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	<title>50 Anos de Textos &#187; Ficção</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Lascas da mesa no uísque</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 16:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[O gostinho. Estilo de vida está no gostinho. Peguei o avião para a Suíça, essa banalidade. Hoje tem gente pegando avião só para comprar chocolate. Minha viagem tinha destino mais definido. Terminou num hotelzinho da Vila Jukkasjärvi, às margens de um belo rio, o Torne. Apenas duzentos quilômetros abaixo do círculo ártico. Não é todo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O gostinho. Estilo de vida está no gostinho. Peguei o avião para a Suíça, essa banalidade. Hoje tem gente pegando avião só para comprar chocolate. Minha viagem tinha destino mais definido.<span id="more-6771"></span> Terminou num hotelzinho da Vila Jukkasjärvi, às margens de um belo rio, o Torne. Apenas duzentos quilômetros abaixo do círculo ártico. Não é todo mundo que se hospeda num bloco de gelo, como o Ice Hotel. Mas o fato, em si, é terrivelmente vulgar.</p>
<p>Os móveis, como sabem, são de gelo. O quarto é de gelo. O bar é de gelo, mas tem bar – e esse é o alvo. À hora do drink, pego o meu copo de uísque, o mesmo que uso em casa. E um acessório que trouxe junto. No bar, o funcionário me toma por um turista. Propõe, todo animado, que eu use um copo de gelo. Entenda-se, feito de gelo, como os móveis.</p>
<p>Apresento-lhe meu copo. Diante de tal visão, ele recua espantado. Como se nunca tivesse visto uma peça de cristal. Peço minha primeira dose, sem susto. Se a casa não tiver uma de minhas marcas prediletas, mando buscar a garrafa de emergência. Na minha mala.</p>
<p>Não foi preciso. Com a bebida no copo (um Macallan, vá lá) relaxei. Sentei-me no estranho banco de gelo à frente da curiosa mesa da mesma matéria. Então peguei o acessório. Uma pequena barra de aço com cabo de madrepérola, que uso para partir nozes. Esperava que fosse suficiente para o meu propósito, e foi. Dei três pancadas na beira da mesa. Três pequenos pedaços do móvel se desprenderam. Aparei-os, com o copo. Olhei para o barman. Estava lívido. Pode ter me tomado por um maníaco destruidor de construções de gelo (se fosse, usaria um maçarico).</p>
<p>Sorvi o primeiro gole. Prazer insuperável. Para isso eu pegara aquele avião. Meus amigos vão achar um absurdo. Muito dinheiro, para beber uísque on the rocks dentro de uma geleira. Nesse momento, virá minha consagração:</p>
<p>- Tive o gostinho.</p>
<blockquote><p><em>Abril de 2012</em></p></blockquote>
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		<title>Maria José da Silva</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Mar 2012 16:14:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[1 &#8211; Desassossego Na sala de espera do Juizado Especial de Pequenas Causas do Fórum Distrital do Santo Amaro, Maria José da Silva era a única mulher. Ouviu seu nome. Para ter certeza olhou para os lados, viu-se única, sorriu, levantou-se confiante e após os cumprimentos começou a falar ao sorridente advogado acomodado atrás de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>1 &#8211; Desassossego</strong></p>
<p>Na sala de espera do Juizado Especial de Pequenas Causas do Fórum Distrital do Santo Amaro, Maria José da Silva era a única mulher. Ouviu seu nome. Para ter certeza olhou para os lados, viu-se única, sorriu, levantou-se confiante e após os cumprimentos começou a falar ao sorridente advogado acomodado atrás de uma escrivaninha.<span id="more-6556"></span></p>
<p>- Sabe senhor seu doutor “adevogado”, tô cansada do desassossego de ter que justificar que eu sou eu e não outra quando me chamam pelo meu nome. Olha, outro dia fui no posto de saúde consultar com o médico, porque estou com “estopenia no femu”(1); tô com dor nos quarto e as perna dói muito e quase não consigo andar direito, por causa da idade, sabe, seu doutor adevogado. Então, quando me chamaram, outras cinco mulheres se levantaram e foram pro guichê. Era tudo Maria José da Silva. Ninguém era parente, mas era tudo Maria José da Silva. Eu tô escolada com essa confusão que se faz por causa de nome igual. Acontece que tô ficando velha e não tenho mais paciência de ficar esperando que decidam qual a Maria José da Silva vai ser atendida. Sabe, quando eu era moça até dava risada dessas coisas. Mas agora que tô passada nos anos me aborreço, porque é um tal de Maria José da Silva prá cá; Maria José da Silva pra lá. Não gosto mais disso não.</p>
<p>- Inicialmente, dona Maria José, temos de&#8230;</p>
<p>- &#8230;da Silva, corrige ela, Maria José da Silva.</p>
<p>&#8230; mas sim, claro, dona Maria José da Silva. Vamos superar esta situação rapidamente. Em primeiro lugar, precisamos fazer um pedido ao juiz titular&#8230; Parou, coçou o queixo e perguntou:</p>
<p>&#8211; Dona Maria José da Silva o que é mesmo que a senhora quer ?</p>
<p>&#8211; Senhor seu doutor adevogado, eu quero fazer um fordúncio tão grande que até o Lula vai ficar sabendo.</p>
<p>&#8211; Como assim?!?!</p>
<p>&#8211; Assim, senhor seu doutor adevogado: o que eu quero é que se proíba qualquer outra pessoa de se chamar Maria José da Silva, filha de Maria da Silva e pai desconhecido, até que eu tenha ido para junto de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nosso Pai, (persignando-se ao citar o Filho de Deus).</p>
<p>Maria José da Silva explica a razão do desassossego vivido no posto de saúde ao Doutor José Francisco: “Sabe, senhor seu doutor adevogado, foi assim que aconteceu No posto de saúde lá do Santo Amaro, a atendente chamou do guichê o nome Maria José da Silva. Na hora, eu e mais cinco mulheres se aproximam do guichê. Ela olhou pra nós e chamou de novo: Maria José da Silva, filha de Maria da Silva. Sobramos três. De novo: Maria José da Silva, filha de Maria da Silva e José da Silva. Das três sobrou uma, que não era eu. Ela foi encaminhada pro médico. Foi aí que pensei “Preciso dar um jeito nisso vou ao Juiz, ao delegado, vou falar com o Lula, com quem for, mas vou acabar com essa chateação”.</p>
<p>Enquanto Maria José da Silva esperava sua vez a atendente explica:</p>
<p>&#8211; O doutor vai atender esta senhora, e em seguida vamos resolver o problema de vocês.</p>
<p>A atendente tem tempo para pensar, enquanto uma nova paciente não é chamada. Tenta imaginar uma forma de acabar com a homonímia: “acho que elas deveriam ir ao juiz e pedir pra mudar de nome. Assim ficaria mais fácil pra todo mundo”. Naquele exato momento, os pensamentos de Maria José da Silva e da atendente se cruzam no espaço.</p>
<p>Dizem que se duas pessoas estão próximas e pensam a mesma coisa, é muito provável que o que estejam pensando se realize. Dizem&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>2 &#8211; José Francisco</strong></p>
<p>Aliás, Doutor José Francisco com OAB e Doutor de capinha vermelha. Sua tese de doutorado defendida no Salão Nobre da Universidade do Santo Amaro, intitulada “O direito de ir e vir após a promulgação da Constituição Federal de 1988: um estudo de caso” recebeu grau 10, louvor e distinção e o reconhecido sucesso entre os pares do Fórum Distrital do Santo Amaro – SP. Tanto é que o “Grupo de Estudos Jurídicos Umberto Noevis Oldires” (GEJUNO), do qual o Doutor José Francisco era partícipe, reuniu-se após a defesa da tese, aprovou a proposta de um dos netos do patrono de imprimir o arrazoado; mandou para a gráfica os originais, com o devido “imprimatur” corroborado pelos cinco membros do Conselho Consultivo.</p>
<p>O livro de 158 páginas, das quais 90 eram de citações de pé-de-página, teve digna recepção na noite de autógrafos. A banca examinadora, especialmente convidada, entre um gole e outro de espumante, salpicava elogios às passagens “mais veementes” na defesa do direito de ir e vir dos cidadãos, especialmente quando o caso estudado tornou-se conhecido como “uma tresloucada ação policial”.</p>
<p>O Doutor José Francisco tornou-se uma celebridade instantânea. Nos agradecimentos de praxe foi enfático e aplaudido: “No momento em que um cidadão é impedido de ir e vir, qualquer que seja o motivo, a nossa Constituição, a nossa Carta Magna, o nosso Ideário Democrático, está sendo violentado! E isso não podemos permitir”.</p>
<p>Ele deu duas entrevistas à mídia. Uma ao Notícias do Santo Amaro, publicada em meia página com foto, e outra para a TVéqVocêvê, a emissora comunitária local de baixíssimo orçamento. Tal entrevista rendeu-lhe um convite para fazer um programa de 15 minutos por semana, onde poderia responder aos espectadores mais perguntas sobre seus direitos do que sobre seus deveres.</p>
<p>Salustiano Ferreira foi o autor do convite. Era o sócio majoritário, corretor de anúncios e eventual programador da emissora. Ele mesmo espalhou uma lenda urbana que o identificava com distante parentesco de Virgolino Ferreira. E assim, passou a ser mais temido do que respeitado.</p>
<p>Ao terminar a entrevista, fez o convite: “você sabe onde é, não? então passe por lá na quinta-feira, depois das quatro da tarde. Vamos ver o que você poderá fazer pelo povo do Santo Amaro”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> 3 &#8211; Campeão de audiência</strong></p>
<p>A TVéqVoceve a pesar de ser quase artesanal, tinha audiência qualificada. Noticiava enfaticamente tudo o que era produzido na Delegacia de Polícia. Edelmiro Barros era âncora, programador, cabo-man discotecário, mixer, editor de clipes capturados no Youtube e, sobretudo, homem de confiança de Salustiano. As histórias dos crimes cometidos no Santo Amaro eram o prato principal. Não que fossem muitos, mas qualquer coisinha fora da normalidade virava um assuntão. Outro programa que dava uma audiência razoável começava às cinco e meia da tarde, exibindo clipes de música brasileira, em especial aqueles que faziam lembrar os “bons tempos do Norte e do Nordeste”. Assim, ouvia-se/via-se muito Jackson do Pandeiro e Almira Castilho, Venâncio e Corumba, o resfolego de Luiz Gonzaga e no seu arrasto o Gonzaguinha. Havia também um arremedo de cozinha, na qual Dona Eudora fazia esforços quase inúteis para ensinar pratos sofisiticados, como estrogonofe de frango, acém assado com pedacinhos de beicon, entre outras delícias.</p>
<p>Mas, o campeão de audiência acontecia às duas da manhã, quando as sombras da noite caiam sobre os lares, as famílias já repousavam para novo dia de labuta. Neste horário, quando Salustiano e Edelmiro tinham certeza de que a molecada já tinha ido pra cama eram apresentadas as gravações sensuais feitas no dia anterior, no “estúdio B”, com alguma beldade da região.</p>
<p>Edelmiro conhecia o gosto popular para beldades. Às vezes perambulava pelo bairro à caça. Batia o olho e com uma rápida conversa combinava: deveria estar na emissora às três da tarde, maquiada, penteada, sem calcinhas, “para não aparecerem marcas na pele”.</p>
<p>Nas gravações as belas usavam sugestivos nomes fictícios “para não serem reconhecidas nas ruas”. Mas o pulo do gato do Edelmiro foi descoberto. A molecada e alguns marmanjos ficavam de olho no movimento da porta de entrada da emissora todos os dias pouco antes das três da tarde.</p>
<p>A gravação era no estúdio B, instalado na lavanderia junto ao quatro de empregada da casa cedida graciosamente (Imobiliária Seu Sonho) à emissora. A câmera montada em tripé tinha à frente uma espécie de biombo de véus (O Mundo dos Tecidos) chacoalhados com um ventilador (Estilo Eletrodomésticos). Numa das primeiras gravações vespertinas, o diáfano véu desprendeu-se “acidentalmente” e babau identidade da opulenta e desejada Sheila Arielsa.</p>
