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	<title>50 Anos de Textos &#187; Lembranças</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>I met my old lover on the street last night</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 17:09:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[I met my old lover on the street last night. Não sei se ela parecia tão feliz em me ver. Parecia, acho, um tanto curiosa. Como eu, ela se lembrava bem de que fazia tempo não nos víamos. Fez as contas: oito meses. Oito meses, em 14 anos, contabilizou. Perguntou da vida, e falei da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>I met my old lover on the street last night.</p>
<p>Não sei se ela parecia tão feliz em me ver. Parecia, acho, um tanto curiosa.<span id="more-6438"></span></p>
<p>Como eu, ela se lembrava bem de que fazia tempo não nos víamos. Fez as contas: oito meses. Oito meses, em 14 anos, contabilizou.</p>
<p>Perguntou da vida, e falei da Agência Estado. Me queixei suavemente, durante a sessão do aperitivo. Me sugeriu procurar emprego na Editora Globo; estão para lançar revistas.</p>
<p>No começo do jantar, perguntou dos amores, e falei de Mary. Relatei mansamente. Acho que fielmente.</p>
<p>Me contou, então, de seu namoro. Tem três meses, como o meu com Mary. Encontrou o que queria, neste momento da vida – um namoro calmo, tranqüilo, gostoso, que não aperta até sufocar.</p>
<p>Me deu carona até em casa, subiu para pegar um livro e um xerox de um texto de Borges que pendurei na cortiça e que ela, como eu, conheceu há pouco. Comentou depois, quando desci para acompanhá-la até o carro, que não imaginava que Mary estivesse na minha casa (Mary estava dormindo; trabalha bem cedo hoje), que o namoro dela não é tão íntimo quanto o meu.</p>
<p>Nos abraçamos de leve, suavemente, sem emoção.</p>
<p>Mary acordou quando deitei. Não fez pergunta sobre o jantar.</p>
<p>Acordei às 5 e meia da manhã com sede, ouvi <a href="http://www.youtube.com/watch?v=46bkXgxb66E">“Still Crazy After All These Years”</a> algumas vezes, e corri aqui pro violão, e a manhã está nascendo azul.</p>
<blockquote><p><em>O texto é de 11 de setembro de 1990.</em></p>
<p><em>Passei por ele por puro acaso, quando procurava uma data para identificar velhas fotos. Achei bonito, pensei um publicar, não sei bem por quê. Saudade, talvez.</em></p>
<p><em>Sei é que “Still Crazy After All These Years”, que Paul Simon fez em 1975, é uma absoluta maravilha (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=Ksa4VjKE3RY&amp;feature=related">aqui, a versão original </a>):</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I met my old lover</em></p>
<p><em>On the street last night</em></p>
<p><em>She seemed so glad to see me</em></p>
<p><em>I just smiled</em></p>
<p><em>And we talked about some old times</em></p>
<p><em>And we drank ourselves some beers</em></p>
<p><em>Still crazy afler all these years</em></p>
<p><em>Oh, still crazy after all these years.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I&#8217;m not the kind of man</em></p>
<p><em>Who tends to socialize</em></p>
<p><em>I seem to lean on</em></p>
<p><em>Old familiar ways</em></p>
<p><em>And I ain&#8217;t no fool for love songs</em></p>
<p><em>That whisper in my ears</em></p>
<p><em>Still crazy afler all these years</em></p>
<p><em>Oh, still crazy after all these years</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Four in the morning</em></p>
<p><em>Crapped out, yawning</em></p>
<p><em>Longing my life away</em></p>
<p><em>I&#8217;ll never worry</em></p>
<p><em>Why should i?</em></p>
<p><em>It&#8217;s all gonna fade</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Now I sit by my window</em></p>
<p><em>And I watch the cars</em></p>
<p><em>I fear I&#8217;ll do some damage</em></p>
<p><em>One fine day</em></p>
<p><em>But I would not be convicted</em></p>
<p><em>By a jury of my peers</em></p>
<p><em>Still crazy after all these years</em></p>
<p><em>Oh, still crazy</em></p>
<p><em>Still crazy</em></p>
<p><em>Still crazy after all these years.</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Dez anos depois</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 04:49:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu amigo Anélio Barreto me liga e fala do 11 de setembro. Rarissimamente temos falado, Anélio e eu, porque somos dois ursos, cada um em sua caverna, e então fiquei um tanto surpreso com o telefonema. Explicou que tinha se lembrado de mim porque, dez anos atrás, estava em Paris com a Lúcia. Beberam umas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu amigo <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/anelio-barreto/">Anélio Barreto</a> me liga e fala do 11 de setembro.<span id="more-5350"></span></p>
<p>Rarissimamente temos falado, Anélio e eu, porque somos dois ursos, cada um em sua caverna, e então fiquei um tanto surpreso com o telefonema.</p>
<p>Explicou que tinha se lembrado de mim porque, dez anos atrás, estava em Paris com a Lúcia. Beberam umas no Deux Magots; ele ficou sabendo que haveria, à noite, na igreja de Saint-Germain de Près, do outro lado da pracinha, um concerto, que prometia ser muito bom. Comprou as entradas, voltou para o Deux Magots, terminou o drink. Na volta para o apartamento que havia alugado, pararam numa lan house. Ele entrou então no estadao.com – e viu a notícia, com a frase “parecia um filme de ficção científica”. Claro, não foram a concerto algum, aquele dia.</p>
<p>Agora, dez anos depois, recordou-se disso, desse pequeno detalhe. E quis me contar.</p>
<p>Eu tinha esquecido completamente que usara essa frase, essa imagem, dez anos atrás. Mas sabia que havia guardado prints dos diversos momentos da home page do estadao.com no dia 11 de setembro de 2001. Fui atrás deles.</p>
<p>O primeiro título, às 10h01, foi “Avião bate no World Trade Center em NY”. Embaixo, o olhinho, a linha fina: “As TVs transmitem ao vivo uma cena da mais desvairada ficção científica: um avião chocou-se contra um dos dois prédios gêmeos do World Trade Center, em Nova York. Aguarde mais informações.”</p>
<p>O das 10h25 tinha quase o mesmo título: “Aviões batem no World Trade Center em NY”. Embaixo de uma foto, o olhinho começava do mesmo jeito: “As TVs transmitem ao vivo uma cena da mais desvairada ficção científica: um avião chocou-se contra um dos dois prédios gêmeos do World Trade Center, em Nova York. Poucos minutos depois, houve uma violentíssima explosão no outro prédio: era outro avião batendo. Gigantescas nuvens de fumaça saem dos dois prédios”.</p>
<p>Um print que também traz o horário de 10h25 mostra que a home do estadao.com tinha o título “Bush diz na TV que foi ataque terrorista”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“A stranger came up and asked me if I’d heard John Lennon had died”</strong></p>
<p>Alguns momentos a memória da gente acaba guardando para sempre. Outro dia Dona Lúcia, minha sogra, mandou para mim e para Mary uma mensagem em que lembrava que, no dia 24 de agosto de 1954, o dia em que Getúlio Vargas se matou, ela <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/o-vestido-de-noiva-no-dia-em-que-getulio-morreu/">estava provando o vestido de noiva</a>. Como era uma mensagem deliciosa, um texto bonito, elegante, publiquei neste site.</p>
<p>Paul Simon fez uma canção, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BhBvh1cwA0w">“The Late Great Johnny Ace”</a>, dizendo que estava andando na rua, através da “maré do Natal”, quando um estranho chegou pra ele e perguntou se já sabia que John Lennon morrera – e ele e o desconhecido foram para um bar e ficaram lá até a hora de fechar.</p>
<p>Me lembro bem onde eu estava na hora em que soube que John Lennon morrera. Tinha acabado de chegar em casa, vindo do jornal, mais de meia-noite, e o César Giobbi me ligou; tinha sido avisado, estava já no jornal preparando um segundo clichê; perguntou se eu poderia ajudar, escrever a discografia dos Beatles e de John.</p>
<p>O <em>Jornal da Tarde</em> foi o único dos jornais de São Paulo a noticiar no dia seguinte a morte de John Lennon.</p>
<p>Lembranças, lembranças.</p>
<p>Me lembro que, no dia seguinte, na redação, o Anélio me disse que o dr. Ruy tinha ficado puto com o destaque dado à morte “daquele roqueiro casado com aquela japonesa”.</p>
<p>Lembranças, lembranças.</p>
<p>Depois do telefonema surpreendente do Anélio, fui postar no site a crônica semanal do <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/ha-dez-anos/">Fernando Brant</a> – em que ele se lembra que, na manhã dos ataques terroristas às torres gêmeas, estava viajando de Belo Horizonte para o Rio.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O sujeito comemorou a derrota imposta pelos camaradas terroristas aos americanos</strong></p>
<p>Me esquecera completamente de que, na hora, escrevi na home do estadao.com que as TVs transmitiam uma cena da mais desvairada ficção científica.</p>
<p>Claro, lembrava que estava no trabalho; era na época o editor-chefe do portal do Estadão. Lembrava do trabalho febril, louco, em um dia longo, que não terminava nunca. Quando a gente está trabalhando em cima da notícia, não tem muito tempo para examinar sensações, sentir dor, pesar, pânico: é preciso trabalhar – depois que fechar aí então a gente pensa, sente.</p>
<p>Do que mais me lembro, no episódio dos ataques do 11 de setembro, foi o choque que levei quando, uns dias mais tarde, uma amiga me contou que o marido dela tinha comemorado, feliz, a derrota que os camaradas terroristas tinham imposto aos filhos da puta dos americanos.</p>
<p>Gostaria de não me lembrar disso. Gostaria demais de ter esquecido isso. Infelizmente, não esqueci – e acho que, se fosse viver mais cem anos, jamais esqueceria.</p>
<p>Um sujeito comemorar, como num jogo de futebol, como ao final da apuração de uma eleição vencida, o assassinato de mais de 3 mil pessoas me parece tão chocante, absurdo, criminoso, quanto os próprios ataques do 11 de setembro.</p>
<p>Meu amigo Anélio se lembra é de uma frase que, em Paris, identificou como sendo minha – uma cena que parece ficção científica.</p>
<p>Anélio não é homem de fazer muitos elogios; os faz, mas não com freqüência.</p>
<blockquote><p><em>11 de setembro de 2011</em></p>
<p><strong><em>Um P.S. necessário:</em></strong></p>
<p><em>Não quis, de maneira nenhuma, ao fazer o relato acima, dizer que a frase, a expressão &#8220;parece ficção científica&#8221; tenha sido boa, ou inteligente, ou uma bela sacada, nem muito menos original. Muito ao contrário: era o que todo mundo pensava na hora, no mundo inteiro, era o que todo mundo falava na redação. A única coisa diferente foi o fato de eu ter usado a frase &#8211; uma exclamação pessoal, emotiva, subjetiva &#8211; numa notícia, num portal de uma das maiores empresas jornalísticas do país. Foi uma pequena, pequeníssima, mínima transgressão à regra eterna da &#8220;objetividade&#8221;, do &#8220;distanciamento&#8221; que se exige dos jornalistas &#8211; só isso.   </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O vestido de noiva no dia em que Getúlio morreu</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 19:15:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 24 de agosto de 1954, uma menina-moça cheia de alegria e sonhos foi experimentar seu vestido de noiva. (Uma nuvem branca de filó e rendas.) Quando chegou à frente do espelho, olhos abertos de encantamento, rodopiando com leveza sua cinturinha de 50 centímetros, ouviu, através do rádio que tocava ao lado, a noticia: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 24 de agosto de 1954, uma menina-moça cheia de alegria e sonhos foi experimentar seu vestido de noiva. (Uma nuvem branca de filó e rendas.)<span id="more-5217"></span></p>
<p>Quando chegou à frente do espelho, olhos abertos de encantamento, rodopiando com leveza sua cinturinha de 50 centímetros, ouviu, através do rádio que tocava ao lado, a noticia: Getúlio Vargas morreu. Suicidou-se. O susto e incredulidade se estamparam em seu rosto. Em toda a sua vida, durante todos os seus estudos, Getúlio havia sido o único presidente conhecido. Sentou-se na cama, atordoada. Perdeu-se naquele momento, a magia do lindo vestido.</p>
<p>Naquela época ela desconhecia todas as maldades políticas. Sua tristeza era que acabara de morrer o chefe do seu País, o homem que a cumprimentou com um beijo quando os pracinhas chegaram a Belo Horizonte e ela foi a pessoa que os parabenizou em nome das crianças mineiras.</p>
<p>Quanta saudade da inocência de 1954!</p>
<p>Sete dias depois, em 1º de setembro, ela entrava feliz na igreja, ostentando o lindo vestido! Era o início de um casamento feliz, cheio de amor e belos frutos, que durou 54 anos!</p>
<blockquote><p> <em>24 de agosto de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Reali Jr. e o amanhã</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 22:43:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, assim que levantei da cama, recebi a noticia da morte do jornalista Reali Jr. Pra ser sincera, eu não conheci muito o jornalista Reali Jr., conheci mais a pessoa Reali Jr. E é sobre isso que quero falar.Me senti impelida a escrever, mais como uma forma de desabafo. Não pretendo escrever sobre as habilidades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, assim que levantei da cama, recebi a noticia da morte do jornalista Reali Jr.<span id="more-4300"></span></p>
<p>Pra ser sincera, eu não conheci muito o jornalista Reali Jr., conheci mais a pessoa Reali Jr. E é sobre isso que quero falar.Me senti impelida a escrever, mais como uma forma de desabafo.</p>
<p>Não pretendo escrever sobre as habilidades jornalísticas dele, sobre a competência, a honestidade e a integridade dele na hora de levantar e relatar os fatos aos seus ouvintes e leitores. Não. Não quero fazer isso por que acho que sua competência enquanto jornalista é indiscutível. E quem sou eu pra tocar nesse assunto?</p>
<p>Quero falar da pessoa, do ser humano, da criatura boníssima que ele era.</p>
<p>Reali trabalhou com meu pai, o jornalista Sandro Vaia e era amigo da família desde sempre. Vez ou outra nos reuníamos para almoços e jantares em família. Ora aqui em casa, ora na casa deles em São Paulo, ora em Paris. Ok, na verdade em Paris, eu estive com Reali e sua mulher Amélia, uma única vez, numa temporada de dez dias. Eles foram nossos guias pelos Champs Elysées, Louvre e Torre Eiffel. Almoçamos na casa deles e numa noite fria, jantamos num dos restaurantes da moda na época. Pato cru. Eu nojentinha, não consegui comer, e como nao falo um “Si’l vous plaît, asse esse pato” em francês, Amélia educadamente mandou devolver o pato umas 5 vezes até que ele estivesse cozido e aparentemente morto.</p>
<p>Sempre que me lembro dessa história, eu lembro sorrindo, e hoje não tem por que ser diferente.</p>
