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	<title>50 Anos de Textos &#187; Geléia Geral</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Orra, meu: magina de pipo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 03:29:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra. Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui. “Magina de pipo&#8221;, letra e música de André Abujamra, do disco Infinito de Pé, de 2004. André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra.<span id="more-6979"></span></p>
<p>Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui.</p>
<p>“Magina de pipo&#8221;, letra e música de André Abujamra, do disco <em>Infinito de Pé</em>, de 2004.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzkarnak1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6993" title="zzkarnak1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzkarnak1.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a>André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em que há tanta coisa sendo criada e lançada no mercado que não dá mais para separar o melhor trigo em meio a tanto joio. É joio demais – e é até trigo demais.</p>
<p>Nos anos 60, houve uma explosão de talentos: Edu, Chico, Caetano, Gil, Milton, Sidney Miller, Paulinho da Viola.</p>
<p>O país inteiro os acompanhava.</p>
<p>Depois dos anos 90, tudo se estilhaçou. Há uns 78 tipos de música sendo feitos no Brasil, uns 438 no mundo. É absolutamente impossível conhecer tudo. O que era amplo, geral e irrestrito virou uma grande quantidade de nichos.</p>
<p>Faz muito tempo que deixei de tentar acompanhar tudo o que surge de bom na música popular, brasileira ou internacional. Não dá – é impossível, é coisa demais.</p>
<p>Mas há algumas coisas tão extraordinariamente boas que a gente acaba conhecendo – mesmo quem, como eu, é cada vez mais pré-antigo num mundo pós-moderno.</p>
<p>André Abujamra é uma dessas coisas.</p>
<p>Não conheci o Mulheres Negras, formado em 1985 pelo André e Maurício Pereira. Só fui conhecer o André na sua fase Karnak, que me foi apresentado pela minha filha. O Karnak é genial, faísca de talento saindo pelo ladrão. Em seus dois discos, de 1995 e 1997, fez algumas canções extraordinárias, da melhor qualidade: “Alma não tem cor”, “O Mundo”, “Espinho na Roseira/Drumonda” são algumas das melhores canções feitas nos anos 90 que ouvi.</p>
<p>André tem um tipo peculiar de humor. Mistura, como numa salada, assertivas sérias, seriíssimas, com frases que parecem babacas, bobocas. Em “Alma não tem cor” e “O Mundo”, faz panfletos contra todos os racismos, todas as discriminações – mas panfletos em forma de piada gostosa.</p>
<p>Em “Magina de Pipo” ele faz o seu hino da utopia. Um hino piada, que ri dele próprio.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>A música brasileira e o bom humor sempre se deram bem. Houve muita fossa, muito, como diria Regina Berlim, kit gilete na música brasileira – Dolores Duran, Maysa, Antônio Maria –, mas sempre houve bom humor, gozação, tiração de sarro. Noel, o gigante Noel, era um grande sarrista. Lamartine Babo era tão ou mais irreverente, engraçado, escrachado, gozador, que no cinema são Mel Brooks e Woody Allen.</p>
<p>A Tropicália foi, entre muitas outras coisas, um movimento bem humorado, apesar de ter surgido (ou por isso mesmo) na ditadura, nos tempos mais sombrios da nossa História recente. TomZé sempre foi um grande gozador. Os Mutantes foram gozadores homéricos – gozaram de maneira espalhafatosa, melbrooksiana, uma das maiores glórias do cancioneiro nacional, “Chão de Estrelas”. Tropicália, o disco, gozava tudo – inclusive Vicente Celestino e o coração materno que quicava na estrada.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Uma década depois do Tropicalismo, o Rumo trouxe de volta o bom humor dos mestres, Noel, Lamartine, e ainda acrescentou o seu próprio humor – ferino, inteligente, letrado, estudado, uspianizado.</p>
<p>E não é que a união música-bom humor seja uma coisa brasileira. De forma alguma. Ainda nos anos 70, o conjunto argentino Les Luthiers fez música cômica da melhor qualidade – gozando tudo que vinha pela frente, inclusive a música brasileira, a bossa nova, a eterna saudação do é sol, é sal, é sul.</p>
<p>Muito mais recentemente, teve e tem Kevin Johansen, mezzo porteño, mezzo Alasca – mas nada a ver com Sarah Palin, muito ao contrário.</p>
<p>E agora mesmo tem o Fernandez Fierro, o conjunto (a banda?) de tango pós-tudo, que tem quatro bandoneons e quatro violinos, para fazer um som que deixaria Piazzolla de queixo caído. Fernandez Fierro faz avançar o tango como se ele tivesse – como diz o Caetano em relação à música brasileira – uma linha evolutiva. É o tango pós-Piazzolla, se é que isso pode haver. (Ouvindo um e outro, penso que Piazzolla é mais avançado que os bravos garotos do Fernandez Fierro – mas talvez isso seja só uma visão de um velhinho conservador.)</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Vixe! Acho que viajei um pouco.</p>
<p>Eu só queria fazer um elogio a “Magina de Pipo”.</p>
<p>A pérola, enão, como eu dizia, foi gravada num disco de 2004, <em>O Infinito de Pé</em>. Pós Mulheres Negras, pós Karnak, André Abujamra fazia um disco dele mesmo.</p>
<p>A 14ª faixa é “Magina de pipo”.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzar-a.png"><img class="alignright size-full wp-image-6994" title="zz,ar a" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzar-a.png" alt="" width="589" height="434" /></a>“Magina de Pipo”, uma belíssima, ousadíssima gozação de “Imagine”, de John Lennon, começa com um monte de cordas. Paul McCartney fazia isso, por que André Abujamra não poderia?</p>
<p>Vem então um dueto de André Abujamra com Miriam Maria, cantando várias vezes a frase “magina de pipo”.</p>
<p>André é um ator, um artista multimídia. Quando quer, sabe fazer uma voz bonita.</p>
<p>Miriam Maria tem um timbre de voz de anjo.</p>
<p>Os dois ficam repetindo as palavras “magina de pipo”.</p>
<p>Não é comum alguém gozar um herói com toda a aparência de que está acima de qualquer suspeita. Gozar a cara de John Lennon, que virou um emblema como o Che, é enfrentar jogo pesado. É preciso coragem. André tem, de sobra.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Não tem graça alguma este texto se o eventual leitor não conhecer &#8220;<a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/14-Magina-de-Pipo3.m4a">14 Magina de Pipo</a>&#8220;, ou não puder conhecê-la na internet.</p>
<p>Parece, no entanto, que ela não está.</p>
<p>As canções de André Abujamra que citei lá pra cima estão disponíveis no YouTube. “Magina de pipo” não está.</p>
<p>Um absurdo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Eis aí a letra da canção.</p>
<p>Maysa, Antônio Maria e Dolores Duran certamente morreriam de inveja dos versos que falam da separação.</p>
<p>Eu sinto uma inveja danada é do letra inteira. Gostaria de ter escrito estes versos maravilhosos. A bela canção, a melodia, bem, esta eu jamais saberia como fazer.</p>
<p><em><strong>Magina de Pipo</strong></em></p>
<p><em>André Abujamra</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.</em></p>
<p><em>Deus fez o homem, colocou o sentimento</em></p>
<p><em>Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.</em></p>
<p><em>Deus fez o homem, colocou o sentimento</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ai meu Deus, como dói meu coração</em></p>
<p><em>Separação é pior que morte</em></p>
<p><em>Só que o fantasma é de carne e osso</em></p>
<p><em>e ainda vai casar com outro moço</em></p>
<p><em>Ai meu Deus, como dói meu coração</em></p>
<p><em>Separação é pior que morte</em></p>
<p><em>Só que o fantasma é de carne e osso</em></p>
<p><em>e ainda vai casar com outro moço</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Foi, foi, foi,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Foi, foi, foi,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão</em></p>
<p><em>mas ficou a mancha negra no fundo do coração</em></p>
<p><em>Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão</em></p>
<p><em>mas ficou a mancha negra no fundo do coração</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Se eu pudesse mudar o mundo ia fazer você me amar</em></p>
<p><em>ia trocar a cor do céu, ia trocar a cor do mar</em></p>
<p><em>Os bichos iam falar, quem tivesse fome ia poder se alimentar</em></p>
<p><em>não haveria religião e eu mudaria o gosto do pimentão</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Não teria câncer, anemia</em></p>
<p><em>e eu tiraria semente da melancia</em></p>
<p><em>não teria classe social, não teria guerra, não teria arma mortal</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>(recitado) Se não tivesse tristeza só teria alegria, mas depois de um certo tempo ficaria uma porcaria</em></p>
<p><em>por isso se eu pudesse não tiraria nem o sofrimento nem a dor</em></p>
<p><em>pra que quando viesse a felicidade sentíssemos o sabor do amor</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<blockquote><p><em>Maio de 2012</em></p></blockquote>
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		<title>I met my old lover on the street last night</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 17:09:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[I met my old lover on the street last night. Não sei se ela parecia tão feliz em me ver. Parecia, acho, um tanto curiosa. Como eu, ela se lembrava bem de que fazia tempo não nos víamos. Fez as contas: oito meses. Oito meses, em 14 anos, contabilizou. Perguntou da vida, e falei da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>I met my old lover on the street last night.</p>
<p>Não sei se ela parecia tão feliz em me ver. Parecia, acho, um tanto curiosa.<span id="more-6438"></span></p>
<p>Como eu, ela se lembrava bem de que fazia tempo não nos víamos. Fez as contas: oito meses. Oito meses, em 14 anos, contabilizou.</p>
<p>Perguntou da vida, e falei da Agência Estado. Me queixei suavemente, durante a sessão do aperitivo. Me sugeriu procurar emprego na Editora Globo; estão para lançar revistas.</p>
<p>No começo do jantar, perguntou dos amores, e falei de Mary. Relatei mansamente. Acho que fielmente.</p>
<p>Me contou, então, de seu namoro. Tem três meses, como o meu com Mary. Encontrou o que queria, neste momento da vida – um namoro calmo, tranqüilo, gostoso, que não aperta até sufocar.</p>
<p>Me deu carona até em casa, subiu para pegar um livro e um xerox de um texto de Borges que pendurei na cortiça e que ela, como eu, conheceu há pouco. Comentou depois, quando desci para acompanhá-la até o carro, que não imaginava que Mary estivesse na minha casa (Mary estava dormindo; trabalha bem cedo hoje), que o namoro dela não é tão íntimo quanto o meu.</p>
<p>Nos abraçamos de leve, suavemente, sem emoção.</p>
<p>Mary acordou quando deitei. Não fez pergunta sobre o jantar.</p>
<p>Acordei às 5 e meia da manhã com sede, ouvi <a href="http://www.youtube.com/watch?v=46bkXgxb66E">“Still Crazy After All These Years”</a> algumas vezes, e corri aqui pro violão, e a manhã está nascendo azul.</p>
<blockquote><p><em>O texto é de 11 de setembro de 1990.</em></p>
<p><em>Passei por ele por puro acaso, quando procurava uma data para identificar velhas fotos. Achei bonito, pensei um publicar, não sei bem por quê. Saudade, talvez.</em></p>
<p><em>Sei é que “Still Crazy After All These Years”, que Paul Simon fez em 1975, é uma absoluta maravilha (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=Ksa4VjKE3RY&amp;feature=related">aqui, a versão original </a>):</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I met my old lover</em></p>
<p><em>On the street last night</em></p>
<p><em>She seemed so glad to see me</em></p>
<p><em>I just smiled</em></p>
<p><em>And we talked about some old times</em></p>
<p><em>And we drank ourselves some beers</em></p>
<p><em>Still crazy afler all these years</em></p>
<p><em>Oh, still crazy after all these years.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>I&#8217;m not the kind of man</em></p>
<p><em>Who tends to socialize</em></p>
<p><em>I seem to lean on</em></p>
<p><em>Old familiar ways</em></p>
<p><em>And I ain&#8217;t no fool for love songs</em></p>
<p><em>That whisper in my ears</em></p>
<p><em>Still crazy afler all these years</em></p>
<p><em>Oh, still crazy after all these years</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Four in the morning</em></p>
<p><em>Crapped out, yawning</em></p>
<p><em>Longing my life away</em></p>
<p><em>I&#8217;ll never worry</em></p>
<p><em>Why should i?</em></p>
<p><em>It&#8217;s all gonna fade</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Now I sit by my window</em></p>
<p><em>And I watch the cars</em></p>
<p><em>I fear I&#8217;ll do some damage</em></p>
<p><em>One fine day</em></p>
<p><em>But I would not be convicted</em></p>