<p>Justamente no memorável dia de estréia do Doutor José Francisco o barraco se instalou logo pela manhã. Sheila Arielsa estava furiosa. Edelmiro tentou explicar que “não deu para parar de gravar, porque se parasse, o Dentel iria suspender a emissora”.</p>
<p>&#8211; Porra nenhuma, agitou-se Sheila Arielsa, balançando a cabeleira loura platinada e raízes negras, eu não quero saber de Dentel. Não quero saber de nada. Quero uma indenização porque vocês mostraram a minha bunda na TV sem a minha autorização. Desde que saí de casa só ouço convite pra fazer saliência com os vagabundos me chamando de gostosa.</p>
<p>A unha vermelha descascada pelas atividades domésticas aponta para a palma da mão: “Quero mil real aqui na minha mão. Agora!”, enfatizou.</p>
<p>A molecada e os camelôs do Largo da Matriz divertiam-se com a enrascada de Edelmiro que a custo de muita negociação minimizou o incidente. Perto de quatro da tarde, Sheila Arielsa já quase sem voz de tanto berrar pelos “mil real” baixou o valor da indenização para “cem real”, imediatamente conseguidos juntos a um dos apoiadores culturais da TVéqVoceve (Ótica Vejabem), cujo dono vivia de amores pela celebridade do dia.</p>
<p>Tudo resolvido, só que perceberam a chegada de um carro esquisito, blindado (“segurança pessoal é indispensável”, explicou-se mais tarde o Doutor José Francisco) e de seu interior saiu o doutor José Francisco, já pronto para seu programa inaugural na TVéqVoceve: “O Doutor José Francisco Responde”, título objeto de sérias considerações durante vários dias.</p>
<p>“O Doutor José Francisco explica tudo”&#8230; Não, não serve. Como vou explicar que o Santo Amaro &#8211; Clube de Futebol, ainda não está classificado para a terceira divisão da Federação Paulista de Futebol se ganha poucas, empata muitas e perde a maioria das partidas? Imaginou diversas fórmulas. Pensou, analisou vertentes semânticas, pesquisou na internet&#8230; pensou, pensou até que encontrou o que pretendia: “O Doutor José Francisco Responde”. Sim. Aí está uma nova forma de se apresentar à comunidade do Santo Amaro, angariar mais clientes para seu escritório de advocacia, intermediações e tudo o mais que precisasse de um expert em Leis.</p>
<p>Enterrado nessas preocupações, ele esqueceu o principal: qual o assunto a abordar no primeiro programa? No dia da estréia, o Doutor tremeu. Engoliu em seco, subiu as escadas da emissora e apresentou-se ao homem de cabeça baixa atrás de uma mesa de tampo descorado.</p>
<p>&#8211; Sou o Doutor&#8230;</p>
<p>Um sorriso muito franco e amigo precedeu a exclamação:</p>
<p>&#8211; Zé Chico, meu chapa! saudou-o Edelmiro.</p>
<p>&#8211; Pois é, vou fazer um programa aqui na TV&#8230;</p>
<p>&#8211; Sei. O Salustiano me falou que um adevogado viria hoje pra gravar um esquete de 15 minutos, como teste, só pra saber se o cara tinha mesmo alguma coisa pra falar. Mas não sabia que era você. Em casa tá tudo em ordem?</p>
<p>&#8211; Sim, bem, obrigado, claro, tudo em ordem. Mas é o seguinte Edelmiro, eu tenho tudo planejado mas nunca entrei num estúdio de TV. Não tenho prática nenhuma.</p>
<p>Nunca fora tão aberto com quem quer que seja, desde sua formatura. Mas com Edelmiro foi diferente, quase suplicante: você me ajuda?</p>
<p>&#8211; Mas é claro, Zé&#8230;</p>
<p>&#8211; Edelmiro, outra coisa, não me chame mais de Zé Chico, isso passou, agora sou Doutor José Francisco, mesmo para amigos íntimos como você. Sabe como é?! Zé Chico pega mal. Sou o Zé Chico desde que estejamos só nós dois.</p>
<p>&#8211; Sem crise, Zé. Quer dizer, Doutor José Francisco.</p>
<p>Acordo selado com um abraço e entraram no estúdio A. Na verdade, o quarto ao lado da sala, parede com a cozinha de Dona Eudora. O terno preto e a gravata vermelha sobre o fundo azul brilhavam sob a luz intensa e sobressaiam na tela do monitor. Doutor José Francisco suava em bicas, excitado pela novidade. O colarinho da camisa azul bebê apresentava as primeiras manchas. Quando ouviu o “gravando”, do nada, surgiu o Zé Chico.</p>
<p>&#8211; Porra, Cabeça. Não me assusta desse jeito. Como é que funciona essa porra??</p>
<p>Cabeça era o mirrado moleque companheiro de todas as horas de Zé Chico nas fugas para tomar banho na lagoa, para botar sal no rabo dos bois que ficavam atolados no caminho do matadouro para ouvi-los mugir desesperadamente, dos cigarros fumados escondidos&#8230; Todos pobres, muito pobres, como a maioria das crianças do Santo Amaro, mas riquíssimos em alegrias, travessuras e surras das mães quando bolavam aulas.</p>
<p>&#8211; Calma, Zé. Primeiro você olha fixo pra a lente da câmera e imagina que aqui atrás tem um milhão e meio de pessoas esperando um conselho para melhorar a vida deles. É assim, porra! E não se esquece que nem todos entendem o que um adevogado fala. Usa o popular mas não abusa. Entendeu, porra!?</p>
<p>Piorou. Só de pensar que milhares de olhos poderiam descobrir suas fraquezas e medos, Zé Chico desmoronou. Por uns segundos. “Um milhão e meio de pessoas&#8230; 20%, 300 mil&#8230; Ah! Cacete! Tô eleito vereador pelo Santo Amaro”. Lembrou-se das últimas palavras de Edelmiro: “Usa o popular mas não abusa”.</p>
<p>Pigarreou, ajeitou a gravata e falou:</p>
<p>&#8211; Cabeça, começa a gravar.</p>
<p>“O Doutor José Francisco Responde” foi um sucesso eletrônico midiático imediato. Choveu cartas de difícil leitura e decifração complicada. Sheila Arielsa ganhou três vestidos (Modas Jurema) “não pode repetir roupa, né?” e um contrato de 100 reais por programa. Ganhou, também, um complicado retoque artístico nas raízes escuras, autoria de Genivlado (Geni, para os íntimos), no “Estúdio Coafer Elton Mercury”, uma forma de homenagear seus maiores ícones internacionais. Um intensivo curso de dicção ensinou Sheila Arielsa que em Português não existem as palavras “pograma”, “pobrema” e previlégio.</p>
<p>O Zé Chico emergia especialmente ao usar o termo “registro”. Por mais que ouvisse o “Curso Rápido Destrava Língua”, da renomada fonoaudióloga Glória Betenbauer, o termo denunciava-lhe a origem humilde. Pronunciava com sotaque nordestino, como aprendera ainda criança: “rezistro”.</p>
<p>Dois meses depois da estréia o programa começava a dar sinais de cansaço a seu criador. A audiência era razoável, e a correspondência corriqueira. Nada de emocionante. “O Doutor José Francisco Responde” não funcionava como ele pretendia. Não havia impacto, não havia emoção nas demandas do povão. Ele via seus planos sociopolíticos emperrados por falta de sensação.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> 4 &#8211; Sinfonia eletrododecafônica</strong></p>
<p>Por diversas vezes ele tentou tirar da cabeça de Maria José da Silva o desejo de ser a única a usar esse nome.</p>
<p>&#8211; Podemos pedir uma retificação do seu rezistro (sic) de nascimento, mudando o seu pré-nome Por exemplo, a senhora poderia chamar-se Belmira, Efigênia, Clotilde, Edelvais. Por exemplo, podemos pedir a inclusão do nome do seu pai. Ficaria assim: Maria José da Silva e Silva. Bonito, não ?</p>
<p>&#8211; Quero nada disso, não. Quem é que vai me conhecer por Efigênia Maria da Silva ou Maria José da Silva e Silva? Como é que eu vou tratar da minha estopenia no femu, sem os documentos que sempre entreguei no Posto. Como é que vou receber o Bolsa Família. Com esses nome que ninguém nem sabe que sou eu. Senhor seu dotor adevogado, eu quero ser eu mesmo. Só eu no mundo.</p>
<p>&#8211; Mas&#8230; Mas&#8230;</p>
<p>&#8211; Não tem mais mais, eu quero ser eu mesma. Só eu no mundo.</p>
<p>Foi num churrasco de fim de semana que o Doutor José Francisco teve um estalo. “Vou levar o caso de Maria José da Silva para a televisão”.</p>
<p>Naquela quinta-feira o Doutor José Francisco empostou a voz, esquecendo-se completamente do conselho do Cabeça: “vai no popular”.</p>
<p>&#8211; Amigos do Santo Amaro, trago hoje a vocês um caso que está repercutindo intensa e vivamente nos corredores do Fórum Distrital do Santo Amaro onde, vocês sabem, ganho o meu pão de cada dia. A partir de hoje, não só as elites, mas o povo sofrido do Santo Amaro vai conhecer de um dos casos mais escabrosos; um dos casos que inflingiu (sic) sofrimentos a uma mulher pobre; um dos casos que, com certeza absoluta vai envolver emocionalmente e causar revolta a todos os nossos espectadores.</p>
<p>Edelmiro não entendia nada, tantas eram as novidades. O rosto grave do Zé Chico adequava-se à voz e se tornava mais circunspecto. Ao fundo ouvia-se a sinfonia eletrododecafônica, ainda sem título definitivo, especialmente criada no dia anterior pelo self-made-man DJ Patureba, virtuose compositor eletroeletrônico, também amigo de infância de Cabeça e Zé Chico.</p>
<p>&#8211; Trata-se da ação civil que dona Maria José da Silva, dona de casa – não lhe declaro a idade por elegância – solicita por nosso modesto intermédio a proibição do uso do nome próprio Maria José da Silva por qualquer outra pessoa em todo o território nacional até que lhe sobrevenha seu último suspiro e entregue sua imaculada alma a Nosso Senhor Jesus Cristo (persignou-se).</p>
<p>&#8211; Meus amigos, a simplicidade do próprio aposto por sua genitora – que Deus a tenha (olhando para o alto do estúdio) – desvenda o caráter daquela mulher que, ao se ver prenhe e abandonada por um vagabundo galanteador de nome José da Silva, passou a viver exclusivamente para a alimentação e a educação de sua ainda não-nata (sic) filha.</p>
<p>&#8211; Prezadíssimos amigos, a ação judicial que Maria José da Silva impetra, por nosso modesto intermédio, tem o escopo – (pigarro) desculpem-me – tem o objetivo de encerrar de forma definitiva os momentos de tormento vividos por dona Maria José da Silva. Ela passou a vida obrigada a se justificar, ao lado de tantas e tantas outras Maria José da Silva, quando seu nome era chamado. Nenhuma vez em que esteve a procura de serviços públicos foi atendida na primeira chamada, pois sempre havia uma ou mais Maria José da Silva. Dificilmente aparecia um item que a diferenciasse das demais Maria José da Silva. Seu “rezistro”(sic) apontava com pai “Desconhecido”, porque Maria da Silva, sua “abenegada”(sic) mãe, não sabia nada do safado que a emprenhou na juventude. Houve ocasião que encontrou outra Maria José da Silva nascida no mesmo dia, na mesma Casa da Mãe Solteira, também filha de pai desconhecido.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> 5 &#8211; Como sobe, desce</strong></p>
<p>A sinfonia eletrododecafônica do DJ Patureba aguçou o instinto comercial de Salustiano Ferreira. Começou a estudar a ampliação de seus horizontes comerciais para além do Santo Amaro, já que “O Doutor José Francisco Responde” elevou diversas vezes so índices de audiência da emissora. Sua sensibilidade lhe dizia que em pouco tempo estaria rico com tanto anunciante na porta da emissora. Um dia ele foi fazer sua pesquisa de audiência e percebeu que a emissora bombava na periferia do Santo Amaro no horário das 17 horas, superando o J L da Trena, os bispos da Universanteve e até mesmo a novelinha Molecação, da poderosa emissora Azul.</p>
<p>O que não estava previsto, tanto nos planos de Maria José da Silva e do Doutor José Francisco, era a reação das espectadoras que viviam no Santo Amaro: as demais Maria José da Silva. Os protestos começaram já no final do primeiro programa. Tímidos no início, mas com o tempo foram se tornando mais intensos, até que cerca de 50 mulheres e crianças passaram a fazer vigília na porta da emissora às quintas-feiras.</p>
