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	<title>50 Anos de Textos &#187; Em versos</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>A cruzada das crianças 1939</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 17:15:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[No ano 39, houve na Polônia uma sangrenta batalha que a aldeias e cidades, numa fúria selvagem, amortalha. As irmãs ali perderam seus irmãos e as mulheres perderam seus maridos, e entre fogo e escombros, as crianças procuravam, em vão, aos pais perdidos. E da Polônia não chegava mais nem carta nem notícias de jornal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No ano 39, houve na Polônia</p>
<p>uma sangrenta batalha</p>
<p>que a aldeias e cidades,</p>
<p>numa fúria selvagem, amortalha.<span id="more-2203"></span></p>
<p>As irmãs ali perderam seus irmãos</p>
<p>e as mulheres perderam seus maridos,</p>
<p>e entre fogo e escombros, as crianças</p>
<p>procuravam, em vão, aos pais perdidos.</p>
<p>E da Polônia não chegava mais</p>
<p>nem carta nem notícias de jornal</p>
<p>mas lá pros lados do leste</p>
<p>corria uma história sem igual.</p>
<p>Numa cidade, debaixo da neve,</p>
<p>lá pro leste, segundo se falava,</p>
<p>uma cruzada de crianças,</p>
<p>então, na Polônia começava.</p>
<p>As crianças famintas se juntavam</p>
<p>seguindo a passos curtos os caminhos</p>
<p>e iam recolhendo outras crianças</p>
<p>nas ruínas dos povoados vizinhos.</p>
<p>Queriam escapulir das batalhas</p>
<p>e daquele pesadelo tão voraz</p>
<p>e poder chegar a uma terra</p>
<p>onde pudessem encontrar a paz.</p>
<p>Um chefezinho havia entre eles,</p>
<p>que o ânimo lhes tinha soerguido.</p>
<p>Tinha agora uma só preocupação:</p>
<p>descobrir o caminho, não sabido.</p>
<p>Trazia uma menina de onze anos</p>
<p>um pequeno de quatro, carregado,</p>
<p>tinha ela o que toda mãe precisa</p>
<p>mas não tinha um país pacificado.</p>
<p>Também um judeuzinho ia junto</p>
<p>com o seu colarinho de veludo;</p>
<p>do pão mais fino sempre se servira</p>
<p>mas, aqui, se ajeitava bem com tudo.</p>
<p>E havia dois grandes estrategistas,</p>
<p>dois irmãos, que um dia se chegaram.</p>
<p>Tomaram uma cabana vazia.</p>
<p>E só antes das chuvas a deixaram.</p>
<p>Juntou-se um magro e cinzento menino</p>
<p>que afastado de todos se esquecia.</p>
<p>Uma tremenda culpa carregava:</p>
<p>de uma embaixada nazista descendia.</p>
<p>E um músico, que em aldeia arruinada,</p>
<p>numa loja encontrara um tambor</p>
<p>mas não achava jeito de tocá-lo:</p>
<p>o barulho seria delator.</p>
<p>E o grupo apanhou um dia um cão</p>
<p>para ser abatido na viagem.</p>
<p>Agora era uma boca a mais,</p>
<p>para matá-lo, faltava coragem.</p>
<p>E uma escola, com um professorzinho</p>
<p>que gritava, sem quê nem pra quê</p>
<p>e um aluno, que num tanque escrevia</p>
<p>da palavra paz, só aprendera o P&#8230;</p>
<p>Tiveram um concerto junto a um rio</p>
<p>de inverno, que passava com ruído.</p>
<p>Pôde o pequeno bater o seu tambor</p>
<p>por saber que não seria ouvido.</p>
<p>Também tiveram eles um romance,</p>
<p>ela doze e quinze ele contava.</p>
<p>Iam os dois a uma granja trancada</p>
<p>e os cabelos dele ela penteava.</p>
<p>Mas o amor não pôde resistir,</p>
<p>soprou sobre eles um frio de morte.</p>
<p>Como podem arbustos florescer</p>
<p>quando do alto cai neve tão forte?</p>
<p>Também fizeram eles uma guerra.</p>
<p>Descobriram que havia outro partido.</p>
<p>Mas logo teve a guerra o seu fim</p>
<p>ao verem que ela não tinha sentido.</p>
<p>A guerra explodia furiosa</p>
<p>em torno a uma guarita destruida.</p>
<p>Aconteceu, porém, que, de repente,</p>
<p>ficou uma das turmas sem comida.</p>
<p>E a outra turma ao ter disso ciência,</p>
<p>já resolveu um homem lhes mandar</p>
<p>carregado com um saco de batatas;</p>
<p>sem comida, ninguém pode lutar.</p>
<p>E também houve um dia um julgamento;</p>
<p>com duas velas foi iluminado.</p>
<p>Foi bem penoso o interrogatório</p>
