<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>50 Anos de Textos &#187; Cinema</title>
	<atom:link href="http://50anosdetextos.com.br/tag/cinema/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://50anosdetextos.com.br</link>
	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Sep 2010 05:33:51 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.1-alpha</generator>
		<item>
		<title>Dennis Hopper foi se encontrar com James Dean e Marlon Brando</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/05/29/dennis-hopper-foi-se-encontrar-com-james-dean-e-marlon-brando/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/05/29/dennis-hopper-foi-se-encontrar-com-james-dean-e-marlon-brando/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 29 May 2010 21:52:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1933</guid>
		<description><![CDATA[Poucos anos atrás, Bob Dylan teve uma doença grave; quando o perigo passou, as agências de notícias distribuíram uma declaração dele: “Pensei que tivesse chegado a hora de me encontrar com Elvis”. Lembrei desta frase ao ver, alguns minutos atrás, a notícia da morte de Dennis Hopper, aos 74 anos de idade. Imediatamente me ocorreu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Poucos anos atrás, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/02/03/dylan-volume-4-um-genio-que-nao-para/">Bob Dylan</a> teve uma doença grave; quando o perigo passou, as agências de notícias distribuíram uma declaração dele: “Pensei que tivesse chegado a hora de me encontrar com Elvis”.<span id="more-1933"></span></p>
<p>Lembrei desta frase ao ver, alguns minutos atrás, a notícia da morte de Dennis Hopper, aos 74 anos de idade. Imediatamente me ocorreu que Dennis Hopper foi se encontrar com James Dean e <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2007/cacada-humana-the-chase/">Marlon Brando</a>.</p>
<p>Provavelmente o recém-chegado vai querer oferecer um baseado para os outros dois, e fazer planos para botarem, os três, seus surrados casacos de couro preto, montar nas Harley-Davidson e sair sem destino, rebeldes sem causa, céu afora, em busca de uma América para sempre perdida.  </p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Ícone e iconoclasta</strong></p>
<p><a href="http://50anosdefilmes.com.br/wp-content/uploads/2010/05/hopperjovem.jpg"></a><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/05/hopperjovem.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1939" title="hopperjovem" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/05/hopperjovem-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Procurei a notícia no <em>New York Times</em>, para ver como eles estavam dando, e não achei. Já estava nos portais dos grandes jornais brasileiros, mas o jornal mais influente do mundo demorou um pouco mais. No iMDB, claro, já estava a faixa no alto da página; a notícia, ainda pequena, abria com: “O ícone de Hollywood Dennis Hopper&#8230;”</p>
<p>Voltei ao <em>New York Times</em> e já estava lá, no alto da página: “Dennis Hopper, cinematic iconoclast, dies at 74”.</p>
<p>Ícone - e iconoclasta. De uma maneira fantástica, o melhor site enciclopédico de cinema e o site do principal jornal americano se completam para dar a descrição sucinta dessa figura emblemática: ao mesmo tempo ícone e iconoclasta.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Símbolo de uma época</strong></p>
<p>Hopper começou a carreira de ator em 1954, em seriados para a TV. Premiado pela sorte, já no ano seguinte teve um pequeno papel em <em>Juventude Transviada/Rebel Without a Cause</em>, o filme de <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/a-vida-intima-de-uma-mulher-a-womans-secret/">Nicholas Ray</a> – com James Dean no papel principal – que se transformaria em um imenso mito e, mais do que simplesmente espelhar um tipo de comportamento que começava a se alastrar pelos Estados Unidos, o dos jovens rebeldes naquela era pré-beatniks e pré-hippies, disseminou-o pelo mundo inteiro.</p>
<p>Teria – nascer com estrela é isso aí – também um pequeno papel em <em>Assim Caminha a Humanidade/Giant</em>; o grande filme de George Stevens só chegaria aos cinemas em 1956, quando James Dean já estava morto – morreu num acidente de moto, aos 24 anos de idade, com apenas três filmes no currículo, dois dos quais também estrelado por Dennis Hopper. Virou um dos maiores ícones da cultura popular do século 20.</p>
<p>Hopper escreveu, dirigiu e estrelou <em>Easy Rider</em> em 1969 – e o filme, no Brasil <em>Sem Destino</em>, seria tão absolutamente emblemático dos anos 60 quanto <em>Juventude Transviada</em> havia sido dos anos 50.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Dava-se bem com os outsiders, os rebeldes, os doidos</strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/05/easyrider.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1941" title="easyrider" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/05/easyrider.jpg" alt="" width="400" height="315" /></a>Sem Destino/Easy Rider</em> seria seu trabalho mais importante, mais brilhante (na foto, Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson). Mas trabalhou muito. Atuou em dezenas e dezenas de filmes e de episódios de séries para a TV, dirigiu alguns poucos filmes – oito, no total. Fez, por exemplo, um bandidão em <em>Bravura Indômita/True Grit</em>, de 1969, o filme de Henry Hathaway que deu o único Oscar a John Wayne. O alemão <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2007/medo-e-obsessao-land-of-plenty/">Wim Wenders</a> o dirigiu no papel de <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2006/o-sol-por-testemunha-plein-soleil/">Tom Ripley, o personagem criado por Patricia Highsmith</a>, em <em>O Amigo Alemão</em>, de 1977. (Wenders, fã absoluto de Nicholas Ray e do bom cinema americano, prestava assim uma homenagens transversa ao velho ídolo que havia dirigido o jovem Hopper em <em>Juventude Transviada</em>.)</p>