<p>No primeiro dia Edelmiro atendeu as quatro mulheres que foram falar sobre o programa. No entanto, a ficha só caiu quando ouviu a reclamação de que todas as mulheres deveriam mudar de nome para beneficiar uma única pessoa no País.</p>
<p>- Cacete! O Zé Chico se meteu numa confusão sem tamanho.</p>
<p>Sim, uma confusão sem tamanho porque, enquanto a matéria se ateve às dependências do Fórum Distrital do Santo Amaro, o absurdo patrocinado pelo Doutor José Francisco na televisão já fazia vítimas. Sheila Arielsa passou a ser apontada nas ruas pelas Maria José da Silva: “Essa daí é a bisca que trabalha na televisão do Salustiano.” Mulher de pouca paciência Sheila Arielsa, retrucava com sonoros e conhecidos palavrões acompanhados de gestos obscenos. Ela reclamou com Edelmiro, com Salustiano e encontrou coragem para falar ao Doutor.</p>
<p>&#8211; Olhaqui, doutor, se a coisa continuar pesada do jeito que está, eu tô fora.</p>
<p>Nem a chuva forte que caia fez com que um grupo de Maria José da Silva tentasse falar com o Doutor José Francisco. Ao chegar perto, Zé Chico emergiu:</p>
<p>&#8211; Não me encham o saco suas mal amadas. Sheila Arielsa, se você quiser ir embora, vai. Se quiser ficar, fica. Mas não me encha o saco, você também.</p>
<p>A baderna corria na porta da emissora. Zé Chico foi para o estúdio, sentou-se na poltrona (Móveis Salim) lembrando-se da besteira quando aceitou patrocinar Maria José da Silva. Zé Chico e o Doutor José Francisco tinham o olho maior que a órbita e ambos sucumbiram. Cruzou a pernas e começou a criar estratégias para se livrar do abacaxi.</p>
<p>1 Podia abandonar a ação, deixando caducar prazos e o julgamento à revelia eliminaria a possibilidade de Sua Excelência dar-lhe ganho de causa.</p>
<p>2 Pediria a um dos antigos amigos de molecagens para desaparecer com Maria José da Silva por uns bons 20 dias.</p>
<p>3 – Imaginou-se numa praia do Nordeste, torrando ao sol enquanto Maria José da Silva também torrava, mas o saco do juiz.</p>
<p>Estes pensamentos passaram ao limbo quando um oficial de justiça socou a porta do escritório do Doutor José Francisco. Ele levantou a cabeça. “Entra Giba. O que foi desta vez?”.</p>
<p>&#8211; Nada, Zé Chico, só vim avisar que a ação da Maria José da Silva foi arquivada. Acho bom você nem ler os argumentos do Juiz, depois que passaram para ele um vídeo com o seu programa na TVéqVoceve. Para resumir, ele achou que você era de uma estupidez imensurável. Um imbecil que extrapolou o bom-senso. E finalizou: é uma besta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>(1) Osteopenia no fêmur.</em></p>
<p><em>(*) José Guido Fré é jornalista.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 60</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Oct 2011 18:46:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Réquiem para todas as ausências. . O último homem está caído ao chão. É sua última queda. A custo encostou-se a uma pedra. Seu corpo dói. O respirar é aflito. Olha as pernas e os pés mas vê apenas ossos e uma pele suja. Há hematomas, arranhões, unhas partidas, sangue preto colado ao seu corpo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Réquiem para todas as ausências.</p>
<p>.<span id="more-5481"></span></p>
<p>O último homem está caído ao chão. É sua última queda. A custo encostou-se a uma pedra. Seu corpo dói. O respirar é aflito. Olha as pernas e os pés mas vê apenas ossos e uma pele suja. Há hematomas, arranhões, unhas partidas, sangue preto colado ao seu corpo. Suas mãos são mãos de um esqueleto. As pontas dos dedos feridas e sanguinolentas.</p>
<p>O último homem caiu. Não se lembra do que aconteceu. Guerra? Cataclismo? Doença? Não sabe nada. Por dentro da sua cabeça há apenas um ruído assustador, contínuo e surdo. Olha e não compreende. Perambulou errante, aos tropeções, mas a cada momento o tempo se dilatava mais. Perdeu o rumo, perdeu o norte, perdeu o sentido de existir.</p>
<p>Sente fome mas só tem os dedos para comer. O sangue tem um bom paladar mas há dor.</p>
<p>Sente sede mas não consegue se lembrar do que é água.</p>
<p>Olha à frente e não percebe o que vê. Há uma natureza que não tem significado. Cores não mais existem, apenas tons de cinza e muita escuridão espalhada sobre as coisas.</p>
<p>O coração está dentro da cabeça. Explosões tremendas que fazem balançar seu corpo. Tudo é dor. Fome e sede e dor. Mas já não tem capacidade para perceber o que está acontecendo. Contrai-se por inteiro. É apenas um moribundo animal encolhido.</p>
<p>O último homem está no limiar do fim.</p>
<p>Fecha os olhos e vai deixando cair a cabeça. O sono da morte. O silêncio vai tomando conta de suas veias. O rumor surdo vai se apagando. E as pancadas do coração vão indo para longe&#8230; para longe&#8230;</p>
<p>O último homem, que não sabe por que morre nem por que é o último, abre os olhos pela última vez.</p>
<p>E seu coração silencia.</p>
<p>.</p>
<p>Wedo, a deusa do arco-íris dança iluminada à sua frente. Ele não se move. As cores tremulam e faíscam esplendorosas. Todo o ambiente se enche de deslumbramento. Mas o homem nada vê.</p>
<p>Ah Puch se aproxima dele. Tem a cabeça descarnada, uma caveira terrível, e ao seu lado sibilam e estalam apavorantes cascavéis. Executa uma dança macabra ao som dos implacáveis chocalhos. O homem não se move, seus olhos esbugalhados não vêem e seu coração não teme.</p>
<p>Ah Puch se afasta assustado porque quem surge ali, agora, é Nocuma. Nocuma, o que criou o céu e a terra. E fez do barro a Ejoni, o primeiro homem, e Aë, a primeira mulher. Nocuma olha entristecido o último homem. Aproxima-se. Curva-se. Toma-lhe o pulso. Ossos e pele sem palpitação. Não pode fazer nada. Nocuma chora.</p>
<p>E surge Li N’Gwa Se N’Gwe, a mãe de todos! Balança suas mamas colossais e dança ao redor do último homem. Mas está morto o último homem e, se os deuses ainda não o sabiam, a morte não oferece retorno.</p>
<p>Mas que bando peregrino é esse que se aproxima? De todos os lados figuras assombrosas, gigantescas, umas, transparentes, outras, em torno do homem morto, do último homem que acabou de morrer! Vão se reunindo as criaturas, e tudo chameja, reflexos exuberantes de todas as cores, a aurora boreal, o resplendor absoluto.</p>
<p>Teshub e sua esposa Hebat!</p>
<p>Lug, o deus soberano mágico e Kumarbi, o pai de todos e Anu, o grande!</p>
<p>Perun, o raio, e Manitô, o supremo mundo natural!</p>
<p>T’ien, Ti-e, Tsu Tsung, jade, sedas de mil cores, rostos da porcelana mais pura!</p>
<p>Tezcatlipoca, Quetzalcoátl e Tláloc, imensos, tremeluzir de todos os brilhos! e prata! e turquesa! e obsidiana! Huitzilopochtli, o feiticeiro deus colibri e Xochipilli, o príncipe dos lírios, plumas e ouro!</p>
<p>E os guerreiros gigantes Tor, Loki, Odin, Lug, escudos, espadas, lanças e martelos! e Freia!</p>
<p>E em torno do cadáver começam já a ecoar os primeiros lamentos de dor.</p>
<p>Resheph e Anat e Horon e Baal e El!</p>
<p>Lamentos já gemidos.</p>
<p>Sin, Shamash, Assur, Marduc, Enlil, Adad e Ishtar!</p>
<p>Gemidos já desesperados.</p>
<p>Tangaroa, Tane, Tu, Hina, Pele, Rongo!</p>
<p>A dança funeral, o grande círculo macabro, a procissão funérea.</p>
<p>Oxalá, Xangô, Oxóssi, Iemanjá, Olarum, quantos são? Metais e máscaras, anéis e cetros, brilhos de miçangas e espelhos! E coroas e cajados!</p>
<p>Uivos e clamores.</p>
<p>E que multidão é essa? Cabeças de elefante, quatro braços! Reluzir de diamantes, safiras e rubis! Vishnu, Prajapati, Purusha, Kali, Ganesha, Varuna, Indra, quantos são?, eles se transformam, um é muitos, muitos são um, entoam um lamento interminável, um agonizante murmúrio de desespero.</p>
<p>E num barulhento cortejo avançam agora estes seres multicoloridos, alguns com cabeça de animal: Hator, Osíris, Ísis, Nut, Anúbis, então estávamos enganados? Então a morte é para sempre?</p>
<p>E essas etéreas figuras de maravilha? Todos muito róseos e louros e quase todos seminus e seus véus são levíssimos e seus passos não tocam o chão e Zeus e Hera e Atena e Afrodite e Apolo e há outros! E são tantos! E que vieram fazer aqui? Vieram presenciar a morte? Deuses gregos não podem! Vieram assistir à derradeira queda de Prometeu? Contemplem o espetáculo!</p>
<p>Pasmo.</p>
<p>E sofrimento!</p>
<p>E diante da incalculável multidão de cores e formas, eis que se corporificam as três grandes entidades dos monoteísmos: Jeová, Jesus e Alá.</p>
<p>E se misturam e se perdem e já são todos apenas criaturas de todas as cores e todos os brilhos que se organizam num gigantesco funeral.</p>
<p>E, de repente, assustadoras, mas eles mesmas espantadas, vão surgindo fantásticas criaturas, misturas do delírio total!, híbridos da alucinação!, gigantes com asas, dragões, cavalos não cavalos, serpentes já divindades, pedaços de deuses e pedaços de pesadelo, o horror da colagem desesperada, esporos saltados dos cérebros doentes e infantilizados, os filhos do susto, os netos do arrepio, os herdeiros do medo, os monstros de todas as lendas e os deuses não se inquietam porque já se acostumaram a estas ramificações da fantasia tresloucada e porque sabem eles mesmos, os deuses de todos os tempos, que também eles têm a mesma perdida origem, a célula primordial, brotada por geração espontânea no coração ignorante e aterrorizado do primeiro homem.</p>
<p>Ninguém ousou tocar o cadáver.</p>
<p>Todos sabiam que ele pertencia a Tellus Mater, Gaia, Papa, Luminuut, Oduna, Tamaiovit, Asaseya, Okwapin, Mokos.</p>
<p>A Terra.</p>
<p>Os deuses todos, mais do que todos os homens, sabem agora que só se morre uma vez. E que a morte é a única divindade que prevalece.</p>
<p>Alá, Jeová e Jesus se dão as mãos e marcham. Harmonizam-se e entram de acordo. Mas percebem que agora é tarde demais. Que isto de nada mais adianta. E percebem também que acabam por fundir-se numa só criatura desesperada.</p>
<p>Todos vêm e vão em filas, todos os deuses de todos os tempos, e querem chorar esta morte de corpo presente.</p>
<p>E entre olhares desolados e entendimentos silenciosos todos os deuses de todos os tempos resolvem, para aplacar a dor da perda irremediável, decidem que vão entoar um canto fúnebre, um hino à morte, um réquiem, um peã, um lamento gigantesco e extraordinário que traga a consolação ao inconsolável; algo mais que o canto de Ngofio-Ngofio, o pássaro da morte. E resolvem que junto às vozes soarão os prodigiosos sons dos instrumentos feitos pelo homem. E seja essa liturgia do despedir e da saudade a última manifestação de todos os deuses de todos os tempos.</p>
<p>Mas nada é ouvido, além de um gemido estrangulado nas gargantas divinas. Nenhum som se transforma em melodia. É que os deuses, sem a participação humana, não são capazes de criar música.</p>
<p>Choram os olhos de todos os deuses. E a procissão forma um grande círculo que começa a flutuar em torno do planeta azul. Plumas vão caindo! Diamantes se vão perdendo! Vestes suntuosas flutuam, anéis gravitam e mudam de órbita, coroas descoroam e tombam. Véus de uns passam a cobrir outros. Lanças que flutuam lentas mudam de mãos e são abandonadas e viram cor e luz e se integram ao grande círculo.</p>
<p>Entretanto, os rostos já não são tão belos.</p>
<p>Porém, por fidelidade ao homem, eles continuam a flutuar, misturando-se entre si. Matizes mil, a policromia e o brilho, sóis espalhados entre sedas e jóias, todas as cores e todas as estrelas e todos os luzeiros cambiantes, a poeira iluminada, a Via láctea, não láctea, mas iridescente, já não há rostos, já não há formas, mas ainda há fulguração e resplendor.</p>
