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	<title>50 Anos de Textos &#187; Cinema</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Sangue no Deserto</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 03:08:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
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		<description><![CDATA[Quem é que disse que os wes­terns se divi­diam em três tipos: os de ima­gens, os de ideias, e os de ima­gens e de ideias? Só pode ter sido Godard. E agora me lem­bro: foi jus­ta­mente num texto sobre um wes­tern de Anthony Mann, O Homem do Oeste, que ele, aliás, con­si­de­rava um exem­plo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin11.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-7019" title="zztin1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin11.jpg" alt="" width="640" height="361" /></a></p>
<p>Quem é que disse que os <em>wes­terns</em> se divi­diam em três tipos: os de ima­gens, os de ideias, e os de ima­gens e de ideias? Só pode ter sido Godard. E agora me lem­bro: foi jus­ta­mente num texto sobre um <em>wes­tern</em> de Anthony Mann, <em>O Homem do Oeste</em>, que ele, aliás, con­si­de­rava um exem­plo do <em>wes­tern de ima­gens e ideias</em>.<span id="more-7014"></span> Já <em>San­gue no Deserto</em>, <em>The Tin Star</em> no ori­gi­nal, pela sua extrema abs­trac­ção, é um exem­plo óptimo do <em>wes­tern de ideias</em>. Nenhum outro <em>wes­tern</em> de Mann tem a extrema depu­ra­ção que pode­mos encon­trar em <em>San­gue no Deserto</em>.</p>
<p>Por exem­plo, logo na pri­meira sequên­cia – lin­dís­sima e mór­bida – se dese­nha a lógica for­mal do filme e que é, como se reco­nhe­cerá à saci­e­dade, um movi­mento do exte­rior para o inte­rior. Vemos Henry Fonda, com uma barba de 3 dias, entrar na minús­cula cidade a cavalo e, num outro cavalo que traz pela rédea, con­du­zir um cadá­ver até ao largo cen­tral. Servindo-se bem da música muito inten­ci­o­nal de Elmer Berns­tein, Mann, que era um con­su­mado mes­tre do <em>tra­vel­ling </em>late­ral, con­se­gue trans­for­mar o largo num palco para onde con­ver­gem todos os olha­res e con­se­gue que um <em>wes­tern</em> – por exce­lên­cia o género cine­ma­to­grá­fico dos gran­des espa­ços aber­tos – seja um exem­plo aca­bado de arte tea­tral.</p>
<p>É tea­tro e há um equi­lí­brio pre­cá­rio entre palco e bas­ti­do­res, suge­rido pela alter­nân­cia de pon­tos de vis­tas: Mann filma do inte­rior do escri­tó­rio do xerife para o largo, mas é para o inte­rior do escri­tó­rio que con­ver­gem os olha­res dos per­so­na­gens que estão no largo.</p>
<p>E como é tea­tro, há um equi­lí­brio entre o <em>décor</em> e as per­so­na­gens. A impor­tân­cia ful­cral do cená­rio cen­tral não anula a força das per­so­na­gens que o ocu­pam, em par­ti­cu­lar o tri­ân­gulo Fonda-Anthony Perkins-Neville Brand. E sendo o tea­tro de um <em>wes­tern</em>, há um equi­lí­brio entre o colec­tivo e o indi­vi­dual situ­ando numa comu­ni­dade pre­cisa a his­tó­ria de trans­fe­rên­cia de matu­ri­dade em que con­siste a rela­ção entre as per­so­na­gens de Henry Fonda e Anthony Per­kins.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-7020" title="zztin2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin2.jpg" alt="" width="500" height="280" /></a>E há ainda a explo­ra­ção de outra ideia, a do equi­lí­brio entre o mecâ­nico e o humano, belis­si­ma­mente tra­tado em duas cenas de sinal con­trá­rio. A pri­meira sobre­va­lo­ri­zando dra­ma­ti­ca­mente a perí­cia mecâ­nica de pis­to­leiro de Henry Fonda, quando inter­vém no duelo entre o xerife e o vilão. A segunda, con­cluindo a apren­di­za­gem de Per­kins no manejo das armas, quando Fonda lhe diz: &#8220;<em>Estuda os homens. Uma pis­tola não é mais do que uma fer­ra­menta.&#8221;</em></p>
<p><em>San­gue no Deserto</em> é uma pará­bola. O argu­mento de Dudley Nichols é notá­vel e obteve nome­a­ção para o Oscar. Com uma sim­ples his­tó­ria de apren­di­za­gem, a his­tó­ria de um xerife, Per­kins, que aprende com um ex-xerife, Fonda, o manejo do revól­ver que lhe per­mi­tirá ven­cer o vilão, Neville Brand, o argu­men­tista eleva-se a voos mais arris­ca­dos, mos­trando a génese e fazendo a prova da neces­si­dade da Lei para o esta­be­le­ci­mento de uma comu­ni­dade.</p>
<p>O tea­tro de Mann fun­ci­ona como ponto de pas­sa­gem do caos à civi­li­za­ção, tema nobre de que outro <em>wes­tern</em>, <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-homem-que-matou-o-facinora-the-man-who-shot-liberty-valance/">O Homem que Matou Liberty Valance</a></em> de John Ford, cons­ti­tuirá, anos mais tarde, o cume.</p>
<p>O argu­mento de Nichols era suma­rento. Anthony Mann secou-o. Mos­trou que se pode resu­mir um grande tema huma­nista a um só objecto dra­má­tico, neste caso à estrela de latão que deu ori­gi­nal­mente título ao filme, e que Per­kins passa o tempo a empur­rar para a lapela do casaco de Fonda. E Mann tam­bém mos­trou, servindo-se da cara inde­ci­frá­vel de Henry Fonda (e do seu andar feito para a len­ti­dão de um <em>tra­vel­ling</em>), que o nii­lismo pode ser a apa­rên­cia do mais alto sen­tido moral.</p>
<p>Se tenho a cer­teza de ter estado a escre­ver sobre um <em>wes­tern</em>? Abso­luta. Vêem-se bons due­los e há uma mul­ti­dão pronta para um lin­cha­mento. Não há bei­jos. Tudo feito por Mann com enqua­dra­men­tos manei­ris­tas e uma escrita que leva­ria Godard a chamar-lhe “cine­asta virgiliano”.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A alegria epiléptica</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 17:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[É afro­di­síaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afro­dite. Falo da grande ale­gria, daquela que já não cabe no corpo, dessa ale­gria que nos estre­mece, enche e esva­zia os pul­mões. A ale­gria con­vulsa. Ima­gi­nem um campo de pri­si­o­nei­ros. Jim, um miúdo inglês, cres­ceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois cor­ré­cios ame­ri­ca­nos. Cres­ceu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É afro­di­síaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afro­dite. Falo da grande ale­gria, daquela que já não cabe no corpo, dessa ale­gria que nos estre­mece, enche e esva­zia os pul­mões. A ale­gria con­vulsa.<span id="more-6961"></span> Ima­gi­nem um campo de pri­si­o­nei­ros. Jim, um miúdo inglês, cres­ceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois cor­ré­cios ame­ri­ca­nos. Cres­ceu entre o des­dém e a humi­lha­ção dos guar­das japo­ne­ses.</p>
<p>O campo de pri­si­o­nei­ros já é o deserto de toda ale­gria. Mas o campo de pri­si­o­nei­ros que sofre o ata­que da nossa pró­pria avi­a­ção é o pan­de­mó­nio dos sen­ti­men­tos, a lágrima de san­gue que trans­borda do cálice. Só o Pai que sabe­mos tem a cru­el­dade de dar esse cálice a um Filho. É o que acon­tece em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/1988/imperio-do-sol-empire-of-the-sun/">Empire of the Sun</a></em>, filme de Ste­ven Spi­el­berg. Há um ata­que ali­ado. Um Chris­tian Bale novi­nho, o actor que dá corpo a Jim, corre eufó­rico para o telhado meio-destruído de uma das cons­tru­ções do campo de con­cen­tra­ção.</p>
<p>Lá em cima, salta, abraça-se a si mesmo, treme de exci­ta­ção, res­pira forte para não sufo­car e explode num grito e num riso epi­lép­ti­cos. O mundo suspende-se, o movi­mento quase pára para dei­xar voar a beleza fan­tás­tica de um avião de fogo e morte.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzempire0.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6962" title="zzempire0" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzempire0.jpg" alt="" width="615" height="407" /></a></p>
<p>O pin­dé­rico ingle­si­nho sobre­vi­vente berra: “P-51 Cadil­lac of the skies”. Vénus quando era vir­gem, Deus nosso senhor, a ino­mi­ná­vel Beleza, não seriam sau­da­dos com mais exal­ta­ção e exul­ta­ção. Jimmy salta de cos­tas, salta de frente, enquanto as bom­bas reben­tam com tudo à sua volta. “P-51 Cadil­lac of the skies”, ó ale­gria de um catano: o fogo, a morte, a des­trui­ção, sabem-lhe a vitó­ria. O avião dos seus sonhos, que os seus dedos quase tocam fisi­ca­mente, arrasa o mundo em escom­bros onde sobre­vive. Tudo morre, mas tudo morre para que ele renasça. A ale­gria con­vulsa, epi­lép­tica, é pri­vi­lé­gio de cri­ança. Tem de ser inau­gu­ral. Lembro-me da minha pri­meira vez, dos sin­to­mas e do devas­ta­dor ata­que. Conto.</p>
<p>A pri­meira vez que eu vi mesmo o mar foi já no meio do Oce­ano Atlân­tico. De Angola, o meu pai cha­mava os meus 5 anos e lá iam eles agar­ra­dos à saia da minha mãe e a toque de caixa da minha irmã. O pouca-terra, pouca-terra, numa tarde de cere­jas ver­me­lhís­si­mas, trouxera-nos da Beira fria, farta e feia. Em Lis­boa, Cais da Rocha, tínha­mos entrado no Vera Cruz, então sofis­ti­cado tran­sa­tlân­tico. Des­ce­mos logo ao cama­rote e quando vol­tá­mos a subir – no dia seguinte? –cercava-nos um vasto tapete ondu­lado, de um azul inú­til e livre. Flu­tuá­va­mos num infi­nito len­çol osci­lante: Hou­dini tinha escon­dido a terra.</p>
<p>Os pul­mões não me cabiam no peito de con­ten­tes; em riso e lágri­mas até pelos olhos os pul­mões me saíam. Dizem que é a ple­ni­tude. Gos­tava de me lem­brar melhor, se era igual o azul de céu e mar, se havia vento, quase nenhu­mas nuvens, e se can­ta­vam sereias ou sonhava já contigo.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><span style="color: #333333;">O Expresso</span></strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>Cemitérios, tabuletas e epitáfios</title>
