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	<title>50 Anos de Textos &#187; Crônicas</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Vamos ler o Bartô</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jan 2012 18:16:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando se morre não há mais possibilidade de página em branco, a obra está completa. É deixar de existir e passar a ser, diriam os existencialistas, se é que aprendi bem a lição. Fechado e imutável, porém, o livro está ali, pronto para ser lido e desvendado. A existência é o espaço do fazer, conviver, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando se morre não há mais possibilidade de página em branco, a obra está completa. É deixar de existir e passar a ser, diriam os existencialistas, se é que aprendi bem a lição. Fechado e imutável, porém, o livro está ali, pronto para ser lido e desvendado.<span id="more-6294"></span></p>
<p>A existência é o espaço do fazer, conviver, amar e construir. Uns edificam vidas que merecem aplausos e admiração. Outros, incitam nosso desprezo e indignação. Mas não é hora de gastar cera com os desnecessários.</p>
<p>No universo da família e da amizade, quem se vai deixa marcas robustas nos corações dos que ficam. Exemplos, palavras, gestos e ações são lembrados e não há como apagar os sinais deixados na passagem. Certas pessoas, ao se desprenderam do nosso círculo de gente que respira e se move, parecem saltar de sua inexistência para dentro de nós. Não ficam nos cemitérios ou crematórios. Ficam quietos dentro de nós e, quando menos esperamos, se manifestam. Não sei como explicar isso, pois me acontece, mas é uma dose de memória boa que me fortalece, me anima a prosseguir em meu caminho, cuidando melhor de minha plantação. É uma presença que me fala do passado, mas me diz mais do presente, do futuro e do universo em que habito.</p>
<p>Há o caso dos artistas, dos criadores. Esses nos deixam, além da possível grandeza humana, algo concreto. Ainda agora está anunciado nos cinemas a exibição do filme A Música segundo Tom Jobim. Dizem que é de chorar de felicidade estética. Guimarães Rosa, que se encantou tão cedo, nos deixou um mundo de alegria, conhecimento e arrepios em seus livros que encontramos nas melhores livrarias. O poeta Drummond, depois de morto ficou quase dez anos esquecido. Hoje é lido como se estivesse por aí dando sopa.</p>
<p>Eles se vão, param de escrever, pintar, compor e filmar, mas o que eles são está nos livros, quadros, canções e filmes que criaram. Essa a maravilha da arte, que permanece além da existência de quem a cria.</p>
<p>Há muitos anos, Antonieta Cunha, minha mestra, me falou do Bartolomeu Campos de Queirós. Só fui ter uma conversa longa e proveitosa com ele muito mais tarde, numa tarde de inverno, no restaurante do Minas. Com muitos amigos comuns, eu me encontrei com ele muito menos do que merecia. Nos poucos encontros, bebi com prazer de sua sabedoria. Poucos dias antes dele nos deixar, assisti embevecido, na TV Assembléia, a um longo depoimento seu . Uma aula de vida, criatividade, liberdade, educação e arte. Um ser humano, educador e escritor que precisamos continuar a ler.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>A mulher música</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 02:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Acordei naquele dia 19 de janeiro do ano de 1982 com duas tarefas, uma burocrática e outra, poética. Saí pela manhã em direção ao banco para tratar de assuntos tributários que já nos afligiam em todo o começo de ano. De volta para casa, ajeitei meu gravador, papéis e canetas e deixei tudo preparado para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordei naquele dia 19 de janeiro do ano de 1982 com duas tarefas, uma burocrática e outra, poética. Saí pela manhã em direção ao banco para tratar de assuntos tributários que já nos afligiam em todo o começo de ano.<span id="more-6219"></span> De volta para casa, ajeitei meu gravador, papéis e canetas e deixei tudo preparado para o trabalho daquela tarde. Na hora do almoço, sentei-me à mesa com a família. Toca o telefone. Era o Claudinê Albertini, voz chorosa, me perguntando, &#8221; você está sabendo?&#8221;. Sabendo o quê?, perguntei inocentemente. Elis morreu, ele me decretou do outro lado do fio. Atônito, corri para ligar o aparelho de televisão e me deparei com a confirmação trágica do inesperado e dolorosamente triste.</p>
<p>Não houve mais almoço, apenas o início de um vazio que se foi se ampliando com o passar das horas e do dia. Mas como? Eu tinha combinado com ela que faria a letra da canção do Bituca naquele dia e levaria para São Paulo na semana seguinte, durante as gravações do novo disco.A inédita iria se juntar a uma gravação dela para &#8221; Nos bailes da vida&#8221;, imaginem.<br />
O mundo caiu sobre mim, fiquei arrasado. Minha cantora, minha amiga não poderia ter sido atingida pelo raio da morte. Meses atrás ela me apresentara, no restaurante do Othon Beagá, seu novo namorado. Antes me levara a seu apartamento para ouvir aquela gravação arrepiante de &#8220;me deixas louca&#8221;.Quanto ao namorado, senti que ela tinha necessidade de minha aprovação. Falou-me de sua inteligência e cultura. Na saída do jantar eu lhe dei um reservado recado de aprovação. E lá se foi ela, de trem azul.</p>
<p>Sentei-me no chão do meu quarto para que os repórteres que batiam à minha porta não soubessem que eu lá estava. Não tinha nada a dizer, não queria dizer nada. Sofri pela amiga, pela artista imensa, pela intérprete maior de minhas canções, de minhas idéias. Ela que armou um subterfúgio para que &#8221; Saudades dos aviões da Panair&#8221; não fosse proibida pela censura. Ela que, em pessoa, vi poucas vezes em minha vida. Mas como nos falamos pelo telefone, quanta beleza trocamos.</p>
<p>Fiquei mais de um ano sem ouvir voz de mulher cantando. E a letra que eu faria para ela cantar eu só fiz muito tempo depois, em sua homenagem. &#8220;Essa voz&#8221;, que o Milton gravou:</p>
<p>&#8220;Não se apaga, não se cala essa voz/ não se esquece, permanece essa voz/ voando livre no espaço essa voz/ eterno canto de esperança essa voz/ ela é humana e divina essa voz/ nossa amiga não parou de cantar /ela é a voz/ de todos nós/</p>