<p>Em 1979, fez o papel de um fotojornalista no filme antiguerra mais doido de toda a história, <em>Apocalypse Now</em>, de Francis Ford Coppola, no qual Marlon Brando – o outro rebelde da motocicleta – tinha um papel pequeno mas fundamental. Coppola o dirigiria de novo em <em>O Selvagem da Motocicleta/Rumble Fish</em>, de 1983 – a motocicleta, de novo e sempre –, o filme que ajudou a firmar como astros Mickey Rourke, Matt Dillon e Nicolas Cage.</p>
<p>Outro diretor absolutamente fora do padrão, do tradicional, David Lynch, o escalou para um dos principais papéis em <em>Veludo Azul/Blue Velvet</em>, de 1986. O outsider <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2000/amores-e-bossa-nova/">Bruno Barreto</a> fez dele o protagonista de um de seus mais belos filmes, <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/1997/atos-de-amor-carried-away/">Atos de Amor/Carried Away</a></em>, de 1996.</p>
<p>Dava-se bem com gente que não pertencia ao cinemão tradicional, à indústria hollywoodiana, o que é absolutamente explicável. Sempre foi um rebelde, um estranho no ninho (para fazer um trocadilho com o título brasileiro do filme que deu o primeiro Oscar a <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/lacos-de-ternura-terms-of-endearment/">Jack Nicholson</a>, o ator que <em>Sem Destino</em> transformou em astro de primeira grandeza).</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Eterno hippie, eterno agitador</strong></p>
<p><a href="http://50anosdefilmes.com.br/wp-content/uploads/2010/05/hoppervelho.jpg"></a>Dennis Hopper faz lembrar, e muito, <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/muito-alem-do-jardim-being-there/">Hal Ashby</a>, o diretor hollywoodiano mais anti-hollywoodiano da história, eterno hippie, eterno agitador, eterno iconoclasta.</p>
<p>Nunca tinha escrito para o site <a href="http://50anosdefilmes.com.br/">50 Anos de Filmes</a> sobre um cineasta ou ator que acaba de morrer; não é um blog sobre cinema, com notícias e comentários sobre coisas do cinema &#8211; é um site com meus textos sobre filmes. (Aqui, no <strong>50 Anos de Texto</strong>, já havia escrito um adeus ao grande cantor e compositor Jean Ferrat.) Mas não consegui resistir à tentação de fazer uma pequena anotação sobre Dennis Hopper no meu site sobre filmes &#8211; nem de transcrevê-la aqui. Nunca vai ser possível esquecer a emoção que senti ao ver <em>Easy Rider</em> pela primeira vez, com <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/vivina-de-assis-viana/">minha amiga Vivina</a>, numa pré-estréia às dez da noite de um sábado no antigo Cine Rio do Conjunto Nacional (depois Cinearte, hoje Cine BomBril), e nas várias e seguidas vezes que revi depois – e por isso não deu para deixar de escrever.</p>
<p>Já que fiz a anotação, gostaria então de transcrever o que diz alguém que sabe das coisas, o francês Jean Tulard, no seu <em>Dicionário de Cinema – Os Diretores</em>:</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/05/hoppervelho.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1940" title="hoppervelho" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/05/hoppervelho-223x300.jpg" alt="" width="223" height="300" /></a>“Ator excelente (pode-se vê-lo em <em>Juventude Transviada</em> de Ray e em obras de Sturges, Hathaway, Corman), redigiu, interpretou e rodou <em>Sem Destino</em>, cuja repercussão foi enorme, suscitando inúmeras imitações. Um novo tipo de marginal era apresentado: o hippie com seus jeans, suas camisetas, seu vocabulário, as drogas e a moto. Com <em>As Cores da Violência</em>, nos mostrou a batalha das gangs em Los Angeles; a violência do filme dá um frio na espinha. E com Hot Spot retoma os faustos do filme noir, com uma atmosfera pegajosa, garotas voluptuosas e a reviravolta final.”  </p>
<p>Não vi <em>As Cores da Violência/Colors</em>, de 1988, nem <em>Hot Spot</em>, de 1990. E, na época em que vi, não gostei muito de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/1995/atraida-pelo-perigo-catchfire-ou-backtrack/">Atraída pelo Perigo/Catchfire</a></em>, de 1990, um filme que teve uma história atribulada – uma versão não autorizada foi lançada na Europa, e o filme acabou sendo distribuído no Brasil com a direção atribuída a Alan Smithee, que, segundo o iMDB, é um pseudônimo de Hopper. Mas o filme tem um detalhe interessantíssimo: nele, Bob Dylan – que citei lá em cima – faz uma ponta, como um artista plástico.</p>
<p>Que os anjos, James Dean e Marlon Brando o recebam bem. É possível que ele não encontre um baseado por lá – mas tomara que haja uma Harley-Davidson envenenada para ele montar.</p>
<blockquote><p><em>29 de maio de 2010.</em></p>
