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	<title>50 Anos de Textos &#187; Jornalismo</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>A Rodrigo o que é de Rodrigo</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 18:27:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Na última edição do Jornalistas &#38; Cia – a de número 843, de 25 de abril de 2012 -, foi publicada uma carta de Dirceu Martins Pio que, mesmo sem a autorização formal dele, quero reproduzir aqui. Diz Pio ao J&#38;C: “Li e apreciei a edição especial do Dia do Jornalista. Escrevo com a intenção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na última edição do <em>Jornalistas &amp; Cia</em> – a de número 843, de 25 de abril de 2012 -, foi publicada uma carta de Dirceu Martins Pio que, mesmo sem a autorização formal dele, quero reproduzir aqui.<span id="more-6898"></span></p>
<p>Diz Pio ao <em>J&amp;C</em>:</p>
<p>“Li e apreciei a edição especial do Dia do Jornalista. Escrevo com a intenção de talvez reparar três omissões que considero eloquentes.”</p>
<p>E aí enumera três jornalistas que, segundo ele, deveriam ter constado da edição especial: Raul Martins Bastos, Rodrigo Lara Mesquita e Laurentino Gomes.</p>
<p>Pio trabalhou com todos os três, conhece-os bem.</p>
<p>Raul Bastos é hoje uma figura quase mítica: todo mundo que trabalhou com ele (eu não tive esse privilégio) o adora. Não é que as pessoas gostem dele, não: as pessoas o adoram.</p>
<p>Laurentino foi subalterno de Pio. Não me lembro bem, mas acho Laurentino foi quase foca de Pio, quando este era o chefe da sucursal do <em>Estadão</em> em Curitiba, e Laurentino se uniu à pequena equipe. Cresceu como jornalista sob as ordens de Pio. O mundo gira, a Lusitana roda, e às vezes o mundo e a Lusitana dão voltas surpreendentes. Laurentino teve uma carreira brilhante, e chegou à estratosfera do jornalismo muito depressa. Chegou à estratosfera tão rapidamente, que resolveu abandonar tudo o que já havia conquistado e tentar um novo caminho. Afastou-se do cargo de diretor não mais da Veja, mas da Editora Abril, para lançar-se à aventura de unir jornalismo e História. Seu primeiro livro, <em>1808</em>, foi o que foi, um sucesso absoluto, e depois dele veio o <em>1822</em>, e em breve sai o terceiro, <em>1898</em>.</p>
<p>Raul, um jornalista que é quase um mito, Laurentino, um jornalista que chegou aos píncaros da profissão e mudou tudo e virou um dos autores mais vendidos do país.</p>
<p>Dirceu Martins Pio escreveu ao <em>Jornalistas &amp; Cia</em> dizendo que sentia falta deles, na edição especial da publicação mais lida pelos jornalistas do Brasil que comemorava o Dia do Jornalista.</p>
<p>Deles, e de Rodrigo Mesquita.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Transcrevo aqui, ainda que sem a autorização do Pio, o que ele diz sobre Rodrigo Lara Mesquita:</p>
<p>“Espero que seu nome não tenha deixado de constar da lista de notáveis em razão de ser acionista do <em>Estadão</em>. Seria injusto. Mino Carta foi dono e acionista de várias publicações e nem por isso deixou de ser lembrado.</p>
<p>&#8220;Rodrigo Mesquita foi quem criou a nova versão da Agência Estado (a contar de 1988), fazendo surgir, assim, a primeira agência de informações do País. Para quem desconhece, explico: as antigas agências de notícias, do tipo UPI, atendiam exclusivamente à própria mídia; as agências de informações atendem às mídias, mas também – e principalmente – os mercados, na condição de consumidores finais da informação.</p>
<p>&#8220;Não foi pouco: a Nova AE, como passou a ser chamada, saltou de uma receita de US$ 500 mil para um faturamento superior a R$ 100 milhões em dez anos. E isso exclusivamente com a venda de assinaturas de serviços informativos à própria mídia (residual) e a mercados (receita principal). Os terminais informativos da Nova AE estão presentes hoje em praticamente todas as mesas financeiras do País.</p>
<p>&#8220;Foi a Agência Estado que introduziu no Brasil o ‘tempo real’, esse novo conceito de produção e propagação da notícia. O projeto da Nova AE foi estruturado muito em função do visionarismo de Rodrigo Mesquita, dos poucos jornalistas a enxergar, premonitoriamente, com larga antecedência, todo o impacto da internet e das novas mídias digitais sobre a sociedade, a economia e, principalmente, sobre o mercado de informações.”</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Tudo isso que Dirceu Martins Pio diz é a mais pura verdade.</p>
<p>Mas é mais do que dizer a mais pura verdade dos fatos. Acho que o gesto do Pio ao escrever essa carta é de extrema coragem.</p>
<p>Ao dar a Rodrigo Lara Mesquita o que lhe é de direito, Pio se expõe ao ódio dos primatas, dos idiotas, que dividem as pessoas em duas categorias – de um lado patrão, de outro lado nós, os trabalhadores. Para essas pessoas, defender patrão, mesmo que hoje seja ex-patrão, é uma vilania, uma baixeza, uma traição à categoria.</p>
<p>Visionário, premonitório, Rodrigo teve a inteligência de chamar para dirigir a nova Agência Estado dois grandes profissionais, Sandro Vaia e Elói Gertel. Como o próprio Pio, Júlio Moreno, Laerte Fernandes e Ademar Oricchio, tive o privilégio de participar – ainda que como coadjuvante, mero figurante – da experiência de reinventar a Agência Estado, a partir de meados de 1988.</p>
<p>Houve muita briga mais tarde, em especial depois que Sandro e Elói assumiram postos de direção na S.A. O Estado, o Grupo. Mas, acima de qualquer briga, está a verdade dos fatos. Dirceu Martins Pio expôs a verdade dos fatos no <em>Jornalistas&amp;Cia</em>.</p>
<p>Uma beleza de gesto.</p>
<p>Um brinde a você, caro Pio.</p>
<p><em>26 de abril de 2012</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O dia em que Anélio Barreto parou as máquinas</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Mar 2012 01:07:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[O Jornal da Tarde estava às vésperas de completar dez anos, e a data pedia uma comemoração. Eu era subeditor da Reportagem Geral, mas já tinha feito uma ou duas coisas que chamaram a atenção do redator-chefe, o inesquecível Murilo Felisberto, e ele determinou que seria eu o editor de um suplemento especial celebrando a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O <em>Jornal da Tarde</em> estava às vésperas de completar dez anos, e a data pedia uma comemoração. Eu era subeditor da Reportagem Geral, mas já tinha feito uma ou duas coisas que chamaram a atenção do redator-chefe, o inesquecível Murilo Felisberto, e ele determinou que seria eu o editor de um suplemento especial celebrando a data.<span id="more-6630"></span></p>
<p>Não me lembro como a idéia me ocorreu, mas sendo o <em>JT</em> um sucesso editorial por seu conteúdo e forma (um sucesso indiscutível que, infelizmente, não resultava em vendas – o jornal era deficitário), decidi que o suplemento deveria ter a cara de cada um daqueles dez anos, uma vez que, graficamente, ele mudava quase que diariamente.</p>
<p>Escalei os editores para que cada um escrevesse um texto – curto – sobre cada um dos anos, resgatei tipologias antigas, particularmente a das manchetes dos primeiros anos, sempre em maiúsculas, condensadas – um espetáculo. Desenhei tudo, fechei o caderno, com a ajuda do Sérgio Vaz, meu copydesk predileto e mão para toda obra (talvez eu até abusasse um pouco dele, mas, vá lá).</p>
<p>Na noite da véspera do aniversário, terminada a edição do suplemento e das páginas normais da Geral, fui para casa. Ou melhor, não fui para casa, mas para um dos botecos que freqüentávamos, provavelmente o Mutamba, que ficava logo ali ao lado, na Major Quedinho.</p>
<p>Lá pelas tantas, duas, três horas da manhã, senti uma súbita ansiedade que me levou à oficina do jornal (jamais conseguirei entender, muito menos explicar, o que motivou aquilo).</p>
<p>Aquela inquietação tinha toda a razão de ser. O suplemento de dez anos estava sendo impresso completamente fora de ordem, as páginas todas embaralhadas, sem a seqüência normal, o que matava toda a idéia original de mostrar a evolução gráfica do jornal.</p>
<p>Eu ali, na oficina, não tinha qualquer autoridade, mas consegui que interrompessem a impressão. Expliquei o problema e logo um engenheiro se apresentou. Vivíamos o início da época dos engenheiros, com eles se multiplicando ao longo do processo de elaboração do jornal, para desespero de todos nós amantes da perfeição – ou melhor, do mais próximo que se podia chegar dela.</p>
<p>Um jornal é tanto melhor quanto o tempo que ele tiver para ser feito – o que, desculpem, é óbvio. No início, o <em>JT</em> fechava às dez horas da manhã do dia em que circulava, por isso o nome, <em>Jornal da Tarde</em>. Mas nem isso se cumpria. Uma manhã, lá pelas dez, onze horas, na época em que o redator- chefe ainda era o Mino Carta, um dos diretores foi perguntar a ele, angustiado, a que horas o jornal fecharia. “Eu não sei” – respondeu o Mino – “o Percival ainda está na rua”.</p>
<p>Com a chegada dos engenheiros esse tempo foi se encurtando. Quanto mais o jornal se “modernizava”, menos tempo havia para que ele fosse feito. Mas isso é outra história.</p>
<p>Estamos agora na madrugada do aniversário de dez anos do jornal e o suplemento comemorativo está sendo impresso desastradamente, as páginas todas fora de ordem. O engenheiro que se apresentou ouviu o problema e foi checar a distribuição das matrizes na rotativa. Estava errado, concluiu. E deu suas ordens: esta vai para lá, aquela para cá, etecétera.</p>
<p>E mandou rodar. Um desastre. A ordem se alterou, mas continuava tudo errado.</p>
<p>Então fiquei conhecendo o Boi. Um sujeito magro, um tanto alto, vestido de macacão, velho funcionário da impressão, embora provavelmente não tivesse mais do que 35, 40 anos. Ele olhou para a rotativa, para a posição das matrizes, e sentenciou: “Num tá bonito”.</p>
<p>O engenheiro mandou mudar tudo outra vez, assim como ainda faria mais umas duas ou três vezes, e quando a máquina rodava eu gritava: – Pára! E o Boi repetia: “Num tá bonito”.</p>
<p>O engenheiro não queria entregar os pontos, mas eu o convenci, já que o homem estava aos pedaços. “Vamos deixar que o Boi faça como acha que deve ser, não custa tentar”, eu disse.</p>
<p>E o Boi fez gestos de maestro. “Essa vai para lá, aquela para ali,&#8230;”</p>
<p>Quando terminou, perguntei: “E agora?”. “Agora tá bonito”.</p>
<p>Mandaram rodar, devagarzinho, para que eu checasse. Quando peguei o primeiro exemplar e folhei, gritei: “Manda o pau”.</p>
<p>Ainda havia um problema: e os exemplares que já haviam sido impressos? Não sei quantos, mas certamente mais de três mil. E o pessoal da impressão dizia: têm que ser distribuídos. A única coisa que eu poderia fazer, fiz. Disse que não tinha autoridade para isso, mas, se dependesse de mim, não distribuiria. Eles balançavam a cabeça e afirmavam: iam distribuir.</p>
<p>Então um sujeito baixo, um tanto gordo, acho que também vestindo macacão, me puxou pelo braço. Era o chefe da distribuição. E disse:</p>
<p>– Acha que eu vou distribuir um jornal dos Mesquita desse jeito? Já mandei jogar tudo no lixo.</p>
<blockquote><p><em>Março de 2012.</em></p>
<p><em>Em <a href="http://historiasqueosjornaisnaocontammais.wordpress.com/">Histórias que os jornais não contam mais</a>, uma coletânea de reportagens de Anélio Barreto. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>15 grandes, belas reportagens de Anélio Barreto</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Feb 2012 23:56:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Eis aí uma excelente notícia, numa época em notícia boa é raridade: Anélio Barreto colocou na internet seu livro Histórias que os jornais não contam mais. São 15 reportagens, publicadas ao longo de quatro décadas, entre 1968 e 2008, no Jornal da Tarde, no portal estadao.com.br e em O Estado de S. Paulo. Os temas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eis aí uma excelente notícia, numa época em notícia boa é raridade: Anélio Barreto colocou na internet seu livro <em><a href="http://historiasqueosjornaisnaocontammais.wordpress.com/">Histórias que os jornais não contam mais</a>.<span id="more-6473"></span></em></p>
