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	<title>50 Anos de Textos &#187; Música</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Nara Tropicália</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 03:09:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[É muito por causa de Nara que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu. Ao anunciá-lo, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É muito por causa de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/nara-e-elis/">Nara</a> que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu.<span id="more-6224"></span></p>
<p>Ao anunciá-lo, o site da empresa dizia tratar-se de uma homenagem &#8220;ao movimento encabeçado por Caetano Veloso e Tom Zé&#8221;. Nomes de outras canções minhas estavam sugeridos para praças internas. Será que os compradores de apartamentos gostariam de viver num lugar que se vende como homenagem sabendo que o(s) homenageados(s) não quer(em) que suas obras nomeiem o empreendimento?</p>
<p>Homenagem é a que a Escola de Samba Águia de Ouro, de São Paulo, vai prestar ao movimento tropicalista. Para isso tomo um avião e vou a Sampa juntar-me a Rita Lee. Os organizadores, ao expor seu enredo, mostraram conhecimento do que significa a Tropicália.</p>
<p>Mas um condomínio fechado, como parte do modo desregulado como vem se dando o crescimento da Cidade do Salvador, não condiz com nosso trabalho: nem o meu, nem o de Tom Zé, nem o de Gil, nem o de Rita, nem o dos irmãos Baptista, nem o de Duprat &#8211; nem o de Nara.</p>
<p>É natural que quase todos pensem em Nara como a musa da bossa nova e a pioneira da música participante: ela foi principalmente isso. Mas quero falar da Nara tropicalista. Bem, se ela é sempre retratada como uma moça tímida, um tropicalista ressaltaria antes sua personalidade determinada, seu desassombro em perguntar pela verdade crua das coisas, sua pesquisa permanente sobre a liberdade.</p>
<p>Três cenas representam Nara para mim. A primeira (nunca entendida corretamente pelo objeto da discussão): Nara me pergunta se eu concordo com amigos seus que, ao ouvirem Jorge Mautner falar em bomba atômica, contestam que &#8220;esse assunto não tem nada a ver com a realidade brasileira&#8221;, o que explicaria que Mautner fosse tido por eles como alienado.</p>
<p>A pergunta era feita por Nara como um pedido de socorro de sua inteligência franca, trazia o desconforto com o modo de pensar vigente nos meios em que andávamos. Ela não aceitava o veredicto e estava pescando argumentos para se posicionar responsavelmente.</p>
<p>A segunda cena suponho que esteja em &#8220;Verdade tropical&#8221;. Caía a audiência do &#8220;Fino da bossa&#8221; e subia a da Jovem Guarda. Paulinho Machado de Carvalho, dono da TV Record, marca reunião com Elis, Vandré, Simonal, Gil e Nara para buscar uma solução.</p>
<p>Gil pede que eu o acompanhe. Paulinho admite, mas não tenho voz, só posso ouvir.</p>
<p>Ouço. Vandré se arrepia e enche os olhos de lágrimas na defesa da cultura nacional contra o pop americanizado.Os outros, com bem menor veemência, repetem o discurso. Nara cala.</p>
<p>Paulinho pergunta:&#8221; E você Nara, não vai dizer nada? &#8221; Nara dirigi-se exclusivamente a ele: &#8221; Paulinho, você é o dono da emissora, eu sou contratada, canto nos shows para que for escalada. Só peço que, se for possível, não me escale num programa em que esteja Elis Regina: ela disse numa revista que eu não sou cantora&#8221;.</p>
<p>A terceira ressurgiu em minha cabeça anteontem à noite, ao ouvir Criolo dizer a Marília Gabriela o quão grande é sua admiração por Ney Matogrosso: numa minifesta na casa de Guilherme Araújo, Nara se aproxima de mim e propõe que saiamos, ela, Ney e eu: ela nutria fascinada curiosidade a respeito dele e queria ter uma aproximação sincera.</p>
<p>Saímos. Conversamos e muita coisa se revelou para ela. Sem sombra de obscenidade ou cafajestice, Ney, Nara e eu aprendemos muito sobre nós mesmos e sobre as complexidades da vida. Ela não teve nenhuma hesitação ao nos convidar a sair daquela casa, nem um milímetro de preocupação pelo que os outros poderiam pensar.</p>
<p>Nara não era tímida. Com sua voz trêmula e pura, com seu violão aplicado, ela foi uma grande artista, uma grande investida brasileira na modernidade. O mesmo impulso que a levou a perguntar sobre o Brasil e a bomba, a desmascarar a farsa do dono da estação de TV, a sair de uma festa pequena com dois colegas esquisitos, a fez ter a ideia de encomendar uma canção sobre um quadro de Rubem Gerschaman.</p>
<p>Assombrada com a passeata contra as guitarras elétricas (o segundo ato da comédia da TV Record para resolver problemas de Ibope), ela viu ali uma marcha integralista, protofascista. E assim me disse. Num dia 25 de dezembro, ela me contou que, na véspera, estando sozinha na cozinha de sua casa, sentiu-se invadida de súbita e intensíssima felicidade: &#8220;Será motivo para preocupação ou comemoração?&#8221;, ela perguntou.</p>
<p>&#8220;Bem, foi um feliz Natal&#8221;, concluiu com um sorriso preocupado. Pouco depois apresentou sintomas mais sérios. Ela tinha algo de poeta. Tudo o que há de corajoso, livre, luminoso no tropicalismo é como o espírito de Nara Leão. Não posso trair sua memória: tenho que pedir à Odebrecht que retire o nome que batizou algo em que ela esteve envolvida de um projeto que representa, no limite, a ameaça de encher a Ilha dos Frades de prédios altos.</p>
<p>Copacabana (onde Nara cresceu) livrou-se da sombra sobre a areia com um aterro feito nos anos 70; Recife sofre ainda desse mal; Salvador, que teria tudo para ser uma joia, deve ao menos poder manter suas praias ao sol.</p>
<p>Nara era uma praia ao sol. Franca, livre. Por causa dela, não posso fazer por menos. &#8220;Tropicália&#8217; não deve se confundir com o seu oposto. A morte prematura de Nara lançou uma sobra em minha vida; sua lembrança mantém o sol no meio do céu.</p>
<blockquote><p><em>(*) Transcrevo aqui o artigo de Caetano Veloso para </em>O Globo<em> deste domingo, 22/1/2012, sem a devida autorização do autor. Fiz isso pouquíssimas vezes na vida: tenho o maior respeito pelos direitos autorais. Mas creio que Caetano não se oporia à republicação aqui de seu texto brilhante. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A mulher música</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 02:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Acordei naquele dia 19 de janeiro do ano de 1982 com duas tarefas, uma burocrática e outra, poética. Saí pela manhã em direção ao banco para tratar de assuntos tributários que já nos afligiam em todo o começo de ano. De volta para casa, ajeitei meu gravador, papéis e canetas e deixei tudo preparado para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordei naquele dia 19 de janeiro do ano de 1982 com duas tarefas, uma burocrática e outra, poética. Saí pela manhã em direção ao banco para tratar de assuntos tributários que já nos afligiam em todo o começo de ano.<span id="more-6219"></span> De volta para casa, ajeitei meu gravador, papéis e canetas e deixei tudo preparado para o trabalho daquela tarde. Na hora do almoço, sentei-me à mesa com a família. Toca o telefone. Era o Claudinê Albertini, voz chorosa, me perguntando, &#8221; você está sabendo?&#8221;. Sabendo o quê?, perguntei inocentemente. Elis morreu, ele me decretou do outro lado do fio. Atônito, corri para ligar o aparelho de televisão e me deparei com a confirmação trágica do inesperado e dolorosamente triste.</p>
<p>Não houve mais almoço, apenas o início de um vazio que se foi se ampliando com o passar das horas e do dia. Mas como? Eu tinha combinado com ela que faria a letra da canção do Bituca naquele dia e levaria para São Paulo na semana seguinte, durante as gravações do novo disco.A inédita iria se juntar a uma gravação dela para &#8221; Nos bailes da vida&#8221;, imaginem.<br />
O mundo caiu sobre mim, fiquei arrasado. Minha cantora, minha amiga não poderia ter sido atingida pelo raio da morte. Meses atrás ela me apresentara, no restaurante do Othon Beagá, seu novo namorado. Antes me levara a seu apartamento para ouvir aquela gravação arrepiante de &#8220;me deixas louca&#8221;.Quanto ao namorado, senti que ela tinha necessidade de minha aprovação. Falou-me de sua inteligência e cultura. Na saída do jantar eu lhe dei um reservado recado de aprovação. E lá se foi ela, de trem azul.</p>
<p>Sentei-me no chão do meu quarto para que os repórteres que batiam à minha porta não soubessem que eu lá estava. Não tinha nada a dizer, não queria dizer nada. Sofri pela amiga, pela artista imensa, pela intérprete maior de minhas canções, de minhas idéias. Ela que armou um subterfúgio para que &#8221; Saudades dos aviões da Panair&#8221; não fosse proibida pela censura. Ela que, em pessoa, vi poucas vezes em minha vida. Mas como nos falamos pelo telefone, quanta beleza trocamos.</p>
<p>Fiquei mais de um ano sem ouvir voz de mulher cantando. E a letra que eu faria para ela cantar eu só fiz muito tempo depois, em sua homenagem. &#8220;Essa voz&#8221;, que o Milton gravou:</p>
<p>&#8220;Não se apaga, não se cala essa voz/ não se esquece, permanece essa voz/ voando livre no espaço essa voz/ eterno canto de esperança essa voz/ ela é humana e divina essa voz/ nossa amiga não parou de cantar /ela é a voz/ de todos nós/</p>
<p>não se apaga, não se cala a mulher/ o seu sorriso, o seu sonho, a fé/ sua coragem, sua enorme paixão/ canção de vida e amor vai ficar/ com as pessoas que não param de ouvir/ a sua voz, a voz /que é a voz /de todos nós.”</p>
<p>P.S.: Na última vez que eu falei aqui da minha Tia Lourdes, ela me ligou para me dizer que não aceitava visita pelo jornal. Comprei para ela um disco da Celma e Célia, de canções religiosas, antigamente cantadas nas igrejas. No dia em que eu iria lá, ela teve um problema e foi hospitalizada. E ficamos sem sua ciência,humildade e sabedoria no último dia 9. Outra mulher alma e música.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em janeiro de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Nara e Elis</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 02:59:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[As coincidências. Neste dia 19 de janeiro, quinta-feira, faz 30 anos que Elis Regina morreu, e completam-se 70 anos do nascimento de Nara Leão. É extraordinariamente fascinante que uma única data una essas duas cantoras excepcionais, tão distintas, tão distantes uma da outra, embora com muitas coisas em comum. Em comum: nasceram na mesma década, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As coincidências. Neste dia 19 de janeiro, quinta-feira, faz 30 anos que Elis Regina morreu, e completam-se 70 anos do nascimento de Nara Leão.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/elisnara.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6175" title="elisnara" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/elisnara.jpg" alt="" width="760" height="270" /></a></p>
<p><span id="more-6173"></span></p>
<p>É extraordinariamente fascinante que uma única data una essas duas cantoras excepcionais, tão distintas, tão distantes uma da outra, embora com muitas coisas em comum.</p>
<p>Em comum: nasceram na mesma década, Nara em 1942, Elis em 1945. Começaram as carreiras na mesma época, a primeira metade dos anos 60. Rapidissimamente, tornaram-se duas das artistas mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Gravaram canções dos mesmos compositores. Cada uma delas foi a primeira cantora importante a gravar compositores novos, até então desconhecidos do grande público. Foram contratadas pela mesma empresa – a Philips, que depois virou PolyGram, que virou Universal. Tiveram programas na mesma emissora de TV, a Record de São Paulo. Passaram pela vida como cometas, e desapareceram cedo demais – Elis em 1982, aos 37 anos, Nara em 1989, aos 47.</p>
<p>Tão distintas, tão distantes. Para começo de conversa: nunca se bicaram, nunca foram amigas. Ao contrário. Há quem diga que a rivalidade, quase inimizade entre as duas começou quando Elis passou a namorar Ronaldo Bôscoli, ex-namorado de Nara.</p>
<p>Tinham temperamentos opostos. Nara sempre foi mais tímida, low profile, Elis sempre foi explosiva, expansiva. No seu programa da Record, <em>O Fino da Bossa</em>, Elis e Jair Rodrigues eram show-woman, show-man. Sobre o programa que Nara dividiu com Chico Buarque na mesma Record, e que durou pouco, dizia-se que eram desanimadores de auditório.</p>
<p>Elis tinha voz possante, poderosa; de Nara sempre se disse que tinha voz pequena.</p>
<p>Elis mudava de idéia como quem muda de roupa. Começou cantando versões de canções americanas de sucesso (seu primeiro disco, de 1961, se chamava <em>Viva a Brotolândia</em>), e só depois chegou ao samba e à MPB. Em 1968, liderou uma passeata em São Paulo contra a guitarra elétrica na música brasileira. No auge da ditadura militar, no final dos anos 60, cantou numa festa organizada pelo Exército. Poucos anos depois, passou a cantar músicas de protesto.</p>
<p>Nara teve uma trajetória exemplarmente reta, coerente, em termos de idéias. Esteve contra a ditadura desde o primeiro momento, e jamais arredou pé dessa posição. Musicalmente, no entanto, sempre foi aberta a tudo, a todos os estilos, desde sempre. Tida como musa da bossa nova, não gravou uma música de bossa nova no seu primeiro disco, <em>Nara</em>, de 1964, em que reuniu canções de mestres do samba tradicional, do morro – Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho – a canções modernas de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, Edu Lobo e Ruy Guerra, Baden e Aloysio de Oliveira.</p>
<p>Enquanto Elis marchava contra as guitarras elétricas, Nara se unia a Caetano Veloso e Gilberto Gil no tropicalismo; participou do disco-manifesto <em>Tropicália – Panis et Circensis</em>, de 1968. No documentário <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/uma-noite-em-67/">Uma Noite em 67</a></em>, Caetano conta se lembrar de ter olhado a passeata de uma janela do Hotel Danúbio, na Brigadeiro Luiz Antônio, ao lado de Nara, e Nara dizia para ele: “Parece coisa de fascista!”</p>
<p>Elis virou uma grande estrela popular. Nara jamais teve o mesmo sucesso popular de Elis.</p>
<p>As imensas distâncias entre Nara e Elis se evidenciam também agora, quando se aproximam as duas efemérides, os 70 anos de nascimento de uma, os 30 anos da morte da outra. Elis será lembrada “em shows, CDs, livros e exposição, numa reunião inédita de acervos que fãs preservaram por conta própria para manter viva a memória da cantora”, como informa o Segundo Caderno de <em>O Globo</em>, numa edição que dedica quatro páginas à cantora gaúcha.</p>
<p>O mesmo <em>Globo</em>, tão arraigadamente, bairristamente carioca, praticamente ignorou a outra efeméride, a que diz respeito à carioquíssima (embora nascida em Vitória) Nara. Apenas registrou, em notinha na coluna de Ancelmo Gois, o lançamento do site oficial de Nara, o <a href="http://www.naraleao.com.br/index.php">naraleao.com.br</a>.</p>
<p>O site é uma maravilha. Contém os 23 discos oficiais de Nara: o visitante pode ouvir todas as faixas de todos eles. Reproduz com rigor as fichas técnicas de cada disco, os textos da contracapa – vários deles da própria Nara, que escrevia muitíssimo bem. Traz ainda vídeos, alguns deles bem raros, como uma bela interpretação de &#8220;As tears go by&#8221;, rica galeria de fotos. Foi feito por Isabel Diegues, uma dos dois únicos filhos de Nara, de seu casamento com o cineasta Cacá Diegues – e Isabel não usou um tostão de órgão ou empresa oficial, nem recorreu a patrocínios de empresas interessadas em fazer deduções de seu imposto de renda. É um trabalho independente – tão independente quanto Nara sempre foi.</p>
<p>(Em tempo: postei este texto pouco antes das 2 horas da terça, 17. É preciso acrescentar, a bem da verdade, que, nesta terça, o Segundo Caderno de <em>O Globo</em> trouxe matéria de meia página sobre o site criado por Isabel Diegues. O <em>Estadão</em> e a <em>Folha</em> tinham publicado matéria no sábado passado.)</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>O <strong>50 Anos de Textos</strong> traz oito sobre Elis e sobre Nara. Faço aqui um pequeno índice-propaganda deles.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/elis-querendo-ser-livre-leve-e-solta/">Elis, querendo ser livre, leve e solta</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Elis</em>, de 1980. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 10/2/1981.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/nara-num-momento-especial/">Nara, num momento especial</a>.</p>
<p>Uma reportagem minha, a partir de uma entrevista que tive a sorte de fazer com a cantora, no apartamento em que ela morava em Ipanema, em 1981, na época do lançamento do disco <em>Romance Popular</em>. A reportagem foi publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 27/6/1981.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/um-grande-momento-da-cantora-de-sensibilidade-rara/">Um grande disco da cantora de sensibilidade rara</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Romance Popular</em>. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 27/6/1981.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/elis-brilhante-ate-no-disco-que-ela-nao-quis/">Elis, brilhante. Até no disco que ela não quis</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Elis Regina – 13th Montreux Jazz Festival</em>. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 10/4/1982.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/o-belo-disco-de-uma-nara-alegre-e-segura/">O belo disco de uma Nara alegre e segura</a>.</p>
<p>Resenha sobre o disco <em>Nasci para Bailar</em>. Publicada no <em>Jornal da Tarde</em>, em 1º/10/1982.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/recordacoes-de-uma-final-de-festival/">Recordações de uma final de festival</a>.</p>
<p>Texto de Laïs de Castro, especialmente para o <strong>50 Anos de Textos</strong>, sobre o Festival da Record de 1967, que a autora cobriu como repórter da revista <em>Intervalo</em>.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/eu-vi-disparada-tomar-forma-e-outras-historias-dos-festivais/">Eu vi “Disparada” tomar forma (e outras histórias dos festivais)</a>.</p>
<p>Texto de Laïs de Castro, especialmente para o <strong>50 Anos de Textos</strong>.</p>
<p>* <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/o-fim-do-fino/">O fim do Fino</a>.</p>
<p>Laïs de Castro conta como invadiu o apartamento de Elis Regina em 1967 e conseguiu uma entrevista exclusiva com ela.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/naraelisvarias.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6183" title="naraelisvarias" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/naraelisvarias.jpg" alt="" width="760" height="484" /></a></p>
<blockquote><p><em>17 de janeiro de 2012</em></p>
<p><em>Agradeço aos autores das fotos das quais me apropriei. E à Mary, que fez essa beleza de trabalho com elas, coisa que eu jamais vou saber fazer. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Quando Gal Costa provou que era também superstar</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Dec 2011 16:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Gal Costa já não precisa mais provar que é uma cantora maior, afinadíssima, versátil, que domina perfeitamente a técnica e possui uma das vozes mais belas da música brasileira: o reconhecimento de que ela é uma das duas melhores cantoras surgidas no País nas últimas duas décadas é praticamente unânime. Assim, o show Festa do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gal Costa já não precisa mais provar que é uma cantora maior, afinadíssima, versátil, que domina perfeitamente a técnica e possui uma das vozes mais belas da música brasileira: o reconhecimento de que ela é uma das duas melhores cantoras surgidas no País nas últimas duas décadas é praticamente unânime.<span id="more-5995"></span> Assim, o show <em>Festa do Interior</em>, que ela apresentou sexta, sábado e domingo passados no Anhembi (o texto é de março de 1982), e volta a apresentar hoje e amanhã, e também no próximo final de semana, comprova mais do que isso. Comprova definitivamente que Gal Costa é, além de uma cantora maior, uma grande estrela. Uma superstar, como existem poucas no ramo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal22.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-6002" title="zzgal2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal22.jpg" alt="" width="456" height="1067" /></a>Assim como já havia acontecido na sua única apresentação no Rio (25 mil pessoas no Maracanãzinho) e nas outras capitais por onde já passou com este Festa do Interior, Gal lotou inteiramente os quatro mil lugares do Anhembi em todas as três apresentações do fim de semana passado – e certamente voltará a lotá-los neste agora e no próximo. Os ingressos são caros (o mais barato, que os jornais anunciaram ao preço de 500 cruzeiros, estava sendo vendido na última quinta-feira por 1.500 cruzeiros, não pelos cambistas, mas pela própria bilheteria do Anhembi); de poucos lugares se tem uma boa visão do palco; dezenas das cadeiras de couro do Palácio de Convenções do Anhembi foram destruídas, nos últimos meses, sendo substituídas por cadeiras duras, de plástico, mas altas do que as originais (tornando, assim, ainda mais difícil a visão do palco gigantesco); o sistema de som apresentou problemas graves na noite de estréia; em alguns momentos, os arranjos estridentes de Lincoln Olivetti quase encobrem a voz da estrela.</p>