<p>Numa das vezes que eles vieram aqui em casa, eu estava trabalhando como designer de jóias pra uma loja, e Reali se encantou com as peças e acabou levando todas. Sabendo da proximidade de suas visitas, guardava umas peças pra ele, pois sabia que ele pediria. Sempre levava pulseiras, brincos e colares pras filhas Cris, Lulu, Má e Inha e para as netinhas também. Ele mesmo escolhia as peças, dava palpites, mandava aumentar ou diminuir, porque o braço da menorzinha era muito fininho… enfim escolhia tudo com muito carinho, pensando em cada uma delas. Reali era meu melhor cliente, e o melhor, pagava na hora. rs</p>
<p>Nós pudemos acompanhar de perto todo o sofrimento dele e da família depois do diagnóstico de câncer. Período tenso, claro, com muitos altos e baixos como toda doença. A dedicação da Amélia era impressionate. Dia e noite ao lado dele, às vezes suportando pacientemente suas rabujentices, às vezes, apenas suportando. Normal.</p>
<p>O sonho do Reali era voltar para Paris, mas suas condições físcas não permitiam. Teimoso, chegou a comprar passagem pra ele e pra esposa, por duas vezes, mas os médicos o impediram de ir. Deveriam ter ido.</p>
<p>Daí que ontem, sexta feira, meus pais decidiram que iriam a São Paulo fazer uma visita, já que estavam desde antes do Natal sem vê-lo.</p>
<p>Minha mãe preparou cuidadosamente uma torta diet, daquelas que ele gostava e podia comer (devido a restrição alimentar,não podia comer quase nada). Torta de amêndoas com damasco. Embalou carinhosamente e guardou na geladeira, aguardando a hora de ir.</p>
<p>Só que ontem, justo ontem, eu tinha médico em São Paulo e não tinha com quem deixar minha filha pequena. Pedi, então, para que meus pais ficassem com ela e sugeri a eles que fossem hoje, sábado, visitar o Reali. Eles concordaram.</p>
<p>E hoje, acordei com essa triste notícia, levantei e fui pra cozinha meio sem saber o que fazer, abri a geladeira e vi a torta. Embaladinha, inteira, intacta. Esperando amanhã…..</p>
<p>É… deveriam ter ido.</p>
<blockquote><p><em>Este texto foi originalmente publicado no site <a href="http://malvadezas.com/">Malvadezas</a>, em 9/4/2011.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Historinhas de redação (9): João Werneck e o foca</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Mar 2011 02:32:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[- Serginho, Vivaldi escreveu mais de 500 concertos. Ainda não ouvi todos, e muitos deles ainda não ouvi tantas vezes quanto gostaria. João Werneck me disse essa frase, ou uma frase muito próxima dessa, lá por 1970, ou 1971, quando a redação do Jornal da Tarde ainda era no quinto andar da Major Quedinho, apenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Serginho, Vivaldi escreveu mais de 500 concertos. Ainda não ouvi todos, e muitos deles ainda não ouvi tantas vezes quanto gostaria.<span id="more-4196"></span></p>
<p>João Werneck me disse essa frase, ou uma frase muito próxima dessa, lá por 1970, ou 1971, quando a redação do <em>Jornal da Tarde</em> ainda era no quinto andar da Major Quedinho, apenas o corredor do tempo nos separando da sisudez do <em>Estadão</em>. Faz mais de 40 anos, e a memória da gente se deteriora, mas posso dizer com segurança que não havia na frase de João Werneck, nem no tom com que ela foi dita, qualquer tipo de soberba, de metideza. Ele falava com a mesma naturalidade que usaria para dizer algo do tipo “hoje está quente, né?”</p>
<p>Me lembro pouco de João Werneck. Era um tantinho mais velho que a média das pessoas no <em>JT</em> da época – a faixa etária na redação era ridiculamente baixa –, e trabalhava como copy na editoria de Política, que englobava também Economia, e era chefiada por <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/bill-duncan-o-exterminador-de-conflitos/">Bill Duncan</a>. (O <em>JT</em> só viria a ter uma editoria de Economia mais tarde.) Era uma pessoa simples, extremamente simpática, extremamente competente – e só ouvia música erudita.</p>
<p>Era também uma das pouquíssimas pessoas da redação que me chamavam de Serginho, ou mesmo de Sérgio; praticamente desde que entrei para o <em>JT</em>, em julho de 1970, grudaram em mim esse apelido que nunca mais me largou, Servaz, em contraponto ao já então quase veterano (embora seja só um ou dois anos mais velho que eu) Sérgio Rondino, apelido Serron (do qual ele também não consegue se livrar, por mais que queira). Mas aí estou tergiversando.</p>
<p>Não sei como, acabamos conversando, o veterano João Werneck e o foca verdíssimo Sérgio, ou aquele apelido danado. E ele me falava de música erudita, dos discos que acabara de comprar, das diferentes orquestras, dos diferentes regentes, e eu ouvia fascinado. Até que um dia ousei perguntar se ele também não ouvia música popular, Chico, Caetano, Paul Simon, Dylan.</p>
<p>E ele foi curto e grosso:</p>
<p>- Serginho, Vivaldi escreveu mais de 500 concertos. Ainda não ouvi todos, e muitos deles ainda não ouvi tantas vezes quanto gostaria. Não vou ter tempo na vida para ouvir direito tudo o que Vivaldi escreveu. Nunca vou perder tempo com essas bobagens aí.</p>
<p>Me lembrei da frase dele agora, ouvindo Vivaldi, entre um Chico, um Caetano, um Simon, um Dylan, uma Kate Wolf, uma Joan Baez, um Bach, um Mozart, e muitas outras coisas, e quis anotar a história, mais de quatro décadas depois.</p>
<p>Grande João Werneck.</p>
<blockquote><p><em>Março 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Liz</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Mar 2011 21:46:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Liz Taylor entrou na minha vida com o nome de Leslie. Era uma moça rica do Norte chique, da Nova Inglaterra; um fazendeiro grandão do Texas foi visitar o pai dela, para comprar cavalos. Leslie encantou-se com o cara. O cara, e eu, e mais milhões de pessoas do mundo inteiro nos apaixonamos perdidamente por ela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Liz Taylor entrou na minha vida com o nome de Leslie. Era uma moça rica do Norte chique, da Nova Inglaterra; um fazendeiro grandão do Texas foi visitar o pai dela, para comprar cavalos. Leslie encantou-se com o cara. O cara, e eu, e mais milhões de pessoas do mundo inteiro nos apaixonamos perdidamente por ela.<span id="more-4173"></span></p>
<p>Quando me apaixonei por Liz Taylor, a Leslie de <em>Giant</em>, <em>Assim Caminha a Humanidade</em>, eu não tinha nem 12 anos. Sei lá quantos anos tinha – sei que não tinha nem 12 porque no ano em que fiz 12 comecei a anotar os nomes dos filmes que via, e a primeira vez que <em>Giant</em> aparece no meu caderno é em 17 de setembro dfe 1964, e está lá anotando um R, de repetido, reprise, revisão.</p>
<p>- “Miss Leslie, a senhora é tão bonita que dá vontade de comê-la.”</p>
<p>Me lembro de James Dean-Jett Rink dizendo isso para Liz Taylor. Acho que estava bêbado – bem, Jett Rink estava sempre bêbado – e coberto do petróleo que tinha acabado de jorrar no seu pequeno pedaço de terra. Não tenho certeza se a frase é dita naquela seqüência logo após o petróleo jorrar, nem se a frase era exatamente assim, mas foi assim que ela ficou guardada na cabeça daquele garoto apaixonado desde sempre por Liz Taylor. (Vejo agora a frase exata no iMDB. Minha memória não me traiu, é aquilo mesmo: &#8220;﻿You sure do look pretty, Miss Leslie. Pert nigh good enough to eat!&#8221;</p>
<p>Milhões de garotos no mundo inteiro devem, seguramente, como eu, ter morrido de inveja de Rock Hudson e de James Dean, porque eles estavam perto de Liz Taylor em <em>Giant</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Ver Liz Taylor ao vivo, uma sorte na vida</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/giant3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4182" title="giant3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/giant3.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a>Tive muitas sortes na vida, e uma delas foi ter visto Liz Taylor ao vivo. É verdade que não foi de perto – o lugar que consegui num teatro da Broadway para ver Liz Taylor interpretando a Regina Giddens de <em>Little Foxes</em>, a peça de Lillian Hellmann, em 1981, não era nada bom, era bem distante do palco. Mas foi uma das grandes experiências que tive na vida – uns 20 anos depois de ver Liz como Leslie na tela ver Liz ao vivo como a raposa ambiciosa e sem caráter da peça de Lillian Hellmann</p>
<p>Não sou muito de ficar lendo tudo quanto é fofoca sobre a vida dos artistas, mesmo os que admiro mais. Mas era impossível não ouvir falar do tanto que xingaram Liz Taylor de raposa ambiciosa e sem caráter por ela ter desfeito o casamento – tido como perfeito, maravilhoso – de Debbie Reynolds e Eddie Fischer. Ela era amiga do casal, dizia-se na época, final dos anos 50, e repetia-se muito, naquele começo dos anos 60, em que comecei a anotar os nomes dos filmes que via. Era amiga do casal, visitavam-se – e eis que repente Liz, megera, destruidora de lares felizes, rouba Eddie Fischer da amiga.</p>
<p>Para, pouquíssimo tempo depois, abandonar Eddie Fischer para se casar de novo com outro sujeito! (Essa história está num <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2001/de-repente-no-ultimo-verao-suddenly-last-summer-e-disque-butterfield-8-butterfield-8/">texto que fiz em 2001 sobre dois filmes estrelados por Liz</a>, <em>De Repente, no Último Verão</em>, e <em>Butterfield 8</em>.)</p>
<p>A megera perfeita, consumada!, dizia-se, enquanto meu caderninho ia ganhando mais e mais nomes de filmes com Liz Taylor. <em>Gata em Teto de Zinco Quente</em>, que vi em 1963, num cinema da praça central de Pouso Alegre. <em>Gente Muito Importante/V.I.P.</em>, ela já com Richard Burton, que vi no então novo Cine Palladium, também em 1963. (Em 1964, a festa de formatura da nossa turma do Colégio de Aplicação – e que turma, e que professores! – seria ali no Palladium.) <em>Ivanhoé, o Vingador do Rei</em> – epa!, um capa-e-espada com uma Liz jovem demais, visto em Ponta Grossa, em 1964. <em>Cleópatra</em>, o filme que quase levou a Fox à falência, e que vi no Cine Metrópole, nos primeiros dias de exibição, em 1964 – o mesmo Cine Metrópole em que já havia visto e revisto <em>Giant</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Que megera, que nada. Um bom caráter</strong></p>
<p>Estava na revista <em>Afinal</em>, no período 1984-1988, quando a humanidade conheceu a praga da Aids. A revelação de que Rock Hudson – o galã macho e conquistador de tantos filmes da minha juventude e adolescência, o cara que comia a Leslie de <em>Giant</em>, a Gina Lollobrigida de <em>Quando Setembro Vier/Come September</em> – era homossexual e sofria de Aids, então tida como uma doença de homossexuais, chocou o mundo. E me lembro de ter ficado feliz por saber que Liz foi amiga de Rock Hudson até o fim da vida dele. Dizia-se orgulhosa da amizade com ele. Se não me engano, foi das primeiras grandes estrelas a fazer campanha pelos aidéticos, contra a discriminação aos doentes e aos homossexuais de uma maneira geral.</p>
<p>Liz jamais foi megera. Era um bom caráter.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/liz6.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4183" title="liz6" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/liz6.jpg" alt="" width="500" height="500" /></a>Teve uma vida pessoal tempestuosa, conturbada – mas o que se pode esperar de um ser dotado de uma beleza tão absolutamente fulgurante que cega? que vira estrela aos dez de idade, que faz papel adulto em filme de seis Oscars, baseado em clássico da literatura (<em>Um Lugar ao Sol</em>, de 1951, do mesmo George Stevens de <em>Giant</em>) aos 19, que vira a primeira atriz a receber salário de US$ 1 milhão antes dos 30?</p>
<p>Há muitas atrizes de vida pessoal tempestuosa, conturbada, e dá para entender. Deve ser muito ser ídolo. Mas houve pouquíssimas estrelas tão brilhantes quanto Liz. É brilho demais para um ser humano conseguir suportar.</p>
<p>James Dean, o Jett Rink que queria comer Leslie-Liz porque ela era bela demais, virou ícone porque morreu cedo demais. Assim como Marilyn. Talvez James Dean e Marilyn sejam os maiores ícones do cinema – em parte porque morreram cedo. Liz não teve essa glória – ou essa paixão. O mundo a viu envelhecer, engordar, enfeiar. Ao receber imensa ovação de seus pares, todos respeitosamente de pé, ao final da cerimônia do Globo de Ouro de 2001, atrapalhou-se um pouco, teve que vir alguém para ajudá-la a ver de onde ela leria o nome dos indicados para o prêmio de melhor filme, categoria drama. Mostrou ao mundo sinais de seu envelhecimento.</p>
<p>Criamos uma sociedade tão cruel que se valorizam mais os mortos jovens que os grandes que sobrevivem mais alguns anos.</p>
<p>Liz já estava velha e gorducha quando deu mais um exemplo de sua grandeza de caráter, ao ficar firme ao lado do amigo Michael Jackson quando a imprensa e o público começaram a jogar pedras sobre ele. Amigo é pra essas coisas – quem fica ao lado do amigo nas horas ruins tem caráter, fibra.</p>
<p>Liz tinha tanto caráter e fibra quanto teve maridos. Muitos maridos, muito caráter, muita fibra.</p>
<p>Liz era como Leslie, sua personagem no belíssimo filme de 1956. Leslie diz a Bick Benedict-Rock Hudson, depois que ele apanha, leva muita porrada de um racista escroto, que nunca, em mais de um quarto de século, tivera tanto orgulho dele quanto ao vê-lo ali no chão, esmurrado, caído no chão, no meio dos restos de comida e pratos quebrados. Porque Bick, que havia no passado defendido coisas erradas, tinha sido, ele mesmo, elitista, racista, agora tinha brigado pela coisa certa.</p>
<p>Salve, grande. imensa Liz!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Galeria de fotos</strong></p>
<p>Um P.S.: É imperdível <a href="http://www.life.com/gallery/52391#index/0">a galeria de fotos que o site da revista <em>Life</em> publicou</a>.</p>
<blockquote><p><em>23 de março de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Montand, Semprun, o Brasil e eu</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 02:06:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[﻿Aquilo deve ter sido, sem dúvida, uma coisa louca, inimaginável, emocionante, de arrepiar, de dar taquicardia: no Maracanãzinho lotado, Yves Montand anuncia que vai apresentar “Les Bijoux”, de Baudelaire. E fez-se silêncio. Um silêncio como o gelo que queima. Quatorze mil pares de olhos arregalam-se, paralisam-se, fixam-se nesse homem imóvel, aparentemente desenvolto e relaxado, tranqüilo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>﻿Aquilo deve ter sido, sem dúvida, uma coisa louca, inimaginável, emocionante, de arrepiar, de dar taquicardia: no Maracanãzinho lotado, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-e-o-mundo/">Yves Montand</a> anuncia que vai apresentar “Les Bijoux”, de Baudelaire.<span id="more-4113"></span></p>
<p><em>E fez-se silêncio. Um silêncio como o gelo que queima. Quatorze mil pares de olhos arregalam-se, paralisam-se, fixam-se nesse homem imóvel, aparentemente desenvolto e relaxado, tranqüilo, mas cuja tensão contida se advinha. A pulsão vital.</em></p>