<p>São 15 reportagens, publicadas ao longo de quatro décadas, entre 1968 e 2008, no <em>Jornal da Tarde</em>, no portal estadao.com.br e em <em>O Estado de S. Paulo</em>. Os temas são os mais diversos possíveis e o traço de união entre eles é que são todos grandes reportagens, feitas a partir da apuração e pesquisa rigorosas, à vezes demoradas, e escritas em linguagem atraente, saborosa, agradável e interessante.</p>
<p>Descrevem fatos reais, apenas fatos reais, mas a narrativa se aproxima daquela da boa literatura. Lêem-se as reportagens de Anélio Barreto com o mesmo sabor com se que se lê um romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza – ele mesmo, aliás, personagem de um dos textos, &#8220;Com Espinhosa, no Peixoto&#8221;, reportagem publicada no Estadão em 2008.</p>
<p>Como escreveu no prefácio do livro o jornalista Sandro Vaia, um dos fundadores do <em>Jornal da Tarde</em> e ex-diretor de redação da revista <em>Afinal</em>, da Agência Estado e do jornal <em>O Estado de S. Paulo</em>:</p>
<p>“Nesta antologia é possível avaliar a facilidade com que Anélio trafega entre assuntos tão diferentes e tão contrastantes de forma a imprimir a cada um deles o toque pessoal que dá sentido à estrutura do texto e provoca, ao final da leitura, a sensação de ter acabado de saborear, em forma de história, uma aventura humana de primeira grandeza.</p>
<p>“Assim é com a narrativa da extraordinária vida de Frank Sinatra chegando aos 80 anos; com a visita ao implacável cenário de degradação humana numa Angola em guerra; na sutileza da visita ao suave cenário irlandês da minúscula Cong, que John Ford rebatizou de Innisfree, e onde ele filmou o seu <em>Depois do Vendaval</em>; nos personagens da subvida da cracolândia paulista; na história de vida do jogador Adriano, que nasceu na favela, virou Imperador, e alguns anos depois desse retrato acabou abandonando os palcos gloriosos da Europa para voltar às suas origens; no retrato de Carrapateira, cidade mais pobre do Brasil; na descrição da vida de Michelangelo Buonarotti, o gênio da Capela Sistina; na visita aos índios de uma tribo do Xingu que adora a lua justo na época em que o homem pôs os pés lá; no passeio pelo cotidiano da Daslu, templo paulistano do consumo de luxo.”</p>
<p>Em seu prefácio, Sandro Vaia observa que o título do livro de Anélio, <em><a href="http://historiasqueosjornaisnaocontammais.wordpress.com/">Histórias que os jornais não contam mais</a>, “pode servir como um epitáfio aos jornais que agonizam e ao mesmo tempo como um diagnóstico das razões dessa agonia: morrerá mais rapidamente quem esquecer que a essência mesma do jornalismo é contar – e contar bem – boas histórias, com começo, meio e fim.</em></p>
<p>E prossegue: “Por razões empresariais, industriais, estratégicas, econômicas e o que mais se queira usar como justificativa, os jornais impressos estarão em marcha acelerada rumo à irrelevância e à obsolescência que os levará à morte na medida em que insistirem em se tornar registros formais e sem vida das notícias de ontem.</p>
<p>“Anélio foi um dos melhores repórteres que passaram pelo <em>Jornal da Tarde</em> na época em que ele revolucionou a imprensa brasileira. Uma das características dessa revolução foi o casamento que o jornal conseguiu fazer entre forma e conteúdo. Essa revolução consistiu em permitir e estimular que a linguagem gráfica com que se trabalhava a apresentação e o acabamento das reportagens fosse integrada à essencialidade do conteúdo e à própria forma em que o texto era elaborado. Um conceito de edição que até então não era usado nos jornais brasileiros.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Agora, a minha visão pessoal</strong></p>
<p>Até aqui, o texto veio de maneira extremamente objetiva. Agora começo a falar do meu jeito nada objetivo, e sim pessoal, personalíssimo e intransferível.</p>
<p>Eu, pessoalmente, fiquei muito contente com a decisão do Anélio de colocar à disposição de todos, na rede, essas belíssimas reportagens. Elas darão prazer a quem lê-las, com toda certeza. Mas acho que darão algum prazer também ao Anélio, e é por isso que fico feliz.</p>
<p>Conheci o Anélio (assim como o Sandro Vaia, e o Valdir Sanches, três dos amigos que colaboram com este site aqui) há exatos 42 anos. Desde 1970, quando tive a sorte (e a mão de Gilberto Mansur) de chegar à redação do <em>Jornal da Tarde</em>, foca de tudo, sem nenhum treinamento, sem faculdade, sem coisa alguma, a não ser um razoável domínio da língua portuguesa.</p>
<p>(Em seu prefácio, Sandro Vaia diz: “A maioria dos jovens que formaram a agitada redação do <em>JT</em> daquela época tinha pouca vivência no jornalismo tradicional – e isso foi uma grande vantagem, porque eles não traziam o peso dos vícios e das convenções.” Isso se aplica ao Anélio, a mim, e a muitos outros.)</p>
<p>Quando cheguei ao <em>JT</em>, à redação que então ficava no quinto andar do prédio da Major Quedinho, Sandro era chefe de reportagem e Anélio, copydesk da editoria de Reportagem Geral. Tinham sido, os dois, excelentes repórteres – mas, como qualquer jornal precisa desesperadamente de bons redatores, chefes de reportagens, subeditores, editores –, tinham já sido tirados da reportagem para executar aquelas outras tarefas dentro da redação. Tarefas tão indispensáveis quanto as do exercício da reportagem no dia a dia.</p>
<p>Ao contrário do Anélio, do Sandro, do Valdir, nunca fui um bom repórter. Fui, com boa vontade, um repórter mediano, para não dizer medíocre. Mas escrevia direitinho, tinha o tal razoável domínio da língua, e, portanto, minha passagem pela reportagem não durou nem dois anos: virei copydesk. (Eventualmente, no futuro viria a ser subeditor e, em outras publicações, editor, editor executivo, redator chefe.)</p>
<p>O <em>Jornal da Tarde</em> – e o jornalismo – não perderam nada com o fato de eu deixar de ser repórter. Mas, se ganharam com Anélio e Sandro redatores, depois editores, depois redatores chefes de grande competência, perderam dois grandes repórteres.</p>
<p>Tanto Anélio quanto Sandro arranjariam tempo – fora das tarefas internas de redação – para fazer reportagens. E foram belas, grandes reportagens. Mas, na maior parte de suas longas e exitosas carreiras, tiveram que se dedicar a outras tarefas. Ao contrário de Valdir, que teve a sorte, ou a persistência, de ser sempre repórter.</p>
<p>Este texto está ficando longo, e não era minha intenção. O que eu queria dizer é que todo jornalista – por melhor redator, editor, redator chefe que seja &#8211; gosta mesmo é de fazer seus próprios textos.</p>
<p>Melhorar o texto dos outros, reescrever, juntar as informações, fazer títulos, editar, preparar o produto final que será oferecido aos leitores é uma tarefa necessária, fundamental, e digna. Mas jornalista gosta mesmo é de fazer seus próprios textos.</p>
<p>Quando pude finalmente sair das redações, após 36 trabalhando nelas, passei ter tempo para escrever meus próprios textos, neste site aqui e no <a href="http://50anosdefilmes.com.br/">50 Anos de Filmes</a>. E passei a escrever muito, quase compulsivamente. Muitas vezes brinco dizendo que escrevo tanto é para compensar os 36 anos em que fui obrigado a ficar mexendo nos textos dos outros para ganhar a vida.</p>
<p>Então, voltando ao começo desta minha digressão: a decisão do Anélio de publicar sua antologia de maravilhosas reportagens me deixou muito contente, e não só porque muita gente terá agora a oportunidade de lê-las, mas também, ou principalmente, porque o Anélio tem agora, novamente, o prazer de colocar seus textos diante dos leitores.</p>
<p>E quem sabe com isso ele se anima a voltar a escrever.</p>
<blockquote><p><em>29 de fevereiro de 2012</em></p></blockquote>
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		<item>
		<title>Lúcio Flávio e o jornalismo</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Feb 2012 14:11:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Lúcio Flávio Pinto é um jornalista moderno às antigas. Não seria difícil imaginá-lo com as viseiras dos épicos jornalistas de cinema. Não seria caricatura compará-lo ao mr. Peabody de O Homem que Matou o Facínora e imaginá-lo dizendo a qualquer um dos responsáveis pelos 33 processos abertos contra seu jornal: - O senhor está tomando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lúcio Flávio Pinto é um jornalista moderno às antigas. Não seria difícil imaginá-lo com as viseiras dos épicos jornalistas de cinema.<span id="more-6420"></span></p>
<p>Não seria caricatura compará-lo ao mr. Peabody de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-homem-que-matou-o-facinora-the-man-who-shot-liberty-valance/">O Homem que Matou o Facínora</a></em> e imaginá-lo dizendo a qualquer um dos responsáveis pelos 33 processos abertos contra seu jornal:</p>
<p>- O senhor está tomando liberdades com a liberdade de imprensa.</p>
<p>Lúcio Flávio sozinho é um jornal. Chama-se <em>Jornal Pessoal</em> e desde 1988 sai a cada 15 dias em Belém do Pará, a sua terra. Tem 12 páginas, não publica fotos nem infográficos, não tem anunciantes, é só texto, normalmente um texto preciso, implacável, exato , que não brinca com fatos. É jornalismo puro e duro. É vendido nas bancas e custa R$ 3,00.</p>
<p>Sua pauta permanente é a defesa da Amazônia contra a depredação ambiental, o tráfico de matéria prima, os negócios escusos, as transações suspeitas.</p>
<p>Lúcio Flávio, que ganhou 4 prêmios Esso e escreveu vários livros sobre a Amazônia, foi repórter da revista <em>Realidade</em> e correspondente dos jornais <em>Correio da Manhã</em> e <em>O Estado de S.Paulo</em> quando eles ainda tinham aspirações a uma cobertura intensa da vida real em todo o território nacional.</p>
<p>Coordenou uma rede de correspondentes na região da Amazônia e chegou a planificar a criação de uma sucursal amazônica do <em>Estadão</em> antes que os grandes jornais se rendessem às limitações contábeis e sacrificassem a sua qualidade deixando-se abater na guerra do custo/benefício.</p>
<p>Trabalhou durante algum tempo no jornal <em>O Liberal</em>, de Belém, até perceber que a única maneira viável de manter a sua independência era fazer seu próprio jornal.</p>
<p>De 1988 para cá, Lúcio Flávio Pinto sofreu 33 processos, sendo condenado em 4 deles.</p>
<p>Embora já tenha sido chamado de quixotesco diversas vezes, essa é uma definição imprecisa. Quixotes arremetem contra moinhos de vento, e este não é o caso de Lúcio Flávio. Ele arremete contra entidades, pessoas e instituições bem reais que agem contra a Amazônia e não o faz com lanças, mas com a narrativa precisa e cortante dos fatos que ele expõe em seus textos. Lúcio Flávio não é um fabulador, é um repórter.</p>
<p>E por que estamos falando de Lúcio Flávio agora?</p>
<p>Em 1999, ele publicou em seu jornal uma denúncia de que o empresário paranaense Cecílio Rego Almeida, dono da construtora C.R. Almeida, estava grilando quase cinco milhões de hectares de terra no vale do Xingu. (<a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed681_o_grileiro_vencera">A história completa está aqui.</a>)</p>
<p>Ele foi processado por Rego Almeida (o processo foi mantido apesar da morte do autor, em 2008), não pela denúncia em si, mas por tê-lo chamado de “pirata fundiário”.</p>
<p>O processo chegou ao STJ e ele pode ser condenado por “erros formais” na apresentação de sua defesa, apesar de não ter publicado nada além da verdade comprovada.</p>
<p>Lúcio Flávio não é um partido, uma corporação, uma organização, uma entidade, uma patota. É um jornalista cuja dignidade e independência precisam ser preservadas para que a sobrevivência da liberdade de expressão não seja colocada em risco.</p>
<p>Nada menos do que isso: neste momento, Lúcio Flávio é o jornalismo.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 17/2/2012.</em></p></blockquote>
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		<item>