<p>mas, ao final, o juíz foi condenado.</p>
<p>Houve também o enterro do pequeno</p>
<p>que tinha o colarinho de veludo.</p>
<p>Dois alemães e dois polacos levam</p>
<p>seu corpo, à frente de um cortejo mudo.</p>
<p>Protestantes, católicos, o nazista,</p>
<p>à terra o devolviam, pensativos.</p>
<p>E ao fim falou um pequeno socialista</p>
<p>do futuro dos vivos.</p>
<p>Portanto, havia fé e esperança,</p>
<p>não havia, porém, ou carne ou pão.</p>
<p>Não me ralhem se esses pequeninos</p>
<p>roubam daqueles que nada lhes dão.</p>
<p>Não me ralhem também, com o camponês,</p>
<p>se ele não os convida à sua mesa.</p>
<p>caridade não basta a meio cento;</p>
<p>precisa muito trigo, com certeza.</p>
<p>E procuravam dirigir-se ao sul</p>
<p>pois, com certeza, é no sul distante</p>
<p>que todo dia, sempre, às doze horas,</p>
<p>o sol se mostra assim, muito brilhante.</p>
<p>E um dia acharam eles um soldado,</p>
<p>no chão de um pinheiral caíra ferido.<br />
Por sete dias eles o trataram,</p>
<p>pra lhes mostrar o caminho perdido.</p>
<p>Dizia ele: para Bilgoray!</p>
<p>Com febre forte havia de estar</p>
<p>pois ao oitavo dia falecia.</p>
<p>Também este tiveram que enterrar.</p>
<p>E a neve escondia os letreiros;</p>
<p>deviam indicar o itinerário.</p>
<p>Nenhum rumo, porém, indicariam;</p>
<p>tinham sido virados ao contrário.</p>
<p>Não era brincadeira de mau gosto</p>
<p>mas um estratagema militar</p>
<p>e enquanto procurassem Bilgoray</p>
<p>jamais a poderiam encontrar.</p>
<p>E eles rodeavam o seu chefe</p>
<p>e este tentava entre a neve ver;</p>
<p>depois, apontava com a mãozinha</p>
<p>falando só: por ali, deve ser.</p>
<p>Uma noite avistaram uma fogueira</p>
<p>mas não quiseram se aproximar.</p>
<p>E numa outra vez viram três tanques</p>
<p>cheios de gente, passando a rolar.</p>
<p>Alcançaram um dia uma cidade</p>
<p>e um desvio tiveram que fazer</p>
<p>até que ela estivesse ultrapassada.</p>
<p>Só prosseguiram ao anoitecer.</p>
<p>Debaixo de uma violenta nevasca,</p>
<p>no que fora o sudeste polonês,</p>
<p>aos cinquenta e cinco pequeninos</p>
<p>avistou-se pela última vez.</p>
<p>Se meus olhos eu mantenho fechados</p>
<p>a sua peregrinação eu vejo;</p>
<p>de uma granja arruinada a outra granja,</p>
<p>arruinada também, segue o cortejo.</p>
<p>Sobre eles, acima, lá nas nuvens,</p>
<p>há sempre imensa, nova procissão!</p>
<p>Mal avançando contra ventos frios,</p>
<p>sem pátria e sem nenhuma direção.</p>
<p>Buscando uma terra em que haja paz</p>
<p>sem fogo e sem trovão</p>
<p>não como aquela de onde eles vinham;</p>
<p>o bando é já imensa multidão.</p>
<p>E que eles não eram mais os mesmos</p>
<p>à luz crepuscular, sentia às vezes,</p>
<p>pois eu estava vendo outras carinhas,</p>
<p>amarelos, espanhóis e franceses.</p>
<p>E na Polônia, naquele janeiro,</p>
<p>foi encontrado um cão,</p>
<p>no seu magro pescoço, alguém tinha</p>
<p>pendurado um bilhete num cartão.</p>
<p>E estava escrito: por favor, socorro!</p>
<p>Nós não sabemos mais nosso caminho.</p>
<p>Cinquenta e cinco ao todo somos nós.</p>
<p>Basta seguir o nosso cachorrinho.</p>
<p>E se vocês não podem vir aqui</p>
<p>é só afugentar o nosso cão.</p>
<p>Mas não atirem nele, por favor,</p>
<p>só ele sabe a nossa direção.</p>
<p>E era uma letrinha de criança</p>
<p>mas era sempre um camponês que a lia.</p>
<p>Tinha passado já um ano e meio.</p>
<p>De fome, o pobre cão se consumia.</p>
<blockquote><p> <em>Nota: Meus 5 anos de Goethe não me autorizaram a traduzir do alemão, muito menos versos de Brecht. Fiz o que pude e minha amiga e colega na Faculdade, Adelaide Rudolf, professora e tradutora do Goethe Institut de Curitiba, muito ajudou em algumas dificuldades.</em></p>
<p><em>Jorge Teles</em></p></blockquote>
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		<title>Mais clareza por fineza</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/mais-clareza-por-fineza/</link>