<p>não se apaga, não se cala a mulher/ o seu sorriso, o seu sonho, a fé/ sua coragem, sua enorme paixão/ canção de vida e amor vai ficar/ com as pessoas que não param de ouvir/ a sua voz, a voz /que é a voz /de todos nós.”</p>
<p>P.S.: Na última vez que eu falei aqui da minha Tia Lourdes, ela me ligou para me dizer que não aceitava visita pelo jornal. Comprei para ela um disco da Celma e Célia, de canções religiosas, antigamente cantadas nas igrejas. No dia em que eu iria lá, ela teve um problema e foi hospitalizada. E ficamos sem sua ciência,humildade e sabedoria no último dia 9. Outra mulher alma e música.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em janeiro de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Tardinha, noitinha</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 00:31:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[— A gente já não pode mais se espantar com coisa nenhuma nesse mundo, compadre. Na cozinha da fazenda, mesa de madeira, bancos também, chão de tijolos, fogão de lenha, paredes enfumaçadas, a cena se repetia, diariamente. Diariamente, naquela hora lá chamada tardinha ou noitinha, hora que, na verdade, não é uma coisa nem outra, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>— A gente já não pode mais se espantar com coisa nenhuma nesse mundo, compadre.</p>
<p>Na cozinha da fazenda, mesa de madeira, bancos também, chão de tijolos, fogão de lenha, paredes enfumaçadas, a cena se repetia, diariamente.<span id="more-6165"></span></p>
<p>Diariamente, naquela hora lá chamada tardinha ou noitinha, hora que, na verdade, não é uma coisa nem outra, sendo as duas ao mesmo tempo, o Sebastião chegava.</p>
<p>Antes de atravessar um dos porões da construção antiga, entre o curral e o terreiro, e antes de subir os onze degraus da escada de pedra da cozinha, o Sebastião Garcia tossia. Bem alto.</p>
<p>— Preciso avisar que estou chegando, compadre. Assim, se alguém estiver conversando coisas que não posso ouvir, tem tempo de parar.</p>
<p>O compadre era meu pai, o patrão.</p>
<p>Os dois falavam do que conheciam: sol, lua, estrelas, chão, terra, mato, bicho, gente, água, chuva, raio, trovão, tempestade, enchente, cerração, geada, fumaça, fogo, incêndio, estrada, mata-burro, caminhão, jipe, trem, estação, trabalho.</p>
<p>Falavam também do que não conheciam, mas podiam imaginar: o mar, no Rio de Janeiro; as touradas, na Espanha; a Primeira Guerra Mundial, a Segunda; o Palácio do Catete, o da Alvorada.</p>
<p>As conversas dos dois, que todos podiam ouvir, esticando a tardinha, ou espichando-se pela noitinha, terminavam no tom resignado – quase filosófico – do empregado:</p>
<p>— Tá tudo muito difícil, compadre, mas, assim mesmo, tá bom. A gente tendo saúde, tá bom. O mundo revirou do avesso, a gente nem pode, mais, se espantar com o que acontece, mas tendo saúde, tá bom.</p>
<p>Se os dois não tivessem partido, sem volta, há muitos anos, em busca dos mares do Rio e das touradas de Madri, eu iria contar-lhes algumas histórias.</p>
<p>Se eu soubesse, se pudesse imaginar que mundos os dois habitam, em seus dias e noites eternos, eu lhes contaria algumas histórias destes nossos tempos de hoje. Deste nosso mundo, revirado pelo avesso. Cada vez mais.</p>
<p>Histórias corriqueiras, cotidianas, de gente que está na rua, esperando o ônibus: na calçada, conversando com um amigo; na fila do banco, na porta da escola, na entrada do hospital. No farol fechado.</p>
<p>Gente que, de repente, desaparece, silencia. Gente que, em um segundo, de repente, nunca mais.</p>
<p>Acho que os compadres se espantariam, sim.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Padre Mamão e o ministro Bezerra</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 03:41:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[No Colégio Arnaldo, batina preta e rosto branco, ele gastava com vontade a saliva para ensinar aos meninos os teoremas essenciais da matemática. Tinha clareza e entusiasmo, o que me contagiava. Confesso que o que aprendi naquele ano colou em minha memória. A vida e minha vocação me levaram para longe das ciências exatas, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No Colégio Arnaldo, batina preta e rosto branco, ele gastava com vontade a saliva para ensinar aos meninos os teoremas essenciais da matemática. Tinha clareza e entusiasmo, o que me contagiava. Confesso que o que aprendi naquele ano colou em minha memória.<span id="more-6159"></span></p>
<p>A vida e minha vocação me levaram para longe das ciências exatas, mas a delícia de resolver problemas de aritmética não me abandonaram. Fiquei apenas nos fundamentos, o que não impediu que muitos anos mais tarde, estudando com minhas filhas, eu me lembrasse de tudo e pudesse ajudá-las em seus estudos. Até hoje eu tenho um certo encanto com os números, só superado pelo amor às palavras. Tudo porque tive um bom professor no momento certo. O mesmo eu não posso dizer do professor e das aulas de desenho, que me tiraram qualquer possibilidade remota de me expressar nessa matéria. O aluno era sem jeito e quem devia instruir destruiu.</p>
<p>A dívida que Marcel Camus dizia ter para seu mestre na Argélia, que o tirou do analfabetismo e abriu o caminho para que ele viesse a ser prêmio Nobel de literatura, me vem sempre à mente quando penso nos professores que tive. Tenho o maior respeito e admiração por quem trabalha para transmitir seus conhecimentos.</p>
<p>Foi o que eu disse à leitora Hortense, que dedicou sua vida a ensinar francês e inglês nos principais colégios da cidade. Ela lamenta o descaso dos nossos governantes para com a educação. Em seu voto de um ano melhor para todos, nos deseja um país mais sério. E eu lhe falo de um vídeo que eu vi, em que Anísio Teixeira, nos anos vinte do século passado, insistia na necessidade de se educar e educar e educar o povo brasileiro. Sem conhecimento o futuro do Brasil não se realizaria.</p>