<p><em>Para ler o texto sobre Dennis Hopper no </em><a href="http://www.nytimes.com/2010/05/30/movies/30hopper.html?hp">New York Times</a><em><a href="http://www.nytimes.com/2010/05/30/movies/30hopper.html?hp">, clique aqui</a>. </em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/05/29/dennis-hopper-foi-se-encontrar-com-james-dean-e-marlon-brando/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A mulher de Errol Flynn</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/03/18/a-mulher-de-errol-flynn/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/03/18/a-mulher-de-errol-flynn/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 18 Mar 2010 18:30:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1425</guid>
		<description><![CDATA[Recebo aqui em Campinas e-mail do jornalista José Leal Paes, hoje morando em Belém do Pará após trabalhar durante bons anos no Estadão. Sua mensagem não poderia ser mais sucinta, apesar do enorme significado. Dizia, apenas: “Morreu ontem, no bairro do Guamá, a mulher do Errol Flynn”. Devo contar que fui, imediatamente, coberto pelo, como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Recebo aqui em Campinas e-mail do jornalista José Leal Paes, hoje morando em Belém do Pará após trabalhar durante bons anos no <em>Estadão</em>. Sua mensagem não poderia ser mais sucinta, apesar do enorme significado. Dizia, apenas: “Morreu ontem, no bairro do Guamá, a mulher do Errol Flynn”.<span id="more-1425"></span></p>
<p>Devo contar que fui, imediatamente, coberto pelo, como diziam os parnasianos, diáfano manto da saudade. Pois tal figura, a “mulher do Errol Flynn”, marcou, de alguma forma, a vida de todos nós que fomos jovens na Capital do Pará ali pelo começo dos anos 50.</p>
<p>Raimunda Bastos, esse era o nome dela. Morena bonita, francamente bonita, sósia da bela Teresa Collor. Mas a nossa beldade não era nenhuma socialite, antes pelo contrário. Exercia, com eficiência e alta competência, aquela que chamam de “a mais antiga das profissões”. E, afinal, mesmo sendo a gracinha que era, não teria entrado para a história se não tivesse se transformado na “mulher do Errol Flynn”.</p>
<p>Vamos voltar um pouco no tempo, para a época da Segunda Guerra Mundial. Naqueles duros anos, o astro americano de tantos filmes de aventura estava no auge da forma física, da fama e da grana. Tinha um iate, e, com ele, apesar do conflito que se desenrolava na Europa, vivia percorrendo as águas do Caribe. Quem sabe se após alguns uísques a mais, ele e sua tripulação resolveram subir o Amazonas. Assim, tomaram o rumo da foz do grande rio.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/errol.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1428" title="errol" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/errol.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a>Pois muito bem; o ator do <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/as-aventuras-de-robin-hood-the-adventures-of-robin-hood/">Robin Hood</a></em> dirigido por Michael Curtiz, acho que em l938, chegou a Belém a bordo do seu iate ali por 1941, antes de os americanos entrarem na guerra, o que só ocorreu após o ataque japonês a Pearl Harbor. Vinha acompanhado de certo staff, e até algumas gurias; só que, ancorado ao largo do porto da cidade, o ator resolveu, certa noite, visitar a zona do meretrício. Mandou para a melhor pensão do chamado “quadrilátero do pecado” um grupo precursor, a fim de organizar tudo. Tanto que, quando chegou, de porre, todas as garotas da casa, fechada especialmente, permaneciam colocadas de costas para a parede da sala, a fim de que o grande astro apontasse aquela com quem ficaria. Dito e feito, a escolhida foi Raimunda Bastos, que ele levou para o quarto e lá ficou até a noite do dia seguinte. Não se sabe se devido ao cansaço de tal esforço, a subida do rio Amazonas acabou abortada. E os gringos retornaram para o Caribe.</p>
<p>De outra parte, a grande verdade é que o efeito das muitas horas de amor com o famoso galã transformaram completamente a vida da moça. Tanto que quando a conheci, muito tempo depois, já nos anos 50, ela permanecia na mesma pensão, e fora batizada como “a mulher do Errol Flynn”. Por causa disso só atendia a seleta freguesia. Muitos vinham dos Estados vizinhos para, digamos, merecer seus favores.</p>
<p>Pintando, afinal, a decadência, os tempos ficaram mais duros, porém a moça não perdeu a classe. Tanto que certa noite vi a reação dela diante de um marinheiro bêbado que queria arrastá-la para a cama:</p>
<p>- Tá pensando o que, idiota? Tu achas que essa bainha aqui – batia a mão no meio das pernas &#8211; onde o Robin Hood enfiou a espada vai se passar para um tipo da tua laia?</p>
<p>Grande Raimundinha, “a mulher do Errol Flynn”. Morreu rondando os 80 e lá vai fumaça, na casa comprada com os dólares que o ator lhe deu, nas duas lendárias noites. Saudades eternas.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/03/18/a-mulher-de-errol-flynn/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O encanto de descobrir Manoel de Barros</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/03/02/o-encanto-de-descobrir-manoel-de-barros/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/03/02/o-encanto-de-descobrir-manoel-de-barros/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 18:40:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hubert Alquéres]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1231</guid>