<p>Apesar de tudo isso, no entanto, Gal faz lotar a nossa maior sala de espetáculos. E mais, muito mais que isso: deixa inegavelmente satisfeita à multidão que paga caro para vê-la. E faz os quatro mil espectadores de cada show ficarem de pé para dançar (ou simplesmente aplaudir) durante o festivo encerramento, que reúne quatro sucessos carnavalescos do repertório da cantora.</p>
<p>Todo o repertório do show, aliás, foi escolhido para isso: para obter uma resposta garantida da platéia. Não se ousou um milímetro, não se experimentou nada – não há muito lugar para ousadias e experiências em um espetáculo feito somente para grandes platéias (o Anhembi é o menor local em que o show se apresentará; nas outras cidades, são ginásios, ou teatros ainda maiores). Gal canta apenas o que o público quer ouvir – ou seja, músicas que as rádios mais tocaram de <em>Fantasia</em>, seu último LP, lançado em novembro passado, e outros sucessos anteriores. Na sua maioria, músicas rápidas, alegres, festivas, carnavalescas.</p>
<p>Já na terceira música que cantou, “Meu bem, meu mal” (Caetano Veloso), Gal pediu a participação do público: no refrão, afastava o microfone sem fio da boca e o colocava na direção da platéia, para ela cantasse em coro. Muita gente cantou junto, mas não chegou a ser uma reação impressionante. Quando, depois de “Açaí”, de Djavan, ela cantou dois frevos – “O bater do tambor”, de Caetano, e “Vassourinha elétrica”, de Moraes Moreira, e que ela não gravou em disco – boa parte da platéia ficou de pé, dançando e aplaudindo. Mas ainda sob os protestos da outra parte da platéia, que preferia ver o show sentada.</p>
<p>O momento de maior emoção, no entanto, viria depois dessa sessão de frevos, quando Gal homenageou nossa outra cantora maior, Elis Regina, e dedicou-lhe a música “Força estranha”. Gal precisou esperar um minuto inteiro de muito aplauso para poder começar a cantar. E a linda música que Caetano fez para Roberto Carlos ficou ainda mais linda, na voz brilhante de Gal, acompanhada, então, apenas por um violão e um baixo. E, infelizmente, também por um alto e insistente zumbido em uma das caixas de som à direita do palco, que começou já na terceira música e prolongou-se até o fim do show.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6003" title="zzgal1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzgal11.jpg" alt="" width="400" height="298" /></a>Igualmente emocionante foi a interpretação, a seguir, de “O amor”, que Gal gravou em <em>Fantasia</em> e que Elis planejava gravar no seu próximo disco. Depois dessas músicas mais lentas, a grande cantora deu lugar novamente à superstar, com o xaxado “Sebastiana” e o rock “Bem me quer, mal me quer”, com que homenageou essa “Maria-sem-vergonha do jardim da música popular brasileira”, Rita Lee.</p>
<p>Durante todos os 60 minutos e as 18 músicas do show, Gal, aos 36 anos, exibiu um vigor e uma garra dignos de uma adolescente: dançou, correu por todos os lados do palco, requebrou, exibiu as pernas deixadas à mostra pelo vestido aberto do lado, suou muito, encharcou o peito fartamente exibido pelo decote. Foi uma Gal já muito suada – mas sem dar mostras de cansaço – que chegou à apoteose final, sob uma chuva de confetes e serpentinas, para cantar, de um fôlego só, seus sucessos “Chuva, suor e cerveja”, “Massa real”, “Balance” e, obviamente, “Festa do interior”. A partir do primeiro destes quatro números finais, já não havia ninguém sentado no Anhembi. E a platéia continuaria de pé, dançando, até exigir que ela voltasse ao palco pra bisar “Festa do interior”. Gal Costa voltou com um rosto feliz, exuberante, seguro de si. Uma superstar. Merecidamente.</p>
<blockquote><p><em>Esta resenha foi publicada no </em>Jornal da Tarde<em>, em 12/3/1982, com o título “Afinadíssima, versátil, alegre: Gal, a nossa superstar”.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>De volta, o primeiro disco do mestre Vanzolini</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Dec 2011 02:25:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Está sendo relançado o disco Onze Sambas e uma Capoeira. Que maravilha. Nem só de tristes notícias vive este país. Onze Sambas e uma Capoeira é uma gema, uma pérola rara. Lançado em 1967, foi o primeiro disco só com obras de Paulo Vanzolini, esse extraordinário compositor paulista, paulistano, ele próprio uma avis rara, dublê [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Está sendo relançado o disco <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>. Que maravilha. Nem só de tristes notícias vive este país.<span id="more-5946"></span></p>
<p><em>Onze Sambas e uma Capoeira</em> é uma gema, uma pérola rara. Lançado em 1967, foi o primeiro disco só com obras de Paulo Vanzolini, esse extraordinário compositor paulista, paulistano, ele próprio uma avis rara, dublê de cientista e boêmio – doutorado em zoologia pela Universidade de Harvard, diretor do Museu de Zoologia da USP, alternava estudos de campo na Amazônia com noitadas sem fim na boate Jogral, no seu endereço original, na então descolada Galeria Metrópole, na Avenida São Luís com a Praça Dom José Gaspar, e depois no iniciozinho da Avanhandava.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze11.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5952" title="zzonze1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze11-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Sua canção <a href="http://www.youtube.com/watch?v=m1QOGybRmkQ&amp;feature=related">“Ronda”</a> – “de noite eu rondo a cidade a lhe procurar sem lhe encontrar”, “cena de sangue num bar da Avenida São João”, provavelmente o mais bem acabado retrato de uma São Paulo que, até então cidadezinha acanhada, virava veloz e vorazmente metrópole – foi composta em 1951, e gravada pela primeira vez em 1953, por Bola 7. Dez anos depois, em 1963, Noite Ilustrada transformou em sucesso nacional <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BI8dBBDL0CU">“Volta por cima”</a> – “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”.</p>
<p>As duas canções já famosas estão no disco <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>. “Ronda” é cantada por Cláudia Morena, e “Volta por cima”, por Mauricy Moura. Hoje, pouca gente deve se lembrar dos nomes desses cantores. Os outros intérpretes das 12 faixas são Adauto Santos, cantor extraordinário da noite paulistana, mas que nunca obteve grande sucesso nacional em disco, Luiz Carlos Paraná, o dono da boate Jogral, compositor também (é dele “Maria, Carnaval e Cinzas”, que Roberto Carlos cantou no festival da Record de 1967), Cristina, uma jovem então desconhecida, que mais tarde gravaria com o nome de Cristina Buarque, e um outro Buarque, irmão de Cristina, filho de Sérgio. Em 1967, o garoto Chico estava lançando seu segundo disco, e já era uma unanimidade nacional.</p>
<p>Se não estou muito enganado, as duas faixas que Chico Buarque de Hollanda canta em Onze Sambas e uma Capoeira foram as primeiras em que ele gravou músicas que não eram de sua própria autoria. Não é um cantor de gravar músicas dos outros – até porque durante muito tempo não foi considerado um bom cantor, embora seja, sim, um ótimo cantor. Só em Sinal Fechado, de 1974, faria um disco de composições dos outros – um trabalho que na verdade era um vigoroso protesto contra a censura da ditadura militar: como suas próprias canções não conseguiam passar pela censura, optou por fazer um disco quase inteiro com obras de outros. Quase inteiro, porque tinha uma, “Acorda, Amor”, que era Chico Buarque escarrado, embora creditada a um outro compositor, alter ego e criação dele próprio para driblar os censores, Julinho da Adelaide.</p>
<p>Em 1967 – exatamente como hoje, 2011, ano do relançamento de <em>Onze Sambas e Uma Capoeira</em> –, Chico era o mais famoso dos cantores reunidos para o primeiro disco só com canções de Paulo Vanzolini.</p>
<p>Minha idéia inicial, quando pensei em fazer este texto, era falar sobre “Praça Clóvis”. Mas não dá para não falar um pouco mais de <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma indústria que cresceu demais, ficou imbecil, e está morrendo de excesso de empáfia</strong></p>
<p>A indústria fonográfica é de uma burrice, de uma estupidez atroz.</p>
<p>Não é à toa que está acabando, estrebuchando, nesta era da internet, do download, da pirataria.</p>
<p>A indústria fonográfica foi, era (verbos no passado, já que hoje ela quase agoniza) cega, surda, muda, perdulária, cheia de si – idiota, estúpida.</p>
<p>Sempre apostou, investiu no certo, no que dava retorno imediato. Nunca, ou, no mínimo quase nunca, quis saber de riscos.</p>
<p>Construiu de imediato grandes, gigantescas, corporações. Pagava salários biliardários a executivos mal preparados para lidar com arte. Uma das corporações gigantescas, só para lembrar um exemplo, recusou-se a contratar uma bandinha iniciante, com um então estranho nome, The Beatles.</p>
<p>Não foi a internet que destruiu a indústria fonográfica tal como ela era conhecida até aí, digamos, a década de 1990: foi sua própria imbecilidade, sua cegueira, sua empáfia.</p>
<p>Mas peço perdão. Estou digressando.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não uma gravadora, mas um sujeito sensível, inteligente – Marcus Pereira</strong></p>
<p><em>Onze Sambas e uma Capoeira</em> não foi feito por uma gravadora, mas por um sujeito sensível, inteligente, que na época era dono de uma rentável agência de publicidade. Chamava-se Marcus Pereira, e é uma dessas pessoas para quem a gente tem que tirar o chapéu.</p>
<p>Se não estou muitíssimo me enganado, foi de Marcus Pereira a idéia de criar, como brinde de fim de ano para seus clientes, não uma besteirinha tipo caixa com uma garrafa champagne, ou qualquer outra coisa do gênero, mas um disco – único, especial, criação deles mesmos.</p>
<p>Com o nome de Discos Marcus Pereira, foram criados como brindes de fim de ano o primeiro disco de Renato Teixeira e o primeiro disco só com composições de Paulo Vanzolini.</p>
<p>Depois ficaram ainda mais ousados, ambiciosos, loucos, Marcus Pereira, o patrão, e seu braço direito, Aluízio Falcão: investiram uma grana preta (com um apoio da Finep) em pesquisa e criaram primeiro a série de quatro discos <em>Música Popular do Nordeste</em>, e depois a série do Norte, a do Sul, a do Sudeste. Cada série tinha quatro discos, e reunia gravações de artistas locais, originais, pouco conhecidos, com interpretações de artistas reconhecidos, famosos. São fantásticas pérolas: em um dos discos da Música Popular do Sul, por exemplo, há uma gravação original das primeiras décadas do século XX da canção folclórica gaúcha “Boi Barroso”, que se mistura a uma gravação feita especialmente para o disco por Elis Regina, com arranjo do Homem do Plá, o monstro Rogério Duprat. A série do Sudeste tem um então iniciante Renato Teixeira e a já gloriosa Nara Leão.</p>
<p>Pérolas, pérolas, pepitas de ouro.</p>
<p>No início da era do CD no Brasil, primeira metade dos anos 1990, a gravadora Copacabana lançou nos disquinhos digitais essas maravilhas.</p>
<p>Algumas delas começam a ser relançadas agora. Onze Sambas e Uma Capoeira está chegando às lojas pela Microservice, a empresa que durante uns 20 anos foi apenas a fabricante de CDs e DVDs para as gravadoras e distribuidoras de filmes. A Microservice licenciou o catálogo da antiga Copacabana, que inclui os discos lançados pela Marcus Pereira; teve a esperteza e a sorte de chamar como consultor na escolha do que será relançado o jornalista Eduardo Magossi, amante de música, conhecedor de discos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>12 belas canções com arranjos de um iniciante, um tal de Toquinho</strong></p>
<p>O disco que volta agora às lojas tem arranjos – ótimos – de um músico então iniciante, Antonio Pecci Filho, entre parênteses Toquinho. A produção é assinada por Luiz Carlos Paraná, e a direção de gravação é de Manoel Barenbein – um gênio, o cara que foi responsável por alguns dos melhores discos brasileiros dos anos 1960.</p>
<p>São 12 belas canções do cientista-boêmio – inclusive, como já foi dito, regravações das já então (em 1967, ano do lançamento original) muito famosas “Ronda” e “Volta por cima”.</p>
<p>Todas são ótimas. Mas, na minha opinião, as melhores faixas são “Chorava no meio da rua”, “Cravo Branco”, “Samba Erudito” e “Praça Clóvis”.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=6F45UcaFmaY">“Chorava no meio da rua”</a> é cantada pela então iniciante Cristina, depois Cristina Buarque. No ano seguinte, 1968, Cristina faria um dueto com o irmão no terceiro disco dele, na maravilhosa (mas o que esse cara faz, na música, que não é maravilhoso?) canção “Sem Fantasia” – uma das criadas para a peça <em>Roda Viva</em>, aquela que foi vítima do vandalismo dos garotões bem nutridos do CCC, comando de caça aos comunistas. Creio que esta faixa foi a primeira gravada por Cristina. É uma beleza.</p>
<p>Cristina era uma jovem, uma novata, inexperiente, com uma vozinha ainda não treinada – porém bela. Adauto Santos, muito ao contrário, era um veterano cantor da noite, um timbre forte, pessoal, uma interpretação segura. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=8wCIaKgXrhQ">“Cravo Branco”</a>, se não fosse uma canção, se fosse apenas texto, seria um conto de aplaudir de pé como na ópera. Dalton Trevisan, o vampiro curitibano que passa a vida tentando diminuir o número de palavras de seus contos já originalmente enxutos, que gostaria mesmo era de escrever hai-kais, deve se contorcer de inveja ao ouvir “Cravo Branco” – se é que o vampiro de Curitiba faz outra coisa na vida a não ser tentar reescrever enxugando seus próprios textos.</p>
<p>Minha idéia era falar da “Praça Clóvis”, mas não dá para resistir. Aí vai a letra de “Cravo Branco” – um conto perfeito, hemingwayiano, trevisaniano, um curta-metragem de gênio, se não fosse um perfeito samba sincopado vanzoliniano:</p>
<p><em>Saiu de casa de terno tropical,</em></p>
<p><em>Camisa creme, lenço e gravata igual,</em></p>
<p><em>Jantou e saiu satisfeito,</em></p>
<p><em>Pra antes da meia-noite,</em></p>
<p><em>Morrer com um tiro no peito.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ela lhe deu o cravo,</em></p>
<p><em>O outro se ofendeu,</em></p>
<p><em>Ele olhou no revólver,</em></p>
<p><em>Dava tempo e não correu,</em></p>
<p><em>Dobrou o joelho, desabou no chão,</em></p>
<p><em>Os olhos redondos,</em></p>
<p><em>E o cravo branco na mão,</em></p>
<p><em>Ai, o pobre, caído no chão,</em></p>
<p><em>De bruços no sangue,</em></p>
<p><em>Com o cravo branco na mão,</em></p>
<p><em>Com o cravo branco na mão.</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Ah, ma puta que o pariu, é genial demais. Martin Scorsese adoraria filmar aquela imagem: dobrou o joelho, desabou no chão, os olhos redondos e o cravo branco na mão.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Mas a água corre pro mar, jamais para o sertão, e as duas canções mais excepcionais foram reservadas para a voz de Chico Buarque, o único de todos aqueles artistas que já era famoso.</p>
<p>No LP, cada lado abria com Chico Buarque. O lado A abria com <a href="http://www.youtube.com/watch?v=oixH0mGPU_o">“Samba Erudito”</a>.</p>
<p>Não sei se Paulo Vanzolini, entre uma ida à Amazônia para observar bichos, entre um estudo e outro de ciência, de zootecnia, e as noitadas no Jogral com muita cachaça, tinha tempo para ouvir as letras da Grande Música Americana, aquelas letras cheias de belas, rebuscadas imagens, de gente do porte de Ira Gershwin e Cole Porter, que brincavam com as palavras do Webster Dictionary, que falavam que Gibraltar poderia virar pó, que tal coisa reunia mais drama do que qualquer peça teatral russa. Não sei, não dá pra saber. Mas tanto Ira quanto Cole seguramente gostariam de ter assinado uma letra que diz o seguinte:</p>
<p><em>Andei sobre as águas</em></p>
<p><em>Como São Pedro</em></p>
<p><em>Como Santos Dumont</em></p>
<p><em>Fui aos ares sem medo</em></p>
<p><em>Fui ao fundo do mar</em></p>
<p><em>Como o velho Picard</em></p>
<p><em>Só pra me exibir</em></p>
<p><em>Só pra te impressionar</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Fiz uma poesia</em></p>
<p><em>Como Olavo Bilac</em></p>
<p><em>Soltei filipeta</em></p>
<p><em>Pra te dar um Cadillac</em></p>
<p><em>Mas você nem ligou</em></p>
<p><em>Para tanta proeza</em></p>
<p><em>Põe um preço tão alto</em></p>
<p><em>Na sua beleza</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E então, como Churchill</em></p>
<p><em>Eu tentei outra vez</em></p>
<p><em>Você foi demais</em></p>
<p><em>Pra paciência do inglês</em></p>
<p><em>Aí, me curvei</em></p>
<p><em>Ante a força dos fatos</em></p>
<p><em>Lavei minhas mãos</em></p>
<p><em>Como Pôncio Pilatos</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Desculpem a repetição, mas, ah, puta que pariu, é genial demais. “Então como Churchill eu tentei outra vez, mas você foi demais pra paciência do inglês&#8230;” Ahhh, vai tomar&#8230;</p>
<p>Milton Nascimento ficou bravo porque Paul McCartney compôs “Ebony and Ivory”. Mirtão expôs sua braveza em “Certas Canções”, confessando, candidamente, maravilhosamente, sua inveja por não ter feito antes aqueles versos que Paul criou.</p>
<p>Não há ninguém que tenha na vida o ofício de mexer com palavras que possa não ter inveja de quem faz um texto como esse de Paulo Vanzolini.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Mas, para mim, a maior obra-prima, a maior expressão da genialidade de mestre Vanzolini é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=lBkCW2J9u1o">“Praça Clóvis”</a>.</p>
<p>E aí me permito mais uma pequena digressãozinha.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze3.png"><img class="alignleft size-full wp-image-5953" title="zzonze3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzonze3.png" alt="" width="573" height="409" /></a>A Praça Clóvis não existe mais. Minha filha, o melhor texto que eu jamais poderia ter escrito, trabalha hoje na João Mendes, logo atrás do que antes era a Praça Clóvis. Entre o Fórum João Mendes e o que antes era a Praça Clóvis fica o Tribunal de Justiça, onde a vi fazer a prova oral no concurso para a magistratura e depois, no mais nobre dos salões, assumir o cargo de juíza. Quando minha filha nasceu, paulistaníssima, a Praça Clóvis já não existia. Eu era um jornalista pouco mais que iniciante quando o Mendes Caldeira, predião de uns 20 andares, foi implodido, para que a Sé se unisse à Clóvis, formando a Praça da Sé tal qual ela é hoje, em cima da mais central estação de metrô de São Paulo. Fernanda nunca viu a Praça Clóvis, mas eu, imigrante pobre, a conheci, tal qual ela era – um grande terminal de ônibus, nervoso, agitado &#8211; na época em que Vanzolini a usou para compor esta maravilha:</p>
<p><em>Na Praça Clóvis</em></p>
<p><em>Minha carteira foi batida</em></p>
<p><em>Tinha vinte e cinco cruzeiros</em></p>
<p><em>E o teu retrato</em></p>
<p><em>Vinte e cinco</em></p>
<p><em>Francamente achei barato</em></p>
<p><em>Prá me livrarem</em></p>
<p><em>Do meu atraso de vida</em></p>
<p><em>Eu já devia ter rasgado e não podia</em></p>