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		<pubDate>Tue, 04 May 2010 01:49:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[Chego cedo no trabalho Pra poder ler meu jornal. Procuro o noticiário, Diz que está tudo legal. E publicam com destaque A fala do Maioral. Não sei se entendi direitim&#8230; O texto era bem assim: &#8220;Bola  esmão pro  povolsa oto é vido garantisto ou  passeatro var quanos mas já vrono tara o polto&#8221;. Na hora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chego cedo no trabalho<br />
Pra poder ler meu jornal.<br />
Procuro o noticiário,<br />
Diz que está tudo legal.<span id="more-1779"></span><br />
E publicam com destaque<br />
A fala do Maioral.</p>
<p>Não sei se entendi direitim&#8230;<br />
O texto era bem assim:</p>
<p>&#8220;Bola  esmão pro  povolsa<br />
oto é vido garantisto<br />
ou  passeatro var quanos<br />
mas já vrono tara o polto&#8221;.</p>
<p>Na hora do meu almoço<br />
Ligo logo o meu radinho.<br />
Quero ver o que há de novo<br />
Cruzando no meu caminho.<br />
Ouço a fala do ministro<br />
que discursa com carinho.</p>
<p>Não sei se entendi direitim&#8230;<br />
A fala era bem assim:</p>
<p>&#8220;A evonomia cai bem<br />
brasisco o baixo é ril<br />
amos vaumentosto o impar<br />
pra enbolso o nosso cher&#8221;.</p>
<p>No nosso lanche de hoje<br />
Fizeram reunião.<br />
Todo mundo liberado,<br />
Todo mundo no salão.<br />
O diretor nos mostrou<br />
Os novos planos de ação.</p>
<p>Não sei se entendi direitim&#8230;<br />
O plano era bem assim:</p>
<p>&#8220;Os acionigem existas<br />
precisar mais trabalhamos<br />
se aumental o capitar<br />
vovão cês chupedo o dar&#8221;.</p>
<p>De noite, ao chegar em casa,<br />
Fico em frente da tevê.<br />
Eles sempre apresentam<br />
De todo fato, o porquê.<br />
A notícia era boa,<br />
Vou transmitir a você.</p>
<p>Não sei se entendi direitim&#8230;<br />
A nota era bem assim:</p>
<p>&#8220;Tosso nal carnavaemos<br />
A cachol e o futebaça.<br />
Til azudo no Brasul<br />
O paões dos bobalhis.&#8221;</p>
<blockquote><p>
<em>Curitiba, 23/11/1977</em></p></blockquote>
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		</item>
		<item>
		<title>Lembrando de uma frase de uma canção de Silvio Rodríguez</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 18:51:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[a gente foi-se juntando aos poucos; peludos, grunhidos selvagens. entre berros e pauladas fomos entendendo o poder da união. como num milagre pequenos grupos se organizaram (que passo para o humano!). custou-nos apenas pequena transcendência y un poco de muerte. depois os reis hoje antigos focalizaram sobre si decisões e posses, distribuindo dores e sobras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>a gente foi-se juntando aos poucos;</p>
<p>peludos, grunhidos selvagens.</p>
<p>entre berros e pauladas</p>
<p>fomos entendendo o poder da união.<span id="more-1303"></span></p>
<p>como num milagre</p>
<p>pequenos grupos se organizaram</p>
<p>(que passo para o humano!).</p>
<p>custou-nos apenas pequena transcendência</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>depois</p>
<p>os reis hoje antigos</p>
<p>focalizaram sobre si decisões e posses,</p>
<p>distribuindo dores e sobras</p>
<p>para o resto das multidões cabisbaixas.</p>
<p>sacerdotes ensinavam como crescer</p>
<p>(que passo para o humano!),</p>
<p>navios, medicina, escrita.</p>
<p>custou-nos apenas alguma obediência</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>depois,</p>
<p>ah! foi com os gregos que o humano</p>
<p>divinizou-se!</p>
<p>o teatro, a história, a filosofia!</p>
<p>a arquitetura e a estatuária!</p>
<p>que soberbo povo enfeitiçado</p>
<p>por verdade e beleza!</p>
<p>custou-nos tão pouco, afinal!</p>
<p>só deflorar a poesia</p>
<p>(que passo para o humano!)</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>e o que nos ensinaram os romanos?</p>
<p>ensinaram a organizar o grandioso.</p>
<p>como explicar tanta civilização?,</p>
<p>sem a repressão eficiente do Direito!</p>
