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	<title>50 Anos de Textos &#187; Comportamento</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Femme fatale, sombras do gozo</title>
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		<pubDate>Fri, 20 May 2011 22:56:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[O feminino sempre foi o obscuro da psicanálise. Freud inquietou-se a ponto de esbravejar: “o que quer a mulher?”, impossível resposta, afiançou Lacan, traduzindo a pergunta para um mais possível: O que quer uma mulher? O feminino situa-se, psicanaliticamente, no limiar do gozo e não se traduz num dito. O feminino não tem registro. É [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O feminino sempre foi o obscuro da psicanálise. Freud inquietou-se a ponto de esbravejar: “o que quer a mulher?”, impossível resposta, afiançou Lacan, traduzindo a pergunta para um mais possível: O que quer uma mulher?<span id="more-4529"></span></p>
<p>O feminino situa-se, psicanaliticamente, no limiar do gozo e não se traduz num dito. O feminino não tem registro. É a sombra. Uma incontornável oscilação, entre o culto à mulher como enigma e o ódio à mulher como mistificação. Ambas as posições apenas acentuam o desconhecimento da verdadeira questão: a feminilidade. Nessa perspectiva, não à toa é a sedução do feminino que emerge sempre como perigo e vertigem para os personagens dos filmes noir. A constante relação de atração e repulsão entre os protagonistas &#8211; geralmente detetive e uma mulher misteriosa – constitui uma das prementes características do gênero. E não é assim, sempre, a relação do neurótico com a possibilidade de gozo? Sente-se atraído por ele e o recusa, vislumbrando ali, no gozo, o mortal?</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/05/borboleta1.bmp"><img class="alignright size-full wp-image-4530" title="borboleta1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/05/borboleta1.bmp" alt="" /></a>Os filmes noir dispensam apresentação. Retratos de sua época, apresentam um mundo de luz e sombra que dilui a moral maniqueísta &#8211; que dividia o mundo em bem e mal – em um jogo ambíguo em que a decadência, a desilusão e a incerteza são constituintes dos personagens. De forma reducionista, pode-se dizer que um típico filme noir apresenta uma série de particularidades: opera no cenário do submundo do crime; o (anti) herói é predominantemente um protagonista masculino que se vê envolvido com duas mulheres (ou com uma mulher que oscila entre os dois papéis, a mocinha inocente, devotada e leal e a femme fatal, ambígua, perigosa e excitante); o ambiente noir é predominantemente obscuro; o crime ou a ameaça dele são sempre presentes; o niilismo e pessimismo são intrínsecos a grande parte dos personagens; além disso, sob a influência do expressionismo alemão, o noir caracteriza-se tanto pelo uso particular da luz como, em termos narrativos, pela sofisticação e inovação no desenvolvimento dos enredos. Mais um pouco de clichês (deliciosos no gozo de repetir como em criança era bom a mesma história da mesma forma): ponto de vista dominante do protagonista masculino, aspectos conflitantes na narrativa e nas percepções dos personagens, uso sistemático de flasbacks e voz em off como modo de desconstrução e reconstrução da continuidade da história.</p>
<p>Uma das alegrias estéticas que encontro é, no noir, deparar-me com a realidade emergindo de forma onírica, com confrontos psicológicos tão frequentes quanto os físicos e o charmoso predomínio da ambivalência das intenções e gestos. Com narrativas formalmente marcadas pela desorientação e desconforto, com acentuada presença de comportamentos sociais aberrantes numa atmosfera intencionalmente dissonante, as narrativas noir não apresentam vencedores, vitórias ou possibilidades de redenção. O filme noir surge como teia de ilusões e de embustes que parecem conduzir à inevitabilidade da morte, acelerando esse processo tão humano. O noir um filme de morte. E morre-se em uma casa de espelhos, em múltiplas imagens e possibilidades de fim.</p>
<p>Esteticamente, os contrastes existentes no nível temático e narrativo se materializam nos filmes noir, privilegiadamente, nos altos contrates da luz. Como não lembrar Fellini? &#8220;a luz é a substância do filme e é porque a luz é, no cinema, ideologia, sentimento, cor, tom, profundidade, atmosfera, narrativa. A luz é aquilo que acrescenta, reduz, exalta, torna crível e aceitável o fantástico, o sonho ou, ao contrário, torna fantástico o real, transforma em miragem a rotina, acrescenta transparência, sugere tensão, vibrações. A luz esvazia um rosto ou lhe dá brilho.” Os filmes noir exacerbam esta concepção e apresentam o falso e o real unificados pela iluminação, com uso de contrastada fotografia em preto-e-branco, e de ângulos anti-convencionais, assim como de fontes isoladas de luz, profundidade de campo e locações naturais (isso não sou eu que digo assim da minha genialidade, é que fui ler sobre noir de tanto querer-lhe bem, em artigos científicos, dissertações, eita, tem um monte de material).</p>
<p>O espaço da tela nestes filmes se tornou mais escuro, denso e profundo. As sombras não se ausentam, mesmo quando o protagonista entra em um ambiente qualquer e acende a luz, as sombras se mantém próximas e ameaçadoras. Aliás, os filmes noir apresentam, além da utilização estilizada da luz, uma série de recursos que acentuam o clima claustrofóbico e, ao mesmo tempo, sedutor, constantes na narrativa. O caráter erótico e fatal da mulher, nos filmes, é potencializado pela luz de alto contraste que esculpe o rosto e as formas do corpo da mulher, acentua os brilhos de sedas, pedrarias, lamês, as texturas nos tecidos vestidos pelas heroínas potencializam ao máximo o brilho da luz sobre eles.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/05/borboleta3.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-4531" title="borboleta3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/05/borboleta3.jpg" alt="" width="358" height="450" /></a>Uma peculiaridade dos filmes noir que me agrada é que, apesar dos protagonistas serem, em sua maioria, homens, é do fascínio das mulheres que se trata, é a centralidade do personagem feminino que se leva na memória. É a mulher o personagem mais agudamente astuto, inteligente, intrigante. Seja ela a femme fatale, seja a redentora que remete o protagonista à possibilidade de integração num mundo estável (quimera que se perde, é claro, no decorrer da trama). Sabe, não importa que a femme fatale seja recorrentemente destruída nos filmes, é ela que se lança, incólume e vencedora, na lembrança dos expectadores. No filme noir, a questão do feminino tão cara à psicanálise se apresenta em todas as suas matizes: o que quer esta enigmática mulher que sustenta, provoca e perverte o protagonista? Como encontrá-la &#8211; objeto de gozo &#8211; e sobreviver? De onde ela fala &#8211; fálicos que somos todos &#8211; e pra onde ela aponta &#8211; o Outro gozo, que a todos encanta e atemoriza. O noir joga luz e brilho no feminino apenas para, em contraste, recordarmos que é na sombra que se coloca o feminino, no que não pode ser nomeado mas vivido.</p>
<p>Há muitos e deliciosos noir (em tempo, <em>Má Educação</em> de Almodovar, segundo ele mesmo, é um noir). Tem noir até com a Marilyn (e é um filme muito interessante passado em tempo real, tal como <em>Festim Diabólico</em>). Tem <em>Laura</em>, uma aula de roteiro, direção e interpretações. Tem Bogart no que ele faz mais melhor: ser ele mesmo sendo outros tantos. Quem sabe faço uma lista&#8230;</p>
<blockquote><p>﻿<em><strong>(*) Luciana Holanda Nepomuceno</strong>, cearense, é professora da UFERSA, em Mossoró, na área de Psicologia e Metodologia Científica. Tem um texto exquisito, nas acepções do termo em espanhol, e uma energia inesgotável: é a autora não de um ou dois blogs, mas de três: <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/">Borboleta nos Olhos</a>, <a href="http://eusouagrauna.blogspot.com/">Eu Sou a Graúna</a> e <a href="http://outrasborboletas.blogspot.com/">Outras Borboletas</a>. Nas horas vagas, colabora com um quarto e um quinto blogs, <a href="http://estrangeirosnaterra.blogspot.com/">Estrangeiros na Terra</a> e <a href="http://somiolodepote.blogspot.com/">Só Miolo de Pote</a>.</em></p>
<p><em>O texto acima foi publicado no Borboleta nos Olhos. Não me lembro de ter visto melhor, mais perfeita, mais rica definição de film noir, e por isso pedi a ela que me desse a honra de republicá-lo aqui.</em></p>
<p><em><strong>Sérgio Vaz, maio de 2011</strong>.</em></p></blockquote>
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		<title>Cuidar do meu pai, cuidar do meu filho</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Mar 2011 21:01:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>

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		<description><![CDATA[Um amigo meu, por quem tenho grande respeito e admiração, viveu uma experiência fascinante, rara, rica, de adotar como filho um rapaz que conheceu na vizinhança. Ele relatou a história em um texto que serviria de base ao processo de adoção, apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo. É uma história emocionante, contada num [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Um amigo meu, por quem tenho grande respeito e admiração, viveu uma experiência fascinante, rara, rica, de adotar como filho um rapaz que conheceu na vizinhança. Ele relatou a história em um texto que serviria de base ao processo de adoção, apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo. <span id="more-4014"></span></em></p>
<p><em>É uma história emocionante, contada num belo texto. Quando o li, pensei imediatamente em publicá-la neste site. Meu amigo e seu filho concordaram com a publicação, desde, é claro, que tivessem seus nomes verdadeiros preservados, por uma questão básica de manter sua privacidade. </em></p>
<p><em>Eis o texto. </em></p>
<p><em>(Pela transcrição, Sérgio Vaz.)</em></p>
<p>Eu tinha comprado uma casa para meu pai, na região próxima ao Pico do Jaraguá, zona norte de São Paulo, em 1979. Nela, ele viveu seus últimos cinco anos, até falecer em 1984. Desde 79, portanto, eu freqüentava a casa onde viria a morar mais tarde. Conhecia quase todos os poucos vizinhos daquela zona semi-rural, cujo atrativo era apenas a magnífica vista para a serra. Ele viveu com alegria nessa casa e tinha relações no bairro como ele nunca tivera nas casas em que morou ao longo de sua vida peregrina. Com a morte de meu pai, a casa que eu lhe dera passou a ser minha, agora de direito e de fato. Era questão de tempo: eu era mais feliz nesse lugar do que na espaçosa casa alugada que ocupava em Pinheiros. Também em Pinheiros eu tinha meu consultório de Psicologia, que prosperava fortemente, depois de minha saída de uma empresa da área química, onde por vários anos tinha sido um bem-sucedido executivo de Recursos Humanos, depois de passar por duas outras empresas multinacionais. Portanto, aos 37 anos de vida, eu estava cheio de realizações profissionais, de sucesso e de perspectivas de crescimento.</p>
<p>De 84 a 86, Jaraguá foi minha casa de fim de semana e minhas estadias me davam a oportunidade de conviver com a população local, que me recebia com grande simpatia. Meus vizinhos de parede, seu Zito e dona Luzia, tinham uma enorme família, dez filhos e uma penca de netos. Viviam ali fazia muitos anos. Irmãos e primos de seu Zito e dona Luzia também estavam no bairro desde o começo, quando a fazenda do sr. N. fora loteada e vendida, e também tinham numerosa prole, o que animava a pacata vida do pedaço.</p>
<p>Em 1986 tomei a decisão mais óbvia: eu devia morar onde era mais feliz, apesar dos vinte quilômetros de distância que passaria a ter que percorrer para ir ao consultório todos os dias. Mudei-me para a região do Jaraguá, passando a voltar para casa todas as noites, além dos fins de semana. Estava em busca de unidade e essa mudança me produziu um grande bem ao acabar com a duplicidade de residências.</p>
<p>Em diversas ocasiões e com freqüência crescente, passei a receber a visita de Nicolau, João e Mário, primos entre si, frutos do clã mencionado, os Pereira, que demonstravam grande prazer em conviver com alguém vindo de outro lugar, e principalmente, de outra faixa sócio-cultural. Nossas conversas sobre política, economia, cultura, viagens, estudos, trabalho, profissões, costumes e comportamento eram muito animadas e os três pareciam desfrutar da visão de que outros horizontes de vida eram possíveis, para além dos limites da vida de um bairro de periferia. Eu, que padecia de um mal que eu denominava de “paternidade ociosa” e tinha o risco permanente de paternar em excesso meus irmãos e meus clientes de terapia, encontrava nesse convívio um vínculo propício para cuidar do desenvolvimento deles três, associado ao meu. O bem que eu fazia a eles era equivalente ao bem que eles me faziam.</p>
<p>Em 1988, em outubro, um episódio dramático fortaleceu minha ligação com os três Pereira. Ao entrar com meu carro na garagem de casa fui vítima de um assalto a mão armada. Os ladrões me renderam, entraram na minha casa e reviraram tudo, procurando armas que eu jamais pensara em possuir. Foi uma passagem triste da qual me recuperei com a presença dos amigos de sempre, mas também com o suporte desses três novos jovens amigos que me cercaram de cuidado. Nessa época Nicolau tinha 24 anos, João tinha 22 anos e Mário tinha 14 anos.</p>
<p>O fortalecimento dos laços de afeto foi me levando a cuidar deles com muita atenção. Claro que, quem maior atenção me despertava era o que estava menos encaminhado na vida, por ser o mais jovem. Mário também era o que mais inteligente me parecia e o que apresentava melhores elementos de desenvolvimento intelectual e profissional. Já aos 13 anos ele me dissera que o que queria estudar. E eu já implicava com ele, como um pai chato, porque ele fumava e faltava na escola. Seus pais, tinham se separado fazia pouco tempo. Mário estava com o espaço do pai tão disponível quanto minha paternidade, e foi questão de tempo, pouco tempo, para que se formasse entre nós uma relação muito particular, que ultrapassava a simpatia e a camaradagem das relações de bairro e mesmo a amizade que eu tinha pelos seus primos.</p>
<p>Passei a me ocupar ativamente de supervisionar seus estudos, ensinar-lhe o bom português que minha geração tinha aprendido e tanto apreciava, inscrevê-lo em aulas particulares de inglês, e forçá-lo a freqüentar com regularidade a escola estadual onde completava seus estudos de primeiro grau. Em pouco tempo, criamos uma convivência tão próxima que sua mãe me ligava para saber se o filho ia para casa ou ficava para dormir na minha, onde ele já tinha sua cama.</p>
<p>Quando se aproximava a conclusão do antigo ginásio, propus ao Mário que ele fizesse sua matrícula na Escola Técnica N, já que o ingresso na Escola Técnica Federal de São Paulo parecia uma possibilidade remota para quem tivera uma educação formal deficiente na escola de periferia. Surpreso, ele me disse que sua família não tinha como custear uma escola particular, ao que respondi que, evidentemente, essa era uma função que eu gostaria de assumir. Poder cuidar da formação escolar, intelectual, moral e profissional dele, disse-lhe, era para mim uma grande alegria. Aceitou hesitante, meio receoso, agradecido e sem-jeito, ao mesmo tempo. Parecia que algo não estava bem encaixado na proposta que eu lhe fazia.</p>
<p>Alguns dias depois, Mário me aparece em casa durante o dia (devia ser um sábado) e me diz, grave, nos seus quinze anos: “Eu tenho uma coisa muito importante para te dizer.” Assumo a posição de máxima atenção e peço que diga. E ele me diz: “Eu só aceito tua ajuda se for dentro de uma relação de pai e filho. Se for filantropia, eu não quero!”. Profundamente comovido pela enorme dignidade da atitude do menino, expresso minha felicidade com o momento em que se formaliza, no reino do afeto, a adoção do pai pelo filho. Retribuo: “É uma honra para mim tornar-me teu pai. Tenho orgulho de você e quero que você cresça tudo o que pode crescer. Obrigado por ser tão digno. E obrigado por me pôr nesse lugar da tua vida”</p>
<p>Muita coisa acontece, a partir desse momento fundante, que confirma a natureza da relação existente entre nós como uma relação parental, já acima da amizade, da camaradagem e da simpatia inscritas na nossa história. A primeira delas diz respeito ao fato de que o pai, o Nando, embora separado da mãe e morando longe, continua pai. E eu não quero, não posso e não devo criar na cabeça de meu filho uma competição entre seus, agora, dois pais. Não é fácil, porque as comparações são inevitáveis. Mas eu insisto (com sucesso, devo confessar) em que o Mário concilie nos seus afetos, as duas figuras tão díspares de pai. “Somos muito diferentes, o Nando e eu; mas os dois te amamos e os dois te damos o melhor que te podemos dar.”</p>
<p>A segunda diz respeito à singularidade de tornar-se filho de um homem adulto e solteiro, o que pode ensejar interpretações discrepantes sobre a natureza de nossa relação. Desse risco de imagem encarrega-se o tempo. Nossa convicção nos dá suporte para enfrentar os olhares curiosos e, eventualmente, até as perguntas indiretas sobre uma possível relação homoerótica. A dúvida que víamos em alguns olhares se dissipa com o passar dos meses e dos anos e os que no passado tiveram suspeitas corrigem suas opiniões, e até passam a nos tratar com a admiração que nossa história merece.</p>
<p>A terceira coisa que acontece é o meu desejo de formalizar a adoção, seja por motivos legais, seja por razões de afeto. Passo a dizer ao Mário que quero que ele tenha meu nome e que para mim é importante consumar a adoção que fizemos um do outro. Digo que por motivos sucessórios será mais seguro que ele porte meu nome e que por motivos afetivos eu tenho o direito de ser seu pai oficialmente. Compreensivelmente, ele tem receio de magoar o pai, ao retirar seu nome dos seus documentos para pôr o meu. Aí sou eu que fico hesitante, cauteloso, cheio de cuidados. Claro que eu não quero magoar o pai biológico, mas o passar do tempo me convence de que essa é uma adoção que merece ser legalizada. Neste particular, acabo por ser complacente com a dificuldade dele em relação ao pai biológico e não insisto em meu pedido, para não pressioná-lo. Passam-se anos sem que essa questão fique resolvida, a volumando-se, em mim, o sentimento de pendência até a presente data.</p>
<p>Ao longo dos anos 90, Mário conclui seu curso técnico, faz cursinho e entra na faculdade.</p>
<p>Com marchas e contramarchas, altos e baixos, fazendo muitos esforços para compensar as deficiências e a falta de disciplina da escolaridade de base, Mário afeiçoa-se à busca de informações, torna-se um perito em navegar na Internet, desenvolve uma cultura geral que o singulariza entre seus pares, vive os dilemas de um pertencimento cada vez mais tênue ao seu mundo de origem, viaja para a Europa e conhece outros jovens de sua nova classe social, lê, indaga, pesquisa, busca, como alguém que quer achar um jeito de estar no mundo que seja seu e que seja consistente.</p>
<p>Como parte desse processo, inscreve-se em encontros de estudantes de Administração e, num deles, conhece Alessandra, encantadora moça do Paraná, cursando em Curitiba, a caminho da conclusão. Como seria de esperar, eles se apaixonam e passam a viver no vai-e-vem Curitiba / São Paulo. Algum tempo depois, ele me anuncia: “Paulo (sempre mantivemos o tratamento pré-adoção): eu não quero mais viver longe dela. Vou morar em Curitiba.” Acolho com saudade prévia, mas com alegria, essa nova manifestação de emancipação, processo sempre muito complicado para pais e filhos. Transfere sua Faculdade para lá e se muda.</p>
<p>Durante quase três anos Mário e Alessandra vivem em Curitiba, estudando e trabalhando, procurando viabilizar um volume de trabalho que o mercado local não oferece, até que, em 2003, decidem morar em São Paulo, na casa que reformamos pouco antes da mudança do Mário. A busca por um lugar onde possam trabalhar mais os leva a escolher o lugar que, desde alguns anos, lhes está destinado.</p>
<p>Minha casa é composta por vários lotes que fui comprando dos vizinhos, desde 1986, de tal forma que há cinco moradias unifamiliares, além da área de desenvolvimento infantil, e da área recreativa formada pela sala grande e a piscina. Nesse espaço de quase dois mil metros quadrados transitam hoje meus dois netos: André, que nasceu em dezembro de 2004, e Clarice, nascida em junho de 2006.</p>
<p>Por que quero a adoção? Porque ela expressa a mais palpável verdade: o Mário é meu filho. Assim como a Alessandra é minha nora, e o André e a Clarice já eram meus netos desde o ventre materno, em duas gestações que acompanhei com o mais profundo amor de avô. Quero tornar de direito o que é uma situação de fato. Meu testamento já contempla o Mário como meu filho, mas testamento serve depois da morte. Quero meu filho reconhecido pela lei agora, em vida.</p>
<p>A adoção vai tornar patente a continuidade do amor que me levou a cuidar de meu pai com o mesmo devotamento que dedico hoje ao meu filho e à família que ele constituiu. Quero que meus netos tenham o nome de meu pai.</p>
<p><strong>A decisão da Justiça</strong></p>
<p>Em 23 de Setembro de 2010 o Juiz proferiu a seguinte sentença:</p>
<p>TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO</p>
<p>COMARCA DE SÃO PAULO</p>
<p>FORO CENTRAL CÍVEL</p>
<p>SENTENÇA</p>
<p>Processo nº (&#8230;) &#8211; Adoção de Maior</p>
<p>Requerente:</p>
<p>Paulo (&#8230;) e outro</p>
<p>É o relatório.</p>
<p>Decido.</p>
<p>De há muito superada a celeuma acerca da possibilidade jurídica de adoção de maiores, vez que não só visa o instituto atingir o exercício do poder familiar, mas também &#8211; e sobretudo &#8211; proporcionar igualdade de filiação.</p>
<p>Os que criticam o instituto, como Antonio Chaves (“Adoção simples e adoção plena “, pág. 607) sucumbem aos argumentos dos que o enaltecem (Sérgio Gischkow Pereira, Estudos do Direito de Família, pág. 123), calcados na exegese ampliativa da norma, a sugerir o lidimo interesse daquele que, já envolvido em situação de fato, busca o respectivo reconhecimento jurídico.</p>
<p>E a hipótese em comento a isto se afina, vez que o adotando, como se percebe, vem recebendo suporte não só material, mas sobretudo moral e afetivo do adotante, para o que contou, desde o início, com o apoio de seus pais biológicos.</p>
<p>Suprida, no aspecto, a questão processual (art. 472 do CPC) da necessária ciência dos pais naturais acerca do pedido, porquanto influente em estado de pessoa e na órbita jurídica daqueles.</p>
<p>Aqui, todavia, a influência se dará restritamente em relação ao genitor natural, a ser substituído formalmente pelo autor, pai adotante.</p>
<p>E há aquiescência formal daquele (fls.12), tal e qual reportada no depoimento de Mário, ouvido em juízo.</p>
<p>Ao mais, pelo que disseram os autores, não sem externarem a importância do ato almejado, já disputam de um convívio familiar que hoje repercute em nova geração, com a qual um deles, o adotante, recebe o inequívoco tratamento de avô para neto.</p>
<p>Ou seja, a relação que se construiu entre os autores ao longo do tempo, e que está ilustrada por fotografias e missivas juntadas, hoje transborda para os filhos e esposa, a ensejar mais do que a consolidação de algo edificado pelo afeto: a sua irreversibilidade.</p>
<p>Se isso não bastasse, e os demais documentos autenticam a riqueza de propósitos, sem qualquer influência ou prejuízo a direito de terceiros.</p>
<p><em>De se acatar, portanto, a pretensão de Mário e Paulo a que doravante sejam, de direito, o que já são de fato.</em></p>
<p>Julgo, pois, procedente o pedido inicial a deferir a adoção de Mário (&#8230;) por Paulo (&#8230;), e, nos termos do art. 1626 e 1627, do C. Civil, deverão ser processadas as alterações registrárias dispostas na inicial, passando o adotado a chamar-se</p>
<p>Mário (&#8230;)</p>
<p>Nos termos do art. 1628 do C. Civil, tais modificações são extensivas aos filhos do adotado, oficiando-se para tanto.</p>
<p>PRIC.</p>
<p>São Paulo, 23 de setembro de 2010.</p>
<p>N. E. P.</p>
<p>Juiz de Direito</p>
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		<title>Velhos armazéns</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Apr 2010 02:34:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Pergunto ao vendedor se seu estabelecimento tem farinha de trigo especial, sem fermento. Ele me conduz ao fundo da loja e me mostra alguns pacotes, de variadas marcas, e me diz: escolha. Aí eu me atrapalho. Qual é a melhor? Tudo igual, rebate com convicção. Escolho dois sacos de “Dona Benta”. As mulheres, ele continua, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pergunto ao vendedor se seu estabelecimento tem farinha de trigo especial, sem fermento. Ele me conduz ao fundo da loja e me mostra alguns pacotes, de variadas marcas, e me diz: escolha. Aí eu me atrapalho. Qual é a melhor?<span id="more-1702"></span></p>
<p>Tudo igual, rebate com convicção. Escolho dois sacos de “Dona Benta”.</p>
<p>As mulheres, ele continua, é que dizem que uma é melhor do que a outra. São todas iguais, prestam o mesmo serviço. É como o caso das cervejas, cada um diz que uma é melhor e que só bebe dela. Eu, por exemplo, gosto muito de uma Ferreira, mas quando quero uma cachacinha e não encontro a preferida, emborco a que me oferecem. A gente vai com o que tem.</p>
<p>Esse é um armazém dos antigos, que tem de tudo que estou procurando.</p>
<p>Mercadorias de todas as espécies, finas, e também as rústicas. O que há de melhor, não só lembrando velhos tempos e costumes, mas preservando as origens, são os produtos vendidos a granel. É uma festa para os olhos e o paladar. Lá eu compro o feijão fradinho que, em casa, vai virar um bolinho de feijão de arrepiar a alma. Em matéria de feijão, existe uma variedade de cores, que serão também sabores diversos em nossa mesa. E fubá, de moinho d’água, para um angu divino, ou de canjica, próprio para as saborosas broas de milho.</p>