<p>O Maracanãzinho em absoluto silêncio, por alguns segundos, durante um espetáculo musical – não um show de rock, cheio de adolescentes, mas um espetáculo musical de um senhor de uns 60 anos de idade, francês, falando nessa língua que tão poucos brasileiros dominam. O senhor de uns 60 anos de idade, calça e colete de veludo preto cotelê, o colete aberto sobre uma camisa branca, anuncia que vai apresentar um poema de Charles Baudelaire, morto uns 120 anos antes – e Maracanãzinho faz absoluto silêncio para ouvi-lo.</p>
<p>Não é à toa que o escritor e roteirista Jorge Semprun escolheu exatamente esse momento para abrir seu livro <em>Yves Montand: A Vida Continua</em>, não propriamente uma biografia do extraordinário ator, cantor, showman, mas um “retrato-ensaio” sobre o artista e sua relação com a política, o mundo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro1.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro2.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4120" title="yveslivro" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yveslivro3.jpg" alt="" width="166" height="250" /></a>O parágrafo de Semprun que reproduzi acima vem logo na primeira página do livro. Uma dúzia de páginas adiante, ele escreve:</p>
<p><em>Montand está terminando de cantar “Les Bijoux”. Quatorze mil brasileiros retêm a respiração. (.,..) No enorme silêncio que se segue, ouve-se a multidão retomar o fôlego. Percebe-se, tal como um zumbido de floresta, a respiração liberada dessa multidão. Depois, numa fração de segundo, estoura uma ovação, retumbante, interminável, enfunando através das arquibancadas como um vento de tempestade.</em></p>
<p><em>Volto-me para Catherine Allégret </em>(a filha de Simone Signoret, mulher de Montand, na foto grande abaixo)<em>.</em></p>
<p><em>Olhamo-nos, a boca ainda seca, os corações ainda úmidos. Aí está, o equilibrista chegou até o fim de seu fio, estendido lá no alto, sob os arcos.</em></p>
<p><em>Ele venceu.</em></p>
<p><em>E nós temos a impressão, num riso incontrolável, de haver ganho com ele, neste estádio do Maracanãzinho, onde os espectadores, de pé, não param de aplaudir.</em></p>
<p><em>- Ele é doido, esse sujeito é doido – murmura Catherine na glória.</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A maior turnê da vida do gigante Montand</strong></p>
<p>A apresentação de Yves Montand no Maracanãzinho, na noite de 31 de agosto de 1982, fez parte de uma turnê mundial do artista, a maior de sua carreira. Foi uma temporada que se iniciou em outubro de 1981, no palco do Olympia, a sala de espetáculos construída em 1893 que é o coração da canção francesa. Todos os grandes da canção francesa já se apresentaram no Olympia – Jacques Brel, Edith Piaf, Georges Bécaud (Lelouch filmou parte de uma apresentação de Bécaud ali, para seu filme <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/toda-uma-vida-toute-une-vie/">Toda uma Vida</a></em>), Charles Aznavour, Charles Trenet, Johnny Hallyday e Sylvie Vartan, Georges Moustaki&#8230;</p>
<p>(Mary conseguiu me levar a Paris em 2003 porque, numa noite em que ela pela bilionésima vez tentava de convencer a enfim fazer a viagem, fiz um desafio bêbado: “Só se for pra ver um show do Moustaki”. Meses depois ela reservou dois lugares na sexta fileira da platéia do Olympia, onde Moustaki se apresentaria em curta temporada. Mas esta é outra história.)</p>
<p>Montand já havia se apresentado no Olympia em diversas ocasiões, sempre com a casa de Bruno Coquatrix, de maravilhosas poltronas forradas de veludo vermelho, boca de cena enorme, acústica perfeita de catedral, cheia, abarrotada. A temporada de 1968 tinha ficado na memória de milhares de pessoas. Em 1974, fez um único espetáculo, para recolher fundos para os chilenos exilados após o golpe militar que derrubou Salvador Allende em setembro do ano anterior.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesolym.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4122" title="yvesolym" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesolym.jpg" alt="" width="455" height="455" /></a>Em outubro de 1981, iniciou uma série de apresentações ao longo de três meses no Olympia, sempre lotando a casa. De Paris, saiu em turnê pela França, e depois por alguns privilegiados países europeus – Suíça, Bélgica, Alemanha Federal, Holanda. Voltou para mais algumas semanas no Olympia, e, em 26 de agosto de 1982, iniciou a turnê mundial pelo Brasil. Cantou no Municipal de São Paulo, após a entrega dos Prêmios Molière, e depois no Teatro Nacional de Brasília, no Municipal do Rio e no Maracanãzinho.</p>
<p>Depois do Brasil, Montand apresentou-se nos Estados Unidos: no Metropolitan Opera House de Nova York, no Kennedy Center de Washington, no Orpheum Theater de San Francisco, no Greek Theater de Los Angeles. Depois subiu ao Canadá, para shows em Québec, Ottawa e Montreal. Para terminar no Japão, com apresentações em Tóquio, Osaka e Yokohama.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um livro descoberto por puro acaso – uma maravilha</strong></p>
<p>Jorge Semprun, espanhol de nascimento, francês por adoção, diversos romances publicados, autor de roteiros para alguns dos maiores cineastas europeus, acompanhou o amigo Yves Montand em quase todas as apresentações dessa turnê. Tinha já o projeto de escrever o livro, e a excursão ao redor do mundo serviria como um dos fios condutores de seu texto. O livro sairia na França como <em>Montand – La Vie Continue</em>, pelas Éditions Denoël, em 1983, e seria publicado no Brasil no mesmo ano pela Nova Fronteira, com tradução – bem cuidada, muitas vezes abertamente bela – de Rita Braga.</p>
<p>Descobri o livro bem por acaso, em visita à casa do meu irmão Geraldo, onde havia um exemplar comprado (e nunca lido) por nosso irmão Floriano; depois que se começa a ler, não dá para parar. É um deslumbre o texto de Semprun, de uma riqueza fascinante, tão fascinante quanto a trajetória de Montand, um dos grandes artistas do século XX. Ao ler <em>Montand: A Vida Continua</em>, e ao verificar que exemplares ainda podem ser encontrados no site <a href="http://www.estantevirtual.com.br/">estantevirtual</a>, que reúne dezenas e dezenas de sebos, pensei em escrever alguma coisa sobre ele – se uma única pessoa se animar, a partir daqui, a comprar um livro, já terei sido útil.</p>
<p>Acabei resolvendo fazer dois textos, em vez de um só, porque <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-e-o-mundo/">a trajetória política de Montand &#8211; e de Semprun</a> – é tão importante, tão marcante, que tem que ter uma anotação específica sobre ela. Para este segundo texto aqui, pensei em destacar, como um chamariz para o livro, alguns pontos em que o autor fala do Brasil que conheceu naquele início dos anos 80, a época em que a ditadura agonizava, já tinha havido a anistia, começava a haver a reorganização partidária após a camisa de força de Arena x MDB, o partido oficial e a oposição consentida.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A visão de um intelectual europeu sobre São Paulo, sobre Brasília</strong></p>
<p>Semprun se assustou com a <em>‘enormodernidade’ tropical e capitalista de São Paulo</em>. Sensível, atento, viu de cara a grande ferida da metrópole que escolhi para viver: Vestígios do passado raríssimo, pelo menos à primeira vista. Infelizmente, não é só à primeira vista. <em>O Teatro Municipal, onde Montand vai cantar, é uma dessas raras exceções: deve datar do início do século, é uma espécie de documento histórico.</em></p>
<p>E um pouco mais adiante:</p>
<p><em>Espero que chegue logo a hora de tomar o carro, de atravessar a cidade barulhenta e úmida, para chegar ao Teatro Municipal, numa praça mais ou menos preservada, quase verdejante, um pouco provinciana e encantadora, no meio da rede de vias de grande circulação, que se entrecruzam em vários níveis. Espero que penetremos na brusca frescura da ampla sala à italiana, na qual se advinham na penumbra os vermelhos escurecidos e os ouros patinados.</em></p>
<p>Uma acurada descrição do Municipal, da Praça Ramos ao lado, o Viaduto do Chá, o Anhangabaú embaixo – o Centro da maior cidade do país, um Centro hoje tão abandonado, pixado, sujo, ainda imponente, mas agredido, desleixado, apesar de todas as tentativas do poder público e da iniciativa privada em revitalizá-lo. O Centro de São Paulo, penso aqui hoje, pode até ter sido vítima da incúria do Estado, mas na verdade aviltado foi pelas pessoas, pela sociedade, por nós mesmos.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesesimone.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4123" title="yvesesimone" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesesimone.jpg" alt="" width="1000" height="616" /></a>Poucas grandes cidades brasileiras conseguiram preservar bem suas áreas centrais. São Paulo, a maior de todas, infelizmente é o pior destes tantos tristes exemplos. Semprun captou muito bem o desencanto que o Centro de São Paulo inspira.</p>
<p>Mais acurada ainda é descrição de Semprun faz de Brasília.</p>
<p>Um ex-colega de <em>Estadão-Agência Estado</em>, um gaúcho exilado no Planalto, cujo nome infelizmente me escapa, definiu a capital federal com brilho, durante um período em que eu mesmo estive exilado lá por algumas semanas:</p>
<p>- “Brasília não é uma cidade, é um autorama!”</p>
<p>Depois da definição rascante do gaúcho, eis a do cidadão do mundo Jorge Semprun:</p>
<p><em>A embaixada da França, um prédio de beleza simples, dando para a paisagem ambiente, localiza-se obviamente no setor das embaixadas. Em Brasília há um setor para cada coisa, para cada atividade. É uma cidade inventada por um homem, Kubitschek, e implantada por uma comissão de urbanistas e de planejadores, bem no centro da savana brasileira dos altiplanos. Uma cidade multicor nascida de uma vara de condão voluntarista no solo de laterita vermelha, em meio às abundâncias verdejantes, luxuriantes de vegetação. Portanto, como todo produto da imaginação racional dos homens, Brasília é um delírio. (&#8230;) Às vezes, em compensação, o delírio tende à monotonia burocrática, ao urbanismo arbitrário. Há um setor para as embaixadas, um setor para os engenheiros, um setor para os açougues e armazéns, um setor para as atividades culturais. Talvez um dia, se a cidade conseguir humanizar-se com o tempo, isto é, escapar do peso burocrático que no momento planeja todas as suas pulsões, talvez um dia haja um setor para a vida. A vida boa ou má, pouco importa, mas a vida afinal. No momento, não há um setor para a vida. Realmente não se fez um setor para a vida nessa cidade de sonho.</em></p>
<p>Que absoluta maravilha!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A sorte poupou Montand de conhecer aquilo que viria a ser um embuste</strong></p>
<p>Quando passou pelo Brasil, em 1982, naquele distante tempo em que muita gente de bem admirava um jovem dirigente sindical do ABC paulista, Montand quase o conheceu pessoalmente. O acaso acabou por poupá-lo do que teria sido seguramente mais uma de suas decepções, entre tantas as que teve com políticos ditos de esquerda que depois se provariam não mais que blefes, embustes.</p>
<p>Semprun narra uma conversa que teve com Montand, num restaurante de frente para o mar – imagino que em Copacabana -, onde foram comemorar a apoteose do Maracanãzinho. O restaurante havia sido fechado para o grupo. Beberam-se caipirinhas – <em>batida à base de aguardente, comparável aos mojitos cubanos</em> –, cervejas. Algumas pessoas foram indo embora, Semprun e Montand foram ficando, até que as primeiras luzes do dia começaram a ser vistas sobre o mar, através das vidraças:</p>
<p><em>Montand me fez perguntas sobre as pessoas com que eu me encontrara. Falei-lhe de Fernando Gabeira. Lembra-se da noite em sua casa, em Autheuil, com Régis? (Régis Debray, famoso desde maio de 1968, que, uma noite, acompanhado por uma brasileira na casa de campo de Montand e Simone Signoret, discutiu violentamente com Semprun, defendendo Fidel, o Che, a idéia de espalhar vietnãs, como se dizia na época, pela América Latina.) Ele se lembrava. Muito bem até. (&#8230;) Falamos de Régis. Depois, contei-lhe minha entrevista com Lula, o dirigente sindical dos metalúrgicos de São Paulo, candidato às eleições. Em São Paulo? E por que não fui com você?, perguntou-me. Por pouco não ficava ressentido comigo pelo fato de ter ido sozinho a essa entrevista. Mas você estava ensaiando com os músicos, digo-lhe. Ele sacode a cabeça, ainda assim sente-se frustrado. Quer que lhe conte a entrevista detalhadamente.</em></p>
<p>(Na foto logo abaixo, Montand e Edith Piaf.)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Jornalistas brasileiros no livro de Semprum</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvespiaf.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvespiaf1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4132" title="yvespiaf" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvespiaf1-300x196.jpg" alt="" width="300" height="196" /></a>Semprun transcreve trechos do que a imprensa brasileira falou sobre os shows de Montand. Traz trechos de Rubens Ewald Filho no <em>Estadão</em>, de Pepe Escobar na <em>Folha</em>, da falecida <em>Manchete</em>, do <em>Jornal de Brasília </em>(não deve ter anotado os nomes dos autores destes últimos textos, porque não os cita). Fala um trecho de um perfil de Montand publicado na revista <em>Nova</em> por Rodolfo Konder, e escreve:</p>
<p><em>Sei que Rodolfo e Leandro são irmãos, porque conheço bem este último, Leandro Konder. É um velho amigo. Ou seja, é jovem, mas somos amigos há muito tempo. Conheci Leandro Konder em Paris há vários anos. Ele estava exilado. Foi um dia à minha casa, a fim de gravar uma entrevista.</em></p>
<p>Semprun demorou a dar a entrevista, mas Leandro insistia. Até que mandou para o escritor uma bem-humorada ameaça: ou Semprun dava enfim a entrevista, ou o brasileiro redigiria sozinho as perguntas e as respostas, e diria que ele, Semprun, era um admirador de Georges Marchais. <em>Imediatamente, como me fizera rir, obteve meu texto.</em></p>
<p>Para lembrar: Georges Marchais era então o líder máximo do Partido Comunista Francês – e Semprun tinha por ele o maior desprezo. Ele e também Montand. Artistas, intelectuais, sensíveis, inteligentes, ex-comunistas, Semprun e Montand desprezavam tudo o que dizia respeito aos velhos Partidos Comunistas, ainda e sempre apegados ao que ditava o Partido Comunista pai e mãe, o da União Soviética.</p>
<p>Mas aí estou me confundindo – <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/montand-semprun-e-o-mundo/">o texto sobre Semprun, Montand e a política é o outro</a>, não este aqui.</p>