		<description><![CDATA[Premiado no Festival Paulínia de Cinema de 2009 como melhor documentário, Só dez por cento é mentira tem conquistado elogios e aplausos onde é exibido. Pedro Cezar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século passado e mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Premiado no Festival Paulínia de Cinema de 2009 como melhor documentário, <em>Só dez por cento é mentira</em> tem conquistado elogios e aplausos onde é exibido. Pedro Cezar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século passado e mais importantes do Brasil.<span id="more-1231"></span>Elogiada por Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, sua obra aparentemente simples é instigante, repleta de originalidade e busca inspiração no olhar encantado das crianças e nas coisas corriqueiras e “desimportantes” do mundo.</p>
<p>Manoel de Barros faz releituras surpreendentes, confere novas dimensões a objetos, traquitanas e “inutensílios”, valoriza personagens que encantam por seu despojamento, brinca com as palavras e se insurge contra a fixação unilateral e obsessiva em produção e produtividade, uma característica das sociedades contemporâneas, celebrando as “inutilezas”.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/manoel-de-barros.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1235" title="manoel-de-barros" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/manoel-de-barros.jpg" alt="" width="448" height="286" /></a>A reinterpretação das noções correntes de verdade e invenção começa pelo título do filme, que se refere a como Manoel de Barros vê sua obra: “Noventa por cento é invenção; só dez por cento é mentira”. E explica para quem fique intrigado com a inusitada distinção: “A invenção é um negócio profundo. Serve para aumentar o mundo”. Para ele, todo poeta é um “vidente”, dotado de um olhar inevitavelmente “enviesado” das pessoas e coisas que o cercam, e chamado não a descrever, mas a descobrir e ampliar o universo.</p>
<p>Aos 93 anos, o poeta desconcerta ao afirmar que até hoje só teve infância e, portanto, escreve “apenas” sobre ela. Depois dos 70, acrescenta, garantiu o ócio e ingressou no que chama de “terceira infância”, passando a produzir mais. Para quem duvide, o filme mostra que ele avançou na vida sem deixar de ver o mundo com o olhar perquiridor e desinibido das crianças, convencido de que os objetos não se restringem a seu significado literal. “As coisas”, adverte, “não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”</p>
<p>Declara ser poeta em tempo integral: “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde”. Acolhe de bom grado as limitações do homem: “A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito”. Talvez por isso o filme se declare como sendo uma “desbiografia” do poeta e faça o elogio do “des-herói”, termo do autor para qualificar personagens que estão na contramão do convencional, a exemplo do vagabundo de Charles Chaplin – um “herói ao contrário”.</p>
<p>O resultado é um mergulho estético e arrebatador na obra de Manoel de Barros. A fotografia e a música – onde predomina a viola – reforçam as reminiscências do Brasil pantaneiro. As imagens são poéticas, frases e versos do escritor são inseridos na tela como nos cadernos que ele mesmo confecciona e escreve a lápis, “em caligrafia miúda”. Ficam evidentes a sensibilidade, mas também o empenho, a lapidação e a paciência com que o poeta constrói seus poemas.</p>
<p>O documentário apresenta depoimentos de escritores, cineastas, atores, artistas plásticos, parentes e amigos do poeta. Mas seu grande feito é ter conseguido entrevistar o próprio Manoel de Barros, conhecido por evitar exposição na mídia. Famoso por conceder entrevistas somente por correspondência, Manoel resistiu a autorizar a gravação de seu depoimento. Para Pedro Cezar, “ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente”. E repisa: “Ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado”. Afinal, “poesia não é para compreender, é para incorporar”, argumenta o poeta, enfatizando que ela pode estar em qualquer canto, bastando apenas focalizar um olhar desprovido de regras e pressupostos – como o das crianças – para enxergá-la.</p>
<p>O cineasta conseguiu fazer a entrevista porque, depois de muita insistência, afirmou que era melhor deixar para lá, afinal o desejo de fazer o filme era “só um sonho”. O velho poeta, sabedor da importância dos sonhos, se rendeu e o documentário pôde virar realidade. “Venha amanhã bem cedo, pode fazer as perguntas. Se eu me interessar, eu respondo”. Respondeu a todas e Pedro Cezar soube aproveitar a oportunidade.</p>
<p>Cenas inspiradas e imprevistas. Manchas nas paredes sujas que se transformam em desenhos cheios de significado e lirismo. Pneus que, das fábricas e dos carros, vão parar nas mãos de garotos que os utilizam como balanços, ou os convertem em bóias para brincar num lago, ou os jogam de um para o outro num final de tarde, ao “lusco-fusco” – momento sempre carregado de mistério, que enternece e confunde, à semelhança da poesia de Manoel de Barros, que desvenda novas leituras de matérias densas, mas cheias de disfarce. Um filme que honra a qualidade do biografado e confirma a magia e o encantamento da arte de fazer cinema e de assisti-lo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/03/02/o-encanto-de-descobrir-manoel-de-barros/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O dia em que Lana Turner se apaixonou por um piloto brasileiro</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/28/o-dia-em-que-lana-turner-se-apaixonou-por-um-piloto-brasileiro/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/28/o-dia-em-que-lana-turner-se-apaixonou-por-um-piloto-brasileiro/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 00:52:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1214</guid>