<p>(que passo! que passo!)</p>
<p>tábuas legisladoras saindo por todos os caminhos,</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>chegaram-se de manso</p>
<p>os cristãos</p>
<p>com tanta doçura</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>os sábios libertaram a ciência, a seguir,</p>
<p>transformando, numa vertigem voraz,</p>
<p>a face das coisas do homem.</p>
<p>custou-nos transformadora renovação renascentista</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>mas eis que a máquina estala em línguas de fogo que ligam</p>
<p>e em garras de ferro que se engrenam corretamente!</p>
<p>foi uma revolução poderosa, aquela,</p>
<p>(mas que passo para o humano!</p>
<p>que grande passo de magia mecânica!)</p>
<p>é verdade que as chaminés cospem venenos</p>
<p>mas é tão grande o planeta!</p>
<p>e quão confortável, o resultado dos gritos das máquinas!</p>
<p>foi só organizar os trabalhadores</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<p>e hoje, hoje, finalmente,</p>
<p>nós que nos dizemos civilizados,</p>
<p>nós capitalistas, nós socialistas,</p>
<p>e nós nem istas nem aquilo,</p>
<p>continuamos nossa gloriosa trajetória</p>
<p>em direção ao nada.</p>
<p>atraindo futuros ao um só passado.</p>
<p>pisamos a lua, que passo desumano!</p>
<p>enchemos o espaço com vigias explosivos,</p>
<p>como é pequeno o planeta!</p>
<p>mas continuamos a marcha de esplendor,</p>
<p>pisando rastilhos, passeando sobre minas, brincando sobre explosivos.</p>
<p>defendendo essas idéias que garantem a civilização</p>
<p>com verdades discutíveis, discutidas, indiscutíveis,</p>
<p><em>y un poco de muerte.</em></p>
<blockquote><p><em></em> <em>Trecho da obra de ficção inédita </em>A Espécie Humana<em>, de 2003</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Historinha das Minas Gerais</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 00:50:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[Dona Mariquinha era uma donzela. Sempre arrumadinha, sempre na janela. De roupa engomada e trança penteada, tão triste e sozinha ninguém vem a ela. Tinha uma cadela dona Mariquinha. Acendia a vela quando era noitinha. A cachorra amada, com a casa fechada, vigiava a donzela, vigiava a casinha. &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. Auauau auauau. &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. Auauau auauau. Dona [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dona Mariquinha</p>
<p>era uma donzela.</p>
<p>Sempre arrumadinha,</p>
<p>sempre na janela.<span id="more-1184"></span></p>
<p>De roupa engomada</p>
<p>e trança penteada,</p>
<p>tão triste e sozinha</p>
<p>ninguém vem a ela.</p>
<p>Tinha uma cadela</p>
<p>dona Mariquinha.</p>
<p>Acendia a vela</p>
<p>quando era noitinha.</p>
<p>A cachorra amada,</p>
<p>com a casa fechada,</p>
<p>vigiava a donzela,</p>
<p>vigiava a casinha.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>Auauau auauau.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>Auauau auauau.</p>
<p>Dona Mariquinha</p>
<p>ouviu a cadela</p>
<p>indo na cozinha.</p>
<p>Mas que noite, aquela!</p>
<p>Levantou-se amuada</p>
<p>e viu, assustada,</p>
<p>que uma sombra vinha</p>
<p>bem junto à janela.</p>
<p>Deu uma piscadela</p>
<p>pra que a cachorrinha</p>
<p>tivesse cautela,</p>
<p>e ficou quietinha.</p>
<p>Veio uma pancada</p>
<p>na porta trancada</p>
<p>e uma voz que gela</p>
<p>chama a coitadinha.</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>Dona Mariquinha</p>
<p>beijou a cadela.</p>
<p>Pôs leite e farinha</p>
<p>na sua gamela.</p>
<p>Não mais assustada,</p>
<p>mas bem descansada,</p>
<p>pois a cachorrinha</p>
<p>defendera a ela.</p>
<p>E apagada a vela,</p>
<p>chegada a noitinha,</p>
<p>deitou-se a donzela</p>
<p>e ficou quietinha.</p>
<p>De novo a pancada</p>
<p>e a voz que brada.</p>
<p>Dona Mariquinha,</p>
<p>mas que voz, aquela!</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>Limpando a cozinha,</p>
<p>lavando panela,</p>