<p>Pensando na boa educação e nos bons mestres, sou atropelado por um outro tipo de profissional público, o deseducador. É esse tipo de político, mas será isso política?, que trata o que é de todos como propriedade sua e de seu grupo. Pego com a mão na cumbuca, sai o ministro Bezerra a justificar o indefensável. Ministro deveria ser o que serve. E integração nacional pressupõe todo o pais, e não apenas seu estado, sua cidade ou seus familiares e partidários. No latim, professor é o máximo, o “magister”, o que conduz e orienta. Ministro é servo do príncipe; na democracia, do povo.</p>
<p>Um mês depois de começada a tragédia das chuvas em Minas Gerais e quinze dias depois da calamidade atingir o Rio de Janeiro, o referido senhor passa três horas em reuniões fechadas, diz banalidades e pega o voo de volta para Brasília. Essa não é uma questão de partido ou sigla, pois esse descaso é comum quando a administração e a políticas não são sérias.</p>
<p>Desanimador assistir ao espetáculo medíocre e antibrasileiro dessa gente. Eles deveriam voltar para a escola.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em janeiro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Arreda pra lá, 2011</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jan 2012 17:46:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Os falares do Brasil, essa riqueza lingüística contida em nosso idioma único, costumam surpreender os brasileiros que convivem com gente nascida e criada nas várias regiões do país. Há um estranhamento justificável em quem pouco viaja pelo nosso território, não frequenta os dicionários e acha que o português começa e termina no bairro elegante e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os falares do Brasil, essa riqueza lingüística contida em nosso idioma único, costumam surpreender os brasileiros que convivem com gente nascida e criada nas várias regiões do país.<span id="more-6127"></span> Há um estranhamento justificável em quem pouco viaja pelo nosso território, não frequenta os dicionários e acha que o português começa e termina no bairro elegante e chique em que mora. O jeito de se expressar do povo que habita as várias regiões brasileiras tem surpresas, histórias e muita sabedoria que devem ser respeitadas e admiradas. Não somos um povo de um só padrão. Unidade e diversidade são a nossa identidade.</p>
<p>Falo isso por que resolvi, como todas as pessoas que seguem o calendário ocidental, dar um chega pra lá no ano que terminou e deixar espaço para o que chegou. Mineiro que é mineiro, quando algo ou alguém ocupa um lugar que não será mais seu, diz “arreda.” E já notei que o pessoal do “x” estranha. Mas é só consultar o livro que desmancha dúvidas para aprender que arredar é o mesmo que afastar, desocupar, deslocar, apartar, remover e por aí vai.</p>
<p>Dito isso, arredo 2011 para colocar no pódio 2012, com o fim de vivê-lo e lhe dizer cara a cara o que quero dele. No Brasil, nossa casa de existir e morar, não suporto mais a mediocridade dos poderes, que administram com pequenez o presente e arriscam inviabilizar o futuro. Onde a lucidez e a competência para enxergar todo o horizonte, pensar e construir os caminhos para uma política que não nos impeça de alcançar o grau de cidadania que merecemos? Arreda para lá a mesquinharia de se furtar o que é público e representar não os cidadãos, mas um reles espetáculo em que tudo gira em torno de se eleger e reeleger e reeleger. São incapazes de tapar um buraco no asfalto, o que dizer de cuidar da educação, saúde, segurança, conhecimento e do bem viver dos brasileiros? São todos cegos?</p>
<p>Não. Existem alguns que enxergam, mas não comandam o barco.</p>
<p>O que vale para o Brasil vale para os governantes e assassinos globais.</p>
<p>Esses são os desejos chateados, mas eu tenho outros, mais suaves. Quero continuar gozando o sorriso e a alegria da Clara e do Lucas. Quero olhar para o casal que, do retrato, parece me observar, e ter certeza de estar trilhando uma estrada que aprendi, de solidariedade, afeto, amizade. Quero a poesia e a música, quero a felicidade de todos, começando pelos que moram em meu coração que, se não é enorme como o mundo, nele cabem toda as pessoas que amo. Minha família, meus amigos, todos os companheiros de travessia da existência e o Brasil: esses são o meu mote, meu refrão. Com eles eu canto a vida.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em janeiro de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>No vinho, a verdade</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 04:39:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ou na cerveja, no espumante, sei lá. O certo é que, inebriado ou não, a vida tem me ensinado a moderação. Não que eu não tenha cometido ou ainda não cometa exageros. Sou de carne, ossos, emoções e sentimentos, como qualquer um dos meus semelhantes. Mas eu sigo aprendendo e um dia, se der tempo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ou na cerveja, no espumante, sei lá. O certo é que, inebriado ou não, a vida tem me ensinado a moderação. Não que eu não tenha cometido ou ainda não cometa exageros. Sou de carne, ossos, emoções e sentimentos, como qualquer um dos meus semelhantes. Mas eu sigo aprendendo e um dia, se der tempo, chego lá.<span id="more-6099"></span></p>
<p>Sinto que a mente acelera a lucidez e a poesia quando alimentada por uma dose civilizada. Tudo se torna sintetizável em frases curtas e definitivas. Certa vez, em Brasília, passando de carro em frente da catedral majestosa, disse a meu amigo Paulo Sérgio Valle: “ só um ateu poderia ter feito isso”. As formas externas parecem buscar o eterno, o espiritual, o absoluto, a proteção. Mãos aos céus, não mãos ao alto. Findo aquele momento em que meu sangue se misturara àquilo que Cristo dissera ser o seu, continuo apreciando o que eu decretei naquela noite da capital brasileira.</p>
<p>Ainda agora no Natal, cercado pela família amorosa, e com o rubro da verdade circulando pelas veias, e os ditos saem naturalmente e sem aviso de minha boca, afirmei que “ o álcool é que fez andar o mundo, a humanidade.” Repeti o dito para o meu cunhado, pensando nos egípcios, gregos e romanos, que nos indicaram caminhos do conhecimento, mas também nos humanos da pré-história a colher líquidos fermentados derramados de vegetais.</p>