<p><em>Esse retrato cujo olhar me maltratava e perseguia</em></p>
<p><em>Um dia veio o lanceiro</em></p>
<p><em>Naquele aperto de praça</em></p>
<p><em>Vinte e cinco, francamente, foi de graça</em></p>
<p>Na minha opinião, Paulo Vanzolini não precisaria ter feito mais nada na vida: só “Praça Clóvis” já teria assegurado para ele um lugar de honra na música brasileira. Na arte feita no Brasil. Na arte.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Depois de <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em></strong></p>
<p>Embora o parágrafo acima tenha sido escrito para encerrar o texto, é preciso registrar que o segundo disco só com composições de Paulo Vanzolini também foi uma produção da Discos Marcus Pereira. Chamou-se <em>A Música de Paulo Vanzolini</em>, foi produzido em 1974, com as vozes de Carmen Costa e Paulo Marquez. É também uma maravilha, uma preciosidade. A Copacabana lançou o disco em CD no início dos anos 90, como fez com <em>Onze Sambas e uma Capoeira</em>.</p>
<p>Em 2002, uma gravadora independente lançou uma caixa de quadro CDs, preciosíssima – <em>Acerto de Contas de Paulo Vanzolini</em>. Tem provavelmente toda, ou quase toda a obra desse mestre da canção brasileira, que infelizmente é muito menos conhecido do que qualquer dupla sertaneja surgida ano passado.</p>
<p>Essa que em 2002 era uma gravadora independente quase iniciante tem hoje, entre os artistas de seu cast, como se dizia antigamente, Chico Buarque, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Adriana Calcanhoto, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti. É a Biscoito Fino – a prova viva de que lançar discos e imbecilidade não precisam necessariamente andar juntas. É também, acho eu, a prova viva de que uma empresa brasileira bem gerida pode dar de dez a zero em multinacionais – e não é preciso de ajudinha do BNDES, nem ser amigo do rei de plantão. Mas isso é outra história.</p>
<p><em>Dezembro de 2011</em></p>
<blockquote><p><strong><em>Confissões, coisas bem pessoais</em></strong></p>
<p><em>Não tem interesse para ninguém, a não ser para mim mesmo, mas gostaria de anotar duas ou três coisinhas.</em></p>
<p><em>Não conheci O Jogral da Galeria Metrópole. Quando cheguei a São Paulo, no início de 1968, O Jogral já estava na Avanhandava. Caipira, interiorano, pobre, fui levado ao Jogral algumas vezes pela namorada de um amigo; me apaixonei por ela. Como poderia um caipira, interiorano, pobre, não se apaixonar por uma moça descolada, inteligente, bela, gostosa e rica da Grande Cidade?</em></p>
<p><em>Uns anos depois, no início dos anos 1970, fiz uns frilas para a Marcus Pereira Publicidade. Um ou dois, não me lembro exatamente o que – coisa menor, entrevistas para servir de base para os trabalhos deles. Só me lembro, vagamente, que a sede da empresa era, naquela época, numa casa de uma das ruazinhas cheias de curva do Pacaembu. Não me lembro quem me indicou, mas me lembro que quem falou comigo, me passou as pautas, foi Aluízio Falcão.</em></p>
<p><em>Voltei a me encontrar com ele no início dos anos 1980, quando ele era o diretor artístico do Estúdio Eldorado, uma aventura da Rádio Eldorado – e do Grupo Estado – na área fonográfica que produziu uma série de grandes, importantes discos. Naquela época, eu tinha dez anos de </em>Jornal da Tarde<em>, e começava a escrever resenhas de discos. Uma vez ouvi Aluízio Falcão dizer que gostava do que eu escrevia, porque, segundo ele, eu escrevia com amor à música. Foi um dos maiores elogios que tive na minha breve carreira como resenhista de discos.</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>A música em minha vida</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 18:08:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[A memória nos revela, como filme, pedaços esquecidos de nossa vida. Eu me vejo, calças curtas em Diamantina, saindo de um parque de diversões e o som da praça tocando uma canção de Luiz Vieira, “Menino de Braçanã”: “é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã; mamãe, quando eu saí, disse meu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A memória nos revela, como filme, pedaços esquecidos de nossa vida. Eu me vejo, calças curtas em Diamantina, saindo de um parque de diversões e o som da praça tocando uma canção de Luiz Vieira, “Menino de Braçanã”: “é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã; mamãe, quando eu saí, disse meu filho não demora em Braçanã”.<span id="more-5579"></span></p>
<p>Essa é uma característica da música, linguagem universal que é trilha sonora da existência de quase todo mundo. Mas existe gente, como o poeta João Cabral de Melo, que dizia detestar o que a tantos agrada.</p>
<p>Como não recordar a tristeza que senti ao pegar, junto com minha mãe e irmãos, o ônibus que nos traria definitivamente para Belo Horizonte? Ao longo das quase 12 horas de viagem por estrada de terra, eu vim cantando coisas que ouvia na Rádio Nacional. Especialmente uma ocupou o meu tempo, “Recuerdos de Ypacaray”: “una noche tíbia nos conocimos junto al lago azul de Ypacarai”.</p>
<p>Menino, eu chorava, mentalmente, a certeza de que estava perdendo algo valioso, aquela vida folgada de brincadeiras e amizades, em troca de outro ambiente que, por desconhecido, parecia-me assustador.</p>
<p>A realidade, porém, foi muito melhor do que eu esperava e logo eu já tinha novos amigos, novos jogos e outras canções. Encontrei aqui, nesta cidade, um belo horizonte. Correndo para cima e para baixo, nas ladeiras, atrás de bola, suando em busca de gols e vitórias nas peladas diárias, eu escutava o som que vinha das casas. Dorival Caymmi, violão e voz entoando sua saudade da Bahia.</p>
<p>Na trilha sonora pessoal nem sempre importa a qualidade do que ouvimos. Mais importante é o acontecimento, o fato, a situação que vivemos no momento em que a canção surge no ar. Não posso, por exemplo, ouvir “Call me” sem me lembrar de minha namorada e mulher. Era o que tocava no tempo de nossos primeiros encontros.</p>
<p>E assim, de música e com música eu vou vivendo. Se ela é vital para mim, sei que é indispensável para a maioria das pessoas. E eu fico chateado quando me deparo com grandes organizações, órgãos de comunicação que têm na música um elemento essencial para que produzam suas novelas, filmes e uma infinidade de programas de entretenimento, empresas que tiram daí seus lucros enormes e merecidos &#8211; não consigo entender que seja civilizado o fato de elas não pagarem o que lhes é cobrado por utilizarem o que não lhes pertence. Se não querem pagar, que não usem a criação, o talento e as vozes de compositores, cantores e músicos. Será que, sem música, teriam o público de hoje?</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em 25/10/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Nenhuma canção remou tanto contra a maré</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jul 2011 05:40:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[“Motherland” é uma canção maravilhosa, belíssima, apaixonante, emocionante. É uma dessas pérolas raras num mundo de fibra de vidro, para tomar emprestado de Dylan a imagem extraordinária. É uma dura crítica ao país da compositora, os Estados Unidos da América, o país que se tem, mais do que todos os outros, como a coisa mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Motherland” é uma canção maravilhosa, belíssima, apaixonante, emocionante. É uma dessas pérolas raras num mundo de fibra de vidro, para tomar emprestado de Dylan a imagem extraordinária.<span id="more-5047"></span></p>
<p>É uma dura crítica ao país da compositora, os Estados Unidos da América, o país que se tem, mais do que todos os outros, como a coisa mais gloriosa que já existiu no mundo.</p>
<p>Faz parte da história que todos os países se considerem a si próprios como a coisa mais gloriosa que já existiu no mundo. Uganda, ou o Paraguai, ou Zimbabue, todos eles se consideram a coisa mais gloriosa deste planeta que estamos todos destruindo. Mas, muito provavelmente pelo fato de que nenhum outro Império foi tão rico, e tão poderoso, quanto os Estados Unidos da América, os americanos se consideram o umbigo do mundo de uma forma que parece mais arrogante do que se consideraram, no passado, os mesopotâmios, os gregos, os romanos, os ingleses.</p>
<p>E então uma dura crítica ao Império, feita por uma cidadã do Império, soa como algo no mínimo estranho.</p>
<blockquote><p>(<a href="http://www.youtube.com/watch?v=A2JbLUVt0Z0">A mais bela intepretação que achei no YouTube.</a></p>
<p><a href="http://www.123video.nl/playvideos.asp?MovieID=602716">A gravação de estúdio.</a></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=UHlY7MbLzRs">A gravação de Joan Baez</a>.)</p></blockquote>
<p>E muito mais ainda quando a canção é lançada logo após o 11 de Setembro de 2001, o dia em que pela primeira vez na História o território americano sofreu um ataque inimigo. Tudo bem: tinha havido antes o ataque a Pearl Harbour, mas o Havaí fica um tanto longe da Motherland.</p>
<p>A primeira vez em que o território continental americano sofreu um ataque inimigo foi naquele 11 de setembro.</p>
<p>As coisas são relativas. Londres sofreu pesados bombardeios nazistas; Moscou havia sido invadida um século e meio antes pelas tropas de Napoleão, e boa parte da Mãe Rússia foi tomada pelas tropas nazistas; Hiroshima e Nagasaki tinham sido destruídas por bombas atômicas americanas em 1945; forças americanas já haviam invadido a Coréia, o Vietnã, a República Dominicana, já haviam dado suporte a golpes de estado pelo mundo afora, incluindo aí o Brasil e depois o Uruguai e o Chile. Mas o território continental americano jamais havia sofrido um ataque, até o 11 de Setembro de 2001.</p>
<p>E Natalie Merchant apresentou sua canção que é uma dura crítica ao país no exato momento em que, atacado, o país se mostrava mais avesso a qualquer crítica, se mostrava firme, fechado em si mesmo, querendo reagir com ferro e fogo contra os inimigos.</p>
<p>Poucas vezes terá havido uma canção remando tão vigorosamente contra o seu tempo do que “Motherland”.</p>
<p>Numa comparação canhestra, boba, cantar “Motherland” nos Estados Unidos pós o 11 de Setembro seria mais ou menos assim como gritar “FHC” num país em que mais de 84% achavam que Lula fazia uma maravilha de governo, e os políticos teoricamente próximos a FHC o negavam mais vezes que Judas negava Cristo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O crime inominável do anti-patriotismo</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zznatalie.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5055" title="zznatalie" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zznatalie.jpg" alt="" width="500" height="500" /></a>Parecia que Natalie Merchant estava sendo aquilo que ninguém perdoa nunca – impatriótica. Impatriótica, traidora de seu próprio país, de sua própria gente, sangue e alma.</p>
<p>Funciona assim, nas cabeças menores, canhestras – e para os políticos espertalhões que se aproveitam desse clima Fla x Flu, o nós contra eles. O país de Natalie Merchant já passou por isso algumas vezes. Nos anos 1920, a direita raivosa jogava a opinião pública contra os imigrantes (eles sempre fazem isso, ao longo de toda a História), e foi nesse contexto que Sacco e Vanzetti foram condenados à morte, embora não houvesse jamais prova material de que eles teriam de fato participado do assalto pelo qual foram acusados. A perseguição denegerada, a caça às bruxas dos anos 1920 reviveu com muito mais força no auge da guerra fria, nos anos 1950, quando a paranóia anticomunista levou à lista negra que proibiu de trabalhar dezenas, centenas de aristas.</p>
<p>É tudo tão repetitivo, tão cansativamente repetitivo, que dá preguiça. Quem se opõe a um governo de direita é tachado imediatamente de comunista; quem se opõe a um governo de esquerda é tido como fascista, reacionário, neoliberal.</p>
<p>São iguais, igualzinhos: detestam oposição.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>É uma queixa contra os valores básicos da sociedade americana</strong></p>
<p>“Motherland” não é propriamente uma canção que se opunha ao governo Bush, que, em reação aos ataques do 11 de setembro, inventaria desculpas para invadir o Iraque – embora o Iraque não tivesse nada a ver com os ataques de 11 de setembro.</p>
<p>“Motherland” não é sequer democrata – embora, pelamordedeus, também não seja republicana.</p>
<p>“Motherland” se queixa de que aquele país antes tão belo, tão verde, esteja agora sendo tomado pelo asfalto, pelo concreto, pelos amplos espaços dos estacionamentos junto dos centros de compras.</p>
<p>A queixa de Natalie Merchant que parecia uma simples reclamação contra o asfaltamento de grandes áreas dos Estados Unidos virou, dentro da nova realidade pós 11 de setembro, uma ameaça à segurança nacional.</p>
<p>Até porque, na verdade, a canção é bem mais que isso uma queixa contra o espalhamento dos malls, os centros de compras. Ela finge que é bobinha, específica na coisa do asfalto, e na verdade é muito mais ampla, é gigantesca: a rigor, para quem souber ouvir, ela questiona as bases, os fundamentos, os alicerces da sociedade construída a partir da competição, da briga para ver quem acumula mais dinheiro.</p>
<p>E, assim, de alguma forma, a canção que já era linda virou um hino – para o bem e para o mal.</p>
<p>Para as notas da coletânea que reuniria suas canções entre 1995 e 2005, Natalie Merchant escreveu o seguinte:</p>
<p>“Na manhã de 11 de setembro de 2001, ouvi o som de um avião voando excepcionalmente baixo sobre minha casa, e mencionei para o maquiador como aquilo era pouco usual. Estávamos no Norte do Estado de Nova York, fotografando para a capa do meu novo disco em pastagens, jardins, orquídeas. Era um belo início de um dia de outono. Não estávamos perto de um rádio ou uma TV. Não tínhamos idéia do caos e do horror ao Sul de nós, até que o celular tocou&#8230;</p>
<p>“Era uma época difícil para lançar um álbum como Motherland nos meses seguintes ao ataque terrorista. A nação não estava no clima para aquilo que eu antes considerava uma crítica saudável. Eu entendi, mas rapidamente fiquei sufocada por um clima que não permitia que as questões mais profundas e mais difíceis fossem perguntadas abertamente. Eu tinha escrito um disco que continha canções que perguntavam se tínhamos ficado avarentos e colocado nossa riqueza e conforto material acima de tudo. Iríamos envenenar a água que bebemos e o ar que respiramos para sustentar um estilo de vida ao qual havíamos nos acostumado? Iríamos negligenciar nosso lugar privilegiado no mundo entre os países mais ricos e poderosos, e moralmente obrigados a ser mais generosos? Teríamos menosprezado as nossas liberdades? Poderíamos ter esquecido de lembrar nossa própria história?”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>Levei dias para escrever esta pequena anotação. Como se a beleza de “Motherland” me deixasse com medo. Pedi ajuda a amigos que moram nos Estados Unidos, com medo de errar intepretações – quando em geral me sinto muito à vontade para fazer afirmações firmes a respeito de coisas que não conheço muito bem.</p>
<p>Enquanto relia o texto pela décima-oitava vez, nem sei se inseguro ou se gostando muito dele, e enquanto me ocorria o título “Nenhuma canção remou tanto contra a maré”, me lembrei de Dylan – como sempre.</p>
<p>Quando Bush pai atacou o Iraque, no início dos anos 90 (que tragédia grega perseguirá os Bush que os fazem atacar o Iraque a cada geração?), a indústria fonográfica americana resolveu dar a Bob Dylan uma homenagem daquelas pelo conjunto da obra. Eram os momentos do ataque, os momentos do patriotismo exacerbado; não me lembro dos números, mas o apoio ao ataque insano do Império contra o distante país era algo de fazer Lula ter inveja. Dylan entrou no palco da cerimônia da entrega dos Grammy, não falou uma única palavra, e atacou de “Masters of War”, uma das mais virulentas canções anti-guerra que já foram feitas.</p>
<p>Remar contra a maré. Ter a coragem de ir contra a maré.</p>
<p>O mundo seria muito menor se não tivesse um Bob Dylan, uma Nataltie Merchant.</p>
<blockquote><p><em><strong>Motherland</strong></em></p>
<p><em>Por Natalie Merchant</em></p>
<p><em>Where in hell can you go</em></p>
<p><em>Far from the things that you know</em></p>
<p><em>Far from the sprawl of concrete</em></p>
<p><em>That keeps crawling its way</em></p>
<p><em>About 1,000 miles a day?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Take one last look behind</em></p>
<p><em>Commit this to memory and mind</em></p>
<p><em>Don&#8217;t miss this wasteland, this terrible place</em></p>
<p><em>When you leave</em></p>
<p><em>Keep your heart off your sleeve</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Motherland cradle me</em></p>
<p><em>Close my eyes</em></p>
<p><em>Lullaby me to sleep</em></p>
<p><em>Keep me safe</em></p>
<p><em>Lie with me</em></p>
<p><em>Stay beside me</em></p>
<p><em>Don&#8217;t go, don&#8217;t you go</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>O, my five &amp; dime queen</em></p>
<p><em>Tell me what have you seen?</em></p>
<p><em>The lust and the avarice</em></p>
<p><em>The bottomless, the cavernous greed</em></p>
<p><em>Is that what you see?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Motherland cradle me</em></p>
<p><em>Close my eyes</em></p>
<p><em>Lullaby me to sleep</em></p>
<p><em>Keep me safe</em></p>
<p><em>Lie with me</em></p>
<p><em>Stay beside me</em></p>
<p><em>Don&#8217;t go</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>It&#8217;s your happiness I want most of all</em></p>
<p><em>And for that I&#8217;d do anything at all, o mercy me!</em></p>
<p><em>If you want the best of it or the most of all</em></p>
<p><em>If there&#8217;s anything I can do at all</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Now come on shot gun bride</em></p>
<p><em>What makes me envy your life?</em></p>
<p><em>Faceless, nameless, innocent, blameless and free,</em></p>
<p><em>What&#8217;s that like to be?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Motherland cradle me</em></p>
<p><em>Close my eyes</em></p>
<p><em>Lullaby me to sleep</em></p>
<p><em>Keep me safe</em></p>
<p><em>Lie with me</em></p>
<p><em>Stay beside me</em></p>
<p><em>Don&#8217;t go, don&#8217;t you go.</em></p>
<p><em>***</em></p>
<p><em>Não costumo fazer isso, mas aqui vou incluir uma tradução da letra. É uma tradução canhestra, como tudo que faço, mas acho que, neste caso específico, é necessário deixar, para o eventual leitor que não domine o inglês, o que essa moça extraordinária quis dizer.</em></p>
<p><em>Lá vai.</em></p>
<p><strong><em>Pátria mãe</em></strong></p>
<p><em>Onde diabos você pode ir</em></p>
<p><em>Longe das coisas que você conhece</em></p>
<p><em>Longe do crescimento do concreto</em></p>
<p><em>Que continua cavando seu caminho</em></p>
<p><em>Cerca de mil milhas por dia?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Dê uma última olhada pra trás</em></p>
<p><em>Empenhe isso na memória, na mente</em></p>
<p><em>Não perca essa vastidão à toa, esse lugar terrível</em></p>
<p><em>Quando você for embora</em></p>
<p><em>Abra seu curacao.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Terra mãe, me embale,</em></p>
<p><em>Feche meus olhos,</em></p>
<p><em>Me acalante até dormir.</em></p>
<p><em>Me guarde,</em></p>
<p><em>Se deite comigo,</em></p>
<p><em>Fique do meu lado,</em></p>
<p><em>Não vá embora.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ah, minha rainha das lojinhas baratas,</em></p>
<p><em>Me diga o que você viu.</em></p>
<p><em>A luxúria e a avareza,</em></p>
<p><em>O incompreensível, a ambição cavernosa –</em></p>
<p><em>É isso que você vê?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Terra mãe, me embale,</em></p>
<p><em>Feche meus olhos,</em></p>
<p><em>Me acalante até dormir.</em></p>
<p><em>Me guarde,</em></p>
<p><em>Se deite comigo,</em></p>
<p><em>Fique do meu lado,</em></p>
<p><em>Não vá embora.</em></p>
<p><em>É a sua alegria que eu quero acima de tudo</em></p>
<p><em>E por ela eu faria de tudo, tenha pena de mim.</em></p>
<p><em>Se você quiser o melhor ou a maior quantidade de tudo,</em></p>
<p><em>Se houver alguma coisa que eu possa fazer.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Mas venha cá, minha esposa comprada</em></p>
<p><em>O que me faz invejar sua vida?</em></p>
<p><em>Sem face, sem nome, inocente, sem acusação e livre</em></p>