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		<pubDate>Tue, 01 May 2012 21:31:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
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		<description><![CDATA[Sem­pre pen­sei que, a haver epi­tá­fios imba­tí­veis, sai­riam cer­ta­mente da pena de gran­des escri­to­res. Mas andei a ver, ouvir e ler e, zás, lá se foram as minhas cer­te­zas. Os epi­tá­fios que alguns acto­res esco­lhe­ram para si mes­mos são desar­man­tes e de uma (ai, como é que se diz?!) deri­são que me fez rir, bater [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzhedy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6922" title="zzhedy" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzhedy.jpg" alt="" width="500" height="468" /></a></p>
<p>Sem­pre pen­sei que, a haver epi­tá­fios imba­tí­veis, sai­riam cer­ta­mente da pena de gran­des escri­to­res. Mas andei a ver, ouvir e ler e, zás, lá se foram as minhas cer­te­zas. Os epi­tá­fios que alguns acto­res esco­lhe­ram para si mes­mos são desar­man­tes e de uma (ai, como é que se diz?!) deri­são que me fez rir, bater palmas.<span id="more-6914"></span></p>
<p>Lembram-se de Hedy Lamarr, a linda e nuís­sima actriz aus­tríaca de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/extase-ekstase/">Ecs­tasy</a></em> que mor­re­ria ame­ri­cana, em Hollywood, linda e ves­ti­dís­sima? Era uma mulher sofis­ti­cada e inte­li­gente como se depre­ende do epi­tá­fio que esco­lheu: “<em>This is too deep for me.</em>”</p>
<p>Cons­tance, que per­ten­cia ao que em Hollywood era a aris­to­crata famí­lia Ben­nett, mesmo no cemi­té­rio, vin­cou bem a sua pri­va­ci­dade clas­sista: “<em>Do not dis­turb.</em>”</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzepitaph.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6923" title="zzepitaph" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzepitaph.jpg" alt="" width="300" height="135" /></a>Cary Grant, esse des­co­nhe­cido que me recuso a apre­sen­tar, foi igual­mente eco­nó­mico e cheio de sorte na frase eleita: “<em>He was lucky – and he knew it.</em>” Já os olhos de Bette Davis viram as coi­sas de outra maneira: “<em>She did it the hard way.</em>”</p>
<p>No mudo ou sonoro, cómico sem­pre, W. C. Fields escre­veu o seu pró­prio mate­rial, como o sub­til epi­tá­fio bem demons­tra: “<em>On the whole, I’d rather be in Phi­la­delphia.</em>”</p>
<p>Dis­pli­cente foi Dean Mar­tin que levou para o túmulo o que foi a sua filo­so­fia de vida: “<em>Every­body loves some­body some­time.</em>”</p>
<p>Wil­liam Hai­nes, que à conta dos seus gos­tos sexu­ais teve car­reira curta no mudo, levou a coisa mais a peito: “<em>Here’s something I wanto to get off my chest.</em>”</p>
<p>Não se pode dei­xar uma cam­bada de acto­res sol­tos sem um rea­li­za­dor por perto. Cha­mei, por isso, Pres­ton Stur­ges, o rea­li­za­dor do extra­or­di­ná­rio <em>Sullivan’s Tra­vels</em>, para que desse um sen­tido moral a tudo isto. Foi mais leve e epi­cu­rista do que eu estava à espera:</p>
<p>“<em>Now I’ve laid me down to die I pray my neigh­bours not to pry Too dee­ply into sins that I Not only can­not here deny But much enjoyed as time flew by…</em>”</p>
<p>E se nós, os Tris­tes, sabendo-se até que alguns de nós já vive­ram em cemi­té­rios, fos­se­mos gra­ta­mente liber­tando ter­cei­ros da ingrata tarefa?</p>
<blockquote><p><em><a href="mailto:msfonseca@netcabo.pt">msfonseca@netcabo.pt</a></em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>Os profissionais</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 19:09:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Dis­traio os ner­vos: será Vítor Gas­par o herói moderno? O herói antigo era Hér­cu­les. Tinha a lúdica argú­cia de um Ulis­ses. Há um século, o herói era cine­ma­to­grá­fico e vinha com a abne­ga­ção de um John Wayne. Por vezes, dis­far­çava o ide­a­lismo com o cínico desin­te­resse de um Humph­rey Bogart. Quem é o herói con­tem­po­râ­neo? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dis­traio os ner­vos: será Vítor Gas­par o herói moderno? O herói antigo era Hér­cu­les. Tinha a lúdica argú­cia de um Ulis­ses. Há um século, o herói era cine­ma­to­grá­fico e vinha com a abne­ga­ção de um John Wayne. Por vezes, dis­far­çava o ide­a­lismo com o cínico desin­te­resse de um Humph­rey Bogart.<span id="more-6862"></span></p>
<p>Quem é o herói con­tem­po­râ­neo? Pro­cu­rei no metro, na espla­nada do Darwin, numa expo­si­ção da Gul­ben­kian. Pro­cu­rei uma cen­te­lha, uma chispa volun­ta­ri­osa que arraste a mul­ti­dão, que dis­sipe o desa­lento dos dias. Lembram-se de Mar­tin Sheen em <em>Apo­calypse Now</em>? Era o anti-herói, bem sei. Mas levava na mala uma tor­tura cató­lica, a expec­ta­tiva de uma desen­can­tada reden­ção. Ora o cato­li­cismo já só é mis­si­o­ná­rio em África.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzdrive.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6863" title="zzdrive" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzdrive.jpg" alt="" width="660" height="412" /></a>Sim, tenho de con­fes­sar que vi o herói dos nos­sos dias. Foi em <em>Drive</em> e con­du­zia um indo­má­vel Che­vro­let pelas ruas más de Los Ange­les. Era Ryan Gos­ling e o que ele gui­ava, com luvas e a ponta dos dedos, era a inteira soli­dão. Como não aguento com os ner­vos, pus-me outra vez a pen­sar e lembrei-me de já ter visto aquela soli­dão, tam­bém ao volante. Guiava-a Richard Gere, em <em>Ame­ri­can Gigolo</em>, agora pelas ruas boas de L.A.</p>
<p>Gos­ling e Gere são o herói con­tem­po­râ­neo. São homens de uma soli­dão cal­vi­nista e estão à venda. Gos­ling, em <em>Drive</em>, vende o inex­ce­dí­vel talento de con­du­tor a assal­tan­tes que pre­ci­sam de pôr cinco minu­tos de dis­tân­cia entre o local de assalto e o ponto de fuga. Gere, no <em>Ame­ri­can Gigolo</em>, vende uma hora de orgás­tico paraíso a mulhe­res mais velhas, guiando-lhes os cor­pos como Gos­ling guia os car­ros: com a ponta dos dedos, entre a len­ti­dão gour­met e a exci­ta­ção da velocidade.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzgigolo.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-6864" title="zzgigolo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzgigolo.jpg" alt="" width="385" height="476" /></a>Os heróis de Gos­ling e Gere não com­pre­en­dem, nem dei­xam de com­pre­en­der. Com­pen­sam a apa­rente bur­rice com a osmose com a vida como ela é, as coi­sas como elas são. Ambos têm um total desen­ga­ja­mento emo­ci­o­nal (Ah, não me venham agora com Vítor Gas­par!). São pro­fis­si­o­nais segu­ros da sua uti­li­dade. Ritu­a­li­zam o vazio do dia-a-dia e agem meti­cu­lo­sa­mente: Gos­ling na pre­pa­ra­ção rigo­rosa dos car­ros e tra­jec­tos; Gere na com­bi­na­ção cer­teira das cami­sas, casa­cos e gravata.</p>
<p>O herói con­tem­po­râ­neo é intrans­cen­dente, orça­men­tal e amo­ral. Consola-se na visão nar­cí­sica do seu com­por­ta­mento. Repa­rem, Gos­ling e Gere têm vai­dade nos cor­pos enxu­tos, no frio e metá­lico pro­fis­si­o­na­lismo. Dis­pen­sam a alma, con­ten­tes com a dis­ci­plina do corpo. Bastam-se a si pró­prios e, se ser­vem os outros, assal­tan­tes ou mulhe­res caren­tes, é para os con­ver­ter em objec­tos cli­en­te­la­res. “<em>Este é o meu apar­ta­mento, aqui não vêm mulhe­res</em>”, dirá Richard Gere a uma des­sas clientes.</p>
<p>O herói con­tem­po­râ­neo é um alei­jado emo­ci­o­nal. É-lhe indi­fe­rente o que faz desde que o faça muito bem. Cor­rige o impro­vá­vel engano com vaga­roso silên­cio. Não há porta para o seu apartamento.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O esplendor dos filmes japoneses na Liberdade</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/o-esplendor-dos-filmes-japoneses-na-liberdade/</link>
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		<pubDate>Wed, 18 Apr 2012 17:35:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma menina de quatro anos ia ao cinema, sem saber o que era cinema. O grande carro preto importado – o táxi – partia da Rua da Cantareira, onde a família morava e trabalhava. No banco da frente, o pai, de terno e gravata. Atrás, bem penteadas e vestidas, a mãe e as duas irmãs. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6828" title="zzjapa2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa2.jpg" alt="" width="760" height="530" /></a>Uma menina de quatro anos ia ao cinema, sem saber o que era cinema. O grande carro preto importado – o táxi – partia da Rua da Cantareira, onde a família morava e trabalhava. No banco da frente, o pai, de terno e gravata. Atrás, bem penteadas e vestidas, a mãe e as duas irmãs.<span id="more-6815"></span> A menina ia em pé, segurando-se em uma correia. Era uma corrida curta, até um dos quatro cinemas do bairro da Liberdade. Em cartaz, filmes japoneses. Que tal aquele com o grande Toshirô Mifune?</p>
