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	<title>50 Anos de Textos &#187; Crônicas</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>O muro e a grade</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 17:30:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em frente à nossa casa havia um muro, com cerca de um metro de altura e mais de vinte centímetros de largura. Baixo e largo, acabou virando um imenso banco onde os estudantes se assentavam à espera do ônibus que os levaria ao Colégio Estadual. Em outras horas servia de arquibancada para os que queriam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em frente à nossa casa havia um muro, com cerca de um metro de altura e mais de vinte centímetros de largura. Baixo e largo, acabou virando um imenso banco onde os estudantes se assentavam à espera do ônibus que os levaria ao Colégio Estadual.<span id="more-7026"></span> Em outras horas servia de arquibancada para os que queriam assistir às gloriosas peladas dos meninos da região. Futebol que, algumas vezes, era interrompido pela chegada do coletivo, que desembarcava seus passageiros.</p>
<p>Nas noites, o nosso murinho acolhia meninos e meninas na adolescência, vizinhos amigos que comentavam os fatos corriqueiros de suas vidas e iniciavam os primeiros passos de namoros breves e outros que permaneceram ao longo dos anos e acabaram gerando famílias.</p>
<p>Era um tempo de muita timidez e costumes rígidos. O menino, depois de um período probatório de semanas, pôde enfim pegar nas mãos da namorada. O amor avança e a ansiedade juvenil demandava novas ousadias. Eis que ao se despedirem numa noite fria, e como era amena a temperatura da cidade naqueles anos, ele disse a ela que tinha um surpresa a lhe oferecer. E encostou suavemente seus lábios aos dela, naquilo que hoje chamamos de “ selinho”. Nada de línguas se encontrando, apenas o suave roçar de bocas fechadas. Enrubescida, e como os rostos das meninas e dos meninos se avermelhavam por qualquer motivo, ela lhe disse que, se aquilo se repetisse, as suas relações estariam cortadas.</p>
<p>Não me lembro ao certo quando o nosso muro recebeu uma alta grade, deixando de ser poleiro de meninos e estudantes e, talvez em nome da segurança, isolou a casa da rua. Sei com certeza que foi um movimento coletivo, pois todas as residências começaram a se proteger com paredes altas gradeadas. Perdia-se o contato físico, mas o visual continuava. Não havia ainda o medo da violência urbana, mas já havia um pressentimento de que muita coisa estava mudando na vida da cidade e das pessoas.</p>
<p>Quando a insegurança e o medo se instalaram de fato, as casas tiveram que buscar outras modernidades: alarmes e câmeras tomaram conta do pedaço. O amor seguiu novos rumos, a inocência foi aos poucos se perdendo, o tradicionalismo também.</p>
<p>A pressão social e familiar separou os dois namorados da história aqui contada.</p>
<p>Agora eles estão à minha frente contando sua aventura, os descaminhos pelo mundo, sua busca individual pela felicidade. Casaram e descasaram com outros parceiros, mudaram do país para terras diferentes, estudaram, trabalharam sem, no entanto, se realizarem afetivamente. Existia um beijo selado há muitos e muitos anos, numa noite da cidade que cheirava a “dama-da-noite”, que os marcou para sempre. Eu arrisco a dizer que se ele tivesse sido mais arrojado, avançasse mais na qualidade do beijo, talvez eles nunca tivessem se separado. Ela faz que concorda.</p>
<p>O certo é que eles agora vivem juntos, há sete anos. E guardam nos sorrisos a mesma ternura que eu conheci em minha juventude.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em maio de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>A descoberta de um novo amor</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 16:04:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Como um raio que nos enche de emoção, a paixão inesperada às vezes nos invade e revolve nosso coração, nosso corpo, nossa sensibilidade. Damos e recebemos choques que não machucam, apenas arrepiam, estremecem e alegram. Geralmente acontece com um casal que se revela em comunhão de sentidos. Mas pode ser um amigo que entra em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como um raio que nos enche de emoção, a paixão inesperada às vezes nos invade e revolve nosso coração, nosso corpo, nossa sensibilidade. Damos e recebemos choques que não machucam, apenas arrepiam, estremecem e alegram.<span id="more-6966"></span> Geralmente acontece com um casal que se revela em comunhão de sentidos. Mas pode ser um amigo que entra em nossa vida como uma dádiva, um irmão. Os primeiros momentos desse terremoto sentimental são indeléveis, impossível esquecer esse arrebatamento.</p>
<p>Pode ser a felicidade de ter nos braços, pela primeira, os filhos que o amor e a vida nos deram, esse sentir intransferível, inexplicável. Só quem passa pela mesma experiência pode entender. Os primeiros tempos de quem adquire a paternidade mudam a existência da pessoa, o que pode ser notado por todos, na rua, no trabalho ou em casa. E quem incorpora com força esses acontecimentos pode levar para sempre esse sentimento eterno de alegria, o que será muito bom para quem circula ao seu redor. Isso se acentua, mais tarde, com a chegada dos netos, motivo de inveja justa para quem não os possui.</p>
<p>Mas não é só nas relações pessoais que isso ocorre. Nunca fui o mesmo depois de bater de frente com a poesia. Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca e tantos outros admiráveis autores, no instante primeiro da revelação que tomou conta de mim, me provocaram esse tipo de distúrbio benigno que o leitor tem diante do inusitado. O que mesmo se deu no dia em que vi o filme <em>Oito e Meio</em>, de Fellini. Essa luz que acende em nós a estrada da beleza artística permanece, ao longo nos anos, com seu clarear constante e não nos abandona, nos orienta.</p>
<p>É o que está acontecendo, nestes dias, com o Leo, talentoso amigo uruguaio, produtor musical preciso, exato, em suas escolhas. Acabou de nos oferecer, junto com seu parceiro, Ronaldo Bastos, o CD <em>Liebe Paradiso</em>, obra-prima irretocável, mas que toca os que amam a boa música popular do Brasil.</p>