<p><em>Que tal é ser assim?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Terra mãe, me embale,</em></p>
<p><em>Feche meus olhos,</em></p>
<p><em>Me acalante até dormir.</em></p>
<p><em>Me guarde,</em></p>
<p><em>Se deite comigo,</em></p>
<p><em>Fique do meu lado,</em></p>
<p><em>Não vá embora.</em></p>
<p>Julho de 2011</p></blockquote>
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		<title>Billy Blanco</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jul 2011 22:40:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Cresci ouvindo músicas brasileiras que entraram definitivamente em minha alma de menino e me acompanham até hoje. Canções e pessoas, naturalmente. Enquanto jogava bola na rua, suava no sobe e desce de nossas ladeiras, o olhar atento guardou muita coisa, mas os ouvidos também. Ouvir Caymmi, precoces cabelos brancos, sussurrando melodias maracangalhas e saudades da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cresci ouvindo músicas brasileiras que entraram definitivamente em minha alma de menino e me acompanham até hoje. Canções e pessoas, naturalmente.<span id="more-5032"></span> Enquanto jogava bola na rua, suava no sobe e desce de nossas ladeiras, o olhar atento guardou muita coisa, mas os ouvidos também. Ouvir Caymmi, precoces cabelos brancos, sussurrando melodias maracangalhas e saudades da Bahia, deve ter me ajudado muito em meu destino de palavras, minha sina musical. Dorival se foi e hoje estarei cantando coisas suas na praça da Liberdade.</p>
<p>Mas eu quero falar mesmo é de quem nos deixou na semana passada, o querido Billy Blanco. Eu ouvi Dolores Duran cantando a “Banca do Distinto”. Talvez eu ainda usasse calças curtas, e de cara me encantei com aquela reprimenda ácida a esse tipo de gente preconceituosa e metida a besta, “que não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho”, cujo destino é terminar com a terra por cima e na horizontal.</p>
<p>Cronista inspirado, cantou como poucos o Rio de Janeiro, sozinho ou com o mestre Jobim. Falou de amor, “eu pra você fui mais um, você foi tudo pra mim.” E inventaram a Teresa, que foi de um no inverno, de outro no verão, mas não era de ninguém, como cantaram Dick Farney e Lúcio Alves.</p>
<p>Ironizou todos os ridículos personagens de nossa vida social, nos anos 50 e 60 do século passado e que existem até hoje, por aí, nas festas e nas ruas, esses mocinhos bonitos que aceleram e matam no asfalto e se exibem nas colunas de jornais.</p>
<p>A obra do paraense Billy Blanco, “se a gente grande soubesse o que consegue a voz mansa”, está definitivamente guardada no que de melhor se fez em várias décadas, antes e depois da bossa nova. Sorrateiramente ele foi criando suas preciosidades que, simples e inteligentes, foram se aninhando nas lembranças dos brasileiros de bom gosto. São canções elaboradas, feitas daquele jeito descompromissado de quem não força a barra, simplesmente compõe o que sente, o que pensa, o que ama.</p>
<p>“Faço da minha tristeza um carnaval de beleza que noutras terras não tem. Toda riqueza do mundo não vale um terreiro onde faço meu samba com simplicidade, com as pastoras na rua, com um pedaço de lua e a palavra saudade”.</p>
<p>A história da música popular brasileira está repleta de gente assim. Criadores de belezas que amenizam a vida de todos. A música e a poesia de Billy ficam, como fica seu exemplo de batalhador pelos direitos dos autores.</p>
<p>Termino com outros versos-canção dele: “na vida há sempre um pedaço de saudade escondida num vulto de mulher; ninguém consegue escolher felicidade, porém aquela é a dor que a gente quer”.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em julho de 2011. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A briga lennonistas x macarthistas? Tô fora</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jun 2011 05:16:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O disco novo de Madeleine Peryroux, Standing on the Rooftop, de 2011, abre com uma música dos Beatles. A moça (e põe moça nisso: ela nasceu em 1973, três anos depois da separação do grupo) escolheu para abrir seu novo disco “Martha, My Dear”, assinada por Lennon-McCartney. Assinada por Lennon-McCartney, porque, como até cada tecla [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O disco novo de Madeleine Peryroux, <em>Standing on the Rooftop</em>, de 2011, abre com uma música dos Beatles. A moça (e põe moça nisso: ela nasceu em 1973, três anos depois da separação do grupo) escolheu para abrir seu novo disco <a href="http://www.youtube.com/watch?v=D-sm7lh5Bkg">“Martha, My Dear”</a>, assinada por Lennon-McCartney.<span id="more-4804"></span></p>
<p>Assinada por Lennon-McCartney, porque, como até cada tecla do meu toca-CD Denon sabe, os garotos tinham feito um pacto de assinar em conjunto suas canções, fossem feitas por Lennon, por McCartney, ou pelos dois juntos – assim como firmaram o mesmo pacto os jovens Roberto e Erasmo.</p>
<p>Mas, como até cada folha morta do Hyde Park ou do Ibirapuera está cansada de saber, “Martha, My Dear” é <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/nao-ha-fenomeno-no-mundo-como-paul-mccartney/">Paul McCartney</a> puro. Não tem absolutamente nada de <a href="http://50anosdetextos.com.br/1990/john-no-ceu-com-diamantes/">John Lennon</a>.</p>
<p>A rigor, não houve nenhuma canção Lennon-McCartney depois de <em>Rubber Soul</em>, que é de 1965. Houve canções de John Lennon e canções de Paul McCartney, assinadas como Lennon-McCartney.</p>
<p>Então, voltando ao início, temos que Madeleine Peyrox escolheu para abrir seu disco novo uma canção de Paul McCartney.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmade.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4808" title="zmade" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmade.jpg" alt="" width="236" height="236" /></a>Madeleine Peyroux é uma figura. Para começar, nasceu em Atenas, Grécia, com esse nome francês. Seu timbre vocal faz lembrar ninguém menos do que Billie Holiday, a mais deusa de todas as deusas do jazz, mais ainda que a mais perfeita Ella Fitzgerald. Ao contrário de Billie Holiday, que sofreu demais por ser negra e feia e dedicar-se à heroína, Madeleine Peyroux, branca e bela, tadinha, ao contrário das Amy Winehouse e Lady Gaga de sua época, optou por não industrializar a feiúra, a repelência, o nojo. Optou por cantar bem, pra ver no que dava.</p>
<p>E, quando escolhe o que vai cantar, além dos grandes standards, das pérolas da Grande Música Americana, opta por Paul McCartney.</p>
<p>Não só Paul McCartney, é claro. Madeleine Peyroux é uma jovem (que pena, nestes tempos das cotas, dos privilégios, que ela seja branca, e linda, e não drogada) que, quando não canta os velhos clássicos, canta Leonard Cohen, Tom Waits, Serge Gainsburg, Bob Dylan, Joni Mitchell.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Bem, mas e vai daí?</p>
<p>Vai daí nada.</p>
<p>Longe de mim querer entrar na briga lennonistas x macarthistas. De forma alguma quero entrar nessa briga Fla-Flu, quem seria melhor, maior, Paul ou John. De jeito nenhum.</p>
<p>Este post aqui não pretende dar opinião alguma. Só resolvi fazer este post para lembrar fatos.</p>
<p>Em 2011, Madeleine Peyroux abriu seu disco com uma canção de Paul McCartney.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmeet.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-4809" title="zmeet" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmeet-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Em 1998, John Pizzarelli gravou um disco só com canções dos Beatles, <em>Meet The Beatles</em>. Das 12 músicas que ele escolheu, uma é de George Harrison, “Here Comes the Sun”. Uma é mais Lennon que McCartney, “You’ve got to hide your love away”. Uma é Lennon-McCartney, “Things we said today”. As demais nove músicas são de Paul McCartney: “Can’t buy me love”, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=87VmMmfW65I">“I’ve just seen a face”</a>, “Eleanor Rigby”, “And I love her”, “When I’m 64”, “Oh Darling”, “Get back”, “Long and winding road”, “For no one”.</p>
<p>Em 2003, outra jazzista, Connie Evingson, gravou seu tributo ao conjunto, o belo disco <em>Let it be jazz: Connie Evingson sings The Beatles</em>. Das 13 canções, duas podem ser atribuídas a Lennon-McCartney: “Wait” e “From me to you”. As outras 11 são de Paul McCartney: “Blackbird”, “Can’t buy me love”, “Fixing a Hole”, “When I’m 64”, “I’m looking through you”, “For no one”, “I Will”, “Oh darling”, “Got to get you into my life”, “Good day sunshine”.</p>
<p>Voltando mais no tempo:</p>
<p>Em 1983, a grande Sarah Vaughn fez seu álbum de tributo aos  Beatles. Gravou um George Harrison (“Something”), dois John Lennon (“Come together” e “I want you (she’s so heavy)”) e dez Paul McCartney (“Get back”, “Eleanor Rigby”, “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=DTXDb4ksvsY">The Fool on the Hill”</a>, “You never give me your money”, “Blackbird”, “Here, there and everywhere”, “The long and winding road”, “Yesterday”, “Hey Jude”).</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Insisto: longe de mim querer entrar na briga entre lennonistas e macarthistas. Tô fora deste fogo cruzado.</p>
<p>Eu, hein? Não sou doido, nem nada&#8230;</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Sobre <em>Standing on the Rooftop</em>, o disco de Madeleine Peyroux, posso dizer pouco. Estou ainda começando a ouvir. Comprei agora no domingo, na Clássicos, excelente loja de discos e filmes da Sala São Paulo, essa magnífica criação de Mario Covas, onde Mary e eu fomos para, junto com mais umas 1.500 pessoas, ouvir um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (uma suíte de Alberto Nepomuceno, belíssima, que me surpreendeu, e a Sinfonia nº 4 de Mendelssohn), e depois, junto com a Osesp e as 1.500 pessoas, cantar, com a maior alegria, parabéns a você para Fernando Henrique Cardoso.</p>
<p>Não que isso indique que tomei partido, que fiz uma opção política. Não sou lennonista nem macarthista, nem tucano nem petista – como este site muito bem prova.</p>
<blockquote><p><em>Junho de 2010</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Mr. Bojangles, dance!</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jun 2011 04:00:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe apenas uma música que não de autoria de Bob Dylan que ele e Nina Simone gravaram. Só por isso – o fato de que esta exata música tenha sido a única gravada tanto pelo mais extraordinário compositor quanto pela mais extraordinária cantora do século XX – torna &#8220;Mr. Bojangles&#8221; uma canção absolutamente especial. Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existe apenas uma música que não de autoria de Bob Dylan que ele e <a href="http://www.youtube.com/watch?v=tJs3ooeQDYY">Nina Simone</a> gravaram. Só por isso – o fato de que esta exata música tenha sido a única gravada tanto pelo mais extraordinário compositor quanto pela mais extraordinária cantora do século XX – torna &#8220;Mr. Bojangles&#8221; uma canção absolutamente especial.<span id="more-4734"></span></p>
<p>Mas tem mais. Bob Fosse coreografou &#8220;Mr. Bojangles&#8221;.</p>
<p>&#8220;Mr. Bojangles&#8221; é a única canção que jamais uniu Bob Dylan, Nina Simone e Bob Fosse – três gênios absolutos, dos maiores que já houve.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Para muitos estilos</strong></p>
<p>&#8220;Mr. Bojangles&#8221; foi gravada por muita gente, de diversos estilos. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iB2KRRUflgw">Robbie Williams</a>, o cantor inglês, fez uma versão gingada, um tanto teatral, algo vaudeville antigo – e, ao vivo, apresentou um sapatadeor, sensacional, maravilhoso. A brasileira Jane Duboc gravou num jeito que queria ser alegre, brejeiro. O veterano, venerando guitarrista <a href="http://www.youtube.com/watch?v=vQC-mZivibQ">Chet Atkins</a> fez uma gravação esplêndida da canção. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=5voM2HExV_Q">Sammy Davis Jr</a>, feio, preto e judeu de fé quando ainda não havia o politicamente correto, showman como poucos que já passaram por este planeta, cantava magnificamente a canção nos grandes cassinos de Las Vegas. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Av87NkIjceE">Neil Diamond</a> gravou no auge de seu sucesso.</p>
<p>Grandes artistas adoram &#8220;Mr. Bojangles&#8221;, cantam &#8220;Mr. Bojangles&#8221;. Mas a canção nunca foi propriamente um imenso sucesso popular. Ou, no mínimo, não é uma daquelas canções que ficaram como os grandes clássicos populares.</p>
<p>Consulto um velhíssimo – mas absolutamente confiável – alfarrábio, <em>The Billboard Book of US Top 40 Hits</em>: &#8220;Mr. Bojangles&#8221;, com <a href="http://www.youtube.com/watch?v=bAkhyks0uRs">Nitty Gritty Dirt Band</a>, ficou 13 semanas entre os 40 discos mais vendidos nos Estados Unidos em 1971, e chegou ao sexto lugar. A Nitty Gritty Dirt Band, uma banda texana que transitava entre o folk e o country, foi provavelmente o primeiro grupo a fazer um cover da canção escrita por J.J. Walker, Jerry Jeff Walker. Esse senhor, J.J. Walker, na verdade Ronald Clyde Crosby, mesmo tendo feito sua carreira no Texas, nasceu no Estado de Nova York, em 1942 – um ano depois de Bob Dylan e Joan Baez. Fez um monte de coisa na vida, mas – fazer o quê? – ficaria para sempre conhecido, entre os aficionados, como o autor de &#8220;Mr. Bojangles&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> A quebra do dique que separava as pessoas pela sua cor de pele</strong></p>
<p>Até uns 50 anos atrás, a música americana era segregada como eram segregados o Sul dos Estados Unidos, a África do Sul, com leis severas contra a mistura entre a música “negra” e a “branca”. As paradas de sucesso subdividiam os gêneros musicais, que deveriam ser como água e óleo, não se misturando nunca, jamais. Abençoadamente, o rock’n’roll iria romper esses diques raciais, na metade dos anos 50, unindo os brancos Elvis, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, ao som dos negros Chuck Berry, Little Richards.</p>
<p>De alguma forma, &#8220;Mr. Bojangles&#8221; tem a ver com essa história, o rompimento da segregação, a quebra do dique que separava as pessoas pela cor de sua pele.</p>
<p>Não é nada à toa que Bob Fosse tenha incluído a música em um de seus shows mais famosos. Bob Fosse, como mostram todos os seus filmes, dedicou o melhor de seu talento a combater os preconceitos – contra raça, contra o tipo de arte que se faz.</p>
<p>Mr. Bojangles é tudo isso: um hino à mistura, às misturas. À falta de supremacia.</p>
<blockquote><p><em>Junho de 2011</em></p>
<p><strong><em>Mr. Bojangles</em></strong></p>
<p><em>(J.J. Walker)</em></p>
<p><em>I knew a man Bojangles and he&#8217;d dance for you</em></p>
<p><em>In worn out shoes</em></p>
<p><em>With silver hair, a ragged shirt, and baggy pants</em></p>
<p><em>The old soft shoe</em></p>
<p><em>He jumped so high, jumped so high</em></p>
<p><em>Then he lightly touched down</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I met him in a cell in New Orleans I was down and out</em></p>
<p><em>He looked to me to be the eyes of age</em></p>
<p><em>as he spoke right out</em></p>
<p><em>He talked of life, talked of life, he laughed clicked his heels and stepped</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>He said his name &#8220;Bojangles&#8221; and he danced a lick across the cell</em></p>
<p><em>He grabbed his pants and spread his stance,</em></p>
<p><em>Oh he jumped so high and then he clicked his heels</em></p>
<p><em>He let go a laugh, let go a laugh</em></p>
<p><em>and shook back his clothes all around</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Mr. Bojangles, Mr. Bojangles</em></p>
<p><em>Mr. Bojangles, dance</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>He danced for those at minstrel shows and county fairs throughout the south</em></p>
<p><em>He spoke through tears of 15 years how his dog and him traveled about</em></p>
<p><em>The dog up and died, he up and died</em></p>
<p><em>And after 20 years he still grieves</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>He said I dance now at every chance in honky tonks for drinks and tips</em></p>
<p><em>But most the time I spend behind these county bars &#8217;cause I drinks a bit</em></p>
<p><em>He shook his head, and as he shook his head</em></p>
<p><em>I heard someone ask him please</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Mr. Bojangles, Mr. Bojangles</em></p>
<p><em>Mr. Bojangles, dance.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O clipe mais emocionante da história</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 19:55:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[É emocionante, é de arrepiar, de fazer os olhos marejar. Há muito tempo eu não via uma coisa tão absolutamente emocionante. Não deixem de ver o clipe de quase dez minutos em que uma cidade inteira se une para cantar “American Pie”, do grande (e muito menos conhecido do que deveria) Don McLean. http://www.youtube.com/watch?v=ZPjjZCO67WI É [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É emocionante, é de arrepiar, de fazer os olhos marejar. Há muito tempo eu não via uma coisa tão absolutamente emocionante.<span id="more-4636"></span></p>
<p>Não deixem de ver o clipe de quase dez minutos em que uma cidade inteira se une para cantar “American Pie”, do grande (e muito menos conhecido do que deveria) Don McLean.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZPjjZCO67WI">http://www.youtube.com/watch?v=ZPjjZCO67WI</a></p>
<p>É &#8211; como me disse Mary agorinha, ao telefone, depois que viu o clipe e parou o Escritório para todo mundo ver e se emocionar &#8211; uma daquelas coisas que fazem a gente acreditar que a humanidade talvez não seja, afinal de contas, uma invenção que deu errado.</p>
<p>Sob o impacto do clipe, resolvi escrever alguma coisa aqui sobre&#8230; Sei lá: sobre &#8220;American Pie&#8221;.</p>
<p>Fiquei sabendo a existência do clipe agora há pouco, por uma mensagem do meu amigo Elói Gertel, em que ele transcreve uma informação dada pelo Kibe Loco:</p>
<p><em>A história é a seguinte: um artigo da revista “Newsweek”, uma das mais famosas do mundo, classificou a cidade americana de Grand Rapids, no Michigan, de “moribunda”.</em></p>
<p><em>Revoltados, moradores e autoridades da cidade se mobilizaram e, em vez de apelar aos tribunais, recorreram à… música. Isso mesmo! Música.</em></p>
<p><em>No último dia 22, a cidade parou (literalmente) para gravar um clipe da música “American Pie”, de Don McLean. Entre bandas, desfiles, carreatas, efeitos especiais, helicópteros e até um casamento, 5 mil pessoas foram envolvidas.</em></p>
<p><em>O resultado foi uma resposta à altura e um filme que críticos americanos já estão considerando como “o maior clipe de todos os tempos”…</em></p>
<p>É um show – de civilidade, de força política, de vontade, de determinação. E de cinema: é tudo um único plano-seqüência! É de deixar Brian De Palma babando de inveja.</p>
<p>E justamente Grand Rapids, a cidade em que viveu, durante seis meses, num desses intercâmbios culturais, minha sobrinha torta Rejane, gracinha de pessoa, sobrinha da Mary.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma maravilha de canção, o hino de uma geração</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/pie.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4654" title="pie" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/pie-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Muito provavelmente eu não estaria tão emocionado se fosse outra a música que os habitantes de Grand Rapids tivessem escolhido. “American Pie” é uma das minhas canções favoritas. Foi lançada primeiro em compacto, em 1971, mas era tão longa &#8211; 8m37s &#8211; que teve que ser dividida em duas partes, ocupando os dois lados do disco. Depois seria a faixa-título do LP do cantor e compositor daquele ano. São dez faixas, apenas &#8211; todas ótimas. O compacto ficou 17 semanas na lista dos mais vendidos da Billboard &#8211; e, durante quatro semanas, no primeiro lugar.</p>
<p>Em 2000, Madonna gravaria a música, para a trilha sonora de seu filme <em>The Next Best Thing, </em>no Brasil<em> Sobrou Pra Você</em>. É uma gravação boazinha &#8211; embora a estrela tenha cometido o sacrilégio de cortar fora várias estrofes da canção.</p>