<p>Talvez esteja me confundindo propositadamente, quem sabe influenciado pela própria leitura do livro de Semprun, que teimosamente mistura as coisas, o político e o pessoal, o relato sobre Montand e o relato de sua própria vida. Ao escrever sobre Montand, Semprun é sempre confessional, pessoal, personalíssimo. Seu texto insiste teimosamente em lutar contra a cronologia, assim como sua personalidade insistiu a vida inteira teimosamente em lutar contra a ordem unida do Partido Pai e Mãe.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O texto sobre o livro acabou. Agora falo sobre Montand, Semprun e eu mesmo</strong></p>
<p>Pois então termina aqui esta segunda anotação sobre <em>Yves Montand: A Vida Continua</em>. Se alguma pessoa distraída passar por este site, o recado está dado: estão à venda, ainda, alguns exemplares deste livro delicioso, fascinante, de texto belíssimo, que emociona e faz pensar. É só entrar <a href="http://www.estantevirtual.com.br/q/Yves-Montand-A-Vida-Continua">nesta página do site estantevirtual</a> – após alguns dias, o eventual distraído leitor terá em casa o livro.</p>
<p>Mas, já que estou com a mão na massa, vou em frente nesta anotação. Agora ela passa a ser ainda mais pessoal – uma pálida imitação do que faz Jorge Semprun em seu livro.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesingrid.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesingrid1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4126" title="yvesingrid" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvesingrid1-300x195.jpg" alt="" width="300" height="195" /></a>Tive uma paixão absurda pelo texto de Semprun e pela interpretação de Yves Montand quando era ainda adolescente e vi pela primeira vez <em>A Guerra Acabou</em>, que Alain Resnais fez em 1966 (<em>na foto do filme, Montand com Ingrid Thulin</em>). Semprun já estava, naquela época tão distante, uma década antes da queda da ditadura do generalíssimo Franco, apenas dois anos depois do golpe militar de direita no Brasil, antes ainda dos golpes militares de direita no Uruguai, na Argentina e no Chile, se desentendendo com a nomenklatura do Partido Comunista Espanhol, servo fiel do PCURSS. O personagem que ele criou para ser interpretado por Montand já questionava os métodos, as escolhas do partido.</p>
<p>Tantas décadas passadas, ainda me lembro bem de como Diego Mora, o personagem de Montand, dizia para si mesmo que os altos dirigentes do partido achavam que a proximidade da realidade o estava cegando, fazendo com que ele deixasse de ver as coisas como elas deveriam ser vistas.</p>
<p>Radicado na França, assim como o próprio Semprun, Diego Mora fazia viagens clandestinas à Espanha sob a ditadura de Franco, para levar aos camaradas do partido as diretrizes vindas da secretaria-geral. Exatamente como Semprun. E Diego Mora, também como seu criador, revolvia-se em dúvidas.</p>
<p>Em Paris, longe da Espanha sob a ditadura, os dirigentes diziam que a proximidade da realidade estava cegando Diego Mora, fazendo com que ele deixasse de ver as coisas como deveriam ser vistas.</p>
<p>As conversas de Diego Mora consigo mesmo estão presentes na minha cabeça há quatro décadas. Jamais consegui esquecê-las.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Montand, o Cine Guarani, Marilyn Monroe</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/marilyn3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4136" title="marilyn3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/marilyn3.jpg" alt="" width="400" height="462" /></a>Esqueci, no entanto, por que raios não fui ver Montand no Municipal, em 1982. E por que raios, tendo perdido o show de Montand no Municipal, não fui vê-lo no Maracanãzinho.</p>
<p>A primeira vez que vi Yves Montand – constato, vendo meu primeiro caderninho em que anotava os nomes dos filmes a que assistia – foi em 1962, aos 12 anos de idade, portanto. Quando Marilyn Monroe morreu, o Cine Guarani, na Rua da Bahia, logo acima da Augusto de Lima, fez um festival, um filme de Marilyn a cada dia. Vi quase todos, inclusive <em>Adorável Pecadora/Let’s Make Love</em>, de 1960.</p>
<p>Todo mundo está (ou pelo menos estava) cansado de saber que, naquela época, fazendo alguns filmes em Hollywood, Montand e Marilyn se comeram. Marilyn estava então casada com Arthur Miller, mas Marilyn sempre comeu todo mundo que lhe passava à frente, o presidente Kennedy inclusive, é claro. Kennedy era outro grande comedor, me ocorre agora, e comeu até mesmo <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/laura/">Gene Tierney</a>, meu Deus do céu e também da terra, mas essa é outra história. Montand, no entanto, se é que comia fora de casa, comia quieto, ao contrário do personagem que Lelouch o fez interpretar em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/viver-por-viver-vivre-pour-vivre/">Viver por Viver</a></em>, de 1967. Montand era casado desde sempre com Simone Signoret, e viveram juntos, imagino que felizes, até o fim de suas vidas.</p>
<p>Mas o caso de Montand com Marilyn – ou, vá lá, de Marilyn com Montand – fez a alegria do jornalismo sensacionalista, naqueles idos tão distantes de 1960. Quem pensa que o jornalismo sensacionalista, explorador das privacidades dos famosos, começou ontem, ou dez anos atrás, ou 20 anos atrás, é jovem e não sabe de nada do mundo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm1.jpg"></a>Amigo de Montand mas também amigo de Simone (não seria possível ser um amigo de um sem ser da outra), Jorge Semprun procura ser o mais discreto possível, ao abordar esse tema, ao final de seu livro. Esperto, usa um dado inequívoco da realidade para tratar do assunto – uma longa matéria na New York Magazine sobre Montand, publicada em 1982, na época em que o artista iria se apresentar, durante sua turnê mundial, no Metropolitan Opera House. Numa página dupla, publicaram-se três fotos, como Semprun nos relata: uma do extremamemente jovem Yves Montand ao lado de <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/piaf-um-hino-ao-amor-la-mome/">Edith Piaf</a> (sim, a diva feia, comedora insaciável, havia comido um extremamente jovem Montand, assim como havia também comido um extremamente jovem Georges Moustaki), um Montand já maduro ao lado de Marilyn, e um Montand ao lado da esposa.</p>
<p>E aí fico pensando: é preciso ser Simone Signoret para saber que o marido comeu Marilyn Monroe (ou foi comido por ela, tanto faz), e continuar casada para todo o sempre com ele.</p>
<p>Não existem muitas Simone Signoret no mundo.</p>
<p><em>Simone Signoret perguntava-me um pouco irritada: “Não acha que já basta? Ainda vão falar por muito tempo de Montand e Marilyn?</em></p>
<p>A frase está quase no finalzinho do livro de Semprun – Simone, Montand e Semprun estavam em Nova York para a apresentação do cantor-showman no Metropolitan, a imprensa americana insistia em lembrar que aquele senhor francês havia tido um caso com Marilyn, e, é claro, aquela grnade atriz, grande mulher, reclamava, com toda justificativa do mundo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Montand traiu Simone, o personagem de Montand traía o de Ingrid Bergman</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm2.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/yvessimonemm3.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/MARILYN1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4141" title="MARILYN1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/MARILYN1.jpg" alt="" width="740" height="534" /></a>Mas acho que estou de novo misturando estações. Esta parte aqui da anotação não seria para falar de Montand, Semprun e eu mesmo? E então por que estou falando da carreira e da vida de Montand?</p>
<p>O segundo filme que vi com Montand, pelo que mostra meu caderninho de criança, foi em 1964. Nunca mais o revi, pelo que eu saiba não saiu em VHS, nem DVD, mas tenho dele lembranças nítidas – <em>Mais Uma Vez, Adeus</em>, título original <em>Goodbye Again</em>, ou <em>Aimez-vous Brahms?</em>, de 1961, dirigido por Anatole Litvak, nascido em Kiev, Ucrânia, radicado em Hollywood a partir de 1937. Montand faz, no filme de 1961, um ano após <em>Adorável Pecadora</em>, um personagem parecido com o que faria em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/viver-por-viver-vivre-pour-vivre/">Viver por Viver</a></em>, o de um tremendo comedor fora de casa – com a esquisitice absoluta de que em casa ele tinha Ingrid Bergman.</p>
<p>A personagem interpretada por Ingrid Bergman – traída pelo marido como a personagem de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/annie-girardot/">Annie Girardot</a> seria no filme de Lelouch (<em>na foto abaixo</em>) – torna-se o objeto da paixão do jovem interpretado por Anthony Perkins. Vão juntos a concertos em que ouvem a Terceira de Brahms – e desde a época em que vi o filme pela primeira e acho que única vez, em 1964, tive e tenho imensa admiração por Brahms e, em especial, pelo terceiro movimento da Terceira Sinfonia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Algumas pessoas têm sortes na vida</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/vivre.jpg"></a>Era mais velho, tinha 18 anos, acabava de mudar para São Paulo, quando vi, no Cine Belas Artes, Montand interpretar Diego Mora em <em>A Guerra Acabou</em>. E Diego Mora, além de ser um personagem extraordinário, comia, filho da mãe, a personagem interpretada por Ingrid Thulin. Ingrid Thulin, a atriz de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/morangos-silvestres-smultronstallet/">Morangos Silvestres</a></em>, <em>Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse</em>, <em>O Silêncio</em>.</p>
<p>Não consigo me lembrar extamente quando foi que me apaixonei pelo cantor Yves Montand. Sei, no entanto, dizer exatamente onde e quando li e ouvi pela primeira vez Jacques Prévert – o livro de Semprun fala trocentas vezes de Prévert, o poeta que Montand cantou como ninguém mais, autor da letra de “Les Feuilles Mortes”, uma das canções sempre presentes no repertório do artista. Ouvi falar pela primeira vez em Prévert e li Prévert pela primeira vez na vida em 1962, na Rua Carangola, a continuação da Rua da Bahia, porque tive a sorte de ter <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/vivina-de-assis-viana/">Vivina de Assis Viana</a> como professora de francês no Colégio de Aplicação. Há pessoas que têm mais sorte na vida do que outras.</p>
<p>(Aqui, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=JWfsp8kwJto&amp;feature=related">um Montand muito jovem cantando &#8220;Les Feuilles Mortes&#8221;</a>; aqui, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=kLlBOmDpn1s">o Montand maduro cantando a mesma canção</a> de Joseph Kosma e Jacques Prévert.)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tive a sorte de ver shows de quase todos os meus maiores ídolos</strong></p>
<p>E, então, a questão das sortes. Mais ou menos na mesma época em que Montand veio ao Brasil, fui ao Municipal ver Moustaki, também num show após a entrega dos Prêmios Molière. Montand se apresentou no Municipal em 1982, e portanto Moustaki deve ter participado da festa dos Molière em 1983, ou 1984. Talvez tenha sido pela consciência de ter perdido o show de Montand – não me lembro, realmente não me lembro, e naquela época fazia poucas anotações pessoais, envolvido com muito trabalho e um período de vida pessoal atormentado – que, ao saber que Moustaki seria o convidado, tenha dado um jeito de conseguir um convite.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/vivre1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4139" title="vivre" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/vivre1.jpg" alt="" width="640" height="384" /></a>Parece ridículo, e é realmente ridículo, mas naquela época se exigia que, para entrar no Municipal para assistir à entrega dos Molière e em seguida ao show de um grande artista francês, as pessoas botassem traje de gala, o que chamamos de smoking.</p>
<p>Sempre detestei terno e gravata, mas, naquele início dos anos 80, para ver Moustaki, aluguei um smoking, pela primeira vez na vida. O convite, não me lembro como consegui, mas certamente foi através de Regina, então editora na Abril, cheia de contatos.</p>
<p>O show de Moustaki no Municipal não foi glorioso. Ao contrário. A imensa maioria das pessoas não conhecia Moustaki – ele é bem menos conhecido que Montand, evidentemente. As pessoas iam deixando o Municipal enquanto Moustaki cantava.</p>
<p>Mas valeu, ah, valeu ter visto Moustaki cantar.</p>
<p>O show dele que vi com Mary na sexta fila do Olympia de Paris em 2003 foi muitíssimo melhor.</p>
<p>Mas o que não consigo entender é por que não tentei ir ao show de Montand.</p>
<p>Naquela mesma época, fui ao Maracanãzinho ver o primeiro show de Mercedes Sosa no Brasil. Algum tempo depois, levei Fernanda e Inês ao Maracanãzinho para ver Tetê Espíndola cantar, numa final de festival, “Escrito nas Estrelas”.</p>
<p>Tive a sorte, a felicidade, o privilégio de ver shows de quase todos os meus maiores ídolos.</p>
<p>Jamais vou me perdoar por não ter visto ao vivo Yves Montand.</p>
<blockquote><p><em>Março de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Cuidar do meu pai, cuidar do meu filho</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Mar 2011 21:01:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Um amigo meu, por quem tenho grande respeito e admiração, viveu uma experiência fascinante, rara, rica, de adotar como filho um rapaz que conheceu na vizinhança. Ele relatou a história em um texto que serviria de base ao processo de adoção, apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo. É uma história emocionante, contada num [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Um amigo meu, por quem tenho grande respeito e admiração, viveu uma experiência fascinante, rara, rica, de adotar como filho um rapaz que conheceu na vizinhança. Ele relatou a história em um texto que serviria de base ao processo de adoção, apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo. <span id="more-4014"></span></em></p>
<p><em>É uma história emocionante, contada num belo texto. Quando o li, pensei imediatamente em publicá-la neste site. Meu amigo e seu filho concordaram com a publicação, desde, é claro, que tivessem seus nomes verdadeiros preservados, por uma questão básica de manter sua privacidade. </em></p>
<p><em>Eis o texto. </em></p>
<p><em>(Pela transcrição, Sérgio Vaz.)</em></p>
<p>Eu tinha comprado uma casa para meu pai, na região próxima ao Pico do Jaraguá, zona norte de São Paulo, em 1979. Nela, ele viveu seus últimos cinco anos, até falecer em 1984. Desde 79, portanto, eu freqüentava a casa onde viria a morar mais tarde. Conhecia quase todos os poucos vizinhos daquela zona semi-rural, cujo atrativo era apenas a magnífica vista para a serra. Ele viveu com alegria nessa casa e tinha relações no bairro como ele nunca tivera nas casas em que morou ao longo de sua vida peregrina. Com a morte de meu pai, a casa que eu lhe dera passou a ser minha, agora de direito e de fato. Era questão de tempo: eu era mais feliz nesse lugar do que na espaçosa casa alugada que ocupava em Pinheiros. Também em Pinheiros eu tinha meu consultório de Psicologia, que prosperava fortemente, depois de minha saída de uma empresa da área química, onde por vários anos tinha sido um bem-sucedido executivo de Recursos Humanos, depois de passar por duas outras empresas multinacionais. Portanto, aos 37 anos de vida, eu estava cheio de realizações profissionais, de sucesso e de perspectivas de crescimento.</p>