		<description><![CDATA[Durante a Segunda Guerra, os grandes astros de Hollywood dos anos 30 e 40 costumavam visitar as bases americanas espalhadas pelo mundo. Chegavam discretamente em vôos especiais das Forças Armadas americanas, faziam o que tinham que fazer e, discretamente, iam embora. Segundo a crença geral, o moral dos soldados crescia com a simples aparição dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante a Segunda Guerra, os grandes astros de Hollywood dos anos 30 e 40 costumavam visitar as bases americanas espalhadas pelo mundo. Chegavam discretamente em vôos especiais das Forças Armadas americanas, faziam o que tinham que fazer e, discretamente, iam embora. Segundo a crença geral, o moral dos soldados crescia com a simples aparição dos artistas.<span id="more-1214"></span></p>
<p>No Brasil, as bases americanas ficavam em Belém, no Pará, e em Natal, Rio Grande do Norte. Como os focos dos meus textos têm sido a primeira, os seus domínios é que foram o cenário de um empolgante caso de amor envolvendo uma das maiores estrelas americanas de todos os tempos.</p>
<p>Num dia gloriosamente claro do verão amazônico em junho de 1943, a enorme aeronave da US Air Force desceu na base. Desembarcaram os atores Kirk Douglas, Bob Hope e Dana Andrews, além das estrelas Joan Crawford e <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2003/caldeira-do-diabo-peyton-place/">Lana Turner</a>. Isso ocorreu pela manhã. Quando foi à tarde, pouco antes do crepúsculo, um pequeno avião de patrulha North America, o famoso NA que a nossa Esquadrilha da Fumaça usou por vastos anos, surgiu na linha do horizonte se preparando para pousar. Já tomara o rumo da cabeceira da pista; o piloto, todavia, arremeteu. Para logo fazer algumas piruetas sobre a base. Finalmente após a, se assim podemos chamar, exibição, o pequeno aparelho tocou o solo. Taxiou até um ponto onde estavam diversas pessoas. Entre elas o comandante da base e vários americanos. Apenas coadjuvantes da nossa história que então começa. Pois foi ao colocar os olhos sobre o piloto brasileiro a sair do cockpit do monomotor que a atriz Lana Turner, no vigor de seus vinte e poucos anos, mas já tendo emplacado alguns sucessos, entre eles a versão, com Spencer Tracy, de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2004/o-medico-e-o-monstro-dr-jekyll-and-mr-hyde/">O Médico e o Monstro</a></em>, estremeceu. Até porque o aviador, de fato, era um tremendo boa pinta. De colocar para escanteio qualquer ator americano, inclusive os presentes.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/lana.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1217" title="lana" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/lana.jpg" alt="" width="332" height="400" /></a>Na mesma noite em recepção com orquestra a tudo no cassino da base, o casal dançou. Não até o sol raiar, como muitos outros. É que, num determinado momento em que a lua se escondeu entre as nuvens, tomaram rumo para lugar incerto e não sabido, entre os arbustos que cercavam o prédio.</p>
<p>Daí por diante os acontecimentos se precipitaram. De um lado os brasileiros da base, inclusive o brigadeiro-chefe, acharam o máximo o romance do jovem piloto com a ascendente estrela; já os gringos torceram o nariz. Com o que, de resto, a beldade em nada se importou. E, enquanto seus colegas seguiam para outras bases no norte da África e Europa, ela se mudou para o Grande Hotel, o melhor da cidade, em frente à lateral do lindo Teatro da Paz. Acobertado pelos seus superiores, o brasileiro foi junto. Oficialmente como guia da visitante.</p>
<p>A continuação da história veio através de murmúrios e informações que não seriam difíceis de comprovar. A mais conveniente ao apetite insaciável das fofocas é que a estrela queria, a todo custo, levar o brazuca para Los Angeles. O argumento dele para a recusa teria sido o óbvio: não poderia, simplesmente, dependurar a farda e se mandar, pois seria considerado desertor.</p>
<p>- Terminada a guerra vou – teria prometido.</p>
<p>- Ora – veio a resposta –, depois desta guerra o mundo não será mais o mesmo.</p>
<p>Como na época não havia vôos comerciais entre Belém e os Estados Unidos, Lana embarcou para o Rio, onde teve em sua cola, porém sem resultados, os repórteres da revista <em>O Cruzeiro</em>, entre eles o famoso David Nasser. De lá a beldade se foi a bordo de um avião da PanAm.</p>
<p>Durante muitos anos sequer o nome do piloto/galã nacional se sabia. Porém a saga do breve romance já estava definitivamente inscrita entre os acontecimentos, reais ou romanceados, que permearam a estada dos americanos em Belém nos quentes anos 40.</p>