<p>Ali no bairro da Floresta existe uma outra venda que me fascina. É uma casa que exibe o que se puder imaginar. É um amontoado de objetos dispostos de uma forma que só o dono controla. Num dia qualquer de semana, ou mesmo num domingo, se você precisar de algo que não sabe se ainda existe, vai lá que você verá que existe e você pode comprar. Utensílios que a maioria das pessoas nem sabe para o que servem, como trempe de ferro para fogão à lenha, estão à mostra. Pode ser um fio, um arame, uma vela especial, um lampião de lata, formas para empadinha, urinol ou algo que só quem foi criança há muito tempo têm ciência que já houve. Lá há.</p>
<p>Esse comércio resistente revela muito de nossa cultura. É ótimo ter à nossa disposição a infinidade de produtos que os supermercados põem diante de nossos sentidos ávidos de consumir. Não podemos mais viver sem eles. Mas, refutando o vendedor do armazém, que desconsidera as virtudes próprias de cada espécie fabricada, não há como comparar o resultado de um angu feito com fubá de moinho d’água com aquele feito com o que se compra nas prateleiras das mercearias modernas. E os feijões se distinguem nitidamente não só pela cor, mas principalmente pelo sabor. O preto é ótimo, mas como viver, para quem os conhece, sem saborear os outros tipos? Eu, que não sou autoridade nenhuma em aguardente, sou de bebidas mais leves, pelo que já provei, e pela lógica, tenho de reconhecer que há uma distância infinita de qualidade entre os destilados comerciais e aqueles feitos artesanalmente, com carinho, pelas mãos de mestres.</p>
<blockquote><p> <em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>. </em></p></blockquote>
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		<title>Ágata</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Apr 2010 18:23:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ágata me contou que veio para esta cidadezinha da Ilha do Marajó faz algumas semanas, e que ainda vai ficar alguns meses. Ela trabalha numa repartição do governo que tem escritório aqui, e está cobrindo o período de licença de uma colega. Despacha pequenos papéis, carimba coisinhas, tudo numa sala apertada, numa casa de madeira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ágata me contou que veio para esta cidadezinha da Ilha do Marajó faz algumas semanas, e que ainda vai ficar alguns meses. Ela trabalha numa repartição do governo que tem escritório aqui, e está cobrindo o período de licença de uma colega. <span id="more-1612"></span>Despacha pequenos papéis, carimba coisinhas, tudo numa sala apertada, numa casa de madeira com telhado de zinco próxima à praça principal que é o centro da movimentação dos que vivem na área. Ocupa uma mesa baixa, com ventilador de teto sempre a girar. Talvez você já tenha visto cena semelhante em velhos filmes americanos que contavam histórias passadas nas ilhas dos Mares do Sul.</p>
<p>Ágata aparenta 50, diz que tem 40, porém talvez ande pelos 47. O clima meio áspero quase na linha do Equador certamente não fez nenhum bem à sua beleza, contudo não a devastou totalmente. Os olhos de Ágata, por exemplo, são absolutamente luminosos. E quando sorri, mostrando dentes surpreendentemente alvos, exibe duas covinhas bastante charmosas nas bochechas.</p>
<p>- Na realidade – ela me disse –, a solidão aqui na ilha não pesa o tempo todo. Agora, no fim da tarde, começo da noite, sai de baixo&#8230;</p>
<p>Foi nesse ponto que ela acabou detalhando a parte que achei mais pungente da sua vida recente. A repartição a mandou para cá sem alternativas, e não lhe deu nada além das passagens em um barco atulhado. Nos primeiros dias ela ficou num quarto que alugou na casa de uma senhora nativa. Quartos, afinal, sempre se alugam de “uma senhora”.</p>
<p>- Mas era muito quente – Ágata suspira – e com verdadeiras nuvens de carapanãs.</p>
<p>- E o que você fez?</p>
<p>- Arranjei uma casinha. É de fundos, perto do mercado, porém tenho a companhia da dona do imóvel, na frente.</p>
<p>- E os carapanãs?</p>
<p>- Comprei um ventiladorzinho. Você sabia que qualquer ventinho espanta os mosquitos?</p>
<p>- E a sua família, Ágata?</p>
<p>- Mora em Belém.</p>
<p>- Marido? Filhos?</p>
<p>- Não. Mãe, irmãs&#8230;</p>
<p>- Bom, enfrentar essa barra mais alguns meses não vai ser nada mole, não é?</p>
<p>- Não vai. Principalmente depois que eu pensei ter achado um meio de driblar a solidão.</p>
<p>Lembrou então que, não muito tempo depois de ter chegado à ilha, apareceu na repartição alguém que ela considerou “um moço muito simpático”. Mais novo do que ela, é certo, porém bem falante, comunicativo, alegre.</p>
<p>- Todo dia de tarde vinha me buscar. Comíamos alguma coisa perto do mercado, e íamos assistir à novela das oito na farmácia.</p>
<p>- E depois?</p>
<p>- Passeávamos na praia.</p>
<p>- E depois?</p>
<p>- Foi o melhor tempo na casinha de fundos que aluguei. Aposentei a rede de solteira, comprei uma grande, com varanda, de casal.</p>
<p>- Bom – observo –, como você acentuou que “foi”, só posso dizer que lamento que nada tivesse dado certo.</p>
<p>- Pois é, um dia ele chegou pra mim e pediu que lhe trocasse um cheque. Sabe o que eu fiz?</p>
<p>- Trocou.</p>
<p>- Não, eu disse que não precisava. Se ele necessitava de algum dinheiro eu emprestava, não precisava nenhum cheque.</p>
<p>- E ele? Aceitou?</p>
<p>- Não. Fez questão de me dar o tal cheque. Era uma sexta-feira, disse que ia a Belém resolver uns troços e que na segunda voltaria.</p>
<p>- Lamento que não tenha voltado.</p>
<p>- E eu muito mais. Na segunda, quando sai da repartição fui para a casinha, não consegui dormir.</p>
<p>- Ficou acordada a noite toda?</p>
<p>- Não, peguei a rede e fui para o meu local de trabalho, tenho a chave de lá.</p>
<p>Nessa altura do papo eu estava com uma pergunta engatilhada, sobre o cheque, naturalmente. Talvez me preparando para fazê-la, busquei uma frase óbvia de consolo:</p>
<p>- Ora, vai ver que ele ainda aparecerá. Depois, se te deu um cheque sem fundos&#8230;</p>
<p>- Pois aí é que está &#8211; Ágata corta e me olha nos óculos.</p>
<p>- O que? – Levanto as sobrancelhas.</p>
<p>- Também pensei que o cheque não tivesse fundos, quase não fui recebê-lo na única agência de banco que tem aqui, ali na pracinha. Tinha fundos, sim.</p>
<p>- Ora, menos mal – dou um sorriso.</p>
<p>- Poderia ser – ela suspira – só que eu nem fazia questão dos vinte reais. O que eu queria, te juro por Nossa Senhora de Nazaré, é que ele voltasse&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Este texto foi originalmente publicado no </em>Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Bastião</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Mar 2010 15:13:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O cientista político, no meio à descrição da vida de determinado governante brasileiro, lembra sua lutas nos bastiões da esquerda. Pronto, é hora de mudar de leitura. Certas palavras têm o poder de me afugentar. Há quanto tempo não lia ou ouvia tão pomposa palavra. Bastião, como se sabe, é um posto avançado de defesa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cientista político, no meio à descrição da vida de determinado governante brasileiro, lembra sua lutas nos bastiões da esquerda. Pronto, é hora de mudar de leitura. Certas palavras têm o poder de me afugentar. <span id="more-1458"></span></p>
<p>Há quanto tempo não lia ou ouvia tão pomposa palavra. Bastião, como se sabe, é um posto avançado de defesa de um território e, figurativamente, um lutador em prol de uma causa. Mas foi também  moeda de Goa, de 300 réis, cunhada em homenagem a Dom Sebastião, rei de Portugal, que morreu em combate e é esperançosamente aguardado, até hoje, por muitos portugueses. O sebastianismo é uma crença, quase doença, que acomete muitos povos amigos.</p>
<p>Bastião é também personagem do bumba meu boi. E tem a ver com o poeta Tião Nunes, com Sebastião Nuvens e todos os xarás que ele tem no mundo. Aí, eu fui procurar um precioso livro que ganhei em recente visita a Itamarandiba. Trata-se do Dicionário fanadês, jequitinhonhês e mineirês de Carlos Mota.</p>
<p>Fanadês, esclareço, vem do rio Fanado, que corta a cidade de Minas Novas. Fanado quer dizer circuncidado e o rio foi assim chamado pelo bandeirante Sebastião (olhe ele aí outra vez) Leme do Prado que, ao chegar a Minas Novas, encontrou muitos judeus portugueses que, tradicionalmente, circuncidavam seus filhos.</p>
<p>Mas o que eu estava procurando mesmo era mais notícias sobre os tais bastiões. Me empanturrei com minha curiosidade. Reproduzo, pois o livro é raro pelas bandas das metrópoles, o que diz Carlos Mota, que não sei se é parente do Beco do Mota:</p>
<p>“Além de variação de tantos Sebastiões é também sutiã. Certa vez, ao balcão da loja do meu pai, ouvi uma moça da roça me sussurrar: “oi fi, tira pra mim um parapeito”. Não entendi e ela retificou: “quero comprar um bastião.”</p>
<p>Revirei o depósito, não achei nem parapeito nem bastião. Ela, na verdade, queria comprar um sutiã.”   </p>
<p>Os bastiões da esquerda e da direita não passam de suportes que os cronistas políticos, esses enganadores com pose de sábios, desfilam diante de nossos olhos e ouvidos, na ânsia de nos convencer de que eles sabem tudo o que ocorre e ocorrerá na vida política do país. Erram tanto e com a mesma cara de pau dos cronistas esportivos e dos críticos de arte. O certo é que me conforta, mais dos que as muralhas e fortalezas defendidas por divisões militares, a imagem que o menino de Minas Novas via em sua infância. Mulheres lavando roupas dentro do rio, com os peitos à mostra, despidas da cintura para cima. No fim da tarde, quando o calor parecia o destes nossos dias, como quase nenhuma casa possuía chuveiro, quase toda a pequena cidade se mudava para dentro do rio. Homens, mulheres e crianças.</p>
<p>Naqueles bons tempos, bastião era só para os dias de festa.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas.</p></blockquote>
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		<title>Dylan e Joan Baez cantam na Casa Branca as músicas que mudaram os EUA</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Feb 2010 16:43:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Bob Dylan e Joan Baez, e mais diversos grandes nomes da música americana, vários deles ligados diretamente à luta pelos direitos civis que resultou no banimento das leis segregacionistas que estiveram em vigor em vários Estados do Sul até meados dos anos 60, reuniram-se na Casa Branca, e cantaram as canções que ajudaram a mudar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/joan-na-casa-branca.jpg"></a>Bob Dylan e Joan Baez, e mais diversos grandes nomes da música americana, vários deles ligados diretamente à luta pelos direitos civis que resultou no banimento das leis segregacionistas que estiveram em vigor em vários Estados do Sul até meados dos anos 60, reuniram-se na Casa Branca, e cantaram as canções que ajudaram a mudar os Estados Unidos.<span id="more-1047"></span></p>
<p>Aconteceu na terça-feira, 9 de fevereiro. Na quinta, dia 11, emissoras públicas em todo o país transmitiram na íntegra as apresentações de Dylan, Joan Baez, Bernice Johnson Reagon e os Freedom Singers, Smokey Robinson, Jennifer Hudson, John Mellencamp, Yolanda Adams, Natalie Cole, os Blind Boys of Alabama and o Howard University Choir. O ator Morgan Freeman – que acaba de interpretar Nelson Mandela no filme <em>Invictus</em>, de Clint Eastwood, focalizando um episódio na vida do estadista que fez ruir o regime racista do apartheid na África do Sul – leu trechos de discursos de personalidades que fizeram ruir o regime racista vigente no país mais poderoso do mundo até uns poucos anos atrás.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/results?search_query=In+Performance+at+the+White+House&amp;search_type=&amp;aq=f">As apresentações, é claro, já estão no YouTube</a>. O fascinante é que estão lá com excelente qualidade de som e imagem. Não é pirata &#8211; é oficial; foi filmado pelo PBS, o Public Broadcasting System.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/02/03/dylan-volume-4-um-genio-que-nao-para/">Bob Dylan</a> – num palco bem pouco iluminado, com apenas um suave facho de luz sobre seu rosto, lateralmente – cantou os versos de um dos hinos daqueles tempos de mudança, “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=zr8PZ3ajEWo">The Times They Are A-Changin’</a>”. “Venham, senadores, congressistas, por favor atendam ao chamado. Não fiquem parados no umbral da porta, não bloqueiem a entrada da sala.” A poucos metros do palco, sob os candelabros de cristal do East Room da Casa Branca, estavam diversos senadores, congressistas, o presidente Barack Obama, sua mulher Michelle, e o vice Joe Binden e sua mulher, notou Jon Pareles, veteraníssimo crítico de música do <em>New York Times</em>.</p>
<p>Dylan &#8211; que jamais tinha se apresentado na Casa Branca &#8211; tinha uma cara de jogador de pôquer, descreveu Pareles. “Seu tom era áspero mas quase suplicante; ele havia transformado sua velha exortação à luta numa valsa outonal. Depois, ele desceu do palco e apertou a mão do presidente Obama.” O título do <em>New York Times</em> foi feito por alguém de talento (seria o próprio Pareles?): “Música que mudou a História e ainda ressoa”.</p>
<p>A descrição feita por Joe Pareles é excelente, acurada, sensível: de fato, para essa apresentação sob os candelabros de cristal da Casa Branca, Dylan, aos 68 anos (fará 69 no dia 24 de maio de 2010) transformou sua música-manifesto num suave valsa. Só gostaria de acrescentar que ele &#8211; que já usou sua voz de uma dezena de maneiras diferentes &#8211; estava aqui circunspecto, cuidadoso. Não mordia, não engolia partes das palavras, como fez em diferentes estágios da carreira prodigiosa. Cantava pronunciando nítida, claramente, cada sílaba &#8211; como fez depois do acidente de moto do final dos anos 60, nos discos <em>John Wesley Harding</em> e <em>Nashville Skyline</em>.  </p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/joan-na-casa-branca1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1059" title="joan na casa branca" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/joan-na-casa-branca1.jpg" alt="" width="776" height="436" /></a>Joan Baez cantou outro hino dos anos 60, “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=yId_ABmtw-w">We Shall Overcome</a>”, que ela cantou em diversas marchas e manifestações exigindo o fim da discriminação racial, vários deles ao lado do reverendo Martin Luther King. Antes de começar a cantar, disse ao casal Obama: “Vocês são muito amados”. No meio da apresentação da música, propôs que todos cantassem juntos. Já que comentei sobre a voz de Dylan, comento sobre a voz de Joan. Aos 69 anos, completados no dia 9 de janeiro de 2010, não tem mais aquele soprano puro como cristal, naturalmente; sua voz está bem mais grave do quando começou a carreira, 50 anos atrás. Tive a impressão de que Joan, que tem uma história de vida tão rica quanto é possível imaginar, já viveu tudo o que um ser humano pode esperar viver, e muito mais, estava de fato emocionada com aquela situação, aquele momento. Sua voz estava suavemente embargada &#8211; linda como sempre, mas suavemente embargada. (A foto acima foi copiada diretamente do site oficial da Casa Branca, que traz uma galeria de fotos do evento.)</p>
<p>Obama subiu ao palco para cantar no meio de todos os artistas convidados “<a href="http://www.youtube.com/results?search_query=In+Performance+at+the+White+House&amp;search_type=&amp;aq=f">Lift Ev’ry Voice and Sing</a>”, uma canção que é conhecida como o hino nacional dos negros americanos.  </p>
<p style="text-align: center;"><strong>&#8220;Não existe raça alguma a não ser a raça humana, e não temos outro lugar para viver&#8221;</strong></p>
<p>Antes, o presidente Obama havia lembrado, num discurso, que anos atrás aquelas mesmas canções foram cantadas quando era difícil defender os direitos civis de todas as pessoas; quando os negros e os defensores do fim das leis racistas eram atacados, espancados, e muitos foram mortos. &#8220;É música que não apenas se inspirou no movimento (<em>da luta pelos direitos civis</em>), mas que também deu a ele força. Que essa música nos faça caminhar para a frente. Como um povo. Como uma nação&#8221;, disse Obama.</p>
<p>Um pouco antes do espetáculo, durante a tarde, Smokey Robinson, uma lenda da música negra, da fase áurea da gravadora Motown, havia falado para um grupo de 120 estudantes ginasianos de diversos grupos étnicos e diversos lugares do país, escolhidos para participar de um workshop em Washington, que eles eram felizes por não ter que enfrentar o racismo que ele e seus companheiros de gravadora vivenciaram durante as viagens ao Sul dos Estados Unidos nos anos 60. &#8220;Não existe raça alguma a não ser a raça humana&#8221;, disse Robinson aos jovens. Que grande pena que os ativistas do racialismo protegidos e abençoados pelo governo Lula não ouviram, e não ouvirão nunca essa lição. &#8220;Somos todos iguais, e não temos outro lugar para viver.&#8221;</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/results?search_query=In+Performance+at+the+White+House&amp;search_type=&amp;aq=f">Há no YouTube diversos, diversos vídeos</a> dessa apresentação absolutamente memorável e emocionante.</p>
<p>As apresentações musicais na Casa Branca começaram na era de Jimmy Carter, nos anos 70. A tradição vem sendo mantida. É uma tarefa assumida pelas primeiras-damas. Michelle Obama, no primeiro ano do governo do marido, já havia organizado apresentações de jazz, de country, de música erudita e de latinos.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Este não é um lugar para dar notícias. A rigor, eu deveria estar apenas comentando o fato e dando links para alguns dos vídeos. Mas, como não vi ainda notícia alguma sobre esse “In Performance at the White House: A Celebration of Music from the Civil Rights Movement” nem nos jornais, nem nos portais mais importantes da imprensa brasileira, me senti obrigado a contar um pouco sobre o evento.</p>
<p>Mas isso não importa. Importa é o evento em si – e está tudo lá no YouTube, no portal da Casa Branca, no portal dos jornais americanos. Já está na História.</p>
<blockquote><p><em>12 de fevereiro de 2010. </em></p>
<p><em>Este post é da Geléia Geral </em>- <em>anotações curtas sobre os mais variados assuntos.</em></p>
<p><em>Não fui de todo verdadeiro ao dizer aí em cima que a imprensa brasileira não noticiou o evento do dia 9. O portal do </em>Estadão<em> deu uma notinha de umas 15 linhas; o G1 deu alguns dias atrás uma notinha anunciando que Bob Dylan iria participar de um evento na Casa Branca. No portal do </em>Globo<em>, não achei nada. As edições impressas do </em>Estadão<em> e do </em>Globo<em> não deram uma linha. Ou pelo menos não achei lá.  Mas há sempre a esperança de que eu não tenha lido direito os jornais&#8230;</em></p></blockquote>
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		<title>Um dia para não comemorar</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Nov 2009 17:31:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Toda discriminação é odiosa. Seja motivada pela cor da pele, pela origem dos povos, pelo credo, opção sexual, condição social ou matiz política. Mas a luta segmentada, sectarizada contra a discriminação privilegia apenas um determinado grupo e, portanto, acaba por perpetuá-la. É isso que ocorre nos dias dedicados à consciência negra, ao índio ou ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda discriminação é odiosa. Seja motivada pela cor da pele, pela origem dos povos, pelo credo, opção sexual, condição social ou matiz política.</p>
<p>Mas a luta segmentada, sectarizada contra a discriminação privilegia apenas um determinado grupo e, portanto, acaba por perpetuá-la.<span id="more-251"></span></p>
<p>É isso que ocorre nos dias dedicados à consciência negra, ao índio ou ao orgulho gay.</p>
<p>Beira a chacota achar que um feriado a mais jogará luzes sobre a discriminação ou ajudará na luta contra ela.</p>
<p>No máximo, fornece palanque festivo com a falsa premissa do politicamente correto. Em ano pré-eleitoral, então, é um prato cheio.</p>
<p>Motivo de sobra para que o presidente Lula assine o decreto que nacionaliza o feriado do dia 20 de novembro.</p>
<p>Ainda assim, poucos serão os pretos, pardos, brancos ou amarelos a se rebelarem contra a utilização inescrupulosa do ideário da igualdade que, convenhamos, passa longe da institucionalização do Dia Nacional da Consciência Negra.</p>
<p>Negros não são melhores ou piores do que amarelos. Asiáticos e negros não são melhores ou piores do que índios, que, por sua vez, não são melhores ou piores do que os albinos, escondidos do sol e tratados como deformações da raça.</p>
<p>Mulçumanos, católicos, protestantes, evangélicos, judeus não são uns melhores ou piores do que os outros. Árabes, coreanos, europeus, latinos ou norte-americanos. Ninguém é melhor ou pior.</p>
<p>Particularizar a batalha contra a discriminação é estimular antagonismos, supremacias, é avalizar o racismo. No Brasil isso chega às raias do absurdo.</p>
<p>Um país mulato, onde pretos 100% pretos e brancos 100% brancos são pouquíssimos, deveria comemorar sua diversidade e, com orgulho, exibi-la ao mundo.</p>
<p>Lula faz exatamente o oposto: confere privilégios, prega regalias. Posa como libertador e defensor da igualdade. E age perdoando crimes dos que ele considera mais iguais. Discrimina sem dó.</p>
<p>Com os negros, pardos, morenos e mulatos não é diferente.</p>
<p>Alguns ativistas defendem com unhas e dentes os regalos que o Governo lhes confere e, é claro, aplaudem o presidente. Outros, já organizados, mas menos barulhentos, não querem ver a cor acima de seus méritos.</p>
<p>Sabem que, se já sofriam preconceito e discriminação, a dose poderá ser muito mais severa no futuro.</p>
<p>Ao querer institucionalizar o racismo, o país perde o brilho invejável de sua cultura miscigenada e o melhor de sua Constituição – “todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza” – abrindo um caminho conflituoso e incerto. Só de imaginar tenho arrepios.</p>
<blockquote><p><strong>Mary Zaidan</strong> <em>é jornalista. Trabalhou nos jornais </em>O Globo<em> e </em>O Estado de S. Paulo<em>, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência &#8216;Lu Fernandes Comunicação e Imprensa&#8217;. O artigo acima foi escrito para o <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/ ">Blog do Noblat</a>. </em></p></blockquote>
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		<title>Grande Rei Roberto</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jul 2009 05:44:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Roberto Carlos é demais. É um fenômeno absolutamente extraordinário. Não há nenhum outro como ele. Ao longo do show de Roberto no Maracanã, fiz mil comentários com Mary, atrapalhando que ela visse e ouvisse Roberto. Num deles, disse que Roberto-Erasmo (jamais saberemos quem fez o quê) têm aquele dom de melodistas que só gente como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Roberto Carlos é demais. É um fenômeno absolutamente extraordinário. Não há nenhum outro como ele. Ao longo do show de Roberto no Maracanã, fiz mil comentários com Mary, atrapalhando que ela visse e ouvisse Roberto. <span id="more-136"></span></p>
<p>Num deles, disse que Roberto-Erasmo (jamais saberemos quem fez o quê) têm aquele dom de melodistas que só gente como Paul McCartney, Cat Stevens, têm, de criar frases melódicas lindíssimas, que parecem simples, fáceis, mas que na verdade são muito próprias, muito especiais, muito autorais, peças de ourivesaria, que são capazes de cair fáceis no gosto coletivo, que as pessoas vão assobiar e cantar sempre.</p>
<p>E Mary comentou que Roberto é o nosso Paul McCartney.</p>
<p>Ao que repliquei que Roberto é o nosso Paul, sim, mas ao mesmo tempo é o nosso Sinatra, o nosso Elvis. Ele é ao mesmo tempo um dos nossos melodistas mais brilhantes, uma voz maravilhosa, um ídolo, tudo junto e ao mesmo tempo. (<em>A foto é de Fábio Motta, da AE.</em>)</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-144" title="roberto" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/07/roberto-300x195.jpg" alt="roberto" width="300" height="195" />E aí me lembrei de uma velha história dos tempos em que eu escrevi sobre música. Durante quatro anos, escrevi sobre música num grande jornal – o <em>Jornal da Tarde</em> ainda era um grande jornal, entre 1980 e 1984, o tempo em que escrevi sobre música lá. Lá pelas tantas, escrevi alguma coisa falando sobre os “quatro maiores compositores da nossa geração”; mostrei para os colegas, amigos – naquele tempo, a gente consultava os amigos antes de publicar um texto. Vários colegas aprovaram, disseram que estava legal. Um deles, o Luís Carlos de Assis, porém, fez uma objeção: mas pêra lá – que quatro? Me lembro de ter ficado meio chocado; para mim, era óbvio que os grandes quatro eram Chico, Caetano, Milton e Gil. E o Luís Carlos, ignorando o que para mim era óbvio, perguntou: Mas e o Roberto?</p>
<p>O Roberto?</p>
<p>Eu jamais tinha considerado que Roberto pudesse estar entre os melhores compositores da minha geração.</p>
<p>Sempre tinha gostado do Roberto. Mas gostava dele como quem olha de cima para baixo – o Roberto é legal, é bárbaro. Mas, no fundo, pensava eu, o Roberto era algo menor. Não era do mesmo nível que os grandes. Era o cara que falava com as massas – e, ao gostar dele, e ao reconhecer algum valor nele, eu estava sendo até generoso, bonzinho, e até um tanto avançado. Até um pouco menos reacionário e careta que a maioria dos meus amigos da época, para quem Roberto era sinônimo de porcaria, coisa menor, besteira.</p>