		<title>Repórter senta de frente para a porta</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 17:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
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		<description><![CDATA[Yes, baby, nós repórteres sentamos de frente para a porta. Não vá algum vilão entrar armado para acabar com a gente, e nos irmos desta estupidamente com um tiro nas costas. Cinema à parte, se o Bolsonaro entrar aos beijos com um gay, não perdemos o furo. Segui a regra, naquela noite, no restaurante de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Yes, baby, nós repórteres sentamos de frente para a porta. Não vá algum vilão entrar armado para acabar com a gente, e nos irmos desta estupidamente com um tiro nas costas. Cinema à parte, se o Bolsonaro entrar aos beijos com um gay, não perdemos o furo.<span id="more-6241"></span></p>
<p>Segui a regra, naquela noite, no restaurante de Itapetininga. A cidade do interior paulista nos oferecia alguns restaurantes promissores. Não sei exatamente por que, optamos por um que começava com um espaço um pouco estreito, e se abria no fundo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzvalance2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6244" title="zzvalance2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzvalance2.jpg" alt="" width="500" height="304" /></a>Ocupei meu lugar, em uma mesa da parte estreita. Meu colega das lentes sentou ao meu lado. À nossa frente, de costas para a porta, ficou o colega do volante. Aí vai a noite. Um tira-gosto, uma bebidinha, que o dia tinha sido cheio. Em paz, porque a casa – graças, graças Senhor &#8211; não tinha aparelho de TV ligado.</p>
<p>(<strong>N.da R.</strong>: <em>No clichê ao lado, o bandido, à esquerda, entra no bar. O mocinho, à direita, estava de frente para a porta, é claro.</em>)</p>
<p>Fizemos o pedido, e se bem lembro estávamos no fim do jantar quando&#8230; Um fantástico som ao vivo eclode às nossas costas, enchendo o lugar com um número de bossa-nova! Viramos, eu e o fotógrafo, e descobrimos poucos metros atrás de nós um conjunto de piano, bateria, baixo de pau e cantora!</p>
<p>A cena clássica, o pianista com seu copo de uísque em cima do tampo. E um baixista jazzístico, de grande performance. O baterista, com a batida impecável (pelo menos aos nossos ouvidos amadores) da bossa nova. E a cantora? Afinadíssima.</p>
<p>É prudente dar o desconto de que estou falando de um dos meus gêneros prediletos. Aquele que, no fim dos anos 1950, embalou a juventude nas ondas de um barquinho&#8230;</p>
<p>Certamente o piano já estava lá, quando chegamos – e não notamos. Mas nada e ninguém mais. O baterista armou seu instrumento, e não percebemos! No intervalo falei com eles, e descobri que estavam ensaiando. Um ou dois dias mais tarde se apresentariam em um lugar da cidade que não gravei.</p>
<p>Pentelhamente, num intervalo depois de “Corcovado” (”Um banquinho, um violão”&#8230;), expliquei ao pianista que a letra original não era essa. Era um cigarro, um violão, mas, a pedido de João Gilberto, Tom trocou o cigarro pelo banquinho (erudição de leitura de jornal).</p>
<p>Os músicos foram simpáticos, aceitaram bem o pequeno discurso fora de hora. A música continuou. Dada a nossa empolgação, a casa ofereceu uma rodada de uísque. Sim, baby, nós repórteres não aceitamos presentes. Mas àquela altura seria uma grosseria devolver a bebida.</p>
<p>E fomos ficando&#8230; Até o momento em que o pianista deu o concerto por encerrado. Muito bêbado, achou que era hora de se despedir.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Cuidado com os repórteres fotográficos</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 17:12:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
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		<description><![CDATA[Fotógrafos de jornal, ou repórteres fotográficos, ou foto-repórteres, são no geral ótimas companhias de viagem. Não só para a pauleira da cobertura, mas para os momentos amenos. Mas cuidado: são perigosos e estão armados. Certa vez, paramos numa churrascaria simplória, para tomar um refrigerante. Meu companheiro era (nada menos que) Reginaldo Manente. Resolvi aliviar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fotógrafos de jornal, ou repórteres fotográficos, ou foto-repórteres, são no geral ótimas companhias de viagem. Não só para a pauleira da cobertura, mas para os momentos amenos. Mas cuidado: são perigosos e estão armados.<span id="more-6136"></span></p>
<p>Certa vez, paramos numa churrascaria simplória, para tomar um refrigerante. Meu companheiro era (nada menos que) Reginaldo Manente. Resolvi aliviar a bexiga, como se dizia antigamente, e caminhei para o banheiro. O dono do lugar disse que o banheiro dos homens estava com problemas. Melhor eu usar o das mulheres, que ficava ao lado. Não tinha mulher por ali, explicou.</p>
<p>Entrei, usei, sai&#8230; quando piso fora do banheiro dou com o Manente me apontando a câmara. Foto! Não me lembro se essa foi fixada no mural da redação, como era hábito. O fato é que se vê a ilustre pessoa deste profissional saindo por uma porta sobre a qual estava escrito, grande, na parede: Senhoras.</p>
<p>O grande Rolando de Freitas era um perigo em potencial. Estava sempre pronto para uma gozação. Numa viagem pelo interior do País, dormimos numa casa/hotel que não tinha chuveiro. O banho era no quintal, de canequinha. Vi o sacana pelado fingindo que ia tomar o tal banho, mas com a câmara na mão. Reclamei, xinguei e tomei muito cuidado, porque, afinal, eu estava no banho. Assim mesmo o meu posterior foi mostrado em uma grande foto, esta sim fixada na redação.</p>
<p>Heitor Hui, autor de capas na revista Manchete da época de ouro, é um cavalheiro. Mas com sense of humor. Um dia viajamos para Joaquim da Barra, perto da divisa com Minas, atrás de uma mulher que havia escapado de um terremoto no Japão. Achamos a sobrevivente, entrevistei, e ela disse que tinha rezado muito para uma santa cujo nome me escapa.</p>
<p>Fomos então à igreja, porque, uma vez a salvo em sua cidade, a mulher rezava com frequência à frente da imagem da santa, para agradecer. Impunha-se uma foto da fiel com a santa.</p>
<p>Na igreja, a situação se complica. A imagem, não lembro por que, estava guardada. Pedi a uma senhora permissão para levar a santa para seu lugar, perto do altar. Era uma imagem grande, de mais de metro. Carreguei-a como pude e, solícito, a deixei com Heitor e a mulher.</p>
<p>Mais tarde, Heitor me mostrou a foto que fizera: um ladrão de imagens roubando uma santa grande em plena igreja. Quase fui parar novamente no mural da redação.</p>
<p>Com Edward Costa, já tinha vivido certas boas aventuras, como a do peixe com abobrinha roubada de uma plantação que ele preparou para nós, numa viagem de barco. Agora estávamos em Boiçucanga, a velha praia do litoral norte paulista.</p>
<p>Às tantas, cansado, sento num velho banco de madeira, de uma praça, e ponho-me a garatujar anotações no meu bloco. Não ouvi o cléc do disparo da máquina (o obturador de cortina das velhas Nikon operadas com filme fazia esse barulho).</p>
<p>Depois, Edward me mostrou o resultado. Fui fotografado bem embaixo de uma placa, que não tinha notado, com o nome do lugar: Praça da Mentira.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Discussão sem luz</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Dec 2011 15:07:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Um grande tema apaixona todas as faculdades de jornalismo e de comunicação social no Brasil &#8211; e só elas: o diploma deve ou não ser obrigatório para o exercício da profissão? É certo que os leitores de jornais e todos os consumidores de produtos jornalísticos estão se lixando para isso. Eles pagam para adquirir produtos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um grande tema apaixona todas as faculdades de jornalismo e de comunicação social no Brasil &#8211; e só elas: o diploma deve ou não ser obrigatório para o exercício da profissão?<span id="more-5971"></span></p>
<p>É certo que os leitores de jornais e todos os consumidores de produtos jornalísticos estão se lixando para isso. Eles pagam para adquirir produtos de qualidade e é isso que esperam consumir quando compram um jornal, uma revista, ou quando assistem a um programa jornalístico na TV ou lêem notícias na internet.</p>
<p>O debate é mesquinhamente corporativo. Embora o Supremo Tribunal Federal já tenha decidido, por 8 votos a l, em 2009, que a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista é inconstitucional, o tema voltou à pauta graças a uma proposta de emenda constitucional apresentada pelo senador Antonio Carlos Valadares, do PSB, que estabelece de novo a obrigatoriedade do diploma.</p>
<p>A PEC foi aprovada em primeiro turno por 65 votos a 7 graças a um bem sucedido lobby de entidades sindicais e o novo PSD foi o único partido a fechar questão contra.</p>
<p>E exigência do diploma é uma velha história que nasceu com o decreto lei 972/69, baixado pelo regime militar, muito pouco interessado em facilitar a vida do jornalismo e dos jornalistas.</p>
<p>Então volta a discussão que já se dava por vencida: é preciso ter diploma para ser jornalista?</p>
<p>O ministro Gilmar Mendes, relator da decisão do STF de 2009, disse em seu parecer que “a formação específica em curso de jornalismo não é o meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”.</p>
<p>O senador Aloysio Nunes Ferreira, ao votar contra a PEC do senador Valadares, foi também incisivo: o jornalismo é “instrumento ligado à liberdade de expressão” e, portanto, “não cabe nenhum tipo de restrição” ao seu exercício.</p>
<p>Não existe nada na especialização do jornalista que exija conhecimentos técnicos específicos que não sejam adquiridos no exercício da profissão. Um mau médico pode matar, um mau engenheiro pode derrubar pontes, um mau enfermeiro pode trocar a medicação. Um mau jornalista pode no máximo maltratar a língua ou narrar mal os fatos, mas isso ele pode fazer com ou sem diploma.</p>
<p>Para o STF, “ a doutrina constitucional entende que as qualificações profissionais de que trata o art. 5º, inciso XIII, da Constituição, somente podem ser exigidas, pela lei, daquelas profissões que, de alguma maneira, podem trazer perigo de dano à coletividade ou prejuízos diretos a direitos de terceiros, sem culpa das vítimas, tais como a medicina e demais profissões ligadas à área de saúde, a engenharia, a advocacia e a magistratura, dentre outras várias.”</p>
<p>É evidente que um diploma de curso superior, de qualquer especialização humanista, só vai ajudar a melhorar a capacitação intelectual de qualquer jornalista.</p>
<p>A volta da discussão sobre o diploma é ociosa, inoportuna e corporativista.</p>
<p>Com ele, pretende-se apenas criar uma reserva de mercado para sindicatos sem clientela.</p>
<p>Nenhum diploma vai iluminar o jornalismo ou criar um Gabriel Garcia Marquez, um Mario Vargas Llosa, um Nelson Rodrigues, um Barbosa Lima Sobrinho.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 9/12/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>O foca chega à redação com o furo histórico</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Dec 2011 19:21:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Olá. Em um dos últimos fins de semana, conversando com amigos em um dos botecos aqui do Guarujá (na verdade, um restaurante, mas, vá lá, um boteco), contei uma aventura que me aconteceu logo no início de minha passagem pelo Jornal da Tarde, e que até então havia permanecido quieta aqui comigo (não sei por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olá. Em um dos últimos fins de semana, conversando com amigos em um dos botecos aqui do Guarujá (na verdade, um restaurante, mas, vá lá, um boteco), contei uma aventura que me aconteceu logo no início de minha passagem pelo <em>Jornal da Tarde</em>, e que até então havia permanecido quieta aqui comigo (não sei por quê). Bem, esses amigos exigiram que eu colocasse a história neste site.<span id="more-5957"></span></p>