<p>A menina Olga não podia assistir aos filmes; a idade mínima era cinco anos. Então, ganhava uma “casquinha” com caramelos, e ficava sob os cuidados da funcionária da bilheteria. De vez em quando, corria até o cortinado verde, no fim do saguão, e espiava por uma fresta. Via um lugar escuro, cortado por um facho de luz. Isso lhe parecia muito misterioso, mas sentia que alguma coisa importante estava acontecendo. Por que seu pai saía de lá pensativo, e sua mãe, muitas vezes, enxugando os olhos?</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia42.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6824" title="zzjoia4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia42-300x243.jpg" alt="" width="300" height="243" /></a>Se Olga, hoje a cineasta Olga Futemma, voltasse ao único sobrevivente daqueles quatro cinemas veria o mesmo prédio, reluzindo como novo. O Cine Jóia, com o formato de um diamante, viveu dias inesquecíveis nas décadas de 1950 a 1980. Depois, serviu de templo evangélico. Há quatro meses é uma badalada casa de shows.</p>
<p>Uma reforma deu-lhe três ambientes, mas manteve alguns elementos originais. A lotação de 1.500 pessoas está frequentemente no limite. Kurosawa, quem? Os gritos dos samurais do imortal diretor japonês não ecoam mais por ali. O que reverbera hoje é a voz amplificada de cantores do momento, ou o som metálico das bandas.</p>
<p>“Quando eu tinha nove anos, resolvi ir ao cinema sozinha”, recorda Olga. “A censura era para dez anos. Eu fiquei me preparando para dizer que tinha essa idade. Quando cheguei ao cinema, e perguntaram, acabei dizendo que tinha nove anos. Então eu quis saber que tipo de filme uma menina de nove anos não pode ver, e uma de dez pode. E me deixaram entrar. Era um filme de espadachim muito violento, lembro dos braços sendo cortados.”</p>
<p>Ela não sabia, mas estava testemunhando a época de ouro do cinema japonês. Produções que faziam sucesso em outras partes do mundo podiam ser vistas naqueles quatro cinemas da Liberdade. <em>Guerra e Humanidade</em>, do diretor Nakasi Kobayashi, um épico com nove horas de duração, foi o filme que mais a marcou. “Uma obra-prima, apresentada em três programas de três horas.”</p>
<p>Aquelas fitas em preto e branco encantaram também muitos diretores de cinema que nada tinham a ver com o Japão. Um deles, Walter Hugo Khouri, admitiria mais tarde ter absorvido em sua obra muito do intimismo dos mestres japoneses. E o diretor de teatro Antunes Filho considerou os filmes “a revelação de um outro mundo”. Escreveu, em artigo recente: “Sabor trágico, dramático, os rostos e posturas imóveis, de sentido enigmático, fatal”.</p>
<p>Os avós de Olga cumpriram a saga dos imigrantes japoneses. Desceram de um navio em Santos, e foram para o interior, trabalhar na lavoura. Em 1937, estavam em São Paulo. Um arranjo de famílias resultou no casamento dos pais da cineasta, juntos até hoje. Como ganharam a vida? Em um mercadinho ao lado do Mercado Central, na Rua da Cantareira. O pai como atacadista, a mãe vendendo legumes. Lazer? O cinema.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa12.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6896" title="zzjapa1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjapa12.jpg" alt="" width="760" height="584" /></a>“Chegávamos e víamos a fila na porta. Parecia um espaço de footing (onde se trocam olhares). As moças na fila, todas chiques. E os rapazes do outro lado da calçada, alguns encostados em carros, ou em bares.” Algumas famílias levavam a caixinha com o bentô. Na caixinha, descreve Olga, havia geralmente bolinhos de arroz e acompanhamentos. O bentô era mais frequente em cinemas do interior.</p>
<p>Na sala escura, na parte de baixo da cena exibida, vazava uma luz, que resultava na legenda do filme. Uma máquina importada, o contratipo, fazia queimaduras com a forma de letras no celuloide (a película com as cenas). Pela área queimada passava luz. Assim, era possível ler as letras.</p>
<p>Olga podia entender a ação de <em>Barba Ruíva</em>, o filme que mais a agradou. Toshirô Mifune no papel de um médico que ensina aos recém-formados o significado humanitário de seu trabalho. Direção de Akira Kurosawa. Ela assistiu aos 30 filmes que Kurosawa dirigiu, em 50 anos de atividade. Entre eles o consagrado <em>Os Sete Samurais</em>, de 1954, com o mesmo Toshirô Mifune.</p>
<p>“Mas aos 14 anos, com minhas irmãs, aprendi o caminho para a cidade além da Liberdade. Nos cinemas do centro, me afundei nos filmes de Hollywood, maravilhosos”. Os samurays e heróis de enredos dramáticos foram trocados por Doris Day e Rock Hudson&#8230;</p>
<p>Depois, Olga dedicou-se ao cinema brasileiro, formou-se em cinema na Escola de Comunicação e Artes, ECA, da Universidade de São Paulo, USP. Hoje é um dos diretores da Cinemateca Brasileira. Uma profunda conhecedora dos filmes japoneses. Sobre os tempos dos cinemas da Liberdade, diz que houve “uma convivência feliz da força da colônia japonesa com a extraordinária, maravilhosa produção do cinema japonês – que, na época, só perdia para a cinematografia italiana”.</p>
<p>Um neto de japoneses, Alexandre Kishimoto, integrante do Grupo de Antropologia Visual da USP, Gravi, também mergulhou nessa história. Em “A experiência do cinema japonês no bairro da Liberdade”, sua tese de mestrado em antropologia social, detalha fatos daquelas marcantes três décadas.</p>
<p>“Ir ao cinema, para as famílias japonesas, era um programa extraordinário”, diz. “Era ritualizado, elas não tinham outra opção de cultura e lazer.” E acessível: os ingressos saiam baratos.</p>
<p>“Iam as famílias, suas crianças, amigos e vizinhos. Colegas de escola. Todos com roupa bem cuidada, em respeito ao decoro das salas de cinema.” (Na época, as salas do centro da cidade exigiam dos homens gravata e paletó.)</p>
<p>O trabalho de Alexandre conta que em 1952, quando surgiu na Liberdade, o Jóia era um simples cinema de bairro. As outras três salas viriam depois: Niterói, Tókio (mais tarde Nikkatsu) e Nippon. Passados sete anos, a empresa japonesa Toho alugou o Jóia, para exibir com exclusividade seus filmes. A Toho tinha as fitas de diretores de renome internacional, como Mikio Naruse, Elzo Sugawa e Kurosawa. Foi assim durante dezenove anos, de 1959 a 1978.</p>
<p>Depoimentos colhidos por Alexandre descrevem o Jóia como um cinema grande (987 lugares), com sala de espera muito pequena. A fachada era verde, grande e bonita. Mas a mais simples e desconfortável dentre as quatro salas. As cadeiras, de madeira, são descritas como muito finas. Se a pessoa colocasse o joelho ou o pé nas costas da cadeira à sua frente, quem estava nela sentia a pressão. O que causou o declínio desses cinemas foi a ausência cada vez mais acentuada de público. O motivo foi o mesmo, para salas de todo o País. A chegada do videocassete transferiu os filmes para a tela da TV.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Nas fazendas do interior,</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>cinema ao ar livre para os trabalhadores</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>e suas famílias</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os imigrantes japoneses do interior faziam festa quando o velho caminhão chegava, com suas tralhas. Este caminhão podia ser um Ford “Pé de Bode”. As tralhas, um projetor de cinema, um gerador, um pedaço de pano branco. Ah, sim. E havia aquele homem, o katsuben.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia3.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-6821" title="zzjoia3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzjoia3-1024x704.jpg" alt="" width="1024" height="704" /></a>Estamos falando de 1926, 1927. O cinema ambulante corria as fazendas onde os japoneses trabalhavam. Na hora marcada, o dono estendia um pano branco, que seria a tela. Energia elétrica muitas vezes não existia. Mas havia o “Pé de Bode”. Uma roda de trás em movimento acionava um gerador, e este alimentava o projetor (perfeito, não fosse o barulho).</p>
<p>A platéia esperava, sentada no chão, em cima de um pano. Quando o filme começava, empolgava-se; as crianças, principalmente. Mesmo que fosse um documentário. As histórias de ficção, as preferidas, tinham geralmente o defeito de ser curtas.</p>
<p>Eram tempos do cinema mudo. Por isso estava lá o Katsuben. Ao lado da tela, ele narrava e explicava o filme, com o tom de voz e expressões exigidas pela cena. Dramáticas, hilárias. Muitas vezes, o narrador era mais aplaudido do que o filme. Não era nada difícil que o celulóide se rompesse no meio da exibição. Às vezes no melhor momento da história. Enquanto se consertava a fita, os adultos tomavam um pouco da pinga trazida de casa.</p>
<p>Não se comprava ingresso, mas davam-se contribuições. O dinheiro era colocado num envelope, com o nome do pagador. Antes da exibição, o dono do cinema dizia: “Vamos proceder aos agradecimentos pelas contribuições recebidas”. E lia os nomes dos envelopes. O dono era justo. Se o filme a ser exibido fosse curto, haveria uma segunda sessão.</p>
<p>(Os dados sobre o cinema nas fazendas do interior paulista foram extraídos da tese de mestrado “A experiência do cinema japonês no bairro da Liberdade”, de Alexandre Kishimoto. As fotos são do Acervo Alexandre Kishimoto.)</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O Bem e o Mal</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Apr 2012 03:28:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[O pai mor­rera e ele nunca mais almo­çava. O cai­xão era pau­pér­rimo, uma coisa dic­ken­si­ana ao lado da qual cami­nhava a aflita dor da mãe. O futuro Char­lot vinha atrás da urna do pai e do pranto da mãe. Para dis­trair a fome, ia mimando, cari­ca­tu­ral, o sofri­mento materno. Tão expres­sivo que o irmão sol­tava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzthekid.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6804" title="zzthekid" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzthekid.jpg" alt="" width="650" height="366" /></a></p>