<p>Me sentia até meio superior àqueles meus amigos, ao gostar de Roberto. Eu era capaz de dar valor ao cara que falava com as massas, embora ele fizesse, evidentemente – sempre segundo o que eu pensava na época –,, uma música absolutamente menor do que a música boa, a do Chico, Caetano, Edu, etc, etc.</p>
<p>Mas, naquela época, 1980-1984, na minha cabeça Roberto Carlos era bom, era ótimo, tudo bem, eu tinha gostado dele sempre, e até reconhecido antes que os outros a sua importância, mas jamais pensaria em botá-lo no nível de Chico ou Caetano.</p>
<p>Claro, eu tinha lido o texto emocionante, brilhante, maravilhoso de Caetano no Pasquim: “o rei esteve na minha casa e eu chorei”. Caetano estava exilado em Londres, 1970, e Roberto o visitou. “O rei esteve na minha casa e eu chorei” foi uma das frases mais lindas que eu já li na vida. Claro, sempre soube que Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos foi feito em homenagem a Caetano, depois daquela visita à casa de exilado dele – e me surpreendi muito ao saber, décadas depois, que o próprio filho do Caetano não sabia disso. Claro, achei lindo Roberto gravar Como Dois e Dois no disco dele de 1971 – gravar Caetano em 1971 era uma puta de uma coragem, bicho.</p>
<p>Me lembro até hoje do texto que o Jovem Gui escreveu sobre o disco de Roberto de 1971, no Jornal da Tarde. Era o disco que abria com Detalhes. Posso estar errado, provavelmente estou, mas aquele texto do Jovem Gui no JT de 1971, acho, foi o primeiro que considerou Roberto Carlos como um cantor e compositor sério, um compositor à altura dos grandes da MPB.  </p>
<p>Eu estreei como “crítico de música” no mesmo JT uma década depois, e ainda considerava Roberto como menor. Eu, pessoalmente, gostava de Roberto – até porque me achava uma pessoa mais “moderna” do que os Tinhorões da vida. Respeitava Roberto como um artista que falava com o povo – mas impunha uma distância entre ele e os bons, os educados, os sérios.</p>
<p>Grande Luís Carlos. Quando ele me questionou sobre quem, afinal, eram os melhores, eu fiquei pensando: tsk, tsk – que cara maluco, achar que o Roberto pode ser um dos melhores. O Roberto é só aquela coisa menor que tem muito de admirável, tadinho, mas, cacilda, como é possível que não se veja que ele é menor?</p>
<p>Quando Roberto pegou o violão, no Maracanã, e cantou Detalhes, não consegui me segurar, e liguei pra minha filha – você está vendo o Roberto? Minha filha nasceu em 1975, não conseguiu entender Roberto. Me respondeu dizendo olha, pai, até tentei, mas está tão brega que desisti.</p>
<p>Ninguém que nasceu depois de 1971, o ano de Detalhes, tem, de fato, que gostar de Roberto.</p>
<p>A rigor, ninguém tem que gostar de Roberto.</p>
<p>Ninguém tem a obrigação de fazer nada.</p>
<p>Na verdade, o que eu acho que eu queria dizer era só o seguinte: Nós que nos achamos melhores do que os outros, nós que (como dizia minha mãe) lustramos bancos de escola, nós que somos metidos a achar que somos melhores que os outros, nós somos uns babacas, uns imbecis, uns débeis mentais.</p>
<p>Believe we’re gliding, but we’re just slip sliding away.</p>
<p>Eu estava errado.</p>
<p>Roberto é grande, é imenso, é muito maior e melhor do que nossas vãs e pretensiosas certezas.</p>
<blockquote><p><strong><em>Explicação &#8211; e os comentários</em></strong> </p>
<p><em>Quando terminou o show do Roberto no Maracanã, escrevi o texto acima e publiquei no <strong><a href="http://50anosdefilmes.com.br/">50 Anos de Filmes</a></strong>, que era o único instrumento de que dispunha para extravasar o que sentia. Claro, não era o lugar apropriado &#8211; mas era o que eu tinha. </em></p>
<p><em>Agora que tenho este novo site, transferi o post para cá. E também os comentários que recebi &#8211; maravilhosos comentários. </em></p>
<p>1. lucia zaidan</p></blockquote>
<p align="right">Postado em 13 julho 2009 às 8:33 pm |</p>
<p>Pois é, sempre adorei Roberto. Meu saudoso marido me presentou com seus discos durante vários anos. Muitas vezes voltei correndo para casa depois da aula de sábado na faculdade para não perder a Jovem Guarda. Me sentia um pouco envergonhada diante dos meus colegas, pois a maioria deles achava que Roberto só cantava para pessoas de nível inferior. Claro que Chico, Caetano, Milton eram meus grandes compositores e cantores, mas o coração batia forte pelo rei. Quanto à história dos Caracois, eu fiquei sabendo tempos depois. Achava que os tais caracois pertenciam a alguma mulher. No Natal de 2006, numa belíssima casa na Praia do Forte, li o livro sobre a vida de Roberto e adorei. Fiquei mais fã dele ainda. Entretanto, depois que disseram que ele havia mandado queimar os mesmos, por não aceitar alguma coisas, fiquei muito sentida e com raiva… Não aceitei, achei besteira, etc. Entretanto, no sábado, lá estava eu, extasiada diante da TV, assistindo aquele belo espetáculo molhado. Perdoei tudo. O amor é assim…</p>
<p>2. lucia zaidan</p>
<p style="text-align: left;">Postado em 13 julho 2009 às 8:51 pm</p>
<p style="text-align: left;">Vou falar mais um pouquinho sôbre Roberto. Fiquei muito feliz ao saber que você o acha um fenômeno, o nosso Paul, que sempre o admirou muito. Em se tratando de uma pessoa como você, conhecedor e entendido de música como poucos, não tenho dúvidas. ELE é realmente tudo que eu sempre achei. Fiquei feliz.</p>
<p>3. Sérgio Vaz</p>
<p align="right">Postado em 14 julho 2009 às 3:05 pm |</p>
<p>Dona Lúcia, adorei suas mensagens. Lindas, as duas, maravilhosas, emocionantes.<br />
Na verdade, eu estava com muitas dúvidas quanto a esse texto sobre o Roberto, porque escrevi logo depois de ver o show; foi uma coisa confessional demais. Achava que podia não estar adequado, correto, próprio. Nem tive coragem de reler depois que botei no ar. As suas mensagens acabam com as dúvidas que eu tinha.<br />
Muito obrigado!</p>
<p>4. Jussara</p>
<p align="right">Postado em 16 julho 2009 às 1:00 am |</p>
<p>Como eu nasci depois de 1971 estou perdoada por não gostar dele tb, né? rs. Comecei a meio que prestar atenção nele qdo alguns cantores de rock/pop lançaram um cd só com suas músicas. Foi aí que descobri que as músicas até que são bonitas se cantadas por outras pessoas; até pq, na minha humilde opinião, ele não canta nada. Canta uma frase e depois já vem o coral dando suporte. Há pouco tempo descobri o Erasmo, e o acho melhor que o Roberto, apesar de não cantar nada tb. E realmente ele é mto brega, sempre foi. O episódio dos livros achei lamentável.</p>
<p style="text-align: left;">5. Suely Rossanez</p>
<p style="text-align: left;">Postado em 16 julho 2009 às 7:36 pm Sempre gostei do Roberto, desde as ¨jovens tardes de domingo¨que eu não perdia uma, cantando e dançando junto, me sentindo no auditório do Teatro Record. Ainda prefiro o Roberto antigo, mas gosto muito sempre que escuto ou vejo. A história das músicas dele fazerem parte da trilha sonora da vida de muita gente, no meu caso é pura verdade. É impossível ouvir o Roberto e não se lembrar<br />
de certos detalhes.</p>
<p>6. Cleonice Cezar</p>
<p align="right">Postado em 22 julho 2009 às 4:50 pm |</p>
<p>Vc não pode imaginar como fiquei feliz em ler tudo isso que escreveu sobre o Rei. Amo de paixão e agora finalmente sem a patrulha posso manifestar meus sentimentos.<br />
Lembra, nos anos 70, do show no Anhebi, em que o Rei foi o último e a grande estrela a se apresentar? Se não me engano era para arrecadar grana aos grandes nomes da MPB que foram calados pela ditadura.<br />
Foi um dia de cão, com direito a chuva, grandes caminhadas, gente empurrando uns aos outros, risco do pau correr solto por causa da repressão e, ainda, a incerteza (divulgada pela ditadura) se o teto do Anhembi aguentaria ou não um espetáculo daquele porte. Foi lindo poder gritar e dizer o nome do REI e enfrentar as tempestades.<br />
Como diz a música: …o importante é que emoções eu vivi”.<br />
Um grande abraço,<br />
Cleonice</p>
<p>7. Sérgio Vaz</p>
<p align="right">Postado em 23 julho 2009 às 12:13 am</p>
<p style="text-align: left;">Acho que eu posso imaginar, sim, Cleo, assim como você também deve poder imaginar a alegria que me deu sua mensagem. É emocionante estarmos juntos, Suely, você, eu, e também pessoas que vieram depois na minha vida, Dona Lúcia, e também a garota Jussara, que fiquei conhecendo por causa desta minha brincadeira-aventura na internet; pena que o Edmundo Leite não tenha mandado para o site um comentário dele – mas ele comentou no Twitter, e fiquei bem feliz com isso. Que maravilha essa coisa de todos nós – nós três, Suely, você e eu, que crescemos juntos, mais Dona Lúcia, Jussara, Edmundo, de gerações diferentes – estarmos falando do Roberto. Interessante que eu tenha feito esse texto meio com medo de botar no ar, porque é pessoal demais e porque este, afinal de contas, é um site sobre filmes; e que ele tenha sido lido por você, pela Suely, pela Dona Lúcia, pela Jussara, pelo Edmundo – vocês todos o descobriram, sem terem sido avisados, nesse universo infinito que é a internet, e todos tiveram o impulso de comentar sobre Roberto. Que coisa legal.</p>
<p>Aproveito para fazer um acréscimo. Tem tudo a ver, porque você fala da patrulha e da dureza dos tempos da ditadura. Meu amigo Sandro Vaia me disse que, no meu texto, “não ficou suficientemente claro o preconceito político; parece, na verdade, apenas um preconceito intelectual, mas nós sabemos que esse preconceito intelectual deriva mesmo é do político”.<br />
É bem verdade. No meu texto emocional, feito sob o impacto do show do Maracanã e de algumas doses de cachaça, não deixei explícito que o preconceito geral contra o Roberto das assim consideradas mentes bem pensantes da época era político. E era, sim, o viés ideológico, a cegueira ideológica de todos nós que nos achávamos superiores ao comum dos mortais porque éramos “de esquerda”. O que impedia as supimpas, geniais, inteligentes pessoas “de esquerda” de gostar do Roberto era a mesma cegueira ideológica que nos fez banir da nossa existência o talento de Wilson Simonal.<br />
Como fomos babacas.<br />
Não você, Cleo, nem a Suely, nem a Dona Lúcia, que estavam acima disso e sempre gostaram do Roberto, assim como do Simonal, e não estavam nem aí para as patrulhas. O “nós”, aqui, se refere especificamente a mim e aos outros tantos esquerdóides imbecis, que nos achávamos superiores, mais espertos, mais sabidos que a maioria da humanidade. Uns grandes babacas.</p>
<p>8. <a href="http://edmundoleite.wordpress.com/"><strong>Edmundo</strong></a></p>
<p align="right">Postado em 24 julho 2009 às 2:35 am |</p>
<p>Grande Servaz!</p>
<p>É impressionate como um artista que quase não varia o show faz um showzaço assim mesmo. A voz dele parece estar melhor que nunca. Cantou detalhes ao violão. Falou mais que o usual. E a transmissão ao vivo ficou legal, pois – por mais que quisessem – não tem como deixar como um dos especiais de fim de anos, clean. Em alguns momentos achei que ele fosse cantar “e que tudo mais vá pro inferno”…</p>
<p>Uma dica:</p>
<p>Como Dois e Dois são Cinco – Roberto Carlos (&amp; erasmo &amp; wanderléa), de Pedro Alexandre Sanches, editora BoiTempo.</p>
<p><a href="http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=85-7559-058-8"><strong>http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=85-7559-058-8</strong></a></p>
<p>O melhor livro já escrito sobre a obra do Roberto. Fundamental. Não só para saber mais de Roberto, mas da música brasileira.</p>
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		<title>Porto Alegre, uma fascinante cidade onde não vale o que está escrito</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Mar 2009 07:00:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Porto Alegre, ao contrário de no Brasil do jogo do bicho, não vale o que está escrito. E a maior atração da cidade é – como dizem a respeito da macheza da gente daquele estranho país ao Sul de Santa Catarina – uma ficção. Ou, no mínimo, uma gigantesca dúvida. Não vale o que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Porto Alegre, ao contrário de no Brasil do jogo do bicho, não vale o que está escrito. E a maior atração da cidade é – como dizem a respeito da macheza da gente daquele estranho país ao Sul de Santa Catarina – uma ficção. Ou, no mínimo, uma gigantesca dúvida.<span id="more-3"></span></p>
<p>Não vale o que está escrito. As placas e os mapas dizem Rua dos Andradas, mas na verdade ali é a Rua da Praia – e não há praia alguma por perto. Está escrito Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, mas o povo fala Parque Harmonia. Oficialmente, é Parque Moinhos de Vento, mas o que vale é o nome de Parcão. O Parque Farroupilha só é Farroupilha nas placas e mapas, porque de fato ali fica o Parque Redenção. Na Rua da República, há o Armazém da Esquina – que fica não numa esquina, e sim bem no meio de uma quadra.</p>
<p><img class="alignleft size-large wp-image-73" title="DSC00571" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00571-1024x768.jpg" alt="DSC00571" width="1024" height="768" />Ficção, ou gigantesca dúvida. A grande atração da cidade, uma beleza danada, o Rio Guaíba, famosíssimo, cantado em prosa e verso, até porque aquele povo escreve muito, e escreve bem, não chega a ser um rio. Parece mais um lago. Passa, atualmente, por uma séria crise de identidade. A moça cuja voz gravada sai dos alto-falantes do Cisne Branco, o belo barco que faz passeio naquelas águas às vezes barrentas, às vezes escuras, às vezes azuis, abre a discussão: informa que o Guaíba sempre foi chamado de rio, mas os especialistas dizem que é um lago. O guia do ônibus de dois andares sem teto em cima – como os de Paris – também lança o questionamento. E o mapa oficial distribuído pela Secretaria Municipal de Turismo crava: Lago Guaíba.</p>
<p>Só que não é bem um lago, já que as águas andam do Delta do Jacuí, ao Norte, em direção à Lagoa dos Patos, ao Sul.</p>
<p>Vai entender.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-72" title="DSC00650" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC006501-300x225.jpg" alt="DSC00650" width="300" height="225" />E a mais recente atração da cidade, o prédio da Fundação Iberê Camargo, debruçado numa elevação sobre a beleza do Guaíba, com uma vista espetacular para os prédios da cidade ao longe, como se fosse um morro em Sausalito de onde se vê a silhueta deslumbrante de San Francisco do outro lado da baía, é um horroroso, grotesco caixote de concreto pintado de branco, com apenas umas três minúsculas janelinhas, mais parecidas com vidros de aquário, dando para aquela imensidão toda.</p>
<p>Mas que não se pense que as constatações acima são uma crítica à cidade. Porto Alegre é uma cidade belíssima, calorosa, agradável, apaixonante.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As belas se mostram</strong></p>
<p>Então, para começar: eta cidade para ter mulher bonita, tchê. Talvez seja – deve ser – por causa da mistura, da miscinegação. Miscigenação embeleza, e lá teve de tudo, índio, português, italiano, alemão, preto. Muita mulher longilínea, lindilínea, altas, bonitas, gostosas. Mary, que não tem absolutamente nada de homo, ficou impressionada, talvez tanto quanto eu.</p>
<p>Reparei muitas mulheres de vestidão comprido, até o pé. Tem mesmo – mas também tem um bando de mulher de jeans apertados, bunda bonita, e um bando de mulher sem nenhuma vergonha de mostrar belas coxas. Às vezes dá a impressão de que todas tinham passado o verão inteiro na praia, coxas bronzeadinhas.</p>
<p>E elas sabem que são bonitas, e que estão sendo olhadas – e mulher que sabe que está sendo olhada fica ainda mais bonita.</p>
<p>Não se constrangem. Se mostram.</p>
<p>Tive o exemplo perfeito no Shopping da Rua da Praia, que tem uma galeria que liga a Rua da Praia à Riachuelo, mais acima, logo no ponto em que ficava o nosso hotel. Tomamos café da manhã numas mesinhas lá, duas vezes em que perdemos o horário do café no hotel; na segunda vez, numa hora em que a Mary foi comprar não sei o quê, fiquei olhando feito bobo pra garotinha da loja de chocolates em frente, que chamei de Mezzagiorninho, porque é uma espécie assim de Giovanna Mezzogiorno – jeitinho de descendente de italianos, pele claríssima, olhos verdes claros, calça jeans de cintura baixa, blusinha apertadinha acima da cintura, deixando ver a carne jovem da barriga, os ossos da bacia aparecendo dos dois lados. Diante do olhar insistente do velho careca, poderia ter perfeitamente andado pro outro lado da loja dela; que nada – enfrentou. Tirou o celular e veio conversar fiado com alguém bem perto de onde eu estava. Por nada, não – só pra dizer que sabia que estava sendo olhada, a Mezzagiorninho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tem vida no Centro - e é uma cidade da classe média</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-97" title="DSC00704" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00704-300x225.jpg" alt="DSC00704" width="300" height="225" />O Centro de Porto Alegre é um formigueiro como todo centro de grande cidade, durante os dias de semana – mas, ao contrário do que acontece em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte, ele não fica deserto nem à noite, nem no fim de semana. Por uma sorte grande da cidade, a população não abandonou o Centro; há ali muitos edifícios residenciais. Reparamos isso desde o primeiro dia. Na própria Rua Riachuelo, na Praça da Matriz – onde ficam a Catedral Metropolitana, o Palácio Piratini, do governo, a Assembléia Legislativa, o Tribunal de Justiça e o Theatro São Pedro, todos os cinco poderes, contando com a religião e a cultura – e ao redor dela existem belos prédios de apartamentos, de classe média, e mesmo média alta. Por isso, o Centro não degradou. Sorte grande.</p>
<p>Classe média nas ruas – uma cidade da classe média. Mary e eu ficamos muito impressionados com isso. Há lugares ricos, de gente muito rica, como a região de Moinhos de Vento, mansões impressionantes em algumas das ilhas do Delta do Rio Jacuí, na Praia de Ipanema, ao Sul, e há lugares mais classe média baixa, como alguns bairros ao Sul e também ao Norte, perto da ponte móvel que vai rumo a Pelotas, Rio Grande e Chuí; e há também classe média baixa em alguns lugares do Centro, perto do porto. Mas praticamente não há miséria – a pobreza que se vê é digna. E a sensação que se tem é de que, sobretudo, Porto Alegre é uma cidade que tem uma grande, uma dominante classe média.</p>
<p>Fiquei pensando, à luz (ou à sombra) dos meus parcos conhecimentos, quais seriam as razões disso. Ao contrário de tantas outras grandes cidades brasileiras – como São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Salvador –, Porto Alegre não inchou demais, não teve imensa explosão demográfica, nas últimas décadas. Em parte, provavelmente, porque a população do Sul é historicamente mais letrada, mais estudada, mais desenvolvida. Em parte porque o Rio Grande do Sul tem diversas boas cidades médias, com escolas, hospitais, os equipamentos urbanos básicos que impedem o êxodo para os centros maiores. Houve êxodo de gaúchos, sim, e forte, pelo que eu saiba, mas não tanto para as grandes cidades, e sim para fronteiras agrícolas – o Sudoeste do Paraná, Rondônia, Mato Grosso, a região do cerrado em Minas e Bahia, a Oeste do São Francisco.</p>
<p>Um conjunto de diversos fatores, como sempre; deve haver outros, mas esses aí, sobre os quais pensei, devem ter influência no fato de Porto Alegre não ter inchado demais.</p>
<p>Não achei números que pudessem comprovar minhas teorias e lembranças, mas sei, ou ao menos acho que na década de 60 Porto Alegre era uma das cinco maiores cidades do Brasil – São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, essa era a relação, talvez não necessariamente nesta ordem. Segundo números do IBGE para 2008, Porto Alegre estava em décimo lugar. Salvador, Brasília, Fortaleza, Curitiba e Manaus passaram à frente.</p>
<p>Não tenho os números anteriores, repito, mas acho que, uns 40 anos atrás, Porto Alegre tinha cerca de 1 milhão, assim como Belo Horizonte e Salvador; em 40 anos, BH pulou de 1 milhão para 2,4 milhões, Salvador, de 1 milhão para 2,9 milhões. Porto Alegre cresceu estupidamente menos, não inchou: tem hoje 1 milhão e 400 mil habitantes.</p>
<p>Bom, ótimo, excelente pra Porto Alegre.</p>
<p>A cidade – segundo disse o guia do ônibus turístico – tem quase o mesmo número de árvores e de habitantes: 1 milhão e 400 mil árvores é coisa pra burro. E isso é visível. A cidade tem verde de fazer inveja. A quantidade de parques é um absurdo, e os parques são imensos, Ibirapueras espalhados numa área várias vezes menor que a de São Paulo.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-78" title="DSC00659" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00659-300x225.jpg" alt="DSC00659" width="300" height="225" />E ainda tem o Guaíba, aquela absurda quantidade de água em crise de identidade – rio ou lago? Como acontece no Porto da Barra em Salvador, e em Ipanema no Rio, o povo vai para a margem do Guaíba ver o pôr-do-sol, especialmente na região do Gasômetro. E a margem do Guaíba é um imenso parque que se une a outro e se une a outro e vai embora, desde o Gasômetro, no limite Sul do porto, até bem lá embaixo, na região onde fizeram o monstrengo em homenagem ao pintor gaúcho Iberê Camargo. O povo vai ver o Guaibão tingido de vermelho – só não aplaude, como às vezes fazem no Porto da Barra e em Ipanema, mas vai.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não é todo lugar que tem um Guaibão daqueles</strong></p>
<p>Ainda não é hora de falar de comida nem de táxi, mas o motorista de táxi que nos levou na primeira noite à churrascaria Barranco, um garotão, observou o seguinte: as cidades são todas iguais, o que é diferente é a comida. Lembrei do hippie de Easy Rider que diz que veio de uma cidade e, perguntado de qual cidade, responde apenas: “Uma cidade; são todas iguais”. Mas respondi para o garoto gaúcho que não é bem assim: não é toda cidade, por exemplo, que se dá ao luxo de ter um Guaíba.</p>
<p>São Paulo transformou o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí em esgotos. Belo Horizonte, tadinha, sequer tem um rio – tem só um ribeirão, o Arrudas, e a única lagoa, lembra a Mary, é postiça, foi invenção do JK no tempo em que o Nieyemer ainda não tinha a mania de acabar com a grama e todo tipo de vegetação pra cimentar o chão nos lugares por onde passa. (Pobres lugares por onde ele passa.)</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-79" title="DSC00461" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00461-300x225.jpg" alt="DSC00461" width="300" height="225" />Duas empresas, com tipos bem diferentes de barcos, fazem passeios pelo Guaíba. O Cisne Branco é um barcão elegante, tem deck superior ao ar livre com cadeiras e mesinhas, um grande salão envidraçado com mesinhas e cadeiras no pavimento médio, e um salão para festas e dança no deck inferior, quase abaixo do nível do rio – ou do lago, whatever. Faz dois passeios diferentes – um rumo ao Norte, às ilhas do Delta do Rio Jacuí, e um rumo ao Sul, à praia de Ipanema, os clubes de vela, quase até a Lagoa dos Patos, “dos sonhos, dos barcos, mar de água doce e paixão”, como diz a canção do Kledir e do à época poeta Fogaça, hoje prefeito reeleito da cidade. Sai do porto bem diante da Praça da Alfândega, perto de grandes prédios históricos, a duas quadras do Mercado Público. O endereço exato é Avenida Mauá, 1050 – Portão Central do Porto.</p>
<p>Tem um problema: o passeio das 18 horas só sai se houver um quórum mínimo de 20 pessoas. No primeiro dia em que fomos até lá na esperança de fazer o passeio, não deu nem metade do quórum. A garota do atendimento, simpaticíssima – e bonitinha –, nos avisou que o passeio das 15 horas sai todos os dias, sem depender de quórum. Fizemos o passeio, o do Delta do Jacuí, no dia seguinte; tinha cerca de dez pessoas, apenas, pouco mais que o número de tripulantes. Um único grupo reunia cinco pessoas: uma gauchinha, simpática, bonitinha e meio sonsa, o namorado alemão, os pais e o irmão dele. Lá pelas tantas a gauchinha veio falar com a gente, pedindo explicações geográficas: o sogro a enchia de perguntas e ela não sabia responder; nunca tinha feito o passeio de barco antes, e não sabia onde era o Norte, onde era o Sul. Demos explicações para ela, e depois para o próprio sogro, simpático alemãozão de Berlim com um inglês quase tão precário quanto o meu atual. (A gente encontraria o grupo outro dia, eles saindo e nós chegando para o passeio de ônibus de turismo.)</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-109" title="DSC00509" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC005091-300x225.jpg" alt="DSC00509" width="300" height="225" />Há muitas ilhas, e lindas, verdíssimas, de grandes, belas árvores, no Delta do Jacuí, que nos fez lembrar bastante o Delta do Paranazão, antes de virar o Rio de La Plata, “mi Rio de la Plata lindo e sucio”, ao Norte de Buenos Aires. Em algumas delas há as tais mansões de ricaços, milionários, coisa cinematográfica. Uma das ilhas é a das Flores, que é, acho, aquela em que existe, ou existia, um lixão filmado nos anos 80 num curta-metragem que ficaria famoso, Ilha das Flores, do porto-alegrense Jorge Furtado, que depois faria os ótimos <em>O Homem que Copiava</em> e <em>Meu Tio Matou um Cara</em>. Lembro que Fernanda viu o documentário na Nova Horizonte e se apaixonou por ele. No passeio, não dá para ver o lixão.</p>
<p>Os outros barcos que fazem passeio pelo Delta do Jacuí e pelo Guaíba são dois irmãos gêmeos, Noiva do Caí I e Noiva do Caí II, bem menores e bem mais humildes que o Cisne Branco. Não têm a infra-estrutura portuária do Cisne Branco, cuja empresa tem escritório naquele ponto nobre e central do porto; ficam baseados na Ilha da Pintada, do outro lado do braço do Jacuí. Na hora dos passeios, atracam ao lado do Gasômetro. Não planejamos passear em um deles – foi um acaso. No final da tarde de sábado, véspera da nossa volta para São Paulo, estávamos no Gasômetro, para ver o povo aglomerado para assistir ao pôr-do-sol no Guaíba; precisávamos de um lugar para sentar, porque eu tinha dado uma canseira danada na Mary, propondo uma caminhada a partir do caixotão do Iberê Camargo até depois do estádio do Inter – e foram alguns bons não sei quantos quilômetros.</p>