<p>Estava no <em>JT</em> havia dois meses – um foca perfeito e completo, naquele maio de 1968, quando houve um fato importante: no dia 26, ou seja, na véspera, tinha acontecido o primeiro transplante de coração não só no Brasil, mas na América Latina.</p>
<p>E o que me ordenava o chefe de reportagem? Que identificasse o doador. Tudo o que se sabia, até ali, é que um homem fora atropelado em uma avenida na periferia de São Paulo, e que seu coração havia sido utilizado no transplante. Fui até aquela avenida, em frente ao número que constava no boletim de ocorrência como referência do atropelamento. E comecei a bater pernas.</p>
<p>Naquele tempo, e estamos falando de 43, quase 44 anos atrás, repórteres batiam pernas. Hoje não: eles batem teclas no Google, ou nos celulares. A pergunta, óbvia, era se alguém sabia quem era o atropelado da noite passada, ou madrugada. Ninguém.</p>
<p>Até que cheguei a uma oficina, não me lembro se mecânica ou de outro tipo, em que o encarregado me respondeu: “Quem foi não sei, mas temos um funcionário aqui que saiu ontem e não voltou até agora”. Bem, o episódio não me vem suficientemente claro hoje, mas o fato é que fui conduzido até o quarto do tal funcionário (ele tinha o seu quarto na oficina). Procurei por tudo – na verdade, hoje não imagino o que estava procurando – ajudado, com certeza, pelo fotógrafo que me acompanhava, cujo nome e figura não me ocorrem.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzzjt1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5960" title="zzzjt1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzzjt1-194x300.jpg" alt="" width="194" height="300" /></a>A única coisa que me chamou a atenção foi uma chave encontrada lá e que o encarregado esclareceu que era a chave do quarto. Não sei por que, realmente não me ocorre o motivo, perguntei se poderia levar a chave. O rapaz concordou.</p>
<p>Depois de percorrida toda a redondeza, o que me restava? Ir ao Hospital das Clínicas, onde havia sido feito o transplante, e tentar saber se alguma informação nova identificava o doador. Procurei dona Clarisse Ferrarini, a enfermeira-chefe, uma das principais fontes de informação de Ewaldo Dantas e Valéria Wally.</p>
<p>Naquela época, dias atrás, Ewaldo Dantas, um dos melhores repórteres brasileiros, estivera no Hospital das Clínicas de São Paulo visitando um amigo. E&#8230; Abro aqui um enorme parêntese, desculpem. Ewaldo tem amigos íntimos, e repito, tem amigos íntimos, em todos os lugares. Naquela época tinha uma casa em Ubatuba, ou Caraguatatuba, e me convidou para acompanhá-lo em um fim de semana. Aceitei e perguntei: quanto tempo de viagem até lá? E ele: “Depende, com boteco ou sem boteco?”. Fomos. Paramos nos botecos, é claro. E Ewaldo era amigo íntimo de todos os donos dos botecos. Parêntese encerrado. Ewaldo visitou um amigo no HC e ficou sabendo de um iminente transplante de coração, que seria o primeiro na América Latina.</p>
<p>Voltando ao jornal, ele se reuniu com a chefia, contou o que estava para acontecer, e imediatamente (e secretamente) foi montada uma equipe para acompanhar tudo de ali em diante. Já se sabia quem seria o transplantado: o lavrador João Ferreira da Cunha, de apelido João Boiadeiro. Um repórter, Dirceu Soares, se a memória não me trai, foi enviado para a cidade natal dele para reconstituir sua história. E, não menos importante, a repórter especial Valéria Wally foi escalada para trabalhar diretamente com Ewaldo. Não deu outra: feito o transplante, o Jornal da Tarde lançou uma edição extra, a primeira de sua história, e conquistou o Prêmio Esso de jornalismo daquele ano. Eram outros tempos.</p>
<p>Voltando à minha conversa com dona Clarisse, a enfermeira-chefe do HC, tentando identificar o doador: nada, nenhuma informação a mais, nenhum documento nos bolsos do homem. Havia apenas um objeto com ele, uma chave. Imediatamente peguei a chave que trazia comigo e perguntei a Clarisse: “A senhora poderia fazer a gentileza de comparar esta chave com a que ele tinha?”. “Posso”, ela respondeu. Alguns tensos momentos depois ela voltou e anunciou: eram exatamente iguais.</p>
<p>Não me lembro com precisão o que fiz a seguir, mas acho que voltei como um foguete para aquela oficina na periferia e, quando cheguei ao <em>Jornal da Tarde</em>, pouco mais tarde, levava o nome completo do doador – Luís Ferreira Barros, e uma foto 3&#215;4 dele. Estavam na primeira página do <em>JT</em> do dia seguinte, com a foto ocupando todo o espaço abaixo da manchete.</p>
<blockquote><p><em>Dezembro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Atolados na Transamazônica</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 17:43:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Sim, lá estava o grandioso Tocantins, com a ponte por onde passa o trem de Carajás. E, formando um Y, seu belo afluente, o Itacaiúnas. Com tanta beleza, por que essa cidade do sul do Pará – Marabá – tinha um apelido tão marcante – Marabala? A violência era tal que os pistoleiros andavam à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sim, lá estava o grandioso Tocantins, com a ponte por onde passa o trem de Carajás. E, formando um Y, seu belo afluente, o Itacaiúnas. Com tanta beleza, por que essa cidade do sul do Pará – Marabá – tinha um apelido tão marcante – Marabala?<span id="more-5838"></span></p>
<p>A violência era tal que os pistoleiros andavam à vontade pela cidade. Isso foi até que a autoridade considerada “o juiz mais macho do Pará’ &#8211; a juíza Marta Antunes Lima – começou a limpar o lugar. Ela já havia deixado sua marca (e sobrevivido a quatro atentados a bala) em Altamira, a 500 quilômetros. Foi por aqueles dias que Paulo César Bravos e eu desembarcamos no aeroporto de Marabá. Nosso propósito, no entanto, não era falar de pistoleiros e xerifes. Mas encarar uma aventura.</p>
<p>Tínhamos a pretensão de viajar pela Transamazônica, a estrada inaugurada em 1972 pelos militares para promover a ocupação do Norte. Deveria unir o Piauí ao Amazonas – mas, dizia-se, ligava o nada a lugar nenhum. Por ela queríamos ir de Marabá a Altamira – ou até onde desse.</p>
<p>Paulinho era um mestre das lentes, grande repórter fotográfico. Produziu um belo material para a revista Afinal, onde trabalhávamos. Mas me aprontou uma&#8230;</p>
<p>Em Marabá uma Belina nos esperava. A perua da Ford estava na moda, naquele ano, 1986. O importante para nós é que, se não era um jipe, pelo menos tinha tração nas quatro rodas.</p>
<p>A Amazônia só tem duas estações: seis meses de verão, seco; outro tanto de inverno, com chuvas abundantes. A estrada que íamos percorrer era precária, de terra, mal-afamada, com atoleiros capazes de reter vários caminhões. Um dos mais famosos, o Buraco da Aparecida, tinha metro e meio de fundo por quinhentos de comprimento (Aparecida era uma mulher que instalara uma vendinha, para atender os encalhados). Felizmente estava em outro trecho. E nós, todo animados, em pleno inverno, em um carro de passeio.</p>
<p>O asfalto chegara à Marabá um ano antes. Com isso, o trecho da Transamazônica que cortava a cidade tinha o benefício. Em uma manhã, deixamos o hotel, carregamos a Belina, e embarcamos. Seguimos até o fim do asfalto, fronteira com a realidade de terra. Bem ali, havia um buraco no qual, escrevi, “poderiam boiar uma dúzia de vitórias-régias”.</p>
<p>Presságio, aviso? Ignoramos. Puxei uma garrafa de uísque, e demos um gole pelo sucesso da empreitada. Partimos. Viajamos até bem pelos primeiros 40 quilômetros. Depois foi na base do Deus ajuda. A tração nas quatro rodas nos salvou nos primeiros atoleiros. Atolamos em outro, um pessoal nos ajudou a desencalhar. Seguimos em frente, vai que vai.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir3.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5842" title="zzvaldir3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir3-300x153.jpg" alt="" width="300" height="153" /></a>Teríamos rodado uns 90 quilômetros, quando chegamos ao acampamento de uma empreiteira. Um grande plástico preto, sustentado por estacas, oferecia teto a uma dúzia de homens. Esses peões e operadores de máquinas eram vítimas de um jogo de desmancha-prazeres. A duras penas arrumavam minimamente um trecho da estrada; vinha a chuva e desarrumava.</p>
<p>Ficamos com dó daquela gente, isolada em instalações tão precárias. Redes para dormir, um prato e uma colher para o boião (a comida), banheiro nem pensar. O chefe do acampamento era o Chaparral, que dispensava a colher – comia com as mãos. Ele e outros que ali estavam nos aconselharam a não prosseguir. Mas nós, repórteres, pessoas determinadas, especiais, nos safamos daquele lugar horrível. Demos adeus e seguimos em frente. Quatro quilômetros depois atolamos em um aterro que parecia uma montanha de lama.</p>
<p>Em pouco tempo surgiu um cortador de banana disposto a nos ajudar. Tinha um facão e estava bêbado. Depois, apresentou-se um lavrador com sua enxada. O trabalho deste homem nos deu esperança. Liguei o carro, acionei a tração, acelerei e&#8230; The End. A fricção, peça da embreagem, quebrou.</p>
<p>Passado algum tempo, Paulinho pôs o pé na estrada, com uma missão. Voltaria quatro quilômetros até o acampamento, para pedir socorro a Chaparral. Na boca da noite, voltou com uma promessa um pouco vaga de ajuda no dia seguinte, se não chovesse.</p>
<p>O trecho onde estávamos margeava a reserva dos índios paracanãs. O lavrador nos tranquilizara: não mexiam com brancos, a não ser que tentassem entrar na reserva. Juro que não tentamos. Ao anoitecer, a mata se encheu de sons. O mais impressionante eram rugidos que pareciam de onças alucinadas, mas vinham dos macacos guaribas. Jantamos dentro do carro, no melhor estilo náufrago. Roupas molhadas e enlameadas, sardinhas em conserva e biscoitos.</p>
<p>Na manhã seguinte encarei os quatro quilômetros. Chaparral disse que o único jeito seria rebocar a Belina com uma motoniveladora. Mas o pneu da máquina estava furado. E os humores do inverno amazônico presentes. Caía tremendo aguaceiro, e parava. O céu limpava, vinha a bonança, o sol surgia quente. O pessoal do acampamento estendia roupa lavada sobre o pára-brisa dos veículos. Secava em minutos. Logo, no entanto, o tempo fechava e lá vinha água.</p>
<p>Andei os quatro quilômetros de volta para a Belina. Encontro Paulinho dentro do carro, com ares de bem-estar. Não estava mais enlameado, como eu o deixara. Mostrava roupa limpa e asseio. Todo animado, contou que havia tomado um belo banho de chuva.</p>
<p>Abri o porta-malas e procurei a garrafa de água mineral. Havíamos subestimado a situação. Aquela era a última garrafa. Procuro e procuro, na bagunça de roupas e bagagens, e não acho. Pergunto a Paulo:</p>
<p>- Meu, quede a garrafa de água?</p>
<p>Ele, firme:</p>
<p>- Estamos sem, acabou.</p>
<p>Eu tinha certeza de que ainda havia uma garrafa. Estava intacta, quando saí para o acampamento. Aperto o amigo, ele tergiversa, mas acaba por confessar:</p>
<p>- Lavei os pés.</p>
<p>A vida no acampamento da empreiteira até que não era mal. Os 12 homens e suas máquinas ficavam parados por longos dias, à espera de condições para operar. Contavam histórias, as proezas que faziam com suas máquinas a diesel. “Somos bons nisso”, diziam. Chaparral incentivava: “Fumaçou, aquele ali dirige até cachimbo”. Dormi na minha rede garimpeira (de nylon, pequeno volume fechada). Como os outros, e como Paulinho, tomei banho na água de uma mina e comi o boião com a colher. Tinha a promessa de Chaparral de que no dia seguinte, se não caísse toró, iria resgatar a Belina.</p>
<p>Às seis da manhã, com o pneu consertado, o chefe do acampamento pulou para o banco da motoniveladora e deu a partida. No lamaçal, manobramos o carro “na mão” e o prendemos à máquina com uma corda. Chaparral precisou de muita habilidade para a volta. Eles eram bons mesmo. Mal chegamos ao acampamento, a tempestade despencou.</p>