<p>sonhava sozinha</p>
<p>a pobre donzela.</p>
<p>Ficava sismada,</p>
<p>tremia por nada.</p>
<p>E, assanhadinha,</p>
<p>ficou tagarela.</p>
<p>Sobre os sonhos dela,</p>
<p>quem é que adivinha?</p>
<p>Com flor na lapela,</p>
<p>um príncipe vinha,</p>
<p>de roupa enfeitada,</p>
<p>coroa e espada,</p>
<p>em carruagem bela,</p>
<p>de sua mãe, rainha.</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>O tempo ia e vinha</p>
<p>passando, e ela,</p>
<p>fritando galinha,</p>
<p>limpando a chinela,</p>
<p>toda apaixonada</p>
<p>espera a chamada.</p>
<p>Mas a cachorrinha</p>
<p>não poupa sua goela.</p>
<p>O sangue congela</p>
<p>de ira daninha.</p>
<p>Pegou a cadela,</p>
<p>quebrou-lhe a espinha.</p>
<p>Deixou-a jogada</p>
<p>e ficou trancada.</p>
<p>Mas que voz, aquela,</p>
<p>que do quintal vinha?</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>Aquela vozinha</p>
<p>era da cadela</p>
<p>que, mesmo mortinha,</p>
<p>defendia a ela.</p>
<p>Inda mais irada,</p>
<p>toda transtornada,</p>
<p>Dona Mariquinha</p>
<p>queimou a cadela.</p>
<p>Foi junto à pinguela</p>
<p>atrás da casinha,</p>
<p>jogou a cadela</p>
<p>dentro da covinha.</p>
<p>Depois de enterrada</p>
<p>a cachorra odiada,</p>
<p>apagou a vela</p>
<p>e esperou sozinha.</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- Auauau, se tu cá vier!</p>
<p>Foi da cachorrinha,</p>
<p>que amava a donzela,</p>
<p>aquela vozinha.</p>
<p>De onde vinha ela?</p>
<p>Ao pó misturada</p>
<p>ficara espalhada</p>
<p>da cadelazinha</p>
<p>pelagem singela.</p>
<p>Raivosa, a donzela</p>
<p>correu à cozinha,</p>
<p>encheu a tigela</p>
<p>com água limpinha.</p>
<p>Limpou apressada</p>
<p>a casa empoeirada.</p>
<p>E, assim, da cadela,</p>
<p>nenhum pelo tinha.</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</p>
<p>- Dona Mariquinha,</p>
<p>   qui tu rango rango!</p>
<p>- &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</p>
<p>Como a cachorrinha</p>
<p>não latiu por ela,</p>
<p>Dona Mariquinha,</p>
<p>de olhar de gazela,</p>
<p>chegou deslumbrada</p>
<p>à porta fechada</p>
<p>e, bem dengozinha,</p>
<p>girou a tramela.</p>
<p>(Epílogo)</p>
<p>Não era príncipe</p>
<p>nem moço loiro.</p>
<p>Mas um bichão.</p>
<p>Peito peludo,</p>
<p>saco pendente,</p>
<p>Pinto comprido.</p>
<p>E a Mariquinha,</p>
<p>apavoradinha,</p>
<p>deitou-se na cama,</p>
<p>à espera da morte.</p>
<p>Abriu a perninha</p>
<p>e ficou quietinha.</p>
<p>Qual foi sua sorte?</p>
<p>O bicho comeu</p>
<p>Dona Mariquinha!</p>
<p>Comeu inteirinha!</p>
<p>Depois, se encolheu</p>
<p>Junto à mulherzinha</p>
<p>E adormeceu!</p>
<blockquote><p><em>Curitiba, abril 1981</em></p></blockquote>
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		<title>O Corvo de Edgar Allan Poe</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Feb 2010 17:25:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[Meia-noite era a hora; eu me lembro como agora. Eu lia livros de outrora, de ciências ancestrais, Quando, quase adormecido, ouvi um leve estalido, Alguém fazendo um ruído bem junto de meus portais. &#8220;Deve ser uma visita&#8221;, disse, &#8220;junto a meus portais.                    Isso apenas, nada mais.&#8221; Ah, memória de tormento, era um dezembro cinzento. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meia-noite era a hora; eu me lembro como agora.</p>
<p>Eu lia livros de outrora, de ciências ancestrais,</p>
<p>Quando, quase adormecido, ouvi um leve estalido,</p>
<p>Alguém fazendo um ruído bem junto de meus portais.<span id="more-1090"></span></p>
<p>&#8220;Deve ser uma visita&#8221;, disse, &#8220;junto a meus portais.</p>
<p>                   Isso apenas, nada mais.&#8221;</p>
<p>Ah, memória de tormento, era um dezembro cinzento.</p>
<p>Na lareira um fogo lento tinha brilhos espectrais.</p>
<p>Esperava pelo dia. Tentando esquecer, eu lia;</p>
<p>Esquecer a que estaria entre os anjos celestiais,</p>
<p>A quem chamam de Lenora estes anjos celestiais.</p>
<p>                   Aqui, não tem nome mais.</p>