<p>O pai mor­rera e ele nunca mais almo­çava. O cai­xão era pau­pér­rimo, uma coisa dic­ken­si­ana ao lado da qual cami­nhava a aflita dor da mãe. O futuro Char­lot vinha atrás da urna do pai e do pranto da mãe. Para dis­trair a fome, ia mimando, cari­ca­tu­ral, o sofri­mento materno.<span id="more-6800"></span> Tão expres­sivo que o irmão sol­tava gar­ga­lha­das. Toda a cri­ança é cruel, dir-se-á. O futuro diria que ele era mau como as cobras.</p>
<p>Há outra morte a atravessar-lhe bio­gra­fia e obra. O pri­meiro filho de Cha­plin nas­ceu mal-formado e mor­reu após três dias de angús­tia. Duas sema­nas depois, sem indul­gên­cia, Cha­plin fazia tes­tes a acto­res para o que seria o filme-querubim a que cha­ma­mos <em>The Kid</em>. Fê-lo como quem se cura com o pró­prio veneno.</p>
<p>Ignó­bil foi tam­bém a ins­pi­ra­ção de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2012/em-busca-do-ouro-the-gold-rush/">The Gold Rush</a></em>. O bru­tal rigor de um Inverno isola um grupo de pes­qui­sa­do­res de ouro. Para sobre­vi­ve­rem comem os cadá­ve­res dos que vão tom­bando. Depois de ver o que Cha­plin fez com esse mate­rial, até nem me parece estra­nho que Cristo em Canaã tivesse trans­for­mado a água em vinho. Como se con­ver­tem tra­gé­dias em comé­dias, que estra­nha alqui­mia trans­forma a cru­el­dade em ange­li­cal ino­cên­cia? A mal­dade é, aposto, um ingre­di­ente essen­cial. Vejamos.</p>
<p>“Mau como as cobras” foi o que dis­se­ram quase todas as mulhe­res de Cha­plin. Numa altura em que as ligas puri­ta­nas mar­ca­vam Hollywood homem a homem, uma menor, Mil­dred Har­ris, cla­mou estar grá­vida dele. Sem poder arris­car o escân­dalo, o genial Cha­plin casou-se. Estava à espera dela no registo e vendo che­gar a juve­nil figura não resis­tiu a um comen­tá­rio sibi­lino: “Sinto um boca­di­nho de pena dela.” Não era caso para menos, em dois anos esta­vam divor­ci­a­dos e ela acusava-o, pro­va­vel­mente com inteira ver­dade, de cru­el­dade men­tal. Mas sem esses dois anos de tor­tura de Mil­dred será que Cha­plin teria algum dia cri­ado <em>City Lights</em>?</p>
<p>Rein­ci­diu. Lembram-se da Lita Grey do <em>The Kid</em>? Tinha 12 anos. Aos 15, Cha­plin chamou-a para ser a estrela de <em>The Gold Rush</em>. Ainda che­gou a fil­mar, mas Lita descobriu-se, de repente e não por acaso, em estado inte­res­sante. Novo casa­mento urgente e obri­ga­tó­rio, nova tra­gé­dia pes­soal. Cha­plin abandonou-a num palá­cio dou­rado, enquanto se locu­ple­tava em infi­de­li­dades que incluíam a actriz que a subs­ti­tuiu e uma amiga que Lita lhe apre­sen­tara. A decla­ra­ção de Lita no divór­cio foi his­tó­rica: acu­sava Cha­plin de todas as cru­el­da­des e mesmo de uma hete­ro­doxa abor­da­gem à rela­ção sexual que a lei cali­for­ni­ana con­de­nava. Era, de frente ou de cos­tas, mau como as cobras.</p>
<p>A desu­ma­ni­dade de Cha­plin explica a huma­ni­dade da sua obra? O facto é que as tra­gé­dias, pró­prias ou alheias, foram o capi­tal cómico dos seus fil­mes. O nar­ci­sismo, o res­sen­ti­mento, a per­ver­si­dade, a mes­qui­nhez, a infi­de­li­dade gera­ram obras-primas. Atrevo-me: só do mal pode vir algum bem.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><span style="color: #333333;">O Expresso</span></strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>Avé-Maria Cheia de Graça</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Apr 2012 20:26:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[O caldo entornou-se. O jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: “Gostava que fizessem isso à sua mãe?” Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidíssimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzmarie9.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6736" title="zzmarie9" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/zzmarie9.jpg" alt="" width="760" height="559" /></a>O caldo entornou-se. O jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: “Gostava que fizessem isso à sua mãe?” Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidíssimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no tecto da sala.<span id="more-6728"></span></p>
<p>Tossia ele, tossia toda a velha sala da Cinemateca. Exibia-se, 1985, <em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/a-censura-tinha-acabado-sarney-trouxe-de-volta/">Je Vous Salue Marie</a></em> de Godard, então inédito em Portugal por miúfa dos distribuidores.</p>
<p>Krus Abecassis, lendário presidente da Câmara, prometera escaqueirar tudo se a Cinemateca se atrevesse. Fomos perguntar ao João Bénard, que era quem mandava em nós, se nos atrevíamos. O João foi claro: “Nessas coisas sou uma senhora séria. Ora, como sabem, senhora séria não tem ouvidos.”</p>
<p>Preparámo-nos para o combate. Se de algum lado estava, a Graça estava do nosso lado. João Bénard era de um catolicismo doce que lhe impregnou o olhar e a escrita toda a vida, logo a ele que, tanto mudando, em nada de essencial algum dia mudou. Sentíamo-nos, por isso, legitimados para passar um filme que mostrava o desejo de gravidez e o bendito ventre cujo fruto talvez fosse Jesus.</p>
<p>Éramos democratas, mas não éramos parvos: armou-se um dispositivo de Aljubarrota. Vigilância da PSP e dois dos nossos projeccionistas, tipos que combinavam volume de boxeur com altura de defesa-central, a filtrar entradas no magnífico portão da rua. Vendiam-se dois bilhetes por pessoa, o que frustrou as encantadoras virgens que quiseram comprar a lotação do cinema.</p>
<p>A sala era um ovo cheio. Gente no chão e no ar uma excitação misto de primeira comunhão e noite de núpcias. Fez-se escuro: a volúpia das imagens aflorou a tela e os jovens católicos pularam em avé-marias e salvé-rainhas, subindo ao palco a esbracejar contra as sombras blasfemas.</p>
<p>As luzes reacenderam-se iluminando um belo e poético caos. Enquanto nós gritávamos aos jovens Savonarolas que <em>Je Vous Salue Marie</em> era a apologia da Imaculada Conceição, um filme sobre o mistério da mulher que, entre tormento e dúvida, aceita uma violenta graça e sobre o homem, José, que se torce de ciúmes, mas por amor confia, os velhos cine-clubistas, com algum saudoso comunismo, apontavam à polícia os insurrectos: “É aquele… e aquele”. Era um mundo às avessas: velhos esquerdistas ajudavam a polícia e um miúdo, com vozinha de copo de leite, gritava-lhes: “Pides.”</p>
<p>Num arroubo místico, um dos rapazes desmaiou. Ajoelhou-se ao lado dele uma menina de calças de xadrez. Era bonita e parecia que, segurando-lhe a mão, rezava. Com vontade de rezar com ela, ainda pensei: “Vês, meu anjo, como ser virgem é estar disponível!”</p>
<p>Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriam Roussel no filme apóstata de Godard e repetia, prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano?</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>A censura tinha acabado. Sarney trouxe de volta</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Apr 2012 19:40:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[O artigo brilhante de Manuel S. Fonseca sobre o dia em que ele – na época programador da Cinemateca Portuguesa – e amigos resolveram exibir em Lisboa o filme Je Vous Salue, Marie, de Jean-Luc Godard, me deu comichão nos dedos para escrever também. Ainda que sem a verve, a graça, a elegância do texto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/ave-maria-cheia-de-graca/">artigo brilhante de Manuel S. Fonseca</a> sobre o dia em que ele – na época programador da Cinemateca Portuguesa – e amigos resolveram exibir em Lisboa o filme <em>Je Vous Salue, Marie</em>, de Jean-Luc Godard, me deu comichão nos dedos para escrever também. Ainda que sem a verve, a graça, a elegância do texto dele, que tenho a honra de republicar neste site.<span id="more-6738"></span></p>
<p>O comichão veio pela lembrança do fato maior, o fato histórico, e também porque eu tive uma historinha pessoal com o filme.</p>
<p>Primeiro, o que de fato interessa.</p>
<p>Não sei se o eventual leitor vai se lembrar, mas <em>Je Vous Salue, Marie</em> foi um dos primeiros tropeços de José Sarney na presidência da República, que então se dizia Nova.</p>
<p>Não era – e disso nos lembramos todos, e nos lembraremos para sempre – para Sarney ter tomado posse na presidência. Assumiu por um golpe triste do destino que nos levou Tancredo após um calvário longo, doloroso.</p>
<p>Mas, de qualquer maneira, era a Nova República, o primeiro governante civil após 20 anos de presidentes-generais, de ditadura, de censura às artes, à imprensa.</p>
<p>O ministro da Justiça era Fernando Lyra, pernambucano digno, que batalhara no lado de oposição firme, autêntica, do MDB à ditadura militar.</p>
<p>Com festa, fanfarra, o governo Sarney anunciou o fim da censura prévia aos filmes, às peças de teatro, aos jornais.</p>
<p>Por alguns meses, houve uma sensação de alívio no País. Pouco depois, <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/fernando-brant/">Fernando Brant</a>, em letra inspirada para melodia inspirada de Milton Nascimento (<em>veja abaixo</em>), compararia aquele breve instante de início da redemocratização a um sorvete que se esvai em pleno sol.</p>
<p>Vivíamos aquele arzinho de enfim liberdade, litertas quae sera tamen, quando <em>Je Vous Salue, Marie</em> foi lançado na Europa.</p>