<p>Essa reflexão não nega os males que a bebida traz quando usada de forma excessiva, irresponsável. Até o amor imoderado não faz bem. Quantos se destróem e infelicitam os seus, todos conhecemos casos e mais casos. E os que bebem e saem pilotando carros pelas ruas das cidades, matando e aleijando inocentes.</p>
<p>Pensando nisso, e não querendo ser mais um imbecil nas estatísticas dos causadores de mortes no trânsito, sempre ando de táxi, e isso faz muito tempo, quando há possibilidade de alguma cerveja ou vinho no meu destino. Louvo as campanhas educativas, apesar de pensar que a lei seca poderia ser melhor do que é. Mais racional, o que nem sempre é possível esperar de nossos legisladores.</p>
<p>O fato é que, proibido o álcool em qualquer quantidade, em todos os fins de semana, de tarde e nos dias de festa, a procura pela condução é muito maior do que a oferta. Os telefones não atendem, os carros que passam pelas ruas estão ocupados. Antes e depois da ceia de Natal, os cidadãos de Belo Horizonte ficaram chupando dedos nas esquinas. A Prefeitura precisa agir rapidamente para resolver esse problema.</p>
<p>Lá se vai 2011. Um ano em que se perde a mãe não pode ser bom. Um ano em que nasce o segundo neto só pode ser bom. A vida é assim: enquanto uns nos deixam outros chegam. Memória e tristeza, nascimento e alegria.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no Estado de Minas, em dezembro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Chove mas não pinga aqui dentro</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 21:59:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Impossível não falar na chuva quando ela bate incessantemente nos telhados, alagando ruas, derrubando casas e muros, destruindo esperanças e conquistas. Um pavor assistir à enchente chegando, virando carros, paralisando o trânsito, desbarrancando morros. Ela, que lava tudo, sujando de lama as avenidas, os quartos, os móveis. O tempo é dela, mas a cada ano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Impossível não falar na chuva quando ela bate incessantemente nos telhados, alagando ruas, derrubando casas e muros, destruindo esperanças e conquistas.<span id="more-6068"></span></p>
<p>Um pavor assistir à enchente chegando, virando carros, paralisando o trânsito, desbarrancando morros. Ela, que lava tudo, sujando de lama as avenidas, os quartos, os móveis. O tempo é dela, mas a cada ano ela nos engana mais. Fica meses desaparecida, deixando secas as gargantas e o ar das cidades. Todos reclamam de sua ausência, clamam aos céus e aos santos de todas as religiões para que ela volte.</p>
<p>No fundo, a querem mansa, prazenteira, como nos dizia Jobim. Mas ela é cheia de vontades. Reaparece por trás de raios e trovões. No ano passado não respeitou, na serra fluminense, nem a morada do Maestro, que veio abaixo sem dó nem piedade.</p>
<p>Um senhor, no elevador, lembra que ela boa para os reservatórios de água que dão luz. Para o resto do ano é bom, mas as cidades sofrem muito com o ímpeto plúmbeo. E a luz elétrica, que no Brasil dela depende, acaba sumindo com os postes, torres e fiação desmantelados.</p>
<p>Para as plantações ela é indispensável. Mas mesmo nesse caso costuma fazer estragos, descendo com violência ou em forma de granizo. O certo é que não há quem a controle e muitos dizem que o seu desvario vem da ação irresponsável dos seres humanos, que tratam o planeta como se tudo fosse permitido e nada nos seria cobrado.</p>
<p>É claro que haviam tragédias climáticas nos tempos antigos. E, por causa da morosidade das comunicações, não eram do conhecimento da maioria da humanidade. Mas a natureza está gritando muito forte, e com uma constância nunca imaginada, para que a ouçamos.Tantos eventos catastróficos quase diários em todas as regiões do mundo não podem ser devidos apenas à coincidência.</p>
<p>O verdismo comete exageros e equívocos que, se não comprometem, não ajudam a avançar o desejo coletivo de uma Terra mais limpa e habitável.</p>
<p>E os que se põem radicalmente contra qualquer medida de combate à poluição desenfreada praticada em nome de um desenvolvimentismo suicida precisam ser mais razoáveis e menos egoístas.</p>
<p>Volto à chuva que cai nesses dias. Limpei com antecedência as calhas de casa ( uma árvore municipal vizinha despeja um mar de sementinhas no meu telhado). Por essa precaução, posso ouvir sossegado a tempestade que molha a cidade e, graças, não pinga aqui dentro.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em dezembro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Os meninos e Juan Miró</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 02:18:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
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		<description><![CDATA[As crianças de cinco anos aprendem na escola a magia do traço de Juan Miró. São pequenas, mas falam com uma desenvoltura admirável sobre o que aprenderam. As características essenciais da pintura surrealista contrastando com o olhar real de um outro artista, que retrata animais e objetos que todos conhecem. A simples percepção da diferença [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As crianças de cinco anos aprendem na escola a magia do traço de Juan Miró. São pequenas, mas falam com uma desenvoltura admirável sobre o que aprenderam. As características essenciais da pintura surrealista contrastando com o olhar real de um outro artista, que retrata animais e objetos que todos conhecem. A simples percepção da diferença de foco já é um achado.<span id="more-6025"></span></p>
<p>A sensibilidade menina percebe a estrela sempre presente nas obras do pintor catalão. E vê que as pessoas que ele traça na tela são desconstruídas, misturadas, todos os pedaços lá estão mas de forma desorganizada, diferente. Agora eles vão tentar reproduzir o que aprenderam. E vários Mirós surgem na sala feliz. Pais e avós, orgulhosos, sorriem pelos olhos e pelas bocas.</p>