<p>Quem acabou por descobrir os detalhes finais do empolgante caso foi o professor aposentado da Universidade de Brasília, escritor e pesquisador Eldonor Pimentel, que está prestes a lançar um livro sobre os reflexos, no Brasil, do conflito que rolou entre 1939 e 1945. Ele encontrou o antigo piloto do romance com a estrela morando numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, de onde era oriundo. Ao ser procurado, num primeiro momento não quis falar nada. Porém, na continuação, o brigadeiro-do-ar reformado Orlando de Menezes Martins, do alto dos seus 80 e tantos anos, apenas confirmou os acontecimentos. O pesquisador, todavia, formulou a única pergunta que realmente interessava:</p>
<p>- E o senhor se arrependeu de não ter ido com ela para Los Angeles?</p>
<p>O antigo aviador, em vez de responder, levantou, abriu uma gaveta e tirou foto que entregou ao escritor. Ele olhou e murmurou, ante a imagem da jovem:</p>
<p>- Mas esta não é a Lana Turner.</p>
<p>- Claro que não. Porém é muito mais bonita, não acha?</p>
<p>- De fato, lembra um pouco a Ingrid Bergman do tempo de <em>Casablanca</em>.</p>
<p>- Era minha noiva, me esperava aqui na época da guerra.</p>
<p>Foi então que entrou na sala uma idosa senhora de cabelos brancos azulados e rosto a exibir traços de beleza que o tempo não apagou de todo. Trouxe para o marido chimarrão; para o visitante, café. Ao sair deixou no ambiente o leve aroma de um antigo, muito antigo talco pós-banho. Royal Briar&#8230;</p>
<blockquote><p><em><strong>Sérgio Vaz se intromete</strong></em></p>
<p><em>O texto acima foi, como os demais de Antonio Contente transcritos aqui, originalmente publicado no jornal </em>Correio Popular<em>, de Campinas.</em></p>
<p><em>Mas, ao colocar o post no ar, não consigo me conter: quero dizer duas coisinhas.</em></p>
<p><em>A foto acima é da época de lançamento do filme Slightly Dangerous, de 1943, o ano da aventura brasileira de Lana Turner.</em></p>
<p><em>Contente diz que Lana Turner estava com vinte e poucos anos. É necessário dizer a idade exata da moça: em 1943, estava com exatos 22 aninhos. Por muito pouco, muito pouco mesmo, nosso bravo piloto não teve que responder por corrupção de menores&#8230;</em></p>
<p><em>Só para lembrar: em 1946, apenas três anos depois que nosso piloto atingiu o alvo, Lana Turner apareceria em <a href="http://www.youtube.com/watch?v=WGFer3-Aguw">uma das mais extasiantes, sensacionais seqüências do cinema</a>, aquela no começo de </em>O Destino Bate à Sua Porta/The Postman Always Rings Twice<em>, de Tay Garnett: num botequim quase inteiramente vazio de beira de estrada, rola no chão um batom. A câmara focaliza o chão, acompanha o batom rolando no chão, movimenta-se suavemente para a frente, focaliza os pés, as pernas de uma mulher. Corta, vemos o rosto do único freguês que está no bar – um extasiado John Garfield, a boca aberta de choque. Corta, vemos o rosto da mulher – Lana, na pele da mulher do dono do bar. Está selado um pacto sinistro, um pacto de sangue, vem aí a tragédia. Não há nada mais noir.  </em></p>
<p><em>Não sei quanto de imaginação meu amigo Antonio Contente botou na narrativa do encontro do piloto com Lana Turner. Mas não importa: é uma beleza de texto, o dele. </em> </p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/28/o-dia-em-que-lana-turner-se-apaixonou-por-um-piloto-brasileiro/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O Segredo dos Seus Olhos</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/21/o-segredo-dos-seus-olhos/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/21/o-segredo-dos-seus-olhos/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 21 Feb 2010 18:02:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1125</guid>
		<description><![CDATA[Não vamos falar aqui de futebol, até porque, de futebol, só entendo quando a bola bate na rede, e é gol. Gol sem ponto de exclamação que nem isso sei fazer: exclamar um gol. Vamos falar de cinema, porque neste quesito, sim, podemos elogiar os argentinos sem correr risco de morte. Eles são melhores do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não vamos falar aqui de futebol, até porque, de futebol, só entendo quando a bola bate na rede, e é gol. Gol sem ponto de exclamação que nem isso sei fazer: exclamar um gol.<span id="more-1125"></span></p>
<p>Vamos falar de cinema, porque neste quesito, sim, podemos elogiar <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2003/kamchatka/">os argentinos</a> sem correr risco de morte.</p>
<p>Eles são melhores do que nós, brasileiros, nisto. Para ser mais sincera ainda sobre as minhas ignorâncias (a do gol e essa), antes de escrever a frase anterior fui ler dezenas de artigos sobre o assunto, assinados por experts no assunto. Todos defendem isso. Afinal, eles tinham que ser melhores em alguma coisa&#8230;</p>
<p>Basta dizer que já levaram para casa um Oscar, em 1986, com o filme <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/a-historia-oficial-la-historia-oficial/">A História Oficial</a></em>, do diretor Luis Puenzo. E concorreram outras vezes. Agora, estão lá, de novo e, ainda que não levem (o Oscar é dia 7 de março), marcam presença. Fala-se de seu cinema pelo mundo afora e isso é importante. Vantagem sobre os filmes europeus e americanos?</p>
<p>O deles custou um pouco mais do que US$ 1 milhão, enquanto naqueles se investem US$ 20, 200, 500 milhões&#8230;</p>
<p><em>O Segredo de Seus Olhos</em>, portanto, está lá. E entra em cartaz no Brasil dia 26 de fevereiro. Como eu diria, aqui, de maneira elegante, que você não deve perder esse filme?</p>