<p><em>By a jury of my peers</em></p>
<p><em>Still crazy after all these years</em></p>
<p><em>Oh, still crazy</em></p>
<p><em>Still crazy</em></p>
<p><em>Still crazy after all these years.</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Dois dos mais belos contos estão num disco</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/dois-dos-mais-belos-contos-estao-num-disco/</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 05:37:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Dois dos mais brilhantes contos que já li na vida estão no disco The Caution Horses, que os Cowboy Junkies lançaram em 1990. Foram escritos pelo guitarrista Michael Timmins quando era bem jovem. Há no mundo um número absurdo de críticos de música; críticos de rock, ou rock &#38; pop, deve haver seguramente mais de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dois dos mais brilhantes contos que já li na vida estão no disco <em>The Caution Horses</em>, que os Cowboy Junkies lançaram em 1990. Foram escritos pelo guitarrista Michael Timmins quando era bem jovem.<span id="more-6351"></span></p>
<p>Há no mundo um número absurdo de críticos de música; críticos de rock, ou rock &amp; pop, deve haver seguramente mais de um milhão; só a <em>Folha de S. Paulo</em> tem uns 437,  ou 438. Há seguramente mais de 437, ou 438 rótulos de música pop – e, no entanto, jamais criaram um rótulo para as canções que são contos.</p>
<p>Críticos literários, isso há menos que críticos de música, certamente, mas também são milhares, dezenas de milhares. A definição de conto, no entanto, é difícil. É algo fluido. Não é, de forma alguma, uma coisa absolutamente clara. Onde exatamente o conto se separa da novela? Em que especificamente o conto se difere da crônica?</p>
<p>Dou uma olhadinha no verbete “conto” do <em>Dicionário de Termos Literários</em> do professor Massaud Moisés. Oito longas colunas, concluindo com indicações para outras doutas obras. De objetivo, fica o seguinte: “narrativa breve e concisa”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Contos sobre solidão, abandono, dor, crime, suicídio</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaution.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-6365" title="zzcaution" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzcaution-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Não sou douto em absolutamente nada, e minha opinião vale menos que uns três guaranis furados, mas, para mim, a música popular tem contos de qualidade tão grande quanto os de Tchecov, Hemingway, Fitzgerald, Dalton Trevisan, e quem mais houver.</p>
<p>Milton Nascimento, voz de sino de cobre, compositor de belíssimas melodias, que costuma se atrapalhar com as palavras quando tem que falar, tímido que é, escreveu, quando muito jovem, um conto perfeito, chamado “Morro Velho”, em que narra a amizade de dois garotos, que, muitos anos mais tarde, se reencontram, já adultos, de lados opostos na escala social. O professor Massaud Moisés talvez questionasse a definição de conto para “Morro Velho”, já que, segundo ele, os contos decorrem “num restrito lapso de tempo, horas ou dias”. “Caso o tempo se dilate, parte dele se escoa sem carga dramática”, ensina. No conto de Milton, há duas épocas diferentes – mas é narrativa breve e concisa, e então é um conto.</p>
<p>Paul Simon, também quando bastante jovem, escreveu alguns belos contos sobre dor, solidão, suicídio, crime. “Richard Cory” e “A Most Peculiar Man” falam de dois homens que se matam – um milionário, o primeiro, um pobre solitário, o segundo. Nos dois, assim como em “Morro Velho”, o narrador é externo – relata os fatos em terceira pessoa. Em “Wednesday Morning, 3 A.M”, Simon cria um conto narrado na primeira pessoa: quem relata os acontecimentos é o rapaz que acabou de assaltar uma loja e agora, no meio da madrugada, teme a chegada da polícia, enquanto a namorada dorme a seu lado, seu peito arfando sob a roupa pouca. A narrativa deve ter fascinado o jovem artista, porque, no ano seguinte, ele reescreveu a mesma história, embalada numa melodia bastante diferente, em “Somewhere they can’t find me”; o que era uma gentil melodia folk se transforma num pop acelerado, ritmado, mas o roubo é o mesmo, e alguns versos permanecem idênticos.</p>
<p>O jovem Paul Simon reescreveu seu pequeno conto sobre o garoto que assalta uma loja como Dalton Trevisan passaria a vida reelaborando suas próprias histórias.</p>
<p>E mesmo “The Boxer”, o que é “The Boxer”, se não um breve, conciso, emocionante conto sobre um rapaz que vem do interior para a metrópole à procura de emprego e as únicas ofertas que recebe são das putas?</p>
<p>“Eleonor Rigby”, que impressionou o mundo porque Paul McCartney mostrava que os Beatles sabiam fazer música de câmara, para violino, viola e violoncelo, é também um belo conto, o pobre padre McKenzie cerzindo suas próprias meias e preparando as palavras de um sermão que ninguém ouviria. Para ornar outra peça de câmara do fantástico melodista que é, “She’s leaving home”, McCartney faria outro pequeno conto, em que descreve, de forma breve, concisa, o dia em que um casal acorda e descobre que sua filhinha simplesmente desapareceu – caiu no mundo, foi se encontrar com o comerciante de carros.</p>
<p>No conto de McCartney, a garota foge de casa na quarta-feira. No conto de Simon, o garoto se esconde após assaltar a loja na quarta-feira. Por que será que as quartas-feiras fascinam tanto os contistas da melhor música pop que existe?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“E eu até que gosto desses centímetros a mais na minha cama”</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzmargo1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6366" title="zzmargo1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzmargo1.jpg" alt="" width="600" height="532" /></a>A personagem do belíssimo conto do guitarrista canadense Michael Timmins, ela mesma a narradora da história, acorda numa terça-feira, e não numa quarta. O título do conto-canção é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=F91wGhbOjLA">“Sun comes up, it’s Tuesday morning”</a>. O sol bate nos olhos dela, e o primeiro pensamento que tem é de que o namorado se esqueceu de fechar as cortinas. Pouco depois cai a ficha: não foi ele, foi ela mesma. Até porque, na noite anterior, ele já não estava mais na casa dela.</p>
<p>A personagem-narradora se dirige o tempo todo ao amante que não há mais. Conta para ele, que não está mais lá para ouvi-la, os fatos que foram se desenrolando ao longo daquela terça-feira. Tocou o telefone, mas ela não quis atender, até porque todo mundo sabe que as boas notícias sempre dormem até o meio-dia. Ela pensa em fazer um chá e uma torrada de novo, mas decide ir até a vizinha Jenny. Jenny exibe uma mancha negra em torno dos olhos, e confessa que o seu namorado, Bobby, perdeu os modos na noite anterior.</p>
<p>Na hora do almoço, ela chega a começar a discar o número do namorado, mas desiste: prefere ouvir Coltrane a enfrentar toda aquela merda de novo. Passa então a tarde sem fazer nada, só ouvindo música e vendo o sol se pôr. E imagina que talvez à noite pudesse ver um filme, um pacote de pipocas só para ela, preto-e-branco, com uma mulher forte no papel principal. E, se por acaso não gostar, resta sempre a opção de sair, ir para a rua, para um bar.</p>
<p>“E aqui vem aquela sensação da qual tinha me esquecido: como são estranhas estas ruas quando você está sozinho, cada par de olhos cheio de sugestões. Então eu baixo a cabeça, vou reto para casa, fervendo por dentro. Engraçado, nunca tinha notado o som que os bondes fazem ao passar pela minha janela. O que me faz lembrar, esqueci de fechar as cortinas de novo. Sim, claro, admito que há momentos em que sinto falta de você, especialmente como agora, em que preciso de alguém pra me abraçar, mas há algumas coisas que nunca podem ser perdoadas, e eu até que gosto desses centímetros a mais na minha cama.”</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Ah, mas puta que o pariu!</p>
<p>Só as palavras, só o conto escrito em palavras já é um brilho, o primeiro dia da mulher solitária depois que o amante vai embora, a primeira terça-feira do resto de sua vida sem o cara – e as diversas referências à opressiva falta dele, e a ironia repetida de dizer que na verdade ela está curtindo o vazio que ele deixou na cama.</p>
<p>Com a melodia triste, pesada, lenta, criada por Michael Timmins, e a voz de sua irmã Margo (<em>na foto acima</em>), uma voz expressiva, profunda, um tanto grave, que sai sem qualquer esforço, que faz questão de não ser ampla, “Sun comes up, it’s Tuesday morning” é uma das canções que mais me encantam na vida. <em>The Caution Horses</em> é de 1990 – faz 22 anos que ouça “Sun comes up&#8230;”, e jamais me canso de ouvi-la.</p>
<p>Quando um dos meus casamentos acabou, o que acabou não por minha vontade, ouvi essa música umas trocentas vezes. Depois continuei a ouvi-la não porque ela me lembrasse da minha separação que não queria, mas simplesmente porque é bela demais.</p>
<p>O You Tube tem <a href="http://www.youtube.com/watch?v=sWOuyE-b1tA">a gravação original, de estúdio</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>De novo, a narradora se dirige ao amante que não existe mais, se dissolveu no passado</strong></p>
<p>“Sun comes up&#8230;” é urbanóide até a medula, até a dor de cada verso. Passa-se necessariamente em uma cidade grande, uma metrópole. Quando a ouvi na época do lançamento do disco, imaginava as ruas de Toronto à noite – os Cowboy Junkies são de Toronto, e eu tinha tido a sorte de conhecer a metrópole canadense pouco antes. Mas pode ser qualquer grande cidade. Como dizia aquele personagem de <em>Easy Rider</em> que se recusava a dizer o nome da cidade de onde tinha saído, todas as grandes cidades são iguais.</p>
<p>O outro conto maravilhoso escrito por Michael Timmins e cantado/contado pela voz hipnotizante da bela Margo no disco de 1990 é suavemente mais country. A protagonista-narradora é essencialmente urbanóide, também – mas a ação pode se passar num bar de estrada, ou num bar de cidadezinha próxima à metrópole.</p>
<p>Não vou tentar fazer uma adaptação de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=hwJu1xW51BM">“Where are you tonight”</a>, como tentei fazer como “Sun comes up&#8230;” Vou tentar fazer uma versão. Ficará bem mais pobre que o original, é claro. Mas acho que será menos ruim do que tentar relatar o que o original relata muito melhor.</p>
<p>De novo, a protagonista-narradora se dirige ao amante que já não existe mais, que se dissolveu no passado.</p>
<p>É preciso imaginar o bar na beira da estrada, ou no centro da cidadezinha pequena do interior perto da cidade grande. É preciso imaginar que haja muita fumaça de cigarro no bar. Se não houver fumaça de cigarro, se formos ser não-nicotinamente corretos, então simplesmente não há a história.</p>
<p><em>Tem um rapaz no canto brincando de doido a noite inteira,</em></p>
<p><em>As bolachas se empilhando alto na mesa</em></p>
<p><em>Ele pede Wild Turkey e, com um gesto rápido e um sorriso,</em></p>
<p><em>Diz “minha cara, você é aquela que eu vestiria de pele”.</em></p>
<p><em>Mas seu boné de beisebol e seu jeitão de frequentador de bar me conta uma história completamente diferente,</em></p>
<p><em>Que este não é o príncipe que atenderá a todos os meus desejos.</em></p>
<p><em>Apenas mais um garoto caipira solitário cansado da noite,</em></p>
<p><em>Apenas mais um garoto com uma pia cheia de pratos sujos.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Quando deixei você em meus sonhos na noite passada</em></p>
<p><em>Você prometeu que estaríamos livres um do outro.</em></p>
<p><em>Onde está você nesta noite?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ele me conta sobre as estradas secundárias e como vamos andar por elas a noite inteira,</em></p>
<p><em>Como os dias vão sumir e a lua vai ficar no alto para sempre</em></p>
<p><em>E a nuvem de poeira que vamos soltar ficará presa a nós como uma alma</em></p>
<p><em>E o mito vai crescer sobre os dois que se recusaram a se render</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Mas quando eu nos vejo no espelho do bar, ele com seu braço nos meus ombros,</em></p>
<p><em>Essa moça que vejo se tornou tão desconhecida.</em></p>
<p><em>E enquanto ela fica de pé para sair ao lado de um desconhecido</em></p>
<p><em>Ela não consegue deixar de rir da vida que ficou tão estranha.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Acho que não vou conseguir enfrentar a luz amanhã</em></p>
<p><em>Sem saber se você estará lá para me guiar.</em></p>
<p><em>Onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Onde está você nesta noite?</em></p>
<p><em>Acho que vou conseguir sobreviver, afinal,</em></p>