<p>A Igreja Católica Apostólica Romana chiou. Os bispos progressistas que haviam ajudado a combater a ditadura calaram-se, e o que se ouvia era o clamor da ala conservadora da Santa Madre.</p>
<p>Não havia mais censura de filmes no Brasil. Isso havia acabado, conforme nos prometera, com fanfarra, Fernando Lyra.</p>
<p>Sarney proibiu a exibição do filme em todo o território nacional.</p>
<p>O sorvete da esperança de novos tempos esvaiu-se a um sol forte, como se o Brasil fosse um imenso Maranhão.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>O Brasil às vezes é como um imenso Portugal. Às vezes Portugal é um Brasilzinho.</p>
<p>Lá como cá, os católicos conservadores berraram como se fossem fundamentalistas muçulmanos. Em Portugal, nos relata Manuel S. Fonseca, foram os exibidores que não tiveram culhão de enfrentar a horda fanática que protestava contra o filme sem tê-lo visto. Aqui foi o presidente da República.</p>
<p>Se a hipocrisia, a tibieza de José Sarney não tivesse impedido os brasileiros de ver o filme, o respeitável público poderia ter ido às salas de cinema e constatado o cerne da questão:</p>
<p><em>Je Vous Salue, Marie</em> é um filme chato.</p>
<p>Depois de uma semana de exibição, o filme teria saído de cartaz por falta de público.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/1986-Afinal-Je-vous-salue-Marie-1087.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6832" title="1986 - Afinal - Je vous salue, Marie - 1087" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/1986-Afinal-Je-vous-salue-Marie-1087-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Bem, agora vai a minha historinha.</p>
<p>O episódio da proibição de <em>Je Vous Salue, Marie</em> se deu em 1986, o segundo ano do governo que era para ser de Tancredo e para infelicidade geral da nação foi de Sarney.</p>
<p>Estávamos na revista <em>Afinal</em>, eu e um bando grande de amigos (que inclui alguns dos autores dos textos deste site: <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/anelio-barreto/">Anélio Barreto</a>, <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/sandro-vaia/">Sandro Vaia</a>, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/ave-maria-cheia-de-graca/">Valdir Sanches</a>). A revista, então a terceira semanal de informações do país, era uma aventura, um destróierzinho que tentava concorrer com o porta-aviões <em>Veja</em> e a já consolidada <em>IstoÉ</em>. (Destroier? Melhor imagem seria uma pequena lancha.)</p>
<p>Não me lembro quem teve a idéia numa reunião de pauta: vamos contar tintim por tintim como é o filme que a Nova República está censurando. Vamos achar uma cópia pirata, fotografar diversas tomadas, e reproduzir como se fosse uma fotonovela.</p>
<p>Acho – não tenho certeza, de forma alguma – que a idéia foi do Carmo Chagas, então editor de Política, jornalista tarimbadíssimo, idéias de pauta sempre brilhantes e aos borbotões. Mas de uma coisa tenho certeza: a obrigação de transformar a ótima idéia de pauta era realidade recaiu sobre a minha pessoa.</p>
<p>Não me lembro como consegui a cópia do filme. Não deve ter sido difícil. De qualquer maneira, a cópia que obtivemos, uma fita VHS pirata copiada de pirata, era de péssima qualidade. Vimos o filme na minha casa, na Rua Ministro Godoy, num dos meus primeiros, talvez o primeiro videocassete, importabandeado (os nacionais eram umas três vezes mais caros), com cores horríveis. As fotos, as reproduções daquelas imagens pouquíssimo nítidas, foram assinadas por Ronaldo Kotscho, então chefe da fotografia da revista. Fiz um textinho de abertura de uma página – e em seguida vinham nove páginas reproduzindo 54 fotogramas do filme, cada fotograma com uma pequena legenda escrita por mim.</p>
<p>(Confesso que, por timidez, ou medo, ainda não tive coragem de reler a besteira que escrevi lá.)</p>
<p>Completava a matéria uma página dupla com uma reportagem mostrando como um grupo de intelectuais, artistas e políticos do Rio de Janeiro – Fernando Gabeira à frente – desafiavam a censura com exibições do filme.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/1986-Afinal-Je-vous-salue-Marie-1089.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-6833" title="1986 - Afinal - Je vous salue, Marie - 1089" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/04/1986-Afinal-Je-vous-salue-Marie-1089-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" /></a>A capa do número 79 da revista <em>Afinal</em> – que circulou com data de 4 de março de 1986, e custava Cr$ 22.000, sei lá o que é isso – trazia uma das reproduções do vídeo, e o título, em letras garrafais, seguramente de autoria do diretor de redação Fernando Mitre: TODAS AS CENAS DO FILME PERSEGUIDO. E, embaixo da foto, o complemento: &#8220;Doze páginas em cores – Je Vous Salue, Marie&#8221;.</p>
<p>A gente podia fazer qualquer coisa, e fizemos belas coisas, lá – a revista <em>Afinal</em> simplesmente não acontecia, não deslanchava, não ia em frente.</p>
<p>Em março de 1986, Mary estava em Brasília, trabalhando na Política da sucursal de <em>O Globo</em>. Quando, hoje, por causa do <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/ave-maria-cheia-de-graca/">artigo de Manuel S. Fonseca</a>, resolvi escrever sobre esta história, Mary disse que se lembrava de ter folheado a revista. Falava-se muito em Brasília do episódio da censura ao filme, e a revista foi comentada.</p>
<p>Mary fez então uma busca no Google e encontrou, no Estante Virtual, um sebo que vende o exemplar daquele número da revista por R$ 10,13.</p>
<p>São duas provas – embora tênues – de que a revista <em>Afinal</em> existiu. E de que até fizemos umas coisas boas lá.</p>
<blockquote><p><em>8 de abril de 2012</em></p>
<p><em>A canção citada no texto foi lançada no disco de 1987 de Milton Nascimento, </em>Yauaretê<em>. É um belíssimo retrato daquele momento que o país vivia. </em></p>
<p><em><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=jYLML9wkHAI">Carta à República (Milton Nascimento e Fernando Brant)</a></strong></em></p>
<p><em>Sim é verdade, a vida é mais livre</em></p>
<p><em>O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas</em></p>
<p><em>Com o povo daqui</em></p>
<p><em>E até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo</em></p>
<p><em>Mas eu não posso esconder a amargura</em></p>
<p><em>Ao ver que o sonho anda pra trás</em></p>
<p><em>E a mentira voltou</em></p>
<p><em>Ou será mesmo que não nos deixara?</em></p>
<p><em>A esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol</em></p>
<p><em>O que fizeram da nossa fé?</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,</em></p>
<p><em>Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,</em></p>
<p><em>Eu saí pra sonhar meu país</em></p>
<p><em>E foi tão bom, não estava sozinho</em></p>
<p><em>A praça era alegria sadia</em></p>
<p><em>O povo era senhor</em></p>
<p><em>E só uma voz, numa só canção</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>E foi por ter posto a mão no futuro</em></p>
<p><em>Que no presente preciso ser duro</em></p>
<p><em>E eu não posso me acomodar</em></p>
<p><em>Quero um país melhor</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma noite no sótão: com Billy Wilder e Kim Novak</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2012 18:35:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[ Este é de 1990. Escrito no “Expresso”, a pro­pó­sito de uma qual­quer exi­bi­ção de Beija-me Idi­ota na RTP 2, retomo-o com liber­da­des. Mais ou menos nessa altura veio cá o Ale­xan­der Trau­ner, que fora deco­ra­dor do Wil­der. Era um meia-leca, velhote, sim­pá­tico, com uma mulher tão meia-leca e sim­pá­tica como ele. Hei-de ver se des­cu­bro a entre­vista que lhe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"> <em>Este é de 1990. Escrito no “Expresso”, a pro­pó­sito de uma qual­quer exi­bi­ção de</em><em> </em>Beija-me Idi­ota<em> </em><em>na</em><em> </em><em>RTP</em><em> </em><em>2, retomo-o com liber­da­des. Mais ou menos nessa altura veio cá o Ale­xan­der Trau­ner, que fora deco­ra­dor do Wil­der.<span id="more-6694"></span> Era um meia-leca, velhote, sim­pá­tico, com uma mulher tão meia-leca e sim­pá­tica como ele. Hei-de ver se des­cu­bro a entre­vista que lhe fiz. Mas lembro-me que o levei ao Pavi­lhão Chi­nês – nessa altura levava-se toda a gente ao Pavi­lhão Chi­nês.</em><em> <em>O</em> </em>Beija-me Idi­ota<em> </em><em>foi um daque­les fil­mes de preto e branco tar­dio. O público só vol­tava atrás se tivesse des­cul­pas berg­ma­ni­a­nas e a sala fosse de cha­tís­sima arte</em><em> </em><em>&amp;</em><em> </em><em>ensaio. Uma comé­dia, e ainda por cima com Dean Mar­tin, já só podia ser vista em salas gran­des a cores. Que se lixe, enganaram-se, enganámo-nos: o filme era uma delí­cia. Era e é.   </em></p>
<p style="text-align: center;" align="right"> <em><strong>Kiss Me Stu­pid</strong></em><strong> <strong>de Billy Wilder</strong></strong></p>
<p>Em <em>Um, Dois, Três</em>, filme que de vez em quando a Cine­ma­teca exibe, Billy Wil­der mos­trou como é que se faz comé­dia ao <em>sprint</em> e sem este­roi­des ana­bo­li­zan­tes: é o filme mais rápido que conheço e inven­tou duas Ale­ma­nhas antes de elas existirem.</p>
<p><em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/beije-me-idiota-kiss-me-stupid/">Beija-me Idi­ota</a></em> é de uma famí­lia mais repou­sada, uma comé­dia que troca as vol­tas a qual­quer cir­cuito de manu­ten­ção. Basta-lhe ter feito está­gio em <em>Quanto Mais Quente Melhor</em>, assi­nado pelo mesmo rea­li­za­dor, e fazer finca-pé no peri­cli­tante equi­lí­brio entre a ver­dade e a aparência.</p>