<p>Os sussurros da cortina púrpura de seda fina</p>
<p>Torturavam com tremores fantásticos, abissais.</p>
<p>Pra acalmar o meu proscrito coração, disse eu, contrito,</p>
<p>Algum visitante aflito deve estar junto aos portais.</p>
<p>Um tardio visitante está junto aos meus portais.</p>
<p>                   É só isso e nada mais&#8221;.</p>
<p>Retomando meu alento, sem hesitar um momento</p>
<p>Eu gritei: &#8220;Senhor, lamento, mas chegar a horas tais!</p>
<p>O Senhor ou a Senhora que, gentilmente, aí fora,</p>
<p>Bate bem a essa hora de silêncios sepulcrais!&#8221;</p>
<p>Abri então minha porta, aos silêncios sepulcrais.</p>
<p>                   Só o escuro! Nada mais!</p>
<p>Espreitando o escuro horrendo, eu, ali, tudo temendo,</p>
<p>Sonhei um sonho tremendo, nunca sonhado jamais;</p>
<p>O silêncio era total. Não me deu nenhum sinal.</p>
<p>Só o nome de Lenora em dois murmúrios iguais.</p>
<p>Eu o suspirei e o eco devolveu com sons iguais.</p>
<p>                   Isso apenas. Nada mais.</p>
<p>Novamente entrei em casa, toda a alma feita em brasa.</p>
<p>Outra vez, e já mais forte, ouvi os ruídos fatais.</p>
<p>&#8220;Há alguém ali, é certo&#8221;, disse eu, &#8220;alguém desperto</p>
<p>Junto à janela, encoberto por mistérios colossais.</p>
<p>Coração, se acalme, explore os mistérios colossais.</p>
<p>                   É o vento. Nada mais&#8221;.</p>
<p>A janela abri, nervoso e voando, majestoso,</p>
<p>Entrou um Corvo vistoso, dos tempos inaugurais.</p>
<p>Não parou por um minuto, qual fidalgo absoluto</p>
<p>E de modo resoluto pousou bem junto aos portais.</p>
<p>No busto da deusa Palas, bem junto de meus portais.</p>
<p>                            Lá pousou e nada mais.</p>
<p>Tanta tristeza sentindo mas eu acabei me rindo</p>
<p>Desse pássaro de ébano com ares senhoriais.</p>
<p>“Corvo negro, renegado com o topete entrecortado,</p>
<p>Corvo antigo e enviado por tormentas infernais.</p>
<p>Qual teu principesco nome nas moradas infernais?&#8221;</p>
<p>                   Disse o Corvo: &#8220;Nunca mais&#8221;.</p>
<p>Eu fiquei maravilhado com o que tinha escutado</p>
<p>Inda que o significado das palavras cruciais</p>
<p>Não ficasse muito claro; mas com decisão, declaro,</p>
<p>Que isto há de ser bem raro: ter junto de seus portais</p>
<p>Ave, ou monstro, ali, pousado, sobre o busto, nos portais,</p>
<p>                   Com tal nome: Nunca Mais.</p>
<p>Mas depois ficou calado, como se, tendo falado,</p>
<p>Tivesse a alma esgotado em palavras tão cabais.</p>
<p>E mudo permaneceu. Nem uma pluma moveu.</p>
<p>Transtornado, disse eu: &#8220;Meus amigos, meus fanais,</p>
<p>Perdi tudo. Também ele se irá com meus fanais&#8221;.</p>
<p>                   Disse o Corvo: &#8220;Nunca mais&#8221;</p>
<p>Minha alma tremeu inteira com a resposta tão certeira.</p>
<p>&#8220;Eis a provisão grosseira de suas reservas verbais.</p>
<p>Com certeza teve um dono que,  caído no abandono,</p>
<p>Noites e noites sem sono, repetia, entre seus ais,</p>
<p>Num triste canto de morte, repetia entre seus ais</p>
<p>                   O estribilho: Nunca mais&#8221;.</p>
<p>Eu ria num pesadelo. Pois era obrigado a vê-lo!</p>
<p>A poltrona rolei junto à ave, o busto e os portais.</p>
<p>Afundado no veludo, fantasiei sobre tudo:</p>
<p>&#8220;O que quer dizer-me um Corvo de outras eras primordiais</p>
<p>Agourento, feio, vindo dessas eras primordiais,</p>
<p>                   Com o grasnado: Nunca mais?&#8221;</p>
<p>E sentado, eu meditava. Com o Corvo não mais falava</p>
<p>Mas sentia me queimando seus dois olhos bestiais.</p>
<p>Eu não concluia nada. A cabeça reclinada</p>
<p>No veludo da almofada, sob a luz dos castiçais,</p>
<p>Veludo violeta que ela, sob a luz dos castiçais,</p>
<p>                   Não tocará nunca mais!</p>
<p>Súbito o ar ficou mais denso, como se um vaso de incenso</p>
<p>Em mãos de anjos, volteasse numa dança em espirais.</p>
<p>&#8220;Deus mandou-o!&#8221;, eu gritei. &#8220;Pelos anjos, sim, eu sei,</p>