<p>De 84 a 86, Jaraguá foi minha casa de fim de semana e minhas estadias me davam a oportunidade de conviver com a população local, que me recebia com grande simpatia. Meus vizinhos de parede, seu Zito e dona Luzia, tinham uma enorme família, dez filhos e uma penca de netos. Viviam ali fazia muitos anos. Irmãos e primos de seu Zito e dona Luzia também estavam no bairro desde o começo, quando a fazenda do sr. N. fora loteada e vendida, e também tinham numerosa prole, o que animava a pacata vida do pedaço.</p>
<p>Em 1986 tomei a decisão mais óbvia: eu devia morar onde era mais feliz, apesar dos vinte quilômetros de distância que passaria a ter que percorrer para ir ao consultório todos os dias. Mudei-me para a região do Jaraguá, passando a voltar para casa todas as noites, além dos fins de semana. Estava em busca de unidade e essa mudança me produziu um grande bem ao acabar com a duplicidade de residências.</p>
<p>Em diversas ocasiões e com freqüência crescente, passei a receber a visita de Nicolau, João e Mário, primos entre si, frutos do clã mencionado, os Pereira, que demonstravam grande prazer em conviver com alguém vindo de outro lugar, e principalmente, de outra faixa sócio-cultural. Nossas conversas sobre política, economia, cultura, viagens, estudos, trabalho, profissões, costumes e comportamento eram muito animadas e os três pareciam desfrutar da visão de que outros horizontes de vida eram possíveis, para além dos limites da vida de um bairro de periferia. Eu, que padecia de um mal que eu denominava de “paternidade ociosa” e tinha o risco permanente de paternar em excesso meus irmãos e meus clientes de terapia, encontrava nesse convívio um vínculo propício para cuidar do desenvolvimento deles três, associado ao meu. O bem que eu fazia a eles era equivalente ao bem que eles me faziam.</p>
<p>Em 1988, em outubro, um episódio dramático fortaleceu minha ligação com os três Pereira. Ao entrar com meu carro na garagem de casa fui vítima de um assalto a mão armada. Os ladrões me renderam, entraram na minha casa e reviraram tudo, procurando armas que eu jamais pensara em possuir. Foi uma passagem triste da qual me recuperei com a presença dos amigos de sempre, mas também com o suporte desses três novos jovens amigos que me cercaram de cuidado. Nessa época Nicolau tinha 24 anos, João tinha 22 anos e Mário tinha 14 anos.</p>
<p>O fortalecimento dos laços de afeto foi me levando a cuidar deles com muita atenção. Claro que, quem maior atenção me despertava era o que estava menos encaminhado na vida, por ser o mais jovem. Mário também era o que mais inteligente me parecia e o que apresentava melhores elementos de desenvolvimento intelectual e profissional. Já aos 13 anos ele me dissera que o que queria estudar. E eu já implicava com ele, como um pai chato, porque ele fumava e faltava na escola. Seus pais, tinham se separado fazia pouco tempo. Mário estava com o espaço do pai tão disponível quanto minha paternidade, e foi questão de tempo, pouco tempo, para que se formasse entre nós uma relação muito particular, que ultrapassava a simpatia e a camaradagem das relações de bairro e mesmo a amizade que eu tinha pelos seus primos.</p>
<p>Passei a me ocupar ativamente de supervisionar seus estudos, ensinar-lhe o bom português que minha geração tinha aprendido e tanto apreciava, inscrevê-lo em aulas particulares de inglês, e forçá-lo a freqüentar com regularidade a escola estadual onde completava seus estudos de primeiro grau. Em pouco tempo, criamos uma convivência tão próxima que sua mãe me ligava para saber se o filho ia para casa ou ficava para dormir na minha, onde ele já tinha sua cama.</p>
<p>Quando se aproximava a conclusão do antigo ginásio, propus ao Mário que ele fizesse sua matrícula na Escola Técnica N, já que o ingresso na Escola Técnica Federal de São Paulo parecia uma possibilidade remota para quem tivera uma educação formal deficiente na escola de periferia. Surpreso, ele me disse que sua família não tinha como custear uma escola particular, ao que respondi que, evidentemente, essa era uma função que eu gostaria de assumir. Poder cuidar da formação escolar, intelectual, moral e profissional dele, disse-lhe, era para mim uma grande alegria. Aceitou hesitante, meio receoso, agradecido e sem-jeito, ao mesmo tempo. Parecia que algo não estava bem encaixado na proposta que eu lhe fazia.</p>
<p>Alguns dias depois, Mário me aparece em casa durante o dia (devia ser um sábado) e me diz, grave, nos seus quinze anos: “Eu tenho uma coisa muito importante para te dizer.” Assumo a posição de máxima atenção e peço que diga. E ele me diz: “Eu só aceito tua ajuda se for dentro de uma relação de pai e filho. Se for filantropia, eu não quero!”. Profundamente comovido pela enorme dignidade da atitude do menino, expresso minha felicidade com o momento em que se formaliza, no reino do afeto, a adoção do pai pelo filho. Retribuo: “É uma honra para mim tornar-me teu pai. Tenho orgulho de você e quero que você cresça tudo o que pode crescer. Obrigado por ser tão digno. E obrigado por me pôr nesse lugar da tua vida”</p>
<p>Muita coisa acontece, a partir desse momento fundante, que confirma a natureza da relação existente entre nós como uma relação parental, já acima da amizade, da camaradagem e da simpatia inscritas na nossa história. A primeira delas diz respeito ao fato de que o pai, o Nando, embora separado da mãe e morando longe, continua pai. E eu não quero, não posso e não devo criar na cabeça de meu filho uma competição entre seus, agora, dois pais. Não é fácil, porque as comparações são inevitáveis. Mas eu insisto (com sucesso, devo confessar) em que o Mário concilie nos seus afetos, as duas figuras tão díspares de pai. “Somos muito diferentes, o Nando e eu; mas os dois te amamos e os dois te damos o melhor que te podemos dar.”</p>
<p>A segunda diz respeito à singularidade de tornar-se filho de um homem adulto e solteiro, o que pode ensejar interpretações discrepantes sobre a natureza de nossa relação. Desse risco de imagem encarrega-se o tempo. Nossa convicção nos dá suporte para enfrentar os olhares curiosos e, eventualmente, até as perguntas indiretas sobre uma possível relação homoerótica. A dúvida que víamos em alguns olhares se dissipa com o passar dos meses e dos anos e os que no passado tiveram suspeitas corrigem suas opiniões, e até passam a nos tratar com a admiração que nossa história merece.</p>
<p>A terceira coisa que acontece é o meu desejo de formalizar a adoção, seja por motivos legais, seja por razões de afeto. Passo a dizer ao Mário que quero que ele tenha meu nome e que para mim é importante consumar a adoção que fizemos um do outro. Digo que por motivos sucessórios será mais seguro que ele porte meu nome e que por motivos afetivos eu tenho o direito de ser seu pai oficialmente. Compreensivelmente, ele tem receio de magoar o pai, ao retirar seu nome dos seus documentos para pôr o meu. Aí sou eu que fico hesitante, cauteloso, cheio de cuidados. Claro que eu não quero magoar o pai biológico, mas o passar do tempo me convence de que essa é uma adoção que merece ser legalizada. Neste particular, acabo por ser complacente com a dificuldade dele em relação ao pai biológico e não insisto em meu pedido, para não pressioná-lo. Passam-se anos sem que essa questão fique resolvida, a volumando-se, em mim, o sentimento de pendência até a presente data.</p>
<p>Ao longo dos anos 90, Mário conclui seu curso técnico, faz cursinho e entra na faculdade.</p>
<p>Com marchas e contramarchas, altos e baixos, fazendo muitos esforços para compensar as deficiências e a falta de disciplina da escolaridade de base, Mário afeiçoa-se à busca de informações, torna-se um perito em navegar na Internet, desenvolve uma cultura geral que o singulariza entre seus pares, vive os dilemas de um pertencimento cada vez mais tênue ao seu mundo de origem, viaja para a Europa e conhece outros jovens de sua nova classe social, lê, indaga, pesquisa, busca, como alguém que quer achar um jeito de estar no mundo que seja seu e que seja consistente.</p>
<p>Como parte desse processo, inscreve-se em encontros de estudantes de Administração e, num deles, conhece Alessandra, encantadora moça do Paraná, cursando em Curitiba, a caminho da conclusão. Como seria de esperar, eles se apaixonam e passam a viver no vai-e-vem Curitiba / São Paulo. Algum tempo depois, ele me anuncia: “Paulo (sempre mantivemos o tratamento pré-adoção): eu não quero mais viver longe dela. Vou morar em Curitiba.” Acolho com saudade prévia, mas com alegria, essa nova manifestação de emancipação, processo sempre muito complicado para pais e filhos. Transfere sua Faculdade para lá e se muda.</p>
<p>Durante quase três anos Mário e Alessandra vivem em Curitiba, estudando e trabalhando, procurando viabilizar um volume de trabalho que o mercado local não oferece, até que, em 2003, decidem morar em São Paulo, na casa que reformamos pouco antes da mudança do Mário. A busca por um lugar onde possam trabalhar mais os leva a escolher o lugar que, desde alguns anos, lhes está destinado.</p>
<p>Minha casa é composta por vários lotes que fui comprando dos vizinhos, desde 1986, de tal forma que há cinco moradias unifamiliares, além da área de desenvolvimento infantil, e da área recreativa formada pela sala grande e a piscina. Nesse espaço de quase dois mil metros quadrados transitam hoje meus dois netos: André, que nasceu em dezembro de 2004, e Clarice, nascida em junho de 2006.</p>
<p>Por que quero a adoção? Porque ela expressa a mais palpável verdade: o Mário é meu filho. Assim como a Alessandra é minha nora, e o André e a Clarice já eram meus netos desde o ventre materno, em duas gestações que acompanhei com o mais profundo amor de avô. Quero tornar de direito o que é uma situação de fato. Meu testamento já contempla o Mário como meu filho, mas testamento serve depois da morte. Quero meu filho reconhecido pela lei agora, em vida.</p>
<p>A adoção vai tornar patente a continuidade do amor que me levou a cuidar de meu pai com o mesmo devotamento que dedico hoje ao meu filho e à família que ele constituiu. Quero que meus netos tenham o nome de meu pai.</p>
<p><strong>A decisão da Justiça</strong></p>
<p>Em 23 de Setembro de 2010 o Juiz proferiu a seguinte sentença:</p>
<p>TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO</p>
<p>COMARCA DE SÃO PAULO</p>
<p>FORO CENTRAL CÍVEL</p>
<p>SENTENÇA</p>
<p>Processo nº (&#8230;) &#8211; Adoção de Maior</p>
<p>Requerente:</p>
<p>Paulo (&#8230;) e outro</p>
<p>É o relatório.</p>
<p>Decido.</p>
<p>De há muito superada a celeuma acerca da possibilidade jurídica de adoção de maiores, vez que não só visa o instituto atingir o exercício do poder familiar, mas também &#8211; e sobretudo &#8211; proporcionar igualdade de filiação.</p>
<p>Os que criticam o instituto, como Antonio Chaves (“Adoção simples e adoção plena “, pág. 607) sucumbem aos argumentos dos que o enaltecem (Sérgio Gischkow Pereira, Estudos do Direito de Família, pág. 123), calcados na exegese ampliativa da norma, a sugerir o lidimo interesse daquele que, já envolvido em situação de fato, busca o respectivo reconhecimento jurídico.</p>
<p>E a hipótese em comento a isto se afina, vez que o adotando, como se percebe, vem recebendo suporte não só material, mas sobretudo moral e afetivo do adotante, para o que contou, desde o início, com o apoio de seus pais biológicos.</p>
<p>Suprida, no aspecto, a questão processual (art. 472 do CPC) da necessária ciência dos pais naturais acerca do pedido, porquanto influente em estado de pessoa e na órbita jurídica daqueles.</p>
<p>Aqui, todavia, a influência se dará restritamente em relação ao genitor natural, a ser substituído formalmente pelo autor, pai adotante.</p>
<p>E há aquiescência formal daquele (fls.12), tal e qual reportada no depoimento de Mário, ouvido em juízo.</p>
<p>Ao mais, pelo que disseram os autores, não sem externarem a importância do ato almejado, já disputam de um convívio familiar que hoje repercute em nova geração, com a qual um deles, o adotante, recebe o inequívoco tratamento de avô para neto.</p>
<p>Ou seja, a relação que se construiu entre os autores ao longo do tempo, e que está ilustrada por fotografias e missivas juntadas, hoje transborda para os filhos e esposa, a ensejar mais do que a consolidação de algo edificado pelo afeto: a sua irreversibilidade.</p>
<p>Se isso não bastasse, e os demais documentos autenticam a riqueza de propósitos, sem qualquer influência ou prejuízo a direito de terceiros.</p>
<p><em>De se acatar, portanto, a pretensão de Mário e Paulo a que doravante sejam, de direito, o que já são de fato.</em></p>
<p>Julgo, pois, procedente o pedido inicial a deferir a adoção de Mário (&#8230;) por Paulo (&#8230;), e, nos termos do art. 1626 e 1627, do C. Civil, deverão ser processadas as alterações registrárias dispostas na inicial, passando o adotado a chamar-se</p>
<p>Mário (&#8230;)</p>
<p>Nos termos do art. 1628 do C. Civil, tais modificações são extensivas aos filhos do adotado, oficiando-se para tanto.</p>
<p>PRIC.</p>
<p>São Paulo, 23 de setembro de 2010.</p>
<p>N. E. P.</p>
<p>Juiz de Direito</p>
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		<title>Sobre o Paranga, o Lira, a Benedito Calixto, e gratidão</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/sobre-o-paranga-o-lira-a-benedito-calixto-e-gratidao/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2011 04:36:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Quase 30 anos atrás, escrevi uma resenha no Jornal da Tarde sobre um show do grupo Paranga. Hoje recebi um e-mail de Negão dos Santos, um dos membros do conjunto. Achei que era engano. A rigor, a rigor, primeiro achei que era para mim, sim. Cheguei até a contar para Mary. Mas aí pensei um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quase 30 anos atrás, escrevi uma resenha no <em>Jornal da Tarde</em> sobre um show do <a href="http://50anosdetextos.com.br/1983/o-belo-som-do-paranga-com-cheiro-de-interior/">grupo Paranga</a>. Hoje recebi um e-mail de Negão dos Santos, um dos membros do conjunto. Achei que era engano.<span id="more-3831"></span></p>
<p>A rigor, a rigor, primeiro achei que era para mim, sim. Cheguei até a contar para Mary. Mas aí pensei um pouquinho, e percebi que era engano.</p>
<p>O e-mail dizia isto:</p>