<p>O dia em que a música morreu, para Don McLean, foi o dia em que ele soube que Buddy Holly tinha morrido, num acidente de avião, no dia 3 de fevereiro de 1959, aos 23 anos de idade.</p>
<p>&#8220;That will be the day that I die&#8221;, que McLean repete, é uma citação direta de uma das diversas belas, inocentes, juvenis, maravilhosas canções compostas por Buddy Holly em sua passagem rápida pela Terra, “That&#8217;ll be the day”.</p>
<p>Buddy Holly influenciou meio mundo que veio depois. Ele está na trilha sonora de American Graffiti, que George Lucas fez em 1973, em homenagem aos anos 50 de sua juventude. Francis Ford Coppola o homenagearia com o filme <em>Peggy Sue Got Married</em> &#8211; o mesmo título de uma música de Buddy Holly. O filme, de  1986, com uma Kathleen Turner deslumbrante e um Nicolas Cage bebê, no Brasil se chamou <em>Peggy Sue, Seu Passado a Espera</em>.</p>
<p>Os Beatles gravaram uma de suas músicas, &#8220;Words of Love&#8221;, no disco de 1964, <em>Beatles For Sale</em> &#8211; e é um cover literal, é a reprodução idêntica da interpretação de Buddy Holly, exatamente a mesmo entonação de voz, os mesmos acordes da guitarra. O conjunto de Buddy Holly chamava-se The Crickets &#8211; os grilos. Como todos sabem, beetle é besouro e Beatle é uma genial sacada que mistura beetle com o beat, batida. Os grilos, Texas, anos 50, os besouros, Inglaterra, começo dos 60.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Don McLean homenageia Buddy Holly &#8211; assim como Coppola, os Beatles, Paul Simon&#8230;</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/buddy.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4655" title="buddy" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/buddy.jpg" alt="" width="252" height="300" /></a>Paul McCartney é tão apaixonado por Buddy Holly que comprou os direitos das músicas do jovem músico texano, para administrá-los em sua empresa, a MPL Communications, Ltd. Mais tarde os direitos das músicas dos Beatles seriam comprados por Michael Jackson. E Paul Simon falaria disso tudo em uma beleza de canção, &#8220;Old&#8221;, em seu disco de 2000, <em>You&#8217;re the one</em>:</p>
<p><em>The first time I heard &#8220;Peggy Sue&#8221;</em></p>
<p><em>I was 12 years old</em></p>
<p><em>Russians up in rocket ships</em></p>
<p><em>And the war was cold</em></p>
<p><em>Now many wars have come and gone</em></p>
<p><em>Genocide still goes on</em></p>
<p><em>Buddy Holly still goes on</em></p>
<p><em>But his catalog was sold</em></p>
<p>A primeira vez que Simon ouviu &#8220;Peggy Sue&#8221;, tinha 12 anos, e a guerra era fria; muitas guerras vieram e se foram, o genocídio continua, Buddy Holly ainda está aí, mas seu catálogo foi vendido.</p>
<p>Acho uma delícia essa coisa das homenagens de artistas a outros artistas. E &#8220;American Pie&#8221;, um hino de amor ao rock&#8217;n'roll de Buddy Holly, é cheia de citações a músicos, atores &#8211; &#8220;o casaco que ele tomou emprestado de James Dean&#8221;. E em torno da música formou-se um mundo de citações e coincidências, um novelo fascinante, que tenho vontade de juntar aqui nestas mal traçadas, minutos depois de rever pela segunda ou terceira vez o clipe que o povo de Grand Rapids fez como desagravo à <em>Newsweek</em>.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/time.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4656" title="time" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/time-227x300.jpg" alt="" width="227" height="300" /></a>Uma dessas coincidências é fascinante: em dezembro de 1980, quando John Lennon foi assassinado, a <em>Newsweek</em> fez uma capa brilhante, uma bela foto de John em preto-e-branco, o nome dele, as duas datas, 1940-1980. A <em>Time</em>, a rival que a <em>Newsweek</em> nunca conseguiu suplantar, deu na capa um desenho colorido de John, com o título  &#8220;When the Music Died&#8221;.</p>
<p>A rival da <em>Newsweek</em> usou a frase de &#8220;American Pie&#8221; para homenagear John Lennon! E agora, em 2011, a <em>Newsweek</em> chamou Grand Rapids de &#8220;moribunda&#8221;, provocando essa reação espetacular de toda a cidade, usando exatamente a mesma música! (A memória me traiu: achei que a frase &#8220;When the Music Died&#8221; tivesse sido usada pela <em>Newsweek</em>, o que seria mais fascinante ainda. Mas não: foi a <em>Time</em>.)</p>
<p>Homenagens, coincidências. Uma das canções mais conhecidas de Roberta Flack, a cantora negra de voz mais branca que há, &#8220;Killing me Softly With His Song&#8221;, composta por Charles Fox e Norman Gimbel (sim, ele mesmo, um dos americanos que fizeram versões de clássicos da bossa nova para o inglês), é uma homenagem a Don McLean. O cara que canta e revela o que a narradora está pensando, está sentindo, é Don McLean. A canção, Don McLean, e de quebra Buddy Holly, seriam homenageados na gostosa comédia <em>About a Boy</em>, no Brasil <em>Um Grande Garoto</em>, com Hugh Grant, Toni Collette e Rachel Weisz, baseado em livro de Nick Hornby.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Releve-se o tom patrioteiro &#8211; é uma beleza de canção</strong></p>
<p>Há um tom patrioteiro um tanto bobo, um tanto juvenil, na letra que Don McLean escreveu – de revolta contra a invasão do rock britânico, Beatles, Rolling Stones. Mas a beleza da música é tão fabulosa que dá pra gente esquecer essa coisa patrioteira. Don McLean fez o hino de uma época, de uma geração, de uma nação.</p>
<p>A letra está coalhada de belíssimas imagens, de sacadas poéticas – &#8220;Uma geração perdida no espaço&#8221;. “Vi Satã rir de felicidade no dia em que a música morreu.” “Você escreveu o Livro do Amor? Tem fé no Deus lá em cima? Você acredita em rock’n’roll? Acha que ele pode salvar sua alma? Você pode me ensinar a dançar bem devagarinho?” &#8220;E enquanto Lennon lia um livro de Marx, o quarteto ensaiva no parque e nós cantávamos cânticos fúnebres no escuro no dia em que a música morreu.&#8221; &#8220;E enquanto eu o observava no palco, minhas mãos estavam cerradas com raiva. Nenhum anjo nascido no inferno poderia quebrar aquele encanto de Satã.&#8221; &#8220;E nas ruas as crianças gritavam, os amantes choravam e os poetas sonhavam, mas nenhuma palavra era dita. Os sinos da igreja estavam todos quebrados. E os três homens que eu mais admirava, o pai, o filho e o Espírito Santo, pegaram o último trem para o litoral no dia em que a música morreu.&#8221;</p>
<p>Aliás, o garoto que canta esse verso acima, no clipe, trocou &#8220;o último trem&#8221; por &#8220;o último ônibus&#8221;.</p>
<p>A íntegra da letra vai mais abaixo. Mas antes gostaria de dar alguns endereços de clipes interessantes. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=VsZFiMo8TIc">The Meaning of American Pie</a>, maravilhoso, vai explicando tudo o que diz a letra, dando todas as informações históricas, com belas imagens, a partir dos destroços do avião em que Buddy Holly morreu.</p>
<p>Há uma gravação de imagens que deve ser raríssima de Buddy Holly e The Crickets em 1957, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=MDcLtiCgAG8">cantando &#8220;That&#8217;ll be the day&#8221;</a>, muito provavelmente num programa de televisão.</p>
<p>O YouTube tem <a href="http://www.youtube.com/watch?v=vEMnnyYUE7g">John Lennon cantando algumas músicas do repertório de Buddy Holly</a>, a começar por &#8220;Peggy Sue&#8221;, a primeira das duas canções de Buddy Holly sobre a personagem que inspiraria Francis Ford Coppola a fazer seu filme. A segunda canção é a que daria o nome ao filme, &#8220;Peggy Sue got married&#8221;. Esse clipe não tem imagens em movimento, só fotos &#8211; e inclui a voz chata da Yoko. Muito melhor é o clipe de 1975 em que <a href="http://www.youtube.com/watch?v=bTAta1y7dIo&amp;feature=related">Paul McCartney canta a mesma &#8220;Peggy Sue&#8221;</a>, imitando a voz de Buddy Holly. E há ainda um clipe de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZRAv-7P0YKo&amp;NR=1">Paul cantando &#8220;Words of love&#8221;</a>, em 1985, com aquele jeitinho dele de quem não quer nada.</p>
<p>Como diz Paul Simon, o gênio: Buddy Holly continua aí.</p>
<p>O <a href="http://www.youtube.com/watch?v=gkvpuOebd88&amp;NR=1">clipe de Madonna</a> é de extrema competência.</p>
<p>Bem, e tem &#8220;Killing me softly with his songs&#8221;, com mil versões diferentes no YouTube. Há <a href="http://www.youtube.com/watch?v=O1eOsMc2Fgg&amp;feature=related">um clipe com belíssimas fotos</a> em preto-e-branco e a gravação original em estúdio feita por Roberta Flack &#8211; linda, maravilhosa. Há uma <a href="http://www.dailymotion.com/video/xcz2vu_roberta-flack-killingme-softly-with_music">apresentação de Roberta ao piano</a>, com estranhas legendas em japonês &#8211; uma absoluta maravilha: ela passa realmente a impressão de que o cantor a estava matando suavemente com suas canções, como se ele a conhecesse no seu mais negro desespero, como se ele estivesse lendo as cartas secretas dela, diante do auditório.</p>
<p>E aí, já que cheguei até aqui, me permito uma viagem no politicamente incorreto. Por que seá que todo mundo se desbunda diante de Janis Joplin, e agora diante de Joss Stone, porque elas são brancas com voz de negra, e não se deslumbra que a negrérrima, maravilhosamente negra Roberta Flack tenha voz de branca?</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/rapids.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4673" title="rapids" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/rapids.jpg" alt="" width="380" height="253" /></a>Seguramente haverá muita gente &#8211; os que se dizem progressistas, politicamente corretos &#8211; que dirá que o clipe-happening de Grand Rapids é mais um exemplo dos males do capitalismo, do imperialismo que tem que ser derrotado a todo custo. Exatamente as mesmas pessoas, do mesmo tipo de cabeça, que comemoraram quando três mil inocentes foram mortas nos ataques terroristas às Torres Gêmeas.</p>
<p>Tá bom, esse tipo de gente existe. Mas o que o clipe de Grand Rapids significa é que, apesar de haver esse tipo de gente, ainda há esperança para a humanidade.</p>
<p>E fico imaginando o que Don McLean deve ter sentido ao ver este clipe.</p>
<p>Aí vai a letra:</p>
<p><strong>American Pie</strong></p>
<p><em>A long, long time ago&#8230;</em></p>
<p><em>I can still remember</em></p>
<p><em>How that music used to make me smile.</em></p>
<p><em>And I knew if I had my chance</em></p>
<p><em>That I could make those people dance</em></p>
<p><em>And, maybe, they’d be happy for a while.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>But february made me shiver</em></p>
<p><em>With every paper I’d deliver.</em></p>
<p><em>Bad news on the doorstep;</em></p>
<p><em>I couldn’t take one more step.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I can’t remember if I cried</em></p>
<p><em>When I read about his widowed bride,</em></p>
<p><em>But something touched me deep inside</em></p>
<p><em>The day the music died.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>So bye-bye, miss american pie.</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>Singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.</em></p>
<p><em>&#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Did you write the book of love,</em></p>
<p><em>And do you have faith in God above,</em></p>
<p><em>If the Bible tells you so?</em></p>
<p><em>Do you believe in rock ’n roll,</em></p>
<p><em>Can music save your mortal soul,</em></p>
<p><em>And can you teach me how to dance real slow?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Well, I know that you’re in love with him</em></p>
<p><em>`cause I saw you dancin’ in the gym.</em></p>
<p><em>You both kicked off your shoes.</em></p>
<p><em>Man, I dig those rhythm and blues.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I was a lonely teenage broncin’ buck</em></p>
<p><em>With a pink carnation and a pickup truck,</em></p>
<p><em>But I knew I was out of luck</em></p>
<p><em>The day the music died.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I started singin’,</em></p>
<p><em>&#8220;bye-bye, miss american pie.&#8221;</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>And singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.</em></p>
<p><em>&#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Now for ten years we’ve been on our own</em></p>
<p><em>And moss grows fat on a rollin’ stone,</em></p>
<p><em>But that’s not how it used to be.</em></p>
<p><em>When the jester sang for the king and queen,</em></p>
<p><em>In a coat he borrowed from james dean</em></p>
<p><em>And a voice that came from you and me,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Oh, and while the king was looking down,</em></p>
<p><em>The jester stole his thorny crown.</em></p>
<p><em>The courtroom was adjourned;</em></p>
<p><em>No verdict was returned.</em></p>
<p><em>And while lennon read a book of marx,</em></p>
<p><em>The quartet practiced in the park,</em></p>
<p><em>And we sang dirges in the dark</em></p>
<p><em>The day the music died.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>We were singing,</em></p>
<p><em>&#8220;bye-bye, miss american pie.&#8221;</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>And singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.</em></p>
<p><em>&#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Helter skelter in a summer swelter.</em></p>
<p><em>The birds flew off with a fallout shelter,</em></p>
<p><em>Eight miles high and falling fast.</em></p>
<p><em>It landed foul on the grass.</em></p>
<p><em>The players tried for a forward pass,</em></p>
<p><em>With the jester on the sidelines in a cast.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Now the half-time air was sweet perfume</em></p>
<p><em>While the sergeants played a marching tune.</em></p>
<p><em>We all got up to dance,</em></p>
<p><em>Oh, but we never got the chance!</em></p>
<p><em>`cause the players tried to take the field;</em></p>
<p><em>The marching band refused to yield.</em></p>
<p><em>Do you recall what was revealed</em></p>
<p><em>The day the music died?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>We started singing,</em></p>
<p><em>&#8220;bye-bye, miss american pie.&#8221;</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>And singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.</em></p>
<p><em>&#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Oh, and there we were all in one place,</em></p>
<p><em>A generation lost in space</em></p>
<p><em>With no time left to start again.</em></p>
<p><em>So come on: jack be nimble, jack be quick!</em></p>
<p><em>Jack flash sat on a candlestick</em></p>
<p><em>Cause fire is the devil’s only friend.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Oh, and as I watched him on the stage</em></p>
<p><em>My hands were clenched in fists of rage.</em></p>
<p><em>No angel born in hell</em></p>
<p><em>Could break that satan’s spell.</em></p>
<p><em>And as the flames climbed high into the night</em></p>
<p><em>To light the sacrificial rite,</em></p>
<p><em>I saw satan laughing with delight</em></p>
<p><em>The day the music died</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>He was singing,</em></p>
<p><em>&#8220;bye-bye, miss american pie.&#8221;</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>And singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.</em></p>
<p><em>&#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I met a girl who sang the blues</em></p>
<p><em>And I asked her for some happy news,</em></p>
<p><em>But she just smiled and turned away.</em></p>
<p><em>I went down to the sacred store</em></p>
<p><em>Where I’d heard the music years before,</em></p>
<p><em>But the man there said the music wouldn’t play.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>And in the streets: the children screamed,</em></p>
<p><em>The lovers cried, and the poets dreamed.</em></p>
<p><em>But not a word was spoken;</em></p>
<p><em>The church bells all were broken.</em></p>
<p><em>And the three men I admire most:</em></p>
<p><em>The father, son, and the holy ghost,</em></p>
<p><em>They caught the last train for the coast</em></p>
<p><em>The day the music died.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>And they were singing,</em></p>
<p><em>&#8220;bye-bye, miss american pie.&#8221;</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>Singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.</em></p>
<p><em>&#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>They were singing,</em></p>
<p><em>&#8220;bye-bye, miss american pie.&#8221;</em></p>
<p><em>Drove my chevy to the levee,</em></p>
<p><em>But the levee was dry.</em></p>
<p><em>Them good old boys were drinkin’ whiskey and rye</em></p>
<p><em>Singin’, &#8220;this’ll be the day that I die.&#8221;</em></p>
<blockquote><p><em> 3 de junho de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Tocar na banda</title>
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		<pubDate>Sun, 15 May 2011 17:09:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Quantos são os cantores e compositores no Brasil? Alguém sabe? Já foram cadastrados? Pergunto porque de vez em quando leio ou ouço afirmações como esta: “Cantores e compositores defendem criação de órgão para fiscalizar Ecad”. Não sou cantora nem compositora, mas sou parte interessada. Meu pai era compositor e a herança maior que me deixou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quantos são os cantores e compositores no Brasil? Alguém sabe? Já foram cadastrados? Pergunto porque de vez em quando leio ou ouço afirmações como esta: “Cantores e compositores defendem criação de órgão para fiscalizar Ecad”.<span id="more-4499"></span></p>
<p>Não sou cantora nem compositora, mas sou parte interessada. Meu pai era compositor e a herança maior que me deixou foram duas: curiosidade e músicas que, sem jamegão oficial e sem marqueteiro baiano nem nada, fazem parte do cancioneiro sentimental do brasileiro há mais de 50 anos.</p>
<p>Há quem critique os filhos de músicos por receberem os direitos autorais herdados dos pais.</p>
<p>A esses eu envio daqui uma pergunta: se meu pai fosse confeiteiro de mariolas, eu poderia herdar, sem crítica de vocês, a fábrica de mariolas, não é?</p>
<p>E se ele, com os royalties que recebeu sobre suas músicas, tivesse comprado uma birosca para vender cigarros Iolanda, vocês certamente achariam normal eu gerenciar a birosca, verdade?</p>
<p>Mas ele não era comerciante, nem político. Era um simples compositor de música popular brasileira e preferiu cantar as mariolas e o cigarro Iolanda num samba em que lastimava o fato de que <a href="http://www.youtube.com/watch?v=MYIEeXRy8ds">Tocar na Banda</a>, aqui no Brasil, só rendia mesmo duas mariola e um cigarro Iolanda.</p>
<p>Hoje não é bem assim&#8230; São muitos os nossos compositores e cantores que vivem nababescamente.</p>
<p>Naturalmente, são autores de músicas exponenciais e que ficarão para todo o sempre.</p>
<p>Seus shows são espetáculos de som e luz como os de Versailles. Um simples ring de box como Frank Sinatra usou em seu Main Event, é impensável, não faria jus ao talento, à voz, nem ao magnífico repertório que apresentam.</p>
<p>O Adoniran não conseguiria lotar o Madison Square Garden, sei eu. Mas suas músicas lotam, há quase seis anos, duas noites por semana, o Bar Brahma, que é o Canecão paulistano. E muitos bares por este Brasil.</p>
<p>Como em todos os locais onde há música ao vivo, uma planilha é preenchida e essa planilha é entregue ao ECAD. Que cobra de acordo com as planilhas que recebe. Se quem preenche a planilha é correto, o ECAD cobra e distribui. Caso contrário&#8230;</p>
<p>Menciono tudo isso para lembrar, a quem não é do ramo, que há muito interesse envolvendo o ECAD. As quantias em jogo são fantásticas. E isso abriu um serpentário&#8230;</p>
<p>Ana de Holanda foi uma excelente escolha. Talvez precisasse de uma assessoria mais eficiente. Mas é mulher correta e agirá de acordo. Creio que ela não contava é com a desenfreada ambição do PT.</p>
<p>Se vocês olharem de pertinho os olhos deles, sob a luz do sol, verão nitidamente o cifrão refletido lá bem no fundo.</p>
<p>O que eles esquecem, é que de um relógio pro outro, as horas vareiam&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 13/5/2011.</em></p>