<p>O grande círculo paira em torno do planeta azul.</p>
<p>Visto de longe, o planeta ganhou um anel. como os de Saturno.</p>
<p>Já não sabem chorar os deuses todos de todos os tempos. Já não sabem quem são. São nuvens sem cor, sopro e luz. São poeira em um colossal anel, agora monocromático, que gravita em torno de um perdido planeta azul.</p>
<p>Quanto tempo durou aquele anel silencioso?, formado por uma estupenda fosforescência espectral! Dez anos? Cem anos? Mil anos?</p>
<p>O tempo está parado.</p>
<p>Não existe tempo, quando não há mais esperança.</p>
<p><strong>Campo Largo, 24 de setembro de 2003.</strong></p>
<p><strong></strong></p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, foi publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/">Para ler o capítulo anterior.</a></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 59</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 03:19:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[entramos. quer subir pra dormir? quero dormir ali, onde estava o vovô. deito-o e o cubro. um beijo na testa. já é outro ano, filho. témanhã, pai. está tudo bem? sim. pelo menos eu conheci o vovô. mas parece que alguma coisa dói dentro de mim. outro beijo. venha pro meu colo, digo, sentando-me. ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>entramos.</p>
<p>quer subir pra dormir?<span id="more-5456"></span></p>
<p>quero dormir ali, onde estava o vovô.</p>
<p>deito-o e o cubro. um beijo na testa.</p>
<p>já é outro ano, filho.</p>
<p>témanhã, pai.</p>
<p>está tudo bem?</p>
<p>sim. pelo menos eu conheci o vovô. mas parece que alguma coisa dói dentro de mim.</p>
<p>outro beijo.</p>
<p>venha pro meu colo, digo, sentando-me. ele se aconchega e eu canto, baixinho, sem violão, a canção que compus um dia para ninar toda gente:</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, mãe,</p>
<p>dorme no meu braço;</p>
<p>dorme que eu velo</p>
<p>pelo teu cansaço.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, pai,</p>
<p>dorme em minha mão;</p>
<p>dorme que eu vigio</p>
<p>tua aflição.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, amigo,</p>
<p>dorme em meu calor;</p>
<p>dorme que eu mitigo</p>
<p>um pouco tua dor.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, companheira,</p>
<p>em minha constância;</p>
<p>dorme que eu corrijo</p>
<p>a nossa distância.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, filho,</p>
<p>no meu coração;</p>
<p>dorme que eu te quero</p>
<p>mais que filho, irmão.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, ausente,</p>
<p>em qualquer cidade;</p>
<p>dorme que eu te acordo</p>
<p>com minha saudade.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, meu amor,</p>
<p>no meu abandono,</p>
<p>dorme e me carrega</p>
<p>dentro do teu sono.</p>
<p>.</p>
<p>quando sinto que ele dorme, ajeito-o sobre as almofadas, cubro-o e me levanto. acendo o lampião. o saco de viagem de meu pai está sobre a mesa. parece vazio. quando o pego, olhando distraído para o espelho, percebo que o morceguinho desceu novamente até o presépio.</p>
<p>a vida adorando o mito!</p>
<p>e as vozes maravilhosas de Monteverdi esbanjando estrelas sonoras no seu Magnificat&#8230;</p>
<p>enfio a mão no saco de viagem e tiro um pequeno bloco de papel.</p>
<p>o morceguinho começou a voar pela sala. coloco o lampião perto das almofadas, sobre uma banqueta. ajeito-me e me cubro, encostando-me aos pés do menino. o morceguinho vai e volta em seus vôos de linhas quebradas. curvo-me e, sem me levantar, abro a porta. ele ainda vem e vai mas num repente se dirige à porta e desaparece.</p>
<p>adeus, criaturinha da vida.</p>
<p>não o reverei jamais.</p>
<p>começo a leitura.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-58/">Para ler o capítulo anterior.</a></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em>Continua na semana que vem.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 58</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-58/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Sep 2011 18:05:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[meu pai abotoa seu enorme casaco preto. pai, vou acordar o menino. não! ele vai ficar muito triste. ele resolve se acorda ou não. vamos. os nossos cães se levantaram. rodearam meu pai, rabos balançando. adeus!, Luluva. adeus!, Aklia. Ishtar, adeus! adeus!, Lilith. adeus! meninão, Caim! criaturinhas da vida&#8230; adeus! minhas crianças&#8230; meus olhos se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>meu pai abotoa seu enorme casaco preto.</p>
<p>pai, vou acordar o menino.</p>
<p>não!<span id="more-5434"></span></p>
<p>ele vai ficar muito triste.</p>
<p>ele resolve se acorda ou não. vamos.</p>
<p>os nossos cães se levantaram. rodearam meu pai, rabos balançando.</p>
<p>adeus!, Luluva. adeus!, Aklia. Ishtar, adeus! adeus!, Lilith. adeus! meninão, Caim! criaturinhas da vida&#8230; adeus! minhas crianças&#8230;</p>
<p>meus olhos se encheram de lágrimas.</p>
<p>vamos, filho. vamos até o portão.</p>
<p>meu pai abriu o portão, passou para o outro lado e o fechou.</p>
<p>vou junto até a rua, pai.</p>
<p>não, filho. fique do lado de dentro.</p>
<p>rituais da estética?, pai!, perguntei, já chorando.</p>
<p>não chore, não chore. adeus.</p>
<p>meu pai pegou-me nos ombros e olhou-me fixamente. então ouvimos um grito desesperado:</p>
<p>vovô!</p>
<p>viu?, filho. teu filho quis acordar.</p>
<p>o menino veio correndo sobre o gramado, descalço. levantei-o e ele passou sobre o portão para o colo de meu pai.</p>
<p>vovô, eu também quero dar um abraço!</p>
<p>e apertou meu pai num abraço comovido.</p>
<p>um longo silêncio.</p>
<p>pra onde você vai?, vovô!</p>
<p>meu pai olhou-o e sorriu. o menino olhou pra mim, interrogativo. olhei-o sério, não sabia o que dizer.</p>
<p>vovô, você já morreu?</p>
<p>já.</p>
<p>então você é um fantasma?</p>
<p>não! se eu fosse fantasma eu era luz e sopro, não podia ter você no colo.</p>
<p>comecei a chorar novamente.</p>
<p>então, o quê que você é?</p>
<p>veja! sou uma criatura, a quem teu pai pediu que viesse pra participar de um livro. por isso eu sou de carne e osso, viu?</p>
<p>e balançou meu filho no alto.</p>
<p>veja, eu aguento você e você já está ficando pesado.</p>
<p>o menino virou-se pra mim.</p>
<p>e eu?, pai! eu já morri?</p>
<p>não!, filho. não! venha no meu colo.</p>
<p>e ele passou pro meu colo. beijei-o e misturei um sorriso ao meu choro convulsionado.</p>
<p>não, claro que não!</p>
<p>e tendo entre eu e meu pai o portão de madeira, pela última vez, três abraços num só abraço.</p>
<p>adeus, crianças, adeus!</p>
<p>meu pai ia indo, dois passos.</p>
<p>pai! eu gritei. ele se voltou.</p>
<p>o seu saco de viagem! esqueceu!</p>
<p>ele sorriu:</p>
<p>não o esqueci, filho. não o esqueci. adeus, crianças.</p>
<p>e para o menino:</p>
<p>vou por cima ou por baixo?</p>
<p>em cima tem a capelinha. em baixo tem a ponte.</p>
<p>meu pai sorriu: nada de capelinha. vou pela ponte. jogou-nos um beijo de dedo.</p>
<p>meu coração queria explodir. como prolongar isto? inda que por um segundo! pai! pai! uma última palavra.</p>
<p>filho! por quê? uma última palavra&#8230; por quê? uma última palavra&#8230;</p>
<p>e, após um curto silêncio:</p>
<p>ai de vocês!, os vivos.</p>
<p>virou-se rápido e foi-se e antes que chegasse à rua, desapareceu por completo.</p>
<p>pai, o vovô não passou pela rua.</p>
<p>passou, filho. deve ser a neblina.</p>
<p>pai, não tem neblina.</p>
<p>tem sim, filho. tem neblina dentro das nossas almas.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-57/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A Espécie Humana. Capítulo 57</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-57/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-57/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 18 Sep 2011 17:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[ela vem voando, os véus brancos flutuam em câmara lenta. a foice! a foice! não me lembrava dessa foice imensa! mas&#8230; antes estava sem a foice! e ela voa sobre os campos de cereais e vai baixando a foice e seus véus agora estremecem aflitos. e os cereais, trigo?, arroz?, sorgo?, milho? são dourados e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>ela vem voando, os véus brancos flutuam em câmara lenta. a foice! a foice! não me lembrava dessa foice imensa! mas&#8230; antes estava sem a foice!<span id="more-5393"></span></p>
<p>e ela voa sobre os campos de cereais e vai baixando a foice e seus véus agora estremecem aflitos. e os cereais, trigo?, arroz?, sorgo?, milho? são dourados e brilhantes, os cereais refulgem contra o azul quase roxo! e ela os ceifa, então é mesmo a grande ceifeira! ela os ceifa em quantidade mas ao contrário de cair no chão, os grãos flutuam e se espalham e eu os vejo voar para mais longe e descer num maravilhoso campo de terra marrom, Tellus Mater, e eis que miraculosamente daqueles grãos brotam&#8230; pessoas!</p>
<p>uma espécie de alegria me inunda a alma, há uma música dentro de mim, mas ela começa a ficar insuportavelmente bela e essa tremenda comoção me acorda.</p>
<p>meu pai está de pé, acabou de ligar a última fita e a música que eu estava ouvindo no sonho já era Monteverdi.</p>
<p>você estava sonhando!</p>
<p>pai, ela ceifa mas os grãos ceifados são as novas fontes de vida!</p>
<p>meu pai apenas sorriu. e:</p>
<p>está na hora.</p>
<p>não vai ouvir Monteverdi até o fim?</p>
<p>eu o tenho todo na alma. quero sair antes do sol nascer.</p>
<p>isto faz diferença pra você?</p>
<p>não. é apenas um ritual. um ritual de estética.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/">Para ler o capítulo anterior.</a></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-58/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 56</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 19:01:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[abro os olhos e vejo que meu pai tem papéis na mão. meus papéis! não tenho coragem para falar. sei que estou sonhando. e ele: estou me divertindo com isto. não espere longos comentários, claro! apenas que: primeiro, esse tipo de poema inicial, sobre a verdade. substitua a palavra verdade pela palavra mentira e tudo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>abro os olhos e vejo que meu pai tem papéis na mão. meus papéis! não tenho coragem para falar. sei que estou sonhando. e ele:<span id="more-5337"></span></p>
<p>estou me divertindo com isto. não espere longos comentários, claro! apenas que:</p>
<p>primeiro, esse tipo de poema inicial, sobre a verdade. substitua a palavra verdade pela palavra mentira e tudo continuará aterradoramente lúcido.</p>
<p>segundo, isto sobre a estética do masoquismo dos intelectuais. bastava dizer o que eles pensam: acho isto feio mas digo que é bonito pra não dizerem que sou burro.</p>
<p>terceiro, por que, em vez de mostrar a loucura de uma cidade drogada, você não mostrou a evolução da loucura em um cérebro individual? pensei nisso, mas não consegui. por que Londres? eu adoro Londres, você sabe disso. hm! um tipo de mortificação&#8230;</p>
<p>último, isto sobre capitalismo e socialismo. bastava dizer que capitalismo está para socialismo assim como politeísmo está para monoteísmo e ponto final. vamos esquecer nomes como Marx, Hegel e Engels e pensar nos resultados de uma pequena cooperativa, célula-mater. se ela distribui corretamente bens e justiça, que é toda a base para a felicidade humana, o socialismo é possível e quem defende o contrário é burro ou safado mas é muito provável que seja burro e safado.</p>