<p>Foi aí que ouvimos um nego propagandeando, como os camelôs de antigamente: “Passeio no Guaíba para ver o pôr-do-sol no rio – só 5 pilas”. O preço normal é 10 reais, contra 15 do Cisne Branco, mas crise é crise, e neguinho estava ali tentando atrair freguês a laço. Grande liquidação para ver o pôr-de-sol no Guaíba. Topei na hora, claro; os caras atrasaram a saída, em busca de mais 5 pilas dali, 5 pilas daqui, mas o fato é que o barco saiu cheio, pouco depois de 18h30, o sol já quase no horizonte.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-82" title="DSC00681" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00681-300x225.jpg" alt="DSC00681" width="300" height="225" />Ao passar junto de uma das ilhas, o barco, numa ação ecologicamente incorreta mas empresarial-turisticamente compreensível, apita aquele apito altíssimo de barco, e centenas e centenas de aves saem das árvores e voam no céu vermelho-laranja sobre o Guaíba, para delírio da turistada. Gaúchos passeavam em lanchas e em jet-skis, passando diversas vezes diante do barco, num show de exibicionismo.</p>
<p>No Cisne Branco, alto-falantes tocavam Credence, Dire Straits, Sinatra e bossa nova; no Noiva do Caí I (ou seria o II?), tocou sertanejo-brega. As pessoas eram classe média-média, ou média-baixa, e a maioria parecia ser gaúcha mesmo, do interior, enquanto os turistas do Cisne Branco são média-média para média-alta. Naquele fim de semana, Porto Alegre tinha sido invadida por uma multidão de gaúchos do interior, que foram participar, no Anfiteatro do Pôr do Sol, de uma reunião de evangélicos com música gospel e um pastor americano famoso pacas do qual jamais tínhamos ouvido falar.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um parque imenso e um Parcão menor</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-83" title="DSC00636" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00636-300x225.jpg" alt="DSC00636" width="300" height="225" />Em termos assim do nível sócio-econômico de seus passageiros, os Noivas do Caí estão para o Cisne Branco exatamente como o Parque Farroupilha, ou melhor, Redenção, está para o Parque Moinho de Ventos, ou melhor, Parcão. O Farroupilha-Redenção é maior e mais central; naquele sábado, os freqüentadores eram, na maioria, classe média-média ou média-baixa, gente mais simples. No belo, detalhado e bem escrito roteiro que tinha nos enviado, a Vivi, porto-alegrense da gema, o sobrenome Kulzcynski para comprovar, tinha dito que o Farroupilha-Redenção estava meio caidaço. Não nos pareceu caidaço; é um belíssimo parque, com árvores gigantescas, um belo lago com pedalinhos, um mini-zôo e, como os demais parques que vimos, com o europeu e absolutamente salutar costume de não botar cimento no chão – o chão é de chão mesmo. O único defeito que notamos nele foi uma certa ausência de bancos com encosto. É mantido apenas pela Prefeitura, ao contrário do Parcão, que tem empresas particulares como co-patrocinadoras, mas estava bastante limpo.</p>
<p>Numa das extremidades do Farroupilha-Redenção, a Avenida José Bonifácio – onde há os prédios gigantescos e bem antigos de uma escola militar por onde devem ter passado os gaúchos ditadores do golpe de 1964 –, aos sábados funciona uma imensa feira de artesanato, a Brique de Sábado. Tudo muito organizado, com barraquinhas todas iguais, colocadas no canteiro central da avenida, os expositores com crachá da Prefeitura. Várias pessoas nos disseram que a feira dos domingos, que ocupa também uma das pistas da avenida, é muito maior que a Brique de Sábado.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-84" title="DSC00602" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00602-300x225.jpg" alt="DSC00602" width="300" height="225" />Então: o Farroupilha-Redenção é um belo parque. Mas o Parcão é mais granfo, mais finório, em tudo por tudo. Fica bem no meio do bairro Moinhos de Vento, no alto de um morro – Porto Alegre é uma cidade cheia de morros; Roma tem sete colinas, mas Porto Alegre, tchê, tem bem mais, parece que 27. O Parcão também é bem grande, com várias áreas para crianças, quadras para esportes, muita árvore, muito banco com encosto, na sombra e ao sol, bom pra namorar ou pra ler, um laguinho bonito com patos, garças e uma infinidade de tipos de passarinhos de diversas cores que já se habituaram com os vizinhos humanos e passeiam pertinho deles. A sem-cerimônia dos pássaros gaúchos em chegar perto da gente impressionou a Mary.</p>
<p>Os porto-alegrenses que freqüentam o Parcão – Vivi tinha nos avisado disso, com o advérbio perfeito – fazem jogging enlouquecidamente. De fato: fazem jogging enlouquecidamente, alucinadamente, loucamente, insanamente. Centenas de neguinhos de classe média para média-alta, desde jovens até senhores e senhoras de mais de 60, 70 anos, andam e correm pra lá e pra cá como se aquilo fosse a coisa ao mesmo tempo mais prazerosa e mais obrigatória da vida. Fiquei exausto de vê-los.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Como na Recoleta, mas sem o cemitério</strong></p>
<p>Moinhos de Vento é algo assim como os Jardins ou Higienópolis em São Paulo, ou, mais apropriadamente, como a Recoleta de Buenos Aires – sem o cemitério. Belíssimos prédios residenciais, ainda belos casarões, bom comércio, um shopping chicaço, com vários cinemas, uma Saraiva Megastore (onde comprei dois CDs) e de onde Mary, uma anticonsumista praticante, quis sair o mais rápido possível, xingando que shopping é igual em tudo quanto é lugar do mundo e que shopping mata as cidades.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-104" title="DSC00533" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC005331-300x225.jpg" alt="DSC00533" width="300" height="225" />Pertinho do shopping, e pertinho do Parcão, fica a Rua Padre Chagas, que Vivi tinha nos indicado, e que uma outra jornalista porto-alegrense, num site que Mary descobriu no iPhone, descreve como a mais charmosa da cidade.</p>
<p>É charmosa mesmo, a Padre Chagas. Pequena, umas três quadras – assim uma espécie de Lorena cravada na Recoleta. Um monte de cafés e sorveterias simpaticíssimos – aliás, como tem cafés e sorveterias aquela cidade; é impressionante. E todos cheios. Todos os lugares naquela cidade ficam cheios. É, de fato, a cidade da classe média.</p>
<p>Os cafés, sorveterias e bares da Padre Chagas estavam começando a se encher naquela hora, sexta começo da noite. Numa das extremidades dela fica uma rua com uma seqüência de restaurantes, vários deles bem finórios. Meio esnobemente finórios demais. Acabamos optando por um Irish pub, o Mulligan, na própria Padre Chagas, num casarão antigo, lotadinho na parte da frente, quintal ao ar livre atrás vazio quando chegamos (depois foi enchendo com a fauna das sextas-feiras, claro), e dezenas de opções de chope e cerveja, quase tantas quanto o Frangó. Tomamos uma Guiness, uma tcheca e muitos chopes Eisenbah, com um filé com molho preto excelente.</p>
<p>Nessa sexta à noite, depois do Mulligan, demos mais uma passeada por Moinhos de Vento; tomamos um chope num bar-livraria simpaticíssimo (com banheiro unissex, um dos três que vi em Porto Alegre), e, como eu ainda estava com sede de chope, fomos parar no Baskaria, um restaurante debruçado sobre o Parcão, que tem esse nome porque pertence a descendente de bascos; lá dentro há um belo mapa do País Basco. No Baskaria veio um carpaccio não muito bom – a única comida que provamos na cidade abaixo do nível do ótimo.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Come-se muito, e bem, e barato</strong></p>
<p>Claro, comida boa e farta é uma das tradições de que os gaúchos mais se orgulham – e em Porto Alegre de fato come-se muito, muito bem, e barato.</p>
<p>Vivi tinha indicado uns 35 lugares para a gente comer, e claro que não deu para ir a todos, mas fomos a vários. Um italiano chiquetérrimo e não absurdamente caro, Peppo Ristorante, em Moinhos de Vento – este não foi indicação da Vivi; gostei do folhetinho deles colocado no hall do hotel. O mais tradicional churrasco para turistas, no sistema espeto corrido, o Galpão Crioulo, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, ou melhor, Harmonia, com show ao vivo de gauchada gauchesca, dezenas de gaúchos de bombacha e gaúchas fantasiadas de gaúchas, som altíssimo – em vez de ficarmos putos, entramos no clima e deu tudo certo.</p>
<p>Mas o melhor lugar de todos, onde fomos na primeira e de novo na última noite, foi o Barranco. Vivi tinha dito que a esse lugar vão os próprios gaúchos, nada de turistas, e é bem verdade. Fica um pouco longe do Centro, no bairro Petrópolis, a quase 6 km da Praça da Matriz (Moinhos de Vento fica a 3 km), fora de qualquer circuito turístico. Ocupa uma área imensa, no meio de árvores gigantescas. Chope excelente, bem tirado, e uma lingüiça caseira que meu Deus do céu e também da terra, o que que é aquilo. Barato: o mesmo preço que pagamos pra comer em lugares sem qualquer charme e comida nada especial em Matinhos, no Paraná. E lotado, lotado de gente da terra. Na primeira noite, a de segunda, dia 16, tinha uma área grande, das várias áreas ao ar livre, reservada para uma festa particular, com famílias inteiras, avós, mães, titias, crianças, bebês de colo – depois vimos que era de uma confraria de produtores de vinho. Segundo o motorista de táxi que nos levou até aquela lonjura da Avenida Protásio Alves (o tal garotão que acha que todas as cidades são iguais, a não ser pela comida) nos disse que tanto o Inter quanto o Grêmio costumam jantar lá, em ocasiões festivas.</p>
<p>Inter e Grêmio. Inter e Grêmio é tema obrigatório em Porto Alegre, claro. Como nas Minas Gerais do Atlético e Cruzeiro, Inter e Grêmio são um duopólio; os outros times são só sparrings, só para preencher tabela e o Gauchão não ser uma infinita seqüência de Gre-Nals. Muito mais do que entre chimangos e maragatos, do que entre brizolistas e antibrizolistas, do que iedistas (4,5% da população, segundo o último Datafolha, incluindo um dos motoristas de táxi que conhecemos) e anti-iedistas (os outros 95,5%), do que petistas e antipetistas, os gaúchos se dividem entre colorados e gremistas. Nas ruas, dezenas e dezenas de neguinhos andam com camisas do Inter, e outras dezenas e dezenas com camisas do Grêmio. Em todos os lugares vendem-se camisas do Inter e do Grêmio, em geral lado a lado: no Shopping da Rua da Praia há duas lojinhas idênticas, seguramente pertencentes aos mesmos donos, uma do lado da outro, uma com tudo possível e imaginável do Inter, a outra com o mesmo tudo possível e imaginável do Grêmio.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-111" title="DSC00653" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC006531-300x225.jpg" alt="DSC00653" width="300" height="225" />Os estádios de Inter e Grêmio ficam não muito distantes um do outro, ambos na região Sul da cidade, ambos com a inscrição Campeão do Mundo bem visível. O guia do ônibus turístico presta muita atenção e muito cuidado para dedicar o mesmo número de palavras e segundos a falar de cada um dos dois times, com o bem fundamentado temor de provocar uma revolta entre gaúchos de um ou do outro lado.</p>
<p>Quando comentei com o Sandro a coisa da crise de identidade do Guaíba, se é rio ou se é lago, ele notou que o problema é de fato muito sério: afinal, o estádio do Inter (Porcão, segundo os gremistas) é o Beira-Rio. Diz ele, no seu texto sempre brilhante:</p>
<p>“Descobri há pouco tempo que o Rio Guaíba é um lago, e isso é muito grave. Pois o estádio do Inter deveria mudar o nome para Beira-Lago? Isso provocaria um terremoto cultural inenarrável. Seria mais ou menos como mudar o nome da Bombonera para, sei lá, Floreira, ou Lixeira.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tropeça-se em cultura</strong></p>
<p>Este texto já está grande demais, está ficando do tamanho do que fiz sobre Paris (e daí? tem que ficar mesmo, tchê, diriam os gaúchos), e, como dizia o Celso Ming para o Mitre, ao chegar à linha de número 400 sem ter ainda alcançado o que descreveu como “o fulcro da questão”, ainda não falei nada de cultura – e é impressionante a coisa da cultura em Porto Alegre.</p>
<p>Os belo-horizontinos, os curitibanos que me perdoem, mas em Porto Alegre se tropeça em cultura. É impressionante. Como a Mary bem notou: as pessoas comuns na rua falam de cultura, de livros, de filmes, de música.</p>
<p>Na Praça da Alfândega – belíssima –, vimos um dia uma apresentação de um conjunto de música andina, à espera de algum trocado. Umas dez pessoas, em trajes típicos, cantando e tocando com a ajuda de um playback que tocava outros instrumentos. Tinha visto um assim na Union Square, em San Francisco, e comprado um disco deles, e por isso fui lá ver se os andinos porto-alegrenses tinham disco; claro que tinham, 20 reais. Ouvi mais tarde o disco em casa. É uma família de equatorianos. Bah, um som bom – uma coisa andina mas com um toque de world, com as flautinhas e violões típicos mas também com sintetizador, um toque meio techno, meio de índio norte-americano forte com brinco de ouro na orelha.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-87" title="DSC00491" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00491-300x225.jpg" alt="DSC00491" width="300" height="225" />No dia seguinte, em outro ponto da Praça da Alfândega, tinha um rapaz solitário, guitarra elétrica e gaita pendurada no pescoço à la Woody Guthrie (os mais jovens diriam à la Bob Dylan, ou à la Neil Young; os mais jovens são assim, acham que o mundo começou no dia em que eles nasceram). Cantava, e bem cantado e bem tocado, &#8220;Wild Horses&#8221;, dos Stones. Paramos pra ver, mas paramos atrás dele, para não distraí-lo, e também para tentar observar as reações. Quase nenhuma reação: tinha uma garotinha meio punk parada diante dele, pele muito clara, cabelo vermelho fogo vivo, cara de mesmerizada, e só; o resto das pessoas passava direto, sem parar nem um segundo para ouvir. O cara aí atacou de &#8220;Like a Rolling Stone&#8221; – cantou a letra inteirinha, certinha. Sugeri à Mary que deixasse uma moeda para ele, ela andou até lá, botou a moeda. Ao terminar &#8220;Like a Rolling Stone&#8221; ele se virou para trás, olhou para nós e perguntou: Algum pedido? Respondi que não, que ele ficasse na dele, e o bicho foi de &#8220;The Boxer&#8221;.</p>
<p>Um dia, saindo do Centro Nova Olaria, na Cidade Baixa, onde ficam as salas do Cine Guion e uma beleza de loja de discos e livros, e há diversos cafés e bares que fazem lembrar demais Buenos Aires, entramos num táxi e no rádio Dylan estava cantando &#8220;Jokerman&#8221;. Não ouço rádio, mas imagino que não haja uma emissora de São Paulo que toque &#8220;Jokerman&#8221;, e então me peguei dizendo “uau, Bob Dylan” – e o motorista do táxi, um garoto, disse, tranquilamente: “É, essa música o Caetano gravou”. Juro de pé junto que nenhum motorista de táxi do meu bairro – e eu conheço dezenas deles – sabe que Caetano gravou &#8220;Jokerman&#8221;.</p>
<p>Aproveito o gancho para matar o assunto táxi: seguramente não há cidade alguma no Brasil em que o táxi é mais barato e farto. Um taxista me falou em 3 mil táxis, mas parecem 30 mil – estão em todos os lugares, a qualquer hora. As corridas em geral não passam de 12 reais; fizemos várias de menos de 7. Do aeroporto até o Centro foram 25 reais – a metade do que em São Paulo se gasta de Perdizes até Congonhas, para não falar de Cumbica. E os motoristas – não vimos exceção – são falantes, comunicativos, o que é normal, mas bem humorados e não reclamam da vida e de que a praça está ruim, o que é digno de entrar no Livro Guinness dos Recordes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não contaram a eles que CD está acabando</strong></p>
<p>De volta à música, Porto Alegre tem outro recorde: o número de lojas de discos. As lojas de disco estão sumindo, com as compras e os downloads via internet, os tocadores de MP3, as livrarias megastore e a imbecilidade das gravadoras, mas ainda não disseram isso para os porto-alegrenses. Numa galeria bem no Centrinho, que liga a Rua da Praia à Sete de Setembro (ou seria à Siqueira Campos? bem, oficialmente o endereço é Rua dos Andradas, 1444), tem uma loja de disco junto da outra. Numa delas, onde quem atende é um hippão envelhecido e com cara de quem já fumou todos, há uma imensa variedade de CDs importados – estão lá todos os da Joan Baez na fase Vanguard, a primeira, dos anos 60 – e também dos novos LPs bilionários, perto de 200 reais a peça, de não sei quantas gramas de peso. Vi vários do Dylan, em nova edição para a tribo dos neo-elepeístas pós-CD como o Pedro da Lu Fernandes.</p>
<p>Chegamos a essa galeria por mero acaso, durante um dos vários passeios pelo Centrinho. Depois vi, em um desses guias que os hotéis distribuem (um chamado Programa Rio Grande do Sul, 3 reais o exemplar), um anunciozinho e um textinho picareta falando da “Chaves, a galeria do CD”: tem a Via Imports CDs, “especializada em CDs importados”, a Sala dos Clássicos, “uma das melhores do gênero no país”, e a Sinthonia Musycal, “cartas, tarôs, astrologia e reike com hora marcada, artigos esotéricos, CDs e DVDs”.</p>
<p>(Que diabo será reike?)</p>
<p>A loja do Cine Guion do Centro Nova Olaria tem uma variedade absurda de CDs de trilhas sonoras; tem de tudo um pouco, mas a especialidade é trilha sonora; achei e comprei um Ennio Morricone ao vivo que nunca tinha visto e, outra surpresa, a trilha do Vestida para Matar, do Pino Donaggio. É uma edição americana meio antiga; dentro da capinha-encarte bem vagabundinha, de 4 folhas, uma delas ocupada por uma foto de impressão ruim não da Angie Dickinson, e sim da Nancy Allen, há a informação – coisa de que eu jamais tinha ouvido falar – de que se trata de um CD de “edição limitada, não disponível em todas as lojas”: “Varèse Sarabande está se propondo a lançar um clube de CDs para atender a pedidos feitos via correio, devotado a fazer discos de edição limitada de grandes trilhas sonoras. Esses CDs só estarão disponíveis para membros do clube. Se você estiver interessado em receber informações sobre o Varèse Sarabande CD Club, escreva para&#8230;”</p>
<p>Vivendo e aprendendo.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-88" title="DSC00623" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00623-225x300.jpg" alt="DSC00623" width="225" height="300" />Na Avenida Borges de Medeiros, embaixo dos arcos – lugar muito bonito, e diferente de tudo o que conheço de cidade grande –, e mesmo depois do viaduto dos arcos, o Otávio Rocha, há diversas lojinhas, sebos de CDs e LPs, LPs dos antigões, tradicionais, pré-CD. Numa delas, que o senhor que atendia dizia ser a melhor loja de Porto Alegre com música para a nossa geração, achei uma caixinha chique da CBS, série Masterworks, o selo de música erudita da gravadora, da Ópera dos Três Vinténs, da dupla Brecht-Weill; a gravação é de 1958, com Lotte Lenya, a senhora Kurt Weill em pessoa, no papel de Jenny, e a edição é holandesa, de 1982; o encarte tem 96 páginas, traz notas imensas e todas as letras e é trilingue – alemão, inglês, francês. Pertenceu a alguém que estudou as letras, fez diversas anotações no encarte. Paguei 10 reais pela preciosidade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Livrarias, livraria-bar, livraria-café, feira de livros</strong></p>
<p>E Porto Alegre tem tantas livrarias quanto tem lojas de discos. Todo o Centro é coalhado de livrarias, e, como já citei, em Moinhos de Vento há até livraria-bar, onde vimos duas duplas de mulheres conversando sobre literatura e trabalhos de pós-graduação. Aos sábados, há uma feira de livros na Rua Riachuelo; pelo que deu para entender, não é propriamente uma feira fisicamente falando; cada uma das diversas livrarias da região promove, aos sábados, ofertas de alguns de seus livros, e a isso chamam de feira.</p>
<p>(Mais adiante pela Borges de Medeiros rumo ao Sul, há um ajuntamento de lojas de antiguidades, e aos sábados uma feira de antiguidades – esta uma feira mesmo, no meio da rua.)</p>
<p>Entre os prédios históricos, antigos, do Centro, há o da Livraria do Globo. A Livraria do Globo foi também a importantíssima Editora Globo, que, até os anos 60, lançou toda a obra dos gaúchos Érico Veríssimo e Mário Quintana e um punhado de clássicos importantes, se não me engano Tolstói, Dostoiévski, Thomas Hardy e Theodore Dreiser entre eles, mais um bando de autores franceses. A parte editora da empresa – se não estou redondamente enganado – foi comprada no final dos anos 80 ou começo dos 90 pelas Organizações Globo, que juntou a Globo gaúcha com o que era antiga Rio Gráfica Editora e passou a chamar de Editora Globo, a que publica as revistas Marie Claire e Época, hoje o carro-chefe da empresa.</p>
<p>A Livraria do Globo está lá no prédio do início do século XX onde, parece, também funcionou a antiga Editora Globo; atualmente, no térreo fica a área de papelaria, material para escritório, uma grande Kalunga; no segundo piso fica material escolar, e, no terceiro, finalmente, a livraria em si – com um grande e belíssimo café, adornado com pôsteres de reproduções de fotos da empresa ao longo dos anos, dos autores publicados pela velha Globo e dos seus proprietários. Espalhados pelo salão de pé direito alto, há peças das velhas, velhíssimas impressoras, caixas de tipos, prensas, máquinas de escrever da era pré-Remington e pré-Olivetti – uma maravilha. No sábado por volta do meio-dia, apenas uma das cerca de 15 belas mesas estava ocupada, por um bando de velhinhos – intelectuais, escritores, jornalistas, muito provavelmente. Não tive coragem de me dirigir a eles para fazer perguntas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Sem um novo Puerto Madero, por favor</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-89" title="DSC00477" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00477-300x225.jpg" alt="DSC00477" width="300" height="225" />Montes de lojas de disco, montes de livraria – e montes de centros culturais. Montes e montes de centros culturais. Ao ver os muitos armazéns vazios do porto (o movimento pesado de navios foi levado mais para o Norte, para um ponto mais afastado do centrinho histórico), Mary imaginou um plano de revitalização do porto, à la o que fizeram em Barcelona e Buenos Aires e há décadas dizem que vão fazer no Rio, mas briguei ferozmente contra a idéia, com o argumento de que é melhor deixar tudo do jeito que está: se inventarem revitalização do porto, é capaz de esvaziar a cidade em si e seus muitos centros culturais. Eles têm boa freqüência hoje, estão sempre com gente – melhor deixar como está. Mary acabou concordando, e fica combinado assim: não haverá uma novo Puerto Madero em Porto Alegre.</p>
<p>Há um centro cultural no Gasômetro, com café e cinema, e, entre outros, cursos de informática. Quando estivemos lá, tinha também uma exposição de fotos de Porto Alegre em várias épocas, bancada pelo jornal Correio do Povo, que, aparentemente, o poderio do grupo RBS ainda não conseguiu sufocar. A rigor, nem precisava de exposições, porque o prédio do Gasômetro em si, entre o início do porto, de um lado, e, do outro, o início dos parques que prosseguirão acompanhando o Guaíba rumo ao Sul, já é uma belíssima atração. A vista que se tem do Guaíba e das ilhas do delta na grande varanda do terceiro andar do prédio onde funcionou a antiga usina termoelétrica da cidade é de babar.</p>
<p>No centrinho do centrinho, junto da Praça da Alfândega e suas belas árvores, estão três prédios imponentes, maravilhosos, construídos na década de 20, ou por aí, onde hoje funcionam o Margs, o Memorial do Rio Grande do Sul e o Santander Cultural.</p>
<p>O prédio onde está o Margs, o museu de arte do Estado, foi construído para ser a alfândega, se não me engano. Tem um bistrô francês dando para fora, para a praça, bem simpático, e, lá dentro, um café, e um bom acervo, com Di, Portinari, um monte de gaúchos, é claro, alguns bem bons, e diversos europeus.</p>
<p>O prédio que hoje é o Santander Cultural foi construído para ser um banco, não sei exatamente qual – talvez o antigo Banco da Província do Rio Grande do Sul. Hoje tem salas de cinema, mas estava sem exposição nos salões principais, e por isso as recepcionistas não nos deixaram entrar neles. Foi o único lugar em que vimos pessoas antipáticas – as recepcionistas em vez de recepcionar afastam os eventuais visitantes. Como se não houvesse outros centros culturais para ver naquela cidade. A principal atração do belo predião, assim, acaba sendo um café construído dentro do lugar que era o antigo cofre central do banco. Comemos lá uma bobagem qualquer, servida por um garçom veado, afetado, metido a besta.</p>
<p>O Memorial do Rio Grande Sul funciona no prédio que foi construído para ser o Correio central de Porto Alegre, nos moldes do prédio do Correio no Anhangabaú com São João. A construção é uma beleza, como os demais vizinhos, e havia lá uma exposição de grandes painéis contando os principais fatos da história gaúcha. A exposição é muito boa, os painéis são bonitos e bem montados – o duro é tentar entender a história gaúcha, com tanta revolução, tantos farroupilhas, tantos positivistas, maragatos, chimangos, caudilhos, invasão disso, invasão daquilo. Lutam muito, aqueles povos do Sul.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-91" title="DSC00446" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00446-300x225.jpg" alt="DSC00446" width="300" height="225" />Ali perto tem o Mercado Público Central – um belo centro cultural-gastronômico, maravilha de mercadão, assim uma mistura do Mercado paulista da Rua da Cantareira com o Mercado Modelo da Cidade Baixa em Salvador. Entre as mil bancas de comida de todos os tipos e as dezenas de bares e restaurantes, alguns antiqüíssimos, com cheiro de mate e peixe fresco, segundo tinha avisado a Vivi, há um grande sebo de revistas e livros e a sensacional Banca 40, que também nos tinha sido indicada por nossa amiga gaúcha. A Banca 40 serve ali, há 82 anos, sorvetes de todos os tipos; Mary e eu dividimos uma Bomba Royal – acho que é esse o nome de uma gigantesca salada de fruta com sorvete de chocolate, morango e nata batida. Quando chegamos, havia uma única mesa desocupada, e para pagar, na saída, tem fila.</p>