<p>À tarde, surgiu um caminhão da sede da empreiteira. Foi na carroçaria dele, com chuva no lombo, que conseguimos voltar até um ponto a uns 20 quilômetros de Marabá. E agora? Lá vinha uma velha caminhonete, carregada de bananas. Estendemos o polegar. O carregamento incluiu dois sujeitos mal ajambrados em cima das bananas. Foi assim que chegamos a Marabá e ao singelo porém maravilhoso hotel com chuveiro quente.</p>
<p>A concessionária que cedera a Belina incumbiu-se de buscá-la quando desse. Nos ofereceu agora uma picape com tração nas quatro rodas. Com ela chegamos, por uma variante, a Tucuruí, onde está a hidrelétrica. E a um lugar chamado Repartimento. Mas essa é outra história.</p>
<p>A delegada Marta Lima e a hidrelétrica foram mostradas em dois boxes.</p>
<blockquote><p><em>Novembro de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Na Amazônia, ao natural</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Nov 2011 15:19:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
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		<description><![CDATA[Programa de índio, na Amazônia, é você viver como um deles, nem que seja por alguns minutos. A sensação gostosa de se integrar à Natureza de um jeito inteiramente natural, ou seja, nu. Sinto não poder descrever o que estava fazendo na Amazônia, quem era o meu companheiro das lentes (o fotógrafo), em que ano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Programa de índio, na Amazônia, é você viver como um deles, nem que seja por alguns minutos. A sensação gostosa de se integrar à Natureza de um jeito inteiramente natural, ou seja, nu.<span id="more-5694"></span></p>
<p>Sinto não poder descrever o que estava fazendo na Amazônia, quem era o meu companheiro das lentes (o fotógrafo), em que ano estávamos. Não lembro mais. Mas recordo que voávamos em um gracioso Skylander, um aviãozinho monomotor bom de pouso em pista de terra.</p>
<p>Foi assim que descemos em um povoado, às margens do Teles Pires. Ver um riozão desses vale a viagem. Ele corre pelo Mato Grosso, para o Norte; lá em cima, forma com outros dois rios o Bico de Papagaio, divisa desse Estado com Pará e Amazonas.</p>
<p>O comandante, como se deve chamar o piloto, ficou no lugarejo com o avião. O colega e eu alugamos um barco e zarpamos. O destino era uma ilha do Teles Pires. Ali, alguns dos Mesquitas, nossos patrões no Jornal da Tarde, costumavam passar alguns dias no lazer da pescaria.</p>
<p>Chegamos ao entardecer. Fiquei surpreso ao ver onde nos hospedaríamos. Uma espécie de palacete de pau a pique, coberto por palha. O rústico confortável.</p>
<p>O responsável pelo lugar nos esperava (seguramente havíamos avisado sobre nossa ida por rádio). Era um homem amável, e pareceu contente por nos ver. Descemos as malas, e demos uma olhada pelo lugar.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5703" title="zzvaldir1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir11.jpg" alt="" width="740" height="572" /></a>Então, o bravo profissional que vos escreve teve a idéia, por sinal um pouco óbvia. Aquela proximidade de noite, tanto calor&#8230; Que tal um banho de rio? Siiimm. E por que não, só nós e a natureza, pelados? Claaarooo.</p>
<p>A água estava uma delícia. Em terra, nosso anfitrião deixou um empregado, um rapaz, nos observando. E lá ficamos, desfrutando a sensação única da vida “selvagem”&#8230; Momentos raros (viagens são boas, cheias de aventura, mas de muito trabalho).</p>
<p>Foi quase por acaso que uma idéia varou minha mente. Olhei para o fotógrafo, nenhuma preocupação. Gritei para o funcionário à margem:</p>
<p>- Companheiro, este rio tem jacaré?</p>
<p>E ele, em tom tranquilizador:</p>
<p>- Não, não&#8230; Só o de papo amarelo.</p>
<p>Rápida debandada. Quem está interessado em cor de papo? A salvo, na margem, o rapaz nos explicou que o de papo amarelo não costumava atacar. Pior era o peixinho tal (disse o nome), minúsculo, que entrava no canal da uretra. Felizmente, desse também escapamos.</p>
<p>Logo anoiteceu. Eu estava no banho, quando ouvi alegres exclamações. Alguma coisa encantava meu companheiro.</p>
<p>Vesti uma tanga&#8230; Não, a cota de vida selvagem terminara. Bermuda e camisa. O clima festivo vinha da cozinha. Entrei e vi o peixão nas mãos do amável homem.</p>
<p>Era um pintado grande, acabara de ser pescado. Com nossa chegada, um pescador (talvez o da casa) pulara para o barco com a missão de providenciar o jantar. E pescara o baita.</p>
<p>Acresce que o nosso anfitrião era cozinheiro de mão cheia. Tivemos um jantar delicioso. Peixe tirado da água tem outro gosto (e o homem realmente manejava bem o fogão). O Teles Pires é rio muito piscoso, mas nem sempre, nos informou o bom homem, a pescaria dá certo. Por garantia, matara uma ou duas galinhas, deixadas de lado. A sorte estava mesmo do nosso lado.</p>
<p>O dia seguinte era domingo. Nosso anfitrião insistiu em que ficássemos para uma pescaria. Mas tínhamos muito o que fazer. Algum tempo depois, o Skylander decolou para outro destino&#8230;</p>
<blockquote><p><em><strong></strong><strong>A charge é de Oswaldo Gil</strong></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Ian McEwan, o Garrincha do texto</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Oct 2011 22:24:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Não tem jeito: depois que se lê Solar, é impossível resistir à tentação de dizer que Ian McEwan é o melhor escritor da atualidade. O que, obviamente, é um absurdo – ou, no mínimo, no mínimo, uma temeridade. Como posso dizer que alguém é o melhor escritor da atualidade, se leio pouco, ou, no mínimo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não tem jeito: depois que se lê <em>Solar</em>, é impossível resistir à tentação de dizer que Ian McEwan é o melhor escritor da atualidade.<span id="more-5548"></span></p>
<p>O que, obviamente, é um absurdo – ou, no mínimo, no mínimo, uma temeridade. Como posso dizer que alguém é o melhor escritor da atualidade, se leio pouco, ou, no mínimo leio muito menos do que deveria? Ou, para ser mais exato, como fazer uma afirmação tão peremptória se ninguém é capaz de ler tudo o que se escreve e se publica hoje?</p>
<p>E no entanto, enquanto lia <em>Solar</em>, o livro que McEwan publicou em 2010 e a Companhia das Letras editou no Brasil no mesmo ano, me peguei pensando, várias vezes, na frase absoluta, superlativa: esse senhor é o melhor escritor da atualidade.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>E de repente o texto muda de assunto</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Solar1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5552" title="Solar1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Solar1.jpg" alt="" width="250" height="377" /></a>Verdade que sou chegado a um superlativo. Nunca me esqueço da vez em que escrevi, na revista <em>Afinal</em>, na segunda metade dos anos 1980, <a href="http://50anosdetextos.com.br/1987/raios-laser-na-selva/">um texto sobre o disco <em>Graceland</em></a>, de Paul Simon, e fiz um olhinho – a linha fina sob o título – dizendo “Paul Simon faz um dos melhores discos da história”. <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/sandro-vaia/">Sandro Vaia</a>, o diretor de redação, cofiou os bigodes e trucou, suavemente; questionou se eu não achava aquela frase um tanto superlativa demais.</p>
<p>Argumentei que tinha certeza – e a frase foi publicada. Quase ninguém leu, é verdade, porque a <em>Afinal</em> era uma bela revista que simplesmente não aconteceu – mas a frase foi publicada. O que demonstra, no mínimo, que Sandro é um diretor de redação democrático – e que eu sou mesmo chegado a um superlativo.</p>
<p>Às vezes Sandro exagera na democracia. Nunca vou esquecer, também, do que aconteceu quando morreu Sergio Endrigo. Um repórter do <em>Caderno 2</em>, um fanfarrão, que se acha – como boa parte dos jornalistas dos cadernos dois da vida – um gênio absoluto, escreveu um texto idiota, nivelando Endrigo aos cantores menores do pop italiano. Na reunião de pauta, Sandro, então diretor de redação do <em>Estadão</em>, disse ao editor do 2 que aquilo estava errado, que Endrigo é um compositor grande, que sua obra vai muito além das canções românticas, que o conteúdo poético e também político das canções é de grande importância, e que, além disso, as muitas ligações do artista com a música brasileira teriam que ser ressaltadas.</p>
<p>Ou seja: era uma indicação de que o texto teria que ser refeito. Uma ordem, dada com extrema educação.</p>
<p>O texto não foi refeito. O <em>Estadão</em> publicou o texto ridículo do repórter idem, dizendo que Endrigo é o autor de baladinhas românticas açucaradas. (Os redatores dos cadernos 2 da vida adoram usar essa expressão, baladinhas açucaradas, para desmerecer os artistas de que não gostam, ou que simplesmente não conhecem – como era especificamente o caso.)</p>
<p>Democrático demais, ou talvez, naquele caso, até um pouco leniente, Sandro não deu esporro no editor que não compreendeu que ele havia dado uma ordem.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>Uma outra história de redação</strong></p>
<p>É interessante como alguns editores – e também repórteres e copydesks, hoje chamados fechadores – não compreendem, ou fingem não compreender, as ordens da chefia. Muitos anos antes daquela reunião de pauta em que se falou de Sergio Endrigo, presenciei reuniões de pauta do <em>Estadão</em> dirigidas por Augusto Nunes. Augusto – que aliás foi meu colega na ECA, no iniciozinho dos anos 70 – era um diretor de redação bem diferente de Sandro; muito mais majestático, imperial, cheio de si, inteiramente à vontade com as luzes da ribalta. Augusto é um jornalista afeito às câmaras da TV. Sandro é um jornalista do teclado – falar para grandes platéias não é exatamente a praia dele.</p>
<p>Mas então me lembro de reuniões de pauta da época em que Augusto Nunes era o diretor de redação do <em>Estadão</em> – era 1988, 1989. Sandro, Elói Gertel, Júlio Moreno, Laerte Fernandes, eu, todos estávamos na Agência Estado, e a convivência entre os jornalistas da Agência, dirigida por Rodrigo Mesquita, e os do jornalão, dirigido pelos Mesquita de outra cepa, era dificílima. Não que isso importe para a história que quero contar, que é a de que Augusto, um dia, teve que dizer uma frase do tipo:</p>
<p>- “Acho que algumas pessoas aqui não compreendem direito que, quando eu sugiro alguma coisa, educadamente, estou na verdade mandando que aquilo seja feito.”</p>
<p>Nesse ponto específico, o majestático Augusto se igualou ao democrático Sandro. Os dois queriam apenas dizer, de modo educado, elegante: façam isso, seus putos.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>Idas e vindas</strong></p>
<p>Mas o que tem tudo isso a ver com <em>Solar</em>, de Ian McEwan?</p>
<p>Nada – e alguma coisa. Talvez bastante.</p>
<p>O texto de Ian McEwan vai e vem – no tempo, no espaço, nos temas.</p>
<p>Me ocorre que o texto de Ian McEwan é como as pernas de Garrincha: imprevisível. Finge que vai pra lá, mas vai pra cá; finge que vai pra cá, e de repente vai pra lá.</p>
<p>O texto de Ian McEwan dribla as expectativas do leitor, dribla os estilos narrativos aos quais estamos habituados, dribla a ordem cronológica, dribla o próprio tempo.</p>
<p>Jamais cheguei perto do <em>Ulysses</em> de Joyce. Dele, o máximo que li foram os contos de <em>Dublinenses.</em> Pra mim, agora que fiquei velho então, é assim: experiências, experimentar, é para os outros. Os estudantes de química que façam experiências. Quanto a mim, tô fora: não me venham com essa.</p>
<p>Mas imagino que McEwan leu Joyce, e muitas vezes.</p>
<p>McEwan é brilhante.</p>
<p>Sandro, já que falei nele, costumava pegar no nosso pé – nós, as pessoas que ele dirigia – chamando a atenção para a banalização de certos termos, como, por exemplo, brilhante.</p>
<p>Brilhante é um adjetivo que deve ser usado com parcimônia. Se não se perde – vira vala comum.</p>
<p>McEwan é brilhante – e aqui nem devo pedir desculpas ao Sandro, porque ele, como eu, acha McEwan brilhante. Ele, Mary, Fernanda – várias das pessoas que importam, cuja opinião respeito.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>Um brilho em que a erudição vem bem dosada, e nunca é chata</strong></p>