<p><em>Mas gostaria tanto de ter você pelo menos mais uma vez a meu lado.</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Ah, mas puta que o pariu!</p>
<p>A protagonista-narradora olhando para o espelho e vendo uma mulher estranha, diferente, que ela não reconhece, faz lembrar “Those Were the Days”.</p>
<p>E, no mesmo disco <em>The Caution Horses</em>, os Cowboy Junkies ainda fizeram um cover de “Powderfinger”, de Neil Young – outro conto, um conto um tanto chegado ao fantástico, em que o narrador está morto.</p>
<p>Mas aí acho que já são outras histórias, outros posts.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2012</em></p>
<p><strong><em>Sun comes up, it’s Tuesday morning</em></strong></p>
<p><em>(Michael Timmins)</em></p>
<p><em>Sun comes up, it&#8217;s Tuesday morning</em></p>
<p><em>Hits me straight in the eye, guess you forgot to close the blind last night</em></p>
<p><em>Oh, that&#8217;s right. I forgot. It was me.</em></p>
<p><em>I sure do miss the smell of black coffee in the morning</em></p>
<p><em>The sound of water splashing all over the bathroom</em></p>
<p><em>The kiss that you would give me even though I was sleeping</em></p>
<p><em>But I kind of like the feel of this extra few feet in my bed</em></p>
<p><em>Telephone&#8217;s ringing, but I don&#8217;t answer it</em></p>
<p><em>&#8216;Cause everybody knows, good news always sleeps till noon</em></p>
<p><em>Guess it&#8217;s tea and toast for breakfast again</em></p>
<p><em>Maybe I&#8217;ll add a little TV too</em></p>
<p><em>No milk! Oh God how I hate that</em></p>
<p><em>Guess I&#8217;ll go to the corner, get breakfast from Jenny</em></p>
<p><em>She&#8217;s got a black eye this morning, Jenny how&#8217;d ya get it</em></p>
<p><em>She says, Last night, Bobby got a little bit out of hand</em></p>
<p><em>Lunchtime, I start to dial your number</em></p>
<p><em>Then I remember so I reach for something to smoke</em></p>
<p><em>Anyways I&#8217;d rather listen to Coltrane</em></p>
<p><em>Than go through all that shit again</em></p>
<p><em>There&#8217;s something about an afternoon spent doing nothing</em></p>
<p><em>Just listening to records and watching the sun falling</em></p>
<p><em>Thinking of things that don&#8217;t have to add up to something</em></p>
<p><em>And the spell won&#8217;t be broken by the sound of keys scraping inthe lock</em></p>
<p><em>Maybe tonight it&#8217;s a movie</em></p>
<p><em>Plenty of room for elbows and knees</em></p>
<p><em>A bag of popcorn all to myself</em></p>
<p><em>Black and white with a strong female lead</em></p>
<p><em>And if I don&#8217;t like it, no debate, I&#8217;ll leave</em></p>
<p><em>Here comes that feeling that I&#8217;d forgotten</em></p>
<p><em>How strange these streets feel when you&#8217;re alone on them</em></p>
<p><em>Each pair of eyes just filled with suggestion</em></p>
<p><em>So I lower my head, make a beeline for home</em></p>
<p><em>Seething inside</em></p>
<p><em>Funny, I&#8217;ve never noticed</em></p>
<p><em>The sound the streetcars make as they pass my window</em></p>
<p><em>Which reminds me, I forgot to close the blind again</em></p>
<p><em>Yeah sure I&#8217;ll admit there are times that I miss you</em></p>
<p><em>&#8216;Specially like now when I need someone to hold me</em></p>
<p><em>But there are some things that can never be forgiven</em></p>
<p><em>And I kind of like this extra few feet in my bed</em></p>
<p><strong><em>Where are you tonight?</em></strong></p>
<p><em>(Michael Timmins)</em></p>
<p><em>There&#8217;s a young man in the corner playing Crazy all night long</em></p>
<p><em>Quarters piled high upon the table</em></p>
<p><em>He orders Wild Turkey and with a quick wit and a smile</em></p>
<p><em>He says, my darlin&#8217; you&#8217;re the one I&#8217;ll drape in sable</em></p>
<p><em>But his baseball cap and his barroom rap tell me a differentstory</em></p>
<p><em>That this is not my prince to grant all my wishes</em></p>
<p><em>Just another lonely country boy grown weary of the night</em></p>
<p><em>Just another boy with a sinkful of dirty dishes</em></p>
<p><em>And where are you tonight</em></p>
<p><em>When I left you in my dreams last night</em></p>
<p><em>You promised me that we would be breaking free</em></p>
<p><em>Where are you tonight</em></p>
<p><em>He tells me of the back roads and how we&#8217;ll ride them all nightlong</em></p>
<p><em>How the days will fade and the moon will hang forever</em></p>
<p><em>And the cloud of dust we&#8217;ll kick off will linger like a soul</em></p>
<p><em>And the myth will grow that the two will refuse to surrender</em></p>
<p><em>But as I catch us in the barroom mirror with his arm around myshoulder</em></p>
<p><em>This girl I see has grown so unfamiliar</em></p>
<p><em>And as she stands to leave with the stranger by her side</em></p>
<p><em>She can&#8217;t help but laugh at a life grown so peculiar</em></p>
<p><em>And where are you tonight</em></p>
<p><em>I don&#8217;t think I can face tomorrow&#8217;s light</em></p>
<p><em>Not knowing if you&#8217;ll be there to guide me</em></p>
<p><em>Where are you tonight</em></p>
<p><em>And where are you tonight</em></p>
<p><em>I think I can make it through all right</em></p>
<p><em>But I&#8217;d love to have you just one more time beside me</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Uma suave vingança contra a insanidade natalina</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/uma-suave-vinganca-contra-a-insanidade-natalina-2/</link>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 17:13:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo mundo que se irrita com Natal (e o número é muitíssimo maior do que se poderia imaginar) deveria ouvir Madeleine Peyroux e k.d. lang cantando “River”. É uma vingança suave, doce, melancolicamente doce, contra essa insanidade de hordas de pessoas fazendo compras freneticamente, freneticamente com a necessidade básica, urgente, absurda, estressante, de se mostrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo mundo que se irrita com Natal (e o número é muitíssimo maior do que se poderia imaginar) deveria ouvir <a href="http://www.youtube.com/watch?v=eQiadVNWTFI">Madeleine Peyroux e k.d. lang cantando “River”</a>. É uma vingança suave, doce, melancolicamente doce, contra essa insanidade de hordas de pessoas fazendo compras freneticamente, freneticamente com a necessidade básica, urgente, absurda, estressante, de se mostrar feliz.<span id="more-6038"></span></p>
<p>Joni Mitchell tinha ridículos 28 anos quando compôs “River”. Além de à frente de sua própria idade, Joni Mitchell é a anti-obviedade em forma de beleza pura. Tudo que ela faz é sutil, em tom propositadamente menor. É incapaz de um grito, uma exclamação. Faz a opção preferencial pelas entrelinhas, pelo não-posto às claras.</p>
<p>“River” não é propriamente sobre o Natal: é um lamento de quem fez besteira contra a relação: “Sou egoísta e sou triste, agora já foi, perdi o melhor amor que podia ter tido”. Mas ela quis justapor a tristeza com o período do ano em que é necessário, é urgente, é estressantemente obrigatório ser alegre. E então, suavemente, ela colocou as notas de “Jingle Bells” abrindo e fechando a canção: “O Natal vem chegando, estão cortando árvores, estão reunindo as renas e cantando canções de alegria e paz. Ah, gostaria de ter um rio no qual eu pudesse fugir. Mas não neva aqui, fica um belo verde. Gostaria de ter um rio tão grande que eu pudesse ensinar meus pés a voar.”</p>
<p>Além de tudo, a canadense exilada se confessa um tanto pouco à vontade em terra mais quente, que teima em ser verde em vez de branca-barrenta.</p>
<p>É bela, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=xCov0TYXBp8"><strong>a gravação da canção com sua jovem autora</strong></a>, em 1971, no disco <em>Blue</em>. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ovyYgB-yuc4">James Taylor faria uma versão em 2007</a>, no disco <em>A Tribute to Joni Mitchell</em>, para o qual foi convidado também Caetano Veloso – uma gigantesca honra para o genial pavão baiano. Mas a gravação que Madeleine Peyroux fez, ao lado de k.d. lang, compatriota da compositora, é absolutamente imbatível. Ela pôs as notas de “Jingle Bells” em tom lento, ralentado, em tom menor, em tom soturno, como se fosse uma <em>dirge</em>, uma canção fúnebre, enquanto começa a contar sua história. Ela realça a dor, a melancolia, bem na hora em que o Natal vem chegando, em que as pessoas estão cortando árvores, reunindo as renas, cantando canções de alegria e paz, empurrando-se, cotovelando-se nas lojas, estressando-se, gastando o que têm e o que não têm para dar presentes para todos os conhecidos, amados ou não tanto, uma frenética, insana, cansativa, exaustiva maratona de demonstração de alegria.</p>
<p>Em 1983, Paul Simon, em “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=BhBvh1cwA0w&amp;playnext=1&amp;list=PLE0C70E94B292E570&amp;index=37"><strong>The Late Great Johnny Ace</strong></a>”, uma de suas canções mais chocantemente belas, que falava sobre perdas, cunhou uma frase milagrosa: “numa noite fria de dezembro, eu caminhava através da maré do Natal”. Toda vez que ando pela cidade no mês de dezembro me impressiona a beleza dessa imagem: a gente caminha através da maré do Natal.</p>
<p>Mas, nos últimos anos, para mim o som de dezembro é “River”. Jingle bells, jingle all the way, oh what funny is to ride on a horse away – It’s coming on Christmas, They’re cutting down trees, They’re putting up reindeer And singing songs of joy and peace. Oh I wish I had a river I could skate away on.</p>
<p>Somos muito loucos. Como se já não tivéssemos problemas demais,<a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/ainda-por-cima-inventamos-o-natal/"><strong> ainda por cima inventamos o Natal</strong></a>.</p>
<blockquote><p><em>Este texto é do ano passado, 2010. Mas vale para todos os Natais, e por isso o republico.</em></p>
<p><em>River</em></p>
<p><em>Por Joni Mitchell</em></p>
<p><em>It’s coming on Christmas<br />
They’re cutting down trees<br />
They’re putting up reindeer<br />
And singing songs of joy and peace<br />
Oh I wish I had a river<br />
I could skate away on<br />
But it don’t snow here<br />
It stays pretty green<br />
I’m going to make a lot of money<br />
Then I’m going to quit this crazy scene<br />
I wish I had a river<br />
I could skate away on<br />
I wish I had a river so long<br />
I would teach my feet to fly<br />
Oh I wish I had a river<br />
I could skate away on<br />
I made my baby cry</em></p>
<p><em>He tried hard to help me<br />
You know, he put me at ease<br />
And he loved me so naughty<br />
Made me weak in the knees<br />
Oh I wish I had a river<br />
I could skate away on<br />
I’m so hard to handle<br />
I’m selfish and I’m sad<br />
Now I’ve gone and lost the best baby<br />
That I ever had<br />
Oh I wish I had a river<br />
I could skate away on<br />
I wish I had a river so long<br />
I would teach my feet to fly<br />
Oh I wish I had a river<br />
I could skate away on<br />
I made my baby say goodbye</em></p>
<p><em>It’s coming on Christmas<br />
They’re cutting down trees<br />
They’re putting up reindeer<br />
And singing songs of joy and peace<br />
I wish I had a river<br />
I could skate away on</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O Doutor Sócrates e a bela cara do Brasil</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/o-doutor-socrates-e-a-bela-cara-do-brasil/</link>
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		<pubDate>Sun, 04 Dec 2011 17:55:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[A cara do Brasil era mais bela quando o Doutor Sócrates jogava aquele seu futebol único, inimitável. Gostaria de prestar uma homenagem a Sócrates, ainda que pequena, ínfima, mínima, mas confesso que não tenho arte para tanto. Jamais saberia descrever a alegria que Sócrates me deu, a mim e às pessoas mais queridas, minha filha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A cara do Brasil era mais bela quando o Doutor Sócrates jogava aquele seu futebol único, inimitável.<span id="more-5930"></span></p>
<p>Gostaria de prestar uma homenagem a Sócrates, ainda que pequena, ínfima, mínima, mas confesso que não tenho arte para tanto.</p>
<p>Jamais saberia descrever a alegria que Sócrates me deu, a mim e às pessoas mais queridas, minha filha novinha e já corintiana de fibra, com seus dribles sensacionais, no Morumbi e no Pacaembu, nos dando vitórias maravilhosas sobre o Santos, o Palmeiras, o São Paulo. Ou com a camisa amarela da Seleção, na Espanha – nossa melhor Seleção de todos os tempos, mesmo que tenha voltado para casa sem o caneco.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzsocrates4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5935" title="zzsocrates4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzsocrates4.jpg" alt="" width="619" height="464" /></a>O que vale mais: um caneco, ou o futebol mais elegante que já se jogou com a camisa amarela da Seleção? Para mim, vale mais o segundo. Para Celso Viáfora e Vicente Barreto também.</p>