<p>Entre o prédio do Mercado e o porto há a estação inicial do antigo trem de subúrbio, que vai rumo ao Norte, até&#8230; ih, sei lá até onde, algo no Vale dos Sinos – seria Novo Hamburgo? Hoje é chamado de metrô, é coisa ainda do governo federal, uma estatal chamada Trensurb. Andamos nele até a quarta estação, para experimentar; estações bem limpas, bem cuidadas. O fascinante, e louco, é que, nessa estação central, a primeira delas, não há uma única placa, um único aviso de que aquelas escadas para debaixo da terra levarão a um trem, ou a um metrô. Ou você sabe que ali é a Estação da Sé deles, ou você não sabe, e pronto. Quem mandou não ser porto-alegrense?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As jóias da coroa</strong></p>
<p>Já tô cansado deste texto, mas ainda falta falar das jóias da coroa na área cultural, o Theatro São Pedro e o antigo hotel Majestic, hoje Centro de Cultura Mário Quintana. Então vamos lá.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-92" title="DSC00490" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00490-300x225.jpg" alt="DSC00490" width="300" height="225" />O Theatro São Pedro é o Municipal deles, só que mais velho: tem 150 anos de história e uma pré-história que remonta à década de 1820. Foi aí que um grupo de ricaços encaminhou um pedido ao presidente da então Província de Rio Grande de São Pedro para que um terreno no Centro da cidade fosse cedido para a construção de um grande teatro. Vimos a reprodução da carta dos tais ricaços – dez pessoas, acho, que não apenas pediram um terreno como doaram uma grande quantidade de mil-réis para o início da construção do teatro. Ele foi inaugurado (ou começou a ser construído? um dos dois) em 1833. Está lá, bonitão, na Praça da Matriz, como já falei 37 laudas atrás. Na década de 70 e começo da de 80, foi inteiramente restaurado, de cima abaixo. Atualmente, há obras no entorno do teatro, para transformar o conjunto num multipalco que eles prometem ser “o maior complexo cultural da América Latina”. Eles são assim, os gaúchos; não deixam barato.</p>
<p>Um anfiteatro, com uma concha acústica, já estava praticamente pronto, dando para a rua de trás do teatro, exatamente a Riachuelo, onde fica nosso hotel; nosso quarto dava direto para as obras.</p>
<p>No segundo piso do teatro, em cima do hall de entrada, dando para as árvores da Praça da Matriz, com uma bela varanda, há um bom, amplo café; ao fundo, um piano de cauda.</p>
<p>O interior do teatro é belíssimo, extraordinário, com vários andares de camarotes, todas as poltronas de veludo vermelho vivo. Parece (pelo que sei de ver fotos) um Scalla de Milão em miniatura. E num piso inferior tem uma exposição de fotos e painéis com textos contando a história do teatro. A uma mesa na entrada do salão de exposição estava sentada uma jovem gaúcha bonita – mais uma gaúcha bonita –, que se apresentou para nós como professora de História, à disposição para nos dar algum esclarecimento que se fizesse necessário. Dei uma reparada na professora: danada de bonita, uma cara sapeca, safada, uns 26 aninhos, toda, absolutamente toda vestida de preto, maquiagem preta nos olhos, e, sobre a mesa, o livro que estava lendo: Drácula, de Bram Stoker. Dark e safada.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-94" title="DSC00482" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00482-300x225.jpg" alt="DSC00482" width="300" height="225" />O antigo Hotel Majestic deve ter sido – estou entrando no espírito gaúcho – um dos lugares mais grã-finos da América Latina, das Américas, do planeta, da galáxia. São dois prédios (na Rua da Praia, é claro) iguais, lindos, majestosos, cor de rosa!, com uma galeria no meio e passarelas ligando um ao outro em vários dos sete andares, e, no topo, duas abóbodas cor de rosa!, numa das quais, a mais próxima do porto e do rio, funciona um gostoso bar. Avista-se ainda o rio, mas, infelizmente, entre o Hotel Majestic e o porto permitiram a construção, lá pelas décadas de 50 ou 60, de horrendos prédios modernosos que tiram parte do que seria talvez a vista mais deslumbrante da cidade. Mary, como se estivesse jogando Sim City, ficou implodindo os monstrengos.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-95" title="DSC00484" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC00484-300x225.jpg" alt="DSC00484" width="300" height="225" />Mário Quintana, o Carlos Drummond de Andrade deles, viveu tempos no hotel de salões amplos, pé direito alto, portas imensas, mármore no chão. E então agora ali é o Centro de Cultura do poeta maior da terra. Tem oficina disso e daquilo, teatro, biblioteca, o escambau. No térreo, abrindo para a galeria situada entre os dois prédios, há três salas de cinema e um bando de bares e restaurantes.</p>
<p>Estávamos voltando do Gasômetro, uma noite, em direção ao hotel, quando tropeçamos, ali na galeria do Centro de Cultura Mário Quintana, com a abertura do 5º Festival de Verão do RS de Cinema Internacional. Já tínhamos ouvido falar do festival, e até ido umas duas vezes à bilheteria do cinema do Santander Cultural perguntar pelo folheto com a programação, cuja impressão e distribuição tinha atrasado. (Tem horas em que se tem a sensação de que Porto Alegre, afinal de contas, fica no Brasil.) Mas não sabíamos que a abertura seria naquele dia, e ali. Pois era.</p>
<p>Montaram na galeria um cinema ao ar livre, como se faz nesses projetos tipo Cinemagia: baita tela, caixas de som, cadeirinhas de armar enfileiradinhas. Pensamos em ficar por ali para ver não exatamente o filme de abertura, mas um pouco do clima; na metade da galeria, quando terminavam as cadeirinhas armadas, havia mesas e cadeiras de um dos restaurantes do lugar, um tal Café dos Cataventos. Sentamos ali para beber, comer, ver o clima – e até mesmo dar uma olhadinha sem compromisso no filme, já que a tela estava lá adiante de nós.</p>
<p>O filme de abertura era o <em>Cantoras do Rádio</em>, um bom documentário sobre as próprias, misturando depoimentos e apresentações delas hoje. O som não estava lá essas coisas, então me enfiei mais para perto da tela para ouvir um pouco dos discursos de apresentação; falou um garoto jovem, que imaginei ser o diretor do filme, e que dedicou, sensata e um tanto populistamente, a sessão inaugural ao porto-alegrense Lamartine Babo. Na verdade, o filme foi dirigido por Gil Baroni e Marcos Avellar; não sei qual dos dois estava lá e falou; falha de repórter ruim que sempre fui. Estavam presentes, e falaram, duas das cantoras mostradas no filme – Carmélia Alves, com seus 80 e tantos lépidos anos, e Ellen de Lima, igualmente lépida e fagueira.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A língua da potência estrangeira, questão complexa</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-108" title="DSC00579" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC005792-300x225.jpg" alt="DSC00579" width="300" height="225" />Numa mesa próxima à nossa, atrás de nós, em relação à tela, havia dois senhores; quando a gente se sentou, eu até perguntei se eles não se incomodariam, e um deles disse com segurança que não atrapalharíamos nada. Enquanto o filme não começava, reparamos que um dos dois era alguém importante na área de cultura. Não dava para não reparar, porque havia praticamente uma fila de beija-mão junto da mesa dele. Depois conversaríamos com ele, e ele, uma figura simpática como praticamente todas as pessoas com quem falamos durante a viagem a Porto Alegre, em pouco tempo já nos tratava com se fôssemos velhos conhecidos.</p>
<p>Chama-se Pedro Costa. Um tipo interessantíssimo. Uns 65, talvez 70 anos, elegante, bem cuidado (embora beba muita cerveja e fume muito), desse tipo de gente rica e culta. Foi diretor de uma empresa que chegou a ter 50 cinemas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina; uma empresa dele hoje, a Panda Filmes, é uma das responsáveis pela realização daquele festival que estava sendo inaugurado.</p>
<p>O amigo que estava com ele, Clóvis, é um técnico da área de som, que tem no currículo uma passagem pela Rádio Eldorado. Brinquei que fomos colegas da mesma empresa. Lá pelas tantas, esse Clóvis chamou o dono do restaurante para vir conhecer os jornalistas de São Paulo – embora tivéssemos insistido no fato de que somos mineiros radicados em São Paulo, até porque, dissemos, nós mineiros e eles gaúchos temos muita coisa em comum, como os fatos de que exportamos gente para todo lugar do país, temos uma grande projeção nas diversas áreas de cultura e dos dois Estados sai, modéstia às favas, um bando de gente que sabe escrever.</p>
<p>Foi uma gostosa conversa, até tardão; fechamos o bar. Na saída, já de madrugadão, o Pedro Costa nos acompanhou até perto do hotel; não que houvesse perigo de assalto ou coisa parecida – apenas por gentileza. E também porque ele mora por ali, no Centro da cidade. Ao contrário do que acontece em tanto lugar, a classe média de Porto Alegre não abandonou seu Centro.</p>
<p>Uma beleza de cidade, Porto Alegre. Mary e eu concluímos que, se em vez de belo-horizontinos, fôssemos porto-alegrenses, muito provavelmente não teríamos saído de nossa cidade.</p>
<p>Antes da viagem, eu tinha brincado com os amigos que talvez fosse ter dificuldades com a língua do povo daquele país estrangeiro. Sandro achou que eu deveria ter adotado a política protecionista do ‘brazilian buy’ e passar as férias no Brasil mesmo: “Para que engordar a receita turística de uma potência estrangeira? Já que não há alternativa, pelo menos coma-lhes a picanha.” Já o Valdir disse que eu não deveria ter problemas, pois o gauchês é simples: “linguiça é salsichão, PM é brigadeano, menino é guri ou piá, farol é sinaleira, estádio de futebol é cancha, lanchonete é lancheria. Carne moída, boi ralado. Helicóptero, avião de rosca.”</p>
<p>Bem, os preços cobrados na potência estrangeira não são absurdos, e a picanha é maravilhosa. Já a questão da linguagem é complexa, bem complexa. (<em>E os exemplos dados pelo Valdir foram contestados por uma gaúcha legítima, Dininha Torres Luize, conforme se vê no belo comentário que vai aí abaixo.</em>) No aeroporto, pouco antes de embarcar de volta para São Paulo, comprei o Dicionário de Porto-Alegrês, publicado pela gaúcha e porto-alegrense L&amp;PM, atualmente na 14ª edição, revista e ampliada. O autor, Luís Augusto Fischer, vai logo explicando que existe o gauchês e existe o porto-alegrês – são coisas distintas.</p>
<p>Bah, tchê, e tu queres que a gente entenda aquele povo?</p>
<p><img class="alignleft size-large wp-image-101" title="DSC00639" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/DSC006391-1024x768.jpg" alt="DSC00639" width="1024" height="768" /></p>
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		<title>Uma reportagem subjetiva sobre os anos de chumbo, piração e amor</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Dec 2003 19:29:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Cada geração tem sua década, o conjunto dos anos em que era jovem e portanto seus sonhos eram tão fortes e poderosos que parecia ser possível realizá-los. A jornalista Lucy Dias teve a sorte grande (e, junto com ela, o terrível azar) de ter tido como sua a década de 70, aquela que, no Brasil, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cada geração tem sua década, o conjunto dos anos em que era jovem e portanto seus sonhos eram tão fortes e poderosos que parecia ser possível realizá-los. A jornalista Lucy Dias teve a sorte grande (e, junto com ela, o terrível azar) de ter tido como sua a década de 70, aquela que, no Brasil, mais ainda que a de 60, mudou absolutamente tudo, ou quase tudo.<span id="more-192"></span></p>
<p>Terrível azar: foi a década de Garrastazu Médici, da censura, da tortura, da guerrilha, amigos presos, amigos sumindo assim pra nunca mais. Sorte grande: foi também a década da contracultura, do contra-establishment, da transgressão, da derrubada de valores, do arrombamento das portas da percepção, das drogas, do transar desenfreado, do pé na estrada, do rompimento com padrões seculares, da aposta no alternativo, das conquistas do feminismo.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-195" title="barca" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2003/12/barca.jpg" alt="barca" width="139" height="200" />Os leitores têm agora a sorte (sem ter que sofrer com as dores do azar) de poder relembrar, ou conhecer, tudo isso no livro <em>Anos 70 – Enquanto Corria a Barca</em> (Editora Senac São Paulo, 360 páginas), em que Lucy Dias faz o que chama, com total propriedade, de “uma reportagem subjetiva” sobre os “anos de chumbo, piração e amor”.</p>
<p>Não é um tratado com pretensos rigores científicos, ou uma tese sociológica. Como a autora avisa no seu prefácio, ela não teve a intenção de dar conta de toda a complexidade e trama daqueles anos trepidantes, “nem de fazer um levantamento histórico do período; nem mesmo de buscar interpretações para algo que apenas foi vivido como necessário, quando os pilares da velha ordem ruíram, abalados por uma estranha onda jovem”.</p>
<p>Há, sim, uma vasta pesquisa que a autora fez em diversos livros que falam sobre a época, e em material da imprensa – a grande e também, e sobretudo, a nanica, ela própria um fenômeno típico daqueles anos de chumbo e desbunde.</p>
<p>Mas a grande, farta e saborosa cereja do livro são as entrevistas realizadas por Lucy Dias com 30 personagens dos anos 70 – gente que viveu e que fez a década, que de alguma maneira, em algum campo ou outro, transgrediu as normas, ajudou a sociedade a avançar além delas. Alguns são famosos, como Heloisa Buarque de Hollanda, Rose Marie Muraro, Maria Lúcia Dahl, Ezequiel Neves. Outros não – embora tenham militado na cultura, na imprensa, na política. Uma parte deles assumiu tudo e assinou embaixo. A outra metade preferiu aceitar a oferta da autora e se manter no anonimato, em troca da entrega de revelações de histórias e dramas pessoais que muita gente poderia considerar inconfessáveis.</p>
<p>E aqui cabe explicar (ou lembrar, para quem sabe quem é a autora) que a maior especialidade de Lucy Dias, ao lado do texto primoroso, um dos melhores da imprensa brasileira, é exatamente esta: a de saber entrevistar. Ao longo de três décadas, ela exercitou e aprimorou a arte de saber entrevistar. Durante seus sete anos na <em>Marie Claire</em>, ajudou a estabelecer o texto que diferencia essa revista de todas as demais. Lucy Dias tornou-se um marco, virou nossa melhor repórter investigativa da alma humana. Suas entrevistas vão fundo e vão fundo e vão fundo; os entrevistados vão abrindo o coração de uma forma que nem seus analistas possivelmente conseguem.</p>
<p>Assim, <em>Anos 70 – Enquanto Corria a Barca</em> acaba sendo um documento único, singular, sobre aqueles anos de chumbo, piração e amor. Quem tem hoje entre 45 e 55 anos vai se identificar com os personagens, as situações, os medos, as angústias, as frustrações, as loucuras, a lucidez. Aqueles que nasceram depois, e viveram suas juventudes nestes últimos anos em que nem há mais o que sonhar, após o fim das utopias, deverão sentir, no mínimo, uma ponta de inveja.</p>
<blockquote><p><strong><em>A historinha por trás do texto</em></strong></p>
<p><em> Lucy Dias é uma pessoa absolutamente extraordinária, jóia rara. Temos uma história bem rica. Entre várias outras coisas, que incluem um gostoso período de namoro, ela acabaria sendo um tanto responsável pela minha ida para a revista </em>Marie Claire<em>, onde passei dois anos absolutamente interessantes, 1994 e 1995.</em></p>
<p><em>Bem, mas isso só importa para mim. O importante aqui é que o livro de Lucy é excelente. Em 2003, quando foi lançado, eu estava de volta à Agência Estado, e me propus a fazer uma resenha do livro para o </em>Caderno 2<em> do </em>Estadão<em>, que, simpaticamente, topou publicar. </em>Anos 70 – Enquanto Corria a Barca<em> mereceria ter tido uma divulgação muito maior do que teve.  </em></p></blockquote>
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		<title>Paris</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Oct 2003 04:08:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Turista acidental]]></category>

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		<description><![CDATA[Hemingway tinha razão: Paris é mesmo uma festa. Milhões e milhões de pessoas que souberam disso antes de mim tinham razão: Paris é escandalosa, despudorada, absurdamente linda. Comer e beber em Paris Ver comprova o que se sabe por ouvir dizer e ver nos filmes: há lugar demais para se comer e beber em Paris. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hemingway tinha razão: Paris é mesmo uma festa. Milhões e milhões de pessoas que souberam disso antes de mim tinham razão: Paris é escandalosa, despudorada, absurdamente linda.<span id="more-1239"></span></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Comer e beber em Paris</strong></p>
<p>Ver comprova o que se sabe por ouvir dizer e ver nos filmes: há lugar demais para se comer e beber em Paris. Parece que há mais lugares para se comer do que gente para comer. Será que os donos dos lugares e seus empregados saem do seu pra comer no vizinho?</p>
<p>Conforme ensinam os entendidos como o Saul Galvão e os já viajados como a Mary, há toda uma hierarquia militar nos lugares para se comer e beber. De soldado raso a general, há bares, crepéries, bistrôs, brasseries, restaurants. Não entramos nos lugares de capitão pra cima, é claro, mas, pelo que se vê, em todos há uma mesma regra: bebe-se e come-se apertado, mais perto da mulher do vizinho de mesa do que da nossa.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014800251.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1257" title="01480025" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014800251-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Só que, ao contrário do que acontece nas cantinas italianas dos filmes socialistas à la <em>Nós Que Nos Amávamos Tanto</em>, o fato de se sentar grudado nos desconhecidos da mesa ao lado não nos torna uma grande união solidária. Ao contrário: il faut fingir que estamos a uma distância civilizada do outro, e que não estamos ouvindo a conversa dele, e vice-versa. Mas – paradoxo – ao final da refeição não é incomum que o companheiro de lado se vire para você e se despeça como se fosse um conhecido dos tempos do colégio. Uma senhora de mais de 60 anos se despediu simpaticamente de nós ao sair do Pepone, um italiano miúdo como a generosidade dos americanos numa ruazinha pequena de Saint Germain, a Rue Gregroire; e uma moça très charmante de seus 40 e tantos fez o mesmo no Bristrô Saint Emillion, gostoso lugar na Rue de Harpes, na fronteira de Saint Germain com Quartier Latin, a duas quadras do Sena.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480025.jpg"></a>Há algo surpreendente no fato de que, na capital mundial da boa comida, os lugares pra se comer mais parecem aqueles hotéis modernos do supersuperpovoado Japão, onde os fregueses dormem em locais pouco maiores do que um armário ou escaninho pessoal de clube ou fábrica.</p>
<p>E o fato é que paga-se não tanto pela comida ou pela bebida, mas pelo preciosíssimo espaço que você ocupa à mesa. Assim, por exemplo, pagamos mais de 9 euros – cerca de 12 dólares – por uma água mineral (ruim e não gelada) e dois cafés puros em duas ocasiões, em que na verdade estávamos mais interessados em descomer e desbeber no toilette do estabelecimento do que nas iguarias servidas à mesa. (Mais sobre os preços das coisas no item específico.)</p>
<p>Mas de uma coisa não se pode reclamar: uma vez você instalado à mesa, o espaço é seu, não importa quantos pobres coitados se amontoem na fila de espera. O garçom que olhou pra você com desprezo na hora em que você entrou e fez seu pedido não sugerirá nunca, nem sequer da maneira mais sutil, que você se levante.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong><span style="text-decoration: underline;">Les carissimes </span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01450035.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014500351.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1249" title="01450035" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014500351-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>No final dos anos 80, começo dos 90, os brasileiros invadiam Buenos Aires à cata de quinquilharias, achando tudo baratíssimo. Saíam das lojas de artigos de couro ou outras do tipo dizendo “foi baratíssimo”. Numa sacada de brilho, o Paulo Totti os apelidou de los baratissimos.</p>
<p>Na Paris em que uma garrafa de água, pequeniníssima como os espaços nos restaurantes, custa 3,20 euros, ou quase 4 dólares, ou cerca de 11 reais, ou seja, umas dez garrafas de água de melhor qualidade, hoje há uma fantástica variedade de homo brasiliens, que se vangloria de ir às Galleries Lafayette e mandar baixar o estoque, e sai feliz da vida dizendo pras amigas: comprei coisas carííííssimas! Na fila para o check in de volta de Paris para São Paulo um ser dessa espécie exultava: tinha gastado uma média diária de 241 euros, excluído o hotel.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong><span style="text-decoration: underline;">Os franceses gostam quando você tenta falar francês</span></strong></p>
<p>Isso é o que sempre se diz. Pela minha humilde experiência, é uma lenda, uma invenção, uma criação literária sobre um país que adora a literatura (todos os escritores franceses são nomes de rues, avenues, boulevards).</p>
<p>Os franceses ficam très ennuyés quando você tenta falar francês com eles. Bom, ao menos com quem tem, como eu, um francês um pouco mais porco do que um imigrante argelino recém-chegado.</p>
<p>Você está lá tentando formar uma frase que não seja nóis vai, e ele já passa rápido, bored como um lord, para o inglês. Foi assim com a gente com garçons, atendentes de loja de disco, de tabaco, de bar.</p>
<p>Uma garçonete da Toastíssimo!, fast-food de uma rede, na Odeon, de imensos olhos verdes, me olhou como se eu fosse o mais horroroso dos ETs do bar do Star Wars volume 3, quando eu pedi um francesímo croissant, e vomitou pra mim: INERÔ! Mas não disse one euro, e por isso essa observação está fora do contexto.</p>
<p>Mary não concorda com essa minha impressão. Acha que os franceses gostam, sim, quando você tenta falar francês. E atribuiu minha impressão ao fato de que eu fico me cobrando falar um francês nativo tendo tido apenas parcas lições no ginásio.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong><span style="text-decoration: underline;">A falta de lógica dos preços </span></strong></p>
<p>No país de René cogito ergo sum Descartes, a lógica não impera – ao menos nos preços. Condescendente, cheio de boa vontade, fiquei imaginando que isso se devia, ao menos em parte, ao fato de que eles estão tendo uma experiência radicalmente inédita de estar lidando com uma nova moeda, depois de centenas de anos de convivência pacífica com o franco.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Um parênteses: o franco e o euro</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600011.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1251" title="01460001" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600011-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>O que requer um parênteses. O euro entrou em circulação definitiva em janeiro de 2002 – ou seja, um ano e dez meses antes da minha primeira visita a Paris. E entrou em circulação depois de um bom período de tempo de convivência com o franco: durante pelo menos um ano antes de janeiro de 2002, ao lado dos preços em franco gravava-se o valor em euro.</p>
<p>Aqui nesta terra bárbara, usou-se a URV, antecedente do real, durante uns três meses, e aí pá: entrou o real, dançou o cruzeiro. (Ou será o cruzeiro novo? Ou o cruzado novérrimo? Não me lembro mais.) Tudo bem: a comparação não é plausível, já que aqui trocamos mais de moeda do que eles de camisa, mas a troca de camisa deles já é assunto para outro tópico. Mas, cacildabecker, que gente danada de vagarosa, não?</p>
<p>Até agora, quase dois anos depois de o país ter uma nova moeda, tudo, mas radicalmente tudo, vem expresso nos dois valores: em euro, e também em franco, uma coisa que não existe mais, a não ser na história. Também tudo bem que eles gostam de história – e eles gostam demais; mas, cacildabecker, que dificuldade danada pra aceitar uma mudança, não?</p>
<p>Mary chegou a pensar que talvez a expressão dos valores em francos após um período tão longo de existência do euro fosse uma forma de mostrar aos franceses, na prática, que os valores das coisas não mudaram, que tudo continua como antes, que não houve inflação na passagem do franco para o euro.</p>
<p>Pode ser.</p>
<p>E, afinal, se aqui, na hora de comprar um disco, na capa viessem pregados os valores das moedas anteriores, como acontece lá, não poderia haver CD, nem compacto simples, nem 45 – só LPs duplos, pra haver espaço pro valor em cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado mais que novo, cruzeiro da zélia, pós-cruzeiro do funaro, mil-réis, etc.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A falta de lógica dos preços (2)</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460006.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1252" title="01460006" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460006-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Agora, se de fato a lógica dos preços lá não se dever à introdução da nova moeda, se os valores tiverem sido sempre esses mesmos, que louca é a lógica do país da lógica.</p>