<p>Ou seja, a pre­missa filo­só­fica do cinema de Wil­der é esta: a apa­rên­cia dos outros é sem­pre melhor do que a nossa ver­dade. Foi o que disse o pró­prio: «<em>Uma pega sonha pre­pa­rar o jan­tar a um homem e ficar para lavar a loiça. Uma esposa, que pas­sou 25 anos a fazer isso, gos­tava de ir beber um copo com um tipo que aca­bou de conhe­cer e meter-se na cama com ele.</em>»</p>
<p>A atrac­ção pela dife­rença é o motor a dois tem­pos de <em>Beija-me Idi­ota</em>. O com­bus­tí­vel é uma equí­voca mis­tura de pega e esposa, a rimar com «troca de iden­ti­da­des» de <em>Quanto Mais Quente Melhor</em>, um dos fil­mes que Wil­der fez com Marilyn. A acção, e é muita, de <em>Beija-me Idi­ota</em>, passa-se em Clí­max, uma pequena cidade do Ari­zona. Dois resi­den­tes, com­po­si­to­res «nas horas vagas», fazem tudo para reter Dino, um famoso can­tor, de pas­sa­gem para Las Vegas. Que­rem que ele ouça uma can­ção que com­pu­se­ram e que jul­gam ter a estre­li­nha do sucesso. Mas Dino, que por acaso (muito pouco ou nada) é Dean Mar­tin, tem os ouvi­dos a arder: a menos que tenha uma mulher por noite, estala-lhe a cabeça com dores. Começa então a «flo­resta de enga­nos»: um dos «com­po­si­to­res» con­se­gue fazer a esposa sair de casa e con­trata uma pros­ti­tuta — Polly the Pis­tol de sua graça — que fará pas­sar por sua mulher, incumbindo-a de sedu­zir Dino. A ver­dade é que Polly não con­se­gue sedu­zir Dino. A ver­dade tam­bém é que o marido não sabe bem para onde foi a mulher. Seja como for, Dino não sai de Clí­max com as suas ter­rí­veis dores de cabeça. E é ver­dade que Dino, na noite seguinte, apa­rece na tele­vi­são a can­tar a «can­ção de sucesso» dos dois «com­po­si­to­res» de Clímax.</p>
<p>«<em>Por bizarro que pareça, o tema de</em><em> </em>Beija-me Idi­ota<em> </em><em>era a dig­ni­dade humana e a san­ti­dade do casa­mento</em>», disse Billy Wil­der que era, como sabe­mos depois de ver <em>Sta­lag 17</em> ou <em>Irma La Douce</em>, um homem de boa e muita fé. As ligas de decên­cia norte-americanas não acre­di­ta­ram na boa fé de Wil­der e fize­ram ques­tão em prová-lo, pro­mo­vendo um chin­frim capaz de tra­zer à luz e à pureza uma dúzia de Aretinos.</p>
<p>Os crí­ti­cos libe­rais (de esquerda se for na Europa) tam­bém não acre­di­ta­ram, mas esta­vam de acordo com o que não acre­di­ta­vam, vendo no filme o retrato cor­ro­sivo, quase lúgu­bre da «Amé­rica pro­funda». Sucedendo-me ter um pé na decên­cia (sem liga!) e outro numa grande libe­ra­li­dade, e dando-se o caso de, por culpa de uma para­do­xal edu­ca­ção afri­cana, ser um dia euro­peu e no outro ame­ri­cano, eu acre­dito em Wil­der.  <em>Beija-me Idi­ota</em> está para a dig­ni­dade humana como a «bata­lha de Ingla­terra» para a II Grande Guerra e faz da san­ti­dade do casa­mento um valor mais seguro do que os que se escon­dem em Fort Knox.</p>
<p>Agora, do que não pare­cem res­tar dúvi­das, é que a dig­ni­dade e a san­ti­dade se mani­fes­tam pelos mais ínvios cami­nhos e se reve­lam de modo ines­pe­rado, o que, em minha modesta opi­nião, não nos deve tor­nar cép­ti­cos, mas sim gen­tis. É gen­til a visão das «mulhe­res tro­ca­das» deste Wil­der. São sober­ba­mente gen­tis os retra­tos delas, a vir­tu­osa pros­ti­tuta e a dedi­cada esposa com muita von­tade de beber um copo. E é gen­til – e muito menos con­for­mista do que os mais exal­ta­dos ten­de­rão a suge­rir – o «fim feliz» de <em>Beija-me Idi­ota</em>.</p>
<p>Quem não foi gen­til, foi o público. Naque­les anos 60, em que o «des­cuido das senho­ras tirara a ver­go­nha às cri­a­das», nin­guém quis enfiar a cor­ro­siva cara­puça de Wil­der. E ele e o seu argu­men­tista de tra­zer ao pes­coço — o lapi­dado IAL Dia­mond — fica­ram de cara à banda: «<em>Após o fra­casso do filme olhámo-nos durante sema­nas como um casal que tivesse feito uma cri­ança de duas cabe­ças e não ousasse vol­tar a ter rela­ções sexu­ais</em>».</p>
<p>Não acre­di­tem, é mania retros­pec­tiva de Wil­der, para quem vol­tar a ver um filme seu era o mesmo que encon­trar uma antiga namo­rada e pen­sar «<em>Meu Deus, dormi mesmo com ela</em>». E se é ver­dade que bons seios têm gerado maus filhos, visto hoje,  <em>Beija-me Idi­ota</em> é uma namo­rada linda: queremos todos vol­tar a dor­mir com ela.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><span style="color: #333333;">O Expresso</span></strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p>
<p>Um, Dois, Três<em> no Brasil teve o título </em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/cupido-nao-tem-bandeira-one-two-three/">Cupido Não tem Bandeira</a><em>. </em>Stalag 17<em>, </em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/inferno-n%c2%ba-17-stalag-17/">Inferno nº 17</a><em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Um beijo na palma da mão</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Mar 2012 01:01:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
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		<description><![CDATA[Por cada porta que passa, Robert De Niro passa de um pas­sado a outro pas­sado. É sem­pre “yes­ter­day”, como os Bea­tles can­tam, no Once Upon a Time in Ame­rica. O filme é de Ser­gio Leone e dura 50 anos. São 50 anos a andar para trás, à pro­cura do tempo per­dido em que a ino­cên­cia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzonceuponatime.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6616" title="zzonceuponatime" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzonceuponatime.jpg" alt="" width="1024" height="576" /></a>Por cada porta que passa, Robert De Niro passa de um pas­sado a outro pas­sado. É sem­pre “yes­ter­day”, como os Bea­tles can­tam, no <em>Once Upon a Time in Ame­rica</em>. O filme é de Ser­gio Leone e dura 50 anos. São 50 anos a andar para trás, à pro­cura do tempo per­dido em que a ino­cên­cia foi ou era possível.<span id="more-6615"></span></p>
<p>Numa reles casa de banho, há um buraco do tama­nho de um melan­có­lico tijolo. O buraco dá para o mais lon­gín­quo amor, o pri­meiro, da per­so­na­gem de De Niro que é, no filme, rufia e delin­quente, mas com um débil fio de humanidade.</p>
<p>Pelo buraco, o miúdo que depois há-de ser De Niro, vê uma diá­fana Jen­ni­fer Con­nelly nem sequer ado­les­cente, em pon­tas, a saia trans­pa­rente de bai­la­rina. Ela dança entre os sacos de fari­nha; ele espia-a, a pen­sar que por aquela fari­nha dança, elegante, o pão que um dia há-de comer.</p>
<p>Ela sabe que é vista. Chamam-na. Tira a agu­lha do gra­mo­fone e é, quando a música acaba, que começa a música do corpo dela. Ofe­re­cendo as cos­tas ao buraco onde se abrem os olhos dele, despe-se deva­gar. Toda. A curva das cos­tas, o recorte dos seios, o esplen­dor das into­ca­das náde­gas. Uma per­fei­ção que a bruta rea­li­dade inter­rompe: o miúdo que há-de ser De Niro tem de fugir apressado.</p>
<p>Mas volta por­que ela quer que ele volte. Num sab­bath, quando todos foram à sina­goga, finge esquecer-se que dei­xou a porta encos­tada e ele entra. A angé­lica Jen­ni­fer diz-lhe que não é pre­ciso ir-se à sina­goga para rezar e recita-lhe o Cân­tico dos Cân­ti­cos. Não há melhor e maior con­vite ao pecado.</p>
<p>Como no Cân­tico, ela canta as pren­das do amado que a espia. Canta-lhe a cabeça de ouro puro, embora saiba e diga que aquela cara suja nunca viu água limpa. Sussurra-lhe que é de mar­fim lavrado o corpo dele e as per­nas duas colu­nas de ala­bas­tro, infe­liz­mente tapa­das por cerou­las tão por­cas que fica­rão de pé mesmo que as tire. Ele nunca dei­xará de ser um ban­dido de rua, um escro­que, assim é o seu amado que, por isso, nunca será o seu amado. E beijam-se no único beijo, desa­jei­tado, lírico, que algum dia darão.</p>
<p>De Niro ainda não sabe, mas da vida toda que tem para viver, tudo lhe rou­ba­rão: será traído pelo amigo, rou­bado do dinheiro que jun­tos rou­ba­ram e, última gota do cálice, rou­bado até do amor sonhado pelo buraco de um tijolo. Uma vida inteira e o único e ines­que­cí­vel con­solo é a ino­cên­cia do pri­meiro e ansi­oso beijo de um sabbath.</p>
<p>Fui menos rou­bado, e a pri­meira vez que can­tei o Cân­tico dos Cân­ti­cos foi com a mão: a minha pou­sou desa­jei­tada sobre a nua coxa de uma doce Jen­ni­fer. Eu ainda longe da “idade de homem” e ela, ligei­ra­mente mais velha, em <em>shorts</em> de país tro­pi­cal. O gesto foi cân­dido, mas o calor da lábil curva infla­mou de repente parte do meu ego. Já não me lem­bro se ela tra­zia blusa ou de que cor, resta-me o ardor, o mesmo doce ardor, na palma da mão.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>Tinham mães que os amavam</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Mar 2012 06:31:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[A calva e res­plan­de­cente cabeça de Luis de Pina, então direc­tor da Cine­mateca, pai­rava sobre um tor­men­toso mar punk. Já volta­re­mos à sua cabeça. Antes, deixo-vos com uma pérola de filo­so­fia social: desiludam-se os pro­ac­ti­vos, não cria como­ções soci­ais quem quer e, às vezes, nem quem pode. O João Bénard con­ce­bera um mega­ló­mano Ciclo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A calva e res­plan­de­cente cabeça de Luis de Pina, então direc­tor da Cine­mateca, pai­rava sobre um tor­men­toso mar punk. Já volta­re­mos à sua cabeça. Antes, deixo-vos com uma pérola de filo­so­fia social: desiludam-se os pro­ac­ti­vos, não cria como­ções soci­ais quem quer e, às vezes, nem quem pode.<span id="more-6570"></span></p>