<p>Pra que eu esqueça Lenora e essas mágoas tão brutais.</p>
<p>Bebo e esquecerei Lenora e essas mágoas tão brutais.&#8221;</p>
<p>                   Disse o Corvo: &#8220;Nunca mais.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, maléfico adivinho, ave ou demônio daninho,</p>
<p>Vindo de uma tempestade ou de eras inaugurais.</p>
<p>Diga se nessa morada, desértica, assombrada,</p>
<p>Nesta casa horrorizada, adivinho, diga mais,</p>
<p>Terei eu alívio um dia, diga, imploro, diga mais!&#8221;</p>
<p>                   Disse o Corvo: &#8220;Nunca mais.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, maléfico adivinho, ave ou demônio daninho,</p>
<p>Pelo Deus que adoramos, e o céu que nos fez mortais;</p>
<p>Diga à minha alma errante se lá no Édem distante</p>
<p>Encontrarei radiante entre os anjos celestiais</p>
<p>Lenora bela e radiante entre os anjos celestiais!&#8221;</p>
<p>                   Disse o Corvo: &#8220;Nunca mais.&#8221;</p>
<p>&#8220;Seja o teu último canto&#8221;, trovejei, &#8220;já pro recanto</p>
<p>das plutônicas tormentas de tuas noites abismais!</p>
<p>Não fique nem uma pena, sinal da mentira obscena!</p>
<p>Deixe-me na solidão! Saia já de meus portais!</p>
<p>Tire o bico de minha alma, o corpo de meus portais!&#8221;</p>
<p>                   Disse o Corvo: Nunca mais.&#8221;</p>
<p>E o Corvo ali fica, tenso, pousado, quieto, imenso,</p>
<p>No busto da deusa Palas, bem junto de meus portais.</p>
<p>Traz nos olhos a demência de um demônio em sonolência.</p>
<p>Sua sombra sem clemência tem  matizes espectrais.</p>
<p>E minha alma, dessa sombra, com matizes espectrais,</p>
<p>                   Não sairá nunca mais.</p>
<blockquote><p> <em><strong>Nota de Jorge Teles</strong>:</em></p>
<p><em>Em 2000 fiz algumas apresentações de um monólogo com o texto integral de </em>O Corvo<em>, em Esperanto, traduzido por Kalman Kalocsay. Para aproveitar a música incidental, o figurino e os objetos de cena, resolvi fazer algumas apresentações em português. As traduções mais conhecidas são as de Machado de Assis e Fernando Pessoa. Nada coloquiais. Acabei por fazer a tradução acima, que apresentei umas três, quatro vezes. Angela Telles me ajudou em algumas dificuldades, com uma tradução literal. Nem todas as estrofes do original conservam rimas internas.</em></p>
<p>Campo Largo, 30/4/2001</p></blockquote>
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		<title>Minueto do cocozinho teimoso</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2009/minueto-do-cocozinho-teimoso/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 03:04:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[Cocozinho teimoso, já chegou tua hora; eu puxei a descarga, você não foi embora. Você vai lá pro fundo, fica escondidinho; quando eu menos espero, você volta inteirinho.   Cocozinho teimoso, estou sem paciência. Tô ficando irritado com a sua insistência. Você dá cambalhotas que nem um palhacinho; quando eu menos espero, você volta inteirinho. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cocozinho teimoso,</p>
<p>já chegou tua hora;<span id="more-743"></span></p>
<p>eu puxei a descarga,</p>
<p>você não foi embora.</p>
<p>Você vai lá pro fundo,</p>
<p>fica escondidinho;</p>
<p>quando eu menos espero,</p>
<p>você volta inteirinho.</p>
<p> </p>
<p>Cocozinho teimoso,</p>
<p>estou sem paciência.</p>
<p>Tô ficando irritado</p>
<p>com a sua insistência.</p>
<p>Você dá cambalhotas</p>
<p>que nem um palhacinho;</p>
<p>quando eu menos espero,</p>
<p>você volta inteirinho.</p>
<p> </p>
<p>Cocozinho teimoso,</p>
<p>estou muito zangado;</p>
<p>joguei um balde d&#8217;água</p>
<p>e eis o resultado.</p>
<p>Você desaparece,</p>
<p>eu me vejo sozinho;</p>
<p>quando eu menos espero,</p>
<p>você volta inteirinho.</p>
<p> </p>
<p>Eu peguei uma faca</p>
<p>e cortei-o ao meio.</p>
<p>Dei de novo a descarga</p>
<p>pra atingi-lo em cheio.</p>
<p>Mas eu levei um susto</p>
<p>com o que vi depois.</p>