<p>.</p>
<p>ad te omnis caro veniet&#8230;</p>
<blockquote><p> <em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-55/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-57/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A Espécie Humana. Capítulo 55</title>
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		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-55/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 03 Sep 2011 23:39:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[liguei a fita de Gounod. e sentei-me, colocando sobre as pernas um travesseiro onde deitei a cabeça de meu filho. . Ego sum&#8230; . pai, grandes obras foram dedicadas à religião. os maiores músicos acabaram por criar obras-primas em torno da liturgia. e, ao final, o catolicismo ficou com um patrimônio artístico dos mais espetaculares. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>liguei a fita de Gounod. e sentei-me, colocando sobre as pernas um travesseiro onde deitei a cabeça de meu filho.</p>
<p>.</p>
<p>Ego sum&#8230;<span id="more-5295"></span></p>
<p>.</p>
<p>pai, grandes obras foram dedicadas à religião. os maiores músicos acabaram por criar obras-primas em torno da liturgia. e, ao final, o catolicismo ficou com um patrimônio artístico dos mais espetaculares.</p>
<p>isto não tem nada a ver com Deus mas com o Poder e com a criatividade do ser humano. o Poder compra, sustenta e garante a manutenção da arte. o homem cria obras-primas porque é capaz de criá-las. se não tivesse um pretexto, inventaria.</p>
<p>ouça esta música, filho. os instrumentos têm sons prodigiosos. as melodias são dilacerantes. acordes e polifonias, parece que isto já existia, o autor apenas tirou-lhe a névoa que a escondia. e essas vozes! criaturas privilegiadas que transformam suas gargantas no instrumento mais esplendoroso de todos.</p>
<p>pouca gente gosta disso.</p>
<p>Kamalas. novamente a imagem da criança que não tem oportunidade pra aprender. já te falei da estética da nostalgia?</p>
<p>não.</p>
<p>é assim. numa determinada época, identificamo-nos com determinada obra. fiquemos com a música. uma canção infantil, quando criança. uma canção de amor, quando apaixonado. uma novela repete a mesma música durante meses, é claro que após um tempo todos estão gostando dela. então, o que sucede? esta obra vira para nós uma coisa bela. nem sempre é bela. mas como vem sempre carregada de uma carga de nostalgia, ah!, essa música! acaba por ferir forte as cordas da nossa emoção.</p>
<p>o que quero dizer, então, é que existe uma valoração da obra de arte que considera, não a beleza em si, mas a emoção que ela provoca. pessoas vão a um concerto: o Messias, de Haendel. bocejos e tédio. não de todos, claro! então irrompe o Aleluia, oh!, os corações todos estremecem. Kamala não aprendeu a diferença entre o que é belo e o que comove.</p>
<p>.</p>
<p>coelum novum et nova terra&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>não está cansado?</p>
<p>hoje não tenho esse direito.</p>
<p>você esteve espantoso, pai. a dança dos ditirambos&#8230; falou tudo que eu queria ouvir. mas eu acabo me tornando mais pessimista do que já sou.</p>
<p>e se amanhã de manhã você passear com o menino e encontrar a mais linda borboleta azul, vai esquecer o pessimismo e se encher de esperança. como vai o livro?</p>
<p>estou terminando. estou apavorado!</p>
<p>apavorado! é a sua cabeça!</p>
<p>deixa eu aproveitar e perguntar: por que você foi tão severo?, quando Kamala morreu.</p>
<p>isso de deixar que os mortos cuidem dos mortos, só no evangelho. pra um vivo já não é fácil!</p>
<p>.</p>
<p>te decet hymnus&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>estas coisas de Deus e religiões não me incomodam tanto, pai. mas as coisas do homem e seu sofrimento, é tão difícil! mesmo porque não tenho certeza se entendo. há sofrimentos inevitáveis, mas tanta coisa podia ser mudada!</p>
<p>suba e me traga a História da Civilização Ocidental, de Burns. quero te mostrar uma coisa.</p>
<p>o que fiz. meu pai folheou o livro, me indicou e eu li:</p>
<p>A democracia econômica, conforme sua definição geral, traz a noção de que todos tenham oportunidades iguais para atingir sua capacidade potencial. Nada tem a ver com aquele conceito liberal de igualdade perante a lei, debochado por Anatole France quando dizia que rico e pobre têm o mesmo direito de dormir debaixo da ponte e mendigar o pão. Democracia econômica significa que crianças não devem trabalhar em fábricas, sendo exploradas por empregadores egoístas; velhos não devem ser atirados aos montes de lixo humano depois que máquinas desumanas esgotaram suas energias; finalmente, não são os operários quem deve arcar com todo o peso do risco industrial, do desemprego e da doença.</p>
<p>isto foi publicado em 1941. havia então uma guerra. mas este conceito só funciona para o primeiro mundo. talvez, nem lá.</p>
<p>este mesmo livro, pai, fala que a morte de Schubert, de fome e doença, foi uma nódoa sobre o século dezenove.</p>
<p>sim. mais um crime perpetrado pela humanidade.</p>
<p>e eles, os americanos, mesmo com este livro, não aprenderam?</p>
<p>aprende quem pode.</p>
<p>.</p>
<p>tuba mirum spargens sonum&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>coloco a História da Civilização na mesa, sobre outro livro, e percebo que o outro livro é o volume com as aventuras de Nils Holgersson. minha lista de 10 livros só tem oito. quero que a partir de agora Nils Holgersson faça parte da lista. principalmente nos dias de hoje, em que os animais são tratados com tanta crueldade. fica ainda uma vaga&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>pai, você disse que a quantidade de processos judiciais poderia ser um fator pra se determinar sobre o atraso ou o progresso de um país&#8230;</p>
<p>digamos, sobre a civilidade e a incivilidade de sua população, isto é, sua capacidade de convivência.</p>
<p>este critério não é considerado?</p>
<p>não sei. mas agora, na calma da noite e no meio de nossos chazinhos, eu penso em algo mais terrível. o livro que eles tanto louvam, diz: bem aventurados os que têm fome e sede de justiça. e, na terra, qual é o prazo pra que essa fome e essa sede de justiça sejam saciadas? quantos dias?, quantos meses?, quantos anos?, a justiça tem o direito de ficar rolando pra cá e pra lá nas pastas da magna caterva, aumentando o número de páginas, alimentando com honorários, mas não a aqueles que precisam e esperam ser saciados, quantos?, quantos anos? então dá pra dizer que o país mais triste seria aquele em que, em média, os processos demoram mais tempo. talvez, um programa chamado fome e sede de justiça-zero?</p>
<p>.</p>
<p>Judex ergo cum sedebit&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>trago mais chá. pai, a religião já esteve mais ligada ao Poder. parece que hoje&#8230;</p>
<p>alguns países ainda são vinculados à religião. mas, de fato, o dinheiro hoje está concentrado nas mãos, não de um país, mas de grupos de poucas pessoas. quem são? onde se escondem? manipulam governos, manipulam jornais&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>rex tremendae majestatis&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>mas e os americanos?</p>
<p>quer saber minha opinião? os americanos funcionam hoje como uma guarda pretoriana. talvez eles mesmos não saibam a quem defendam, já que estão preocupados apenas com o soldo que lhes mantém o estilo de vida.</p>
<p>estou com um pouco de sono. mas então este presidente que passa por cima de resoluções da ONU&#8230;</p>
<p>não passa de um metido chefe da guarda pretoriana.</p>
<p>.</p>
<p>ne me perdas illa die&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e por que a droga?</p>
<p>veja. hoje tomamos licor. riso. quer dizer, você tomou um traguinho e eu engoli o resto. todas as culturas, ou quase todas, usa este tipo de escape num momento sagrado em que tentam entrar em contato com a divindade. mas durante o resto do ano há trabalho e prudência, como se fosse um controle a favor da sobriedade.</p>
<p>a nossa civilização perdeu o controle. diga-se porém que os nobres de todos os tempos, quase sem exceção, nunca exerceram este controle sobre si mesmos. a nossa civilização quer escapar durante o ano todo. por quê?</p>
<p>por que os jovens do mundo se drogam? por que os jovens de alguns países se drogam mais do que os de outros?</p>
<p>qual é a mais importante característica de um usuário de droga? eu diria que é a adolescência prolongada. o usuário de droga, como o adolescente, precisa ser mantido pela família. não trabalha e vira um tipo de piolho. e o usuário de droga, como o adolescente, vive no mundo da fantasia, os últimos momentos da fantasia infantil.</p>
<p>a pergunta fica sendo: por que o drogado resolve viver nesse estado de eterna adolescência? talvez ele apenas se recuse a aceitar o mundo à sua volta. um mundo que se diz adulto mas não passa de uma projeção de um tipo de inferno da civilização.</p>
<p>.</p>
<p>lacrymosa dies illa&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>fecho os olhos e tento me concentrar na música. estou cansado mas uma inquietação nervosa aninhou-se no meu cérebro.</p>
<p>quer dormir?</p>
<p>não.</p>
<p>vou dizer só mais uma coisa. se esse país que acumulou armamentos capazes de destruir o planeta diversas vezes para agora se pavonear feito um garotão inseguro e neurótico, e por isso mesmo muito agressivo e perigoso, se esse país tivesse investido todo o seu dinheiro em educação, filósofos e psicólogos nas salas de aula, filósofos e psicólogos, ah!, esse país seria o esplendor! a Nova Jerusalém na terra! o esplendor!</p>
<p>.</p>
<p>quam olim Abrahae promisisti&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>mas não passam de um Fomá Fomitch.</p>
<p>como?, pai.</p>
<p>eles, os americanos, são o Fomá Fomitch da nossa época.</p>
<p>dei uma gargalhada. estivemos calados um tempo.</p>
<p>.</p>
<p>et lux perpetua luceat eis&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>os cães estão tão quietos, pai. fizeram festa quando cheguei com o menino e agora dormem. parece que não aconteceu nada.</p>
<p>silêncio. meu pai fechou os olhos e recostou a cabeça no colo de Joan Baez. levantei-me e troquei a fita. ouvi os primeiros fogos de artifício. fui lá fora. esperei um tempo, passeando sobre a grama. de vez em quando, olhava o portão, onde há pouco tinham estado os cães negros. entrei. meu pai cochilava. sentei-me à mesa e fiquei ouvindo a música.</p>
<p>a música é uma bolha confortável e dentro dela flutuamos e é como se houvesse na alma a doce embriaguez e o perfume do licor de banana. fecho os olhos para melhor me perder nesse rio de sons perfumados&#8230;</p>
<p>o súbito silêncio me resgata da sonolência. meu pai continua dormindo, seu respirar é lentíssimo e uma paz como que paira em seu semblante. levanto-me e coloco a fita do Réquiem de Dvořak.</p>
<p>e, novamente, me deixo levar nessa jangada de sons, acordes, vozes, textos&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>mors stubebit et natura&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>quando uma pessoa enfrenta uma situação desagradável, se não vê saída, ela fantasia. recurso primeiro para&#8230; é comum alguém desejar a morte de outrem. aplacar a dor ou resolver um problema com um fato apenas imaginado. eis aqui a célula-mater de tudo quanto derivará depois.</p>
<p>.</p>
<p>liber scriptus proferetur&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e quando duas crianças falam, vamos brincar de mocinho e bandido, estamos novamente diante de uma fantasia. mas, consciente! eu sei que não sou o bandido, faço de conta. brinco, jogo, homo ludens&#8230;</p>