<p>O João Bénard con­ce­bera um mega­ló­mano Ciclo do Cinema Musi­cal. Sonhá­va­mos com pla­teias a can­tar e dan­çar o “Sin­gin’ in the Rain”. Entre as obras-primas esco­lhi­das para ova­ção e acla­ma­ção, o João dei­xou escor­re­gar um filme mais recente, pis­ca­dela de olho a mino­ria com algum bri­lho metálico.</p>
<p>Era o <em>The Great Rock and Roll Swin­dle</em> e foi pro­gra­mado para a sala da Barata Sal­gueiro, de uns com­pos­ti­nhos 250 luga­res. O que acon­te­ceu foi tudo menos com­posto. O filme era o dos alu­ci­nan­tes Sex Pis­tols de que faziam parte o mal­cri­a­dís­simo e mal-cheiroso Johnny Rot­ten e o negra­mente len­dá­rio Sid Vicious.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzswindle.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6576" title="zzswindle" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzswindle.jpg" alt="" width="580" height="438" /></a></p>
<p>De repente, duas da tarde no pala­cete da Cine­ma­teca, da rua emer­gem vagas tam­bém mal­cri­a­dís­si­mas e mal-cheirosas. Onda a onda, iam-se acas­te­lando miú­dos e miú­das de furi­o­sos cabe­los espe­ta­dos, far­pas negras ou de cores néon, mil brin­cos a ras­gar ore­lhas. Ves­tiam de negro, um negro que de luto nada tinha.</p>
<p>Comiam pas­téis de baca­lhau, arroz que a mãe de algum fizera (tinham mães que os ama­vam, claro), e bebiam litro­sas de tinto. Punks. Está­va­mos, até à rua, inun­da­dos de punks. Já tínha­mos visto meia-dúzia. Des­co­bría­mos que eram um exér­cito e não cabiam no cinema.</p>
<p>A Cine­ma­teca não tinha telha­dos de vidros, mas eram de vidro as por­tas da sala. A pres­são das botas negras da infan­ta­ria punk fez-se sen­tir. O nosso por­teiro teria pouco mais de metro e meio. A ele podia eu gabar-me, mas não muito, da minha altura; voluntariei-me para par­la­men­tar à massa ulu­lante. Observaram-me com curi­o­si­dade ento­mo­ló­gica: um coro de arro­tos e outros fla­tos fez-me recuar.</p>
<p>Com o seu amá­vel cor­pan­zil de Robert Mit­chum, sur­giu o Luis de Pina. Olhar e pala­vras doces, ape­lou à com­pre­en­são cicló­nica dos punks por­tu­gue­ses. A um ligeiro movi­mento de alí­vio e apa­rente con­ci­li­a­ção seguiram-se ultra­jan­tes mani­fes­ta­ções de ale­gria que com­pre­en­diam homé­ri­cas cus­pi­de­las e – volto a ver aqui a calva cabeça – uma escura bota a cru­zar os ares, visando o meu direc­tor. Não sei o que é que eles res­pi­ra­vam, mas os vidros fica­ram afli­tos e emba­ci­a­dos e o da bilhe­teira esta­lou com estrondo. A ale­gria punk é assim, física, cor­po­ral, sem dua­lis­mos car­te­si­a­nos: o corpo é a alma. Che­gou a polí­cia, o sos­sego do cassetete.</p>
<p>As pri­mei­ras ima­gens do filme man­da­ram a sala ao chão. O que lá den­tro se ber­rou, lá den­tro ficará para sem­pre e o triunfo da esca­to­lo­gia que se seguiu teve de ser lavado durante uma semana. Sim, era o público entregar-se a um filme! Não há enge­nheiro social que invente uma como­ção daquelas.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>O elogio da França</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2012 18:36:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Quem quer ainda saber do Beau­jo­lais nou­veau? Quando é que dei­xá­mos de gos­tar dos fran­ce­ses! Quando é que eles se tor­na­ram imper­ti­nen­tes e nos come­ça­ram a cha­tear de morte? Aqui sim, Herr Schulz, começa o declí­nio da Europa: andar Por­tu­gal a vender-se no Ori­ente ou em África é só con­sequên­cia. A causa é já não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzamerican1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6527" title="zzamerican" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzamerican1.jpg" alt="" width="950" height="425" /></a></p>
<p>Quem quer ainda saber do Beau­jo­lais nou­veau? Quando é que dei­xá­mos de gos­tar dos fran­ce­ses! Quando é que eles se tor­na­ram imper­ti­nen­tes e nos come­ça­ram a cha­tear de morte?<span id="more-6525"></span> Aqui sim, Herr Schulz, começa o declí­nio da Europa: andar Por­tu­gal a vender-se no Ori­ente ou em África é só con­sequên­cia. A causa é já não ser Paris a luz do mundo e que já não sucumba a boca à ten­ta­ção de um <em>reblo­chon</em>, de um macio <em>brie</em>.</p>
<p>Antes vinham ame­ri­ca­nos a Paris: uns dan­ça­vam, outros pin­ta­vam. Para ven­der a Amé­rica ao mundo, Hollywood vestia-se a ima­gi­ná­rio pari­si­ense. No filme de Min­nelli em que estou a pen­sar, Gene Kelly é o ner­voso americano per­feito. Ágil, ingé­nuo, sedento do roman­tismo fran­cês e de sécu­los de <em>patine</em>. Nesse filme, com a dan­çada ele­gân­cia de Gene Kelly e Les­lie Caron, com a ame­ri­ca­nís­sima música de Gershwin, toda a opu­lên­cia visual está impreg­nada de Cézanne ou Toulouse–Lautrec. <em>An Ame­ri­can in Paris</em> cani­ba­liza a cidade que aperta o Sena. O cinema de Min­nelli rou­bou sécu­los de França: com boas inten­ções, claro. Mas o que levou, nunca mais devolveu.</p>
<p>O roubo come­çara a preto e branco. O ale­mão Lubitsch trouxe a Paris a sueca Greta Garbo. Repa­rem, já dois euro­peus eram ame­ri­ca­nos com guia de mar­cha da Metro-Goldwyn-Mayer, estú­dio que tinha mais estre­las do que as estre­las que o céu tinha. <em>Ninot­chka</em> era uma comé­dia: um alto qua­dro do Par­tido Comu­nista da URSS (lembram-se?) vinha nego­ciar com o capita­lismo. A Paris. O alto qua­dro era a Garbo, chamava-se Ninot­chka, e man­dava o Par­tido às urti­gas por umas eva­nes­cen­tes bolhi­nhas de champagne. Pela pri­meira vez, a Garbo ria-se num filme. A França tinha essa vir­tude: enton­te­cia, liber­tava os sen­ti­dos, o gosto. A França era uma ale­gria culta.</p>
<p>Outro filme, Gigi, ensi­nando a uma ado­les­cente as amo­rais delí­cias dos afec­tos, fez a edu­ca­ção sen­ti­men­tal da Amé­rica. Aprendiam-se as regras do cora­ção, que é não ter nenhu­mas mas com ordem, dan­çando numa Paris saída da pin­tura impres­si­o­nista. A doçura inva­dia os cor­pos. Triun­fava um “se há pecado, peque­mos!” que logo Paris reza­ria por nós nessa noite. Cheva­lier des­cia as Tui­le­ries a agra­de­cer a Deus as <em>lit­tle girls</em>. Can­tava em inglês e pare­cia que era tudo francês.</p>
<p>Hoje, nin­guém abre a boca de espanto com Saint-Tropez: dormi no quarto do Byblos onde dor­mira a Naomi Camp­bell e já era um quarto ame­ri­cano. Mesmo a Bar­dot, deita-se com uns cães velhos e as pul­gas deles como se fosse o Al Gore. E já não há uma fran­ce­si­nha que seja a mais bela para se ir dan­çar. Nem um escri­tor mal­dito como Lau­treá­mont, nem o aroma das flores do mal.</p>
<p>Com a França era encanto e trans­gres­são. Sem a França? <em>Bah</em>, cor­po­ra­ção e droga. Algum dia vol­ta­re­mos a gos­tar dos fran­ce­ses? Melhor, quando é que foi a última vez que os fran­ce­ses ganha­ram a Euro­vi­são? (O que é a Eurovisão?)</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><span style="color: #333333;">O Expresso</span></strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>Dois cêntimos de infância</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 01:55:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
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		<description><![CDATA[Num ápice, salta da eufórica multidão para o silêncio da vasta pradaria que uma desgarrada árvore não chega a inter­rom­per. Assim começa “The Lusty Men”, de Nicho­las Ray. Robert Mit­chum é um cow-boy que vive da espú­ria arte dos rodeos. Doma cava­los, laça bezer­ros e monta tou­ros. Nos inter­va­los, mulhe­res. Nessa tarde que pare­cia ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num ápice, salta da eufórica multidão para o silêncio da vasta pradaria que uma desgarrada árvore não chega a inter­rom­per. Assim começa “The Lusty Men”, de Nicho­las Ray.<span id="more-6496"></span></p>
<p>Robert Mit­chum é um cow-boy que vive da espú­ria arte dos rodeos. Doma cava­los, laça bezer­ros e monta tou­ros. Nos inter­va­los, mulhe­res. Nessa tarde que pare­cia ser de gló­ria conhece os cor­nos do infor­tú­nio. Entrou na arena de corpo vai­doso e res­plan­de­cente camisa branca. Quando, no final da curta cena, o vol­ta­mos a ver, o corpo can­sado já arrasta uma perna coxa. É um alei­jado num mundo que os nega e rejeita.</p>
<p>Um minuto de filme, o tempo da gló­ria. Abrup­ta­mente, da mul­ti­dão, dos alti­fa­lan­tes do está­dio, das incon­ti­das ova­ções, Ray tira-nos e atira-nos para uma pai­sa­gem imensa e vazia. Um silên­cio de poeira, gri­los e cigar­ras, um con­su­mido resto de Verão, seco e esté­ril. Vemos o mesmo Mit­chum que é já outro Mit­chum. Cami­nha em direc­ção a uma casa abandonada.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzlusty.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6504" title="zzlusty" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/03/zzlusty.jpg" alt="" width="450" height="318" /></a>Há, entre o homem osci­lante e a casa decré­pita, uma antiga fami­li­a­ri­dade. Os pas­sos de Mit­chum são os pas­sos enver­go­nha­dos de quem, ven­cido, regressa a casa. Um cade­ado fer­ru­gento fecha o por­tão da cerca, já Mit­chum sobe os degraus do alpen­dre e empurra a porta que não cede. Este coxo Ulis­ses, que nem a des­culpa de uma Pené­lope tem, volta-se e sabe­mos pelos admi­rá­veis e bran­dos olhos dele o bem e a dor, a dor e o bem, que lhe faz con­tem­plar a inter­mi­ná­vel pradaria.</p>