<p><em>Mestre Sérgio Vaz, aqui é Negão dos Santos do Paranga, São Luís do Paraitinga. Por onde anda? Gostaria de te mandar o DVD </em>Tributo a Elpídio dos Santos<em>, com participação de Renato Teixeira que fizemos na minha (nossa) cidade. Me mande seu endereço por favor. Muito obrigado de coração pelo que você fez por nós.<br />
Negão</em><em> </em></p>
<p>Existem muitos Sérgio Vaz, conforme se pode verificar com uma busca simples no Google. Um deles é famoso – poeta, agitador cultural, costuma, ou costumava, antes de ficar muito famoso, se definir como “o poeta da periferia”, embora seja da Penha, que não chega propriamente a ser periferia.</p>
<p>Respondi para Negão dos Santos:</p>
<p><em>Estou achando, Negão, que talvez você esteja me confundindo com um outro Sérgio Vaz, um poeta, agitador cultural, que se diz “o poeta da periferia”. </em><em></em></p>
<p><em>Eu, que também me chamo Sérgio Vaz, sou jornalista. Muitos e muitos anos atrás, quando o Paranga lançou seu primeiro disco, escrevi uma crítica no </em>Jornal da Tarde<em>, cheia de elogios. Mas não acredito que você se lembre disso&#8230;</em><em></em></p>
<p>Fernanda veio me visitar, e contei a história para ela. Em 1983, quando Fernanda tinha sete, quase oito anos, e era uma menininha espantosamente linda, inteligente, curiosa, eu costumava levá-la a shows, em diversos lugares, mas em especial no Lira Paulistana. Levei-a ao show do Paranga, sobre o qual escrevi a resenha para o <em>JT</em> (o jornal chamava aquilo de “crítica”, designação que detesto), assim como a levei para ver shows do <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/no-tempo-em-que-o-rumo-era-um-grupo-novo/">Rumo</a>, tanto no Lira quanto no Centro Cultural São Paulo, assim como a levei a shows de Tetê Espíndola, no Lira e no Teatro Municipal, uma maravilha de show não me lembro mais em que ano – só lembro que foi poucos dias antes de um Natal, e era Tetê à capella, só ela, sem microfone, com aquele vozeirão absurdo, fininho que nem fio de nylon, e nos sentamos à terceira ou quarta fila do Municipal.</p>
<p>Mas aí tergiversei. É que queria dizer que contei hoje mesmo a história do e-mail de Negão dos Santos para Fernanda, uma jovem senhora espantosamente linda, inteligente, curiosa, agora, quase 30 anos depois, dotada de uma sabedoria que não tinha na época em que era uma criança e eu a arrastava para ver shows no Lira Paulistana, bem pertinho da casa dela, uma quadra e meia de distância da casa dela, na João Moura, o Lira na Teodoro, diante da Praça Benedito Calixto, a praça onde levava Fernanda quase todo dia para brincar desde que tinha pouco mais de um ano de idade e era espantosamente linda, inteligente, curiosa e tinha cachinhos claros e uma paixão inenarrável por caixas de areia.</p>
<p>Mas aí tergiversei mais ainda, como se fosse um Jorge Semprum, e não muito menos que um tostão, um sujeito que não consegue ter sequer o melhor texto de sua própria casa, porque Mary escreve melhor que  eu, e, anônimo, consegue ser confundido com um homônimo famoso.</p>
<p>Depois que Fernanda foi embora para casa, vi que Negão tinha respondido à minha resposta:</p>
<p><em>Oi, Sérgio, sim, é você mesmo, lembro muito bem dessa crítica e agradeço a força que você nos deu, também para a obra do meu pai.</em></p>
<p><em>Tenho satisfação em mandar o DVD pra você amanhã mesmo. Hoje foi o dia do reencontro, pois falei com Tiago Araripe que fez parte da turma do Lira Paulistano e está no Recife.</em></p>
<p><em>Fiquei muito contente de te encontrar, virtualmente.</em></p>
<p><em>Forte abraço.</em></p>
<p><em>Negão</em></p>
<p>E aí me lembrei da inesquecível frase de Caetano no <em>Pasquim</em>: “O Rei esteve na minha casa e eu chorei”.</p>
<p>Quase chorei, pensando em Fernanda, no Paranga, nas coincidências, nos caminhos da vida.</p>
<p>“Tudo pra você agora vira texto, né, paiê?”, ela me disse um dia.</p>
<p>A rigor, eu deveria escrever, logo abaixo da reprodução da minha resenha sobre o show do Paranga no Lira Paulistana em 1983, um breve e informativa nota sob o título de “A historinha por trás do texto” – e pronto.  Mas agora tudo para mim vira texto, e resolvi escrever esta bobagem aqui, como um post independente, e não como uma nota de rodapé abaixo da resenha sobre o show do Paranga.</p>
<p>Quando reproduzi neste site minha resenha (o jornal usava a execrável palavra “crítica”) sobre os dois primeiros discos do Rumo, de 1981, fiz uma nota de rodapé A historinha por trás do texto em que dizia:</p>
<p><em>Há um aspecto absolutamente gratificante no ofício de “crítico”. Ser “crítico” – de cinema, de música, do que for – é um ofício que muita gente gostaria de ter, e que eu, pessoalmente, acho muito duro. Quando o sujeito vira “crítico”, transforma em obrigação o que antes era prazer. Em vez de dar-se ao prazer de ver um filme, ou ouvir um disco, ele passa a ter a obrigação de ver filmes, ouvir discos – e escrever sobre aquilo. Se vira obrigação, deixa de ser prazer.</em></p>
<p><em>Mas esse duro e nada prazeroso ofício tem um aspecto gratificante. É quando você fala bem de um artista novo, ainda não consagrado.</em></p>
<p>Que Negão dos Santos se lembre ainda hoje, quase 30 anos passados, de um sujeito que falou bem do grupo Paranga quando ele estava lançando seu primeiro disco é algo completamente louco, doido de pedra. E ao mesmo tempo lógico, compreensível.</p>
<p>Uma vez eu disse para Mary que vou me lembrar sempre de todas as pessoas que foram ao velório de minha mãe, e mais ainda das que não foram.</p>
<p>É mais uma frase bonitinha do que uma verdade literal – mas expressa um conceito real.</p>
<p>Há coisas de que a gente não se esquece nunca, jamais, em tempo algum. A solidariedade em momento duro – ou a falta dela. O apoio quando precisava demais de um apoio.</p>
<p>Negão comprova isso, inequivocamente.</p>
<p>É uma coisa tão louca que cheguei a duvidar que fosse verdade. Fiquei achando que era alguém mangando de mim.</p>
<p>E aí me lembro de uma outra historinha daquela época – início dos anos 80 – em que eu, subeditor de Reportagem Geral do velho e ótimo <em>Jornal da Tarde</em>, fazia frilas como “crítico” de MPB para o próprio jornal.</p>
<p>Recebia aquele monte de discos enviados pelas gravadoras. Porque era jovem – estava no início dos meus 30 anos –, ou talvez porque fosse um profissional sério, quase tão sério quanto Fernanda é hoje, ouvia tudo com atenção, respeito. Um dia me chegou um disco de uma cantora desconhecida, que assinava várias ou todas as músicas. Propus ao pessoal da Variedades fazer uma “crítica” do disco. O disco tinha saído pela há muito extinta RGE, que na época só lançava porcaria. Nenhum dos grandes jornais elogiava disco algum da gravadora, porque era tudo muito ruim mesmo. O divulgador da RGE só faltou se ajoelhar a meus pés por causa do meu texto. Só depois que o texto foi publicado fiquei sabendo que a moça que eu havia elogiado – Denise Emmer – era filha de dois monstros sagrados, Janete Clair e Dias Gomes. Denise Emmer fazia questão de tentar carreira por si própria, sem ajuda do pai e da mãe famosérrimos. Não virou uma cantora/compositora muito conhecida ou respeitada. Mas falei bem dela porque gostei do disco – nada a ver com seus pais. E ganhei um eterno agradecido, o divulgador da gravadora, bom sujeito, honesto, bom caráter.</p>
<p>Estas mal traçadas não têm interesse para ninguém a não ser para mim mesmo. Sei disso. Mas tive vontade de escrevê-las, porque Negão dos Santos mostrou que existe gratidão neste mundo, e, se existe gratidão, então talvez a humanidade não seja assim exatamente uma invenção que não deu certo. E também porque Fernanda, espantosamente linda, inteligente, curiosa, sábia, cheia de dúvidas e tristezas, esteve na minha casa, e então eu quase chorei.</p>
<p>E, já que falei em gratidão, te agradeço, Suely Rossanez, pela filha que você me deu. E te agradeço, Mary Zaidan, por enfim ter me dado a dádiva maior do amor em paz.</p>
<blockquote><p>       <em>9 e 10/2/2011</em></p>
<p><em>“Quem puxa aos seus não degenera, não”, citado no olhinho deste texto, é de autoria de Walter Franco. Suely e eu vimos um belíssimo show de Walter Franco na Geografia e História da USP, lá por 1972, antes de Fernanda nascer.</em></p>
<p><em>Ah,  sim. E eu fico me devendo um texto sobre o Lira Paulistana.</em></p>
<p><em>Sem contar com o fato de que me devo um texto sobre Walter Franco. </em></p></blockquote>
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		<title>Uma carta</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Dec 2010 01:16:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Geraldão, Se você resolver doar o Beto, remeta para o meu endereço. Foram gratificantes os dias que passamos juntos. Saí daí prevendo alguns atritos com ele – tinha notado uma certa tendência ao excesso de exigência, a querer impor sua vontade como se fosse a única. Mas agora estou certa de que isso é fenômeno [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Geraldão,</p>
<p>Se você resolver doar o Beto, remeta para o meu endereço. Foram gratificantes os dias que passamos juntos.<span id="more-3379"></span></p>
<p>Saí daí prevendo alguns atritos com ele – tinha notado uma certa tendência ao excesso de exigência, a querer impor sua vontade como se fosse a única. Mas agora estou certa de que isso é fenômeno de relação pais-filhos. Comigo, Beto se mostrou companheiro, democrático e bem humorado. Foi, muitas vezes, a alegria da festa. Não vi nele vestígios daquele menino inseguro que esteve aqui dois anos atrás.</p>
<p>Certamente ele já terá contado, ou ainda vai, algumas das nossas aventuras. Eu quero contar especialmente o carnaval, que passamos em Avaré, os três: eu, ele e Inês. Sérgio Vaz ficou em casa trabalhando: matéria sobre o Paul McCartney, o frila da <em>Status</em>. Chegamos a discutir, na véspera, a possibilidade de ele ir e fazer lá a matéria. Acabamos, democraticamente, desistindo. A geladeira da casa estava pifada, teríamos que improvisar com gelo, dentro de um ispor, e com a geladeira da casa dos caseiros. Eu e as crianças somos relativamente frugais, mas Servaz já tem estômago mais exigente, sobretudo quanto aos líquidos. Para mim, levei só três latinhas de cerveja. Para ele, teríamos que levar duas dúzias e a infra-estrutura se complicaria. Consideramos, ponto por ponto, e concluímos que a viagem podia se revelar um desastre, em vez de diversão. Sérgio talvez não conseguisse fazer a matéria na única sala da casa, sem luz adequada, que serve de passagem e de pouso principal. Como conter as crianças – “olha o tumulto”, “o Sérgio tá trabalhando”, “não atrapalha” – num lugar ideal para soltá-las?</p>
<p>Então a intrépida caravana de nós três partiu no sábado, quase nove da manhã. Voltamos na quarta, às duas da tarde. Foram quatro dias fascinantes, e não teriam sido tanto, se o Beto não estivesse junto. Passeamos de bote a remo pelo lago formado pela represa, nadamos longas distâncias, ouvimos música.</p>
<p>Beto e Inês fizeram contato com os donos da casa em frente, do outro lado da represa. Andaram na lancha a motor do bem sucedido proprietário – é advogado, tem negócios e fazendas em Avaré, um liberal que se liberou –, almoçaram lá duas vezes e, pelo gosto deles, teriam freqüentado mais o buchicho da casa cheia de gente, comida boa e mordomia. Mas como eu recusei o primeiro convite para ir até lá à noite – já me imaginaram freqüentando a burguesia avareense, em preciosos dias de folga? –, outros não foram feitos, e eles foram obrigados a viver talvez mais do que gostariam a pobreza franciscana do lado de cá da represa. Mesmo assim, aproveitaram muito. Fiquei momentos embevecida, vendo os dois remando no meio da represa, nadando, fazendo bonecos de lama, inventando brincadeiras. Uma vidinha saudável.</p>
<p>Entrei muito na deles, especialmente nas excursões náuticas, e constatei uma antiga suspeita: a minha idade verdadeira não deve estar muito além dos 12, 13. Se tiver que escolher companhia para viajar, tirando os três adultos mais chegados, fico com Inês e Beto na cabeça. Eles são dispostos e disponíveis, pouco complicados e arrojados. Qualquer proposta é aceita, e quanto mais louca, mais votada. Briga-se o dia inteiro, mas ninguém briga por causa disso. E eles ainda botam pra fora as aflições.</p>
<p>Inês, por exemplo, me disse um dia que eu estava protegendo mais o Beto. Com razão. Disse, para me consolar, que ela achava que toda mãe fazia isso – proteger mais o visitante, o não-filho. De novo, com razão. Com o filho, a gente tem uma relação diária, contínua, sujeito a tanto desgaste&#8230; O não-filho é a novidade, o sangue novo, e não acrescenta à alma da gente o peso da responsabilidade da educação, da formação, da criação. Relação com filho é sempre tão cheia de culpas, de obrigações, de exigências, que é comum a gente ser pior com o nosso do que com o dos outros. A convivência com o Beto me ajudou a ver isso.</p>
<p>Ele e Inês viraram irmãos, com o tempo. Nos primeiros dias, incluindo os que passamos em Santa Catarina, eram os bons amigos se reencontrando, solidários e dedicados um com o outro. Com o tempo, a convivência, ficaram tão íntimos que debatiam o dia inteiro, e se patrulhavam, e reprimiam. Logo que percebi isso, me alarmei: “meu deus, eles estão reproduzindo as patrulhas e repressões que exercemos continuamente. que calamidade”, mas também logo saí dessa vida, e passei o filme com outro diretor, menos sério: “coisas de irmãos”. Me lembrei muito da minha relação com meu irmão Ronaldo, quatro anos mais velho que eu. Brigávamos sem parar, discutíamos incessantemente, e nos adorávamos. Ele é a figura que ilumina a minha infância.</p>
<p>Inês, evidentemente, teve ciúmes do Beto. De repente, a mãezona exclusiva passou a dividir afeto e atenção. Mas as disputas não surgiram daí, e sim da própria relação deles. Despediram-se com Inês dizendo que não quer ver o Beto nunca mais. Mas com o olho piscando pra mim, admitia que daqui a um mês terá saudades. Propus outras viagens a eles – Rio Amazonas, Rio São Francisco, Porto Seguro. Inês dizia “o Beto não vai, porque com ele não viajo mais”. O Beto dizia “não vou com você, vou com a sua mãe, e, além disso, comigo a viagem fica muito melhor”.</p>
<p>Quero mesmo voltar a viajar com eles. Enquanto eles curtem a minha companhia; daqui a pouco vou ser “aquela velha chata”.</p>
<p>Preciso terminar esta carta, que me parece meio descoordenada – jamais cobicei a organização dos Vaz –, mas deu o recado principal: o Beto me deu uma grande alegria, e à Inês também, mande-o de volta sempre.</p>
<p>Três machices do Beto, só pra distrair:</p>
<p>1) Fizemos o jantar, eu e a Inês, e ele dormiu. Após o jantar, ele foi designado para lavar a louça, e chiou. Nós argumentamos o jantar feito, etc. Ele disse: “Mas vocês são mulheres, têm que lavar a louça”. Foi longamente vaiado.</p>
<p>2) Saímos de barco, eu e Inês, e fomos para bem longe. Na volta, ele estava berrando, da margem: “Como é que vocês foram para tão longe. Fiquei preocupado. Já pensou ter que ir lá buscar vocês?”</p>