<p>A arte educa. Um dos caminhos é a música. E como a meninada gosta de cantar. Há, desde alguns anos, um movimento de criação de canções de qualidade para eles. De várias cidades do país chegam melodias e letras, para a garotada, superiores ao que é oferecido aos adultos nos meios de comunicação de massa. Cantando e contando histórias vai-se construindo uma possibilidade de criação de melhores cidadãos. Pelos que estão no meu raio de influência eu procuro fazer a minha parte.</p>
<p>O desenho é outra vereda para se atiçar a sensibilidade dos pequenos. Eles movem suas mãos conduzindo lápis, giz e pincéis, e preenchem o vazio do papel de acordo com seu controle motor, sua personalidade e imaginação.</p>
<p>Muitas escolas, hoje, não querem repetir o erro cometido contra os que são pais e avós agora. Os meninos vinham da infância cheios de vontade de invenção e eram jogados em um ensino formal que lhes tirava toda sede de criar. As aulas de desenho que tive no colégio fizeram com que eu odiasse aquela matéria. Professor é essencial, mas é uma profissão que pode abrir ou fechar, encaminhar ou desviar o rumo de seus alunos.</p>
<p>Mas o que eu sinto nesta escola, que visito sempre, é que se usa arte e beleza para fazer a criançada crescer. A educação tem de ser um jogo agradável, um despertar para o conhecimento. E quando se dança, se canta, se pinta e se brinca; quando há sensibilidade nos mestres, pois são mestres essas moças que cuidam dos primeiros passos dos que amamos, toda esperança e otimismo têm razão de ser.</p>
<p>Os desenhos desses menino me lembram os que eu nunca mais consegui fazer. Eu admiro a inocência e a coragem implícita que eles possuem de se aventurar entre rabiscos que se tornam coisas belas. Dou um beijo na menina que me fez vir a esse encontro e saio pela rua inundado de felicidade.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em dezembro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>&#8220;Deus existe!&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Dec 2011 22:35:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, domingo, fui, como faço todos os dias, beber alguma coisa em um determinado boteco no Guarujá. É um boteco do qual gosto muito, ao contrário de minha mulher, que não vê ali atração alguma (acho que as mulheres não costumam ver nada de bom nos botecos em que seus maridos bebem, e eventualmente ficam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, domingo, fui, como faço todos os dias, beber alguma coisa em um determinado boteco no Guarujá. É um boteco do qual gosto muito, ao contrário de minha mulher, que não vê ali atração alguma (acho que as mulheres não costumam ver nada de bom nos botecos em que seus maridos bebem, e eventualmente ficam bêbados).<span id="more-5984"></span> Existe há uns 50 anos, fica na esquina de Mário Ribeiro com Petrópolis, chama-se Pérola do Atlântico (o Guarujá tem também esse apelido, e sabe-se lá – eu não sei – quem o usou primeiro).</p>
<p>Tem mesas na calçada, mas também um toldo, o que obriga os fumantes a ocupar umas mesinhas junto à rua, descobertas.</p>
<p>Levava comigo a <em>Ilustrada</em>, da <em>Folha</em>. E, lendo as matérias, tomei um susto ao ver um anúncio de página inteira em que estava uma garota excepcionalmente linda. Vestia um biquíni, tinha um dos joelhos (o direito), apoiado em uma cadeira de praia, ou outra cadeira qualquer. Maravilhosa, dava de dez a zero em qualquer top model que vi recentemente.</p>
<p>Não me contive e levei o jornal até o balcão para mostrá-lo ao Baixinho, o barman que costuma me atender. “Isso é que é mulher”, disse a ele, essa ênfase certamente impulsionada pela caipirinha que já havia bebido. O Baixinho arregalou os olhos e abriu a boca. Um outro freguês, que estava ao meu lado no balcão, olhou também e disse alguma coisa sobre umas revistas que tinha na casa dele e que, de vez em quando, a mulher descobria.</p>
<p>Bem, voltei à minha mesa. Chegaram ali três senhores que perguntaram se a mesa ao lado estava desocupada (o espaço entre as mesas é pequeno). Sim, respondi, e eles se sentaram e pediram cervejas. Continuei a ler a Ilustrada.</p>
<p>Em um instante de distração, vi que uma garota passava por nós, era bonita, e tinha um traseiro notável e ondulante.</p>
<p>“Deus existe!”, disse o senhor mais próximo a mim na mesa ao lado, olhos cravados na garota. Sorri, mas ele não se conteve e dirigiu-se a mim, olhos ainda naquele traseiro.</p>
<p>“O senhor não acredita que Deus existe?”</p>
<p>“Sim”, respondi.</p>
<p>E então tive um estalo, ou seja isso o que quer que seja.</p>
<p>“E tenho uma prova bem aqui”, acrescentei.</p>
<p>Abri a <em>Ilustrada</em> naquela página da modelo sensacional e a escancarei para ele.</p>
<p>Não disse nada. Pegou o jornal, abriu os braços para melhor expor a página aos seus dois companheiros. Sentenciou:</p>
<p>“Deus existe.”</p>
<blockquote><p><em>11 de dezembro de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Viagens sem volta</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Dec 2011 03:15:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Há poucos dias, ao terminar a leitura de Crônicas de Papel, livro simpático, e publicação cuidadosa da Editora Mercuryo Jovem, fiquei pensando em sua autora, Januária Alves. Ao criar a personagem Elis, adolescente, filha única, mãe jornalista, Januária, filha única, mãe e jornalista, de certa maneira se recria. A junção – mais que encontro – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há poucos dias, ao terminar a leitura de <em>Crônicas de Papel</em>, livro simpático, e publicação cuidadosa da Editora Mercuryo Jovem, fiquei pensando em sua autora, Januária Alves.<span id="more-5926"></span></p>
<p>Ao criar a personagem Elis, adolescente, filha única, mãe jornalista, Januária, filha única, mãe e jornalista, de certa maneira se recria.</p>
<p>A junção – mais que encontro – das duas, inevitável, não apenas confirma esperadas coincidências. Surpreende com inesperada revelação.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzcronicas.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5927" title="zzcronicas" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzcronicas.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a>Elis, as <em>Crônicas de Papel</em> contam, não é muito amiga dos livros. Em um caderno, chega a anotar: “Onde uma pessoa <strong>sem</strong> razões para ler pode encontrar <strong>cem</strong> razões para ler”? Januária, a vida inteira conta, sempre viu, leu e sentiu os livros como personagens absolutamente principais, capazes de mudar “o rumo dos acontecimentos com o rumor das palavras”.</p>