<p>Leo está passando por um tempo de espanto. Por obra da quantidade de artistas que gravam no país e pelo mau gosto explícito dos nossos meios de comunicação, só agora, nestes dias, ele conheceu a obra de um compositor de qualidade rara, o nosso Tavinho Moura, de harmonias e melodias supimpas. Eletrizado por esse mundo novo que se abriu aos seus ouvidos, ele passa os dias e as noites ouvindo, apreendendo e buscando entender os mistérios do compositor mineiro. Imagino a felicidade dele, envolvido nessa viagem que é uma floresta de beleza e de uma diversidade incomum.</p>
<p>Acabei de lhe enviar o único CD que ele não tinha, O aventureiro do São Francisco, que tem parcerias com Gonzaguinha, Milton, Murilo Antunes, Márcio Borges e este humilde escritor de canções que lhes fala. As ideias devem estar fervendo na cabeça do Leo e daí certamente virá coisa boa, de espantar.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em abril de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>A primeira palavra lida</title>
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		<pubDate>Wed, 02 May 2012 02:05:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[A mãe foi atender ao telefone e deixou a filha diante do computador. Na volta, a menina perguntou: “mãe, o que é cadastrar?” Por que ela queria saber isso?, foi a resposta. “É que eu li aqui”, apontou para a tela. Um arrepio tomou conta da mãe, assustada e orgulhosa. A menina já rondava, com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A mãe foi atender ao telefone e deixou a filha diante do computador. Na volta, a menina perguntou: “mãe, o que é cadastrar?” Por que ela queria saber isso?, foi a resposta. “É que eu li aqui”, apontou para a tela.<span id="more-6917"></span></p>
<p>Um arrepio tomou conta da mãe, assustada e orgulhosa. A menina já rondava, com seus desenhos, sua curiosidade e escritos, a fronteira da leitura. Eis que agora, de repente, espontaneamente, ela declara rompida a barreira do conhecimento. A primeira palavra que se lê é um acontecimento na vida de todas as pessoas.</p>
<p>E tudo aconteceu naturalmente, num macio e longo processo iniciado com os familiares e conduzido com propriedade pelos educadores. Não se ensina mais como nos tempos dos avós, mas o método atual é muito bom. Aos poucos os pequenos vão adquirindo as ferramentas que os levarão ao ponto de encontro do ler e do escrever. Cantos e brincadeiras colorem esse caminhar na busca do aprendizado da linguagem. A oral, no caso da pequena em foco, já é extraordinária, surpreendente na colocação de verbos, na concordância. Como pode, eu fico me perguntando falar dessa maneira, tão mais correta do que muitos dos adultos que conheço? Sei lá. Pode ser propensão ou, mais certo, influência dos que a cercam e educam.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzannie1.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-6918" title="zzannie1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzannie1.png" alt="" width="600" height="327" /></a></p>
<p>Aqui não falo apenas da minha clara menina, mas sua história me leva a outras. Como a do <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/o-milagre-de-annie-sullivan-the-miracle-worker/">Milagre de Anne Sullivan</a></em>, um dos filmes mais comoventes que vi em minha vida de cinéfilo. Nele, uma criança que fica cega e surda, com cerca de um ano de idade, é retirada das trevas, graças ao trabalho de uma professora, que tem a tenacidade e a perseverança de lutar, até contra os pais da pequena, para abrir as luzes do conhecimento para ela.</p>
<p>A menina conhece as palavras mas não as liga aos significados. Até que, brincando com água, murmura os sons da palavra guardados da memória de seus primeiros dias, ainda sã. Anne Sullivan soletra em suas mãos as sílabas da linguagem dos cegos e surdos. No instante, Hellen Keller, a criança, relembra a palavra e a incorpora ao que escorre pelas suas mãos. A linguagem ganha significado e ela junta, como num quebra-cabeça, todos os signos com os objetos. Passa as mãos pelo rosto da mãe e lhe fala, em sua maneira de expressar, mãe. O mesmo com o pai. Com a professora, que diz amar, grata pelo que está lhe ocorrendo.</p>
<p>O mundo fica então em suas mãos e significando.</p>
<p>Quando um adulto ou uma criança têm esse estalo de descobrir que sabe ler, o espanto do conhecimento se estabelece. Por isso é que, imaginando aqui de casa o que ocorreu na casa da mãe e da filha da minha história, eu me arrepio e sinto que a água ameaça desabar pelos meus olhos.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em abril de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Uma formiguinha</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 20:45:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Era uma vez uma formiguinha que saiu pra passear, andou, andou, andou, despencou. Isso é cantado enquanto um dedo matreiro vai fazendo cócegas na criança, que quase se desmancha e rola de rir. Pode ser assim, simples, o jeito de levar a vida. Não é mania atual, sempre houve, mas como está ocorrendo agora, no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma vez uma formiguinha que saiu pra passear, andou, andou, andou, despencou. Isso é cantado enquanto um dedo matreiro vai fazendo cócegas na criança, que quase se desmancha e rola de rir. Pode ser assim, simples, o jeito de levar a vida. Não é mania atual, sempre houve, mas como está ocorrendo agora, no presente, fico alarmado com o excesso de complicação no falar, no agir e no pensar de tanta gente.<span id="more-6877"></span></p>
<p>Não falo de questões complexas, que precisam ser analisadas com rigor e precisão. Eu me refiro ao comum das coisas, aos incidentes diários de cada um. O que pode ser feito se faz e acabou-se. O que não está ao nosso alcance, que lá fique e sigamos em frente. Uma resposta dada sem nenhuma grande intenção pode se transformar num maremoto familiar. Amores se desfazem, inimizades se criam por insignificâncias.</p>