<p>3) Sobre viajar ou não com a gente, futuramente: “Mas, Inês, eu tenho que ir. Vocês precisam de um homem com vocês&#8230;”</p>
<p>Beijos, beijos, beijos,</p>
<p>Regina</p>
<blockquote><p><em>A carta foi enviada sem data. Foi escrita em 1982. </em></p></blockquote>
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		<title>Venga, venga!</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 16:42:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando estive no Peru, há alguns anos, me lembrei de Vargas Llosa nos lugares por onde andei, poucos. Lima, Cuzco, Machu Pichu. Em Lima, sua lembrança não me visitou apenas no centro da cidade, a catedral enorme, com marcas de cultura inca, domínio espanhol e terremotos, dividindo o espaço com o Palácio do Governo – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando estive no Peru, há alguns anos, me lembrei de Vargas Llosa nos lugares por onde andei, poucos. Lima, Cuzco, Machu Pichu.<span id="more-3013"></span></p>
<p>Em Lima, sua lembrança não me visitou apenas no centro da cidade, a catedral enorme, com marcas de cultura inca, domínio espanhol e terremotos, dividindo o espaço com o Palácio do Governo – Fujimori lá dentro –, trocando de guarda sei lá quantas vezes. Dia e noite.</p>
<p>Ela não me visitou, também, apenas nos bairros periféricos, água escorrendo por ruas sem dono, mendigos amanhecendo em calçadas esburacadas.</p>
<p>Nem apenas nos bairros cosmopolitas de Miraflores e San Isidro, avenidas arborizadas, hotéis internacionais, comércio intenso.</p>
<p>Ela subiu comigo ao morro de San Cristóbal, ponto mais alto da cidade, onde me senti uma sobrevivente.</p>
<p>Para se chegar lá, enfrentava-se uma jardineira sacolejante, que escalava a montanha íngreme, com curvas indescritíveis, serpenteando por uma estradinha de interior mineiro, infinitamente mais estreita que qualquer veículo que ousasse desafiar o bom senso. Milagres existem.</p>
<p>A lembrança de Vargas Llosa me acompanhou quando encontrei o Pacífico, praias cinzentas circundadas por morros andinos, pedras substituindo a areia.</p>
<p>Ah, ela esteve ao meu lado nos museus – tantos! – , entre eles o Rafael Larco Herrera, com uma coleção de arte erótica indígena – em cerâmica –, viagem surpreendente às mais remotas origens da civilização inca.</p>
<p>No entanto, ainda que presente em todos esses lugares, foi no meio das ruas, no movimento desordenado de um trânsito freqüentemente caótico, que a lembrança me visitou com cores definidas, quase reais.</p>
<p>Com quase nove milhões de habitantes e um transporte público urbano visivelmente deficiente – linhas de trens de superfície ainda sendo planejadas, táxis raros –, o que mais se via em Lima eram micro ônibus que, em alta velocidade, paravam repentinamente, desde que o motorista e seu ajudante percebessem algum sinal, de algum pedestre.</p>
<p>O ajudante de motorista viajava sempre na frente, entrada e, ao mesmo tempo, saída do ônibus.</p>
<p>Em pé, na porta, cabeça pra fora, corpo inclinado, pendurado, quase caindo, com a mão esquerda – invisível para quem estava na rua – ele se segurava. Com a direita, batia na lataria do carro e gritava uma séria quase infindável de nomes.</p>
<p>Nomes de ruas, deduzi.</p>
<p>Como os micro ônibus não possuíam indicações de roteiros, os pedestres se decidiam à medida em que iam ouvindo aquela ladainha.</p>
<p>A ladainha e o sotaque peruano – bom de ouvir, difícil de entender – repetiam, todos os dias, o tempo todo, nomes e nomes. Não apenas de ruas, continuei deduzindo, mas também – certamente – de bairros, vilas, povoados, cercanias.</p>
<p>Pois era a ladainha que me trazia, quase real, a imagem de Vargas Llosa, nascido no sul, Arequipa.</p>
<p>Os nomes e nomes variavam, mas havia um que jamais faltava.</p>
<p>– Venga, Miraflores, San Isidro! Venga, Arequipa, venga, venga!</p>
<p>– Venga, San Cristóbal! Plaza de Armas, Arequipa, venga!</p>
<p>– Venga, Barranco, Catedral, venga! Arequipa, Arequipa!</p>
<p>– Venga, Costa Verde, Arequipa! Venga, venga!</p>
<p>Desde a primeira vez, a cantilena, que se tornaria mais e mais familiar, me fez lembrar que eu tinha um amigo nascido em Arequipa. Amigo de longa data, longas conversas. Desde o primeiro livro. O segundo. De novo, o primeiro. Livro bom, a gente repete. Se possível, decora.</p>
<p>Eu decoraria, além dos livros, os artigos que Vargas Llosa tem publicado, ao longo da vida, no mundo todo. Artigos políticos, coerentes, consistentes, instigantes. Intrigantes. Latino-americanos, universais.</p>
<p>Ontem, com a notícia do Prêmio Nobel, me lembrei de Lima, Cuzco, Machu Pichu. Arequipa.</p>
<p>Fui à estante, abri um dos livros desse amigo fiel, que nunca vi e, tão baixinho que nem sei se ele foi capaz de ouvir, disse-lhe:</p>
<p>– Venga, venga! Quem sabe, dessa vez, te decoro?</p>
<blockquote><p> <em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em><a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp"><em>primeiroprograma</em></a><em>.</em> <em>Outubro de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Filme de terror</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 18:01:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu nasci – quarta de cinco irmãos – dois nomes me esperavam. O de meu pai, Francisco, e o de minha mãe. Herdar – e honrar – um nome nem sempre é tarefa fácil, mas tenho me arranjado. Às vezes, quando faço alguma coisa errada, a coisa fica um pouco complicada. Culpar quem? Minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu nasci – quarta de cinco irmãos – dois nomes me esperavam. O de meu pai, Francisco, e o de minha mãe.<span id="more-2952"></span></p>
<p>Herdar – e honrar – um nome nem sempre é tarefa fácil, mas tenho me arranjado.</p>
<p>Às vezes, quando faço alguma coisa errada, a coisa fica um pouco complicada. Culpar quem?</p>
<p>Minha mãe, a única pessoa com quem poderiam me confundir, não anda mais por aqui.</p>
<p>Nesses momentos, penso que melhor seria – e mais simples – se me chamasse Simone. Adriana. Melhor ainda, Carol.</p>
<p>Ao telefone, nunca me entendem. Ou melhor, entendem, desde que eu adote outro nome.</p>
<p>— Como? Ah, Regina! Tudo bem Regina, depois gente te liga.</p>
<p>— Como? Ah, sim, Viviane! Você pode deixar o telefone, Viviane?</p>
<p>— Como? Zivina? Que nome diferente!</p>
<p>— Como? Ah! Divina, Divina! Que lindo! Nem todo mundo merece um nome desses!</p>
<p>Há alguns anos, quando Leonel – o Prata – e eu estivemos na Mercedes Benz, conversando sobre um futuro trabalho, um dos diretores, após horas de interrogatórios e considerações sobre currículos e afins, concluiu, voz firme, dois ou três tons acima do esperados:</p>
<p>— Muito bem, D. Vívina, vamos apostar na senhora!</p>
<p>Desde esse dia, Leonel se dirige a mim assim, proparoxítonamente. Solidária comigo mesma, antecipei também a sílaba tônica do nome dele, que virou Leônel. E assim, empatados em novas acentuações e pronúncias, incorporamos novos sons e grafias, quase apelidos.</p>
<p>Apelidos? Convivi com alguns.</p>
<p>Criança de fazenda, universo restrito, ganhei dois diminutivos. Miniaturas do nome de minha mãe. Inevitável.  Vivininha, Vininha.</p>
<p>O primeiro perdeu-se no tempo, quando parentes mais antigos – avós, tios – foram desaparecendo.</p>
<p>O outro, quase um segundo nome, tem resistido a tempestades e intempéries. E me aproxima de Vinicius, o poeta de “que seja infinito enquanto dure”, que alguém também cismou de batizar Vininha.</p>
<p>Talvez por querer as coisas de seu jeito, um de meus irmãos, cinco, seis anos, tratou de monossilabar tudo, e virei Nim, por muitos e muitos anos. Pra ele, só ele, até hoje.</p>
<p>Até hoje me lembro de um filme de terror de que me elegeram protagonista. Colégio das freiras, São João del-Rei, anos cinqüenta. Vida coletiva, silenciosa. Filas sem fim, dias afora, noites adentro. Na hora da missa, do café, das aulas, do almoço, do recreio, do banho.</p>
<p>Banho de camisola, tamancos de madeira. Portas sem trancas, a freira – Irmã Irene – policiando os chuveiros, mais de vinte. Portas encostadas, barulho de água caindo.</p>
<p>Todas as tardes, intervalo entre lanche e jantar, ela nos buscava no salão de estudos. Salão enorme, mais de cem internas, da mais nova – eu, quase nove anos – à mais velha, quantos?</p>
<p>Éramos convocadas por turmas, uma de cada vez. Primeira série, segunda, terceira, quantas?</p>
<p>Fila, silêncio, labirintos, biombos sem trancas, mais de vinte. Aí, despíamos uniformes e sapatos, vestíamos camisolas e tamancos.</p>
<p>Uma em cada chuveiro, dez minutos.</p>
<p>Dez minutos. Filme de terror, horror, suspense. Tortura. Lenta, gradual, intensa. Terrível.</p>
<p>Aos oito, nove minutos, Irmã (como, irmã?) Irene nos lembrava. Hora de sair, de chamar outra turma, ninguém podia atrasar ninguém, não era justo, não era certo. Saíssemos.</p>
<p>Nunca dei conta.</p>
<p>Sempre levei a vida devagar. Sem gritos, sem alarde. Sem pressa.</p>
<p>Aprendi datilografia com mais de 30 anos. Comecei a querer escrever uns textos, publicar, e quem poderia garantir que eu teria um marido datilógrafo, ou uma amiga, pro resto da vida?</p>
<p>Tive meu terceiro filho aos 40. Ouvi que, quando tivesse 60, ele teria 20. Correto. Ouvi mais, não teríamos diálogo, gente de 20 não quer saber de gente de 60. Incorreto. Tenho 70, ele acaba de estrear os 30, somos amigos, conversamos muitas conversas. Ouvimos Paulinho, Chico, Pena Branca. Nara. Tomamos vinho.</p>
<p>Aprendi a dirigir aos 55. Ah, pra capotar tive pressa, três anos incompletos.</p>
<p>Nove anos incompletos, o barulho da água caindo apenas de um chuveiro, eu ouvia Irmã Irene, aos gritos, dizer que haviam errado meu nome.</p>
<p>— Você não é Vivina, nunca foi! É Mortuína!</p>
<p>No dia seguinte:</p>
<p>— Vamos , Mortuína, todas já se foram!</p>
<p>No dia seguinte do dia seguinte:</p>
<p>— Vocês conhecem a nova colega? A Mortuína, conhecem?</p>
<p>Droga, por que ainda me lembro disso?</p>
<blockquote><p><em>As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site </em><a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp"><strong><em>primeiroprograma.com.br</em></strong></a><em>, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro &amp; Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). </em></p></blockquote>
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		<title>Ezequiel estava sempre com uma sacola cheia de discos</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 22:43:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu olhava para a sacola imensa que ele carregava, e morria de inveja. Ezequiel Neves, meu ídolo, estava sempre com uma impressionante quantidade de discos. Nunca fomos amigos, nunca conversamos mais do que uma troca rápida de duas ou três frases. Um dia entramos juntos no prédio do Estadão, passamos ao mesmo tempo pela portaria. É [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu olhava para a sacola imensa que ele carregava, e morria de inveja. <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,zeca-jagger-zimmerman,577935,0.htm">Ezequiel Neves</a>, meu ídolo, estava sempre com uma impressionante quantidade de discos.<span id="more-2210"></span></p>
<p>Nunca fomos amigos, nunca conversamos mais do que uma troca rápida de duas ou três frases.</p>
<p>Um dia entramos juntos no prédio do <em>Estadão,</em> passamos ao mesmo tempo pela portaria. É um caminho grande entre a portaria da Celestino Bourroul e o hall dos elevadores, e me sentia intimidado andando ao lado do meu ídolo. Não me lembro da frase que tentei falar; deve ter sido alguma coisa do tipo “Pô, Ezequiel, deve ser legal poder ouvir tudo isso”.</p>
<p>Zeca Zagger virou-se para mim e disse:</p>
<p>- Meu santo, é um saco!</p>
<p>Ele chamava todo mundo de “meu santo”.</p>
<p>Isso deve ter acontecido por volta de 1976, 1977, porque já era o prédio novo do <em>Estadão</em>, no Bairro do Limão, para onde fomos em 1976, o ano em que meu irmão Arnaldo morreu, o ano em que Regina Lemos apareceu e eu saí da casa da minha mulher e da minha filha com uma sacolinha pequena de roupa.</p>
<p>Era fanático pelos textos do Ezequiel desde 1968, o ano em que cheguei a São Paulo. Babava lendo os textos dele no <em>Jornal da Tarde</em> – ele era crítico de música internacional, de rock &amp; pop &amp; o escambau. Eu lia os textos do Ezequiel como um tarado lê Sade, como um crente lê a Bíblia.</p>
<p>Lembro, vou me lembrar sempre de uma frase que ele escreveu sobre o disco <em>Self Portrait</em>, de 1970, em que Dylan gravou “The Boxer”, de Paul Simon; Ezequiel Neves cometeu uma frase assim, tipo assim: é como se Leon Tolstói estivesse homenageando Soljenítsin. Aquilo me deixou profundamente impressionado.</p>
<p>Em 1968 eu era um estrangeiro chegando a São Paulo, pobre, sem norte, sem rumo, sem nada. Em 1970, por uma dessas artes do destino – ou, mais exatamente, graças a Gilberto Mansur, meu amigo, marido de <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/vivina-de-assis-viana/">Vivina de Assis Viana</a>, minha professora, guru, amiga –, virei foca no <em>Jornal da Tarde</em>, passei a trabalhar no mesmo espaço em que trabalhavam Ezequiel e tantos outros jornalistas que eu conhecia de nome e admirava. E eu o invejava sempre que o via carregando imensas sacolas de disco. O salário de foca era bem pequeno, menor do que eu ganhava antes numa empresa de comércio de ferramentas na Florêncio de Abreu, e cada disco que comprava era uma dádiva.</p>
<p>Em 1976, ou 1977, o salário já era bem, bem melhor, e me dava ao luxo de comprar belos LPs importados nas grandes lojas do Centro, o Museu do Disco, a Breno Rossi, a Bruno Blois, mas ainda invejava meu ídolo Ezequiel Neves quando o via carregando as sacolas de disco.</p>
<p>Ele foi cortante:</p>
<p>- Meu santo, é um saco!</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/07/zeca.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2218" title="zeca" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/07/zeca-300x139.jpg" alt="" width="300" height="139" /></a>E explicou: no começo é bom, mas depois que vira obrigação é uma tortura ter que ouvir aquilo tudo, muita merda no meio das coisas boas.</p>
<p>Em 1980, <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/sandro-vaia/">Sandro Vaia</a> editava a Variedades do <em>Jornal da Tarde</em>, abriu espaço para mim e comecei a escrever sobre discos. Passei a receber discos das gravadoras – quase como Zeca Jagger. Quase – para ele vinham muito mais discos.</p>
<p>Me lembro bem de uma reunião de pauta, no final da tarde, acho que estava voltando de férias, e a Milay, a secretária, me entregou um monte de sacolas das gravadoras que tinham chegado nas quatro semanas, e o Ruyzito, o filho do patrão, disse: &#8211; “Pô, você deve ter discos pra caramba”. E eu respondi, bem agressivo: &#8211; “Tenho, sim, e comprei todos eles, até agora.”</p>