<p>Bem, <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2007/nove-rainhas-nueve-reinas/">Ricardo Darín</a>, além de um belo rapaz, com cara (mesmo) de cantor de tango argentino, é o protagonista. Só isto já seria suficiente para levar todas as mulheres que gostam de colírio para a sala de projeção. Fui superficial, eu sei, e talvez até meio machista. Um pouco de bem estar e beleza, entretanto, não fazem mal a ninguém. Para quebrar essa bobagem, vamos dizer que o par constante de Darín – Soledad Villamil – não fica atrás. Pronto. Temos na tela dois deliciosos objetos do desejo, um feminino e um masculino. Atenção: eles estão lá tratando muito pouco de desejo e bastante de morte, justiça e amor.</p>
<p>Morte violenta. Humilhação. Amor de verdade. Temor. Justiça de mentirinha. Medo. Sabor amargo na boca.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/segredo2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1129" title="segredo2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/segredo2.jpg" alt="" width="500" height="300" /></a>Eles se uniram para fazer justiça a uma jovem covardemente estuprada e assassinada por um coleguinha com cara de anjo. Não vou contar o fim, é claro. O filme fala por si. As imagens mostram por si. A dor vem à tona por si.</p>
<p>De repente, no entanto, em várias e deliciosas cenas, o cinema está inteiro rindo, quase às gargalhadas. Você esperava que eu dissesse isso? Nem eu esperava ver isso. A questão é que caí na gargalhada também.</p>
<p>Mérito único e sensacional do diretor Juan José Campanella, o mesmo de <em>O Filho da Noiva</em> e <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2007/clube-da-lua-la-luna-de-avellaneda/">Clube da Lua</a></em>. Ele é o diretor dos detalhes: talvez seja um daqueles que perde um amigo, mas não perde uma piada. Mesmo num filme que trata, inclusive, de um assassinato “perdoado” pela ditadura militar argentina. No caso de <em>O Segredo dos Seus Olhos</em>, parece que Campanella está fixado em portas. Abre, fecha, abre, fecha&#8230; utiliza esse artifício para ridicularizar as reuniões à portas fechadas&#8230; assim é se me parece&#8230; (obrigada, Pirandello). Mas não sei se é mesmo. Parece.</p>
<p>Existem outros detalhes (sérios e engraçados), que nos desafiam e encantam e que cada um de nós irá descobrindo ao assistir o filme, de maneira deliciosa – como se estivesse num jogo.</p>
<p>Bem, para o diabo com a elegância. Não perca esse filme! Deguste, minuto a minuto, suas mais de 2 horas. De puro arrepio. De pura ansiedade. De puro alívio! Aqui, sim, com exclamação.</p>
<blockquote><p><em>Fevereiro de 2010</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/21/o-segredo-dos-seus-olhos/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Um cinéfilo na selva</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/18/um-cinefilo-na-selva/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/18/um-cinefilo-na-selva/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 18 Feb 2010 17:26:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1111</guid>
		<description><![CDATA[O que se fala, aqui na Ilha de Cotijuba, é que com a próxima lua se instala, de vez, a estação das chuvas, o inverno amazônico. Sinais disso há, e estão ali mesmo, nas nuvens escuras que cobrem a Baía de Marajó. Do ponto em que ora me hospedo, posso contar as trovoadas que estão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que se fala, aqui na Ilha de Cotijuba, é que com a próxima lua se instala, de vez, a estação das chuvas, o inverno amazônico. Sinais disso há, e estão ali mesmo, nas nuvens escuras que cobrem a Baía de Marajó. <span id="more-1111"></span>Do ponto em que ora me hospedo, posso contar as trovoadas que estão desabando ao longe, no espaço aberto, e sei que por mais alguns dias elas permanecerão assim, esparsas, para se unirem lá pelo fim do mês. Então o cinza se generalizará, o verde da floresta ficará mais escuro e, em algumas ocasiões, se terá idéia de que, como em Macondo, choverá, ininterruptamente, durante cem dias e cem noites.</p>
<p>Ao contrário de julho, que é o pique do verão, nenhuma andorinha pia no céu. E este clima, esta véspera de estação, começa a atuar em tudo que nos cerca. As calmarias, por exemplo, tão raras na maioria dos meses, agora ocorrem com certa freqüência. Durante horas você não percebe um movimento nas folhas, e olha que o que mais há, aqui, são árvores. De repente, o vento. As águas da baía se ouriçam, as gaivotas param entre a linha da arrebentação e a areia das praias, espalhando-se então, ao largo, as famosas ondinhas baixas que se assemelham a carneirinhos pastando numa planície imensa. Acabam por se perder no horizonte para além, muito além do rumo do mar.</p>
<p>Estou contando isso porque, para mim, há uma constante renovação de encantamentos sempre que estou em alguma ilha na foz do Rio Amazonas. Nesta de onde ora escrevo, apesar de termos uma parte ralamente habitada, na outra, quase deserta, é que vivem os nativos, em geral pescadores. Nas enseadas pequenas, breves, os barquinhos ancoram nos fins de tarde, e há, em volta, casas, umas duas bibocas com uma cervejinha gelada, e mulheres e homens queimados de sol que nos chamam de “parente”.</p>
<p>Confesso, com indisfarçável orgulho, que sou razoavelmente conhecido por aqui. Tenho amigos que sempre me preparam uma caldeirada, ou oferecem um aperitivo. Mas, sobretudo, me contam histórias. Como estas das primeiras noites que antecedem o grande e úmido inverno equatorial.</p>