<p>Sofrer por antecedência é algo cruel para a tranquilidade da qualquer um, mas teimamos em cometer essa insanidade. A viagem vai acabar mal, um desastre pode ocorrer, alguém vai se ferir. Ora, não é inteligente destruir o prazer antes que ele se realize. Deixe o mundo acontecer. É lógico que não dá para encher a cara de bebida , sair pela estrada e julgar que tudo está sob controle. Não vou escalar montanhas que não tenho condições de enfrentar. Vou me agasalhar no frio e me desnudar, com protetor solar, no verão. Fora essas precauções, porque supor que uma pedra vai cair em minha cabeça, que um buraco vai se abrir no meu caminho? O acontecimento só existirá no momento em que ocorrer.</p>
<p>Prefiro sonhar belezas, prever belezas, imaginar belezas. Essas, se a gente cuida bem, acabam existindo na vida de todos os que estejam dispostos a conquistá-las. O grau de contentamento com a quantidade de beleza que se quer depende de cada um. Pois a vida, por mais que o mundo faz e os meios de comunicação gostem de divulgar o contrário, tem mais amores do que dores.</p>
<p>Isso eu constato em minha experiência, eu que sou um homem comum no meio de tantos. As conversas que tenho, nos meus contatos sociais, quando exponho meu trabalho, quando dialogo com profissionais de várias áreas e condições culturais e econômicas, tudo me leva a usufruir de um sentimento incontrolável de que a vida vale a pena.</p>
<p>Tenho meus momentos de meditação, quando tento me aprofundar nos mistérios da história humana, na presença constante de poderosos subjugando os cidadãos pela guerra, pela tortura, pela prisão e pela miséria. E os movimentos cíclicos das populações na busca de liberdade e democracia.</p>
<p>Mas a música e a poesia, mais que elas, a vida, me levam para longe do ceticismo. Não tenho receita, mas seria bom que todos procurassem onde está a beleza que merecem e necessitam.</p>
<p>Quanto a mim, gosto de quem gosto e sou um coração aberto para a gostância. Quero simplesmente fazer umas cosquinhas nos netos, para que eles riam e eu com eles.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em abril de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>O país não é uma igreja</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Apr 2012 17:16:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O domingo deveria ser de descanso, de repouso dos guerreiros. Depois de trabalhar toda a semana, o cidadão imagina poder se entregar aos braços de Morfeu, sem culpa. Ficar igual celular, quando é ligado, procurando rede. No bem bom do à toa, lendo os jornais volumosos ou um livro, escutando música boa, ou simplesmente pensando. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O domingo deveria ser de descanso, de repouso dos guerreiros. Depois de trabalhar toda a semana, o cidadão imagina poder se entregar aos braços de Morfeu, sem culpa. Ficar igual celular, quando é ligado, procurando rede.<span id="more-6808"></span> No bem bom do à toa, lendo os jornais volumosos ou um livro, escutando música boa, ou simplesmente pensando. Melhor ainda, quando chega a família com os netos e a conversa corre solta, descontraída e amorosa. Esses momentos de chinelo e bermuda eu não troco por nada. E quem trocaria? Talvez esses desmiolados que só pensam em dinheiro, consumir e distribuir incivilidade pela cidade.</p>
<p>Nem sempre o previsto acontece. Pois há sempre a possibilidade mais que provável de se acordar com o som altíssimo que vem da igreja em frente. O pastor e os fiéis não entendem que nem todos querem ouvir aquelas preces coletivas entoadas em altos decibéis. Após as orações, um longo período de ensaio musical (quem disse que queremos ouvir isso?), que impede que as pessoas possam conversar dentro de casa.</p>
<p>E depois do duradouro tocar embolado de canções que mais primam pela altura do que pela qualidade, finda a tarde, vem a sessão noturna. Tudo o que foi treinado volta agora revigorado por vozes e instrumentos. E tem um sermão altissonante que, pelo volume, parece ser uma esculhambação geral nos ouvintes que não querem prestar atenção à palavra divina. Berrar não é a melhor maneira de convencer, é o que penso humildemente. Se o ensinamento for bom, os bons de espírito o acatarão mesmo se sussurrado. Melhor principalmente se sussurrado.</p>
<p>Aceito todas as religiões, respeito todas as doutrinas e ideias. É uma questão de princípio, mas também a constatação do que reza a Constituição, livro de todos os brasileiros. Sempre lembrando que o estado é laico, sou a favor da liberdade de crença, de expressão, de ir e vir, tudo o que é essencial em uma democracia.</p>
<p>Infelizmente vejo, com temor, a cada ano que passa, a invasão dos políticos ligados às crenças religiosas. Tudo certo eles defenderem seu pensamento religioso, seguirem em suas vidas particulares os conceitos de sua fé.</p>
<p>Mas não julgo correto que os deputados, vereadores e senadores, em nome do credo religioso que abraçam, queiram impor a todos os brasileiros a sua convicção. Assuntos de igreja se resolvem pela e na igreja. Se não querem se casar, se acham a bebida um absurdo, se são contra o uso de preservativos, não casem, não bebam e cultivem a abstinência sexual.</p>
<p>Quando eleitos representantes do povo, porém, não confundam o país e os cidadãos com a sua seita e seus fiéis. Cada um com sua crença e suas ações desde que não prejudique o próximo. Isso é cristão e civilizado.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em abril de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Cadê seu pai, vô?</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Apr 2012 21:25:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Um no colo do outro, avô e neto conversam. Olhos seguindo o trator carregado de cana que desfila pela estrada, o menino quer saber quando vai poder dirigir um assim, enorme, vermelho. — Um dia, responde o avô. — Hoje? — Não, hoje não. Você ainda é pequeno, seu pé nem alcança lá onde precisa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um no colo do outro, avô e neto conversam.<span id="more-6775"></span></p>
<p>Olhos seguindo o trator carregado de cana que desfila pela estrada, o menino quer saber quando vai poder dirigir um assim, enorme, vermelho.</p>
<p>— Um dia, responde o avô.</p>
<p>— Hoje?</p>
<p>— Não, hoje não. Você ainda é pequeno, seu pé nem alcança lá onde precisa alcançar, hoje não, daqui a algum tempo, primeiro tem que crescer.</p>
<p>— Amanhã?</p>
<p>— Não, amanhã não. Amanhã é quase hoje, quase a mesma coisa, um dia só de diferença, que diferença faz?</p>
<p>— Que dia, vô?</p>