<p>quando o adulto concretiza um livro ou um filme ou uma música ou um quadro, também brinca, joga, o homem que faz arte&#8230; o elán é o mesmo do ludens&#8230;</p>
<p>a arte seria a única forma da fantasia consciente&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>et de profundo lacu&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e a filosofia? a filosofia&#8230;</p>
<p>abri os olhos. por que estou tão assustado? olhei para meu pai e percebi que ele estava me fitando. parecia muito calmo. levantei-me, fui até o fogão, coloquei algumas lenhas finas, fiz reviver o fogo.</p>
<p>trouxe um chá novo, pai. . . o meu amigo filósofo disse que talvez o problema da ecologia ajude a humanidade a sair desse tipo de impasse.</p>
<p>eu já fico esperando um cataclismo. um grandioso desastre telúrico. ou, quem sabe?, um microbiozinho mais obstinado. os transgênicos estão aí. defendem os transgênicos mas ninguém fala nas possibilidades de uma mutação.</p>
<p>que horror!</p>
<p>leia o livro A Raça Menina, de William Auld. somos crianças, engatinhamos.</p>
<p>somos Kamalas?</p>
<p>Kamalas, filhos e netos de Kamalas. não aprendemos o mínimo e procriamos.</p>
<p>.</p>
<p>pecata mundi&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>recolhi as xícaras e levei-as à mesa.</p>
<p>meu pai novamente fecha os olhos. parece que delira baixinho:</p>
<p>o socialismo&#8230; o mito do super-homem de Nietzsche, não para o ariano infantilizado, mas para toda a humanidade&#8230; uma escola igual para todos os filhos do homem, despertando em cada criança o semideus que aí jaz à espera. todos se transcendem e se transformam em super-homens&#8230; e quando um estiver frente ao outro, haverá lampejos mas não de espadas&#8230; lampejos de respeito e admiração em seus mansos olhares de cordeiro&#8230; e, se não falarem a mesma língua, falarão, naturalmente, a única língua que pertence a todos&#8230;</p>
<p>recoloco a cabeça de meu filho sobre o travesseiro em meu colo, encosto-me e fecho os olhos. queria que essa música nunca acabasse. queria que essa noite nunca acabasse.</p>
<p>.</p>
<p>quantus tremor est futurus.</p>
<p>.</p>
<p>meu pai continua delirando&#8230; e canta às vezes&#8230;</p>
<p>na minha opinião, já passou da hora da ONU dar uma bronca nas grandes gravadoras de discos. eles pegam o vômito, o escarro, a pústula e a excreção, vestem-nos de ouro e seda, alojam-nos em andares inteiros de luxuosíssimos hotéis, transformando-os em semideuses intocáveis, diante de cujo peido pasmam as franguinhas todas e suspiram todos os cordeiros, prontos para ser sacrificados nas primícias da droga, espalham sobre o planeta a diarréia dos sons do horror e as melodias do cretinismo e criam para o filho do homem o ideal de se transformar num imbecil que aplaude a pestilência e sonha ser, ele mesmo, um dia, uma dessas imagens de pesadelo. quem vai chamar as gravadoras à responsabilidade pela incitação ao uso da droga, pela apologia da manhã do apocalipse?</p>
<p>.</p>
<p>ah, look at all the lonely people&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>não perceberam os donos das gravadoras que os vapores do miasma destruidor sufocarão também seus próprios filhos?</p>
<p>.</p>
<p>no one was saved&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e pensar que houve um dia um grupo que mostrou, através de canções belíssimas, a possibilidade de um caminho a ser trilhado. qual! também os besourinhos se perderam nel mezzo del cammin&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>don&#8217;t carry the world upon your shoulders&#8230;</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-54/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/">Continua na semana que vem.</a></em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Profissão, silêncio</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/profissao-silencio/</link>
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		<pubDate>Tue, 30 Aug 2011 23:48:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele era magro tal um alfinete de cabeça e silencioso qual uma noite em Alcobaça. Quase nem fazia barulho para andar, como um gato. Sabia que, a todo barulho, corresponde o silêncio. Ficava com este lado da moeda. Quando nasceu pouco chorou e sorveu discretamente, sem gula, o leite materno. Foi crescendo junto com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele era magro tal um alfinete de cabeça e silencioso qual uma noite em Alcobaça. Quase nem fazia barulho para andar, como um gato. Sabia que, a todo barulho, corresponde o silêncio. Ficava com este lado da moeda.<span id="more-5248"></span> Quando nasceu pouco chorou e sorveu discretamente, sem gula, o leite materno. Foi crescendo junto com o próprio cabelo, já ralo, deixando ver o contorno craniano, ausência de recheio.</p>
<p>Ele era assim. Espelho liso, escorregadio, semente, planta, chuva e mar. Um produto da terra que a ela voltaria naturalmente, sem ruído. Desfilava sem preconceitos sua postura econômica de gestos e sentimentos. Sabia que quando se fecha a janela num dia de sol, a escuridão fica apenas do lado de dentro, pois para todo breu há o equivalente em luz. Tinha essa mania, de buscar o outro lado das coisas.</p>
<p>Lembrava, aos cinco anos, quando era convocado para cantar para a avó enferma, o quarto com um cheiro antigo de remédios, a ausência de oxigênio, canta filho, aquelas em italiano. Lembrava também que o velocípede encalhava na areia fofa toda vez que queria correr, a vida nunca foi um deslizar fluido e sim uma pesada sucessão de fatos bruscos, pulos, sustos brunos. Quase chegara aos vinte anos sem beijar uma mulher e quando beijou, ela lhe mordeu a língua, não aceitou o agrado. Mesmo assim o gosto de sangue sempre lhe trouxe alegria e felicidade até que se tornou matador profissional, aos 26 anos. Já que não fazia barulho sequer para respirar poderia cumprir bem essa tarefa.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlais.png"><img class="alignleft size-full wp-image-5253" title="zzlais" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlais.png" alt="" width="408" height="341" /></a>Não se importava com o que. Ele passava pela vida como um trem pela estação. Ida e volta, ida e volta, passageiros em frevo, em aflição, violões e marchas fúnebres, pandeiros e carnavais, neve, sol areia, tormenta e desassossego. Ele apenas passava, desejando ainda uma vez a polenta amarela da mãe, perfeitamente regada com o molho de tomate quase alucinógeno. A única coisa que lhe causara prazer na vida e não se repetiria, pois a mãe estava morta. Estavam todos mortos.</p>
<p>A cada despedida, maior se tornava o vácuo, aquele que verdadeiramente não transmite sons. Nem uma palavra de revolta, nem uma palavra de consolo. Calma. Equilíbrio. Ele jamais seria tempestade, era garoa fina caindo na montanha sem árvores. O observar, sempre. Nunca participar das cenas principais do drama – ou da comédia – da vida. Coadjuvante.</p>
<p>Nunca seria o começo, apenas o fim. Ele sabia que todo nascimento carrega, em si, a morte. E não hesitou em dedicar-se aos meios que apenas abreviavam a espera.</p>
<p>O primeiro trabalho foi realizado com tal precisão que o chefe se impressionou. Um tiro certeiro na nuca e pouco sangue. Pegou o pagamento e saiu sem ouvir os elogios até o fim. Não tinha idéia do que fazer com tanto dinheiro, a vida vale assim tanto dinheiro? A vida vale?</p>
<p>Pela primeira vez respirou fundo e ouviu o próprio respirar. O sofá era de um tecido escocês vermelho, amarelo e branco, os braços de madeira castanha, a cama viera da mãe, assim como as panelas e o fogão. Deitou ali e decorou 128 filmes de criminosos. Quase sem som. Quieto, durante dois meses aguardou o nome do segundo condenado. O dono de um banco que andava crescendo muito. Para todo banco que cresce há pequenos bancos que desaparecem, pensou. E foi em frente. Circulou feito um pião em torno da vida do ser humano e finalmente encontrou o ângulo perfeito. Havia uma possibilidade mínima daquela bala passar entre a árvore e o poste, entrar pelo vidro da janela da sala e atingir o coração do homem. Ele tinha nascido, porém, com o dom da pontaria. E ansiava pela perfeição.</p>
<p>Recebeu o dobro do dinheiro, desta vez em dólares. Flutuando na própria solidão, reencapou o sofá e traduziu seus desejos em sorvetes de chocolate. Pensou em casar-se, mas um matador não. Pensou numa prostituta, mas não tinha suficiente coragem – a todo ato corajoso sobrevem uma dose de medo – e menos ainda disposição para isso. Pensou numa viagem, mas viajava a serviço, separava acontecimentos. Pensou. Exausto. Pegou no sono.</p>
<p>Certa vez o avô pediu que ele fosse buscar uma garrafa de vermute na loja de importados do centro da cidade. Cumpriu a tarefa, aos 14 anos já cumpria tarefas discreta e corretamente. Como recompensa, pôde provar o vermute.</p>
<p>Então, desejou o aroma do vermute o e voltou à loja, mudo. Bebeu uma garrafa na mesma noite, deixando livres as lágrimas bêbadas de saudades do velho. O único homem com quem trocara algumas palavras. Falavam de futebol, chuva e armas. Exímio atirador, o avô lhe ensinara a profissão. Lugar comum, fato incomum, nosso homem superou o mestre. Mas ele sabia que toda superação – a qualquer momento – encontra uma relação direta com o fracasso. Portanto, puxar o gatilho com perfeição era, além de acertar o alvo, sair do cenário, ileso. Como o avô.</p>
<p>No terceiro trabalho viajou à Espanha. No quarto ao Brasil. E eles se sucederam, ao todo quinze mortes secas. Olhos secos. Não conhecia as vítimas. Conhecia o mundo, de passagem. De passagens, imagens, mensagens, pousos e decolagens.</p>
<p>Recebeu cada um dos fartos pagamentos em total abstenção de palavras e obras. Em taciturna despresença. Carregava consigo, além da violência fria, a estranha qualidade de esvair-se no ar. Era leve e invisível.</p>
<p>No trabalho seguinte voou para os Estados Unidos. Deu fim a um militar da reserva, sabe-se lá por que, nem a pedido de quem. Antes de voltar, porém, foi ao parque. Montanha russa e trem-fantasma, o cavaleiro salvando a princesa, branca de neve e cinderela, lindas. Fugiu do barulhento tiro-ao-alvo. A arma dele tinha silenciador.</p>
<p>Em casa, buscou, empenhou, desejou, até quando? Pensou novamente em ter companhia. Seus fundos já eram milhões espalhados em mil bancos. Melhor permanecer, rever, ver, abster. O tempo. O sonho. Assistiu a 128 filmes nos dois meses seguintes. Só que românticos. Um novo sofá, negro, de couro. Que não rangesse. Uma nova pintura, toda branca. Como se esperasse alguém. Nem notou que esteve quatro meses inerte, moderado, ensimesmado. Cuidado. Mal cuidado.</p>
<p>Sorveu um longo e sigiloso gole do vermute antes de atender ao telefone que o enviava a Veneza, terra do avô e da tal bebida.</p>
<p>Fez as malas.</p>
<p>Um trabalho perigoso. Quando o risco é maior a equivalência surge em oportunidade. Dizem. Cada cor tem a sua cor complementar.</p>
<p>Não ofereciam o vermute do avô no avião.</p>
<p>Tomou apenas água, prevendo um batismo de dor, de amor, de suor, de pudor.</p>
<p>O serviço, minucioso, exigiu uma ronda de sessenta dias em torno do homem marcado. A mulher dele, as filhas, duas filhas, não queria que elas fossem espectadoras da morte. E adiava o balaço na têmpora. A próxima viúva parecia uma artista dos filmes românticos italianos que assistira. Belíssima, a vêneta. Parecia, queria, que dia, que noites em claro, ele saberia.</p>