<p>Era um cocozinho.</p>
<p>E agora são dois.</p>
<blockquote><p><em>Curitiba, 28/6/1982</em></p></blockquote>
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		<title>Curitiba, Curitiba</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 22:16:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Em versos]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu quero, agora, cantar Curitiba, cidade branca, limpa e sadia, pedindo à Musa que me não proíba.   Quero cantar miséria e alegria, munido de poética coragem e equipado de inspirada ousadia.   Começo, então, esta minha viagem procurando arrolar seus disparates, o seu trabalho e sua vadiagem.   Rua das Flores, dolés, chocolates, cafés [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu quero, agora, cantar Curitiba,</p>
<p>cidade branca, limpa e sadia,</p>
<p>pedindo à Musa que me não proíba.<span id="more-460"></span></p>
<p> </p>
<p>Quero cantar miséria e alegria,</p>
<p>munido de poética coragem</p>
<p>e equipado de inspirada ousadia.</p>
<p> </p>
<p>Começo, então, esta minha viagem</p>
<p>procurando arrolar seus disparates,</p>
<p>o seu trabalho e sua vadiagem.</p>
<p> </p>
<p>Rua das Flores, dolés, chocolates,</p>
<p>cafés e churros. Todos misturados,</p>
<p>estelionatários e engraxates,</p>
<p> </p>
<p>mendigos, bichas loucas, advogados,</p>
<p>confusão de inquietos e teimosos,</p>
<p>de ofendidos e de humilhados.</p>
<p> </p>
<p>Boca Maldita, encontro de ociosos</p>
<p>com o linguajar ferino criticando,</p>
<p>mas sem nada assumir, de tão medrosos.</p>
<p> </p>
<p>Batel, com suas bruxas convidando</p>
<p>outras bruxas pros chás beneficentes,</p>
<p>e o jornalista idiota, publicando</p>
<p> </p>
<p>suas recepções e seus presentes,</p>
<p>suas viagens pela Argentina,</p>
<p>seus filhos belos, vis e delinqüentes.</p>
<p> </p>
<p>Enquanto as filhas, diante da vitrina</p>
<p>discutem de vestidos dispensáveis</p>
<p>pra debutar a vaidade cretina.</p>
<p> </p>
<p>Nas marechais, políticos vendáveis,</p>
<p>executivos, ladrões, contadores,</p>
<p>corruptos, banqueiros execráveis,</p>
<p> </p>
<p>subornos, mordomias, mil horrores,</p>
<p>tudo de acordo com a justiça cega</p>
<p>e a proteção dos desembargadores.</p>
<p> </p>
<p>E o dinheiro secreto que escorrega</p>
<p>pros cofres da canalha protetora</p>
<p>que despoja, assassina e sonega.</p>
<p> </p>
<p>Rua Riachuelo, a domadora</p>
<p>provocando o passante com o convite</p>
<p>em troca da moeda enganadora.</p>
<p> </p>
<p>Sede das pragas mil de Afrodite,</p>
<p>fome e dor simuladas e escondidas,</p>
<p>nas máscaras de um prazer sem limite.</p>
<p> </p>
<p>Madrugadas eternas e sofridas,</p>
<p>batidas, cassetetes, frio e sono,</p>
<p>té que o sol afugente as desvalidas.</p>
<p> </p>
<p>Passeio Público, o filho sem dono,</p>
<p>filho que é só filho da empregada</p>
<p>mal paga pela mãe do abandono.</p>
<p> </p>
<p>Na areia a criança é negligenciada</p>
<p>enquanto a pobre moça fica à espera</p>
<p>do soldadinho que está de emboscada.</p>
<p> </p>
<p>Nas áreas verdes, a alegria austera</p>
<p>dos papais e mamães endomingados</p>
<p>que a TV anunciou a primavera.</p>
<p> </p>
<p>Em volta disso tudo, os amontoados</p>
<p>de cães, caixotes, latas, ferro velho,</p>
<p>lixo e alguns casebres definhados;</p>
<p> </p>
<p>as roupas com remendos no joelho,</p>
<p>nas panelas só cabeças de bagre,</p>
<p>os bens aventurados do evangelho.</p>
<p> </p>
<p>Filhos do fel diário e do vinagre,</p>
<p>disputando o diabólico pão:</p>
<p>sustentáculos do podre milagre.</p>
<p> </p>
<p>Guabirotuba, Xaxim, Boqueirão,</p>
<p>Abranches, Oficinas, Barigüi,</p>
<p>Pinheirinho, Los Angeles, Portão,</p>
<p> </p>
<p>Juvevê, Vila América, Tingüi,</p>
<p>Uberaba, Boa Vista, Cajuru,</p>
<p>Barreirinha, Cabral, Bacacheri,</p>
<p> </p>
<p>Bigorrilho, Água Verde e Ahu,</p>
<p>Alto da Quinze, Mercês e Taboão.</p>
<p>Curitiba, querida, I love you.</p>
]]></content:encoded>
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