<p>Olhos seguindo a poeira que o trator deixou na estrada, o homem passa a mão pelos cabelos – pretos, cacheados – do neto.</p>
<p>Ele diz que não sabe. Se soubesse, diria. Ainda não descobriu qual o melhor dia para se começar a dirigir um trator.</p>
<p>— Vô, se você não sabe, quem é que vai saber?</p>
<p>— Seu pai, quem sabe ele sabe?</p>
<p>— Ah, vô! Meu pai? Seu filho? Filho não serve, vô! Tem que ser pai. Cadê seu pai, vô?</p>
<p>Olhos na estrada, o homem vê que a poeira – também – se foi. Abraça o neto com força, um no colo do outro.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Ao vivo e em preto e branco</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/ao-vivo-e-em-preto-e-branco/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Apr 2012 19:34:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Coisas antigas, mas valem ser lembradas. Fui, há muitos anos, televizinho. Palavra que, hoje, quase ninguém sabe o que significa. Era um tempo em que o Brasil era mais pobre mas a miséria, menor. A televisão, a maior das novidades, onde já se viu rádio com imagem? Os rádios que escutavam o mundo nós tínhamos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coisas antigas, mas valem ser lembradas. Fui, há muitos anos, televizinho. Palavra que, hoje, quase ninguém sabe o que significa. Era um tempo em que o Brasil era mais pobre mas a miséria, menor. A televisão, a maior das novidades, onde já se viu rádio com imagem?<span id="more-6763"></span></p>
<p>Os rádios que escutavam o mundo nós tínhamos, mas televisão só um vizinho, em todo o quarteirão. Éramos amigos dos netos e convidados para assistirmos àquela maravilha todas as noites. Havia filmes e seriados, mas a maioria da programação era ao vivo e em preto e branco.</p>
<p>Os erros não podiam ser consertados, apenas relevados diante do improviso total das emissoras e dos artistas que se revezavam em anúncios, jornalismo, teleteatros e programas humorísticos e musicais.</p>
<p>A maioria dos profissionais que trabalhavam na emissora associada do Rio de Janeiro vinha, semanalmente, mostrar seu serviço na capital dos mineiros. Eu me lembro do Stanislaw Ponte Preta, Marlene, Hebe Camargo, Antônio Maria e muitos outros. Uma atração era especial para a garotada e a maioria dos poucos que viam tevê naquele tempo: a Praça da Alegria, comandada por Manoel da Nóbrega e que nos trazia personagens como o Zé Bonitinho, Golias e Chico Anysio. Essa eram noites mais divertidas do que as do Rin Tin Tin e outras séries americanas.</p>
<p>Houve um dia em que problemas aéreos impediram que a trupe da Praça viesse a Beagá. Só um veio, o Chico. Foi, para mim, a primeira noite da admiração. Sozinho, ele encenou uma dezena de tipos engraçadíssimos, muitos dos quais não conhecíamos.</p>
<p>O extraordinário foi a rapidez com que ele passava de um para outro tipo. Não sei se a câmera fazia algum malabarismo para desviar nossa atenção. O certo é que, por quase uma hora, os mineiros assistiram àquele show de um homem só e gostaram muito.</p>
<p>Eu me recordo até hoje do garoto de calças curtas, chupando um pirulito e dizendo “Santelmo ,você sabe por que eu faço isso”? E a resposta: “Ignoro”. Não era o mais engraçado, mas ficou marcado em minha memória.</p>
<p>Chico Anysio, ator e autor brasileiro extraordinário, se foi na mesma semana em que, finalmente, consegui assistir ao filme O Artista, vencedor do Oscar de 2012. Nunca é tarde para ver obra fascinante como essa.</p>
<p>Os apressadinhos de hoje, que pensam que ser moderno basta e que as invenções passadas nada valem, certamente não conseguem imaginar a televisão sem videotape e muito menos cinema mudo. Além de mudo, mas com uma trilha sonora muito boa, o filme francês é uma aula de cinema, um hino de amor ao cinema. Além de todas as suas qualidades, me agradou muito a citação constante de um dos filmes que eu mais admiro, A Turba de King Vidor, também silencioso. Sem palavras e sem música, mas com uma carga de emoção que me impressionou aos vinte anos e guardo comigo até hoje. É o que nos fica dos grandes autores e artistas que, como Chico Anysio, nos animaram com alegria e beleza.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em março de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Olha o outono aí, gente</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Apr 2012 16:54:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O frio que faz lá fora costuma bater na alma. E o agasalho que cobre o corpo não aquece o coração nesses momentos. Examinando bem, é apenas um arrepio de susto, que logo passa. A vida segue seu rumo, as nuvens logo se afastarão e trarão o outono, que por nossas bandas prenuncia meses e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O frio que faz lá fora costuma bater na alma. E o agasalho que cobre o corpo não aquece o coração nesses momentos. Examinando bem, é apenas um arrepio de susto, que logo passa.<span id="more-6704"></span> A vida segue seu rumo, as nuvens logo se afastarão e trarão o outono, que por nossas bandas prenuncia meses e dias de muito sol, muito azul. Manhãs exuberantes de abril, tardes límpidas de maio, noites aconchegantes de junho.</p>
<p>A vida segue seu curso, as pedras ficarão pelo caminho e nós voltaremos a cantar debaixo do flamboyant, celebrando a amizade, a comunhão e a ética, na festa de brasilidade. Debaixo dessas árvores, dentro da casa e de seus salões, há muita música e pessoas de bem convocadas para celebrar a existência digna.</p>
<p>Sou hóspede antigo desta casa brasiliense acolhedora. As conversas que essas paredes testemunharam são histórias de inteligência, talento, carinho e afeto por um país que todos amamos e queremos melhor para todos. É o lugar ideal para a conspiração dos poetas, o delírio dos loucos sadios e, ao mesmo tempo, ponto de referência da lucidez e da sabedoria. Um espaço de democracia e esperança, banhado muitas vezes por arroubos de fé.</p>
<p>É esta a morada que almejo para todas as estações, do ano e da vida. Não consigo, por mais que tente, assumir o pessimismo de Brás Cubas. Sou um otimista renitente, capaz de enxergar na bruma da noite o raio de luz que anunciará o dia.</p>