<p>Ela não lhe saía da cabeça.</p>
<p>Os italianos falam alto, pensou.</p>
<p>E realizou.</p>
<p>A bala do fuzil que utilizava entregou a morte ao italiano voando a 900 m por segundo.</p>
<p>Desta vez o atirador não se esvaiu como água pelo ralo. Queria vê-la, precisava vê-la. Andava devagar e corria o risco. Acompanhou o funeral de longe, já sem a mira. Caminhou dois dias por ali, tão triste quanto a própria Veneza.</p>
<p>Desejava não ter feito. Gostaria de consolar a mãe e as filhas. Voltar no tempo. Recusar-se.</p>
<p>Comoveu-se ao vê-las chorar.</p>
<p>Um matador que se comove está acabado.</p>
<p>Pegou o avião para casa e, de novo, não serviram vermute.</p>
<blockquote><p><em>“Profissão, silêncio” é um dos 27 </em><em>contos de </em><strong>Sirva o coração em bandeja de cristal líquido</strong><em>, o novo livro de Laïs de Castro, lançado neste mês de </em><em>agosto pela Iluminuras. (Na foto, a autora com o colega Audálio Dantas.)</em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlala1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5298" title="zzlala" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlala1-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a>Na apresentação do livro, a jornalista </em><em>e escritora Marta Goes diz:</em></p>
<p><em>“Os contos de Laïs de Castro  desenham-se rapidamente – personagem, tempo e </em><em>lugar. Em sucessão inesperada, com pinceladas curtas, levam-nos ao solar, ao </em><em>bordel, ao carnaval, a lençóis imaculados) ou ao campo rude. Os personagens </em><em>falam com as marcas da existência: sinhazinha, esposa ressequida, matador, </em><em>marido cruel, avó criadeira e uma apaixonada que arde em fogo sagrado. Freqüentemente, </em><em>a voz é de um narrador, que pode ser cúmplice, reconhecer, cá entre nós, certas </em><em>singularidades das situações que narra. (&#8230;)</em></p>
<p><em>“É a alma dos personagens que atrai </em><em>Laïs, com seus exageros, esquisitices e, sobretudo, sentimento. Os </em><em>protagonistas destes contos deseja, amam, deliram, ofendem-se mortalmente. Com </em><em>certa insistência, calam. O silêncio – como expressão do vazio ou como </em><em>instrumento der vingança – aparece como tema.”</em></p>
<p><em>Eis a Nota sobre a Autora, que encerra </em><em>o livro:</em></p>
<p><em>“Jornalista desde os 21 anos, </em><em>trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial (sob Luís</em><br />
<em>Carta) e outros mais na Azul. Foi diretora de várias revistas femininas, entre </em><em>elas </em>Boa Forma<em>, </em>Vida Executiva<em> e </em>Dieta Já<em>. </em></p>
<p><em>Ganhou três prêmios Abril de </em><em>Jornalismo, um concurso de contos infantis no Estado do Paraná (1970), o Concurso </em><em>de Contos Cursos Cidade de Porto Seguro, em 2009.</em></p>
<p><em>Participou da antologia </em>Le Grand Show des Écrivaines Brésiliennes<em>, lançada em 2010 no Salon du Livre de Paris.</em></p>
<p><em>É autora do livro de contos </em>Um Velho Almirante<em>, publicado pelo selo ARX (Siciliano). Atualmente é colaboradora da </em><em>revista Negócios da Comunicação, colaboradora do site literário <a href="http://pbondaczuk.blogspot.com">http://pbondaczuk.blogspot.com</a> e do</em><br />
<em>site 50anosdetextos.com.br (sem o www).</em></p>
<p><em>Participou como palestrante da Flipoços 2011. Ministra </em><em>oficina de contos em bibliotecas de São Paulo, SP.”</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 54</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Aug 2011 19:24:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[coloquei o menino sobre as almofadas do grande banco de cimento e o cobri. sentei meu pai no canto e fiz com que se cobrisse com seu enorme casaco preto. vou fazer um chá. e já trouxe uma xícara quente para meu pai e uma morna pro menino. capim-limão! está bom! e sorrindo: a festa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>coloquei o menino sobre as almofadas do grande banco de cimento e o cobri. sentei meu pai no canto e fiz com que se cobrisse com seu enorme casaco preto.<span id="more-5234"></span></p>
<p>vou fazer um chá.</p>
<p>e já trouxe uma xícara quente para meu pai e uma morna pro menino.</p>
<p>capim-limão! está bom! e sorrindo: a festa acabou.</p>
<p>nunca vou esquecê-la, pai. eu disse. e você, garoto, não quer um banho? logo logo vai ser meia-noite.</p>
<p>falta muito ainda, pai. mas eu quero um banho. e vou vestir uma roupa branca. vovô!</p>
<p>meu pai o olhou, agora já completamente calmo, apesar de eu perceber que ainda tremia de leve.</p>
<p>oi!</p>
<p>você fica bravo se eu tomar o último banho a álcool?</p>
<p>claro que não! um sorriso devolveu meu pai a meu pai.</p>
<p>preparei o banho do menino e ele entrou no banheiro.</p>
<p>quer mais um chá?, pai.</p>
<p>vou pegar.</p>
<p>nada disso! eu pego. e logo a seguir:</p>
<p>é preciso trazer o aparelho e as caixas.</p>
<p>está frio, pai. eu cuido disso.</p>
<p>coloque tudo aqui em baixo, por favor. quero ouvir umas músicas antes de ir.</p>
<p>trouxe tudo. armei improvisadamente o aparelho e as caixas. o menino saiu todo de branco do banheiro.</p>
<p>você botou mais álcool, né?, pai</p>
<p>botei. sorrindo. deite-se aqui. vou cobri-lo. está com fome?</p>
<p>não. e eu:</p>
<p>pai, agora vou ao banho. depois vemos as músicas.</p>
<p>e já saí, também todo de branco. agora era eu, quem perguntava rindo:</p>
<p>pai! e se eu acender velas, você fica bravo?</p>
<p>vai ficar bonito.</p>
<p>vou arrumar seu banho, pai.</p>
<p>não precisa. meu último banho vai ser frio.</p>
<p>uau!, vovô.</p>
<p>risos.</p>
<p>enquanto meu pai esteve no banheiro, o menino:</p>
<p>pai, semana que vem a gente podia ficar uns dias no apartamentinho.</p>
<p>quer passear pelo Centro?</p>
<p>quero. quero jogar vídeo-game.</p>
<p>semana que vem a tia chega com as meninas.</p>
<p>jóia.</p>
<p>e virou-se e dormiu num relance.</p>
<p>meu pai sentou-se todo dentro do largo banco, de modo que seus pés tocavam os pés do menino. atrás de sua cabeça, ao alto, o enorme poster que eu fizera de Joan Baez.</p>
<p>que músicas?, senhor.</p>
<p>veja estas fitas que eu separei.</p>
<p>muito bem. Mors et vita, de Charles Gounod. isto é maravilhoso! são duas fitas. depois, o Réquiem de Dvořak, nossa! e as Vespro della Beata Vergine, de Monteverdi, pai, assim você acaba comigo.</p>
<p>risos. preparo-me pra minha volta.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-53/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-55/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 53</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2011 01:11:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[aos poucos, aquietamo-nos. ele separou-se e me olhou como olharia um pai saído da lenda. eu sorri e falei: paz, paz, Mercutio, paz. você fala sobre o nada! ele, quase sem voz: não é verdade! falo sobre o pesadelo! lentamente, dirigimo-nos à casa. nesse momento, sem motivo algum, meu pai parou e olhou para o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>aos poucos, aquietamo-nos. ele separou-se e me olhou como olharia um pai saído da lenda. eu sorri e falei:</p>
<p>paz, paz, Mercutio, paz.</p>
<p>você fala sobre o nada!<span id="more-5185"></span></p>
<p>ele, quase sem voz:</p>
<p>não é verdade! falo sobre o pesadelo!</p>
<p>lentamente, dirigimo-nos à casa. nesse momento, sem motivo algum, meu pai parou e olhou para o portão. estremeci e todo o meu corpo se arrepiou. o menino se apertou forte contra mim.</p>
<p>da rua vieram a correr três enormes cães pretos. iguais. pararam no portão e ficaram olhando. apoiando meu pai e ainda com o menino no colo, fomos até eles. e meu pai, com a voz por um fio, trêmula mas suavíssima:</p>
<p>criaturinhas da vida! que vieram fazer aqui?</p>
<p>os cães nos olharam fixamente e deram a volta, desaparecendo após uma corrida rápida e silenciosa.</p>
<p>vamos entrar. estamos cansados. antes do sol nascer, eu devo mesmo partir.</p>
<p>meu filho o olhou cheio de seriedade mas nada falou. fiz com que ele se deitasse no meu colo e o estreitei com carinho. ele segurou minha mão e apertou-a com toda a força.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A<strong> Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-52/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-54/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 52</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Aug 2011 00:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[vocês sabem que hoje é o dia em que o ano velho se vai embora. e ele quer festa. festa! depois, pra ele, coitadinho, só o grande silêncio e a saudade. percebi que meu pai estava tomado por estranha excitação. licor de banana! é denso e doce e amacia a alma aos poucos. pena que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>vocês sabem que hoje é o dia em que o ano velho se vai embora. e ele quer festa. festa! depois, pra ele, coitadinho, só o grande silêncio e a saudade.<span id="more-5143"></span></p>
<p>percebi que meu pai estava tomado por estranha excitação.</p>
<p>licor de banana! é denso e doce e amacia a alma aos poucos. pena que os deuses antigos não conheciam o licor de banana! ponha essa caixa ali. isto. vamos testar? então, escolho eu a música.</p>
<p>seria o efeito do licor? tão pouco!</p>
<p>cale-se daqui pra frente Apolo, deus das musas, chega de equilíbrio. silêncio, divindades da ordem! este novo som, como uma coxa de Zeus, vai parir o deus dos ditirambos. evoé! evoé Dioniso! evoé África! ouçam isto!</p>
<p>e explodiram nas caixas acústicas os fantásticos tambores africanos.</p>
<p>meu pai bebeu direto da garrafa.</p>
<p>evoé Baco! senhor Dioniso! a vindima foi boa! tum tum tum&#8230; tá&#8230; tá&#8230; tum tum tum&#8230; tá&#8230; tá&#8230;</p>
<p>então meu pai como que passou a não mais se pertencer. ria nervoso e se mostrava agitado. o menino o olhava maravilhado.</p>
<p>e foi dançando, com certeza, que o deus que criou o mundo, o que criou de verdade&#8230; foi dançando&#8230; ora, chega de bobagens&#8230;</p>
<p>e meu pai começou uma dança alucinada. o menino me olhava e ria.</p>
<p>nós é que dançamos! nos dois sentidos! as duas danças! dançamos porque uma meia dúzia de criminosos controla o mundo e nós dançamos! e dançamos a dança macabra! tum tum tum&#8230; tátátá&#8230; a dança dos carneiros!</p>
<p>e mais um trago, licor de banana!</p>
<p>não havia mais licor. meu pai atirou para o lado a garrafa.</p>
<p>não preciso mesmo! preciso de mais tambores! volume!, menino. volume! a dança dos carneiros.</p>
<p>o menino aumentou o volume e começou a bater palmas. estava excitado.</p>
<p>carneiros de merda! carneiros de merda! querem consertar tudo? é fácil! vamos acabar com o sigilo dos telefones oficiais e o sigilo bancário de todo aquele que é eleito pelo povo! é fácil! eles que esperneiem! se eu ponho um telefone no quarto da empregada e eu pago a conta, pode ela ficar telefonando pros comparsas bandidos pra combinar o assalto à minha casa? telefone oficial sem sigilo! porque temos políticos que não valem o que comem! tum tum tum&#8230; e temos políticos que não valem o que cagam! tá tá tá&#8230;</p>
<p>essa eu entendi!, vovô. essa eu entendi.</p>
<p>o menino aumentou mais ainda o volume e começou a pular. eu me sentia dentro de um teatro orgíaco e primitivo.</p>