<p>Então, McEwan certamente leu Joyce várias vezes.</p>
<p>A essência da literatura de McEwan é o fluxo de pensamento. Mas McEwan é sábio – ele sabe dosar.</p>
<p>McEwan sabe ser brilhante sem ser chato. Une erudição, bela literatura, a alguma trama sempre fascinante, atraente, envolvente.</p>
<p>Comecei a conhecer McEwan com <em>Na Praia/OnChesil Beach</em>, de 2007. Romance pequeno, não mais que 110 páginas – uma narrativa elaboradíssima de fatos acontecidos em uma única noite, a lua de mel de um jovem casal inglês no início dos anos 1960. Os poucos fatos vão vindo permeados de lembranças dos personagens, e só nas últimas páginas dá-se um corte que avança no espaço e tempo.</p>
<p>Fiquei fascinado com a descrição tão acurada dos valores ou desvalores e dos medos de uma geração que é exatamente a minha. McEwan nasceu em 1948, dois anos antes de mim – somos exatamente da mesma geração, e é impressionante como a geração aproxima as pessoas, sejam elas nascidas em Aldershot, Inglaterra, ou Ipameri, Goiás.</p>
<p>Muito do que se fala em <em>Na Praia</em> é exatamente o que senti quando adolescente, depois jovem, naqueles tempos pré-revolução dos costumes, tempos duros de imensa repressão moralista, em que a virgindade das moças era gigantesco, apavorante tabu, e sexo, para os rapazes, era só com as putas. A imensa maior parte de quem foi adolescente nos anos 1960 – na Europa ou na América do Sul, seja onde for – pode perfeitamente se identificar com os pobres personagens do romance.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>No texto de McEwan, o tempo se dilata</strong></p>
<p><em>Reparação</em>, de 2001, me deixou chapado. É um romance estupidamente belo, forte, impactante. É tão agressivamente brilhante que, depois de ver o filme – também belíssimo –, não tive coragem de escrever uma linha sobre ele. Tudo o que eu pudesse falar seria pouco.</p>
<p>Depois li <em>Sábado</em>, lançado em 2005. <em>Sábado</em> é fantástico, e assustador.</p>
<p>A coisa da ação que se passa num único dia é, obviamente, uma citação de Joyce, uma homenagem ao <em>Ulysses</em> de Joyce.</p>
<p>O personagem central, Henry Perowne, é um neurocirurgião. McEwan deve ter passado meses e meses lendo sobre neurologia – o domínio que demonstra ter do assunto é impressionante. Mas nunca é uma coisa exibicionista, e está longe de ser chato, desagradável. Ao contrário: é fascinante. O livro vai descrevendo as ações – e, especialmente, os pensamentos – de Perowne ao longo do sábado, 15 de fevereiro de 2003, o dia em que estão sendo realizados protestos em diversos pontos da Europa contra a iminente invasão do Iraque pelas forças americanas.</p>
<p>Como em <em>Na Praia</em> e <em>Reparação</em>, em <em>Sábado</em> McEwan dilata o tempo. Um jogo de squash de Perowne com um colega se estende por dezenas e dezenas de páginas – porque, entremeado ao jogo de squash, vamos acompanhando o que passa pela cabeça do neurocirurgião, suas lembranças, seus planos para o jantar daquele sábado com a família. Uma coisa puxa outra, e outra, e outra. Como acontece na vida real com o pensamento da gente.</p>
<p>Em meio aos movimentos de Perowne ao longo daquele sábado, e de suas lembranças, seus pensamentos a respeito da família, suas relações com os dois filhos já adultos, com sua mulher, os pacientes que ele operou nos últimos dias, discutem-se o Iraque, a iminente invasão, a ditadura de Saddam Hussein – o tema do momento –, mas também diversos outros temas: os desníveis sociais, a violência urbana, os valores morais, o senso de justiça, o desejo de vingança, a ética profissional.</p>
<p>É fascinante, de babar.</p>
<p>O <em>Sunday Times</em> disse: “<em>Sábado</em> confirma que McEwan é o melhor romancista de sua geração”.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>O personagem teve uma explosão de gênio muito jovem e aí se apagou</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/solar22.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5559" title="solar2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/10/solar22.jpg" alt="" width="316" height="488" /></a>Para escrever <em>Solar</em>, o autor que havia estudado neurocirurgia deve seguramente ter passado muitos meses, talvez anos, pesquisando sobre física. Seu protagonista desta vez, Michael Beard, é um físico, que muitos anos antes da época em que passa a ação, quando ainda era jovem, ganhou o Nobel de Física por estudos a respeito de teorias de Einstein.</p>
<p>Michael Beard é assim um pouco como uma supernova: teve uma explosão de gênio muito cedo e se apagou. Passou a viver da fama obtida com o Nobel; nunca faltaram convites para posições honorárias em faculdades e palestras mundo afora – mas, a rigor, depois de ter criado sua tese premiada com o Nobel, não voltou a se empenhar nos estudos ou pesquisas. Foi levando a vida empurrando-a com a barriga – uma barriga, aliás, tão grandiosa quanto seu ego. O ego inflado se devia à consciência que tinha da própria inteligência, e, naturalmente, do fato de ter ganho o Nobel. A pança imensa derivava de seu apetite estrondoso – tanto para alimentos sólidos, salgados ou doces, quanto por álcool, tudo ingerido em quantidades industriais.</p>
<p>“Ele pertencia àquele gênero de homens – vagamente feiosos, quase sempre carecas, baixos, gordos e inteligentes – que exercem uma atração inexplicável sobre certas mulheres bonitas. Ou achava que pertencia, o que parecia ser suficiente para transformar o desejo em realidade. No que era ajudado pelo fato de algumas mulheres o tomarem por um gênio que precisava ser salvo. Entretanto, naquela altura da vida Michael Beard era um homem de funções mentais limitadas, desprovido de impulsos hedônicos, monotemático, ferido. Seu quinto casamento estava se desintegrando.”</p>
<p>Este é o lead – maravilhoso – de <em>Solar</em>. A Parte Um se passa em 2000. Como em <em>Reparação</em>, haverá saltos no tempo – a Parte Dois se passa em 2005, e a Três, em 2009, o que permite que o romance fale de temas atualíssimos como a chegada de Barack Obama ao poder e a guerra dos narcotraficantes mexicanos.</p>
<p>Mas, como é Ian McEwan, a divisão em três partes que se passam em épocas diferentes não significa muita coisa. Em cada uma delas, volta-se muito, com frequência, ao passado, nas lembranças de Michael Beard a respeito de sua vida, seus cinco casamentos fracassados, seus trabalhos. Assim, por exemplo, a Parte Três começa não em 2009, mas descrevendo a juventude do protagonista, até o primeiro de seus cinco casamentos, para só depois de muitas páginas chegar de fato a 2009.</p>
<p>Ao contrário do neurocirurgião Henry Perowne de <em>Sábado</em>, homem decente, profissional sério, dedicado, Michael Beard é um caráter duvidoso, duvidosíssimo. É um homem absolutamente egocêntrico, inescrupuloso, muitas vezes francamente repugnante. No entanto, como acontece tantas vezes na vida real, consegue, apesar de tudo isso, se dar bem, consegue sair praticamente incólume de situações arriscadíssimas, perigosíssimas. Ao menos até um determinado ponto.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>Sim, o Planeta está em perigo – e nosso anti-herói só pensa em seu umbigo</strong></p>
<p>McEwan cria uma trama fascinante, atraente, que em muitos momentos tem o ritmo e a tensão de um excelente policial. Mas, mais importante que a trama, é o texto em si – inteligente, irônico, sarcástico, impiedoso, brilhante. E saboroso. É um texto que dá imenso prazer, que se saboreia como uma iguaria rara.</p>
<p>Ler McEwan, insisto na analogia, é como ver Garrincha jogar. Coisa que dá prazer, alegria. O deslumbramento diante do melhor que pode haver na arte.</p>
<p>Se, em <em>Sábado</em>, o grande pano de fundo era o mundo pós o 11 de setembro, a iminente invasão do Iraque e suas consequências, em <em>Solar</em> o tema subjacente é o aquecimento global, o perigo das mudanças climáticas, e a procura por fontes de energia limpa e renovável.</p>
<p>Vejo que as edições originais do livro trazem a figura do Sol na capa. A edição brasileira partiu para uma sacada interessante: na capa aparece um urso polar. Bela idéia, porque polar parece o inverso de solar, ao mesmo tempo em que o derretimento das camadas polares é o símbolo vivo do aquecimento global – e também porque há duas figuras de urso polar importantíssimas na trama.</p>
<p>Mordaz, irônico, McEwan às vezes parece gozar os ambientalistas, os cientistas preocupados com a degradação do planeta – e isso certamente deve ter desagradado muita gente. Não é só no Brasil que vivemos tempos sombrios, em que o humor – e o que seria da vida sem o humor? – é vítima da cegueira das patrulhas.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>As patrulhas dos Donos da Verdade Absoluta atacam </strong></p>
<p>As patrulhas vão contra Michael Beard, lá pelas tantas, quando a narrativa já está bem adiantada – e é o único momento do livro em que senti alguma simpatia pelo anti-herói repelente. É possível contar esse episódio sem revelar nada da trama principal, sem ser portanto qualquer tipo de spoiler.</p>
<p>Dá-se que Beard é nomeado para presidir uma comissão governamental que visa a incentivar o gosto pela física entre os jovens, os estudantes. A comissão tem apenas uma mulher, todos os demais membros são homens. Numa entrevista coletiva, um repórter fala disso, a predominância dos homens na comissão, e aí pedem a opinião de Beard sobre esse fato. Beard, então, fala de estudos científicos de que tem conhecimento a respeito da maior ou menor facilidade das mulheres para determinados tipos de raciocínio. Não emite nenhuma opinião pessoal, nem muito menos faz qualquer juízo de valor a respeito da inteligência das mulheres. Não há qualquer tipo de crítica, menosprezo, às mulheres.</p>
<p>No entanto, a tal única mulher da comissão, uma feminista xiita, fanática, anuncia imediatamente sua renúncia ao cargo, acusando Beard de ser machista, porco-chauvinista. O caso vira um debate nacional. A imprensa passa a chamar Beard, além de machista, porco-chauvinista, também de eugenista, nazista.</p>
<p>Beard não é eugenista, nazista coisa nenhuma. É porco, sim, caráter precário, egocêntrico, umbigocêntrico – mas não é eugenista, nazista. Não disse que as mulheres são menos inteligentes que os homens – não disse isso de forma alguma. Apenas citou estudos científicos a respeito do tipo de raciocínio a que as mulheres são mais afeitas.</p>
<p>Mas, por causa da burrice, da idiotice, do politicamente correto, virou, segundo parte da inteligentzia, cujas opiniões apressadas são amplificadas pela imprensa, eugenista, nazista.</p>
<p>De uma certa maneira, é bom ler isso. É sempre bom vermos que a estupidez, a imbecilidade, a simplificação idiota, essas vergonhas todas não são privilégio deste nosso pobre país dominado pelo lulo-petismo, pelas idéias do politicamente correto, as cotas, as bolsas, a enfurecida luta contra quem se dá bem, quem teve a má sorte de nascer branco de olhos claros – ou apenas normal, não gay, não miserável, não despossuído, não minoria qualquer.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Fanatismo e inteligência, definitivamente, não combinam</strong></p>
<p>Quem ousa, como McEwan, criticar o fanatismo dos que se supõem Donos da Verdade Absoluta, se expõe ao bombardeio das patrulhas. Estamos todos cansados de saber disso. No Brasil, quem critica o lulo-petismo é logo taxado de neoliberal, reacionário, PIG, fascista.</p>
<p>Taxado, apenas, não. Quem critica o lulo-petismo é, sim, positivamente, comprovadamente, PIG, fascista.</p>
<p>Fanatismo, dogma, Donos da Verdade Absoluta, definitivamente, não são coisas que consigam andar junto com inteligência. Não são como Michelle, ma belle, des mots que vont três bien ensemble.</p>
<p style="text-align: center;">          <strong>Após o fim da narrativa, uma última demonstração de humor</strong></p>