<p>Vou me lembrar para sempre da alegria que Sócrates nos deu com suas jogadas na Copa Espanha, e que vimos, Regina e eu, embevecidos, na TV da casa da Tânia Fusco – mais jamais saberia descrever aquela emoção.</p>
<p>E então recorro a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=6gTE44hvfpk">Celso Viáfora e Vicente Barreto, na voz de Ney Matogrosso</a>. Eles perguntam qual é a cara do Brasil: “Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho, que é o Brasil zero a zero e campeão, ou o Brasil que parou pelo caminho: Zico, Sócrates, Júnior e Falcão?”</p>
<p>E recorro à arte de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=8YzgF0PiBS8">José Miguel Wisnik, na voz de Ná Ozzetti</a>: “Com destino e elegância dançarino pensador, Sócio da filosofia da cerveja e do suor Ao tocar de calcanhar o nosso fraco a nossa dor Viu um lance no vazio herói civilizador (O Doutor)”.</p>
<p>É bom ouvir essas canções, ouvir as vozes de Ney e Ná, lindas como os gols de Sócrates, nos fazendo lembrar que ele é imortal.</p>
<p>O Brasil sabe fazer coisas boas. O Brasil tem também uma cara bela, embora hoje em dia seja difícil enxergá-la.</p>
<p>Obrigado por mostrar a cara bela que este país pode ter, Doutor.</p>
<blockquote><p><em>4 de dezembro de 2011 </em></p>
<p><em>O belo texto que eu não soube fazer, um sujeito chamado Jorge Quixano fez. Está no site do </em>El País<em> &#8211; uma beleza, sob o título de <a href="http://www.elpais.com/articulo/deportes/Muere/Socrates/democrata/futbol/elpepudep/20111203elpepudep_22/Tes">&#8220;Muere Sócrates, el demócrata del fútbol&#8221;</a>. Um brilho. </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong><em>A Cara do Brasil</em></strong></p>
<p><em>(Celso Viáfora-Vicente Barreto)</em></p>
<p><em>Eu estava esparramado na rede</em></p>
<p><em>jeca urbanóide de papo pro ar</em></p>
<p><em>me bateu a pergunta, meio à esmo:</em></p>
<p><em>na verdade, o Brasil o que será?</em></p>
<p><em>O Brasil é o homem que tem sede</em></p>
<p><em>ou quem vive da seca do sertão?</em></p>
<p><em>Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo</em></p>
<p><em>o que vai é o que vem na contra-mão?</em></p>
<p><em>O Brasil é um caboclo sem dinheiro</em></p>
<p><em>procurando o doutor nalgum lugar</em></p>
<p><em>ou será o professor Darcy Ribeiro</em></p>
<p><em>que fugiu do hospital pra se tratar</em></p>
<p><em>A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho</em></p>
<p><em>Ninguém precisa consertar</em></p>
<p><em>Se não der certo a gente se virar sozinho</em></p>
<p><em>decerto então nunca vai dar</em></p>
<p><em>O Brasil é o que tem talher de prata</em></p>
<p><em>ou aquele que só come com a mão?</em></p>
<p><em>Ou será que o Brasil é o que não come</em></p>
<p><em>o Brasil gordo na contradição?</em></p>
<p><em>O Brasil que bate tambor de lata</em></p>
<p><em>ou que bate carteira na estação?</em></p>
<p><em>O Brasil é o lixo que consome</em></p>
<p><em>ou tem nele o maná da criação?</em></p>
<p><em>Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho</em></p>
<p><em>que é o Brasil zero a zero e campeão</em></p>
<p><em>ou o Brasil que parou pelo caminho:</em></p>
<p><em>Zico, Sócrates, Júnior e Falcão</em></p>
<p><em>A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho&#8230;</em></p>
<p><em>O Brasil é uma foto do Betinho</em></p>
<p><em>ou um vídeo da Favela Naval?</em></p>
<p><em>São os Trens da Alegria de Brasília</em></p>
<p><em>ou os trens de subúrbio da Central?</em></p>
<p><em>Brasil-globo de Roberto Marinho?</em></p>
<p><em>Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal?</em></p>
<p><em>Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas</em></p>
<p><em>ou quem das ilhas vê o Vidigal?</em></p>
<p><em>O Brasil encharcado, palafita?</em></p>
<p><em>Seco açude sangrado, chapadão?</em></p>
<p><em>Ou será que é uma Avenida Paulista?</em></p>
<p><em>Qual a cara da cara da nação? A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho&#8230;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong><em>Sócrates Brasileiro</em></strong></p>
<p><em>(José Miguel Wisnik)</em></p>
<p><em>Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira</em></p>
<p><em>Deu um pique filosófico ao nosso futebol</em></p>
<p><em>O sol caiu sobre a grama e se partiu</em></p>
<p><em>Em cacos de cristais</em></p>
<p><em>As cores vestiram os nomes</em></p>
<p><em>E fez-se a luta entre os homens</em></p>
<p><em>Até os apitos finais</em></p>
<p><em>(Disseram os deuses imortais)</em></p>
<p><em>A história não esquece que a bola se negou mas chorou nosso gol</em></p>
<p><em>E vai se lembrar para sempre da beleza que nada derrotou</em></p>
<p><em>Mas quem será que diz que venceu</em></p>
<p><em>No país em que o ouro se ganhou e perdeu</em></p>
<p><em>(Derreteu)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>O futebol é a quadratura do circo</em></p>
<p><em>É o biscoito fino que fabrico</em></p>
<p><em>É o pão e o rito o gozo o grito o gol</em></p>
<p><em>Salve aquele que desempenhou</em></p>
<p><em>E entre a anemia a esperança</em></p>
<p><em>A loteria e o leite das crianças</em></p>
<p><em>Se jogou</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Com destino e elegância dançarino pensador</em></p>
<p><em>Sócio da filosofia da cerveja e do suor</em></p>
<p><em>Ao tocar de calcanhar o nosso fraco a nossa dor</em></p>
<p><em>Viu um lance no vazio herói civilizador</em></p>
<p><em>(O Doutor)</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Uma cidadezinha do interior</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/uma-cidadezinha-do-interior/</link>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 02:54:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Outro dia me senti vivendo numa pequena, minúscula cidade do interior. Saí para levar para o bazar da igreja a trouxa de roupa que Mary botou fora. Andei as três quadras trocando a trouxa de mão para mão – danada de pesada, ela. Aí dei literalmente com o nariz na porta: o bazar da igreja, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia me senti vivendo numa pequena, minúscula cidade do interior.<span id="more-5903"></span></p>
<p>Saí para levar para o bazar da igreja a trouxa de roupa que Mary botou fora. Andei as três quadras trocando a trouxa de mão para mão – danada de pesada, ela. Aí dei literalmente com o nariz na porta: o bazar da igreja, bem ao lado da igreja, uma porta como se fosse de uma garagem, estava fechado. Claro, pensei, me culpando: eram 13h40, e as senhoras do bazar da igreja abrem às 14h. São voluntárias, portanto almoçam em casa. O bazar da igreja não tem a obrigação de ficar aberto na hora do almoço.</p>
<p>Olhei pra direita, olhei pra esquerda. Pensei: uai, deixo a sacolona de roupa aqui. Se alguém roubar, é porque precisava, e a intenção era mesmo de a gente se livrar daquelas roupas.</p>
<p>Mas ainda fiquei uns três minutos ali ao lado, não querendo que fossem roubadas as roupas velhas de que queríamos nos livrar. Vinham vindo umas duas velhinhas. Quem sabe não seriam as senhorinhas que cuidam do bazar?</p>
<p>Não eram. Passaram por mim, pela porta fechada do bazar diante da qual jazia a sacolona de roupas, foram em frente.</p>
<p>Bem, então eu também vou em frente.</p>
<p>Do outro lado da rua, um dos motoristas do ponto de táxi que usei diariamente para ir para o trabalho, e que hoje uso de vez em quando, berra para mim:</p>
<p>- E aí? Tá a fim de trabalhar?</p>
<p>Todos os motoristas de táxi do bairro sabem que sou um aposentado.</p>
<p>Berro de volta:</p>
<p>- Quer saber? Tô não!</p>
<p>Nesse momento, senti uma alegria imensa, gigantesca, mamutiana.</p>
<p>Fui até o banco.</p>
<p>Só vai ao banco, hoje em dia, boy, funcionário de empresa, ou velhinho aposentado sem ter mais o que fazer na vida, porque qualquer outra transação bancária se faz pela internet. Mas eu tinha que ir ao banco, porque era o dia do vencimento do plano de saúde, e eu não podia pagar na internet, e porque eu tinha que tirar dinheiro pra pagar a empregada.</p>
<p>(Poderia ter tirado a grana pra pagar a empregada no caixa que há no supermercado, mais perto de casa. Mas não poderia fazer nada pela internet, porque a empregada, mais a irmã dela, estavam fazendo faxina no escritório – e a faxina na casa inteira, a primeira depois da reforma do banheiro que sujou a casa inteira, foi na verdade o que me expulsou de casa.)</p>
<p>Ninguém diante dos dois caixas do banco. Só vai ao banco, hoje em dia, boy ou velhinho aposentado.</p>
<p>A funcionária do caixa, que conheço de vista faz tempo, fala ao celular. Tento fazer pra ela um gesto de “não tem pressa alguma”, mas ela rapidamente termina o telefonema. Eu a conheço, ela sabe que já me viu outras vezes – cidade pequeníssima é assim mesmo. Só não sei o nome dela. Pago a conta que tinha que pagar, pego o dinheiro para pagar a Vanda, e aí digo pra caixa do banco:</p>
<p>- “Você estava falando com sua filha, né?”</p>
<p>E aí trocamos umas palavras sobre filhos. Digo que o Facebook é um bom jeito de saber o que os nossos filhos estão fazendo, e ela diz que a filha às vezes reclama dos comentários que ela, a mãe, faz no Facebook.</p>
<p>O caminho de volta para casa, depois do banco, inclui uma passada pela rua do ponto de táxi. Lá está o Tiba, velho conhecido, um amigo. Tiba trabalhou mais de uma década no Estadão, igualinho que nem eu. Me vem com um cartão de visitas: “Você se lembra desse cara?” O cartão era do César Camarinha, e eu digo que claro, foi meu colega anos no Jornal da Tarde. E aí conversamos um pouco, o grande Tiba e eu.</p>
<p>Sigo em frente e lá está o bazar da igreja. Pergunto para as senhoras: &#8220;Vocês viram aqui um saco de roupas?&#8221; E elas dizem que sim, estava lá, e agradecem. E acrescentam: da próxima vez, posso deixar ali do lado, no estacionamento, sem erro.</p>
<p>No final da quadra, tá lá: oficina, consertos de geladeira, etc. Entro lá</p>
<p>Ah, então está tudo certo, vocês vão ver minha geladeira amanhã.</p>
<p>Ando mais uma quadra e chego à padaria, onde todas as moças me conhecem, e me cumprimentam.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Boa parte da vida, fiz planos de a) me aposentar; b) quando me aposentasse, ir para uma cidadezinha pequena.</p>
<p>Me aposentei. E não precisei mudar para uma cidadezinha pequena. Perdizes, o bairro onde vivo há três décadas e meia, parece uma cidadezinha do interior.</p>
<p>E o que é melhor: Perdizes fica em São Paulo.</p>
<p>A rigor, eu não preciso sair de Perdizes, minha cidadezinha do interior.</p>
<p>Mas, sempre que sou obrigado a sair do meu bairro, estou numa cidade como não há, absolutamente, nenhuma outra.</p>
<p>Sorry, Praia do Forte, mas não me mudo praí.</p>
<p>Mudar de Perdizes, só pra Vila Alpina.</p>
<blockquote><p><em>Dezembro de 2011</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Voltei à cachaça</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Nov 2011 03:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Nas férias de outubro, voltei à cachaça. A frase é a mais pura expressão da verdade, embora seja necessário dar duas explicações. A primeira: estou aposentado há uns quatro anos, e portanto a noção de férias é algo meio esquisito. Quem tirou férias, as primeiras de um mês inteiro em mais de dez anos, foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nas férias de outubro, voltei à cachaça.</p>
<p>A frase é a mais pura expressão da verdade, embora seja necessário dar duas explicações.<span id="more-5714"></span></p>
<p>A primeira: estou aposentado há uns quatro anos, e portanto a noção de férias é algo meio esquisito. Quem tirou férias, as primeiras de um mês inteiro em mais de dez anos, foi a Mary; eu apenas a acompanhei nas férias dela, já que aposentado, a princípio, está em férias eternas – embora, é claro, o eternas não seja a expressão da realidade dos fatos.</p>
<p>A segunda explicação necessária é que, a rigor, nunca tinha abandonado a cachaça, e portanto não poderia propriamente ter voltado a ela.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Férias, para o aposentado aqui, são extremamente cansativas</strong></p>
<p>São figuras de linguagem, tanto as férias quanto o retorno à cachaça – ou talvez não exatamente.</p>
<p>Os aposentados, a princípio, por princípio, não fazem nada. Tem um amigo meu, motorista do ponto de táxi na Apiacás com João Ramalho, que toda vez que me encontra pergunta: “E aí? Tá acordando cedo pra ter mais tempo pra não fazer nada, como dizia meu tio?”</p>
<p>Porém, se os apontados passam o ano inteiro sem fazer nada, é uma danada de uma rotina. Então, é preciso tirar férias da rotina. Mas, como o aposentado não produz mais nada, só sai de férias quando a mulher, mais jovem, que trabalha feito uma condenada, consegue sair de férias.</p>