<p>Defeito de fabricação não é, pois Vinicius já dizia que é melhor ser alegre do que triste e a alegria é a melhor coisa que existe. Ao contrário, confesso me sentir muito bem feito e criado, fruto de uma família de gente simples, estudiosa e correta, que foi vencendo os obstáculos sem reclamar. Se faz frio, pego um cobertor. Se chove, guarda-chuva. Se está quente, água fria e cerveja gelada.</p>
<p>Descanso nos ombros das pessoas que gosto, me envolvo em conversas animadas a futebol, política e outras amenidades. Fosse só isso, seria um desperdício.</p>
<p>Mas há as questões relevantes das ideias sobre a humanidade e uma vontade de contribuir com um pouco de beleza para a existência dos semelhantes. Olho para minha biblioteca e constato mais uma vez que eu deveria arquivar o leitor comprador e incentivar o leitor ledor. Quanta sabedoria e poesia nos volumes que tenho à disposição nas estantes. Nem li livros que, nessa altura da vida, eu deveria estar relendo.</p>
<p>Se, como diz Brás Cubas, cada estação da vida é uma edição que corrige os erros da anterior, aproveito essa passagem do verão para o outono e volto a me prometer mais leitura gratificante, mais música no meu som e mais cinema em meus dias. E continuarei cada vez mais fora de moda.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Estado de Minas<em>, em março de 2012</em>.</p></blockquote>
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		<title>Se não está, ainda estará nos dicionários</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Mar 2012 16:16:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
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		<description><![CDATA[Resolvi fatiar o dia com uma pequena sesta antes do anoitecer. Certas tardes exigem um reforço de sono, para que a mente descanse e as energias da criação possam ser ativadas. Acordo em meio a notícias sobre os problemas criados para a população com a greve de ônibus, que deve ser justa mas pune injustamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resolvi fatiar o dia com uma pequena sesta antes do anoitecer. Certas tardes exigem um reforço de sono, para que a mente descanse e as energias da criação possam ser ativadas. <span id="more-6619"></span></p>
<p>Acordo em meio a notícias sobre os problemas criados para a população com a greve de ônibus, que deve ser justa mas pune injustamente os que dependem do transporte coletivo para trabalhar, estudar e circular com conforto pelas ruas da cidade. Os que não têm carro nem outra opção, pois o metrô, prometido há mais de trinta anos, não avança por mais que seja necessário, essencial, indispensável.</p>
<p>O telefone toca e meu amigo me consulta sobre um livro passarinheiro que anda construindo. Quer aportuguesar a palavra “loop” do inglês. Respondo argumentando sobre o fato de que se tantos usam o inglês para expressar o que poderia ser dito em bom português não há nenhum impedimento se adaptarmos para a língua pátria o idioma gringo. É o que mais se faz por aí. No momento em que publicar que as andorinhas fazem um “lupe” rasante, ele estará se antecipando aos dicionários e introduzindo um novo termo que logo estará na boca do povo, que o adotará.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzjourney11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6623" title="zzjourney1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzjourney11.jpg" alt="" width="280" height="280" /></a>Foi o que aconteceu com uma canção minha e do Milton Nascimento. Estávamos nos Estados Unidos e ele iria gravar um disco. Para contar a história de um amigo músico que conhecera lá, ele começou a escrever uma letra em inglês e me chamou para que a terminássemos juntos. Era um caso, comum na vida de todos nós, de encontros e desencontros. Um se vai, o outro fica. Quando o primeiro volta, o outro já se foi. Porque você também deixou a cidade, meu amigo?</p>
<p>Feita a letra, e terminada a melodia e a harmonia, fomos mostrar a nossa cria, que já tinha um nome: “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=rxh1ubAuXDA">Unencounter</a>”. Os letristas americanos que a ouviam logo argumentavam que aquela palavra não existia em inglês. Foram dizer isso logo para mim que, depois da segunda dose, improvisava na língua deles, dando terminações inglesas para vocábulos latinos. Eles se admiravam: você diz que não fala inglês mas emprega palavras eruditas.</p>
<p>Juntamos, eu e o Milton, a partícula negativa “un” ao termo “encounter”, encontro.</p>
<p>Perguntávamos se eles entendiam o que queríamos dizer, eles assentiam. E se há encontro, como não existe desencontro? Que país é este em que o encontrar é eterno e não há nunca o desencontrar? Naqueles tempos nem me lembrei do verso de Vinícius: “ a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida.”</p>
<p>Se eles entendiam o que queríamos dizer e se era nosso desejo, introduzimos, com a gravação do disco <em>Journey to dawn</em>, a palavra “unencounter” no idioma deles.</p>
<p>Em português, nossa cria veio a se chamar “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=OlcQE4NeXow">Canção da América</a>”, canto à amizade que resiste ao tempo, à distância e às intempéries.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em março de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>O nome de Thor</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Mar 2012 16:47:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O nome de Thor, filho de Eike Batista, envolvido no acidente com o ciclista na Baixada Fluminense, remete automaticamente ao personagem principal da mitologia nórdica. Lá, o deus Thor é uma espécie de Zeus, cuja contrapartida ao Olimpo é Asgard. À semelhança do grego poderoso, Thor também lança raios, com a diferença de que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O nome de Thor, filho de Eike Batista, envolvido no acidente com o ciclista na Baixada Fluminense, remete automaticamente ao personagem principal da mitologia nórdica. Lá, o deus Thor é uma espécie de Zeus, cuja contrapartida ao Olimpo é Asgard.<span id="more-6601"></span></p>
<p>À semelhança do grego poderoso, Thor também lança raios, com a diferença de que o faz com seu martelo mágico em vez das mãos. E, ao contrário do Thor Batista, que conduzia uma Mercedes-Bens SLR MacLaren F-1, o ruivo escandinavo tem como veículo uma carruagem puxada por dois bodes.</p>