<p>Nos agradecimentos, ao final do livro, ao citar diversos cientistas que o auxiliaram nos conhecimentos específicos de física, Ian McEwan demonstra um delicioso humor inglês: “O dr. Graeme Mitchison, do Centro de Computação Quântica de Cambridge, ofereceu-me generosa orientação nos campos da matemática e da física.  Quaisquer erros remanescentes são meus. Ele também teve a gentileza de desencavar o discurso de concessão do Prêmio Nobel a Michael Beard.”</p>
<p>Durante dois segundos, fiquei imaginando: uai, mas então houve um Michael Beard que ganhou o Prêmio Nobel? Ele se inspirou em um personagem real?</p>
<p>Claro que não, né? É só brincadeirinha de escritor genial. Humor inglês.</p>
<p>Se não for o melhor escritor da atualidade, é um dos melhores. Um dos melhores dos últimos muitos tempos. Essa aqui não é uma afirmação absoluta, peremptória, superlativa, à lá Graceland é um dos melhores discos da História. Mas essa não dá para ninguém contestar.</p>
<blockquote><p><em>São Paulo e Juquehy, outubro de 2011</em></p>
<p><em>Nada se cria, tudo se copia, e às vezes há coincidências. </em></p>
<p><em>Comecei a escrever este textinho chinfrim acima em meados de outubro, em casa, logo após ter lido </em>Solar<em> em Tiradentes, durante as férias.  Levei o texto iniciado para Juquehy, onde passaríamos os últimos dias das férias de Mary, e terminei lá. Postei na noite de 25, e até botei no Twitter. </em></p>
<p><em>Na hora do café da manhã do dia 26, dei de cara com o título na primeira página do Caderno 2 do </em>Estadão<em>, numa matéria sobre Nelson Cavaquinho: &#8220;O Garrincha do Samba&#8221;.</em></p>
<p><em>Dois jornalistas tiveram a mesma idéia, e publicaram praticamente no mesmo dia. Ninguém copiou ninguém.  </em></p>
<p><em>O Garrincha está na cabeça da gente. </em></p></blockquote>
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		<title>Maníaco sexual, eu?</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2011 20:56:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
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		<description><![CDATA[Num fim de tarde, chegamos a Ribeirão Preto cansados, depois de um dia correndo atrás da notícia. Se não me engano era coisinha leve, um rapaz de boa aparência, bem vestido, que se insinuava a moças de família da região, como médico. Tão educado, que as escolhidas logo se apaixonavam e pensavam em casamento. Acabavam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num fim de tarde, chegamos a Ribeirão Preto cansados, depois de um dia correndo atrás da notícia. Se não me engano era coisinha leve, um rapaz de boa aparência, bem vestido, que se insinuava a moças de família da região, como médico. Tão educado, que as escolhidas logo se apaixonavam e pensavam em casamento. Acabavam vítimas de um serial killer, tal era a verdadeira natureza do boa pinta.<span id="more-5366"></span></p>
<p>Bem, a esta altura seria mais interessante contar a historia do serial, mas, já que comecei com a minha, sigo em frente. “Chegamos a Ribeirão” eram este que vos escreve e o fotógrafo Antonio Carlos Mafalda, um gaúcho barbudo vindo da Zero Hora, de Porto Alegre.</p>
<p>Na volta das viagens, na redação, eu me divertia contando (com exagero) como ficava traduzindo o gauchês do Mafalda. “No restaurante ele pediu ao garçom: ’Índio véio, me traga um salsichão’, e eu traduzi: amigo, me traz uma linguiça.” Fora o fato, verdadeiro, de chamar PM de brigadiano (de Brigada Militar, a PM gaúcha).</p>
<p>Em Ribeirão Preto não conseguimos um único quarto de hotel. Havia uma convenção de dentistas (ou seriam médicos?) e até mesmo o bom Stream Palace, a duas quadras do Pinguim, estava lotado. Acho que foi um motorista de táxi quem deu a dica. Subimos pela Rua da Saudades (tínhamos um carro alugado) e chegamos a um motel.</p>
<p>Imagine um gauchão parando na recepção com outro homem. Não imagine, porque Mafalda, ao volante, não parou. Passou batido e estacionou uns cinco metros adiante. Desci do carro, caminhei até a janela da recepção, falei sobre os hotéis lotados (eu também não queria ficar mal na fita com outro barbudo) e pedi dois quartos.</p>
<p>Nos hospedamos. Investiguei o banheiro, boa cara. Tirei a roupa, para o banho. Fui ligar a luz do quarto e&#8230; onde? Não achei o interruptor. Vasculhei a cabeceira, havia ali comando de rádio e TV e outros botões. Um deles me pareceu um interruptor. Apertei. Nada.</p>
<p>Procurei com mais cuidado na parede, perto da porta de entrada. Nem sombra de interruptor. Então pensei (a gente tem cada idéia de jerico): vai ver está no lado de fora. Abri um pouco a porta, o suficiente para estender um braço para fora. E comecei a busca pela parede. Procurava, arrastava a mão, e não achava nada. Acabei pondo meio tronco – nu – para fora, acho que até um pedaço de perna. Tateei, tateei, mais uma vez sem resultado.</p>
<p>Fechei a porta e estava a caminho do telefone, para exigir uma explicação de quem atendesse, mas esse “quem” foi mais rápido. O telefone tocou. Era uma moça.</p>
<p>- Está tudo bem? O senhor precisa de alguma coisa?</p>
<p>Ainda irritado vociferei contra a má qualidade do projeto do quarto, que transformou o simples acender de luz em um quebra-cabeças, etc.,etc.. A funcionária me ouviu educadamente. Quando parei, me orientou para aquele botão da cabeceira que parecia um interruptor.</p>
<p>- Já apertei esse, moça. Não adiantou nada.</p>
<p>Ela, atenciosa.</p>
<p>- O senhor não aperte, ele é para girar.</p>
<p>Girei e o quarto se iluminou. No banho, repassou ligado (antigo caiu a ficha): o que a pessoa que me viu, e deu o alerta (e atraiu sabe Deus quantos outros), achou da minha performance? Um sujeito pelado, encoxando um batente, e passando a mão na parede de fora de um quarto de motel? Imaginei a testemunha contando para os amigos: “Já vi muita coisa, mas uma tara como essa nunca”.</p>
<p>Bem, hoje penso o seguinte do que aconteceu em Ribeirão Preto. Diante de um serial keller, um maníaco sexual por acidente pode ser perdoado.</p>
<blockquote><p><em>Setembro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Dez anos depois</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 04:49:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu amigo Anélio Barreto me liga e fala do 11 de setembro. Rarissimamente temos falado, Anélio e eu, porque somos dois ursos, cada um em sua caverna, e então fiquei um tanto surpreso com o telefonema. Explicou que tinha se lembrado de mim porque, dez anos atrás, estava em Paris com a Lúcia. Beberam umas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu amigo <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/anelio-barreto/">Anélio Barreto</a> me liga e fala do 11 de setembro.<span id="more-5350"></span></p>
<p>Rarissimamente temos falado, Anélio e eu, porque somos dois ursos, cada um em sua caverna, e então fiquei um tanto surpreso com o telefonema.</p>
<p>Explicou que tinha se lembrado de mim porque, dez anos atrás, estava em Paris com a Lúcia. Beberam umas no Deux Magots; ele ficou sabendo que haveria, à noite, na igreja de Saint-Germain de Près, do outro lado da pracinha, um concerto, que prometia ser muito bom. Comprou as entradas, voltou para o Deux Magots, terminou o drink. Na volta para o apartamento que havia alugado, pararam numa lan house. Ele entrou então no estadao.com – e viu a notícia, com a frase “parecia um filme de ficção científica”. Claro, não foram a concerto algum, aquele dia.</p>
<p>Agora, dez anos depois, recordou-se disso, desse pequeno detalhe. E quis me contar.</p>
<p>Eu tinha esquecido completamente que usara essa frase, essa imagem, dez anos atrás. Mas sabia que havia guardado prints dos diversos momentos da home page do estadao.com no dia 11 de setembro de 2001. Fui atrás deles.</p>
<p>O primeiro título, às 10h01, foi “Avião bate no World Trade Center em NY”. Embaixo, o olhinho, a linha fina: “As TVs transmitem ao vivo uma cena da mais desvairada ficção científica: um avião chocou-se contra um dos dois prédios gêmeos do World Trade Center, em Nova York. Aguarde mais informações.”</p>
<p>O das 10h25 tinha quase o mesmo título: “Aviões batem no World Trade Center em NY”. Embaixo de uma foto, o olhinho começava do mesmo jeito: “As TVs transmitem ao vivo uma cena da mais desvairada ficção científica: um avião chocou-se contra um dos dois prédios gêmeos do World Trade Center, em Nova York. Poucos minutos depois, houve uma violentíssima explosão no outro prédio: era outro avião batendo. Gigantescas nuvens de fumaça saem dos dois prédios”.</p>
<p>Um print que também traz o horário de 10h25 mostra que a home do estadao.com tinha o título “Bush diz na TV que foi ataque terrorista”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“A stranger came up and asked me if I’d heard John Lennon had died”</strong></p>
<p>Alguns momentos a memória da gente acaba guardando para sempre. Outro dia Dona Lúcia, minha sogra, mandou para mim e para Mary uma mensagem em que lembrava que, no dia 24 de agosto de 1954, o dia em que Getúlio Vargas se matou, ela <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/o-vestido-de-noiva-no-dia-em-que-getulio-morreu/">estava provando o vestido de noiva</a>. Como era uma mensagem deliciosa, um texto bonito, elegante, publiquei neste site.</p>
<p>Paul Simon fez uma canção, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BhBvh1cwA0w">“The Late Great Johnny Ace”</a>, dizendo que estava andando na rua, através da “maré do Natal”, quando um estranho chegou pra ele e perguntou se já sabia que John Lennon morrera – e ele e o desconhecido foram para um bar e ficaram lá até a hora de fechar.</p>
<p>Me lembro bem onde eu estava na hora em que soube que John Lennon morrera. Tinha acabado de chegar em casa, vindo do jornal, mais de meia-noite, e o César Giobbi me ligou; tinha sido avisado, estava já no jornal preparando um segundo clichê; perguntou se eu poderia ajudar, escrever a discografia dos Beatles e de John.</p>
<p>O <em>Jornal da Tarde</em> foi o único dos jornais de São Paulo a noticiar no dia seguinte a morte de John Lennon.</p>
<p>Lembranças, lembranças.</p>
<p>Me lembro que, no dia seguinte, na redação, o Anélio me disse que o dr. Ruy tinha ficado puto com o destaque dado à morte “daquele roqueiro casado com aquela japonesa”.</p>
<p>Lembranças, lembranças.</p>
<p>Depois do telefonema surpreendente do Anélio, fui postar no site a crônica semanal do <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/ha-dez-anos/">Fernando Brant</a> – em que ele se lembra que, na manhã dos ataques terroristas às torres gêmeas, estava viajando de Belo Horizonte para o Rio.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O sujeito comemorou a derrota imposta pelos camaradas terroristas aos americanos</strong></p>
<p>Me esquecera completamente de que, na hora, escrevi na home do estadao.com que as TVs transmitiam uma cena da mais desvairada ficção científica.</p>
<p>Claro, lembrava que estava no trabalho; era na época o editor-chefe do portal do Estadão. Lembrava do trabalho febril, louco, em um dia longo, que não terminava nunca. Quando a gente está trabalhando em cima da notícia, não tem muito tempo para examinar sensações, sentir dor, pesar, pânico: é preciso trabalhar – depois que fechar aí então a gente pensa, sente.</p>
<p>Do que mais me lembro, no episódio dos ataques do 11 de setembro, foi o choque que levei quando, uns dias mais tarde, uma amiga me contou que o marido dela tinha comemorado, feliz, a derrota que os camaradas terroristas tinham imposto aos filhos da puta dos americanos.</p>
<p>Gostaria de não me lembrar disso. Gostaria demais de ter esquecido isso. Infelizmente, não esqueci – e acho que, se fosse viver mais cem anos, jamais esqueceria.</p>
<p>Um sujeito comemorar, como num jogo de futebol, como ao final da apuração de uma eleição vencida, o assassinato de mais de 3 mil pessoas me parece tão chocante, absurdo, criminoso, quanto os próprios ataques do 11 de setembro.</p>
<p>Meu amigo Anélio se lembra é de uma frase que, em Paris, identificou como sendo minha – uma cena que parece ficção científica.</p>