<p>Uma Coca-Coca custa 3,20 euros, o mesmo preço de uma água mineral. Mas a mesmíssa Coca-Coca pode custar 0,50 euros como parte de um menu numa creperie do Boulevard Saint-Germain, ou 1,20 euros num vizinho mercado. OK, o Maksoud pode cobrar 20 reais por um Guaraná que custa 1,20 num bar ao lado, e isso é lógico.</p>
<p>Mas que tal esta? Um sanduíche quente com queijo, presunto, manteiga, custa 2,50 euros, enquanto uma água mineral custa 3,20.</p>
<p>Uma viagem de avião a Londres custa 29,50 euros, o equivalente a dois menus médios em qualquer lugar.</p>
<p>Uma bicicleta de várias marchas custa 145 euros, enquanto uma miniatura de super-herói, anunciada a poucos metros, ultrapassa 300 euros.</p>
<p>Ou seja: com uma miniatura de super-herói, vai-se a Londres e se volta dez vezes.</p>
<p>Uma passagem de metrô, com quantas transferências forem necessárias, custa 1,30 euros, quase três vezes menos que uma água mineral.</p>
<p>Uma revista mensal de papel de extraordinária qualidade, cheia de fotos, custa 3 euros, ou menos que uma Coca-Cola.</p>
<p>Ou ainda: compram-se três revistas mensais por menos do que se paga por dois cafezinhos e uma água de má qualidade, e quente.</p>
<p>Uma entrada para uma exposição extraordinária como a de 300 obras do Gauguin sobre o Taiti custa 7 euros, o preço de duas Coca-Colas. Menos que uma entrada de um cinema da rede mk2, que sai a 8,20 euros.</p>
<p>E o fato é que, além de ilógicos, os preços são altos. Paris é uma das cidades mais caras do mundo. Quando a gente precisa de suados 3,45 reais para comprar um único euro, então, aí é coisa de louco.</p>
<p>Só pra dar um pequeno exemplo. Ainda no free shop do aeroporto de São Paulo, anotei que a garrafa de Cutty Sark custava 14 dólares. Numa mercearia da Rue de Bac, a mesma garrafa do mesmo Cutty Sark custava 14,95 euros – e 1 euro vale 1,18 dólares!</p>
<p>Uma única dose de um uísque oito anos custa, nos mais simples lugares de se comer em Paris, 6 euros, ou até mais. </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Os nomes das praças e ruas</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01540027.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1253" title="01540027" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01540027-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>Cidade em que cada esquina reserva uma surpresa, em que cada casa antiga é umas 200 vezes mais preciosa que o conjunto da obra do Niemeyer, Paris, assim como a língua francesa, não se contenta com pouco. Há as mais variadas palavras para designar os acidentes geográficos urbanos. E todos são lindos, sonoros, charmosos: Place, Square, Carrefour, Quai, Rue, Avenue, Boulevard, Alée, Passage, Impasse.</p>
<p>Impasse não é fantástico?</p>
<p>Square também é uma delícia.</p>
<p>Por exemplo, a Place des Vosges, aquele conjunto arquitetônico que vale por umas quatro Brasílias. Ela é uma praça, certo? Um quadrado formado por construções em quatro ruas que formam um quadrado. Pois dentro dela existe a Square Louis XIII. Eta língua fantástica. Uma palavra para o contendor – as construções – e outra para o conteúdo – o jardim.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Os sons das ruas</span></strong></p>
<p>Nas ruas de Buenos Aires não se ouve tango, ao contrário do que seria normal se esperar. Nas ruas de Paris ouve-se ainda, neste início de novos século e milênio, o som que se espera ouvir nas ruas de Paris.</p>
<p>Nossa viagem teve o som das ruas de Paris no começo e no fim. No primeiro dia, a sexta-feira, 26 de setembro, depois de entrarmos na Notre Dame, fomos andando pela pracinha que fica atrás dela, à direita, junto do rio; sentamos num banco ao som de um velhinho que tocava ao acordeon – como se tivesse sido contratado para fazer isso naquele exato momento – “Sous le Ciel de Paris”. Era finalzinho da tarde; ficamos um bom tempinho sentados ali ouvindo o velhinho e observando se as pessoas que passavam davam bola ou dinheiro para ele. Algumas deram, sim, observou Marynha.</p>
<p>Um pouquinho adiante, tinha um grupo, na ponte que une a Île de la Cité à Île de Saint Louis, tocando um jazz.</p>
<p>No penúltimo dia, a segunda-feira, 6 de outubro, andávamos exatamente naquele mesmo lugar, os fundos de la Cité, diante da Saint Louis, quando vimos outro velhinho tocando acordeon. Era comecinho da noite, e chovia fininho. Paramos diante dele, no outro lado da ponte. Marynha atravessou a rua pra dar a ele 30 centavos de euro (e agora penso que fomos pão-duros, na nossa despedida dos sons das ruas de Paris). Marynha diz que ele agradeceu muito, sorriu e desejou “boa semana”.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460002.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1254" title="01460002" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460002-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Outros sons:</p>
<p>- Na frente da Notre Dame, dois violinistas tocavam um jazz bem swingado;</p>
<p>- Em um túnel de estação de metrô, não me lembro mais qual (passamos por tantas&#8230;), três sujeitos com cara de índios andinos tocavam naquelas flautinhas andinas – pífanos, segundo a Marynha – “Sounds of Silence” e depois “Let it be”.</p>
<p>- Também na praça diante da Notre Dame, à direita dela, na Nuit Blanche, um rapaz cantou “Revolution”, de <a href="http://50anosdetextos.com.br/1990/10/01/john-no-ceu-com-diamantes/">John Lennon</a>, acompanhando-se à guitarra. A voz era boa, a pronúncia das palavras muito nítida, mas o amplificador dele era uma droga absoluta, coitado.</p>
<p>- Na praça diante da Église de Saint-Germain de Près, a do café Les Deux Magots, onde Sartre tomava café e agora os turistas gastões se espremem feito bocós, cinco caras tocavam jazz tradicional.</p>
<p>- Juntinho do rio, na Ile de la Cité, na Nuit Blanche, um grupo de jovens mandava ver uma batucada até melhor que as que se ouvem nos botequins paulistanos. Pairava no ar um nítido cheiro de maconha e um clima de festa gostosa.</p>
<p>- Debaixo das arcadas centenárias da Place de Vosges, no domingão, 5 de outubro, um grupo grande de jovens – uns dez, pelo menos – tocava peças clássicas em cordas: violinos, violas, violoncelo. Uma mocinha bonita e simpática passava entre os turistas oferecendo exemplares dos dois CDs do conjunto, a 20 euros cada; agradeci polidamente, mas ela insistiu: E monsieur não quer dar algum para incentivar os rapazes? Monsieur, pão-duro e vindo do Tiers Monde pobre, não meteu a mão no bolso.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">O som de Deus </span></strong></p>
<p>Estávamos dando a volta no interior de Notre Dame, passando exatamente atrás do altar e do coro, quando o órgão centenário começou a tocar uma peça religiosa. Um senhor me entregou um papel tamanho ofício com os textos das orações e dos cânticos a serem executados – estava começando um ofício religioso. Dois padres entraram na área diante do altar, um coral de jovens tomou posição, e um solista – um garoto de não mais de 18 anos – começou a cantar bem diante de nós, ao microfone, com uma voz absolutamente angelical. Quasímodo, nas escadarias, deve ter suspirado profundamente.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Os anúncios no metrô e nas ruas</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460019.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1259" title="01460019" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460019-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Numa cidade de tantos eventos culturais (haverá alguma cidade no mundo com mais eventos culturais que Paris? Eu duvido. Nem Nova York, eu acho), nada mais natural que os anúncios de filmes, shows, peças, exposições, concertos, dominem a cena, nas ruas e nas estações do metrô. Anuncia-se mais cultura, em Paris, do que carros, comida, ou qualquer outra coisa.</p>
<p>Talvez o único item que chegue perto da cultura seja o turismo. Anuncia-se muito turismo, em Paris. Durante este período que passamos lá, o que predominava era uma campanha da British Airways para convencer os parisienses e os franceses de passagem por Paris a irem a Londres. Não havia uma estação de metrô sem um, dois, três ou mais anúncios dessa campanha:</p>
<p>Londres, Londres ou Londres? – era o titulão, em letras garrafais.</p>
<p>Embaixo, pequenininho:</p>
<p>3 aéroports: Gatewick, Heathrow et London City – E 29,50</p>
<p>Ou então o titulão:</p>
<p>E 29,50</p>
<p>E, pequenininho:</p>
<p>Londres est plus proche que vous ne l’imaginez.</p>
<p>O Eurostar, que faz o trem Paris-Londres, via Eurotúnel, replicava, mas numa campanha bem mais modesta e menos visível:</p>
<p>Plus vite au centre de Londres. 2h35. E, em corpo menor: 2h35: meilleur temps de parcours.</p>
<p>Uma campanha que me impressionou era sobre violência. Em cada estação de metrô, havia um painel dela, com uma foto de um jovem e o grande título:</p>
<p>La violence, moins on en parle, plus ça fait mal</p>
<p>Embaixo, o nome da campanha, e, acho, um telefone para contato:</p>
<p>Jeunes Violence Écoute.</p>
<p>Me pareceu que é uma campanha sobre a violência doméstica contra os jovens. Mas não é absolutamente claro; pode ser sobre a violência dos próprios jovens. Não sei.</p>
<p>O tema violência voltará em seguida, logo abaixo. Infelizmente.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/janis.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600291.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1276" title="01460029" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/014600291-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Nos anúncios culturais, de tudo. A gigantesca exposição da fase Taiti do Gauguin no Grand Palais em reforma. O novo disco da Cesária Évora e sua próxima turnê por Paris, em 2004. (Anunciam-se eventos culturais com uma antecedência colossal.) A próxima turnê dos The Doors 21<sup>st</sup> Century, sem Jim Morrison, enterrado no cemitério de Père-Lachaise (onde estão também Edith Piaf, Yves Montand e Simone Signoret, entre tantos outros). <em>Hedda Gabler</em>, peça do Ibsen dirigida por <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/o-inquilino-le-locataire/">Monsieur Polanski</a> en personne, com Madame Polanski, Emmanuelle Seigner, no papel título. (“Cette jeune femme passionée entretien une saine ambition, celle d’apprendre, de s’améliorer”, diz dela o <em>Figaro</em> de 7 de outubro.) A versão teatral de <em>Les Demoiselles de Rochefort</em> no gigantesco Palais des Congrés, em frente do qual passamos de ônibus voltando de La Défense (e que fez o <em>Figaro</em> dar a última página com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/houve-uma-vez-um-verao-verao-de-42-summer-of-42/">Michel Legrand</a>, em que o jornal confessa que a França andou meio esquecida do grande músico). Uma peça com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/medos/">André Dussollier, o ator de Resnais</a>. Uma peça com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/kimera-uma-estranha-seducao-the-inner-life-of-martin-frost/">Irène Jacob</a>, a atriz do Kieslowski. Uma peça com <a href="http://50anosdefilmes.com.br/1986/um-homem-uma-mulher-vinte-anos-depois-un-homme-et-une-femme-vingt-ans-deja/">Richard Berry, o ator do Lelouch</a>, com texto adaptado por ele, Berry. Os filmes de ação e aventura da estação – <em>Bad Boys II</em>, com Will Smith, <em>A Liga Extraordinária</em>, com Sean Connery. Os filmes românticos da estação – <em>Le Divorce</em>, <em>Je reste!</em></p>
<p>Mas, dentro do capítulo anúncios culturais, um filme se sobressaía, e demais – <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/janis-e-john-janis-et-john/">Janis et John</a></em>. <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/janis-e-john-janis-et-john/">Janis et John</a></em> estava em todos os lugares da cidade. (O filme estrearia no dia 15 de outubro, poucos dias depois de nossa volta ao Brasil, que foi no dia 7.) E o que seguramente mais impressionava nos anúncios todos não eram as figuras lendárias de Janis Joplin e John Lennon (acharam um ator muito, muito parecido com ele), mas a da atriz que faz Janis, Marie Trintignant.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Un million et demi de femmes battues</span></strong></p>
<p>Umas duas décadas atrás, uma tragédia assombrou o mundo, mas especialmente as pessoas mais bem informadas, mais intelectualizadas: um grande filósofo francês – Louis Althusser – teve um acesso de loucura, matou a mulher, dentro de seu apartamento em Paris, e em seguida se matou, ou tentou se matar, não me lembro bem.</p>
<p>Já a tragédia de Marie Trintignant, dessa vai ser difícil esquecer.  </p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/marie.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1261" title="marie" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/marie-300x207.jpg" alt="" width="300" height="207" /></a>Ela aconteceu em junho – tão pouco tempo atrás. Três meses, apenas, antes da nossa estadia em Paris; três meses e meio antes da estréia do último filme que Marie Trintignant concluiu na vida.</p>
<p>Dentro de poucos dias ela estará nas telas. Já está nas fotos em todas as ruas, nas estações de metrô, na pele de Janis.</p>
<p>Está nas bancas de revista, na capa da <em>Paris Match</em> datada de 2 a 8 de outubro – uma foto de Nadine Trintignant em sua casa, ao lado de um porta-retrato com uma foto preto e branco de Marie, com o título: “La haine est en moi” – o ódio está em mim.</p>
<p>Está em exposição, com grande destaque, em todas as livrarias, o livro de Nadine, “Ma fille, Marie”.</p>
<p>Li as 38 primeiras páginas do livro no vôo de volta para o Brasil. Não é propriamente bem escrito – é um tanto desagradável o fato de Nadine escrever o tempo todo dirigindo-se à filha morta; vai e volta no tempo talvez um tanto desnecessariamente; não relata objetivamente os fatos da tragédia – mas não se poderia mesmo esperar objetividade, é claro. O que não se pode dizer ou pensar é que Nadine esteja fazendo sensacionalismo. Ou melhor, ela está, sim, fazendo sensacionalismo, mas claramente por uma causa. Ela quer vingança.</p>
<p>E quem não iria querer vingança contra o assassino de sua filha?</p>
<p>Os anúncios no metrô pedem que se fale às claras sobre a violência envolvendo os jovens – quanto menos se falar da violência, piores ficam as coisas. Melhor remexer no lodo que fica embaixo da água, melhor deixar a merda subir à tona, melhor expor a imundície.</p>
<p>Nadine Trintignant bota a boca no mundo contra a violência dos machos diante de suas mulheres, essa chaga aberta fenomenal que não poupa a nação que se orgulha de ser uma das mais civilizadas do mundo:</p>
<p>“Les ‘femmes batues’. Comment leur dire de ne pas accepter? Jamais! Elles sont un million et demi en France. En 1999, il n’y a eu que dix-sept mille plaintes. La plupart de cogneurs ont bénéficié de non-lieux. Un sur trois a été jugé. Ils ont écopé de peines avec sursis.”</p>
<p>O Brasil viveu uma experiência um tanto semelhante com o assassinato da jovem Daniela Perez, atriz da Rede Globo e filha da famosíssima autora de novelas Glória Perez. Glória, assim como Nadine, foi à luta contra os assassinos da filha. Causou comoção nacional.</p>
<p>Mas a tragédia de Marie Trintignant é ainda mais brutal. É muito mais brutal – o assassino é o amante! E acontece não num obscuro país do Tiers Monde, mas no coração de uma família da mais alta nobreza do cinema da pátria da solidariedade universal. </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Que triste cidade, a minha </span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460027.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1264" title="01460027" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460027-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Tempos atrás, a Miryam Lúcia, a minha amiga que virou americana, fez cara de nojo sobre São Paulo, vomitou sobre a péssima qualidade de vida daqui. Achei que era frescura de quem, como na música, voltou americanizado.</p>
<p>Em Paris, pela diferença, pelo contraste, senti fundo, na pele, na barriga, como é triste a cidade que escolhi pra viver.</p>
<p>E não é pela beleza de Paris, tão estrondosa quanto a feiúra de São Paulo. Nem pela quantidade de lindíssimos jardins, praças, parques, monumentos. Nem pela diferença tão chocante entre o Sena verde-escuro e o Tietê negro. É por tudo isso também, é claro. Mas é, sobretudo, pela tal da qualidade de vida.</p>
<p>As cidades acontecem nas ruas, muito, muitíssimo mais do que nos locais fechados. (Eu já sabia disso quando tinha 21 anos e, foca, fiz uma bela matéria sobre o carnaval do Recife, a grande festa que estava, na época, correndo o risco de deixar as ruas para se esconder nos clubes.)</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01450002.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1262" title="01450002" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01450002-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>O povo lota as ruas de Paris. Indiferente aos bandos de turistas, ao frio, à chuva, o povo lota as ruas. Formam-se bolos de gente nas esquinas, no meio das quadras, para se decidir onde ir em seguida, ou simplesmente para se conversar. Casais se agarram pelos cantos ou pelos centros. Famílias passeiam – os pais parecem um tanto impacientes com suas crianças, é verdade, mas isso é outra coisa. Os espaços diante das igrejas ficam cheios, aos domingos; as pessoas conversam na rua antes de entrar na igreja, ou depois de sair da igreja. Os 200 trilhões de bares, crepéries, bistrôs, brasseries, restaurants abraçam a rua, debruçam-se sobre a rua, avançam sobre a rua; in é estar out. As pessoas tomam as ruas no sábado, no domingo, nos dias de semana, de tarde, de noite. Pessoas muito jovens, pessoas muito velhas, pessoas entre uma coisa e outra. A rua é das pessoas, como a praça é do povo, o céu é do condor, todo mundo na praça, quanta gente sem graça no salão. </p>
<p>São Paulo perdeu a rua.</p>
<p>O centro e os centros dos grandes bairros de São Paulo ficam cheios de gente que está indo pro trabalho ou voltando do trabalho, ou indo fazer compra, ou indo tomar providência, ou indo fazer alguma coisa. Não há gente nas ruas pelo prazer de estar nas ruas, para encontrar pessoas, para se distrair, para sentar num banco de praça. Quando há gente, é gente andando, indo – nunca parando. À noite, as ruas ficam desertas, sem pessoas, só com carros. </p>
<p>São Paulo virou uma brasília, aquele triste lugar sem esquina, sem rua, autorama.</p>
<p>Não importam os motivos – se é a violência, se são os assaltos, os seqüestros relâmpago, ou a praga dos shopping centers, esses assassinos de cidades. O fato é que São Paulo há muito tempo perdeu a rua, o prazer da rua. Isso é que é o mais chocante de tudo – e essa noção terrível fica estupidamente clara na comparação com o reboliço constante das ruas de Paris.</p>
<p>Mais do que a diferença entre a beleza de Paris e a feiúra de São Paulo, o Sena e o Tietê, o casario escandalosamente bonito de lá e o cinzento dos prédios sem graça ou estilo daqui, os dois mil anos de civilização de lá e a nossa pobreza daqui, o que choca é essa disparidade do povo na rua.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">O Estado</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460012.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1263" title="01460012" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460012-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Paris é muito provavelmente a cidade mais cheia de grandiosidade que existe no mundo.</p>
<p>Não que tudo seja grandioso. Como já mais do que ressaltei, os espaços nos lugares pra se comer, por exemplo, são ínfimos. E há muita beleza em coisas pequenas, como as ruas apertadinhas da Île Saint Louis, do Quartier Latin ou de Saint Germain; as minúsculas lojas de miniaturas; as miniaturas; as casinhas centenárias; os pequenos edifícios tortos; as pracinhas tomadas por pequenos cafés ou restaurantes, como a Place du Marché Saint Catherine, no comecinho do Marais, ou a Place de la Contrescarpe, no início da Rue Mouffetard, ou a Place du Tertre, em Montmartre, só pra citar três em que a gente andou.</p>
<p>A própria edificação que para mim é a mais impressionante de todas, a Notre Dame, não é gigantesca; é muitíssimo menor, acho, que a Igreja de São Pedro, em Roma, a Saint Paul Cathedral, em Londres, ou talvez até a Saint Patrick, em Nova York. É menor até, acho, do que outras igrejas da própria Paris – a Basílica de Sacre-Coeur, em Montmartre, ou a Saint Eustache, na boca do que hoje é o Forum des Halles.</p>
<p>O quadro mais procurado pelos turistas, a Mona Lisa – que, é claro, não perdi tempo para ver – é pequetitinho, assim como a mais famosa escultura, a Vênus de Milo.</p>
<p>Voltando, então: não que tudo seja grandioso. Mas, cacildabecker, quanta grandiosidade tem ali.</p>
<p>Pegue-se o Hotel des Invalides, e o imenso espaço gramado à frente dele. O Champs de Mars. O Louvre. O Pantheon. O domo atrás dos Invalides. O Hotel de Ville. As Tuileries. A moderníssima Grande Arche. São espaços e construções monstruosos, monumentais, gigantescos, faraônicos, bourbônicos, absolutísticos.</p>
<p>São espaços e construções que só um Estado forte, poderoso, rico, concentrador, taxador, esfoliador da população, poderia construir. Não é nada da iniciativa privada. É do Estado absoluto.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480017.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1266" title="01480017" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480017-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>E é um Estado absoluto que permanece absoluto, por mais que passem as revoluções. Estão lá, hoje, os espaços e construções gigantescos mandados construir pelos reis Bourbon da época do L’État C’Est Moi, convivendo com os mandados construir por Napoleão, aquela figura miúda que é a própria encarnação da mania de grandeza, até mesmo no número de pessoas que suas guerras assassinaram, e que veio depois da grande Revolução de 1789, feita para acabar com a monarquia tão absoluta quanto absurda. E pelos Napoleões que vieram depois dele, e que depois viriam também a ser derrubados. E até pelos presidentes das diversas repúblicas que vieram nos últimos 130 anos, seja de direita, Pompidou e seu Beaubourg, seja de esquerda, Mitterrand e suas grandiosidades, Grande Arche, nova Biblioteca Nacional, Pirâmide do Louvre.</p>
<p>É tudo tão grandioso, e tão centenário, que tudo precisa passar eternamente por reformas. Assim, neste ano de 2003, 13 anos após o fim do Império Soviético e da supremacia sem qualquer rival do neocapitalismo selvagem, nesta época de Estados fracos, enfraquecidos ou em processo de enfraquecimento, nesta era das privatizações, de enxugamento das máquinas, de crescimento pequeno da economia mundial, Paris é um imenso canteiro de obras de reformas, feitas pelo Estado.</p>
<p>Na Avenue Winston Churchill, que separa o Grand Palais do Petit Palais, há placas quase tão gigantescas quanto o poder do Estado, informando que a Prefeitura de Paris está reformando o Petit e o Estado está reformando o Grand. O Estado &#8211; nenhuma outra palavra. “L’État restaure Le Grand Palais.”</p>
<p>Estão em reforma, com o dinheiro de L’État, além do Petit e do Grand Palais: o museu L’Orangerie, o Arco do Triunfo, a torre esquerda da Notre Dame, a ala esquerda do conjunto do Trocadéro, os vãos da Pont Neuf. Além de uma ou duas estações de metrô de cada uma das 13 linhas mais antigas – a 14ª foi concluída por Mitterrand. Em diversos boulevards, instalam-se faixas exclusivas de ônibus, inclusive na contra-mão – “Paris est un grand chantier”, constatou para nós o Jean-Marie, motorista de táxi negro honesto como São Francisco de Assis.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01460029.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480016.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480014.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1269" title="01480014" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01480014-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>O poder do Estado, na França, vai atravessando, incólume, os ciclos da história – o absolutismo da monarquia, a grande Revolução, as brigas internas pós-Revolução, o terror, a era napoleônica, a implantação do império, a comuna, a invasão prussiana, a instalação da república, duas guerras mundiais e inclusive a invasão nazista, a Quinta República, o colapso do centralismo estatal comunista, a era do desmanche do Estado.</p>
<p>É o Estado que convoca o povo a invadir as ruas, os monumentos e os prédios públicos, na Nuit Blanche, uma invenção recentíssima, de apenas dois anos. É o Estado que informa aos usuários de ônibus que, por causa de manifestação reivindicatória programada por trabalhadores, haverá atrasos em determinadas linhas, entre tantas e tantas horas. É o Estado que subsidia a agricultura improdutiva – e foda-se o resto do mundo.</p>
<p>Ali ao lado, em dez anos o regime Thatcher esvaziou o inchado Estado britânico, privatizou ferrovias, metrô, minas de carvão, telecomunicações, enquanto seu pupilo canastrão do outro lado do oceano arrasava a assistência pública aos enjeitados pelo sonho americano. O poder do Estado francês se manteve igual, de Pompidou a Miterrand a Chirac.</p>