<p><strong><em>Uma nota</em></strong></p>
<p><em>Eu estava há dias com vontade de escrever um post sobre Ana de Holanda, vítima do “fogo amigo” do PT desde que foi indicada para o Ministério da Cultura, e que vem sendo metralhada duramente nos últimos dias.</em></p>
<p><em>Cheguei até a ensaiar o início de um texto:</em></p>
<p>Tenho, desde sempre, uma grande simpatia por Ana de Holanda. Sem motivos, talvez. Uma simpatia gratuita. Ou não. Talvez a partir da própria opção por seu nome: ela não quis ser Ana Buarque de Holanda. Quis ser diferente do irmão mais famoso, que, ao contrário, trabalhou muito para livrar-se do “de Holanda”.</p>
<p><em>Não fui muito adiante. Não precisava. Fernando Brant, grande letrista, gente finíssima, um dos maiores batalhadores pelos direitos autorais dos compositores, autores, criadores, artistas do país, que me dá a honra de permitir a publicação de suas crônicas neste site, fez uma bela defesa de Ana de Holanda em seu texto “<a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/sonho-meu/">Sonho meu</a>”.</em></p>
<p><em>E Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, mulher de um dos textos mais elegantes que conheço, gente finíssima, que me dá a honra de republicar alguns dos meus rabiscos em seu blog <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/">Sobre isso e aquilo&#8230;</a>, publicou o belo artigo acima no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, e me autorizou republicá-lo aqui.</em></p>
<p><em>Quem tem os textos de Maria Helena e Fernando Brant em seu site não precisa de mais nada.</em></p>
<p><em>Quem, como Ana de Holanda, tem a defesa, o apoio de Maria Helena e Fernando Brant está, seguramente, fazendo a coisa certa.</em></p>
<p><em><strong>Sérgio Vaz</strong>, 15/5/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Thelma</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Mar 2011 07:39:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[A internet, para quem sabe procurar, reserva surpresas, achados e lembranças. Mas é preciso ter muita ciência, para não cair nessa tsunami de informações excessivas, muitas vezes inúteis e mentirosas. Como todo os instrumentos que o homem cria, temos que ter o máximo de cuidado para usá-la e não sermos usados por ela. Existem outras formas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A internet, para quem sabe procurar, reserva surpresas, achados e lembranças. Mas é preciso ter muita ciência, para não cair nessa tsunami de informações excessivas, muitas vezes inúteis e mentirosas.<span id="more-4207"></span> Como todo os instrumentos que o homem cria, temos que ter o máximo de cuidado para usá-la e não sermos usados por ela. Existem outras formas de pesquisar, que vão saindo de moda, mas são muito confiáveis embora muito demoradas para o gosto dos internautas: os dicionários, as enciclopédias e os livros.</p>
<p>Outro arquivo maravilhoso que possuo é minha coleção de discos de vinil. Fica em uma estante especial, de madeira trabalhada com esmero, e os exemplares adquiridos ao longo de décadas, estão em ordem numérica e alfabética. Às vezes vou lá procurar o que tenho mas me esqueci. Foi o caso dessa manhã pós carnaval.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/thelma.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4209" title="thelma" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/thelma.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>À noite, vendo um especial sobre Nelson Cavaquinho, lembrei-me de uma cantora que conheci há muitos anos, no Rio de Janeiro, que gravara um LP só com canções do genial sambista carioca. Com arranjos de Radamés Gnatalli, essa lenda da música brasileira, <em>Thelma canta Nelson Cavaquinho</em>, gravado em 1966, é uma das preciosidades que guardo entre meus pertences. Esse é um ter que não me incomoda, pois não sou daqueles que vivem em busca de riqueza e mais riqueza. Folga mesmo, eu imagino, só conquistarei ( e distribuirei) se algum dia improvável a mega-sena bater em minha porta.</p>
<p>Antes de colocar o disco para tocar, verifico algumas curiosidades sobre ele. A primeira é a constatação de que o belíssimo samba “ A Flor e o Espinho” tem um terceiro parceiro, além de Nelson e Guilherme de Brito. É Alcides Caminha, funcionário público e, quem diria?, compositor, criador, sob o pseudônimo de Carlos Zéfiro, de uma coleção de histórias em quadrinhos eróticos, que ele chamava de “catecismo”, que impulsionou a libido de gerações de rapazes adolescentes brasileiros. Vivendo e aprendendo.</p>
<p>O texto da contracapa do disco é de Sérgio Porto, o inesquecível e insubstituível Stanislaw Ponte Preta: “ a idéia de juntar Thelma a Nelson Cavaquinho aparentemente é minha, mas, na verdade, nasceu da necessidade de dar à cantora um repertório de sambas dignos de seus excelentes dotes de sambista e, também, da necessidade fazer justiça ao veterano compositor &#8211; um dos mais importantes de toda a História do Samba &#8211; e até aqui sem ter um único disco seu”.</p>
<p>Depois de Nara Leão, em 1964, com “ A Luz Negra”, viriam Clara Nunes e outros a cantar a música de Nelson. E a grande amiga Beth Carvalho, que ensinou Nelson Cavaquinho para o Brasil. Não sei por onde anda a baiana morena Thelma, que um dia conheci na casa de Milton Nascimento. Mas o LP, que agora porei para tocar, tem tudo para me emocionar.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/thelma2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4212" title="thelma2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/thelma2.jpg" alt="" width="226" height="223" /></a>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em março de 2011. </em></p>
<p><em>Um pequeno adendo: </em></p>
<p><em>O disco sobre o qual fala Fernando Brant teve um relançamento em 1979, pelo selo Epic, da CBS, hoje Sony Music. Vinha com uma capa diferente e com o título alterado para </em>Thelma Soares interpreta Nelson Cavaquinho<em>. Um encarte reproduzia o texto original de Sérgio Porto/Stanislau Ponte Preta. Tenho o LP. Minha coleção seguramente não é tão rica quanto a de Fernando, mas não chega a ser desprezível. (</em><strong><em>Sérgio Vaz)</em></strong></p></blockquote>
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		<title>Montand, Semprun, o Brasil e eu</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-o-brasil-e-eu/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 02:06:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[﻿Aquilo deve ter sido, sem dúvida, uma coisa louca, inimaginável, emocionante, de arrepiar, de dar taquicardia: no Maracanãzinho lotado, Yves Montand anuncia que vai apresentar “Les Bijoux”, de Baudelaire. E fez-se silêncio. Um silêncio como o gelo que queima. Quatorze mil pares de olhos arregalam-se, paralisam-se, fixam-se nesse homem imóvel, aparentemente desenvolto e relaxado, tranqüilo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>﻿Aquilo deve ter sido, sem dúvida, uma coisa louca, inimaginável, emocionante, de arrepiar, de dar taquicardia: no Maracanãzinho lotado, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-e-o-mundo/">Yves Montand</a> anuncia que vai apresentar “Les Bijoux”, de Baudelaire.<span id="more-4113"></span></p>
<p><em>E fez-se silêncio. Um silêncio como o gelo que queima. Quatorze mil pares de olhos arregalam-se, paralisam-se, fixam-se nesse homem imóvel, aparentemente desenvolto e relaxado, tranqüilo, mas cuja tensão contida se advinha. A pulsão vital.</em></p>
<p>O Maracanãzinho em absoluto silêncio, por alguns segundos, durante um espetáculo musical – não um show de rock, cheio de adolescentes, mas um espetáculo musical de um senhor de uns 60 anos de idade, francês, falando nessa língua que tão poucos brasileiros dominam. O senhor de uns 60 anos de idade, calça e colete de veludo preto cotelê, o colete aberto sobre uma camisa branca, anuncia que vai apresentar um poema de Charles Baudelaire, morto uns 120 anos antes – e Maracanãzinho faz absoluto silêncio para ouvi-lo.</p>
<p>Não é à toa que o escritor e roteirista Jorge Semprun escolheu exatamente esse momento para abrir seu livro <em>Yves Montand: A Vida Continua</em>, não propriamente uma biografia do extraordinário ator, cantor, showman, mas um “retrato-ensaio” sobre o artista e sua relação com a política, o mundo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro1.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro2.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4120" title="yveslivro" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro3.jpg" alt="" width="166" height="250" /></a>O parágrafo de Semprun que reproduzi acima vem logo na primeira página do livro. Uma dúzia de páginas adiante, ele escreve:</p>
<p><em>Montand está terminando de cantar “Les Bijoux”. Quatorze mil brasileiros retêm a respiração. (.,..) No enorme silêncio que se segue, ouve-se a multidão retomar o fôlego. Percebe-se, tal como um zumbido de floresta, a respiração liberada dessa multidão. Depois, numa fração de segundo, estoura uma ovação, retumbante, interminável, enfunando através das arquibancadas como um vento de tempestade.</em></p>
<p><em>Volto-me para Catherine Allégret </em>(a filha de Simone Signoret, mulher de Montand, na foto grande abaixo)<em>.</em></p>
<p><em>Olhamo-nos, a boca ainda seca, os corações ainda úmidos. Aí está, o equilibrista chegou até o fim de seu fio, estendido lá no alto, sob os arcos.</em></p>
<p><em>Ele venceu.</em></p>
<p><em>E nós temos a impressão, num riso incontrolável, de haver ganho com ele, neste estádio do Maracanãzinho, onde os espectadores, de pé, não param de aplaudir.</em></p>
<p><em>- Ele é doido, esse sujeito é doido – murmura Catherine na glória.</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A maior turnê da vida do gigante Montand</strong></p>
<p>A apresentação de Yves Montand no Maracanãzinho, na noite de 31 de agosto de 1982, fez parte de uma turnê mundial do artista, a maior de sua carreira. Foi uma temporada que se iniciou em outubro de 1981, no palco do Olympia, a sala de espetáculos construída em 1893 que é o coração da canção francesa. Todos os grandes da canção francesa já se apresentaram no Olympia – Jacques Brel, Edith Piaf, Georges Bécaud (Lelouch filmou parte de uma apresentação de Bécaud ali, para seu filme <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/toda-uma-vida-toute-une-vie/">Toda uma Vida</a></em>), Charles Aznavour, Charles Trenet, Johnny Hallyday e Sylvie Vartan, Georges Moustaki&#8230;</p>
<p>(Mary conseguiu me levar a Paris em 2003 porque, numa noite em que ela pela bilionésima vez tentava de convencer a enfim fazer a viagem, fiz um desafio bêbado: “Só se for pra ver um show do Moustaki”. Meses depois ela reservou dois lugares na sexta fileira da platéia do Olympia, onde Moustaki se apresentaria em curta temporada. Mas esta é outra história.)</p>
<p>Montand já havia se apresentado no Olympia em diversas ocasiões, sempre com a casa de Bruno Coquatrix, de maravilhosas poltronas forradas de veludo vermelho, boca de cena enorme, acústica perfeita de catedral, cheia, abarrotada. A temporada de 1968 tinha ficado na memória de milhares de pessoas. Em 1974, fez um único espetáculo, para recolher fundos para os chilenos exilados após o golpe militar que derrubou Salvador Allende em setembro do ano anterior.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesolym.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4122" title="yvesolym" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesolym.jpg" alt="" width="455" height="455" /></a>Em outubro de 1981, iniciou uma série de apresentações ao longo de três meses no Olympia, sempre lotando a casa. De Paris, saiu em turnê pela França, e depois por alguns privilegiados países europeus – Suíça, Bélgica, Alemanha Federal, Holanda. Voltou para mais algumas semanas no Olympia, e, em 26 de agosto de 1982, iniciou a turnê mundial pelo Brasil. Cantou no Municipal de São Paulo, após a entrega dos Prêmios Molière, e depois no Teatro Nacional de Brasília, no Municipal do Rio e no Maracanãzinho.</p>
<p>Depois do Brasil, Montand apresentou-se nos Estados Unidos: no Metropolitan Opera House de Nova York, no Kennedy Center de Washington, no Orpheum Theater de San Francisco, no Greek Theater de Los Angeles. Depois subiu ao Canadá, para shows em Québec, Ottawa e Montreal. Para terminar no Japão, com apresentações em Tóquio, Osaka e Yokohama.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um livro descoberto por puro acaso – uma maravilha</strong></p>
<p>Jorge Semprun, espanhol de nascimento, francês por adoção, diversos romances publicados, autor de roteiros para alguns dos maiores cineastas europeus, acompanhou o amigo Yves Montand em quase todas as apresentações dessa turnê. Tinha já o projeto de escrever o livro, e a excursão ao redor do mundo serviria como um dos fios condutores de seu texto. O livro sairia na França como <em>Montand – La Vie Continue</em>, pelas Éditions Denoël, em 1983, e seria publicado no Brasil no mesmo ano pela Nova Fronteira, com tradução – bem cuidada, muitas vezes abertamente bela – de Rita Braga.</p>
<p>Descobri o livro bem por acaso, em visita à casa do meu irmão Geraldo, onde havia um exemplar comprado (e nunca lido) por nosso irmão Floriano; depois que se começa a ler, não dá para parar. É um deslumbre o texto de Semprun, de uma riqueza fascinante, tão fascinante quanto a trajetória de Montand, um dos grandes artistas do século XX. Ao ler <em>Montand: A Vida Continua</em>, e ao verificar que exemplares ainda podem ser encontrados no site <a href="http://www.estantevirtual.com.br/">estantevirtual</a>, que reúne dezenas e dezenas de sebos, pensei em escrever alguma coisa sobre ele – se uma única pessoa se animar, a partir daqui, a comprar um livro, já terei sido útil.</p>
<p>Acabei resolvendo fazer dois textos, em vez de um só, porque <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-e-o-mundo/">a trajetória política de Montand &#8211; e de Semprun</a> – é tão importante, tão marcante, que tem que ter uma anotação específica sobre ela. Para este segundo texto aqui, pensei em destacar, como um chamariz para o livro, alguns pontos em que o autor fala do Brasil que conheceu naquele início dos anos 80, a época em que a ditadura agonizava, já tinha havido a anistia, começava a haver a reorganização partidária após a camisa de força de Arena x MDB, o partido oficial e a oposição consentida.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A visão de um intelectual europeu sobre São Paulo, sobre Brasília</strong></p>
<p>Semprun se assustou com a <em>‘enormodernidade’ tropical e capitalista de São Paulo</em>. Sensível, atento, viu de cara a grande ferida da metrópole que escolhi para viver: Vestígios do passado raríssimo, pelo menos à primeira vista. Infelizmente, não é só à primeira vista. <em>O Teatro Municipal, onde Montand vai cantar, é uma dessas raras exceções: deve datar do início do século, é uma espécie de documento histórico.</em></p>
<p>E um pouco mais adiante:</p>
<p><em>Espero que chegue logo a hora de tomar o carro, de atravessar a cidade barulhenta e úmida, para chegar ao Teatro Municipal, numa praça mais ou menos preservada, quase verdejante, um pouco provinciana e encantadora, no meio da rede de vias de grande circulação, que se entrecruzam em vários níveis. Espero que penetremos na brusca frescura da ampla sala à italiana, na qual se advinham na penumbra os vermelhos escurecidos e os ouros patinados.</em></p>
<p>Uma acurada descrição do Municipal, da Praça Ramos ao lado, o Viaduto do Chá, o Anhangabaú embaixo – o Centro da maior cidade do país, um Centro hoje tão abandonado, pixado, sujo, ainda imponente, mas agredido, desleixado, apesar de todas as tentativas do poder público e da iniciativa privada em revitalizá-lo. O Centro de São Paulo, penso aqui hoje, pode até ter sido vítima da incúria do Estado, mas na verdade aviltado foi pelas pessoas, pela sociedade, por nós mesmos.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesesimone.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4123" title="yvesesimone" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesesimone.jpg" alt="" width="1000" height="616" /></a>Poucas grandes cidades brasileiras conseguiram preservar bem suas áreas centrais. São Paulo, a maior de todas, infelizmente é o pior destes tantos tristes exemplos. Semprun captou muito bem o desencanto que o Centro de São Paulo inspira.</p>
<p>Mais acurada ainda é descrição de Semprun faz de Brasília.</p>
<p>Um ex-colega de <em>Estadão-Agência Estado</em>, um gaúcho exilado no Planalto, cujo nome infelizmente me escapa, definiu a capital federal com brilho, durante um período em que eu mesmo estive exilado lá por algumas semanas:</p>
<p>- “Brasília não é uma cidade, é um autorama!”</p>
<p>Depois da definição rascante do gaúcho, eis a do cidadão do mundo Jorge Semprun:</p>
<p><em>A embaixada da França, um prédio de beleza simples, dando para a paisagem ambiente, localiza-se obviamente no setor das embaixadas. Em Brasília há um setor para cada coisa, para cada atividade. É uma cidade inventada por um homem, Kubitschek, e implantada por uma comissão de urbanistas e de planejadores, bem no centro da savana brasileira dos altiplanos. Uma cidade multicor nascida de uma vara de condão voluntarista no solo de laterita vermelha, em meio às abundâncias verdejantes, luxuriantes de vegetação. Portanto, como todo produto da imaginação racional dos homens, Brasília é um delírio. (&#8230;) Às vezes, em compensação, o delírio tende à monotonia burocrática, ao urbanismo arbitrário. Há um setor para as embaixadas, um setor para os engenheiros, um setor para os açougues e armazéns, um setor para as atividades culturais. Talvez um dia, se a cidade conseguir humanizar-se com o tempo, isto é, escapar do peso burocrático que no momento planeja todas as suas pulsões, talvez um dia haja um setor para a vida. A vida boa ou má, pouco importa, mas a vida afinal. No momento, não há um setor para a vida. Realmente não se fez um setor para a vida nessa cidade de sonho.</em></p>
<p>Que absoluta maravilha!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A sorte poupou Montand de conhecer aquilo que viria a ser um embuste</strong></p>
<p>Quando passou pelo Brasil, em 1982, naquele distante tempo em que muita gente de bem admirava um jovem dirigente sindical do ABC paulista, Montand quase o conheceu pessoalmente. O acaso acabou por poupá-lo do que teria sido seguramente mais uma de suas decepções, entre tantas as que teve com políticos ditos de esquerda que depois se provariam não mais que blefes, embustes.</p>
<p>Semprun narra uma conversa que teve com Montand, num restaurante de frente para o mar – imagino que em Copacabana -, onde foram comemorar a apoteose do Maracanãzinho. O restaurante havia sido fechado para o grupo. Beberam-se caipirinhas – <em>batida à base de aguardente, comparável aos mojitos cubanos</em> –, cervejas. Algumas pessoas foram indo embora, Semprun e Montand foram ficando, até que as primeiras luzes do dia começaram a ser vistas sobre o mar, através das vidraças:</p>
<p><em>Montand me fez perguntas sobre as pessoas com que eu me encontrara. Falei-lhe de Fernando Gabeira. Lembra-se da noite em sua casa, em Autheuil, com Régis? (Régis Debray, famoso desde maio de 1968, que, uma noite, acompanhado por uma brasileira na casa de campo de Montand e Simone Signoret, discutiu violentamente com Semprun, defendendo Fidel, o Che, a idéia de espalhar vietnãs, como se dizia na época, pela América Latina.) Ele se lembrava. Muito bem até. (&#8230;) Falamos de Régis. Depois, contei-lhe minha entrevista com Lula, o dirigente sindical dos metalúrgicos de São Paulo, candidato às eleições. Em São Paulo? E por que não fui com você?, perguntou-me. Por pouco não ficava ressentido comigo pelo fato de ter ido sozinho a essa entrevista. Mas você estava ensaiando com os músicos, digo-lhe. Ele sacode a cabeça, ainda assim sente-se frustrado. Quer que lhe conte a entrevista detalhadamente.</em></p>