<p>é a nossa herança! e vamos à dança dos macacos! a dança dos macacos! tum tum tum tá tá tá. e tivemos os nossos contrabandistas portugueses e os nossos nobres e os nossos republicanos e no meio de alguns segundos de bom senso aí vai a bandalheira feroz quem chegar primeiro pega mais e a milicada deu sua contribuição estou esperando um coronel ou um general macho chegar na televisão e pedir perdão ao país pelo estrago que fizeram ou vão esperar o mesmo tempo que o papa esperou? hein? hein? tá tá tá tum tum tum&#8230; e a dança dos vampiros&#8230; a dança dos vampiros&#8230;</p>
<p>o menino entrou na dança com meu pai. imitava os seus passos e ria nervoso e fora de si.</p>
<p>e o ouro dos judeus? onde foi parar? senhores cidadãos da Suíça! com que então vocês votaram contra a quebra do sigilo! e se for o sétimo sigilo? vocês ganham dinheiro dando segurança ao ouro dos torturadores, assassinos, traficantes e vendedores de países! pra quê? pra quê? a dança dos jacarés bêbados, a dança dos jacarés bêbados&#8230;</p>
<p>jogou-se no chão e o menino fez o mesmo. e rolava e sua voz já estava meio rouca.</p>
<p>pra quê? pra quê? pra que seus jovens promissores tenham de graça seringas descartáveis ave heroína imperatrix morituri te salutant mas levamos juntos alguns crioulinhos e alguns amarelinhos e alguns indiozinhos que essa gentinha morre à toa basta uma fomezinha e vão caindo pelos caminhos como são fracotes!</p>
<p>e o que dizer desses paisecos micróbios? ontem paraísos turísticos e hoje paraísos fiscais, inventados pelos fantoches do crime internacional pra que os criminosos façam circular com juros seus dinheiros mais do que 30 que matam estropiam enlouquecem escravizam e enfaixam com os panos das múmias que parecem vivas mas estão mortas para a vida porque o que fazem é tão somente trabalhar hoje pra comer ontem!</p>
<p>mas porque não nasceram louros e altos? diz no livro de Upanixades que o homem bom vai renascer no ventre da mulher de um brâmane e o homem mau vai renascer no ventre da mulher de um pária, a dança das minhocas, a dança das minhocas! mas que maneira mais fodida e filha-da-puta de justificar o injustificável, o inferno social, o holocausto sem matança! mas quem mandou? quem mandou? por que não nasceram louros e altos? desses que comem feito porcos e engordam feito baleias e começam a correr feito idiotas vocês sabem de quem eu estou falando? e a dança dos peçonhentos&#8230; a dança dos peçonhentos&#8230; tum tum tum tan tan tan tan&#8230;</p>
<p>e já um tanto enfraquecido mas cheio de uma fúria selvagem meu pai levantou-se e começou uns passos grotescos, mancando e se desequilibrando de propósito e o menino atrás dele e agora era o menino que imitava o ritmo dos tambores</p>
<p>tum tá tá tum tá tá&#8230;</p>
<p>e o que foi feito do Protocolo de Quioto? mas que bobagem! então agora meu filhinho que fez dezoito anos não pode ter o seu automovelzinho? e o que dizer das minas explosivas em Angola? mas que diferença faz um preto com pé a mais ou mão a menos? o preto grita: patrão, a tribo inimiga quer me massacrar, preciso de armas, armas, não tenho dinheiro, quê que eu faço, ora, negão, deixo você pagar com diamantes. quem vendeu armas a Angola? e como é que esses povos arrogantes conseguem sobreviver nessa nossa época tão filhadaputa e inútil? ora ora ora, drogas! drogas e drogas! quem é o maior consumidor do mundo? tum tum tum tá tá tá&#8230;</p>
<p>e a dança dos dinossauros, a dança dos dinossauros!</p>
<p>tum tum tum somos uma espécie de espécie em extinção por que o planeta&#8230; o circo&#8230; o circo não vai aguentar&#8230; ou&#8230; como disse o russo&#8230; que todos o queiram e num minuto tudo será consertado&#8230; mas nós somos a discórdia&#8230; podemos dizer que temos justiça?&#8230;</p>
<p>meu pai, enfraquecido, parou&#8230; olhos esbugalhados para o vazio&#8230;</p>
<p>a justiça&#8230; tantos advogados&#8230; e quase se pode dizer que o país mais atrasado do mundo&#8230;</p>
<p>a custo se aguentava de pé e começou a chorar. o menino correu ao meu colo e me abraçou forte.</p>
<p>quase se pode dizer que o país mais atrasado do mundo é aquele&#8230; que tem mais processos na justiça&#8230;</p>
<p>e num urro cheio de violência:</p>
<p>mas não me perguntem qual é porque eu não enfio a mão em balde cheio de merda!</p>
<p>com meu filho no colo tirei o som e fui até ele. meu pai sentou-se no chão. sua voz vinha cavernosa, como se saísse do último círculo do inferno. entre soluços e guinchos:</p>
<p>e não me venham com essa de Deus! bando de musaranhos vorazes mas dominados pelo cretinismo! não me venham com essa de Deus! basta uma pergunta e vocês se derretem em esgares. basta uma pergunta. então, digam, vocês, monoteístas cristãos, presumidos, engolidores e cagadores de dogmas: o vosso Cristo, senhores!, o vosso Cristo&#8230;</p>
<p>tinha cromossomo Y? han?</p>
<p>meu pai falava como um bicho, babava e já ria como se dominado por um tipo de loucura.</p>
<p>teólogos de merda! respondam! vocês católicos que, com raríssimas exceções, se julgam os melhores, e que nunca se envergonharam do passado dessa igreja a que servem! teólogos da ilogia! vocês, evangélicos que, com raríssimas exceções, passeiam com essa Bíblia ensebada nas mãos e o Diabo na boca, que vocês falam mais nele do que em Deus. teólogos da ilogia!</p>
<p>e meu pai me olhou com os olhos injetados e cheios de pavor.</p>
<p>a custo levantei meu pai. ele me abraçou desesperado. o menino sobre um ombro, meu pai sobre o outro, senti o peso de todas as cruzes da história do homem. eu mesmo apavorado e fraco, mas eu sabia que, naquele momento culminante de minha vida, eu não podia sucumbir. começamos a chorar os três. e sem saber de onde vinha a minha força selvagem, eu dei conta da minha missão.</p>
<blockquote><p> <em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-53/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 51</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 06 Aug 2011 19:18:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[estamos chegando. passamos a ponte e eu dobro à esquerda. ao virar para entrar na nossa estradinha&#8230; pai, pai! veja! está tudo aceso! a surpresa me obriga a parar o carro. a chácara está toda iluminada. meu pai está abrindo o portão e, como há luzes por todo lado, eu só diviso o seu vulto, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>estamos chegando. passamos a ponte e eu dobro à esquerda. ao virar para entrar na nossa estradinha&#8230;</p>
<p>pai, pai! veja! está tudo aceso!<span id="more-5105"></span></p>
<p>a surpresa me obriga a parar o carro. a chácara está toda iluminada. meu pai está abrindo o portão e, como há luzes por todo lado, eu só diviso o seu vulto, estranhamente meio gigantesco. saltamos.</p>
<p>o menino corre até ele e pula no seu colo. três abraços num só abraço. novamente. meu pai:</p>
<p>então, hoje, eu é que recebo meu filho e meu neto.</p>
<p>o que aconteceu por aqui?</p>
<p>então não vê? o mundo caminha e essas coisas acabam acontecendo; nada de banho esquentado a álcool. nada de música a pilha. vamos à cascata.</p>
<p>temos que tirar a bagagem! eu.</p>
<p>depois, pai, depois! o menino.</p>
<p>e descemos maravilhados. quatro fortes lâmpadas transformavam aquele espaço já mágico num ambiente de outro mundo.</p>
<p>o menino tira os sapatos e entra na água. meu pai faz o mesmo. e eu, lentamente, envergonhado por não ter tido essa idéia. meu pai:</p>
<p>a água leva a canseira embora!</p>
<p>está tudo lindo. como fez isso tudo?</p>
<p>outra hora a gente fala sobre isto.</p>
<p>olhei-o sério e ele entendeu. e disse:</p>
<p>não precisamos falar sobre isto.</p>
<p>subimos. a mesa está pronta e temos a sopa do primeiro dia, pedacinhos de mandioca. desta vez o menino quis jantar. enquanto comemos, meu pai:</p>
<p>tem mais uma surpresa. subiu as escadas e já começou a soar uma música.</p>
<p>o concerto pra flauta e harpa de Mozart! o som está alucinado!, pai.</p>
<p>é a vitrolinha?, vovô.</p>
<p>não. temos um som novo.</p>
<p>pô!, pai! agora só falta um fogão a gás.</p>
<p>não! esse pode esperar muito, ainda.</p>
<p>e jantamos. eu:</p>
<p>quando vocês chegaram aqui, pai, na hora da janta você parecia uma pintura de Goya.</p>
<p>a luz elétrica acaba com estes encantos, não é? mas deve trazer outros consigo.</p>
<p>será?</p>
<p>e, tendo terminado a janta, meu pai trouxe uma garrafa de licor.</p>
<p>é de banana! acabei de filtrar.</p>
<p>maravilhoso! quer provar?, filho. só provar.</p>
<p>é gostoso mas muito forte, pai.</p>
<p>é bom que seja, porque na sua idade não pode! e meu pai:</p>
<p>não é que não possa. não precisa.</p>
<p>Mozart silenciou. subimos para ver o som. e meu pai pediu-nos ajuda para colocá-lo lá fora. repetimos o licor de banana.</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A Espécie Humana</a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-50/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-52/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 50</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Jul 2011 19:56:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[um abraço e um beijo. foi tudo bem?, filho. nossa!, pai. o avião deu dois pulos no ar e caiu e subiu! levei um susto! depois a aeromoça me levou pra cabine do comandante e só me trouxe de volta quando o avião ia pousar. agora passou o medo. foi tudo bem por lá? foi. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>um abraço e um beijo.</p>
<p>foi tudo bem?, filho.<span id="more-5079"></span></p>
<p>nossa!, pai. o avião deu dois pulos no ar e caiu e subiu! levei um susto! depois a aeromoça me levou pra cabine do comandante e só me trouxe de volta quando o avião ia pousar. agora passou o medo.</p>
<p>foi tudo bem por lá?</p>
<p>foi. o tio e a tia mandaram abraços. cadê o fusca?</p>
<p>está no estacionamento.</p>
<p>vamos direto pra casa?</p>
<p>não. vamos pro apartamentinho. depois do almoço a gente passeia um pouco e de tardinha nós vamos. agora é hora de pegar a bagagem.</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-49/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 49</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jul 2011 20:24:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[estive de pé, um tempo, assombrado. minha cabeça delira. ou convivemos em consenso&#8230; eu penso&#8230; ou caminharemos para uma hecatombe! como um sonâmbulo, começo a andar sala quarto cozinha banheiro então senhor Sartre o homem está condenado a ser livre?, sala quarto cozinha banheiro ouça ouça no seu túmulo senhor sala quarto estamos sim condenados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>estive de pé, um tempo, assombrado. minha cabeça delira.<span id="more-5029"></span></p>
<p>ou convivemos em consenso&#8230; eu penso&#8230; ou caminharemos para uma hecatombe!</p>
<p>como um sonâmbulo, começo a andar sala quarto cozinha banheiro então senhor Sartre o homem está condenado a ser livre?, sala quarto cozinha banheiro ouça ouça no seu túmulo senhor sala quarto estamos sim condenados à liberdade cozinha banheiro mas estamos antes condenados à convivência!</p>
<p>e até quando?, então!, seremos Kamalas sem mãe-loba que nos ensinasse, pelo menos, a ferrar os dentes nas jugulares dos grandes safados, Kamalas, degredados filhos de Eva a errar gemendo e chorando neste vale de lágrimas, afaste-se!, Senhora, a perseguir dolorosa e insensatamente este ensaio sobre a cegueira!</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A Espécie Humana</a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-48/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-50/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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