></p>
<p><em>E o teu retrato</em></p>
<p><em>Vinte e cinco</em></p>
<p><em>Francamente achei barato</em></p>
<p><em>Prá me livrarem</em></p>
<p><em>Do meu atraso de vida</em></p>
<p><em>Eu já devia ter rasgado e não podia</em></p>
<p><em>Esse retrato cujo olhar me maltratava e perseguia</em></p>
<p><em>Um dia veio o lanceiro</em></p>
<p><em>Naquele aperto de praça</em></p>
<p><em>Vinte e cinco, francamente, foi de graça</em></p>
<p>Na minha opinião, Paulo Vanzolini não precisaria ter feito mais nada na vida: só “Praça Clóvis” já teria assegurado para ele um lugar de honra na música brasileira. Na arte feita no Brasil. Na arte.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Depois de <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em></strong></p>
<p>Embora o parágrafo acima tenha sido escrito para encerrar o texto, é preciso registrar que o segundo disco só com composições de Paulo Vanzolini também foi uma produção da Discos Marcus Pereira. Chamou-se <em>A Música de Paulo Vanzolini</em>, foi produzido em 1974, com as vozes de Carmen Costa e Paulo Marquez. É também uma maravilha, uma preciosidade. A Copacabana lançou o disco em CD no início dos anos 90, como fez com <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>.</p>
<p>Em 2002, uma gravadora independente lançou uma caixa de quadro CDs, preciosíssima – <em>Acerto de Contas de Paulo Vanzolini</em>. Tem provavelmente toda, ou quase toda a obra desse mestre da canção brasileira, que infelizmente é muito menos conhecido do que qualquer dupla sertaneja surgida ano passado.</p>
<p>Essa que em 2002 era uma gravadora independente quase iniciante tem hoje, entre os artistas de seu cast, como se dizia antigamente, Chico Buarque, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Adriana Calcanhoto, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti. É a Biscoito Fino – a prova viva de que lançar discos e imbecilidade não precisam necessariamente andar juntas. É também, acho eu, a prova viva de que uma empresa brasileira bem gerida pode dar de dez a zero em multinacionais – e não é preciso de ajudinha do BNDES, nem ser amigo do rei de plantão. Mas isso é outra história.</p>
<p><em>Dezembro de 2011</em></p>
<blockquote><p><strong><em>Confissões, coisas bem pessoais</em></strong></p>
<p><em>Não tem interesse para ninguém, a não ser para mim mesmo, mas gostaria de anotar duas ou três coisinhas.</em></p>
<p><em>Não conheci O Jogral da Galeria Metrópole. Quando cheguei a São Paulo, no início de 1968, O Jogral já estava na Avanhandava. Caipira, interiorano, pobre, fui levado ao Jogral algumas vezes pela namorada de um amigo; me apaixonei por ela. Como poderia um caipira, interiorano, pobre, não se apaixonar por uma moça descolada, inteligente, bela, gostosa e rica da Grande Cidade?</em></p>
<p><em>Uns anos depois, no início dos anos 1970, fiz uns frilas para a Marcus Pereira Publicidade. Um ou dois, não me lembro exatamente o que – coisa menor, entrevistas para servir de base para os trabalhos deles. Só me lembro, vagamente, que a sede da empresa era, naquela época, numa casa de uma das ruazinhas cheias de curva do Pacaembu. Não me lembro quem me indicou, mas me lembro que quem falou comigo, me passou as pautas, foi Aluízio Falcão.</em></p>
<p><em>Voltei a me encontrar com ele no início dos anos 1980, quando ele era o diretor artístico do Estúdio Eldorado, uma aventura da Rádio Eldorado – e do Grupo Estado – na área fonográfica que produziu uma série de grandes, importantes discos. Naquela época, eu tinha dez anos de </em>Jornal da Tarde<em>, e começava a escrever resenhas de discos. Uma vez ouvi Aluízio Falcão dizer que gostava do que eu escrevia, porque, segundo ele, eu escrevia com amor à música. Foi um dos maiores elogios que tive na minha breve carreira como resenhista de discos.</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>A música em minha vida</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 18:08:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[A memória nos revela, como filme, pedaços esquecidos de nossa vida. Eu me vejo, calças curtas em Diamantina, saindo de um parque de diversões e o som da praça tocando uma canção de Luiz Vieira, “Menino de Braçanã”: “é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã; mamãe, quando eu saí, disse meu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A memória nos revela, como filme, pedaços esquecidos de nossa vida. Eu me vejo, calças curtas em Diamantina, saindo de um parque de diversões e o som da praça tocando uma canção de Luiz Vieira, “Menino de Braçanã”: “é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã; mamãe, quando eu saí, disse meu filho não demora em Braçanã”.<span id="more-5579"></span></p>
<p>Essa é uma característica da música, linguagem universal que é trilha sonora da existência de quase todo mundo. Mas existe gente, como o poeta João Cabral de Melo, que dizia detestar o que a tantos agrada.</p>
<p>Como não recordar a tristeza que senti ao pegar, junto com minha mãe e irmãos, o ônibus que nos traria definitivamente para Belo Horizonte? Ao longo das quase 12 horas de viagem por estrada de terra, eu vim cantando coisas que ouvia na Rádio Nacional. Especialmente uma ocupou o meu tempo, “Recuerdos de Ypacaray”: “una noche tíbia nos conocimos junto al lago azul de Ypacarai”.</p>
<p>Menino, eu chorava, mentalmente, a certeza de que estava perdendo algo valioso, aquela vida folgada de brincadeiras e amizades, em troca de outro ambiente que, por desconhecido, parecia-me assustador.</p>
<p>A realidade, porém, foi muito melhor do que eu esperava e logo eu já tinha novos amigos, novos jogos e outras canções. Encontrei aqui, nesta cidade, um belo horizonte. Correndo para cima e para baixo, nas ladeiras, atrás de bola, suando em busca de gols e vitórias nas peladas diárias, eu escutava o som que vinha das casas. Dorival Caymmi, violão e voz entoando sua saudade da Bahia.</p>
<p>Na trilha sonora pessoal nem sempre importa a qualidade do que ouvimos. Mais importante é o acontecimento, o fato, a situação que vivemos no momento em que a canção surge no ar. Não posso, por exemplo, ouvir “Call me” sem me lembrar de minha namorada e mulher. Era o que tocava no tempo de nossos primeiros encontros.</p>
<p>E assim, de música e com música eu vou vivendo. Se ela é vital para mim, sei que é indispensável para a maioria das pessoas. E eu fico chateado quando me deparo com grandes organizações, órgãos de comunicação que têm na música um elemento essencial para que produzam suas novelas, filmes e uma infinidade de programas de entretenimento, empresas que tiram daí seus lucros enormes e merecidos &#8211; não consigo entender que seja civilizado o fato de elas não pagarem o que lhes é cobrado por utilizarem o que não lhes pertence. Se não querem pagar, que não usem a criação, o talento e as vozes de compositores, cantores e músicos. Será que, sem música, teriam o público de hoje?</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em 25/10/2011.</em></p></blockquote>
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