<p>Dá a volta à casa e, de repente, pára. Pára porque um fragmento, esplêndido fragmento do passado, lhe iluminou as memórias. Afasta com o pé um esquálido arbusto e, como só um miúdo sabe ser clandestino, rasteja para debaixo da estrutura em que assenta a casa. Lá por baixo, no sujo e mágico pó do tempo, as mãos tacteiam um tesouro: a criancice de um revólver inútil, a revista de quadradinhos, uma velha bolsa de tabaco onde em miúdo guardava moedas. Encontra dois cêntimos, tantos anos depois.</p>
<p>Dois cêntimos de infância podem ser a infância toda, intacta. Hoje, que estas crónicas fazem um ano, falo por mim: não tenho a sorte de Mitchum. Não voltarei a essa intacta infância. Não sujarei a camisa branca rastejando para baixo da casa dos meus pais. Não voltará às minhas mãos o trémulo revólver de um Natal angolano.</p>
<p>Criado, eu e um milhão de portugueses, na casa errada da História, não tenho lugar a que possa regressar e dizer, como Mitchum, “quase nada mudou na casa” ou “nasci neste quarto”. Fez 50 anos este 4 de Fevereiro: outros homens saíram debaixo do que nem eram casas para me ensinar que a minha casa não era a minha casa. Uma espessa camada de História, de gerações inocentes em busca da sua liberdade, sepultou os segredos que escondi na casa dos meus pais. Não se rasteja para tão fundo. Aos coxos da História não se dá o consolo de dois cêntimos de infância.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p>
<p>The Lusty Man<em> no Brasil teve o título de </em>Paixão de Bravo<em>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>As lágrimas de Fuller</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Feb 2012 17:11:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Um carteirista é o seu melhor herói. Precisávamos de um herói que tivesse o orgulho que Richard Widmark tem nos seus dedos. Nem mesmo Maria João Pires tem os dedos desse herói de Samuel Fuller ou o seu profissionalismo amoral. Orgulhamo-nos demasiado das nossas paixões. Talvez devêssemos ter vaidade numa calculada frieza. Não sei se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um carteirista é o seu melhor herói. Precisávamos de um herói que tivesse o orgulho que Richard Widmark tem nos seus dedos. Nem mesmo Maria João Pires tem os dedos desse herói de Samuel Fuller ou o seu profissionalismo amoral. Orgulhamo-nos demasiado das nossas paixões. Talvez devêssemos ter vaidade numa calculada frieza.<span id="more-6452"></span></p>
<p>Não sei se <em>Pick-up on South Street</em>, belo e cínico como qualquer Caravaggio, é o melhor Fuller. E ninguém pode jurar que um carteirista seja o seu Ulisses. Mas juro que Fuller era o único cineasta capaz de fazer deste nosso último ano em Portugal um filme.</p>
<p>Fuller tinha o sonho de filmar um Vasco da Gama a que De Niro daria a pele. Vi-o rodar em Lisboa <em>Street of No Return</em>. Uma das cenas era boa. Numa noite sebastiânica, a protagonista nua cavalgava pelo arco que ladeia a Igreja de São Vicente. Raro relâmpago de nudez em Fuller. E minto. Nada mais nu do que os seus filmes de guerra. O meu improvável favorito é <em>Merrill’s Marauders</em>. Revi-o agora e é o retrato dos nossos dias. Desengane-se a patrulha do óbvio: não vivemos uma crise, vivemos uma guerra.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzfuller1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6456" title="zzfuller1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzfuller1.jpg" alt="" width="618" height="478" /></a>Na Birmânia, 3.000 voluntários, os “marauders” do general Merrill, infiltram-se nas linhas japonesas para lhes rebentar a base de abastecimento. Avançam furtando-se ao combate directo. É a nossa história colectiva dos últimos meses. Deu com os homens de Merrill em doidos, dá connosco em doidos.</p>
<p>Que alívio quando chegam a combater. Os soldados de Fuller matam com gosto. Cortam gargantas à faca e disparam sem piedade. Não é um gosto bárbaro, apenas a simples alegria de serem eles a ficar vivos. E nós, chegaremos a combater?</p>
<p>Ganha a batalha, os soldados (diria heróis se houvesse heróis em Fuller) só querem voltar a casa como prometido. Mas dão-lhes nova missão: é preciso avançar e são eles que estão ali. Também nós sabemos que não voltaremos a casa. Há uma mais dura missão: a artilharia da crise vai matar, estripar. Não somos o Gama, mas temos de avançar porque nos calhou estar aqui.</p>
<p>Nos soldados de Fuller antecipo o nosso retrato futuro. Enfrentam pântanos, malária, tifo, fome. Já nada os move, nem o amor à pátria, nem o ódio ao japonês. São espectros que respiram e põem um pé à frente do outro. Bestas da sua besta, roçam o absurdo: um deles carrega alforges para salvar a mula exausta que lhes leva os mantimentos.</p>
<p>E voltam a combater. Os sobreviventes descobrem que nem agora voltarão a casa: dão-lhes outra impossível missão. Na mais bela cena do cinema de Fuller, um desengonçado sargento ruivo, abandonado a uma desmesurada fadiga física e moral, acorda com um miúdo birmanês a enfiar-lhe grãos de arroz pela boca abaixo. Arrebata-o um choro convulsivo. Também nós não voltaremos à mesma casa. Guardemos as lágrimas para o dia em que dedos birmaneses nos levem a comida à boca.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><span style="color: #333333;">O Expresso</span></strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p>
<p>Pick-up on South Street<em> no Brasil teve o título de </em>Anjos do Mal<em>; Street of no Return, Uma Rua Sem Volta; Merrill&#8217;s Marauders, Mortos Que Caminham.</em></p></blockquote>
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		<title>O horror do humano ao humano</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 00:57:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Se o erotismo é uma forma de aristocracia, então Anatole Dauman é um príncipe da Renascença. Há duas décadas entrevistei-o neste jornal que ainda tem paciência de me acolher. Dauman fora o prestigiado produtor de Hiroshima, mon amour de Alain Resnais, da perturbadora Mouchette de Robert Bresson, do sexuado Masculin, Féminin de Godard, das Asas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se o erotismo é uma forma de aristocracia, então Anatole Dauman é um príncipe da Renascença. Há duas décadas entrevistei-o neste jornal que ainda tem paciência de me acolher.<span id="more-6429"></span></p>
<p>Dauman fora o prestigiado produtor de <em>Hiroshima, mon amour</em> de Alain Resnais, da perturbadora <em>Mouchette</em> de Robert Bresson, do sexuado <em>Masculin, Féminin</em> de Godard, das <em>Asas do Desejo</em> do sorumbático Wen­ders, para ir a jogo só com ases.</p>
<p>Conversámos no histórico Avenida Palace. Assentava-lhe bem a nostalgia do cenário. Vestia-se com elegância de faubourg Saint-Honoré, segurando um copo de vinho como se fosse um ceptro de imperador. Falava devagar, procurando as palavras por disciplinado amor à retórica e para se consolar com o som do que dizia. Pensei: há seres humanos que têm no narcisismo a maior virtude.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzdauman1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6430" title="zzdauman1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/02/zzdauman1.jpg" alt="" width="159" height="300" /></a>Parte eslavo, parte judeu, francês de cérebro, Dauman era sempre estrangeiro e no fio da navalha. Os filmes que produziu situam-se nos limites de amor e morte que, cúmplices, roçam já pelo crime.</p>
<p>Começo por <em>Nuit et Brouillard</em>, de Resnais. A noite e o nevoeiro desse filme, que faz da escuridão humana e das cinzas dela a sua matéria, leva-nos aos campos de concentração, 10 anos depois do genocídio. Filma-se a paisagem bucólica de Auschwitz, a rasteira vegetação que cresce, o parvo sol distraindo-se por um fio de estrada: nem gritos, nem sangue, nem as cinzas de um osso ou da carne que já foi um braço, o ansioso seio do amor. Nada, ninguém, diria de forma mais horrenda a inutilidade do crime nazi do que a silenciosa amoralidade da natureza. Os carris sem uso, outrora de nocturno vómito, cães e medo, estão agora cobertos de ervas sopradas pela indolente brisa do Verão. Dizem que a Natureza tem horror ao vazio, mas o que ali se vê é o horror a um humano que a Natureza se obstina a apagar depressa.</p>
<p>Outro filme, de extremo horror do humano ao humano, foi o <em>Império dos Sentidos</em>. Dauman pediu ao realizador, o japonês Oshima, uma “tourada de amor”. Com sangue, vermelhíssimos quimonos, uma faca e uma estocada de morte.</p>
<p>Nessa história de ilimitada paixão entre uma criada de hotel e o dono dele, os amantes atacam o corpo um do outro como um exército um território ou o canibal a sua presa: atacam a boca, o sexo, a menstruação, o estrangulável pescoço. “O que sentes?” perguntam. E quando sussurram “não te posso ver sofrer!” é só para ir mais longe, buscar a inenarrável alegria da dor. Nesse filme, que tanto ensinou ao Arcebispo de Braga quando o programei na RTP 2, amor rima com morte, sexo com sangue.</p>
<p>Ascese, protestava Dauman, sentado na nobre decadência do Avenida Palace. A ascese de Van Gogh foi a de cortar a própria orelha. A dos amantes do <em>Império dos Sentidos</em> culmina na sufocada morte e no corte cerce desse apêndice que num homem é o ramo e os seus frutos.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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