<p>Para eliminar a única e profunda aresta existente entre a autora e a personagem, surgem de maneira simples, natural e bonita, duas soluções. Duas ajudas. Primeiro, a professora. Aquela, específica, atenta. Depois, a amiga. Aquela, próxima, leitora.</p>
<p>Criando um mundo favorável às futuras leituras de Elis, espelho adolescente, Januária comove o leitor com uma densa e intensa declaração de amor aos livros.</p>
<p>Usando os mais finos instrumentos, nascidos da sensibilidade de quem, ao absorver as histórias alheias, absorve a sua própria, ela destrincha – com visível maestria –, os caminhos da leitura. Suas origens, suas fases. De onde vêm, por onde passam. Para onde vão, a leitura do livro de Januária não conta.</p>
<p>Ela deve saber que – enigma indecifrável –, não podemos nem imaginar onde as leituras nos levam. Grandes, riquíssimas viagens. Todas sem volta.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O mineiro e o minério</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Nov 2011 23:21:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Vozes da cidadania me chamam e não posso ignorá-las. Quem anda pelas Minas Gerais se deslumbra com suas surpreendentes paisagens, pelas montanhas, rios e vales. E se enamora de sua gente simples, sábia, pronta para receber com simpatia todos os viajantes. Mas quem é daqui e observa há anos o que conosco se passa, esse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vozes da cidadania me chamam e não posso ignorá-las. Quem anda pelas Minas Gerais se deslumbra com suas surpreendentes paisagens, pelas montanhas, rios e vales. E se enamora de sua gente simples, sábia, pronta para receber com simpatia todos os viajantes.<span id="more-5868"></span> Mas quem é daqui e observa há anos o que conosco se passa, esse batalhar sem fim pelo que é de interesse nacional e uma certa falta de jeito de exigir o que é devido à nossa terra e à nossa gente, o cenário não é tão belo assim.</p>
<p>Taí na cara de todos, todos os dias, o espetáculo mortal de BR -81, essa máquina de triturar brasileiros. Ou então o metrô de Belo Horizonte, obra iniciada há mais de 30 anos e, até hoje, mesmo sendo de superfície, o que é menos caro, não passa de um trenzinho vagabundo de quatro carros percorrendo míseros quilômetros. Será que dá inveja ver as estradas, metrôs e obras públicas federais de outros Estados ou o sentimento real deveria ser de vergonha?</p>
<p>Minas e sua natureza foram esburacadas e seus rios contaminados, nos tempos coloniais, quando se buscava freneticamente pelo ouro e pelo diamante. Embora a riqueza tenha sido levada para Portugal e perdulariamente gasta pelo reino ou transferida para a Inglaterra, algo daquela febre nos restou. É o que está na canção que fiz com Tavinho Moura, “ O Fruto do Ouro”:</p>
<p>“ o que ficou desse ouro depois de tanto suor, de tanta gente enterrada</p>
<p>na busca da riqueza? Para onde foi a glória, para onde o poder, se o</p>
<p>destino é um só: a eterna fortaleza?</p>
<p>ficaram casas, cidades, igrejas iluminadas, o desejo nas ladeiras e o sonho</p>
<p>dos homens, ficou o que foi escrito: as esculturas de pedra, a poesia e o canto,</p>
<p>o que ficou foi a cultura, que o povo hoje cultiva, carregando em seu andor,</p>
<p>sem saber que para tanto houve morte e muita dor.”</p>
<p>Mas o que nos restará da exploração de nosso minério de ferro e bauxita se nada for feito pelas autoridades e pelo povo mineiro, nos alerta o cidadão mineiro Paulo Rogério Lage?</p>
<p>Muito mais perversa que a exploração de petróleo em alto mar, que deve sim pagar royalties para compensar as gerações futuras, os malefícios da exploração do minério mineiro são, evidente, maiores. Ela destrói cidades, rios, estradas e montanhas. Lembrem-se do Pico de Itabira, cujo fim foi chorado por Carlos Drummond de Andrade. E da Serra do Curral, símbolo de nossa Belo Horizonte. As mineradoras têm de pagar a compensação pelo estrago que fazem e pelo minério que levam a preço de estrume de nosso país. O minério exportado deve pagar o dobro do minério que por aqui fica para se transformar em aço em nossas indústrias.</p>
<p>Vamos lá, mineiros: sempre é hora de defendermos os nossos direitos.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em novembro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Mineiro: o queijo</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Nov 2011 16:58:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Na mão a faca e o queijo. Não qualquer um, desses fabricados pelos grandes laticínios, feitos com leite pasteurizado, à moda norte-americana. Ou aquela coisa mole, soro puro, que faz sucesso nos supermercados e lojas sofisticadas do país. Trata-se de um legítimo produto cultural do povo e da história de Minas Gerais, o queijo artesanal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na mão a faca e o queijo. Não qualquer um, desses fabricados pelos grandes laticínios, feitos com leite pasteurizado, à moda norte-americana. Ou aquela coisa mole, soro puro, que faz sucesso nos supermercados e lojas sofisticadas do país.<span id="more-5812"></span> Trata-se de um legítimo produto cultural do povo e da história de Minas Gerais, o queijo artesanal produzido em terras mineiras da Serra da Canastra, do Serro ou do Alto Paranaíba.</p>
<p>Corto com vontade um pedaço de bom tamanho e passo a degustar essa delícia de minha terra, patrimônio cultural do Brasil. Apesar de ter suas qualidades reconhecidas por quem aprecia uma boa iguaria e sabe o que ele significa para os homens e mulheres daquelas regiões, que conservam um modo de fazer adquirido há cerca de três séculos &#8211; admirem-se, espantem-se, o queijo mineiro feito com leite cru é proibido de circular pelo país, não pode passar das fronteiras do Estado.</p>