<p>Escrevi resenhas e recebi discos das gravadoras durante quatro anos, até 1984, quando Fernando Mitre levou uma dúzia de nós para a aventura da revista <em>Afinal</em>. Lá, como não tinha tempo para escrever sobre música, os discos das gravadoras foram raleando.</p>
<p>Zeca Jagger estava certíssimo: é um saco. A obrigação de ouvir aquilo tudo, aquela imensa quantidade de coisa ruim. Até mesmo a obrigação de ouvir as coisas boas para escrever, comentar. Tudo que é obrigação é um saco.</p>
<p>Devo realmente ser muito doido, para, depois de velho, aposentado, inventar um site de filmes, e transformar em obrigação o que era puro prazer – ver filmes, fazer umas anotações pessoais sobre o que pensei ao ver o filme, as sensações que o filme transmitiu.</p>
<p>Bem fez o Ezequiel, que passou desta – a crítica – para melhor – a produção. Ajudou a revelar Cazuza, foi produtor do Barão Vermelho e do Cazuza na carreira solo, produziu discos de Cauby Peixoto e Elizeth Cardoso.</p>
<p>Grande Ezequiel.</p>
<p>Ao contrário de mim, tinha talento para passar desta para melhor.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>Hoje, agora há pouco, ao chegar em casa e dar uma olhada nas notícias, vi que Ezequiel passou outra vez desta para melhor. E aí me lembrei de que, uma noite qualquer, alguns meses atrás, depois de tomar algumas, fiz a anotação aí em cima – para nada, só para mim mesmo, pelo puro prazer de escrever, de anotar lembranças. Sempre gostei de fazer isso, muito antes de ler Jane Fonda aconselhando todo mundo a anotar sobre sua vida. Fui atrás da anotação, acrescentei algumas coisas, este parágrafo aqui. E resolvi publicá-la, como uma pequena, humilde homenagem a esse sujeito que foi meu ídolo no final da adolescência, um grande texto, uma grande sensibilidade.</p>
<p>Está virando uma constante tentar homenagear pessoas que se vão. Fazer o quê? Não há como fugir. Perder amigos e conhecidos vai ser mais comum a cada dia.</p>
<p>Salve, Zeca Jagger! Dê um abraço no Cazuza.</p>
<p style="text-align: center;">         <strong>O jovem Zeca, a literatura e o teatro antes da música        </strong></p>
<p>Humberto Werneck me mandou uma mensagem com informações interessantes sobre o jovem Zeca, ainda em Belo Horizonte, antes de São Paulo e Rio. Pedi a ele autorização para tornar pública a mensagem:</p>
<p>“O Affonso Romano de Sant&#8217;Anna me mandou uma entrevista que fez para um jornal de BH em&#8230; 1958 e que entrou agora no blog dele (<a href="http://www.affonsoromano.com.br/">www.affonsoromano.com.br</a>). Não sei se você sabe que entrevistado e entrevistador fizeram parte de um interessantíssimo grupo de BH que ficou conhecido como Complemento e que, sob esse nome, publicou os quatro números de uma revista. Grupo interessante, entre outras coisas, porque, sem que se usasse a palavra, era multidisciplinar. Nele havia gente interessada em literatura (Ivan Angelo, Silviano Santiago, o Zeca e o próprio ARS, por exemplo), em teatro (João Marschner e o Zeca), dança (Klauss Vianna) etc. etc.</p>
<p>Me pareceu que você gostaria de saber o que pensava e dizia o Zeca aos 22 anos. Aqui vai a entrevista, com o &#8220;abre&#8221; recente by ARS.”</p>
<p>Para ir diretamente ao blog de Affonso Romano, <a href="http://www.affonsoromano.com.br/blog/">clique aqui</a>.<span id="_marker"> </span></p>
<blockquote><p>         <em>Alguma noite de 2010, e depois 7 de julho de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Ela gostava de mim</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Jun 2010 22:11:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, acordei pensando em conversar com o Saramago. Conversa pouca, pequena. De um lado só, monólogo. Talvez lhe confessasse não ter lido, até o fim, dois – ou três? – de seus livros. Incompetência de leitor limitado, acanhado, arredio. Incapaz de grandes vôos. Ou de vôo nenhum. Acordei, tomei café, escovei os dentes, li os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, acordei pensando em conversar com o Saramago. Conversa pouca, pequena. De um lado só, monólogo.<span id="more-2103"></span></p>
<p>Talvez lhe confessasse não ter lido, até o fim, dois – ou três? – de seus livros. Incompetência de leitor limitado, acanhado, arredio. Incapaz de grandes vôos. Ou de vôo nenhum.</p>
<p>Acordei, tomei café, escovei os dentes, li os dois jornais que – sabe-se lá se por vício ou fidelidade – leio todos os dias, e tomei o rumo do computador.</p>
<p>Conversa ou confissão, não seria fácil, pensei. Nunca é. Escrever, seja o que for, é tarefa de teimosos, e que não se veja nessa afirmação elogio algum.</p>
<p>Teimosa, computador ligado, busco os e-mails, que insisto em chamar de cartas. A denominação, sinto, me faz bem. Me aproxima não apenas dos amigos, antigos ou recentes, mas sobretudo de mim, sobrevivente, como o resto do mundo, a algumas alegrias e outras tantas amarguras.</p>
<p>A primeira carta me aproxima de um amigo de sempre, Sérgio Vaz. Ex-aluno nos anos sessenta, em Belo Horizonte, afilhado de casamento nos setenta, em São Paulo. Companheiro de inúmeras sessões de cinema, lá e cá. De conversas sem fim, noites, madrugadas adentro. Ou afora. Jornalista. Quase irmão, quase filho.</p>
<p>Meu quase filho me conta que alguém se foi, e não é o Saramago.</p>
<p>Ela foi uma noiva linda, como costumam ser as noivas. Noiva afilhada, quase filha.</p>
<p>Fomos mães na mesma época. Ela, talvez adivinhando o futuro reduzido, se apressava. Eu, sempre tardia, tardava.</p>
<p>Mães de uma filha e dois filhos, jamais fomos iguais, mas sempre nos identificamos. Em algumas alegrias e outras tantas amarguras, nos irmanávamos. Ela, em sua casa, na João Moura. Eu, em meus lados, nos Jardins, por onde, há mais de quarenta anos, venho perambulando. Telefonemas, visitas, conversas, cafés, chás. Lá e cá. Tudo regado a carinho. Intenso, verdadeiro.</p>
<p>Enquanto, nessa madrugada de domingo, na mais absoluta solidão, me entrego à tarefa dos teimosos, percebo que Suely Rossanez, mãe de uma filha e dois filhos, professora de História graduada pela USP, estimada pelos alunos e amada por quem, como eu, cruzou seus caminhos, só deixou boas lembranças.</p>
<p>Na mais absoluta solidão, entre uma lágrima e outra, sinto que de nada adianta lembrar que há alguns anos não nos víamos. Menos ainda lamentar.</p>
<p>Em meio a todas as lágrimas que me assaltaram desde o momento em que liguei o computador imaginando que iria conversar de um lado só com o Saramago, desde aquele momento, tentando decifrá-la para meus filhos, que não se lembram dela, me pergunto como Suely pode ter me deixado tantas, tão boas e tão profundas lembranças.</p>
<p>Fácil. Fácil. Ela gostava de mim. Ela gostava muito de mim. Não se trata de pretensão, juro, mas de humilde certeza.</p>
<p>Ela gostava de mim, e o mérito, ah, o mérito nunca foi meu.</p>
<p>Nessa madrugada de domingo, solidão absoluta, não sinto tristeza, juro. Mas sou dona de toda a saudade do mundo.</p>
<blockquote><p><em>Junho de 2010.</em></p>
<p><em>Esta crônica foi publicada originalmente no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/">Primeiro Programa</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Suely Rossanez</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2010 01:26:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando são extremamente jovens, as pessoas admiram nos outros, antes de mais nada e sobretudo, a beleza. Mais tarde, o principal valor passa a ser a inteligência. Só depois, com a maturidade, passa-se a admirar, a valorizar a bondade. Fiquei conhecendo essa noção preciosa muito cedo, adolescente, através de uma amiga que me ensinou muito, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando são extremamente jovens, as pessoas admiram nos outros, antes de mais nada e sobretudo, a beleza. Mais tarde, o principal valor passa a ser a inteligência. Só depois, com a maturidade, passa-se a admirar, a valorizar a bondade.<span id="more-2070"></span></p>
<p>Fiquei conhecendo essa noção preciosa muito cedo, adolescente, através de uma amiga que me ensinou muito, Vivina. Mas depois aprendi que simplesmente saber da existência de uma noção é muito diferente do que na realidade compreendê-la, vivenciá-la.</p>
<p>A primeira coisa que me atraiu em Suely foi sua beleza. Éramos jovens demais - e, credo, como ela era bela. Foi só pouco depois que passei a respeitar sua inteligência clara, forte, lúcida. Mas precisei chegar à maturidade para de fato reconhecer o quanto ela era uma boa pessoa. Uma boa, uma grande, uma extraordinária pessoa, generosa, paciente, agregadora, nada egoísta, dedicada aos outros. Conheci poucas pessoas como ela. E tenho a certeza de que não poderia haver elogio maior a alguém. Se houvesse, eu o faria com o maior bom grado.</p>
<p>Como eu, não era uma pessoa religiosa. Mas acho que, mesmo sem professar a fé, mesmo sem saber, no fundo era uma budista. Digo isso porque cada vez mais admiro os budistas, como Inês, como Aglaia, como Rita Amorim. Nesta época de pessoas cada vez mais egocêntricas, desiludidas e cínicas, seguia, como poucos, o ensinamento cristão de amar aos outros como a si mesma – não porque fosse uma ordem, mas porque ela era assim.</p>
<p>Certamente por isso, por ser profundamente boa, era uma agregadora. As pessoas circulavam em volta dela, reuniam-se em torno dela. Sempre foi assim, desde que ela era muito nova, mas isso só foi se acentuando à medida em que os anos passavam.</p>
<p>Há dois tipos de pessoas agregadoras, acho: as que têm poder e/ou dinheiro, o que é mais ou menos a mesma coisa, e as que são especiais. Suely nunca teve muito dinheiro, e o poder que tinha era este: o de chamar as pessoas para perto dela, o de conquistar e manter amigos, o de fazer os amigos felizes.</p>
<p>A casa dela (fosse qual fosse, estivesse morando com um marido, com outro, com nenhum) sempre estava cheia de gente – parentes, amigos, conhecidos, amigos dos outros. Atraía as pessoas para perto dela. As pessoas gostavam da companhia dela, de estar perto dela.</p>
<p>Não existe muita gente assim.</p>
<p>Se tivesse podido viver até ficar velha, até os 70, os 80, tenho a certeza de que continuaria exatamente assim. Seria uma grande matriarca, gente de idades e formação as mais diferentes circulando em torno dela. Como sempre foi até aqui.</p>
<p>Apesar de conhecê-la há mais de 40 anos, fiquei bastante surpreso com a quantidade de gente que foi prestar as últimas homenagens a ela. A quantidade e a variedade. Amigas do tempo do ginásio, amigos da História da USP, colegas de magistério, amigos de todas as épocas, amigos dos filhos – Fernanda, Gabriel, Lucas, que ela amava como poucas mães amaram –, às pencas, pouquíssimas horas decorridas entre a morte e o velório breve.</p>
<p>Nestes tempos de intolerância cada vez mais à flor da pele, fico pensando que essas características, a bondade, a generosidade, têm a ver com conciliação – e Suely sempre foi uma conciliadora, desde o tempo em que nós, da nossa geração, fazíamos da contestação uma meta, uma profissão de fé. Me lembro bem que, nos primeiros tempos do namoro, quando ela estava com 17, 18 anos, Sandra, a irmã um ano e pouco mais nova, era a rebelde, a que enfrentava de peito aberto o pai, Seu Antenor, uma figuraça,  mas, como mandava a cartilha do tempo e espaço, machista, dominador, um pequeno ditador no lar, à maneira italiana de sua origem; Suely, ao contrário, procurava contemporizar, conciliar; se a conciliação franca não fosse possível, então optava pela via pacífica de ir em frente com doçura, jeitinho e – por que não? – alguma dissimulação. Desgastou-se menos.</p>
<p>Talvez tenha sido conciliadora até demais, ao longo da vida. Nunca me cobrou muito – na verdade, nunca me cobrou – pelo fato de eu ter sugerido a decisão errada quando, fazendo o curso de História e trabalhando no Banco do Brasil, emprego excelente, cobiçado, naquela época só conquistado por quem ralasse muito no estudo e passasse no concurso difícil, ficou grávida, e teve que optar por abrir mão de uma das três tarefas, o estudo, o trabalho e ser mãe. Bem intencionado, mas seguramente confiante demais, seguro demais – esses males da juventude –, argumentei que o emprego estável era menos importante que a formação acadêmica. Não demoramos muito para verificar na prática que o diploma da USP é uma bela conquista, mas é bem mais falho na hora de pagar as contas.</p>
<p>Talvez tenha sido conciliadora demais em outras situações que vieram depois. Não me cabe julgar; foi a opção dela.</p>
<p>Não é possível, não cabe ter arrependimento por eu ter saído de casa, Suely sem emprego e com uma criança de pouco mais de um ano para cuidar. Mas um dos erros pelos quais mais me cobro na vida foi ter feito com que ela perdesse o salário vitalício.</p>
<p>Ela, no entanto, apesar da grana sempre curta, nunca reclamou por causa daquela decisão. As boas pessoas, as pessoas especiais – venho aprendendo isso ao longo da vida já longa – não reclamam muito.</p>
<p>Não era de reclamar. Seguia em frente. Sorria a maior parte do tempo, cercada de amigos que a admiravam, que tinham prazer na sua companhia.           </p>
<p>Enfrentou muitas barras pesadas – não faltaram barras pesadas em sua vida. Enfrentou-as com alguma resignação e muita, muita força. Uma força admirável, de fazer babar.</p>
<p>Enfrentou a doença, a maior parte do tempo, ou no mínimo boa parte do tempo, com essa força gigantesca, essa força que me deixa pasmo, tonto, aparvalhado. Mesmo já quase no fim, era capaz de sorrir. Só nos últimos dos últimos dias, quando já não dava mesmo mais, quando já não era possível, demonstrou incômodo, desagrado, cansaço.</p>
<p>Fernanda me disse, pouco tempo atrás, que tudo agora para mim vira texto. Era uma constatação, com carinho, quase com algum orgulho, eu acho, embora na hora não tenha conseguido deixar de entender a frase como um alerta, uma reprimenda.</p>
<p>O fato é que percebi como era verdadeira a frase da minha filha quando me bateu claro que estávamos perdendo Suely. Quis registrar uma homenagem a ela – mesmo que num texto ruim, mesmo que turvado pela emoção, mesmo que babaca.</p>
<p>Não sei se consegui deixar absolutamente claro para Suely, enquanto podia – e a gente deveria sempre se arrepender pelo que fez, e não pelo que deixou de fazer, como aprendi, também jovem demais, com Fernando Sabino – o quanto eu a amava, o quanto eu a admirava. E o quanto sou grato a Deus (aos deuses, a todos os santos, ao destino, ao acaso) por ter sido ela a mãe de minha filha.   </p>
<blockquote><p><em>18 de junho de 2010</em></p>
<p><em>Um PSzinho: gostei da brincadeira que Marina fez com Fernanda &#8211; &#8220;Agora a Suely vai se encontrar com Regina e as duas vão ficar falando mal do seu pai&#8221;. Sim, sim, vão. E vão as duas ficar com pena de Mary, que tem que me agüentar. </em></p></blockquote>
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