<p>Deu-se então que Mary conseguiu sair de férias e me carregou para Belo Horizonte, e depois Congonhas, e depois Tiradentes, e depois Belo Horizonte de novo, e depois de volta a São Paulo, e depois (que energia tem essa mulher) para Juquehy. E depois de volta a São Paulo de novo, onde cheguei exausto, precisando de férias.</p>
<p>Mas eu queria falar não era sobre aposentadoria, nem férias, mas da cachaça.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Cachaça, ou booze: qualquer bebida forte pra cacete. Coisa de pobre, de bêbado</strong></p>
<p>Cachaça, para mim – assim como para muita gente boa – é o substantivo comum para designar bebida.</p>
<p>O inglês, essa língua maravilhosa, riquíssima, expressiva, que alguns detestam por ser a língua dos imperialistas exploradores filhos da puta, tem um substantivo comum para designar bebida: booze.</p>
<p>Booze é qualquer bebida alcoólica, segundo meu <em>Longman</em>, o ótimo <em>Dictionary of English Language and Culture</em>. O <em>Longman</em> não diz, logo ele que é dicionário não só da língua, e também da cultura, mas eu sei que booze é uma palavra forte, pesada. Booze, que segundo o <em>Longman</em> é apenas “alcoholic drink”, na verdade é bebida alcoólica forte, pesada. Booze não é usada para um copo de vinho, de champagne – sequer para quatro garrafas seguidas de vinho ou champagne. Booze é coisa forte. Booze é coisa de pobre – ou de bêbado.</p>
<p>Para mim, o sinônimo em português de booze é cachaça. Quando a gente diz: “tomei uma cachaça, e aí então&#8230;”, a cachaça pode ser uísque de 8 anos, de 12 anos, vodca nacional, vodca russa, polonesa, finlandesa, grapa italiana, bagaceira portuguesa, akvavit dinamarquesa – ou até mesmo cachaça, pinga, esse troço feito no Brasil.</p>
<p>Vixe. Me alonguei nos prolegômenos. O que eu queria dizer é que, nestas férias de outubro, voltei à cachaça. Literalmente falando.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Feijão tropeiro com costeleta de porco pede uma cachaça</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-07611.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5720" title="2011-10 - Tiradentes - 0761" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-07611-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>A culpa, na primeira vez, foi de Minas Gerais.</p>
<p>Minas produziu e produz muita coisa boa, e exporta pro mundo inteiro: além de queijo e pão de queijo, também minérios e mineiros, minérios, que o digam, respectivamente, a Vale do Rio Doce e Governador Valadares. E também cachaça.</p>
<p>Então, no Ora Pro Nobis, restaurante de comida mineira tradicional em Tiradentes, onde almojantamos um feijão tropeiro com costeleta de porco das 5 da tarde da sexta-feira até não tenho a menor idéia de que horas, pedi uma cachaça – a bebida perfeita, ideal, única, para acompanhar comida mineira.</p>
<p>As opções eram várias, várias demais, e então perguntei qual era a mais indicada pela casa. Aí veio uma cachaça em copo grande, imenso. Mary se assustou. Eu também me assustei. Fiquei bêbado só de olhar o tamanho da dose de cachaça.</p>
<p>Aí lembrei do que diziam sobre meu pai, cachaceiro profissional, e então, como ele, dei uma generosa dose pro santo. Só depois de ter diminuído o volume gigantesco foi que beberiquei um tiquinho da marvada pinga.</p>
<p>Pedi nova dose. E, da nova dose, doei pro santo bem pouquinho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Esse negócio de cachaça tem virado uma mania, uma coisa séria, né?”</strong></p>
<p>Corta, passa para nova seqüência. Muda o cenário.</p>
<p>Estávamos na segunda fase das férias, num belo hotel em Juquehy, lugar caro. (Verdade que, em termos da relação custo/benefício, muito bom – mas, de qualquer forma, caro.) Mineiro, pão-duro, tinha levado uma garrafa de cachaça escocesa de 8 anos comprada no Pão de Açúcar ali do bairro pra beber sem ter que pagar os preços mais caros do hotel da praia de gente digamos assim não propriamente pobre.</p>
<p>A cachaça escocesa tem sido minha bebida predileta há muitos anos, décadas. (Tinha começado, jovem, com pinga mesmo, depois tinha passado pra vodca, e depois estacionei na escocesa. Só muito de vez em quando tomava, nos últimos tempos, uma Espírito de Minas, ou até umas Havanas que herdei do Seu Jamil.)</p>
<p>Cachaça boa, a que aquele povo ao norte da Inglaterra produz. Não tenho predileção especial; minha favorita é a de oito anos mais barata no momento em que estiver comprando, seja Johnny Walker Red Label, Cutty Sark, White Horse, Black &amp; White, William Lawson’s, The Famous Grouse. Whatever. Não tenho gosto refinado. Qualquer uma – a que esteja mais barata no momento naquele supermercado, naquela adega.</p>
<p>Mas o menu do belo hotel da praia de elite, ou quase elite, tinha – não sei dizer o número exato, mas eram uns 20 rótulos de cachaça. Pinga. Manguaça.</p>
<p>Corta, flashback. Tiradentes de novo, primeira metade das férias do mês de outubro. Estávamos pagando a conta na pousada. Conversávamos com o Leonardo, àquela altura amigo de muito tempo, pessoa legal, garotão jovem, empreendedor paulista que trocou a loucura de São Paulo pela loucura de trabalhar feito um escravo em seu próprio empreendimento nas Minas Gerais. Ele nos oferece como brinde de despedida uma garrafa de cachaça, uma premiada por não sei quem.</p>
<p>Flashback dentro do flashback. Em várias lojas de Tiradentes, vimos exposição de cem, duzentos tipos de cachaçam como na foto abaixo – e reproduções do ranking da <em>Playboy</em> das melhores cachaças.</p>
<p>Volta ao flashback anterior. O garotão Leonardo diz: “Esse negócio de cachaça tem virado uma mania, uma coisa séria, né?, nos últimos, sei lá, cinco, seis anos”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Faz tempo que a cachaça vem virando coisa elegante</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-0528.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-5721" title="2011-10 - Tiradentes - 0528" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/2011-10-Tiradentes-0528-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" /></a>Como todo garoto jovem, Leonardo se engana.</p>
<p>Eu não saberia dizer com exatidão quando foi que a cachaça, a pinga, a manguaça, começou a deixar de ser a bebida dos bêbados, dos pobres, para adquirir o status de coisa fina – mas certamente foi há bem mais do que os seis anos que o jovem Leonardo recorda.</p>
<p>Faz tempo que a cachaça vem virando coisa chique.</p>
<p>Como será que os historiadores conseguem definir as datas exatas?</p>
<p>Quando fiz cursinho – belíssimo cursinho, professores extraordinários, de quem serei fã para sempre –, a História Contemporânea acabava em 1945, ano do fim da Segunda Guerra. O que vinha depois de 1945 já não era História, era Atualidades, com outro professor, igualmente extraordinário.</p>
<p>Os historiadores dizem que o Império Romano começou a decair no ano tal. A História deixa de ser da Antiguidade para a Moderna no dia da queda de Constantinopla.</p>
<p>Como eles conseguem definir essas datas?</p>
<p>Povo doido, os historiadores.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Uma caipirinha de cachaça sem gelo, sem limão, sem açúcar</strong></p>
<p>Não consigo me lembrar sequer do ano em que Anélio Barreto fundiu a cuca do povo do Well’s da Brigadeiro.</p>
<p>Ainda era no tempo do <em>Estadão</em> na Major Quedinho, bem no Centro – portanto, pré-1976. Sei bem que foi em 1976 que nos mudamos da Major Quedinho para a beira do Tietê; isso eu sei sem dúvida alguma.</p>
<p>Fechávamos o <em>Jornal da Tarde</em> lá pelas 2 da manhã, e saíamos para beber. Abriram um grande supermercado na Brigadeiro quase esquina com Cincinato Braga, e, junto dele, surgiu a primeira, ou uma das primeiras Well’s, uma lanchonete/restaurante 24 horas. Fomos lá muitas vezes, meio pra curtir a novidade, meio para mudar a rotina de Mutamba todas as noites.</p>
<p>Como era uma rede americana, e queria atrair um público bom, respeitável, não servia pinga, cachaça, manguaça – servia todo tipo de destilado, menos cachaça. Não queriam pinguços lá dentro. Nego podia ir lá e tomar uma garrafa de uísque – mas não podia pedir pinga.</p>
<p>No entanto, o cardápio do Well’s continha caipirinha.</p>
<p>E então, numa madrugada pós-fechamento, Anélio Barreto, muito sério, pediu para a moça: “Eu quero uma caipirinha de cachaça, sem gelo, sem limão, sem açúcar”. A moça anotou o pedido. Foi andando, foi indo, foi indo, e aí: tóim! Voltou e falou: “Mas isso que o senhor está pedindo é cachaça. E cachaça a gente não serve”.</p>
<p>O próprio Anélio me aconselha a registrar, pelo bem da verdade, que o episódio teve uma continuação. Ao saber do incidente, o maître do Well&#8217;s foi até a nossa mesa, conversou conosco, e abriu uma exceção para nós, passando, a partir daí, a servir cachaça para a mesa dos jornalistas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Ah, o jus sperneandi&#8230;</strong></p>
<p>Me ocorre agora, enquanto escrevo sobre esse episódio que achei que tivesse esquecido, que a hipocrisia do Well’s, rede americana, imperialista, safada, é pequena diante da hipocrisia do PCdoB, que se diz comunista quando tudo o que quer e faz é socializar a perda de dinheiro dos 190 milhões de brasileiros ao mesmo tempo em que capitaliza o lucro entre uns poucos.</p>
<p>Mas este aqui é um texto para ser, ou ao menos tentar ser divertido, sem política, essa coisa chata.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Se misturar cerveja vira coisa de bêbado!”</strong></p>
<p>Então, voltando à cachaça.</p>
<p>Jamais vou me esquecer da degustação de cachaça na casa do Bernardo Carvalho em Salvador.</p>
<p>Acabávamos de passar vários dias maravilhosos na Praia do Forte. Estávamos hospedados na casa do Bernardo por dois dias, antes de voltar pra São Paulo – um gostoso apartamento em prédio de três andares diante da Praia do Flamengo, logo ao norte de Itapoã, lugar delicioso, quase chegando já em Lauro de Freitas. E ele, festeiro eterno, marcou para a noite de sábado, sem nos consultar, uma degustação de cachaça. Convidou uma dúzia de amigos.</p>
<p>Bernardo é um seriíssimo apreciador de cachaça. Bem, Bernardo é seriíssimo em tudo que faz. Ainda nos anos 80, final dos anos 80, foi sócio de uma cachaçaria em Pinheiros, uma das primeiras cachaçarias de São Paulo, se não estou muito enganado. Hoje há dezenas. Naquela época, não.</p>
<p>Mas então Bernardo marcou uma degustação de cachaça na casa dele.</p>
<p>Mary, diferentemente de mim, não é chegada à booze brasileira. Sugeriu ao Bernardo comprar umas cervejas. Ele foi peremptório:</p>
<p>- “Ah, não! Se misturar cerveja vira coisa de bêbado. Vamos fazer uma degustação de cachaça!”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Como não tinha nada para beber, fiquei sóbrio a noite inteira</strong></p>
<p>Bernardo serviu uns 12, 15 rótulos diferentes, talvez mais. Os convidados e convidadas tomavam um tiquitinho mínimo, em caçambinhas mínimas, e faziam observações iguais às dos sommeliers: ah, esta aqui tem um bouquet que faz lembrar um pouco um leve gosto de carvalho. Esta outra tem um flavour levemente mais adocicado, penetrante. Esta é levemente frutada&#8230;</p>
<p>Eu olhava aquele povo como se estivesse sendo apresentado a um bando de E.Ts vindos de diferentes galáxias, como no bar que George Lucas inventou num dos primeiros filmes da série <em>Guerra nas Estrelas</em>. E, como não tinha nada para beber, a não ser aquelas microdoses, fiquei sóbrio a noite inteira.</p>
<p>Às cinco da manhã, não tinha ninguém bêbado. Os convidados iam se retirando sobriamente, comentando que aquela tal era melhor do que a outra fulana. E marcando uma nova degustação para daí a algumas semanas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Algumas pessoas bebem demais e são viciadas, outras bebem o mesmo tanto e não são</strong></p>
<p>Em Tiradentes, tinha garrafa de cachaça de R$ 400,00. Em Juquehy, tinha dose de cachaça de R$ 30,00.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzlost.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5725" title="zzlost" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzlost.jpg" alt="" width="512" height="374" /></a>E aí me lembro de Don Birnan, o personagem interpretado por Ray Milland em <em>Farrapo Humano/The Lost Weekend</em>, de Billy Wilder. Lá pelas tantas, Don Birnan confessa, desesperado, que quer uma garrafa de booze – não importa a marca, que se dane a marca. Quer é uma garrafa da booze mais barata que houver, pra encher a cara.</p>