<p>Chose de lóque.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Pingos nos is: a tal da iniciativa privada</span></strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01540003.jpg"></a>Nada do que está aí acima quer dizer que só existe o Estado. Existe também, é claro, a iniciativa privada. Não há apenas guindastes gigantescos nas obras estatais – constrói-se muito, também, com dinheiro de investidores. E como existem os tais guindastes. É impressionante. Em todos os cantos da cidade.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400031.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1271" title="01540003" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400031-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>O melhor exemplo de como o Estado moderno faz a coisa gigantesca e o capital privado vem atrás é, sem dúvida, a Paris Nova, a região de La Défense. La Grande Arche (e põe grande nisso: meu estômago veio na garganta na hora de subir o elevador panorâmico no gigantesco vazio entre o chão e o teto da Grande Arche) foi feito pelo Estado; uma das estruturas verticais é ocupada por ministérios, enquanto a outra é tomada por grandes empresas, para quem seguramente o Estado vendeu ou alugou os espaços. E, na imensa esplanada diante da Grande Arche, o que se vê é o capitalismo do final do século 20, as gigantescas corporações, Citibank, Eléctricité de France, IBM, Apple, as big redes hoteleiras.</p>
<p>E aí me ocorre que o Mitterrand foi assim, mais ou menos, mutatis mutandi, uma espécie de Roosevelt do New Deal: o Estado forte puxa, o privado vem atrás.</p>
<p>Isso me parece muito mais Terceira Via do que a do Blair lambe-botas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Por falar nisso (1)</span></strong></p>
<p>E aí, só para enfatizar que as velhas noções de esquerda e direita (inventadas, aliás, na própria França) estão cada vez menos nítidas e mais confusas, basta lembrar como têm sido “esquerdas” as posições do direitista Chirac com relação ao Império Dominante, e como têm sido “direitas” as posições do trabalhista Blair.</p>
<p>E não só com relação ao Império Dominante.</p>
<p>Nossa imprensa não conta, até porque nossa imprensa é uma droga tão gigantesca quanto os monumentos que o Estado construiu em Paris, mas da mesma forma como a França “direitista” tem sido quase condescendente com o turismo jovem e a imigração, a “trabalhista” Inglaterra do Blair tem sido odiosamente discriminatória. Como bem demonstrou o caso dos guardinhas da Alfândega de Heathrow que mandaram de volta brasileiros que não sabiam responder a perguntas sobre os Beatles. E como bem demonstraram os casos contados pela mocinha gaúcha que se sentou ao nosso lado na viagem de volta – vários brasileiros rejeitados nas alfândegas do Império Britânico, sem qualquer explicação plausível, lógica ou admissível. </p>
<p style="text-align: center;"><strong>Por falar nisso (2)</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400081.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400082.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1275" title="01540008" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/015400082-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a>Saiu há pouco um livro de um estudioso francês sobre <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/eua-europa-uma-relacao-de-amor-e-odio/">as semelhanças e as diferenças entre França e Estados Unidos, sobre o amor e o ódio</a> que os franceses têm pelo país dos Founding Fathers que aprenderam na França as noções básicas sobre a civilização (que, aliás, em seguida rapidamente seriam perdidas). Numa entrevista, o camarada simplificou as coisas da seguinte forma:</p>
<p>Os americanos, descendentes de colonizadores que dizimaram nações indígenas e roubaram-lhes as terras, contam com um dia bom após o outro, com a acumulação. A lógica deles é o <strong>e</strong> e o <strong>e</strong>. Os franceses, descendentes de camponeses, sabem que depois de um ano bom pode vir um ano ruim. A lógica deles é o <strong>ou</strong> e o <strong>ou</strong>.</p>
<p>Pode ser simplista. Mas é bonitinho.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="text-decoration: underline;">Deux ou Trois Choses que Je Sais d’Elle</span></strong></p>
<p>Un:</p>
<p>Sobre o mito de que os franceses não tomam banho e fedem, posso dizer uma coisa: vimos que muitos, mas muitos, mas muitos franceses se overdressem, com perdão pela palavra inexistente. Botam roupa demais.  </p>
<p>Chegamos no início do outono; os primeiros dias foram quentes, os últimos, bem frios. Nos dias quentes, vimos franceses com um bando de casacos desnecessários, enquanto nós, do país tropical, estávamos em mangas de camisa, só carregando na mão algum agasalho para quando o frio da noite ou da sombra chegasse.</p>
<p>Vai daí que eles entram no metrô com blusa de lã e casaco por cima. E haja suor. A condescendente Marynha lembrou que afinal eles estão saindo do verão mais absurdamente quente da história; eu mesmo observei que é mais cômodo entrar no metrô com as roupas quentes e passar um pouco de calor do que ficar tirando e pondo agasalho toda hora.</p>
<p>Mas o fato é que eles se agasalham excessivamente.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01520020.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1277" title="01520020" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/01520020-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a>Deux:</p>
<p>Sim, é verdade que eles andam com o pão embaixo do braço.</p>
<p>Alguns quebram a baguette ao meio pra entrar no metrô. Mas muitos andam com a baguette inteira, imensa, compriiiida, debaixo do braço.</p>
<p>E, sim, eles comem na rua. Andando, ou sentados nos bancos, eles comem. Seja pão com pão, seja sanduíche. </p>
<p>Trois:</p>
<p>Eles fazem mais filhos do que seria de se supor pelas estatísticas de crescimento populacional quase zero. Tem criança pacas nas praças e nos jardins – e, como tem praças e jardins demais&#8230;</p>
<p>Muitos, mas muitos pais demonstram uma imensa falta de saco pra passear com os filhos.</p>
<p>Há muita francesa de mais de 30 anos tendo filho. E, portanto, muita francesa fazendo tratamento hormonal para ter o primeiro filho. E, portanto, muitos gêmeos. Vimos montes de gêmeos.</p>
<p>Quatre:</p>
<p>Como a capital do Império Britânico, como a capital do Império Dominante, a capital do Império Francês foi <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-cinema-e-uma-arma-quente-contra-o-racismo-e-a-xenofobia/">invadida pelos colonizados</a>. Paris deve ter mais negros que muita capital africana, mais árabes do que muita cidade da Argélia, Marrocos, Costa do Marfim. Paris é uma Babel. Paris é a vingança dos oprimidos.</p>
<p>Cinq, et ça suffit, et fin:</p>
<p>Paris é uma festa.</p>
<blockquote><p><em>Outubro de 2003</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>As músicas que embalaram nossas paixões</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Nov 1996 04:35:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Os mais jovens, mais inexperientes (uma pena; ainda bem que a juventude é uma doença que o tempo cura), não sabem o que é isso. Mas que maravilha era “Besame Mucho” com Ray Conniff e sua orquestra. Aquelas paradinhas marotas, depois do pa-pa-rã dos metais, eram uma total delícia. Nada mais fácil do que ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os mais jovens, mais inexperientes (uma pena; ainda bem que a juventude é uma doença que o tempo cura), não sabem o que é isso. Mas que maravilha era “Besame Mucho” com Ray Conniff e sua orquestra. Aquelas paradinhas marotas, depois do pa-pa-rã dos metais, eram uma total delícia. Nada mais fácil do que ter uma paixonite por quem sabia dançar bem nos bailinhos do começo dos anos 60 &#8211; ainda mais depois de um cuba libre.<span id="more-129"></span></p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-166" title="rayconniff" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/rayconniff-150x150.jpg" alt="rayconniff" width="150" height="150" />Era a época de dançar ao som das orquestras de Ray Conniff, Billy Vaughan, Percy Faith, ou ainda Sílvio Mazzucca, Metais em Brasa, Românticos de Cuba. O estéreo ainda era uma novidade, e nem toda vitrola hi-fi o incorporava.</p>
<p>O que leva inevitavelmente a duas certezas. A primeira é: olha, faz um tempinho, hein? E a segunda: na época de nossas mães a qualidade era muito melhor. Eles tinham as big bands americanas, as fabulosas e originais, Tommy Dorsey, Benny Goodman, Les Brown, e até mesmo Glenn Miller. Eles tinham o jovem Sinatra e o perfeito Bing Crosby, e, aqui, maravilhas como Pixinguinha e Orlando Silva. Porque, é claro, aquelas coisas tipo Ray Conniff que nos faziam dançar e amar quando éramos bem jovens nos anos 60 eram uma diluição leve do que as big bands fizeram antes; em qualidade, eram tão fundas quanto pires.</p>
<p>Mas é preciso deixar claro desde já que, quando se fala de música que embala paixões, de música que nos faz sonhar de amor, ou que alivia na hora da dor de cotovelo, qualidade artística não importa nada. Fazer distinção entre “brega” e bonito é coisa de crítico – ou de quem não está apaixonado, o que é triste do mesmo jeito.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-168" title="endrigo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/endrigo-150x150.jpg" alt="endrigo" width="150" height="150" />Nos anos 60, pouco depois do auge de Ray Conniff, veio, por exemplo, o começo de uma onda italiana, um balaio onde se misturavam Sergio Endrigo, Luigi Tenco, Pino Donaggio e também Peppino Di Capri, Fred Bongusto e até John Foster, e depois Gigliola Cinquetti. E quem até hoje sabe de cor ao menos o refrão de “Io che amo solo te” e “Ho capito che ti amo” também se deixou levar por “Champagne”, “Amore, Scusami” e “Dio, come ti amo”, sem problema algum. Por que não?</p>
<p>O amor sempre foi poliglota, e as canções de amor também. Quem não se enamorou ou namorou ou teve saudade ouvindo “Et maintenant”, “Tous les garçons et les filles” ou “F&#8230; Comme Femme”, por exemplo, mesmo não sabendo patavina de francês, que atire a primeira pedra.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-169" title="françoise" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/françoise-150x150.jpg" alt="françoise" width="150" height="150" />Amor em espanhol, então, que é fácil de entender, sempre esteve em nossos ouvidos, assim como tinha estado nos de nossos pais. O bolerão – homenageado tão bem por João Bosco e Aldir Blanc na voz de Elis Regina em “Dois Pra Lá, Dois pra cá” – é certamente uma das mais importantes contribuições da América Latina à cultura e aos apaixonados de todo o mundo. Não há discoteca básica, nem trilha sonora de novela, nem história de amor que deixe de incluir “Solamente Una Vez”, “Contigo en la Distancia”, “Sabor a Mi”, “El Reloj” – aquele que pedia, como só os loucos de amor poderiam fazer, que o relógio não marcasse as horas.</p>
<p>Claro, nem só de bolero vive o amor em espanhol; canta-se a paixão também no tango, na guarânia (será que existe mesmo no Paraguai o lago azul de Ypacaraí?), na rumba, no calipso, no cha-cha-cha, no mambo, no merengue&#8230; Tanto, e de maneira tão forte, que até os americanos, que vendem sua cultura para o mundo inteiro e não gostam nada de ouvir outras línguas (eles, ao contrário do amor, são monoglotas), sempre abriram suas fronteiras à paixão cantada em espanhol. E espalharam para o mundo suas próprias versões das músicas latinas, de Ray Conniff em “Besame mucho” até os velhos LPs de Nat King Cole en español. E dá-lhe bailinhos mundo afora – Brasil inclusive, claro, e nós neles, de cuba libre ou uísque com guaraná na mão – ao som de “Aquellos ojos verdes” e “Quizás, quizás, quizás” com o sotaque horroroso na voz aveludada do grande Nat.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-170" title="elvis" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/elvis-150x150.jpg" alt="elvis" width="150" height="150" />Há quem culpe o rock’n’roll por diversos males da humanidade, entre eles o fim da época áurea das grandes orquestras, que tanto eram capazes de embelezar histórias e sonhos de amor. Bobagem – ou no mínimo um imenso exagero. A era das grandes orquestras chegou ao fim basicamente por motivos econômicos. Elas custavam caro; viraram dinossauros dentro de uma indústria que, talvez mais que qualquer outra, quer lucro fácil, rápido e grande; as emissoras de rádio e TV, os donos de boates e teatros e a própria indústria de discos foram passando, no final dos anos 50 e nos 60, a preferir gravações feitas em estúdio (e não mais em teatros ou auditórios), com grupos menores, ou a sobrepor os sons de diversos instrumentos nas fitas master, sem a obrigatoriedade de reunir muitos músicos ao mesmo tempo.</p>
<p>O rock teve sua participação no processo, sim; lá isso teve. Ele chegou como um gigante poderoso, aplastrando todo o resto, abafando os demais sons. O catalão Joan Manuel Serrat, infelizmente pouco conhecido entre nós, fez uma música muito interessante sobre isso; chama-se “Cuando duerme el rock and roll”, e a letra diz que só quando o rock, o xerife do mundo, se cansa, retira suas botas e o cinturão e finalmente dorme é que podem escapulir de seus guetos e esconderijos e andar pelas ruas o tango romântico e dançarino, o bolero que ronda a lua e parapeitos das janelas, o blues sentimental, o mambo, a rumba&#8230;</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-172" title="beegees" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/beegees-150x150.jpg" alt="beegees" width="150" height="150" />Se Elvis Presley e os Beatles pareciam para nossas mães ou tias tão agressivos, barulhentos e pouco românticos quanto hoje nos parecem os Guns N’Roses, Metallica, Nirvana e Sepultura, a verdade é que todos eles souberam cantar o amor. E dançamos e sonhamos e nos apaixonamos ao som de tanta coisa que fica abaixo do rótulo amplo, impreciso e vago de rock – de “Blue moon” a “Yesterday”, de “It’s now or never” a “Something”, passando por “You’ve lost that lovely feeling”, “Do you wanna dance”, “I Started a joke”, “Stairway to heaven”, “Three times a lady”, sem deixar de fora os mais antigos “Smoke gets in your eyes” ou “Only you” ou os mais recentes “(I’ve had) The time of my life” ou “Why worry”, até que chegassem “Patience” ou “Nothing else matters”. E se essas últimas você desconhece, fique tranquila: seus filhos ou sobrinhos ou irmãos mais novos adoram.</p>
<p>Aliás, esse negócio de rótulo – rock ou não rock, brega ou chique – é a maior asneira. Bem no meio dos anos 60, foi sob a inspiração do rock e da guitarra elétrica que estourou no País inteiro o então Rei da Juventude, hoje para boa parte dos brasileiros o maior sinônimo de música romântica. Duvido que você conheça uma única pessoa que não tenha amado, feito amor ou desejado fazer ao som de Roberto Carlos – desde os tempos de “Nossa canção”, “As flores do jardim de nossa casa” e “As curvas da estrada de Santos” até essas últimas homenagens às gordinhas, baixinhas, míopes e – aleluia! – quarentonas. Roberto é assim uma espécie de inconsciente coletivo dos corações brasileiros. E também que mulher não gostaria de um amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores e apesar da velha roupa e da calça desbotada ainda chama de querida a namorada, mesmo com alguns erros do português ruim?</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-173" title="RobertoLP" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/RobertoLP-150x150.jpg" alt="RobertoLP" width="150" height="150" />Roberto estava mandando tudo pro inferno quando começaram a surgir as primeiras músicas dessa geração de ouro de cantores e compositores que fez e ainda faz a cabeça e as emoções dos brasileiros que estão, como <strong>Barbara</strong> gosta de dizer, na melhor fase de suas vidas: Maria Bethania, Gal Costa, Edu Lobo, Milton Nascimento, Paulinho da Viola e, em especial, a santíssima trindade Chico-Caetano-Gil. É fascinante, é emocionante pensar e sentir que já faz 30 anos que crescemos convivendo com eles, aprendendo com eles, amando com eles. Desde “Sem fantasia”, “Avarandado” e “Pé da roseira”, nos anos 60, a “Futuros amantes”, “O motor da luz” e “Quanta”, agora nos 90 e tantos. </p>
<p>Tem um amigo meu que costuma dizer sempre que cada um de nós já viveu mais tempo com a música de Chico, Caetano ou Gil do que com as nossas mulheres – ou maridos, no caso das mulheres. Ele mesmo, conta, já era apaixonado por nossa santíssima trindade antes de conhecer sua primeira mulher, lá por volta de 1969; se amaram ouvindo as músicas deles, partilharam a admiração por eles, foram juntos a vários shows deles; no segundo casamento foi a mesma coisa; o terceiro está sendo igual; e se algum dia houvesse um quarto, diz ele, também seria igual. Os amores mudam, os amores passam, se transformam, quando temos sabedoria e sorte, em velhas e sólidas amizades; vêem os novos amores – e a música dessas pessoas vai embalando tudo, abençoando tudo, ao longo da passagem dos anos, das décadas. </p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-174" title="domingo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/domingo-150x150.jpg" alt="domingo" width="150" height="150" />Toda essa geração de ouro que surgiu na década de 60 e está aí firme, no auge, nasceu nos anos 40. Entre 1942 e 1946, precisamente. Quem nasceu nos anos 50 era adolescente quando eles surgiram. Pois quando eles eram adolescentes o que havia eram os grandes dos anos 30 a 50, Noel, Gonzagão e Caymmi, para falar só dos gigantes – e mais a turma da bossa nova. Todos eles, Chico, Caetano, Gil, Milton, Paulinho, estavam vivendo seus primeiros amores adolescentes quando a bossa nova apareceu; de 1958 a 1960 João Gilberto fez seus três primeiros discos, cheios de músicas de Tom e Vinícius que já nasceram clássicas e continuam absolutamente novas e eternas, embalando amores de várias gerações – não só aqui, no mundo todo.</p>
<p>As diferenças de idade, que são grandes na infância e na juventude, vão sumindo depois. Se você tem 16 e sua irmã tem 11, há um abismo aí; mas, quando você está com 46 e ela com 41, os cinco anos não parecem nada. Muito rapidamente Tom, o mestre de todos, virou parceiro de Chico, uma parceria não contínua, que só produziu frutos de tempos em tempos – e que frutos. “Retrato em branco e preto”: “Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada, seus segredos sei de cor”. “Sabiá”, a mais bela música mais vaiada da história do mundo. E que tal “Eu te amo”? “Se nós, nas travessuras das noites eternas já confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu devo seguir.” E “Anos Dourados”?</p>
<p>Antes de escrever este texto, perguntei para várias amigas quais as músicas que embalaram suas paixões, namoros, casamentos. Elas citaram mais de 50 músicas diferentes – um indício da diversidade imensa, graças aos bons deuses, de sons, tons e sensações que acompanham o amor. Impressionante como Chico e Tom predominavam, juntos ou separadamente.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-175" title="gonzaguinha" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/gonzaguinha-150x150.jpg" alt="gonzaguinha" width="150" height="150" />Teve de tudo na lista feita por elas. Roberto e Erasmo, claro. Milton Nascimento. Gonzaguinha. “Champagne” e “Io che amo solo te”, óbvio. Alcione – dor de cotovelo não é privilégio de Maysa e Dolores Duran. Marina, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso. “Não vá ainda”, da menina Zélia Duncan. “Bem que se quis”, da menina Marisa Monte.</p>
<p>E isso indica aquela coisa tão óbvia quanto deliciosa: assim como na vida e no amor, também na relação com música que fala de amor nada some, tudo se soma. As coisas novas não ocupam o lugar das velhas – passam a conviver com elas. O que é uma maravilha, uma das melhores coisas da vida.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-165" title="cazuza" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/cazuza-150x150.jpg" alt="cazuza" width="150" height="150" />Quando éramos muito jovens, nos anos 60, havia uma grande preocupação com um tal conflito de gerações. Queríamos romper com os valores antigos (e isso era fundamental, e nisso conseguimos excelentes vitórias), mas às vezes misturávamos estações e achávamos que, ao ser contra o gosto de nossos pais, ao curtir, por exemplo, Rolling Stones e detestar Nelson Gonçalves, estávamos fazendo grande progresso. Ainda bem que crescemos. Como é bom aprender com os mais velhos – e com os mais novos.</p>
<p>Seguramente foram milhares as pessoas da minha geração que aprenderam com os mais novos (no meu caso específico, foi com minha filha torta, Inês) a prestar atenção às letras de Cazuza e, um pouco mais tarde, às de Renato Russo (aqui, tenho que agradecer à minha filha Fernanda, que hoje tem 21, e desde cedo me levou pra ver e me fez ouvir o Legião Urbana.) Depois da geração de ouro, provavelmente foram Cazuza e Renato Russo quem melhor colocaram em canções o encantamento e as dores do amor.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-164" title="renato" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/1996/11/renato-150x150.jpg" alt="renato" width="150" height="150" />A chegada do CD ajudou a somar. Com ele voltaram às lojas, limpinhas, purinhas, sem chiados, gravações que fizeram as delícias de nossos pais e até avós. Está tudo disponível, do “Carinhoso” que Orlando Silva gravou em 1937, do “Fools rush in (where angels fear to tread)” gravado pelo jovem Sinatra em 1940, até o último ao vivo de Marisa Monte. Passando por tudo o que foi citado aqui. Sim, até o pa-pa-rã de Ray Conniff em “Besame mucho”.</p>
<p>Outro dia mesmo, minha filha foi ao casamento de uma amiga do colégio. Tocou de tudo, ela contou. Mas foi quando o jovem disc-jockey, ele também de 21, colocou “Besame mucho” com Ray Conniff, que a pista de dança ficou mais cheia.</p>
<blockquote><p><strong><em>A historinha por trás do texto</em></strong></p>
<p><em> Tinha me esquecido desse texto, até agora, novembro de 2009, quando fiquei fuçando velharias para ver o que daria para botar neste site. Digo sem ficar envergonhado que adorei reler.</em></p>
<p><em>Foi a Laïs de Castro, na época diretora de redação da revista </em>Barbara<em>, que cometeu a loucura de me encomendar um texto sobre esse tema, “As músicas que embalaram nossas paixões”. Laïs é uma velha amiga minha, uma pessoa extraordinária. Nos conhecemos no comecinho dos anos 70, fazendo frilas para a Editora 3, eu na revista </em>Status<em>, ela na </em>Mais<em>, acho. Nos reencontraríamos muitos anos mais tarde na redação da </em>Marie Claire<em>, lá por 1993, 1994.  </em></p>
<p><em>Me lembro de maneira vaga que ela falou especificamente em músicas dançantes – até encomendou uma lista de músicas dançantes das várias décadas.</em></p>
<p><em>A </em>Barbara<em> foi uma revista que não durou muito tempo. Foi imaginada como uma revista para senhoras, para mulheres de mais de 40 anos. Era editada pela Símbolo, uma editora que fez vários títulos nos anos 90; lançou também a revista </em>Atrevida<em>, para concorrer com a </em>Capricho<em>; e ousou ao fazer </em>Raça<em>, uma espécie assim de versão brasileira da </em>Ebony<em>, uma revista dedicada aos negros.</em></p>
<p><em>Não guardei a revista </em>Barbara<em> que publicou o texto. Se não estou enganado, o texto saiu bem cortado. Não sei se Laïs ou a editora da seção não gostou do texto. É bem possível que não tenham gostado mesmo. (Depois que leu este post, Laïs me mandou uma mensagem dizendo o seguinte: &#8220;Saiu cortado porque você é maluco, escreveu um “artigo” para 8 páginas! Ele é lindo inteiro.&#8221;)</em></p>
<p><em>Ao relê-lo agora, achei que fui bem ousado ao me colocar pessoalmente no texto, ao dar opiniões pessoais, ao falar da minha filha torta, minha enteada, Inês, pessoa que a cada momento se revela mais maravilhosa, e da minha filha Fernanda. Isso não era uma coisa normal, aceitável, no jornalismo da época.</em></p>
<p><em>Até que cuidei para não aparecer tanto na matéria. Atribuí a “um amigo meu” a coisa de dizer que a gente já viveu mais tempo com a música de Chico, Caetano ou Gil do que com as nossas mulheres. </em></p>
<p><em>Não era amigo meu coisa nenhuma. Era eu mesmo.   </em></p></blockquote>
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		<title>Para abrir o coração dos homens</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Nov 1992 02:40:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Os protagonistas são todos homens, adultos, instruídos, com dinheiro no banco. Durante três dias, eles se reuniram em um local isolado, no meio do mato, a menos de 70 quilômetros do Centro de São Paulo, e viveram cenas como estas: * O homem olha demoradamente dentro dos olhos do outro, à sua frente, e diz: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os protagonistas são todos homens, adultos, instruídos, com dinheiro no banco. Durante três dias, eles se reuniram em um local isolado, no meio do mato, a menos de 70 quilômetros do Centro de São Paulo, e viveram cenas como estas:</p>
<p>* O homem olha demoradamente dentro dos olhos do outro, à sua frente, e diz: ”Eu sou seu pai, eu sou seu irmão, eu sou seu filho”. Ele responde com a mesma frase. Em seguida, cada um troca de parceiro, olha demoradamente dentro dos olhos do outro, e diz ser seu pai, seu irmão, seu filho. <span id="more-391"></span>Depois que cada um dentro do salão repete esse ritual com todos os demais, formam-se pares, e cada par se abraça. Ouvem-se suspiros fundos. Os pares se desfazem, formam-se novos pares: novos abraços, novos suspiros.</p>
<p>* Todos formam um círculo ao redor de uma vela no chão, cercada por pétalas de flores cor-de-rosa e cartas como de um baralho, com figuras de animais. Dão-se as mãos, mantendo os polegares voltados para a esquerda. O círculo caminha primeiro para a esquerda, durante alguns minutos, depois para a direita, depois para a esquerda, enquanto todos repetem cinco vezes o som “hêi” e depois uma vez o som “hôu” – hêi, hêi, hêi, hêi, hêi, hôu, hêi, hêi, hêi, hêi, hêi, hôu, hêi, hêi, hêi, hêi, hêi, hôu, hêi, hêi , hêi, hêi, hêi, hôu.</p>