<p>Parece pouco, se for levado em conta que o automóvel SLR pode chegar a 400 km/h. Mas, para contrabalançar, essa máquina tão veloz não produz trovões com os pneus, como faz a carruagem divina ao se movimentar no céu.</p>
<p>Por fim, Thor é filho do deus supremo Odin e da deusa Jord.</p>
<p>Naturalmente, Eike e Luma de Oliveira, que geraram Thor Batista, não adquiriram tal status. Mas o fato de Eike se colocar com o sétimo homem mais rico do mundo, segundo a revista norte-americana Forbes, já é alguma coisa.</p>
<p>E já que estamos falando de mitologia nórdica, é possível imaginar que as Valquírias, espécie de anjos loiros do imaginário escandinavo, já tenham recolhido a alma do ajudante de caminhão Wanderson Pereira dos Santos, vítima do acidente, como faziam com os guerreiros mortos.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no Diário do Comércio, em 23/3/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Os poetas</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Mar 2012 19:18:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Os poetas escrevem versos e os enviam aos leitores como carta de náufrago. Não têm esperança de serem muito lidos, mas almejam pelo menos a atenção dos colegas de profissão. Se o acaso, após várias edições minúsculas bancadas por suas pequenas economias, os levam a alguma espécie de reconhecimento público, é como se o mundo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os poetas escrevem versos e os enviam aos leitores como carta de náufrago. Não têm esperança de serem muito lidos, mas almejam pelo menos a atenção dos colegas de profissão.<span id="more-6579"></span> Se o acaso, após várias edições minúsculas bancadas por suas pequenas economias, os levam a alguma espécie de reconhecimento público, é como se o mundo se debruçasse diante de seu talento. Poetas escrevem para poetas, o que nos leva a concluir que os que o lêem também o são ou, no mínimo, comungam da mesma sensibilidade. O leitor de poesia fornece o combustível para que eles prossigam.</p>
<p>A poesia, por mais que digam o contrário os práticos do mercado, tem um poder avassalador. Inocula a alma das pessoas e se transmite por gerações. Criada sem nenhuma ambição econômica, ela acaba por criar uma força tão forte como o dinheiro. Ela ri dos poderosos e expõe o ridículo dos ditadores, pois todos eles têm tempo de validade. A poesia não.</p>
<p>Nos tempos de Homero, Virgílio ou Camões, séculos e até milênios antes do capitalismo, a recompensa pelas obras criadas por eles era, no máximo, a glória contemporânea ou futura. O mesmo se pode dizer das artes da pintura e da escultura. Até que os mecenas financiassem o trabalho desses gênios.</p>
<p>Aí vieram o iluminismo, a idade das luzes, a revolução francesa e os direitos humanos.</p>
<p>A valorização do cidadão, senhor do Estado, a quem somente delegava poderes, a conquista da democracia, do governo para todos, da igualdade, da fraternidade e da liberdade. Nos versos de Cecília Meireles, “liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”</p>
<p>Depois de 14 de julho de 1789, os cidadãos escritores, poetas e artistas se levantaram na defesa de seus direitos de autores. No restaurante “Les Ambassateurs”, textos escritos por eles eram encenados e eles não recebiam nada. Tudo ali era pago: os vinhos e champagnes, as requintadas refeições.</p>
<p>Numa certa noite, toda a Paris cultural se dirigiu àquela casa de pasto e espetáculo.Todos comeram e beberam do melhor. Na hora da conta, disseram que não pagariam nada, da mesma forma que suas obras não eram remuneradas. Chamou-se a polícia, instaurou-se a polêmica e daí resultou a criação da primeira sociedade de autores teatrais. Depois dela, centenas foram fundadas em todos os países, no ocidente e no oriente, em defesa dos criadores e de suas obras.</p>
<p>Disse acima que o leitor de poesia também é poeta, pois participa com sua sensibilidade da criação que o autor lhe oferece. O mesmo vale para quem escuta e canta canções, assiste a filmes, contempla as belezas plásticas e lê romances.</p>
<p>Mas essa parceria inexiste quando, em nome da existência de novos meios de comunicação, pessoas e empresas renegam o que é conquista da civilização e burlam o direito dos autores que dizem amar. Não amam.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em março de 2012. </em></p>
<p><em>Sobre as tentativas de atacar os direitos autorais, vale a pena ler <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cortesia-com-o-chapeu-alheio-,849983,0.htm">editorial de </a></em><a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cortesia-com-o-chapeu-alheio-,849983,0.htm">O Estado de S. Paulo</a><em><a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cortesia-com-o-chapeu-alheio-,849983,0.htm"> sobre projeto de autoria do Ministério da Cultura</a>, &#8220;Cortesia com chapéu alheio&#8221;. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O direito de ir e vir</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Mar 2012 17:14:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[A moça síria e o moço druso se amam e querem viver juntos. Eles se conheceram em Damasco, estudantes. Entre o gostar e o viver juntos, porém, existe uma barreira desumana. Um muro, uma fronteira canalha como tudo o que existe para impedir que homens e mulheres convivam normalmente. Entre o afeto deles se interpõe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A moça síria e o moço druso se amam e querem viver juntos. Eles se conheceram em Damasco, estudantes. Entre o gostar e o viver juntos, porém, existe uma barreira desumana. Um muro, uma fronteira canalha como tudo o que existe para impedir que homens e mulheres convivam normalmente.<span id="more-6530"></span> Entre o afeto deles se interpõe a violência dos poderes de estados que brigam entre si e ditadores trabalham para separar, nunca para unir as pessoas.</p>
<p>Em sua origem, os governos não foram criados para isso. Mas é o que temos, basta ler a História das nações e prestar atenção no que nos mostram os meios de comunicação.</p>
<p>Ele é druso e morador de Israel. Ela mora na Síria. Entre os dois e sua felicidade existe a cerca que impede que os habitantes dos dois lados circulem, pra lá e pra cá. Como fazemos nós, pois o mundo é nosso, de todos nós. Ou deveria ser.</p>