<p>Uma determinação nacional de 1951 e normas burras da burocracia estatal impedem que os brasileiros conheçam, em suas cidades, essa preciosidade.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzqueijo1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5816" title="zzqueijo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzqueijo1.jpg" alt="" width="579" height="264" /></a>Os cariocas e os paulistas, por exemplo, podem comprar, nos mercados, os queijos feitos com leite cru vindos da França, da Itália e de Portugal.</p>
<p>E foi de terras lusitanas que veio a ciência de se fazer esse tipo, que se adaptou às maravilhas ao clima, à terra e às mãos mineiras. O produto estrangeiro pode, o mineiro não.</p>
<p>Esse é o tema do belo documentário de Helvécio Ratton, <em>O Mineiro e o Queijo</em>, que tem música, boa como queijo, de Tavinho Moura. Pode ser visto nas boas casas de exibição de filmes finos. Depoimentos comoventes de mulheres e homens que nasceram e cresceram vendo seus pais e avós manufaturando e que passam seus conhecimentos para os filhos e netos.</p>
<p>O amor ao queijo, que eles fazem e adoram comer com feijão, com arroz, com café, só ou com doce. Isso sem falar, no filme não se fala, no belo acompanhamento para a cachacinha, a cervejinha ou o vinho.</p>
<p>Já não podemos andar de trem. Querem varrer da história aquele mineiro que senta nos calcanhares e calmamente, com o canivete, vai modelando o fumo para o cigarro de palha. Querem acabar agora com uma tradição secular que é a vida das famílias da Canastra, do Serro e do Alto Paranaíba. O que elas sabem criar, e muito bem, é esse alimento saudável. Sabem mais que os técnicos governamentais, que parecem não perceber que o tempo de maturação nos trópicos não é o mesmo dos países gelados do Norte do mundo. Um dos queijeiros antigos diz: meus bisavós comeram, meus avós e meus pais também, eu e minha família, todo mundo comeu e come esse queijo e ninguém adoeceu por isso.</p>
<p>Liberdade para o queijo artesanal mineiro, essa a palavra da vez.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em novembro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Filhos únicos</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Nov 2011 19:30:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais de dez da noite, o ônibus deixa a rodoviária simples, no interior mineiro, e toma o rumo da maior cidade do país. Poucos metros adiante, procura o acostamento: — O senhor tem passagem? – O motorista abre a porta para o vulto que, na estrada escura, agita os braços, pedindo que ele pare. — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais de dez da noite, o ônibus deixa a rodoviária simples, no interior mineiro, e toma o rumo da maior cidade do país. Poucos metros adiante, procura o acostamento:<span id="more-5765"></span></p>
<p>— O senhor tem passagem? – O motorista abre a porta para o vulto que, na estrada escura, agita os braços, pedindo que ele pare.</p>
<p>— Não, não tenho, mas&#8230;</p>
<p>— Então, nada feito, meu amigo. O ônibus está lotado.</p>
<p>— Mas, eu só vou até aqui bem pertinho&#8230;</p>
<p>— Nada feito. Com o ônibus lotado, nada feito.</p>
<p>— Mas, é um caso de urgência&#8230;</p>
<p>— Não insista, meu amigo!</p>
<p>— Mas, esse é o último ônibus&#8230;</p>
<p>O motorista, impaciente, ameaça fechar a porta.</p>
<p>— E daí, se é o último ônibus? Não posso fazer nada!</p>
<p>— Mas eu posso!</p>
<p>Tênis, jeans, camiseta da seleção brasileira de futebol, um jovem surge do fundo do ônibus e, passagem na mão, dispara pelo corredor.</p>
<p>Em seguida, mão no ombro do passageiro sem passagem que, aproveitando a distração do motorista, já estava dentro do ônibus, ele diz:</p>
<p>— Olha aí, cara, passagem pra São Paulo! É sua! E não precisa me pagar.</p>
<p>— Mas, eu só vou aqui pertinho&#8230;</p>
<p>— Que pertinho, que nada! Aproveita, cara! São Paulo!</p>
<p>— Devo estar ficando maluco – diz o motorista.</p>
<p>E, dirigindo-se ao desertor:</p>
<p>— Se você vai mesmo desembarcar, vamos logo! Tem bagagem no bagageiro?</p>
<p>— Bagagem? Tenho não! Só essa roupa aqui, que estou vestindo. E, sabe de uma coisa? Nem emprego eu tenho. E não tenho nada pra fazer em São Paulo, cara, nada.</p>
<p>— Pra que você tá indo pra lá, então?</p>
<p>— Pra ver se arrumo emprego, mas isso é só porque todo mundo fica falando, falando. Quero nada disso não. Quero é ficar aqui, cara. Não vou deixar minha mãe sozinha, de jeito nenhum. Sou filho único! Filho único, tá sabendo? Pensa bem, cara, tem sentido ela aqui, sem eu, e eu lá, sem ela?</p>
<p>O filho único abraça – efusivamente – seu salvador, deseja-lhe boa viagem – que pertinho, que nada! São Paulo tá te esperando! –, despede-se da platéia, aperta a mão do motorista e, dançando, ganha a estrada escura.</p>
<p>O motorista faz um sinal da cruz, fecha a porta que o separa dos passageiros, liga o rádio – e o ônibus – e, mais uma vez, ganha a estrada.</p>
<p>Poucos quilômetros adiante, um sinal estridente diz que ele deve parar:</p>
<p>— Ai, meu Deus, desse jeito, essa viagem não acaba nunca! E tenho mais de quinhentos quilômetros pela frente!</p>
<p>O ex-passageiro sem passagem, tranqüilo:</p>
<p>— Eu não falei que era pertinho?</p>
<p>— Pensei que o senhor ia pra São Paulo. Pensando bem, aquela passagem caiu do céu&#8230;</p>
<p>— São Paulo? De jeito nenhum!</p>
<p>— Qual o problema, meu amigo? Medo de arrumar emprego?</p>
<p>— Não, não! Emprego eu tenho, graças a Deus!</p>
<p>— Então?</p>
<p>— Também sou filho único!</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="Mais de dez da noite, o ônibus deixa a rodoviária simples, no interior mineiro, e toma o rumo da maior cidade do país. Poucos metros adiante, procura o acostamento:">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>A morte manda lembranças</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-morte-manda-lembrancas/</link>