<p>Quando tinha 21 anos, e era um repórter iniciante, tive o primeiro contato com um alcoólatra, então lutando para deixar o vício. Na casa dele, no extremo Oeste do Estado de São Paulo, não podia haver nada de álcool, coisa alguma, nunca. Aquilo me impressionou demais. (Mais tarde, a vida é mesmo cheia de surpresas, fui me apaixonar pela irmã dele, mulher fantástica, extraordinária. Mas essa é outra história.)</p>
<p>Jamais vou compreender os muitos, tantos, mistérios da vida. E não estou falando dos maiores, mais importantes – quem sou, onde estou, para onde vou. Esses são complexos demais.</p>
<p>Me refiro apenas a mistérios bem menores. Tipo por que algumas pessoas bebem demais e são viciadas, e por que algumas outras bebem o mesmo tanto e não são.</p>
<p>Se fosse pra falar muito sério, eu diria que vício – qualquer um – é degradante.</p>
<p>Tenho o maior respeito pelas pessoas que abandonam o vício – qualquer um, crack, cocaína, álcool, tabaco.</p>
<p>Tenho o maior respeito por todos os AAs, NAs.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>E então estou começando a alternar o booze escocês com o mineiro</strong></p>
<p>Mas, como este era um texto para ser bem humorado, brincalhão, e como o meu alcoolismo é suave, volto ao início: nas férias, agora em outubro, voltei à cachaça.</p>
<p>Chequei no supermercado ali pertinho: eles têm uns 30 rótulos diferentes de cachaça. Os preços variam demais, do acessível ao muito caro.</p>
<p>Vou continuar preferindo o booze escocês, tão gostoso on the rocks quanto cowboy, a seco, puro. Mas a verdade dos fatos é que, no cowboy, no a seco, puro, já comecei a alternar o booze escocês com o booze mineiro.</p>
<p>Tomados cowboy, são tão bons quanto, o escocês e o mineiro.</p>
<p>Não sou nacionalista. Na verdade, tenho imenso, gigantesco horror a nacionalismos, de qualquer tipo. Nacionalismo me lembra nacional-socialismo, nazismo.</p>
<p>É apenas uma questão de gosto, e de bolso. Os preços e o gosto do escocês e do mineiro se equivalem.</p>
<p>O único problema é que, como são caros, esses boozes bons, e sou um mineiro pão-duro, seja o booze mineiro ou escocês, o santo fica a seco.</p>
<blockquote><p><em>São Paulo, outubro/novembro de 2011.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Um novo sotaque no 50 Anos</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/um-novo-sotaque-no-50adt/</link>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 23:12:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[O 50 Anos de Textos está ganhando um novo colaborador – e, com ele, um novo sotaque. Aqui já havia o sotaque mineiro de seis dos autores (embora só um dos seis viva hoje nas Minas Gerais, os outros cinco tendo saído, confirmando a velha tese de que Minas exporta mineiros e minérios), o paulista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O <strong>50 Anos de Textos</strong> está ganhando um novo colaborador – e, com ele, um novo sotaque. Aqui já havia o sotaque mineiro de seis dos autores (embora só um dos seis viva hoje nas Minas Gerais, os outros cinco tendo saído, confirmando a velha tese de que Minas exporta mineiros e minérios), o paulista de cinco, o paraense de um e até um leve remanescente da Itália da origem de um.<span id="more-5677"></span></p>
<p>Pois agora o site ganha um sotaque lusitano, lisboeta, com uma pitadinha do português de Angola.</p>
<p>Manuel S. Fonseca tem um texto assombrosamente saboroso, coisa de ourives cuidadoso, criterioso. Escreve sobre cinema, sobre o universo do cinema – relacionando-o, aqui e ali, com a realidade do país dele, a pátria que inventou esta nossa última flor do Lácio, inculta e bela..</p>
<p>Quando, gentilissimamente, aceitou meu pedido de republicar aqui os textos que escreve para o semanário Expresso, avisou: “Não posso deixar de sublinhar que as minhas crónicas, muitas vezes coladas a incidentes e particularismos locais, podem parecer alienígenas ou herméticas aos seus leitores. Quando entender, por essa razão, não as publicar, é mais do que um direito que lhe assiste.”</p>
<p>Respondi que, ao contrário, acho interessantíssimo introduzir no site uma visão, uma pespectiva diferente da nossa. Que isso é enriquecedor, e é um absurdo como os brasileiros conhecemos pouco Portugal – e possivelmente vice-versa.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Aceitou também fazer uma apresentação dele mesmo, para a página Autores. Sempre acho melhor que cada um se apresente:</p>
<p><em>Manuel S. Fonseca fez Filosofia na Universidade Clássica de Lisboa. Foi programador da Cinemateca Portuguesa durante 10 anos, tendo, entre outros, publicado livros sobre Francis Coppola e Michelangelo Antonioni. Hoje é editor livreiro. Escreve nos jornais e na rádio sobre filmes e livros desde 1981. É actualmente colunista do Expresso. Viveu a infância, juventude e o saboroso começo da idade adulta em Luanda, o que deixou marcas irreversíveis. Admira a esplêndida luz de Lisboa, a sua cidade.</em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>O <strong>50 Anos de Textos</strong> ganhou os artigos de Manuel S. Fonseca graças a Luciana Nepomuceno. Luciana, amiga recente que já parece amiga de infância, professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, em Mossoró, na área de Psicologia e Metodologia Científica, é a autora não de um ou dois blogs, mas quatro: <a href="http://www.borboletasnosolhos.blogspot.com/">Borboleta nos Olhos</a>, <a href="http://olhosdaborboleta.blogspot.com/">Olhos da Borboleta</a>, <a href="http://eusouagrauna.blogspot.com/">Eu Sou a Graúna</a>, <a href="http://outrasborboletas.blogspot.com/">Outras Borboletas</a>. Nas horas vagas, que de alguma forma encontra, colabora com um quinto blog, <a href="http://estrangeirosnaterra.blogspot.com/">Estrangeiros na Terra</a>.</p>
<p>Assim como se tornou em pouco tempo minha amiga de infância, travou também amizade com Manuel. Tempo passado, falou dele para mim, me mandou textos dele. Fiquei encantado, ousei perguntar se ela o sondaria sobre a possibilidade de republicá-los aqui, Luciana fez a ponte em dois palitos – <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/manuel-s-fonseca/">e aí está</a>.</p>
<p>Pedi a Luciana um texto sobre Manuel. <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/manuel-era-um-morto/">E aí está</a>.</p>
<p>Não sei palavras para agradecer a ela e a ele.</p>
<blockquote><p><em>Novembro de 2011.</em></p>
<p><em>Para quem eventualmente tiver ficado curioso com as referências à origem dos autores dos textos do site:</em></p>
<p><em>Somos mineiros Fernando Brant (vive em Belo Horizonte), Jorge Teles (vive no Paraná), Mary Zaidan, Melchíades Cunha Júnior, Vivina de Assis Viana e eu (vivemos em São Paulo). São paulistas A.C. Malufe, Anélio Barreto, Hubert Alquéres, Laïs de Castro e Valdir Sanches. Antonio Contente nasceu no Pará, e Sandro Vaia, na Itália.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Manuel era um morto</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 23:04:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando conheci Manuel S. Fonseca ele era um morto e nada me indicou o bem querer que chegaria. Idades, amigos, hábitos, afazeres, nacionalidades diferentes. Escrevia (sim, os mortos tem muito a dizer) em uma língua que eu sabia ser a minha, tão íntima, mas tão estranha que às vezes eu pensava se era ela ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando conheci Manuel S. Fonseca ele era <a href="http://www.etudogentemorta.com/">um morto</a> e nada me indicou o bem querer que chegaria. Idades, amigos, hábitos, afazeres, nacionalidades diferentes.<span id="more-5674"></span> Escrevia (sim, os mortos tem muito a dizer) em uma língua que eu sabia ser a minha, tão íntima, mas tão estranha que às vezes eu pensava se era ela ou eu que éramos outra.</p>
<p>Poderia dizer o Manuel em adjetivos e não seria árdua tarefa: de inteligente a generoso, passando pelo sagaz, muitos lhe servem. Mas não quero. O Outro é nosso quando o dizemos, o Manuel que narro não é ele mesmo nem de nenhum mais. É o que aprendi, perturbou-me, animou-me, esclareceu-me em tantas palavras lidas, e-mails idos e recebidos e naquilo que, intangível, vai se chamando afeto. Pois é isso: o meu Manuel. O meu Manuel é em substantivos e verbos, em matéria e ação. Assim, em peças de um quebra-cabeça: shorts brancos de Jean Seberg, um livro de Faulkner, uma ária em voz de Danielle De Niese, um banho de chuva em Luanda, uma lista de rubros prazeres, maçãs que nos caem na cabeça antes dos dezoito. E em verbos é o que ele me faz: alegrar-me, comover-me, refletir, chorar, lembrar. Querer bem. Querer muito. O Manuel sempre e sempre me faz querer ser mais e melhor.</p>
<p>A escrita do Manuel é a mais instigante indicação da civilização que eu sempre ansiei sem nem saber nomear: ele sabe belezas. E, generoso, partilha memórias suas para que as possamos gozar. O meu cinema é, em letras suas, ainda mais meu.</p>
<p>O Manuel ensinou-me a mortalidade: não a fria e impessoal finitude que nos virá a todos e parece apagar as vontades, mas a tépida escolha de saber dizer “fim” e nisso dizer-se sujeito do seu desejo. Não há um jeito de dizer obrigada, digo-lhe: gosto muito &#8211; e ele há de saber ler o que calo de gratidão.</p>
<p>Quando conheci o Manuel ele era um morto, eu disse. Não sei se a ele, mas hoje me conheço mais e digo: amigo. Manuel S. Fonseca e tantas vezes se brincou de nomear o S. Não sabiam todos o que eu sei: <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/07/para-o-manuel-claro/">o Manuel é o meu Saci</a>.</p>
<blockquote><p><em>* Luciana Nepomuceno é professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, em Mossoró, na área de Psicologia e Metodologia Científica, é a autora não de um ou dois blogs, mas quatro: Borboleta nos Olhos, Olhos da Borboleta, Eu Sou a Graúna, Outras Borboletas. Nas horas vagas, que de alguma forma encontra, colabora com um quinto blog, Estrangeiros na Terra.</em></p></blockquote>
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		<title>Férias</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 03:52:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de muito, muito tempo, Mary tira férias de um mês – e pego carona nas férias dela. Não tenho a menor idéia se vou tirar férias absolutas deste 50 Anos de Textos e do 50 Anos de Filmes, ou se vou ter vontade de botar um post ou outro ao longo do mês de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de muito, muito tempo, Mary tira férias de um mês – e pego carona nas férias dela.<span id="more-5465"></span></p>
<p>Não tenho a menor idéia se vou tirar férias absolutas deste <strong>50 Anos de Textos</strong> e do<a href="http://50anosdefilmes.com.br/"> 50 Anos de Filmes</a>, ou se vou ter vontade de botar um post ou outro ao longo do mês de outubro.</p>
<p>Tenho absoluta certeza de que vou tirar férias das <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/mas-noticias-do-pais-de-dilma-24/">Más Notícias do País de Dilma</a>. Um mês inteiro sem a obrigação de ler os jornais marcando o que tem que entrar na relação semanal das provas da incompetência do governo – que maravilha, férias!</p>
<p>Do resto, não sei. Não tenho a menor idéia.</p>
<p>Bom, esse negócio de não ter a menor idéia.</p>
<p>Aos meus dois ou três leitores fiéis, e a todas as pessoas, de maneira geral, desejo um bom outubro.</p>
<blockquote><p><em>1º de outubro de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Nenhuma canção remou tanto contra a maré</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jul 2011 05:40:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[“Motherland” é uma canção maravilhosa, belíssima, apaixonante, emocionante. É uma dessas pérolas raras num mundo de fibra de vidro, para tomar emprestado de Dylan a imagem extraordinária. É uma dura crítica ao país da compositora, os Estados Unidos da América, o país que se tem, mais do que todos os outros, como a coisa mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Motherland” é uma canção maravilhosa, belíssima, apaixonante, emocionante. É uma dessas pérolas raras num mundo de fibra de vidro, para tomar emprestado de Dylan a imagem extraordinária.<span id="more-5047"></span></p>
<p>É uma dura crítica ao país da compositora, os Estados Unidos da América, o país que se tem, mais do que todos os outros, como a coisa mais gloriosa que já existiu no mundo.</p>
<p>Faz parte da história que todos os países se considerem a si próprios como a coisa mais gloriosa que já existiu no mundo. Uganda, ou o Paraguai, ou Zimbabue, todos eles se consideram a coisa mais gloriosa deste planeta que estamos todos destruindo. Mas, muito provavelmente pelo fato de que nenhum outro Império foi tão rico, e tão poderoso, quanto os Estados Unidos da América, os americanos se consideram o umbigo do mundo de uma forma que parece mais arrogante do que se consideraram, no passado, os mesopotâmios, os gregos, os romanos, os ingleses.</p>
<p>E então uma dura crítica ao Império, feita por uma cidadã do Império, soa como algo no mínimo estranho.</p>