<p>Enfrentando a burocracia estatal e depois de uma espera de dez anos, ah como o estado não suporta os amores, os futuros amantes têm a permissão de se casar.</p>
<p>Mas há uma condição cruel: atravessando a fronteira entre Síria e Israel, a noiva despede-se de seus familiares para nunca mais encontrá-los. Não há caminho de volta, ela não poderá nunca mais retornar à sua terra e aos seus pais, irmãos e amigos. Pais morrerão sem o olhar da filha.</p>
<p>Sagrado e humano é o direito de ir e vir. Qualquer lugar do mundo em que os governantes o impeçam merece desprezo e deve ser contestado. Pensar livremente, expressar publicamente esses pensamentos, fazer tudo o que seja agradável e a ninguém prejudique, amar e amar e amar. E andar por todos os caminhos que a disposição queira e a imaginação nos conduza. O mundo não foi feito para ser prisão e o homem (quando digo homem, ó censores politicamente corretos, eu quero dizer a humanidade) foi criado e gerado no amor para ser livre e feliz.</p>
<p>Minha história de vida é muito simples, não merece biografia. Sou um homem comum fazendo um trabalho que tem o mesmo valor de outros ofícios. Confesso, sem querer tirar vantagem, que desde a juventude abracei a cultura e a liberdade. Meus sonhos de país e mundo nunca aceitaram o estágio, mesmo que temporário, do autoritarismo.</p>
<p>Sempre abominei as ditaduras por mais que me falassem em ganhos em educação e saúde. Onde pude, fui lá ver. Nada justifica a tortura e o aprisionamento por pensar diferente dos poderosos do dia (o dia da História é longo e o que se segue certamente não terá os mesmos personagens).</p>
<p>Abaixo todos os muros e todas as ditaduras. Por 44 anos famílias não puderam se falar em Berlim, impedidas pela parede estúpida da política internacional.</p>
<p>Derrubar todas as barreiras, todos as ideologias, todos os dogmas. Um homem, uma mulher, seus filhos e toda a sua família valem mais do que qualquer líder. Queremos ir e andar por aí, quando quisermos, para onde quisermos. A vida é nossa e vamos vivê-la.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em fevereiro de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Eu, Polidoro</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 17:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[“Eu, Polidoro.” Essas eram as primeiras palavras de um texto curto que eu teria de dizer. Depois eu morria. Acho que minha magreza naqueles tempos inspirou meus colegas a me indicarem para o papel na peça dirigida pelo professor Ítalo Mudado. Afinal, depois de morto, eu era embrulhado em um lençol e atravessava a cena [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Eu, Polidoro.”</em> Essas eram as primeiras palavras de um texto curto que eu teria de dizer. Depois eu morria. Acho que minha magreza naqueles tempos inspirou meus colegas a me indicarem para o papel na peça dirigida pelo professor Ítalo Mudado.<span id="more-6506"></span></p>
<p>Afinal, depois de morto, eu era embrulhado em um lençol e atravessava a cena carregado pelas colegas. Meu pouco peso as ajudava.</p>
<p>Estávamos no Colégio Universitário, uma criação maravilhosa do reitor Aloysio Pimenta, destruída em poucos anos pelo autoritarismo implantado em 1964.Os ensaios aconteciam todos os sábados na então longínqua Pampulha. Essa minha primeira e única experiência teatral não acabou em desastre porque, não me lembro bem, a encenação não foi em frente ou eu é que me dispensei da tarefa.</p>
<p>O ano era o de 1965 e, ao contrário da ditadura que viria fechar os horizontes para a inteligência e a liberdade, eu vivia um momento de descobertas e alumbramentos. Desde os dois anos anteriores, em que estudei no Curso Clássico do Colégio Estadual, eu fora jogado no mundo fascinante da cultura e da arte.</p>
<p>Os poetas mais importantes para mim, até hoje, eu os conheci naquele período. E a melhor literatura que se fazia, aqui e no exterior, foi colocada diante do jovem sedento de conhecimento que eu era. E o cinema entrou no meu universo de uma maneira completamente diferente da minha visão anterior. Puseram-me em contato com Fellini, Antonioni, Visconti, Godard, Truffaut e o melhor do cinema americano. Virei cinéfilo e cineclubista de corpo inteiro. Assistia, praticamente, um filme por dia. Os bons e os ruins, sonhador e aprendiz na sala escura.</p>
<p>Sobre esse anos escrevi há tempos um relato, “1965”, em que relembro essas emoções de minha juventude e que explica em parte o que sou hoje:</p>
<p>“Quando eu pus o pé na estrada / não sabia de estrada nenhuma</p>
<p>nem via que caminhava / no tempo em que caminhando eu ia</p>
<p>muita coisa acontecendo /mil novecentos e sessenta e cinco</p>
<p>o mundo me invadia / a cabeça era um redemoinho</p>
<p>o rumo eu fui fazendo/ sem saber que o fazia</p>
<p>ouvindo meu Miles Davis / e vendo o meu Fellini</p>
<p>cada um dos meus sentidos / bebia daquela fartura</p>
<p>a vida era teatro / cinema e literatura</p>
<p>aí eu fui descobrindo / o que era meu destino</p>
<p>falar dos sonhos do homem / com coração de menino</p>
<p>fazer amigo e amiga /e levar por toda a vida</p>
<p>seguir apaixonado /fazer a coisa bonita</p>
<p>caí na vida e na música / que abriram meu horizonte:</p>
<p>atrás eu vejo estrada / caminho eu vejo à frente.”</p>
<p>Dois anos depois, amigo de um compositor, cantor e músico que eu senti que era gênio desde que o conheci, fui surpreendido com um pedido . Queria que eu fizesse a letra de uma música sua. Ainda tímido, como nos tempos de Polidoro, demorei a aceitar o convite. Escrevi as palavras para aquela canção, que mudaria a vida de nós dois. Foi há exatos 45 anos, em 1967, que nós parimos a nossa “Travessia.”</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em fevereiro de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Carnaval, carnavais</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Feb 2012 05:54:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Não vou ao carnaval, o carnaval vem a mim em forma de lembrança e de um certo otimismo quanto ao que virá. Essa segunda parte se deve a um movimento que sinto na cidade. Aquela metrópole vazia, abandonada, está sendo substituída, aos poucos, por uma energia que se espalha pelos seus vários cantos. Como nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não vou ao carnaval, o carnaval vem a mim em forma de lembrança e de um certo otimismo quanto ao que virá. Essa segunda parte se deve a um movimento que sinto na cidade.<span id="more-6458"></span> Aquela metrópole vazia, abandonada, está sendo substituída, aos poucos, por uma energia que se espalha pelos seus vários cantos. Como nos tempos de minha adolescência, nos vários bairros começam a se formar blocos, que ensaiam aquele convívio sadio de vizinhança e desfilam nos quatros dias da folia.</p>