<p>(Na foto logo abaixo, Montand e Edith Piaf.)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Jornalistas brasileiros no livro de Semprum</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvespiaf.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvespiaf1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4132" title="yvespiaf" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvespiaf1-300x196.jpg" alt="" width="300" height="196" /></a>Semprun transcreve trechos do que a imprensa brasileira falou sobre os shows de Montand. Traz trechos de Rubens Ewald Filho no <em>Estadão</em>, de Pepe Escobar na <em>Folha</em>, da falecida <em>Manchete</em>, do <em>Jornal de Brasília </em>(não deve ter anotado os nomes dos autores destes últimos textos, porque não os cita). Fala um trecho de um perfil de Montand publicado na revista <em>Nova</em> por Rodolfo Konder, e escreve:</p>
<p><em>Sei que Rodolfo e Leandro são irmãos, porque conheço bem este último, Leandro Konder. É um velho amigo. Ou seja, é jovem, mas somos amigos há muito tempo. Conheci Leandro Konder em Paris há vários anos. Ele estava exilado. Foi um dia à minha casa, a fim de gravar uma entrevista.</em></p>
<p>Semprun demorou a dar a entrevista, mas Leandro insistia. Até que mandou para o escritor uma bem-humorada ameaça: ou Semprun dava enfim a entrevista, ou o brasileiro redigiria sozinho as perguntas e as respostas, e diria que ele, Semprun, era um admirador de Georges Marchais. <em>Imediatamente, como me fizera rir, obteve meu texto.</em></p>
<p>Para lembrar: Georges Marchais era então o líder máximo do Partido Comunista Francês – e Semprun tinha por ele o maior desprezo. Ele e também Montand. Artistas, intelectuais, sensíveis, inteligentes, ex-comunistas, Semprun e Montand desprezavam tudo o que dizia respeito aos velhos Partidos Comunistas, ainda e sempre apegados ao que ditava o Partido Comunista pai e mãe, o da União Soviética.</p>
<p>Mas aí estou me confundindo – <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-e-o-mundo/">o texto sobre Semprun, Montand e a política é o outro</a>, não este aqui.</p>
<p>Talvez esteja me confundindo propositadamente, quem sabe influenciado pela própria leitura do livro de Semprun, que teimosamente mistura as coisas, o político e o pessoal, o relato sobre Montand e o relato de sua própria vida. Ao escrever sobre Montand, Semprun é sempre confessional, pessoal, personalíssimo. Seu texto insiste teimosamente em lutar contra a cronologia, assim como sua personalidade insistiu a vida inteira teimosamente em lutar contra a ordem unida do Partido Pai e Mãe.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O texto sobre o livro acabou. Agora falo sobre Montand, Semprun e eu mesmo</strong></p>
<p>Pois então termina aqui esta segunda anotação sobre <em>Yves Montand: A Vida Continua</em>. Se alguma pessoa distraída passar por este site, o recado está dado: estão à venda, ainda, alguns exemplares deste livro delicioso, fascinante, de texto belíssimo, que emociona e faz pensar. É só entrar <a href="http://www.estantevirtual.com.br/q/Yves-Montand-A-Vida-Continua">nesta página do site estantevirtual</a> – após alguns dias, o eventual distraído leitor terá em casa o livro.</p>
<p>Mas, já que estou com a mão na massa, vou em frente nesta anotação. Agora ela passa a ser ainda mais pessoal – uma pálida imitação do que faz Jorge Semprun em seu livro.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesingrid.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesingrid1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4126" title="yvesingrid" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesingrid1-300x195.jpg" alt="" width="300" height="195" /></a>Tive uma paixão absurda pelo texto de Semprun e pela interpretação de Yves Montand quando era ainda adolescente e vi pela primeira vez <em>A Guerra Acabou</em>, que Alain Resnais fez em 1966 (<em>na foto do filme, Montand com Ingrid Thulin</em>). Semprun já estava, naquela época tão distante, uma década antes da queda da ditadura do generalíssimo Franco, apenas dois anos depois do golpe militar de direita no Brasil, antes ainda dos golpes militares de direita no Uruguai, na Argentina e no Chile, se desentendendo com a nomenklatura do Partido Comunista Espanhol, servo fiel do PCURSS. O personagem que ele criou para ser interpretado por Montand já questionava os métodos, as escolhas do partido.</p>
<p>Tantas décadas passadas, ainda me lembro bem de como Diego Mora, o personagem de Montand, dizia para si mesmo que os altos dirigentes do partido achavam que a proximidade da realidade o estava cegando, fazendo com que ele deixasse de ver as coisas como elas deveriam ser vistas.</p>
<p>Radicado na França, assim como o próprio Semprun, Diego Mora fazia viagens clandestinas à Espanha sob a ditadura de Franco, para levar aos camaradas do partido as diretrizes vindas da secretaria-geral. Exatamente como Semprun. E Diego Mora, também como seu criador, revolvia-se em dúvidas.</p>
<p>Em Paris, longe da Espanha sob a ditadura, os dirigentes diziam que a proximidade da realidade estava cegando Diego Mora, fazendo com que ele deixasse de ver as coisas como deveriam ser vistas.</p>
<p>As conversas de Diego Mora consigo mesmo estão presentes na minha cabeça há quatro décadas. Jamais consegui esquecê-las.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Montand, o Cine Guarani, Marilyn Monroe</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/marilyn3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4136" title="marilyn3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/marilyn3.jpg" alt="" width="400" height="462" /></a>Esqueci, no entanto, por que raios não fui ver Montand no Municipal, em 1982. E por que raios, tendo perdido o show de Montand no Municipal, não fui vê-lo no Maracanãzinho.</p>
<p>A primeira vez que vi Yves Montand – constato, vendo meu primeiro caderninho em que anotava os nomes dos filmes a que assistia – foi em 1962, aos 12 anos de idade, portanto. Quando Marilyn Monroe morreu, o Cine Guarani, na Rua da Bahia, logo acima da Augusto de Lima, fez um festival, um filme de Marilyn a cada dia. Vi quase todos, inclusive <em>Adorável Pecadora/Let’s Make Love</em>, de 1960.</p>
<p>Todo mundo está (ou pelo menos estava) cansado de saber que, naquela época, fazendo alguns filmes em Hollywood, Montand e Marilyn se comeram. Marilyn estava então casada com Arthur Miller, mas Marilyn sempre comeu todo mundo que lhe passava à frente, o presidente Kennedy inclusive, é claro. Kennedy era outro grande comedor, me ocorre agora, e comeu até mesmo <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/laura/">Gene Tierney</a>, meu Deus do céu e também da terra, mas essa é outra história. Montand, no entanto, se é que comia fora de casa, comia quieto, ao contrário do personagem que Lelouch o fez interpretar em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/viver-por-viver-vivre-pour-vivre/">Viver por Viver</a></em>, de 1967. Montand era casado desde sempre com Simone Signoret, e viveram juntos, imagino que felizes, até o fim de suas vidas.</p>
<p>Mas o caso de Montand com Marilyn – ou, vá lá, de Marilyn com Montand – fez a alegria do jornalismo sensacionalista, naqueles idos tão distantes de 1960. Quem pensa que o jornalismo sensacionalista, explorador das privacidades dos famosos, começou ontem, ou dez anos atrás, ou 20 anos atrás, é jovem e não sabe de nada do mundo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm1.jpg"></a>Amigo de Montand mas também amigo de Simone (não seria possível ser um amigo de um sem ser da outra), Jorge Semprun procura ser o mais discreto possível, ao abordar esse tema, ao final de seu livro. Esperto, usa um dado inequívoco da realidade para tratar do assunto – uma longa matéria na New York Magazine sobre Montand, publicada em 1982, na época em que o artista iria se apresentar, durante sua turnê mundial, no Metropolitan Opera House. Numa página dupla, publicaram-se três fotos, como Semprun nos relata: uma do extremamemente jovem Yves Montand ao lado de <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/piaf-um-hino-ao-amor-la-mome/">Edith Piaf</a> (sim, a diva feia, comedora insaciável, havia comido um extremamente jovem Montand, assim como havia também comido um extremamente jovem Georges Moustaki), um Montand já maduro ao lado de Marilyn, e um Montand ao lado da esposa.</p>
<p>E aí fico pensando: é preciso ser Simone Signoret para saber que o marido comeu Marilyn Monroe (ou foi comido por ela, tanto faz), e continuar casada para todo o sempre com ele.</p>
<p>Não existem muitas Simone Signoret no mundo.</p>
<p><em>Simone Signoret perguntava-me um pouco irritada: “Não acha que já basta? Ainda vão falar por muito tempo de Montand e Marilyn?</em></p>
<p>A frase está quase no finalzinho do livro de Semprun – Simone, Montand e Semprun estavam em Nova York para a apresentação do cantor-showman no Metropolitan, a imprensa americana insistia em lembrar que aquele senhor francês havia tido um caso com Marilyn, e, é claro, aquela grnade atriz, grande mulher, reclamava, com toda justificativa do mundo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Montand traiu Simone, o personagem de Montand traía o de Ingrid Bergman</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm2.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm3.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/MARILYN1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4141" title="MARILYN1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/MARILYN1.jpg" alt="" width="740" height="534" /></a>Mas acho que estou de novo misturando estações. Esta parte aqui da anotação não seria para falar de Montand, Semprun e eu mesmo? E então por que estou falando da carreira e da vida de Montand?</p>
<p>O segundo filme que vi com Montand, pelo que mostra meu caderninho de criança, foi em 1964. Nunca mais o revi, pelo que eu saiba não saiu em VHS, nem DVD, mas tenho dele lembranças nítidas – <em>Mais Uma Vez, Adeus</em>, título original <em>Goodbye Again</em>, ou <em>Aimez-vous Brahms?</em>, de 1961, dirigido por Anatole Litvak, nascido em Kiev, Ucrânia, radicado em Hollywood a partir de 1937. Montand faz, no filme de 1961, um ano após <em>Adorável Pecadora</em>, um personagem parecido com o que faria em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/viver-por-viver-vivre-pour-vivre/">Viver por Viver</a></em>, o de um tremendo comedor fora de casa – com a esquisitice absoluta de que em casa ele tinha Ingrid Bergman.</p>
<p>A personagem interpretada por Ingrid Bergman – traída pelo marido como a personagem de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/annie-girardot/">Annie Girardot</a> seria no filme de Lelouch (<em>na foto abaixo</em>) – torna-se o objeto da paixão do jovem interpretado por Anthony Perkins. Vão juntos a concertos em que ouvem a Terceira de Brahms – e desde a época em que vi o filme pela primeira e acho que única vez, em 1964, tive e tenho imensa admiração por Brahms e, em especial, pelo terceiro movimento da Terceira Sinfonia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Algumas pessoas têm sortes na vida</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/vivre.jpg"></a>Era mais velho, tinha 18 anos, acabava de mudar para São Paulo, quando vi, no Cine Belas Artes, Montand interpretar Diego Mora em <em>A Guerra Acabou</em>. E Diego Mora, além de ser um personagem extraordinário, comia, filho da mãe, a personagem interpretada por Ingrid Thulin. Ingrid Thulin, a atriz de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/morangos-silvestres-smultronstallet/">Morangos Silvestres</a></em>, <em>Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse</em>, <em>O Silêncio</em>.</p>
<p>Não consigo me lembrar extamente quando foi que me apaixonei pelo cantor Yves Montand. Sei, no entanto, dizer exatamente onde e quando li e ouvi pela primeira vez Jacques Prévert – o livro de Semprun fala trocentas vezes de Prévert, o poeta que Montand cantou como ninguém mais, autor da letra de “Les Feuilles Mortes”, uma das canções sempre presentes no repertório do artista. Ouvi falar pela primeira vez em Prévert e li Prévert pela primeira vez na vida em 1962, na Rua Carangola, a continuação da Rua da Bahia, porque tive a sorte de ter <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/vivina-de-assis-viana/">Vivina de Assis Viana</a> como professora de francês no Colégio de Aplicação. Há pessoas que têm mais sorte na vida do que outras.</p>
<p>(Aqui, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=JWfsp8kwJto&amp;feature=related">um Montand muito jovem cantando &#8220;Les Feuilles Mortes&#8221;</a>; aqui, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=kLlBOmDpn1s">o Montand maduro cantando a mesma canção</a> de Joseph Kosma e Jacques Prévert.)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tive a sorte de ver shows de quase todos os meus maiores ídolos</strong></p>
<p>E, então, a questão das sortes. Mais ou menos na mesma época em que Montand veio ao Brasil, fui ao Municipal ver Moustaki, também num show após a entrega dos Prêmios Molière. Montand se apresentou no Municipal em 1982, e portanto Moustaki deve ter participado da festa dos Molière em 1983, ou 1984. Talvez tenha sido pela consciência de ter perdido o show de Montand – não me lembro, realmente não me lembro, e naquela época fazia poucas anotações pessoais, envolvido com muito trabalho e um período de vida pessoal atormentado – que, ao saber que Moustaki seria o convidado, tenha dado um jeito de conseguir um convite.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/vivre1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4139" title="vivre" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/vivre1.jpg" alt="" width="640" height="384" /></a>Parece ridículo, e é realmente ridículo, mas naquela época se exigia que, para entrar no Municipal para assistir à entrega dos Molière e em seguida ao show de um grande artista francês, as pessoas botassem traje de gala, o que chamamos de smoking.</p>
<p>Sempre detestei terno e gravata, mas, naquele início dos anos 80, para ver Moustaki, aluguei um smoking, pela primeira vez na vida. O convite, não me lembro como consegui, mas certamente foi através de Regina, então editora na Abril, cheia de contatos.</p>
<p>O show de Moustaki no Municipal não foi glorioso. Ao contrário. A imensa maioria das pessoas não conhecia Moustaki – ele é bem menos conhecido que Montand, evidentemente. As pessoas iam deixando o Municipal enquanto Moustaki cantava.</p>
<p>Mas valeu, ah, valeu ter visto Moustaki cantar.</p>
<p>O show dele que vi com Mary na sexta fila do Olympia de Paris em 2003 foi muitíssimo melhor.</p>
<p>Mas o que não consigo entender é por que não tentei ir ao show de Montand.</p>
<p>Naquela mesma época, fui ao Maracanãzinho ver o primeiro show de Mercedes Sosa no Brasil. Algum tempo depois, levei Fernanda e Inês ao Maracanãzinho para ver Tetê Espíndola cantar, numa final de festival, “Escrito nas Estrelas”.</p>
<p>Tive a sorte, a felicidade, o privilégio de ver shows de quase todos os meus maiores ídolos.</p>
<p>Jamais vou me perdoar por não ter visto ao vivo Yves Montand.</p>
<blockquote><p><em>Março de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Montand, Semprun e o mundo</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Mar 2011 04:21:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O livro de Jorge Semprun sobre Yves Montand e o mundo – Yves Montand: A Vida Continua (*), publicado em 1983 – é absolutamente fascinante por uma série respeitável de razões. Tento enumerá-las, sem que estejam em ordem de importância. Porque Yves Montand, a personalidade retratada, é uma figura maravilhosa, um artista admirável, extraordinário cantor, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O livro de Jorge Semprun sobre Yves Montand e o mundo – <em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-o-brasil-e-eu/">Yves Montand: A Vida Continua</a></em> (*), publicado em 1983 – é absolutamente fascinante por uma série respeitável de razões.<span id="more-4064"></span></p>
<p>Tento enumerá-las, sem que estejam em ordem de importância.</p>
<p>Porque Yves Montand, a personalidade retratada, é uma figura maravilhosa, um artista admirável, extraordinário cantor, showman e ator. Sua vida é riquíssima, uma trajetória que conta boa parte da história do século XX, tanto a artística, cultural, quanto a política.</p>
<p>Porque Jorge Semprun, embora bem menos conhecido do grande público, é um artista importantíssimo, intelectual de cultura imensa, enciclopédica, autor de diversos livros, roteirista de obras fundamentais, alguns dos mais importantes filmes políticos já feitos – <em>A Guerra Acabou</em>, <em>Z</em>, <em>A Confissão</em>, <em>O Atentado</em>, <em>Stavisky</em>, <em>Seção Especial de Justiça</em>.</p>
<p>Porque <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-o-brasil-e-eu/">o Brasil está muito presente na obra</a>. Um dos fios condutores da narrativa é a turnê mundial de Yves Montand no início dos anos 80, que incluiu o Brasil. O livro abre falando do show no Maracanãzinho, em 31 de agosto de 1982. Há diversas referências ao Brasil, a personalidades brasileiras, políticos, jornalistas, escritores.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4070" title="yveslivro" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro.jpg" alt="" width="166" height="250" /></a>Porque o texto de Jorge Semprun é uma absoluta delícia, de uma grande riqueza literária, cheio de achados inteligentes – e é sempre pessoal, personalíssimo. Não é uma biografia; é, segundo o autor, um “retrato-ensaio”, e Montand não é apenas o sujeito, mas também o destinatário do texto. No livro, uma grande carta a seu amigo Yves Montand, uma declaração de amor, respeito, admiração, importam tanto os fatos que ele relata, fatos importantes da Grande História ao longo de várias décadas e fatos específicos da história de vida do artista múltiplo, quanto as sensações pessoais do autor diante deles. O texto de Semprun recusa-se, teimosamente, terminantemente, a obedecer à ordem cronológica. Como em alguns filmes dos grandes diretores com quem colaborou, <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/ervas-daninhas-les-herbes-folles/">Alain Resnais</a> e <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/atraicoados-betrayed/">Costa-Gavras</a>, sua narrativa vai e volta no tempo da mesma maneira como fazem nossas lembranças, o fluxo do nosso pensamento. Quase como um paciente de distúrbio bipolar em fase de euforia, abre dez janelas para diferentes temas e épocas ao mesmo tempo, abre parênteses, colchetes, semicolchetes – mas, ao contrário dos pacientes da antiga psicose maníaca-depressiva, vai voltando atrás e amarrando tudo e concluindo um por um os diversos temas abertos.</p>
<p>E porque, escrito por um ex-comunista, a respeito de um ex-comunista (quem não foi comunista em algum momento da vida é em geral uma pessoa menor, incapaz de generosidade), é uma beleza de panfleto anticomunismo, anti-partidos comunistas, anti-União Soviética, antiditaduras de esquerda, assim como também antiditaduras de direita. Uma beleza de panfleto.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um processo de distanciamento do PC que começa ainda em 1953</strong></p>
<p>Ler o livro de Semprun, passear por seu texto primoroso, aprender com seu estilo, com seu imenso cabedal de conhecimento, sabedoria, dá um grande prazer – mas também um travo amargo na garganta. Ao nos depararmos com tantas provas de que a inteligência européia já fazia um exame crítico dos erros do comunismo nos hoje longínquos anos 60, fica ainda mais chocante nossa realidade latino-americana, a última região do planeta que ainda se fascina por aquela doutrina que há tanto tempo se provou falida.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesguerre.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4072" title="yvesguerre" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesguerre.jpg" alt="" width="351" height="359" /></a>No belíssimo <em>A Guerra Acabou/La Guerre est Finie (foto)</em>, realizado por Alain Resnais em 1966 com base em roteiro original de Jorge Semprun, Yves Montand faz o papel de Diego Mora, um dos líderes do Partido Comunista Espanhol, radicado na França, retornando de uma de suas viagens clandestinas a seu pais natal, onde havia se reunido com companheiros, traçando planos na luta contra a ditadura do generalíssimo Franco. Embora ainda na ativa, cumprindo as diretrizes do comitê central, Diego já começava a ter dúvidas a respeito dessas diretrizes, a respeito do acerto das decisões dos dirigentes.</p>