<p>* Agora ao ar livre, à noite, forma-se um círculo ao redor de uma fogueira; ritmadamente, os homens lançam o pé e o braço direitos para dentro do círculo, em direção à fogueira, enquanto repetem no mesmo ritmo: “Eu sou / hôu. Eu sou / hôu. Eu sou / hôu”. O ritual dura mais de uma hora. A certa altura, pede-se que todos tirem a roupa.</p>
<p>* Depois desse ritual em torno da fogueira, um a um, os homens deitam-se no chão durante alguns segundos e em seguida entram em uma choupana pequena e baixa, em forma de iglu, construída com bambus e coberta por lona e plástico para impermeabilizar o ambiente interno. Todos apertados lá dentro, os corpos nus encostando na terra do chão, nas folhas de bambu às costas e nos homens ao lado, no calor escaldante provocado pelas pedras retiradas da fogueira, tem início uma jornada de perdão. Um a um, os homens enunciam suas culpas, e pedem perdão por elas. Ao final da fala, cada um diz: “Hêi!” E os demais respondem em coro: “Hôu” – enquanto mais água é lançada sobre as pedras incandescentes, aumentando o vapor, o abafamento, o calor sufocante.</p>
<p style="text-align: center;">        <strong>Parece adulto brincando de escoteiro, parece coisa de veado</strong></p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-402" title="Marie Claire, capa" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Marie-Claire-capa1-218x300.jpg" alt="Marie Claire, capa" width="218" height="300" />Parece um exótico piquenique. Parece um grupo de adultos brincando de escoteiro. Parece coisa de veado, diria muita gente. Eram homens tentando melhorar – tentando se conhecer mais, tentando compreender seus sentimentos, seus medos, suas angústias, sua identidade. E era também a chegada oficial ao Brasil de um fenômeno que cresce sem parar, do outro lado do Equador, embora muito pouco conhecido aqui – o movimento dos homens.</p>
<p>Nos últimos 30 anos, o movimento feminista mudou a face do mundo, ou no mínimo de boa parte dele. Foi “o único movimento social a respeito do qual se pode hoje dizer que teve êxito”, como disse o filósofo alemão Jürgen Habermas. Criaram-se dezenas e dezenas de publicações para discutir a identidade feminina, escreveram-se centenas, milhares de artigos, teses, livros, houve cursos de todos os níveis e de todos os tipos, o cinema está cheio de filmes sobre a nova mulher. Houve até o <em>backlash</em>, a contra-reação, que rendeu novos livros, novos artigos, novas reflexões. E os homens? “Os homens ainda têm tudo para dizer sobre a própria sexualidade”, diz a escritora francesa Hélène Cixous. “O que é masculino? Eis uma pergunta à qual as sociedades ocidentais já não sabem responder”, diz o filósofo francês Alain Finkielkraut. “Podemos nos surpreender com o silêncio dos homens desde o início desta mutação extraordinária, que começou há 20 anos. Nem livros, nem filmes, nem reflexões profundas sobre sua nova condição. Permanecem mudos, como que paralisados por uma evolução que não têm condições de controlar”, diz a socióloga francesa Elisabeth Badinter. “Os homens continuam sendo analfabetos na cultura do pessoal”, diz o escritor italiano Primo Moroni. “A cultura masculina é alheia e hostil ao universo sentimental, emocional”, diz a jornalista italiana Marisa Rusconi.</p>
<p>Por causa de todas essas constatações, na década de 80, nos Estados Unidos, Inglaterra e outros países da Europa, começou-se a discutir o que é ou deve ser a nova identidade masculina. Começaram a aparecer livros &#8211; <em>Ser Homem</em> – <em>O Paradoxo da Masculinidade, Por Que os Homens São como São, João</em> <em>de Ferro. </em>E foram surgindo as terapias de grupo, os <em>worshops</em>, os <em>men’s groups</em>.</p>
<p style="text-align: center;">        <strong>Um repórter no meio do grupo</strong></p>
<p>Craig Gibsone, um australiano de 51 anos radicado na Escócia há mais de dez anos, dedica-se a conduzir esses “grupos de homens”. Este ano, ao dirigir o primeiro deles já realizado no Brasil, permitiu que o repórter de <strong>Marie Claire</strong> participasse. Em parte, disse, a permissão foi dada exatamente por se tratar de uma revista feminina. Craig acha que as mulheres são aliadas fundamentais; muitas vezes incentivam seus maridos ou companheiros a participar desses trabalhos do movimento dos homens. Porque, quando voltam, voltam melhores. “Em geral”, diz ele, “quando um homem volta de um <em>workshop </em>desse tipo, sua mulher costuma dizer: “Você mudou, está diferente. Está me tocando de uma forma diferente, melhor.”</p>
<p>O grupo que se reuniu em uma pousada na Serra do Mar, no município paulista de Juquitiba, para o primeiro <em>men’s group </em>no Brasil, tinha 19 homens, contando com Craig, e com o terapeuta Roberto Ziemer, que servia de intérprete. Apenas dois desses 19 tinham menos de 30 anos; todos os demais tinham entre 32 e 51 anos. Oito dos 19 eram terapeutas, psiquiatras, psicólogos ou médicos. Sete dos 19 manifestaram, de alguma forma, preferências homo ou bissexuais. Onze dos 19 já foram ou estão casados – e pelo menos três estão no segundo casamento. Dezessete dos 19 tinham experiências anteriores de terapias de grupo ou <em>workshops </em>em busca de maior autoconhecimento.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-405" title="Marie Claire, Homens" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Marie-Claire-Homens1-218x300.jpg" alt="Marie Claire, Homens" width="218" height="300" />O <em>workshop </em>consistiu de sessões em ambiente fechado – um grande salão de estar de onde foram retirados todos os móveis – e em trabalhos ao ar livre, que culminaram na dança em volta de uma fogueira e na sauna indígena apresentadas no início deste relato. Durante todo esse tempo, cumpriam-se rituais indígenas, em geral baseados em costumes de povos da América do Norte. É uma prática comum aos diversos grupos do movimento de homens. Parte-se do princípio de que os homens, especialmente os da civilização ocidental, pós-industrialização, afastaram-se tremendamente de tudo o que é natural, e de que os povos indígenas sabiam se relacionar em paz com a natureza e entre si; assim, repetir rituais que eles usavam pode ajudar no trabalho. “Criamos rituais não para rumarmos para o passado, para voltarmos a ser selvagens, mas para tentar expressar de um homem para outro a nossa masculinidade, que é forte e poderosa”, diz Craig.</p>
<p style="text-align: center;">        <strong>Para puxar a energia do céu – e o repórter se sente ridículo</strong></p>
<p>A primeira reunião aconteceu no salão de estar, a partir das 8 horas da noite. No chão do centro do salão, Craig havia montado aquele altar: uma vela acesa, as pétalas de flores, cartas como as de baralho, com a face principal voltadas para baixo. As pessoas sentavam-se em almofadas no chão, formando um círculo em torno desse altar. Craig pediu que todos ficassem de pé, para o primeiro dos diversos rituais indígenas que povoariam o <em>workshop</em>. As mãos eram erguidas bem para o alto, enquanto todos diziam “iahai”, e em seguida para baixo, enquanto se dizia “iahou”. O ritual, explicou Craig, era para puxar energia do céu e trazê-la para cada pessoa.</p>
<p>Foi a primeira de diversas e diversas vezes em que eu me senti absolutamente ridículo, durante o <em>workshop. </em>Mas, de uma maneira geral, com poucas exceções, as pessoas entravam perfeitamente no espírito da coisa, como se aquilo fosse absolutamente natural, fizesse parte de seu dia-a-dia – como se fosse tão comum quanto sucessivamente ajoelhar, ficar de pé e sentar durante uma missa católica, por exemplo. Poucas pessoas demonstravam um certo embaraço em participar desses rituais que seus pais, avós e bisavós jamais realizaram.</p>
<p>Foi feita então a apresentação de todos os participantes. Craig pediu que cada um chegasse para o centro do círculo, respirasse bem, até se sentir preparado e à vontade, olhasse nos olhos das pessoas em volta e repetisse seu nome três vezes. Depois que cada um dizia seu nome, o grupo inteiro repetia também três vezes.</p>
<p>Craig explicou sobre as cartas colocadas em volta da vela, no centro do círculo. Cada carta representava um animal de poder, e cada pessoa pegaria uma carta. O animal de poder tirado passaria a ser o aliado de cada participante, na sua jornada através dos dias do <em>workshop</em>. Depois que cada um escolheu a carta com o seu aliado animal, repetiu-se o ritual de apresentação, agora usando o nome do aliado.</p>
<p>Em seguida, Craig apresentou algumas regras do trabalho e compromissos exigidos:</p>
<p>- não evitar a dor;</p>
<p>- não usar álcool ou drogas até o final do trabalho; o cigarro seria permitido, mas não nos momentos de reunião de trabalho;</p>
<p>- nenhum sexo, com nada (o tradutor disse “nenhum sexo, com ninguém”, o que, obviamente, é diferente);</p>
<p>- não deixar sair do grupo as experiências pessoais ali vividas.</p>
<p style="text-align: center;">        <strong>Contato ocular, contato físico</strong></p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-406" title="sweat2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/sweat2.bmp" alt="sweat2" />“Uma das coisas que pretendemos é quebrar essa barreira, essa dificuldade que os homens têm da proximidade física-carinhosa, mas não sexual entre eles”, explicou Craig. O primeiro exercício nesse sentido foi o ritual do contato ocular – aquele em que cada participante olhava dentro dos olhos do outro, e depois de outro, até completar todo o grupo. Ao final desse processo, Craig pediu que todos abraçassem cada um dos demais. Um abraço forte, longo, carinhoso.</p>
<p>Assim como eu mesmo, outras pessoas do grupo (mas não a maioria) mostravam desconforto com a situação, não agüentavam durante todo o tempo esse “jogo do sério” e olhavam para os lados. Mas não era, realmente, a maioria. E, no dia seguinte, ao se repetir o mesmo ritual, as pessoas pareciam menos desconfortáveis do que na primeira vez.</p>
<p>De novo formado o círculo em torno do altar, Craig explicou sobre o <em>tallking stick</em>, o bastão de falar, outra tradição de tribos do Norte. O bastão de falar fica no centro do círculo. Quem pega o bastão e o leva para o seu lugar está com a palavra, até dizer “hei!”. Nesse momento o grupo responde: “Hôu!”. O bastão de falar seria usado pela primeira vez a partir daquele momento, para a leitura das cartas aos pais, requisitadas aos participantes na inscrição para o <em>workshop</em>.</p>
<p>Algumas poucas cartas haviam sido escritas de maneira superficial, apenas para se cumprir a tarefa. Mas boa parte, bem mais da metade delas, trazia claras marcas de seriedade. Mais ainda: abria e remexia feridas, algumas bem profundas, do relacionamento daqueles homens com seus pais. Embora as cartas em geral terminassem com declarações de amor e saudade, de uma forma ou outra traziam acusações, queixas, reclamações. Falavam do autoritarismo, da repressão e, sobretudo, da ausência de conversa, de carinho, de atenção, da ausência pura e simples – os homens saem para ganhar a vida e muitas vezes se perdem e perdem a ela própria, vida, e perdem a possibilidade de se relacionar com os filhos que fazem e deixam em casa.</p>
<p>Muitos choraram ao ler suas cartas. Alguns baixinho. Outros com soluços abertos. Eram amparados e abraçados pelos outros homens. A leitura das cartas avançou até o final dos trabalhos, por volta da meia-noite, e prosseguiu na manhã do segundo dia. Foi quase uma sessão de terapia em grupo formal, só que aqui e ali povoada por rituais de danças indígenas.</p>
<p style="text-align: center;">        <strong>A grande viagem do cérebro para o coração</strong></p>
<p>No quarto para quatro pessoas, com dois beliches, comentei que estávamos, nós, em geral na curva e na crise dos 40, alojados em condições de exército, normalmente aceitáveis quando se tem 18 anos. Meus colegas de quarto não pareciam achar tão desconfortável quanto eu. Aceitavam as condições do alojamento dos 18 anos com a mesma naturalidade com que a maior parte do grupo aceitava participar de todos os rituais, por mais inusitados que fossem.</p>
<p>No segundo dia, depois da continuação da leitura das cartas ao pai, e de novo ritual do contato ocular e dos abraços de todos em todos, Craig fez alguma considerações, entre elas a que talvez seja a chave do que se pretende com aquele <em>workshop</em> e com o movimento dos homens, de uma maneira geral: “A grande viagem que nós homens estamos tentando fazer é daqui (a cabeça) para cá (o coração) “.</p>
<p>“Nós, do mundo industrial do Ocidente, em particular, perdemos, algumas centenas de anos atrás, o elo entre os homens – a não ser através da garrafa de cerveja ou de guerras”, disse. “O que queremos aqui é retomar algo da época em que os homens aprendiam a ser homens com os homens. Vamos fazer como os índios fazem com seus filhos. Eles os levam para um lugar desconhecido, às vezes hostil, como a floresta ou o deserto, para ensiná-los a ser homens, e a se encontrarem a si próprios dentro do ambiente estranho.”</p>
<p>A partir daí, as atividades se voltaram para a preparação do <em>sweat lodge</em>, a sauna indígena usada durante centenas e centenas de anos na América do Norte, e que o movimento dos homens adotou como um de seus rituais de iniciação. Todos saíram para cortar lenha e carregar as pedras que primeiro ficariam sob a fogueira, e depois seriam levadas, incandescentes, para um buraco feito no centro da cabaninha de bambu. Esse trabalho braçal durou cerca de duas horas. Craig pediu que tudo fosse feito em silêncio e respeito à natureza: “Peguem cada pedra, cada pedaço de madeira, como se tocassem uma amante”.</p>
<p style="text-align: center;">        <strong>Aura purificada, os homens ficam pelados</strong></p>
<p>No intervalo para o jantar, entre o final desse trabalho de preparação e o ritual do <em>sweet</em> <em>lodge</em>, algumas poucas pessoas demonstraram um certo desconforto. Houve frases como estas:</p>
<p>- Eu não vou contar pra ninguém o que nós fizemos aqui: as pessoas iam achar que eu fiquei doido.</p>
<p>- E fazer isso tudo com a cara limpa, sem droga nenhuma!</p>
<p>- Eu vou contar uma parte, e dizer que a partir de um momento não lembro de nada; entrei em transe, estado de consciência alterada.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-408" title="sweat4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/sweat41-300x210.jpg" alt="sweat4" width="300" height="210" />Eram 19h30 quando os 19 homens saíram de seus quartos e rumaram para o lugar do <em>sweet lodge</em>. Usavam roupas velhas e sujas, devido ao trabalho da tarde; levavam toalhas para a sauna, e alguns instrumentos de percussão, que foram sendo tocados no caminho. Enquanto as duas pessoas escolhidas para cuidar da fogueira começavam a trabalhar, os demais formaram uma corrente oval em volta da fogueira e do espaço entre ela e o <em>sweat lodge</em>. Craig ia ensinando algumas danças indígenas, como aquela dos cinco hêis intercalados por um hôu, e a dos pés e braços direitos lançados em direção à fogueira, enquanto se repetia: “Eu sou / hôu”.</p>
<p>Durante o longo tempo que durou essa dança, foi executada também uma cerimônia de limpeza, purificação da aura. Chama-se s<em>mudging</em> – algo como defumar, purificar com fumaça. Queima-se um pedaço de caule de uma planta e, com uma pena de ave, lança-se a fumaça sobre cada pessoa.</p>
<p>Aura purificada, os homens ficaram pelados. As pedras que haviam sido colocadas sob a fogueira estavam, a essa altura, vermelhíssimas de calor. Craig foi o primeiro a entrar no <em>sweat lodge</em>; entrou vindo do lado esquerdo da porta – e, antes de entrar, deitou-se no chão, por um rápido instante, dizendo: “ <em>To my relations</em>”, e foi sendo seguido pelos demais. Lá dentro, assim como todos os outros que o seguiram, fez todo o percurso em torno do buraco central, no sentido horário, até chegar perto da porta, pelo lado direito.</p>
<p>Os dois homens escolhidos para cuidar da fogueira eram então os únicos a ficar do lado de fora do <em>sweat lodge</em>. E passaram a levar para a porta de entrada as pedras incandescentes. Craig recebia uma a uma dizendo: “Bem-vinda, bisavó”, e as colocava no buraco feito no centro do <em>sweat lodge</em>. De tempos em tempos, lançava sobre elas uma caneca d’água, que imediatamente se transformava em vapor. Em pouquíssimos minutos a sauna indígena estava quentíssima. Os dois últimos homens entraram, e a porta da sauna foi fechada.</p>
<p>Craig havia prevenido que haveria três sessões da sauna indígena – como os índios americanos faziam. Na primeira, todos fariam proclamações pelo perdão. (“Esqueçam sua formação católica. Não vamos pedir perdão a Deus. Vamos, como os indígenas, pedir perdão a nós mesmos, e depois aos outros”.) Na segunda, fariam declarações pela família. Na terceira, pelo planeta, por todas as formas de vida.</p>
<p align="center"><strong>Um calor sufocante – e os homens vão pedindo perdão</strong></p>
<p>No calor sufocante, os homens iam pedido perdão. Alguns em frases curtas – “Peço perdão por ter traído tantas vezes o meu namorado fulano”, disse um deles, por exemplo. Outros faziam enunciados longos, tornados insuportavelmente mais longos pelo calor e pelo abafamento. Muitos pediram perdão por não estarem se dedicando como deveriam aos filhos, às mulheres. Terminada a primeira sessão, quase todos entraram no riacho de águas geladas que ficava bem próximo ao <em>sweat lodge</em>. Na terceira sessão, foram feitas várias orações de agradecimento ao movimento dos homens, por ter tornado possível um melhor conhecimento de cada um, e do mundo.</p>
<p>Depois da sauna, formou-se novamente o círculo em torno da fogueira e do caminho entre ela e a porta do <em>sweat lodge, </em>para uma nova rodada de dança ritual.</p>
<p>Craig pediu, então, que todos se reunissem, dentro de poucos minutos, no salão das reuniões para que rapidamente, se fizessem comentários sobre a experiência. Era mais de meia-noite, estavam todos exaustos, tanto que Craig dispensou a formalidade do bastão de falar. Eis algumas expressões e frases usadas para se descrever o que cada um sentia naquele momento:</p>
<p>- sensação de liberdade</p>
<p>- solto e limpo</p>
<p>- flutuando</p>
<p>- contente comigo</p>
<p>- renovado</p>
<p>- feliz</p>
<p>- sensação de força, mas não de força física; de força interna, interior</p>
<p>- me senti parte de uma irmandade masculina</p>
<p>- leve, confiante, com uma confiança que nunca tinha sentido em mim</p>
<p>- alguma coisa nova aconteceu; sinto como se estivesse começando algo novo.</p>
<p>Na manhã do terceiro e último dia, esses homens assim renovados, confiantes e fortes participaram de uma sessão de relaxamento. Foram formados grupos de três; ao final de cada um dos exercícios de relaxamento, os grupos de três permaneciam abraçados por um tempo.</p>
<p>Círculo formado novamente, Craig pediu relatos, mas relatos que viessem do coração, e não do cérebro. Os relatos vieram entusiasmados:</p>
<p>- Eu senti uma energia, uma sensação de proteção, carinho, uma coisa quente, gostosa, potente, com força, uma força masculina e macia. Foi uma sensação tão completa, tão inteira, de estar integrando com os outros. Foi uma experiência muito nova, muito marcante.</p>
<p>- Sonhei que todos nós tínhamos os dedos em brasa, como as pedras – sim, como o E.T. – e, que os nossos dedos tinham o poder de curar.</p>
<p>- Eu sempre tive muita dúvida sobre essa coisa de sexualidade. Será que eu sou homem? Onde está escrito isso? Eu não assinei contrato nenhum. Para você se integrar aos outros homens, você tem que pegar, tocar, fazer carinho. Talvez por isso tenha passado a ter experiências homossexuais. Eu sempre tive aquela coisa masculina, que me atrapalhou muito, até no futebol, de ficar nu na frente de outros homens – aquela coisa do “oh, meu pau é maior ou menor que o dos outros”. Ontem à noite isso acabou. Eu fiquei nu diante de outros homens, e fiquei à vontade. Nesse exercício de relaxamento, ficou provado aqui que, se a gente estiver centrado no interesse de chegar ao ser interior do outro, a questão da sexualidade fica eclipsada. O contato que temos com as mulheres é diferente. O contato com os homens, ainda temos que aprender, que desenvolver. Mas, como vimos, é possível.</p>
<p>- Esse negócio de ficar pelado diante de outros homens é interessante. Assim como a coisa do carinho com outro homem. Eu descobri que posso ser eu. Se quiser abraçar ele, eu posso; se me chamarem de veadinho, foda-se – se eu quiser, eu abraço. Eu aprendi o que é ser homem: ser homem é fazer o que você quiser. Pode gostar de homem, de elefante, de mulher, não importa. Agora é usar essa experiência de liberalização e tocar em frente.</p>
<p>Depois dessa rodada de demonstração verbal das experiências, houve uma dança indígena, suave, a última em torno do altar no centro do círculo. Em silêncio, o salão foi limpo, as janelas abertas. E iniciou-se o trabalho de limpeza do lugar em que havia sido feita a sauna indígena. “O <em>sweat lodge</em> é uma catedral feita de elementos naturais, que em seguida devem ser devolvidos à natureza”, explicou Craig. Taparam-se os dois buracos abertos no chão. A madeira recolhida foi organizada. As cinzas da fogueira foram espalhadas pela grama.</p>
<p>Ao caminhar para o restaurante da pousada, depois da última cerimônia de limpeza, um dos participantes do <em>workshop</em> – um psiquiatra que trabalha com terapia sexual – comentou com outro psiquiatra: “Há pouco tempo, houve uma jornada de sexualidade, e uma pessoa notou o seguinte: em dois dias de trabalhos e discussões, em um encontro multidisciplinar, falou-se de todo os tipos de técnicas, de desvios e de problemas. Mas ninguém discutiu nada, ninguém disse uma palavra sobre sentimentos.”</p>
<p>Um dos relatos daquela manhã havia sido exatamente este: “Sempre tive muita dificuldade para colocar os meus sentimentos para fora. E aqui aprendi a fazer isso.”</p>
<p>É isso aí. Os homens começam a querer aprender o alfabeto da cultura do pessoal. De uma maneira desengonçada, talvez, mas começam a não ser mais alheios e hostis ao universo sentimental.</p>
<blockquote><p><strong><em>A historinha por trás do texto</em></strong></p>
<p><em>Na verdade, a historinha por trás deste texto não é uma historinha – é uma grande história, cheia de diversos capítulos. Acho que ela mereceria um post específico – que talvez ficasse imenso, e não interessasse a ninguém, a não ser eu mesmo.</em></p>
<p><em>Não sei como resumir histórias, mas vou tentar.</em></p>
<p><em>No segundo semestre de 1992, eu tinha saído da Agência Estado; Mary e eu tínhamos aberto uma firma, a Casa do Texto, para ver como era a experiência de viver de free-lances. E um dia Lucy Dias, que editava Comportamento na </em>Marie Claire<em>, me ligou perguntando se eu toparia participar de um workshop e escrever sobre ele.</em></p>
<p><em>Sou um péssimo repórter. Quer dizer: na verdade, nunca soube ser repórter. Sempre fui do outro lado, o lado de dentro da redação, o sujeito que caneta, reescreve, acerta o texto dos repórteres. Mas eu tinha acabado de deixar, por minha conta e risco, um emprego estável, um grande salário, para viver a experiência de ser free-lancer, e aceitei o desafio. Fui cobrir o troço com a cara e a coragem. A coragem era pouca, é bem verdade – depois de alguns instantes dentro daquela sauna indígena-ridícula, pedi pra sair. O tal do Craig Gibsone achou estranho, mas eu pretextei uma taquicardia, e casquei fora. Na verdade, nunca gostei de sauna – e aquela com um bando de homens teatralmente falando de suas culpas era meio demais da conta. </em></p>
<p><em>Fiz, no entanto, muitas anotações ao longo dos dias do workshop – cuidadosas, sérias anotações. O combinado era não revelar quem tinha falado o que, e segui o combinado. Mas tudo o que está dito no texto acima é rigorosamente real; não há uma vírgula que não tenha acontecido de fato.</em></p>
<p><em>Lucy adorou o texto. Foi publicado no número 20, de novembro de 1992, da então vibrante, ótima, sensacional </em>Marie Claire<em>, a versão brasileira criada por Regina Lemos e uma bela equipe montada por ela da histórica revista francesa.</em></p>
<p><em>E aqui é preciso dizer umas duas coisinhas. A edição que Lucy Dias fez foi primorosa. Sacou um título brilhante, perfeito para a revista e para a matéria. E, trabalhando com Mirian Bertoldi, a Mimi, editora de arte, fez páginas atraentes sem qualquer ilustração &#8211; já que, obviamente, não havia fotógrafo durante os três dias do workshop. As fotos que botei aqui no post &#8211; um sweat lodge original indígena, e um sweat lodge do men&#8217;s movement evidentemente não teriam sentido na revista. Aqui, acho que têm. Ilustram bem como a tentativa &#8211; em si boa, positiva, é claro &#8211; acaba virando um programa de índio. </em></p>
<p><em>Bem. Alguns meses antes que Lucy me convocasse para fazer a matéria, eu, naquela época profundamente infeliz na Agência Estado, tinha perguntado a Regina se ela não teria um emprego para mim na </em>Marie Claire<em>. Ela tinha reagido com alguma fúria; tinha dito algo do tipo como: “Como assim, eu trabalhar com você, ter você ao meu lado todo dia? O que você acha que o Antônio vai pensar? O que você acha que a Mary vai pensar?”</em></p>
<p><em>Uns dois meses depois que o texto do movimento dos homens foi publicado, Regina me perguntou se eu toparia trabalhar na </em>Marie Claire<em>, logo abaixo dela, como redator-chefe. Tinha seus planos – ela sempre tinha planos. Queria preparar sua própria saída, para tocar projetos especiais, a começar pelo livro que escreveria para a Globo, </em>Quarenta, a Idade da Loba<em>; achou &#8211; penso eu &#8211; que eu poderia ajudar no psicossocial da redação, no rito de passagem. </em></p>
<p><em>Fiquei na </em>Marie Claire<em> dois anos. Tirando fora os últimos poucos meses, depois que Regina deixou a direção de redação, foi uma experiência em tudo e por tudo gratificante.</em></p></blockquote>
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