<blockquote><p>(<a href="http://www.youtube.com/watch?v=A2JbLUVt0Z0">A mais bela intepretação que achei no YouTube.</a></p>
<p><a href="http://www.123video.nl/playvideos.asp?MovieID=602716">A gravação de estúdio.</a></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=UHlY7MbLzRs">A gravação de Joan Baez</a>.)</p></blockquote>
<p>E muito mais ainda quando a canção é lançada logo após o 11 de Setembro de 2001, o dia em que pela primeira vez na História o território americano sofreu um ataque inimigo. Tudo bem: tinha havido antes o ataque a Pearl Harbour, mas o Havaí fica um tanto longe da Motherland.</p>
<p>A primeira vez em que o território continental americano sofreu um ataque inimigo foi naquele 11 de setembro.</p>
<p>As coisas são relativas. Londres sofreu pesados bombardeios nazistas; Moscou havia sido invadida um século e meio antes pelas tropas de Napoleão, e boa parte da Mãe Rússia foi tomada pelas tropas nazistas; Hiroshima e Nagasaki tinham sido destruídas por bombas atômicas americanas em 1945; forças americanas já haviam invadido a Coréia, o Vietnã, a República Dominicana, já haviam dado suporte a golpes de estado pelo mundo afora, incluindo aí o Brasil e depois o Uruguai e o Chile. Mas o território continental americano jamais havia sofrido um ataque, até o 11 de Setembro de 2001.</p>
<p>E Natalie Merchant apresentou sua canção que é uma dura crítica ao país no exato momento em que, atacado, o país se mostrava mais avesso a qualquer crítica, se mostrava firme, fechado em si mesmo, querendo reagir com ferro e fogo contra os inimigos.</p>
<p>Poucas vezes terá havido uma canção remando tão vigorosamente contra o seu tempo do que “Motherland”.</p>
<p>Numa comparação canhestra, boba, cantar “Motherland” nos Estados Unidos pós o 11 de Setembro seria mais ou menos assim como gritar “FHC” num país em que mais de 84% achavam que Lula fazia uma maravilha de governo, e os políticos teoricamente próximos a FHC o negavam mais vezes que Judas negava Cristo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O crime inominável do anti-patriotismo</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zznatalie.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5055" title="zznatalie" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/07/zznatalie.jpg" alt="" width="500" height="500" /></a>Parecia que Natalie Merchant estava sendo aquilo que ninguém perdoa nunca – impatriótica. Impatriótica, traidora de seu próprio país, de sua própria gente, sangue e alma.</p>
<p>Funciona assim, nas cabeças menores, canhestras – e para os políticos espertalhões que se aproveitam desse clima Fla x Flu, o nós contra eles. O país de Natalie Merchant já passou por isso algumas vezes. Nos anos 1920, a direita raivosa jogava a opinião pública contra os imigrantes (eles sempre fazem isso, ao longo de toda a História), e foi nesse contexto que Sacco e Vanzetti foram condenados à morte, embora não houvesse jamais prova material de que eles teriam de fato participado do assalto pelo qual foram acusados. A perseguição denegerada, a caça às bruxas dos anos 1920 reviveu com muito mais força no auge da guerra fria, nos anos 1950, quando a paranóia anticomunista levou à lista negra que proibiu de trabalhar dezenas, centenas de aristas.</p>
<p>É tudo tão repetitivo, tão cansativamente repetitivo, que dá preguiça. Quem se opõe a um governo de direita é tachado imediatamente de comunista; quem se opõe a um governo de esquerda é tido como fascista, reacionário, neoliberal.</p>
<p>São iguais, igualzinhos: detestam oposição.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>É uma queixa contra os valores básicos da sociedade americana</strong></p>
<p>“Motherland” não é propriamente uma canção que se opunha ao governo Bush, que, em reação aos ataques do 11 de setembro, inventaria desculpas para invadir o Iraque – embora o Iraque não tivesse nada a ver com os ataques de 11 de setembro.</p>
<p>“Motherland” não é sequer democrata – embora, pelamordedeus, também não seja republicana.</p>
<p>“Motherland” se queixa de que aquele país antes tão belo, tão verde, esteja agora sendo tomado pelo asfalto, pelo concreto, pelos amplos espaços dos estacionamentos junto dos centros de compras.</p>
<p>A queixa de Natalie Merchant que parecia uma simples reclamação contra o asfaltamento de grandes áreas dos Estados Unidos virou, dentro da nova realidade pós 11 de setembro, uma ameaça à segurança nacional.</p>
<p>Até porque, na verdade, a canção é bem mais que isso uma queixa contra o espalhamento dos malls, os centros de compras. Ela finge que é bobinha, específica na coisa do asfalto, e na verdade é muito mais ampla, é gigantesca: a rigor, para quem souber ouvir, ela questiona as bases, os fundamentos, os alicerces da sociedade construída a partir da competição, da briga para ver quem acumula mais dinheiro.</p>
<p>E, assim, de alguma forma, a canção que já era linda virou um hino – para o bem e para o mal.</p>
<p>Para as notas da coletânea que reuniria suas canções entre 1995 e 2005, Natalie Merchant escreveu o seguinte:</p>
<p>“Na manhã de 11 de setembro de 2001, ouvi o som de um avião voando excepcionalmente baixo sobre minha casa, e mencionei para o maquiador como aquilo era pouco usual. Estávamos no Norte do Estado de Nova York, fotografando para a capa do meu novo disco em pastagens, jardins, orquídeas. Era um belo início de um dia de outono. Não estávamos perto de um rádio ou uma TV. Não tínhamos idéia do caos e do horror ao Sul de nós, até que o celular tocou&#8230;</p>
<p>“Era uma época difícil para lançar um álbum como Motherland nos meses seguintes ao ataque terrorista. A nação não estava no clima para aquilo que eu antes considerava uma crítica saudável. Eu entendi, mas rapidamente fiquei sufocada por um clima que não permitia que as questões mais profundas e mais difíceis fossem perguntadas abertamente. Eu tinha escrito um disco que continha canções que perguntavam se tínhamos ficado avarentos e colocado nossa riqueza e conforto material acima de tudo. Iríamos envenenar a água que bebemos e o ar que respiramos para sustentar um estilo de vida ao qual havíamos nos acostumado? Iríamos negligenciar nosso lugar privilegiado no mundo entre os países mais ricos e poderosos, e moralmente obrigados a ser mais generosos? Teríamos menosprezado as nossas liberdades? Poderíamos ter esquecido de lembrar nossa própria história?”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>Levei dias para escrever esta pequena anotação. Como se a beleza de “Motherland” me deixasse com medo. Pedi ajuda a amigos que moram nos Estados Unidos, com medo de errar intepretações – quando em geral me sinto muito à vontade para fazer afirmações firmes a respeito de coisas que não conheço muito bem.</p>
<p>Enquanto relia o texto pela décima-oitava vez, nem sei se inseguro ou se gostando muito dele, e enquanto me ocorria o título “Nenhuma canção remou tanto contra a maré”, me lembrei de Dylan – como sempre.</p>
<p>Quando Bush pai atacou o Iraque, no início dos anos 90 (que tragédia grega perseguirá os Bush que os fazem atacar o Iraque a cada geração?), a indústria fonográfica americana resolveu dar a Bob Dylan uma homenagem daquelas pelo conjunto da obra. Eram os momentos do ataque, os momentos do patriotismo exacerbado; não me lembro dos números, mas o apoio ao ataque insano do Império contra o distante país era algo de fazer Lula ter inveja. Dylan entrou no palco da cerimônia da entrega dos Grammy, não falou uma única palavra, e atacou de “Masters of War”, uma das mais virulentas canções anti-guerra que já foram feitas.</p>
<p>Remar contra a maré. Ter a coragem de ir contra a maré.</p>
<p>O mundo seria muito menor se não tivesse um Bob Dylan, uma Nataltie Merchant.</p>
<blockquote><p><em><strong>Motherland</strong></em></p>
<p><em>Por Natalie Merchant</em></p>
<p><em>Where in hell can you go</em></p>
<p><em>Far from the things that you know</em></p>
<p><em>Far from the sprawl of concrete</em></p>
<p><em>That keeps crawling its way</em></p>
<p><em>About 1,000 miles a day?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Take one last look behind</em></p>
<p><em>Commit this to memory and mind</em></p>
<p><em>Don&#8217;t miss this wasteland, this terrible place</em></p>
<p><em>When you leave</em></p>
<p><em>Keep your heart off your sleeve</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Motherland cradle me</em></p>
<p><em>Close my eyes</em></p>
<p><em>Lullaby me to sleep</em></p>
<p><em>Keep me safe</em></p>
<p><em>Lie with me</em></p>
<p><em>Stay beside me</em></p>
<p><em>Don&#8217;t go, don&#8217;t you go</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>O, my five &amp; dime queen</em></p>
<p><em>Tell me what have you seen?</em></p>
<p><em>The lust and the avarice</em></p>
<p><em>The bottomless, the cavernous greed</em></p>
<p><em>Is that what you see?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Motherland cradle me</em></p>
<p><em>Close my eyes</em></p>
<p><em>Lullaby me to sleep</em></p>
<p><em>Keep me safe</em></p>
<p><em>Lie with me</em></p>
<p><em>Stay beside me</em></p>
<p><em>Don&#8217;t go</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>It&#8217;s your happiness I want most of all</em></p>
<p><em>And for that I&#8217;d do anything at all, o mercy me!</em></p>
<p><em>If you want the best of it or the most of all</em></p>
<p><em>If there&#8217;s anything I can do at all</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Now come on shot gun bride</em></p>
<p><em>What makes me envy your life?</em></p>
<p><em>Faceless, nameless, innocent, blameless and free,</em></p>
<p><em>What&#8217;s that like to be?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Motherland cradle me</em></p>
<p><em>Close my eyes</em></p>
<p><em>Lullaby me to sleep</em></p>
<p><em>Keep me safe</em></p>
<p><em>Lie with me</em></p>
<p><em>Stay beside me</em></p>
<p><em>Don&#8217;t go, don&#8217;t you go.</em></p>
<p><em>***</em></p>
<p><em>Não costumo fazer isso, mas aqui vou incluir uma tradução da letra. É uma tradução canhestra, como tudo que faço, mas acho que, neste caso específico, é necessário deixar, para o eventual leitor que não domine o inglês, o que essa moça extraordinária quis dizer.</em></p>
<p><em>Lá vai.</em></p>
<p><strong><em>Pátria mãe</em></strong></p>
<p><em>Onde diabos você pode ir</em></p>
<p><em>Longe das coisas que você conhece</em></p>
<p><em>Longe do crescimento do concreto</em></p>
<p><em>Que continua cavando seu caminho</em></p>
<p><em>Cerca de mil milhas por dia?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Dê uma última olhada pra trás</em></p>
<p><em>Empenhe isso na memória, na mente</em></p>
<p><em>Não perca essa vastidão à toa, esse lugar terrível</em></p>
<p><em>Quando você for embora</em></p>
<p><em>Abra seu curacao.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Terra mãe, me embale,</em></p>
<p><em>Feche meus olhos,</em></p>
<p><em>Me acalante até dormir.</em></p>
<p><em>Me guarde,</em></p>
<p><em>Se deite comigo,</em></p>
<p><em>Fique do meu lado,</em></p>
<p><em>Não vá embora.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ah, minha rainha das lojinhas baratas,</em></p>
<p><em>Me diga o que você viu.</em></p>
<p><em>A luxúria e a avareza,</em></p>
<p><em>O incompreensível, a ambição cavernosa –</em></p>
<p><em>É isso que você vê?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Terra mãe, me embale,</em></p>
<p><em>Feche meus olhos,</em></p>
<p><em>Me acalante até dormir.</em></p>
<p><em>Me guarde,</em></p>
<p><em>Se deite comigo,</em></p>
<p><em>Fique do meu lado,</em></p>
<p><em>Não vá embora.</em></p>
<p><em>É a sua alegria que eu quero acima de tudo</em></p>
<p><em>E por ela eu faria de tudo, tenha pena de mim.</em></p>
<p><em>Se você quiser o melhor ou a maior quantidade de tudo,</em></p>
<p><em>Se houver alguma coisa que eu possa fazer.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Mas venha cá, minha esposa comprada</em></p>
<p><em>O que me faz invejar sua vida?</em></p>
<p><em>Sem face, sem nome, inocente, sem acusação e livre</em></p>
<p><em>Que tal é ser assim?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Terra mãe, me embale,</em></p>
<p><em>Feche meus olhos,</em></p>
<p><em>Me acalante até dormir.</em></p>
<p><em>Me guarde,</em></p>
<p><em>Se deite comigo,</em></p>
<p><em>Fique do meu lado,</em></p>
<p><em>Não vá embora.</em></p>
<p>Julho de 2011</p></blockquote>