<p>Diego Mora – que Yves Montand interpreta com um brilho incomum – tem muito do seu criador, Jorge Semprun, e também do seu próprio intérprete. Semprun estava radicado na França desde o fim da Segunda Guerra Mundial, pertencia à direção do PCE, mas já estava questionando o partido, seus métodos, suas decisões. Na verdade, questionava o PCE, e sua cega obediência às determinações do PCURSS, desde a morte de Stálin, em 1953, desde que os crimes de Stálin começaram a ser divulgados.</p>
<p>Montand, ao contrário de Semprun, jamais pertenceu formalmente ao Partido Comunista (no caso dele, o PCF). Havia sido um correligionário, um simpatizante, praticamente desde sempre. E sua fidelidade ao PCF, naqueles meados dos anos 1960, estava sendo posta em questão duramente. A rigor, como mostra o livro, a fidelidade de Montand ao ideário comunista estava abalada desde que os tanques russos haviam invadido a Hungria para sufocar a revolta popular contra o regime, ainda em 1956. Desde antes, na verdade – desde que, pouco a pouco, o próprio PCURSS havia começado a reconhecer os crimes da era stalinista.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um filho do velho comunista repensa, o outro, não</strong></p>
<p>A simpatia pelo comunismo, no caso de Montand, veio de berço. Seu pai, Giovanni Livi, de uma família camponesa, havia deixado a Itália, onde passara a ser perseguido pelos fascistas de Mussolini, e se radicado em Marselha, o grande porto mediterrâneo francês, em 1924. Montand, o mais novo dos três filhos de Giovanni e Giuseppina Livi, tinha então três anos: nascera em Monsummano Alto, na Toscana, a 13 de outubro de 1921. Chamava-se Ivo Livi; seus irmãos mais velhos eram Giuliano, que depois passaria a se assinar Julien, e Lydia.</p>
<p>Com Lydia, segundo o relato de Semprun, Yves Montand sempre se deu bem, desde o tempo em que ainda era Ivo Livi. Com Julien, teria atritos, alguns bem sérios, por causa da ideologia. Julien permaneceu sempre comunista, não importando quantos crimes de Stálin fossem sendo revelados, quantas revoltas populares por liberdade nos países do Leste europeu fossem sufocadas pelos tanques da União Soviética.</p>
<p>Uma das rusgas entre os irmãos tornou-se pública. Em setembro de 1977, a revista <em>Le Nouvel Observateur</em> publicou uma entrevista com Montand. Diz Semprun, na tradução de Rita Braga para a edição brasileira:</p>
<p><em>As perguntas abordadas eram essencialmente de ordem política. A uma delas, sobre o porquê e o como ele se tornara companheiro de lutas do PCF, Montand respondia: “Um problema de meio. De certa maneira, eu era comunista de nascença”. Em seguida, ele falou de seu pai, do exílio deste, expulso da Itália fascista, de seu trabalho em Marselha. “Ele trabalhava dez a doze horas por dia numa fábrica de óleos”, acrescentava Montand. “Terminado o dia, caindo de sono, ia aprender francês num curso noturno. Para melhorar de situação, para lutar. Para ele, isso era o primeiro ato revolucionário.”</em></p>
<p><em>Essas linhas mostram bem a admiração e o respeito por seu pai, que já acentuei. E, para terminar o retrato de Giovanni Livi, ele acrescentava: “Politicamente, era antes socialista, mas socialista unitário”. (&#8230;)</em></p>
<p><em>Essa formulação, através da qual Montand pretendia dizer simplesmente que seu pai fora socialista antes de tornar-se comunista, antes de criar em torno dele esse ‘meio’, que levou naturalmente o filho Yves a tornar-se companheiro de luta, provocou uma reação indignada, violenta, de Julien Livi, o irmão mais velho, que escreveu uma carta seca e peremptória ao</em> Nouvel Observateur.</p>
<p>Ainda e sempre fiel aos desígnios do Partido, do Partido-Mãe, do Partido-Pai, Julien Livi contestou durante o que o irmão mais jovem havia dito na entrevista, na sua carta, na qual se refere ao outro filho de seu pai como “o sr. Yves Montand”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Memória comunista honesta” – uma formulação antinômica</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4073" title="yves1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves1.jpg" alt="" width="360" height="450" /></a>Lá pelo meio do livro, na página 189 da edição brasileira, para ser preciso, Semprun, falando de um amigo, Lucio Losa, diz que ele possui uma “memória precisa e viva”, que “contém tesouros, trágicos ou cômicos, como os de toda memória comunista honesta”. E aí como que percebe que falou algo absurdo, e se retrata: “Ou antes, ex-comunista, já que a formulação precedente é antinômica por excelência”.</p>
<p>Antinômico – contraditório, oposto. Oxímoro é ainda mais elegante – combinação de palavras contraditórias ou incongruentes, como, por exemplo, “silêncio barulhento”, “grito silencioso” ou “memória comunista honesta”. Os dois primeiros exemplos estão no dicionário de Português que mais uso, o da Editora Unesp; o terceiro exemplo é o que Jorge Semprun usa. Mas preferiu qualificar o oxímoro pelo termo mais simples – antinômico.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um personagem fictício que acredita na URSS como os crentes na Bíblia</strong></p>
<p>Nas conversas com os amigos mais chegados, Yves Montand, astro maior da música francesa, astro maior do cinema francês e mundial, que havia sido comunista desde o berço, eterno batalhador contra todas as ditaduras, e exatamente por isso a partir dos anos 60 um ex-comunista, criou um personagem fictício, imaginário. Chamava-se sra. Pluvier. Renitente, cega à realidade que teimava em se mostrar à sua frente, a sra. Pluvier acreditava no comunismo como um crente acredita na verdade de cada palavra, de cada frase da Bíblia:</p>
<p><em>A sra. Pluvier – que às vezes tinha o nome de Bernadette, mas que também conhecemos por outros nomes – é uma personagem inventada por Montand. Foi depois de 1956, se é que minha pesquisa foi rigorosa, quando começavam os desvios que o afastaram do continente glacial do comunismo, que Montand a inventou. A Sra. Pluvier era – e certamente continua a sê-lo (&#8230;) – uma militante do PCF. Uma mulher simples, fiel e generosa. Corajosa e devotada. (&#8230;)</em></p>
<p><em>O </em>morceau de bravure<em> era, na maioria das vezes, o relato que ela fazia, pela boca de Montand, de sua última viagem à Rússia, ao país radioso do socialismo. A sra. Pluvier tinha respostas para tudo (&#8230;). Alguém se queixava de que não havia estradas suficientes nas áreas rurais da Rússia? Mas vejamos, dizia a sra. Pluvier, isso é deliberado! É para preservar a beleza natural da natureza, para obrigar os caucasianos ao exercício salutar da caminhada a pé, para evitar a poluição dos gases, que o poder socialista fabrica poucos carros e constrói poucas estradas.(&#8230;)</em></p>
<p><em>Ducon ironizava o fato de não haver imprensa opiniosa na URSS? Mas que exigência tola!, respondia a sra. Pluvier. A verdade não é una e indivisível? Se existem, na França, jornais de todas as opiniões, é porque a mentira lá é livre. Se não existisse nossa querida e valorosa Humanité (para quem não lembra: L’Humanité, o órgão oficial do PCF), difundida pelos não menos queridos e valorosos CHD, as massas trabalhadoras poderiam conhecer, ainda que parcialmente, a verdade? No dia em que o socialismo triunfar na França haverá apenas uma verdade: a verdade una e indivisível. Haverá então apenas um só jornal, L’Humanité. E depois, o jornal de nossos camaradas não se chama precisamente Pravda? A verdade, portanto. E bico calado!</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A verdade única – uma piada trágica. Para alguns, ainda e até hoje um sonho</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4074" title="yves2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves2.jpg" alt="" width="328" height="436" /></a>Ah, quanta beleza e quanta tristeza há em nossa capacidade de rir da própria tragédia que nos cerca.</p>
<p>Ao ler sobre Madame Pluvier, é impossível não deixar de lembrar da Velhinha de Taubaté. Naquele passado distante em que fazia oposição – e “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados” –, Luis Fernando Verissimo criou a personagem inesquecível, a última pessoa no Brasil que ainda acreditava nos governos da ditadura militar instaurada em 1964. O tempo passa, o tempo gira, a Lusitana roda, e quem fica parado exatamente no mesmo lugar fica como Verissimo e sua Velhinha de Taubaté, Chico Buarque e sua Carolina, que não vêem nada do que está à sua frente. Se vivessem mais cem anos, Verissimo e Chico, mais Niemeyer, seriam muito provavelmente os únicos brasileiros a acreditarem no lulo-petismo.</p>
<p>A trágica piada que Montand criou a partir de 1956 nos faz estremecer de pavor quando pensamos que os tais “blogueiros progressistas”, toda a fiel camarilha do ex-ministro Franklin Martins, dedicam a vida a defender, ainda que por vias transversas – hoje, mais de meio século após a morte de Stálin e as revelações sobre os crimes de seu regime, 20 anos após a queda do império comunista – o ideal de Madame Pluvier, que Fidel soube tão bem colocar em prática: uma única pravda, um único jornal, um único pensamento – o resto é grande imprensa golpista a soldo do imperialismo ianque.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Montand, Semprun, Costa-Gavras – todos “vendidos ao imperialismo ianque”</strong></p>
<p>Os comunistas franceses acusaram Yves Montand, Jorge Semprun e Constantin Costa-Gavras – um italiano de nascimento, francês de formação, artista do mundo, um espanhol de nascimento, cidadão do mundo, um grego de nascimento, cineasta do mundo, todos com sólido histórico de militância de esquerda – de terem-se vendido ao imperialismo ianque.</p>
<p>Foi quando os três se juntaram mais uma vez (haviam feito juntos <em>Z</em>, em 1969, uma denúncia violentíssima da ditadura de direita dos coronéis gregos, e fariam depois, em 1972, <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/estado-de-sitio-etat-de-siege/">Estado de Sítio</a></em>, uma denúncia tanto da ditadura dos milicos uruguaios quanto dos métodos assassinos dos tupamaros) para fazer <em>A Confissão/A’Aveu</em>, de 1970.</p>
<p>Denunciar ditaduras de direita, tudo bem, maravilha. Mas o que que é isso, meu Marx do céu, contar a história – verdadeira, baseada no livro autobiográfico de Arthur London – dos processos na Tchecoslováquia em que os torturadores do regime obrigavam as pessoas a confessarem crimes que nunca, jamais, haviam cometido?</p>
<p>Horror, nojo – vendidos ao imperialismo!</p>
<p>É fascinante: eles querem o poder, e uma vez aboletados lá recusam-se a sair, e usufruem de suas benesses, mas é só pelo ideal, pelo bem do povo. Quem não está com eles, esses são vendidos ao imperialismo ianque.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As ditaduras de direita podem ser derrubadas. Já as ditas de esquerda&#8230;</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4075" title="yves3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves3.jpg" alt="" width="412" height="529" /></a>Por diversas vezes, ao longo de seu belo relato, Jorge Semprun vai direto à jugular. Como quando se lembra de uma visita que fez, junto com Costa-Gavras e Yves Montand, à Grécia que acabava de derrubar a ditadura de direita dos coronéis:</p>
<p><em>Pois uma das diferenças – certamente não é a única – entre as ditaduras de direita e as sorrateiramente ditas de esquerda é que as primeiras podem ser derrubadas. Ou que, mesmo se não o são, determinados acontecimentos, como a morte dos ditadores, podem abrir um processo de restabelecimento progressivo das liberdades democráticas. Há até casos – e o Brasil, onde estávamos, Montand e eu, no fim do verão de 1982, é um deles – em que é a própria vontade da classe político-militar dominante, indubitavelmente submetida às pressões das circunstâncias sociais, que reabre um processo de democratização.</em></p>
<p><em>Em contraposição, nas segundas, nas ditaduras impropriamente ditas de esquerda, a situação é irreversível. Nelas não se volta atrás, em vista de um futuro de verdadeira democracia.</em></p>
<p>Para ilustrar o que está dizendo, Semprun conta sobre a Polônia do Solidariedade – ao fim de uma cada uma de suas apresentações, durante temporada no Olympia, Montand exibia uma bandeira do primeiro sindicato livre surgido no império comunista –, e sobre o soturno general Jaruzelskï, que, cumprindo as ordens de Moscou, em dezembro de 1981 proclamou o estado de guerra no país, para acabar com aquela farra.</p>
<p>Sempre foi assim. Na Hungria, em 1956. Na Tchecoslováquia, em 1968. Na Polônia, em 1981. Os tanques, unidos, jamais serão vencidos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma descrição dos antigos PCs – e como se descreve bem o lulo-petismo</strong></p>
<p>Mais adiante, ao falar de algo que conheceu bem, tendo sido ele mesmo durante anos intermediário entre a cúpula do PCE e dirigentes de base, em suas viagens clandestinas à Espanha de Franco, Semprun aborda a imensa distância entre uma e outros. E é impressionante como, ao falar sobre o “centralismo democrático” dos partidos de vocação totalitária, ele parece estar falando especificamente do lulo-petismo:</p>
<p><em>Os militantes comunistas – e a fortiori os companheiros de luta – não fazem realmente política. Não são os atores. A política se faz sem eles, na cúpula, no segredo das deliberações dos Politburos. Os militantes são apenas “pequenos parafusos”, as “pequenas engrenagens”, como dizia o marechal Stálin, do grande aparelho de transmissão das decisões da cúpula. Não há, em verdade, militantes autênticos nos partidos comunistas: há apenas ativistas e intermediários entre uma estratégia que se decide sem eles e uma realidade social, cujas reações nem sempre podem enviar à cúpula, já que não estão realmente à escuta dessa realidade; já que são apenas falantes, e até alto-falantes verborréicos e surdos, em meio a essa realidade.</em></p>
<p><em>O militante, assim, não faz política: confia.</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Em 1982, Cuba liberta prisioneiro político. Já em 2010&#8230;</strong></p>
<p>A Terra gira, a Lusitana roda, mas, para alguns baluartes da vanguarda do atraso, que por triste ironia se definem como progressistas, nada sai do lugar. Estávamos já em 2010 quando tivemos que ver as imagens de Lula e Franklin Martins <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/o-corpo-do-preso-politico-ainda-estava-quente-e-eles-tietavam-o-ditador-assassino/">sendo fotografados e se fotografando sorridentes</a>, em flagrante de tietagem explícita, ao lado de Fidel e Raúl Castro, poucas horas depois da morte de Orlando Zapata Tamaya, ao fim de 85 dias de greve de fome.</p>
<p>Para os dois tietes brasileiros, é como se estivéssemos, naquele fevereiro de 2010, em plena euforia de 1959, Cuba enfim livre da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista.</p>
<p>Como se, ao longo de mais de meio século, o que se seguiu ao regime de Batista não tivesse se transformado numa ditadura igualmente corrupta.</p>
<p>Semprun se lembra, em seu livro, de fatos de 1982, quando se anunciou que o poeta Armando Valladares seria libertado das prisões políticas de Fidel Castro:</p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4076" title="yves4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yves4.jpg" alt="" width="460" height="288" /></a>A notícia </em>(da libertação de Valladares)<em> deixara Montand extremamente satisfeito. De fato, ele fazia parte dos que, havia anos, protestavam publicamente contra a prisão de Valladares. Participara das delegações que tinham apresentado petições à embaixada de Cuba em Paris. Falara do caso de Valladares durante toda a sua turnê mundial. (&#8230;)</em></p>
<p><em>Não sabíamos que triste concerto de insinuações, de perfídias, a libertação de Valladares iria desencadear. Uns se espantaram gritantemente pelo fato de que ele caminhava com suas duas pernas ao descer do avião que o levou a Paris. Não tinham dito que estava paralítico? Como se o fato de ter retornado com um estado de saúde normal lhe tirasse o direito de ter sido libertado. Outros começaram a murmurar que Valladares não era um bom poeta. (&#8230;)</em></p>
<p><em>Montand, tão logo tornemos a falar a esse respeito, terá uma posição categórica sobre a questão. O que é inadmissível, dirá ele, aquilo contra o qual protestávamos, é o fato de que Valladares tivesse ficado preso por mais de vinte anos por delito de opinião. Isso é tudo. (&#8230;) Mesmo lépido, mesmo campeão de cem metros de corrida de obstáculos, Valladares teria o direito de ser livre. E ainda que tivesse simulado a paralisia, não haveria nada a censurar-lhe. Em todas as prisões do mundo, diante de todas as polícias políticas do mundo, temos o direito de defender-nos por todos os meios: pela simulação, pela mentira. Qualquer meio ao alcance do prisioneiro inerme diante de seus carcereiros. Isso é evidente.</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A visão libertária de Semprun, a visão sabuja de dois brasileiros tietes</strong></p>
<p>Meu Deus do céu e também da terra: que imensa diferença essa postura – “Em todas as prisões do mundo, diante de todas as polícias políticas do mundo, temos o direito de defender-nos por todos os meios” – e a do então presidente do Brasil, que comparou os prisioneiros políticos da Cuba de 2010 aos criminosos comuns de São Paulo.</p>
<p>Que vergonha aquele senhor e seu ministro, groupies, tietes de ditador, fizeram todos os brasileiros passarem.</p>
<p>Aquilo é algo que não se deve esquecer jamais.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>García Márquez, grande escritor, fascinado pelos poderes dos caudilhos</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/semprun1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4077" title="semprun" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/semprun1.jpg" alt="" width="340" height="508" /></a>Jorge Semprun (<em>na foto</em>) não tem medo de uma boa polêmica &#8211; nem mesmo quando se coloca diante de grandes ícones. E espanhol bom vai agora ter medo de dizer Por que no te callas? Ao relatar o episódio da libertação de Armando Valladares das prisões políticas cubanas, o escritor lembra que alguns personagens quiseram atrair para si a glória, o mérito de ter influenciado a ditadura cubana na decisão de devolver a liberdade ao poeta:</p>
<p><em>Quem levava a palma nesse terreno era, sem dúvida alguma, Gabriel García Márquez, grande escritor de um grande livro, </em>Cem Anos de Solidão<em>, que obteve o Prêmio Nobel pouco depois da libertação de Valladares, mas curioso personagem fascinado pelos poderes dos caudilhos sul-americanos, como qualquer herói de seus próprios romances.</em></p>
<p><em>García Márquez entrou de borzeguins. Declarou à imprensa espanhola que Fidel Castro libertara Valladares para agradar pessoalmente a ele, García Márquez. E que as intervenções insistentes e intempestivas dos franceses quase tinham estragado tudo. Essa declaração dá a medida da vaidade do grande escritor e também da arbitrariedade despótica de Castro, que só liberta prisioneiros políticos para conceder um favor ou um beneficio aos escritores de sua corte tropical, e não por preocupação de justiça.</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma frase de Joan Baez para dizer obrigado a Montand e Semprun</strong></p>
<p>Me aproprio de uma frase de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/joan-baez-volume-1-uma-trajetoria-luminosa/">Joan Baez</a>, trocando o nome que ela cita – Natalia Gorbaneskaya, uma prisioneira política da felizmente agora defunta pátria mãe do socialismo:</p>
<p>Estou convencido de que é por causa de pessoas como Yves Montand e de Jorge Semprun que você e eu podemos continuar a caminhar na face desta Terra.</p>
<blockquote><p><em>(*) </em>Yves Montand: A Vida Continua<em> (no original </em>Montand – La Vie Continue<em>) foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, em 1983. A edição original é daquele mesmo ano, das Éditions Denoël. Que eu saiba, o livro não foi relançado depois disso no Brasil. No entanto, pode ser encontrado através do site http://www.estantevirtual.com.br/. Garanto isso porque acabo de comprar um exemplar através do site, depois que grifei tanta coisa no que li que não me sentiria à vontade para emprestá-lo a um amigo.</em></p>
<p><em>Março de 2011</em></p></blockquote>
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