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		<pubDate>Mon, 07 Nov 2011 15:07:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu aprendi a gostar de Getúlio Macedo, sempre presente nas assembléias e nas festas dos compositores. Eis que chegou sua hora, como é inevitável: ele morreu no mês de outubro. E quem era ele, que não foi nenhum Getúlio Vargas, que foi ditador e democrata e deu um tiro no peito que afastou por um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu aprendi a gostar de Getúlio Macedo, sempre presente nas assembléias e nas festas dos compositores. Eis que chegou sua hora, como é inevitável: ele morreu no mês de outubro.<span id="more-5706"></span> E quem era ele, que não foi nenhum Getúlio Vargas, que foi ditador e democrata e deu um tiro no peito que afastou por um tempo a corja de vilões que nos presenteou com uma ditadura de vinte e um anos?</p>
<p>Menino, na década de cinquenta do século passado, eu não sabia de nenhum dos dois. Do primeiro eu tomei conhecimento no dia em que, morto, fui informado de que poderia continuar brincando na praça de esportes, pois não haveria aula. Ignorante do que se passava, eu até gostei de ter mais tempo para os jogos de bola. Os dramas do Brasil e da política não faziam parte do meu mundo.</p>
<p>E eu não tinha a menor idéia de que o Macedo estava presente, sempre, de segunda a sexta, no meu dia a dia, na minha imaginação. Era o tempo glorioso da Rádio Nacional, que espalhava pelo país o que se criava no Rio de Janeiro. Programas de auditório, jogos de futebol (“quem gosta de cerveja bate o pé e reclama, quero brahma”), Jorge Cury e Armando Cordeiro, Marlene e Emilinha, todas as canções primeiras em minha memória.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzgetulio.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5709" title="zzgetulio" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzgetulio.jpg" alt="" width="207" height="300" /></a>A Nacional fazia a cabeça sem querer fazer a cabeça de ninguém, essa a impressão que me ficou, diferente dos líderes de audiência de hoje. Ela era o toca-discos democrático de todos os brasileiros. Nessa época eu não conhecia as bolachas que iriam me seduzir quando cheguei à cidade grande.</p>
<p>De seis e meia às sete da noite, antes da “Hora do Brasil”, dois seriados radiofônicos nos fascinavam. Primeiro o “Anjo”, de uns dez minutos, nos preparava para a atração principal: “ Jerônimo, o herói do sertão”.</p>
<p>Ficávamos, os irmãos, com os ouvidos atentos, em silêncio, escutando o desenrolar da aventura que se passava em terras brasileiras, em que brilhavam Jerônimo, seu ajudante, o Moleque Saci, e sua noiva, Aninha. Imaginávamos cenários nossos, como o rio infestado de piranhas, onde Jerônimo era jogado pelo bandido de voz cavernosa, o Caveira e seu cúmplice, o Chumbinho. Como todo folhetim, os ganchos de cada episódio nos traziam susto e medo.</p>
<p>Por muitos anos cantei a música tema e nunca soube de quem era. Até que conheci o Getúlio Macedo, e ele, sabendo de minha boa lembrança de sua canção, me deu uma gravação original. Desde então eu posso cantá-la com a letra inteira: “Quem passar pelo sertão vai ouvir alguém falar do herói dessa canção, o Jerônimo lutador. Filho de Maria Homem nasceu, Serro Bravo foi seu berço natal&#8230;” E por aí vão Jerônimo e Getúlio Macedo.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Sonho brasileiro</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Oct 2011 00:09:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quase nove da noite, chuvinha chata – ir pra casa, nem pensar –, converso com o porteiro do prédio em que trabalho. O sotaque nordestino me conta que seu dono acalenta um sonho antigo, nascido há tempos, antes de vir pro sul. Um dia, era pequeno, viu um conjunto de casas populares. Nunca mais esqueceu. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quase nove da noite, chuvinha chata – ir pra casa, nem pensar –, converso com o porteiro do prédio em que trabalho.</p>
<p>O sotaque nordestino me conta que seu dono acalenta um sonho antigo, nascido há tempos, antes de vir pro sul.<span id="more-5582"></span></p>
<p>Um dia, era pequeno, viu um conjunto de casas populares. Nunca mais esqueceu. Aquele mundo de casinhas, todas iguais, lindas, brancas, enfileiradas, esquecer de que jeito?</p>
<p>— Você viu essas casinhas onde, Raimundo? Em sua terra, Pernambuco?</p>
<p>— Não, na Bahia. Meu pai foi lá, de carona num caminhão, visitar a mãe dele, minha avó. Eu era pequeno, ele me levou. Minha mãe não queria, ele teimou, levou.</p>
<p>— Viagem grande, de Pernambuco até a Bahia, hein?</p>
<p>— É, mas não sou de Pernambuco, não.</p>
<p>— Não? De onde, então?</p>
<p>— Alagoas.</p>
<p>— Alagoas? Terra do Collor?</p>
<p>— Isso mesmo. Gente ruim, essa aí, nem conversa com pobre. Já trabalhei pra eles, faz tempo, ainda não era casado com a Janete. Vida muito mais difícil do que essa, aqui. A sorte foi que Deus ajudou, e a gente não arranjou menino.</p>
<p>— Você tem só um filho?</p>
<p>— Só, por enquanto. Coisinha de nada, quatro meses.</p>
<p>— E a Janete? Ela gosta daqui?</p>
<p>— Gosta demais, parece que nasceu aqui.</p>
<p>— Ela também é de Alagoas?</p>
<p>— Também, do mesmo lugar, lá no sertão.</p>
<p>— E a casinha, lá na Bahia?</p>
<p>— Tão bonita. Dava pra comprar, já juntei o dinheiro. Mas a Janete não vai. Não quer nem ouvir falar no assunto.</p>
<p>— Ela acaba indo, você vai ver.</p>
<p>— Será?</p>
<p>— Acaba indo.</p>
<p>— Vai não.</p>
<p>— Vai conversando com ela, cada dia um pouquinho.</p>
<p>— Ela não quer.</p>
<p>— Você insiste.</p>
<p>— Ela não acredita.</p>
<p>— Ela não acredita que você quer ir pra lá?</p>
<p>— Ah, nisso ela acredita, tem até medo.</p>
<p>— Então, Raimundo, ela não acredita em quê?</p>
<p>— Ela não acredita que gosto de lá de verdade, que quero ir, ficar. E nunca mais voltar pra cá. Ela não acredita, nunca acreditou.</p>
<p>— Se eu pudesse te ajudar&#8230;</p>
<p>Vivo conversando com ele, mesmo em dias sem chuva, e nunca vi seus olhos brilharem tanto, como naquela noite:</p>
<p>— Você pode ajudar, sim!</p>
<p>— Como, Raimundo?</p>
<p>— Me deixando falar com ela que a gente conversou, e que você me disse essas coisas.</p>
<p>— Que coisas, meu Deus?</p>
<p>— Posso falar com ela que você, também, gosta de casa popular?</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>, em outubro de 2011.</em></p></blockquote>
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