<p>A festa oficial, com escolas e blocos fantasiados, foi transferida para um ponto central, o que facilita a vida de quem gosta de assistir ao desempenho alegre e pouco endinheirado das agremiações que tradicionalmente levantam o ânimo dos foliões. A diferença em relação à magnitude dos desfiles do Rio e de São Paulo, em termos econômicos, se dilui quando se conhece o cotidiano das pessoas que fazem o carnaval durante todo o ano em suas comunidades. A grandeza humana é a mesma.</p>
<p>O reinado de Momo continua a nos encantar com seu trânsito calmo e civilizado. Mas os bares e restaurantes, em grande quantidade, não fecham mais nesse período, o que atende à população que não viaja e nem pula carnaval. É muita gente.</p>
<p>Por ser tímido, nunca fui muito carnavalesco. Mas o cheiro de lança perfume e, mais tarde, uma dose de cachaça intragável misturada a refrigerante fazia com que eu acompanhasse meus amigos do ano inteiro por aqueles quatro dias de sonhos, desejos e muito suor. Ficava nisso, sem maiores conseqüências. Não havia briga e muito menos namoro. Mas sobravam histórias para serem comentadas nas tardes das quartas-feiras de cinzas. Só no ano que vem, dizíamos todos, com a cabeça ainda repleta das marchinhas ouvidas na maratona dos bailes dos clubes e nas ruas.</p>
<p>Era um tempo em que se tocava, nos rádios, as marchinhas do Lamartine, do Kelly e as marchas mais calmas, como &#8220;As Pastorinhas&#8221; de Noel e Braguinha, que serviam de pausa para respirar. Hoje é igual. Mas ouvia-se, também, na nossa cidade, ao lado dos sucessos nacionais, as composições de autores mineiros, como Celso Garcia e Rômulo Paes. “ ê ê Maria, tá na hora de ir para Rua da Bahia&#8230; as águas já rolaram na Rua da Bahia mais do que em Três Marias”.</p>
<p>Mas uma música, em especial, agradava a todos os meus sentidos. Naquela época eu pensava que era de algum autor carioca e que o bairro de Santa Teresa era o do Rio. Só muito mais tarde, conhecendo o autor, Celso Garcia, fui saber que era mineira e belorizontina. Eu, que nunca fui de Santa Teresa, cantava com alegria a canção do meu amigo e torcedor do América: “ foi pra Santa Teresa que aquela beleza o bonde tomou&#8230;”</p>
<p>Nas cinzas desta quarta-feira, depois de ouvir novas marchinhas mineiras, continuo apostando na alegria.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Conversa antiga</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Feb 2012 00:51:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[(Sábado frio, chuva fina, melhor sossegar em casa, ler um livro. Antigo, de preferência. Combina com dias assim, mais sombra que luz. No fundo da estante, atropelado por obras mais recentes, enxergo o Diário de um Magro – 1997 –, de Mario Prata. Dentro, dobrada, amarelada, uma página de jornal. Uma crônica. Escrita logo após [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Sábado frio, chuva fina, melhor sossegar em casa, ler um livro. Antigo, de preferência. Combina com dias assim, mais sombra que luz.<span id="more-6397"></span></p>
<p>No fundo da estante, atropelado por obras mais recentes, enxergo o <em>Diário de um Magro</em> – 1997 –, de Mario Prata.</p>
<p>Dentro, dobrada, amarelada, uma página de jornal. Uma crônica.</p>
<p>Escrita logo após o lançamento do livro – noite fria de um sábado de maio –, e publicada em um jornal de Minas que, então, se interessava por meus textos, não me lembro porque terá ficado ali, dobrada, esquecida, talvez guardada.</p>
<p>Talvez eu quisesse enviá-la ao Mario. Falta de endereço, de telefone, sei lá – computadores ainda não faziam parte –, o certo é que ela ficou ali, dobrada, guardada, talvez esquecida.</p>
<p>Trago-a de volta, tanto tempo.)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Conversa de mineiro</strong></p>
<p>Apesar do sábado e do frio, dois bons motivos para se ficar em casa, enfrento a rua.</p>
<p>Apostando corrida com o vento úmido e insistente, chego à livraria onde Mario Prata autografa o livro novo, <em>Diário de um Magro</em>.</p>
<p>Com meu exemplar já aberto para o autógrafo, ele pergunta se posso esperar. Um pouquinho só. E chama a irmã:</p>
<p>— Rita, olha quem chegou. O Ricardo, nosso primo do lado dos Campos&#8230;</p>
<p>Rita, olhos surpresos e curiosos voltados para o irmão e o primo, ri de maneira simpática, própria de parentes que se querem.</p>
<p>Enquanto espero, ouço, maravilhada, uma daquelas conversas em que nomes e fatos, há muito esquecidos, são rememorados. Conversas que costumam trazer de volta certos tios engraçados, outros nem tanto, alguns primos queridos, outros nem tanto, cunhados, padrinhos, sogros. Afilhados.</p>
<p>Percebendo meu interesse, Mario toma, da mão do primo, um de seus últimos livros, <em>Filho é bom, mas dura muito</em>. Na capa, em preto e branco, uma fotografia.</p>
<p>Como se o tempo andasse pra trás, ele vai me mostrando, um a um, os integrantes daquela árvore familiar. O pai, o primo, a mãe&#8230;</p>
<p>— Cadê você? – pergunto.</p>
<p>— Aqui, no colo da minha mãe.</p>
<p>— E o Leonel? – quero saber do editor Leonel Prata, gente boa, com quem trabalho, de vez em quando.</p>
<p>— O Leonel? Ainda não tinha nascido, ficou de fora.</p>
<p>Enquanto Mario autografa meu livro, eu lhe digo que valeu a pena enfrentar o frio. Sobretudo pelas conversas.</p>
<p>— Conversa de mineiro, ele diz.</p>
<p>Mario Prata nasceu em Uberaba, onde Minas sabe que está seu nariz.</p>
<blockquote><p><em>A crônica original foi publicada em um jornal de Minas. A crônica que a reconta, no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp"><strong>primeiroprograma</strong></a>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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