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		<title>Denise</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jul 2011 06:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Denise poderia ser personagem de um filme de Claude Sautet. Claude Sautet criava personagens que “mascaravam em grupo sua solidão” – e a frase vai entre aspas porque é uma citação; eu não seria capaz de criá-la. Poderia ser um personagem, ou poderia também ser uma atriz dos filmes de Sautet, um cineasta que gostava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Denise poderia ser personagem de um filme de Claude Sautet. Claude Sautet criava personagens que “mascaravam em grupo sua solidão” – e a frase vai entre aspas porque é uma citação; eu não seria capaz de criá-la.<span id="more-4979"></span></p>
<p>Poderia ser um personagem, ou poderia também ser uma atriz dos filmes de Sautet, um cineasta que gostava de atores belos. Denise era uma bela mulher, nos dois sentidos, o mais estrito, o da beleza mais óbvia, e o mais importante, da pessoa interessante, inteligente, boa. Uma mulher bela, com aqueles lindos olhos claros, escondidos atrás dos óculos de lentes grossas, e um corpo esguio, perfeito, resultado de sorte, de DNA, nunca de grande esforço, de ginástica, malhação, que a isso ela jamais se submeteria na vida. Era sedentária, e fumava muito.</p>
<p>Era, sobretudo, uma pessoa que parecia solitária, como alguns dos personagens de Sautet.</p>
<p>Mascarava em grupo sua solidão: me falava de encontros freqüentes, quase rigorosamente mensais, com antigas amigas, Valéria, Lenita, Silvinha. Imagino que, nesses encontros, não abrisse a alma, como boa parte das mulheres felizmente faz – uma das muitas qualidades que as mulheres têm que a nós, homens, foi negada.</p>
<p>Posso estar enganado, não a conheci bem (alguém a terá conhecido bem?), mas acho que Denise, ao contrário de muitas mulheres, não era de abrir a alma nas conversas em grupo. Tinha esse defeito masculino de mascarar em grupo a solidão.</p>
<p>Falava, sim, da sua vida, dos problemas com os filhos, a filha que teve jovem demais e era muito distante dela, o filho que teve já na maturidade e que na infância tinha aquela marca que algumas pessoas carregam, de imensa, inata carência. Me falava um pouco disso, nos meses em que convivimos no mesão do <em>Estadão</em>, aí por 2005, 2006, e nas escapadas para o fumódromo, quando ainda havia fumódromos em São Paulo. Falava, mas falava pouco – não chegava propriamente a se abrir, se mostrar. Era reservada. Mantinha o interlocutor à distância, uma distância que talvez parecesse a ela segura.</p>
<p>Talvez tivesse medo das proximidades.</p>
<p>Imagino que com as outras pessoas ela não fosse muito diferente do que era comigo.</p>
<p>Nessa época em que convivi mais com ela, era o que antes se chamava de copydesk, e depois virou fechador (o que, apenas pelas palavras, já demonstra como decaiu, nos jornais, a função da pessoa que conserta o texto dos outros, que dá a forma final dos textos que aparecerão impressos na manhã seguinte) da editoria de Economia. Tinha ido parar na Economia por acaso, por falta de oportunidade em outro lugar. Não gostava de Economia, não estava nada satisfeita com o que fazia. A praia de Denise era outra: no <em>Jornal da Tarde</em>, havia sido durante muitos anos copy da Variedades. Era, no entanto, competente, poderia ser copydesk, redatora, fechadora de qualquer coisa, e tinha virado fechadora de Economia porque a Economia precisava. Não gostava do que fazia, achava tudo aquilo muito chato, mas procurava fazer bem feito o que tinha que fazer, e fazia.</p>
<p>Havia rodízios de pessoas das editorias para fechar a primeira página nos plantões, ou nas férias dos titulares, e a Economia sempre costumava oferecer Denise à primeira página. Ela dizia que isso se devia ao fato de as pessoas da Economia a acharem dispensável. Foi exatamente nessa época que eu, trabalhando no mesão junto das pessoas encarregadas da primeira página, mais me aproximei dela.</p>
<p>Embora “aproximar” seja uma expressão errada. Denise não deixava ninguém realmente se aproximar dela.</p>
<p>E aí me lembro da canção que Paul Simon escreveu quando era muito jovem, e eu mais ainda – “I am a rock”. Para não sofrer, o narrador da canção de Paul Simon se transformou numa pedra – “e uma pedra não sente dor”.</p>
<p>A lembrança que tenho de Denise Akstein é semelhante à do narrador da canção de Paul Simon: uma pessoa que, para não sofrer, se transformou em uma pedra.</p>
<p>A morte de Denise me assustou muito.</p>
<p>Não soube da doença. Falamos – por e-mail e por telefone – até o que me parece ser muito recentemente. Sandro diz que a doença foi diagnosticada em dezembro passado. Estranho, porque na minha cabeça parece que Denise e eu conversamos em dezembro, e ela não falou nada a respeito da doença.</p>
<p>Estranho nada. Talvez tenhamos de fato conversado em dezembro, e ela não tenha dito coisa alguma sobre a doença. Ela era assim: fechada, até para as pessoas, como eu, para quem parecia se abrir.</p>
<blockquote><p><em>Julho de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Férias</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 22:56:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Ninguém é de ferro, e então saio de férias por uma semana. Se tudo der certo, nada der errado e todos os santos ajudarem, haverá novos posts aqui a partir do domingo, 3 de julho. Uma cara amiga, a quem falei das férias de uma semana, me perguntou se eu não poderia deixar uns posts [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ninguém é de ferro, e então saio de férias por uma semana.<span id="more-4829"></span></p>
<p>Se tudo der certo, nada der errado e todos os santos ajudarem, haverá novos posts aqui a partir do domingo, 3 de julho.</p>
<p>Uma cara amiga, a quem falei das férias de uma semana, me perguntou se eu não poderia deixar uns posts programados, ou se não poderia postá-los do lugar para onde vou.</p>
<p>Poderia, é claro. Mas aí não seriam férias.</p>
<p>E, afinal, meus dois ou três leitores também merecem férias.</p>
<p>Boas férias para eles, e para nós!</p>
<blockquote><p><em>23/6/2011</em></p></blockquote>
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		<title>A briga lennonistas x macarthistas? Tô fora</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jun 2011 05:16:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O disco novo de Madeleine Peryroux, Standing on the Rooftop, de 2011, abre com uma música dos Beatles. A moça (e põe moça nisso: ela nasceu em 1973, três anos depois da separação do grupo) escolheu para abrir seu novo disco “Martha, My Dear”, assinada por Lennon-McCartney. Assinada por Lennon-McCartney, porque, como até cada tecla [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O disco novo de Madeleine Peryroux, <em>Standing on the Rooftop</em>, de 2011, abre com uma música dos Beatles. A moça (e põe moça nisso: ela nasceu em 1973, três anos depois da separação do grupo) escolheu para abrir seu novo disco <a href="http://www.youtube.com/watch?v=D-sm7lh5Bkg">“Martha, My Dear”</a>, assinada por Lennon-McCartney.<span id="more-4804"></span></p>
<p>Assinada por Lennon-McCartney, porque, como até cada tecla do meu toca-CD Denon sabe, os garotos tinham feito um pacto de assinar em conjunto suas canções, fossem feitas por Lennon, por McCartney, ou pelos dois juntos – assim como firmaram o mesmo pacto os jovens Roberto e Erasmo.</p>
<p>Mas, como até cada folha morta do Hyde Park ou do Ibirapuera está cansada de saber, “Martha, My Dear” é <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/nao-ha-fenomeno-no-mundo-como-paul-mccartney/">Paul McCartney</a> puro. Não tem absolutamente nada de <a href="http://50anosdetextos.com.br/1990/john-no-ceu-com-diamantes/">John Lennon</a>.</p>
<p>A rigor, não houve nenhuma canção Lennon-McCartney depois de <em>Rubber Soul</em>, que é de 1965. Houve canções de John Lennon e canções de Paul McCartney, assinadas como Lennon-McCartney.</p>
<p>Então, voltando ao início, temos que Madeleine Peyrox escolheu para abrir seu disco novo uma canção de Paul McCartney.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmade.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4808" title="zmade" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmade.jpg" alt="" width="236" height="236" /></a>Madeleine Peyroux é uma figura. Para começar, nasceu em Atenas, Grécia, com esse nome francês. Seu timbre vocal faz lembrar ninguém menos do que Billie Holiday, a mais deusa de todas as deusas do jazz, mais ainda que a mais perfeita Ella Fitzgerald. Ao contrário de Billie Holiday, que sofreu demais por ser negra e feia e dedicar-se à heroína, Madeleine Peyroux, branca e bela, tadinha, ao contrário das Amy Winehouse e Lady Gaga de sua época, optou por não industrializar a feiúra, a repelência, o nojo. Optou por cantar bem, pra ver no que dava.</p>
<p>E, quando escolhe o que vai cantar, além dos grandes standards, das pérolas da Grande Música Americana, opta por Paul McCartney.</p>
<p>Não só Paul McCartney, é claro. Madeleine Peyroux é uma jovem (que pena, nestes tempos das cotas, dos privilégios, que ela seja branca, e linda, e não drogada) que, quando não canta os velhos clássicos, canta Leonard Cohen, Tom Waits, Serge Gainsburg, Bob Dylan, Joni Mitchell.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Bem, mas e vai daí?</p>
<p>Vai daí nada.</p>
<p>Longe de mim querer entrar na briga lennonistas x macarthistas. De forma alguma quero entrar nessa briga Fla-Flu, quem seria melhor, maior, Paul ou John. De jeito nenhum.</p>
<p>Este post aqui não pretende dar opinião alguma. Só resolvi fazer este post para lembrar fatos.</p>
<p>Em 2011, Madeleine Peyroux abriu seu disco com uma canção de Paul McCartney.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmeet.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-4809" title="zmeet" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/06/zmeet-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Em 1998, John Pizzarelli gravou um disco só com canções dos Beatles, <em>Meet The Beatles</em>. Das 12 músicas que ele escolheu, uma é de George Harrison, “Here Comes the Sun”. Uma é mais Lennon que McCartney, “You’ve got to hide your love away”. Uma é Lennon-McCartney, “Things we said today”. As demais nove músicas são de Paul McCartney: “Can’t buy me love”, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=87VmMmfW65I">“I’ve just seen a face”</a>, “Eleanor Rigby”, “And I love her”, “When I’m 64”, “Oh Darling”, “Get back”, “Long and winding road”, “For no one”.</p>
<p>Em 2003, outra jazzista, Connie Evingson, gravou seu tributo ao conjunto, o belo disco <em>Let it be jazz: Connie Evingson sings The Beatles</em>. Das 13 canções, duas podem ser atribuídas a Lennon-McCartney: “Wait” e “From me to you”. As outras 11 são de Paul McCartney: “Blackbird”, “Can’t buy me love”, “Fixing a Hole”, “When I’m 64”, “I’m looking through you”, “For no one”, “I Will”, “Oh darling”, “Got to get you into my life”, “Good day sunshine”.</p>
<p>Voltando mais no tempo:</p>
<p>Em 1983, a grande Sarah Vaughn fez seu álbum de tributo aos  Beatles. Gravou um George Harrison (“Something”), dois John Lennon (“Come together” e “I want you (she’s so heavy)”) e dez Paul McCartney (“Get back”, “Eleanor Rigby”, “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=DTXDb4ksvsY">The Fool on the Hill”</a>, “You never give me your money”, “Blackbird”, “Here, there and everywhere”, “The long and winding road”, “Yesterday”, “Hey Jude”).</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Insisto: longe de mim querer entrar na briga entre lennonistas e macarthistas. Tô fora deste fogo cruzado.</p>
<p>Eu, hein? Não sou doido, nem nada&#8230;</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Sobre <em>Standing on the Rooftop</em>, o disco de Madeleine Peyroux, posso dizer pouco. Estou ainda começando a ouvir. Comprei agora no domingo, na Clássicos, excelente loja de discos e filmes da Sala São Paulo, essa magnífica criação de Mario Covas, onde Mary e eu fomos para, junto com mais umas 1.500 pessoas, ouvir um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (uma suíte de Alberto Nepomuceno, belíssima, que me surpreendeu, e a Sinfonia nº 4 de Mendelssohn), e depois, junto com a Osesp e as 1.500 pessoas, cantar, com a maior alegria, parabéns a você para Fernando Henrique Cardoso.</p>
<p>Não que isso indique que tomei partido, que fiz uma opção política. Não sou lennonista nem macarthista, nem tucano nem petista – como este site muito bem prova.</p>
<blockquote><p><em>Junho de 2010</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Sandro Vaia volta na semana que vem</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 16:33:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[E na semana que vem saio eu de férias, para felicidade geral da nação. Sérgio Vaz 17/6/2011]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E na semana que vem saio eu de férias, para felicidade geral da nação.<span id="more-4758"></span></p>
<blockquote><p><strong><em>Sérgio Vaz</em></strong></p>
<p><em>17/6/2011</em></p></blockquote>
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