<p>Anélio não é homem de fazer muitos elogios; os faz, mas não com freqüência.</p>
<blockquote><p><em>11 de setembro de 2011</em></p>
<p><strong><em>Um P.S. necessário:</em></strong></p>
<p><em>Não quis, de maneira nenhuma, ao fazer o relato acima, dizer que a frase, a expressão &#8220;parece ficção científica&#8221; tenha sido boa, ou inteligente, ou uma bela sacada, nem muito menos original. Muito ao contrário: era o que todo mundo pensava na hora, no mundo inteiro, era o que todo mundo falava na redação. A única coisa diferente foi o fato de eu ter usado a frase &#8211; uma exclamação pessoal, emotiva, subjetiva &#8211; numa notícia, num portal de uma das maiores empresas jornalísticas do país. Foi uma pequena, pequeníssima, mínima transgressão à regra eterna da &#8220;objetividade&#8221;, do &#8220;distanciamento&#8221; que se exige dos jornalistas &#8211; só isso.   </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Historinhas de redação (13): a Olivetti do Robson</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jul 2011 01:47:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Robson Costa era um excelente copy, português perfeitíssimo; era mais um produto do bom jornalismo e das boas escolas de Minas importado pelo JT no início dos anos 70. Era também um sujeito tremendamente tímido – pessoa extraordinária, do bem, mas tímido. Tínhamos o costume de botar a Olivetti de pé, para ter mais espaço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Robson Costa era um excelente copy, português perfeitíssimo; era mais um produto do bom jornalismo e das boas escolas de Minas importado pelo <em>JT</em> no início dos anos 70. Era também um sujeito tremendamente tímido – pessoa extraordinária, do bem, mas tímido.<span id="more-5044"></span></p>
<p>Tínhamos o costume de botar a Olivetti de pé, para ter mais espaço para canetar os telex das sucursais – nos casos em que não era necessário reescrever tudo nas laudas.</p>
<p>Ao virar a Olivetti da posição normal para a vertical, Robson deixou cair a máquina, pesada pacas, no chão. Uma barulheira danada, e a redação parou por alguns minutos, todo mundo urrando, berrando, vaiando.</p>
<p>No meio da zorra, do fundo da redação, onde ficava a editoria de Esportes, Mário Marinho, gaiato, falou:</p>
<p>- Texto leve, hein, garoto?</p>
<p>Várias horas depois, incidente já esquecido por todo mundo – quase todo mundo –, Robson foi até a mesa de Marinho e se queixou baixinho, tímido:</p>
<p>- Pô, cê acabou comigo, hein?</p>
<blockquote><p><em>Postado em julho de 2011</em></p>
<p><em>Se quiser ler mais histórias de jornalistas, <a href="http://50anosdetextos.com.br/tag/historias-de-jornalistas/">clique aqui</a>. </em></p></blockquote>
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		<title>No tempo de Dick Tracy na Sala de Imprensa</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 17:15:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Dick Tracy entrando na chefatura de polícia? Bem, o personagem usava capa de chuva e chapéu, como o detetive das tiras dos jornais americanos da década de 1930. Mas não era um detetive, era um repórter policial. Não estava nos States, mas na moderna São Paulo de 1957. A chefatura era na verdade a Central [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dick Tracy entrando na chefatura de polícia? Bem, o personagem usava capa de chuva e chapéu, como o detetive das tiras dos jornais americanos da década de 1930. Mas não era um detetive, era um repórter policial.<span id="more-5009"></span></p>
<p>Não estava nos States, mas na moderna São Paulo de 1957. A chefatura era na verdade a Central de Polícia, ao lado do Pátio do Colégio. A vestimenta do repórter ficava um tanto deslocada no tempo, mas ele não se importava. Seu nome: Maurício de Souza.</p>
<p>Ficou um ano nessa vida. Depois seguiu seu destino de desenhista, e inventou Bidu, Franjinha, e toda a turma da Mônica. Outro desenhista famoso foi Chester Gould, que criou Dick Tracy. Durante aquele ano, Maurício foi um desenho de Chester Gould.</p>
<p>Eis o que diz hoje: “Eu me fantasiava de detetive americano porque era tímido. Vestido como herói, tinha coragem para falar.” Um repórter policial detetive com um ponto fraco: não podia ver sangue que desmaiava.</p>
<p>A Sala de Imprensa da Central de Polícia parecia um filme em preto-e-branco, com o tic tac das máquinas de escrever como trilha sonora. Os jornalistas ora se agitavam com fatos importantes, ora viviam o tédio de esperar pela notícia. Nestas horas, a jogatina corria.</p>
<p>Jogavam cartas ou dados, a dinheiro. No calor do jogo gritavam, brigavam. De repente, o telefone tocava. Repórteres vestiam o paletó, fotógrafos pegavam a Rolleiflex e o flash, e saíam todos apressados. Em algum lugar da cidade, podia haver um corpo crivado de balas. Ou isto será cena de filme?</p>
<p>Era a realidade, como atesta João Bussab, um dos mais conhecidos repórteres policiais dessa época. Bussab era rádio-escuta da TV Tupi, canal 3, com suas transmissões em preto-e-branco. Em 1963 foi cobrir as férias de um colega, na Central de Polícia, para os Diários Associados. Ficou 14 anos.</p>
<p>Quase colada à sala dos jornalistas ficava a do delegado de plantão. Certo dia, lembra Bussab, o delegado invadiu a sala de imprensa, apreendeu o baralho, e autuou os repórteres em flagrante por jogo de azar.</p>
<p>O azar foi do delegado. Outros repórteres se mobilizaram e procuraram o secretário da Segurança Pública, para explicar que o jogo era apenas uma forma de matar o tempo. O flagrante foi relaxado, e o delegado, transferido para outro distrito.</p>
<p>Além da timidez, Maurício de Souza tinha aquele outro sério problema. “Era uma coisa horrível, eu não podia ver sangue que desmaiava”. No local de um crime, pedia socorro ao fotógrafo. “Ele olhava o corpo e me dizia como estava, se era em decúbito ventral (barriga para baixo)” – conta, divertindo-se com o linguajar técnico.</p>
<p>Maurício trabalhava de madrugada, se é que se pode dizer isso. Naquelas em que nada acontecia, e como não aderisse ao jogo, juntava as mesas (podia ser a da <em>Folha</em>, onde trabalhava, a dos Diários Associados, a da <em>Última Hora</em>, do <em>Estadão</em>), e assim tinha uma cama “grande como de casal”. Fazia um travesseiro de jornais amassados, deitava-se e dormia&#8230;</p>
<p>É verdade que, em plena madrugada, podia ser incomodado por uma notícia. Neste caso, pedia condução e fotógrafo, e a <em>Folha da Manhã</em> (hoje <em>Folha de S.Paulo</em>) mandava o carro da reportagem, um jipe laranja.</p>
<p>Eventualmente podia chegar também o jipe dos Diários Associados (que Bussab, em outras horas, também usava). Naquela época, a periferia da cidade não era asfaltada.</p>
<p>Muitas vezes Maurício se deparava com um crime passional, o marido pegou a mulher com o amante, ou vice-versa. “Na confusão, a polícia ali, a família chorando, eu cumpria ordens do jornal: roubava a foto do casamento.”</p>
<p>A foto era uma ótima ilustração para a reportagem. Maurício achava “uma coisa desrespeitosa”, mas se consolava. “Se eu não pegasse, um colega pegaria.”</p>
<p>Na Sala de Imprensa os jornalistas se davam bem, procuravam ser solícitos uns com o outros. Mas amigos, amigos, furo à parte.</p>
<p>Certo dia explodiu nos jornais o caso de um mafioso que tentara matar a tiros o dono da famosa Boate Michel, da Rua Major Sertório, na Boca do Luxo. Começa a caçada ao criminoso (que acertara a vítima, mas não a matara) por toda a cidade.</p>
<p>Bussab ficou na cola de certo competente policial. “Fui com ele para as bocas.” Chega o sábado, a Sala de Imprensa está calma. O mesmo policial chama Bussab, discretamente, como este recorda: “O cara está preso aí embaixo.” Aí embaixo era o xadrez.</p>
<p>Bussab, também na moita, pede fotógrafo. Descem ao xadrez e passam bom tempo com o preso. Na segunda-feira, os Diários saem com o furo estrondoso.</p>
<p>Naqueles tempos, em que o delegado Israel dos Santos Sobrinho, o “Gravatinha”, fazia pregações de moral para os presos, algo muito curioso ocorria na Sala de Imprensa. O repórter Sílvio Nunes, o Espaguete, vivia sob intensa vigilância.</p>
<p>O apelido vinha do fato de que, toda noite, jantava a massa, num restaurante próximo. Quem vigiava Espaguete era Dona Laura, sua mulher. Ela se sentava em uma cadeira, dentro da Sala de Imprensa.</p>
<p>Quando o marido saía no jipe do <em>Diário da Noite</em>, Dona Laura ia junto. Os jornalistas gostavam muito de Espaguete, educado e amável, que, por brincadeira, chamava os outros de “meu caro caríssimo”.</p>
<p>Por solidariedade ao colega, os repórteres proibiram que a mulher ficasse na Sala de Imprensa. Ela e sua cadeira saíram&#8230; mas se instalaram no corredor, à porta da sala.</p>
<p>Conta-se que, depois, o jornal proibiu que “estranhos” viajassem no carro da reportagem. E que Dona Laura seguia o carro de táxi. Mas isto é apenas o que se conta.</p>
<p>Num fim de plantão, Maurício de Souza passou pela sala do delegado e a encontrou vazia. Foi ao cartório, não havia ninguém. As viaturas policiais, que ficavam à frente do prédio, não estavam lá. Em uma sala onde chegavam informações, encontrou, junto ao telefone, um papel com um endereço no Belém, na zona leste.</p>
<p>Pediu o jipe e partiu. A rua do Belém estava cheia de carros da polícia, policiais agitados, muitos curiosos. Dick Tracy pulou um cordão de isolamento e subiu as escadas do sobrado em frente. Lá em cima, deu com o delegado do plantão.</p>
<p>“Ele me disse: ‘O que você está fazendo aqui?’ Não vai poder escrever uma linha sobre isto.” Foi impedido de se mover e de sair da casa. Mesmo assim, deu uma espiada num cômodo e viu o corpo de um homem.</p>
<p>Mais tarde chegaram repórteres de rádio e de televisão, e o delegado viu que não tinha como segurar a notícia. Contou então o que acontecera. O pai do governador do Estado, Jânio Quadros, fora assassinado.</p>
<p>Maurício prefere não dizer por quê. O noticiário da época registra que Gabriel Quadros foi morto por um vendedor de limões que o flagrou com sua mulher. No fundo, mais um crime passional na cidade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O sobrado do século 19 está para se revelar de novo</strong></p>
<p>Como uma noiva que se veste para o casamento, a Casa Número 1 não pode ser vista. Esse antigo sobrado, de fins do século 19, está com obras de restauro prestes a terminar. A Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo só vai mostrá-lo quando tudo estiver de acordo com o figurino.</p>
<p>No entanto, mesmo com tapumes cobrindo o térreo, dá para ver que ficou muito bonito. A fachada, com janelas altas e balcão, e o belo ornamento do telhado, é um presença de certa forma inesperada, na rua.</p>
<p>O endereço era Rua do Carmo, número 1. A primeira casa da rua, vizinha ao Pátio do Colégio, o lugar em que São Paulo começou. Em meados do século passado, aquele trecho da rua passou a se chamar Roberto Simonsen. O sobrado ainda é a primeira casa, mas agora sob o número 136-B.</p>
<p>O bandeirante Gaspar Godoy Moreira foi um dos primeiros moradores. Depois, ainda no século 19, a construção abrigou um colégio, foi sede de uma empresa de serviços, e de uma “Sociedade de Imigração”, até passar para a Companhia de Gás. A partir de 1910 sediou órgãos policiais.</p>
<p>Durante décadas, esteve ali a Central de Polícia, para onde convergiam as informações sobre todas as ocorrências da cidade. Com isso, os repórteres dos jornais ficavam de plantão ali dia e noite.</p>
<p>Para abrigá-los, a Secretaria da Segurança cedeu uma sala, onde puderam ter mesa e máquina de escrever. A Sala de Imprensa tinha setoristas de todos os jornais. De lá, saiam para cobrir crimes e acidentes na cidade, como se mostra a matéria acima. Foi assim até 1970, quando a polícia deixou o prédio e este passou para a Prefeitura.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>, em julho de 2011.</em></p></blockquote>
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