<p>O velho Miguel Araken, ontem, enfrentou águas brabíssimas na baía.</p>
<p>- O mundo – faz um gesto – parece que ia acabar.</p>
<p>- E o que você fez?</p>
<p>- Segurei o leme e a vela. Segurei para o barco não virar.</p>
<p>- Rezou?</p>
<p>- Não, rezei antes de ir. Na hora do perigo não dá para rezar, pois distrai&#8230;</p>
<p>Curiosamente nunca, jamais, em tempo algum ouvi por aqui as famosas “histórias de pescadores”. Dificilmente um desses homens dimensiona o tamanho do peixe que pescou, e olha que ali mesmo, naquelas areias, já vi piraíbas com algo como 100 quilos.</p>
<p>No que a noite cresce, com parcos ventos, pios de aves noturnas e alguns presságios, percebo, noto pela primeira vez, que raramente vi, na colônia, muitos aparelhos de rádio, ao contrário do que acontece mais para o interior da Amazônia. Tevê nem poderia ter, pois não há energia; as geladeiras são movidas a gás.</p>
<p>Assim, no simples papo ante a escuridão, seguro no braço do velho Miguel Araken e pergunto, num jorro:</p>
<p>- Escuta, alguma vez, na vida, tu já viste cinema?</p>
<p>- Já – ele respondeu, com segurança.</p>
<p>Contive o espanto e fui tateando:</p>
<p>- Já viste mesmo, Araken?</p>
<p>- Já, em Belém.</p>
<p>- E eu pensava que cinema, pra ti, era novidade.</p>
<p>Antes que o pescador, homem com mais de setenta, fosse em frente, corto:</p>
<p>- E o filme? Como foi o filme que viste?</p>
<p>- O filme? Olha, faz tempo, muito tempo, eu era garoto. Só que nunca esqueci. Foi no Cine Olímpia.</p>
<p>- E como era?</p>
<p>- Bem &#8211; ele olha para o alto – foi um negócio muito bonito. Tinha uma mulher, branca, alva, que usava chapéu. E um homem com uma capa, como se fosse a batina de um padre. Mas não era batina preta, era branca.</p>
<p>Nesse instante eu acabara de ser picado pela curiosidade de saber que fita o bom homem assistira.</p>
<p>- OK – murmuro – tinha uma mulher de chapéu e um homem com capa.</p>
<p>- Eles falavam, falavam baixinho num lugar aberto, falavam numa língua que a gente não entendia nada. Em volta deles tinha umas fumaças, como as neblinas que caem de manhã aqui, no inverno, sobre o rio. O homem com a capa falava com a mulher. Ele também usava chapéu. Depois a dona foi embora, num avião.</p>
<p>Rápido, dei um salto do tronco em que estava sentado, sob a copa de um abacateiro. Pois eu acabava de descobrir que o pescador Miguel Araken, solitário habitante de uma das inúmeras ilhas na foz do Rio Amazonas, assistiu, em algum tempo da sua vida, uma das fitas prediletas de dez entre dez cinéfilos, <em>Casablanca</em>. Por Santa Rita do Passa Quatro, o homem das águas, como eu, também sucumbiu aos encantos de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/02/18/um-cinefilo-na-selva/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O Doutor do Baião</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/01/26/o-doutor-do-baiao/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/01/26/o-doutor-do-baiao/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 17:31:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=877</guid>
		<description><![CDATA[Na sala escura, imagens e sons da mais pura música popular brasileira. Fico pensando em como nossa memória cultural mais esquece do que lembra. Na tela assisto à biografia de um importante compositor e letrista que, ao lado de Luiz Gonzaga, fez dançar e cantar a nossa gente. O homem que engarrafava nuvens ou, mais ainda, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na sala escura, imagens e sons da mais pura música popular brasileira. Fico pensando em como nossa memória cultural mais esquece do que lembra. Na tela assisto à biografia de um importante compositor e letrista que, ao lado de Luiz Gonzaga, fez dançar e cantar a nossa gente.<span id="more-877"></span> O homem que engarrafava nuvens ou, mais ainda, que guardava um arco-íris em sua casa.</p>
<p>Humberto Teixeira e o parceiro Lua escreveram peças que emocionaram as multidões sem apelar para o gosto duvidoso. Suas canções eram belas e permanecem belas até hoje. O segredo era que conheciam a alma do povo e a expressavam de maneira lírica e natural, com talento. Nesta era de massificação em que hoje vivemos isso é algo cada vez mais raro. Muitos ainda tentam mas está cada vez mais difícil superar com música de qualidade a voracidade do mercado do fácil e do óbvio.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Humberto.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-880" title="Humberto" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Humberto.jpg" alt="" width="300" height="295" /></a>Devemos à filha de Humberto, a atriz Denise Dummont, a reconstituição da trajetória do cearense de Iguatu que, vindo para o Sudeste do país, foi buscar, junto com seu parceiro, na música do Nordeste, a inspiração para tornar popular um ritmo arrebatador. Eu estava nascendo quando eles gravaram seu primeiro baião. E o gênero foi sucesso em todo o Brasil durante muitos anos. O cearense reclamava, com razão, que os chamados historiadores da música popular ignoram a existência e a importância do que eles criaram: da fase do samba-canção pulam direto para a Bossa Nova, negando ao baião o lugar que ele merece em nossa história musical. Mas certamente não foi por acaso que João Gilberto compôs e gravou em seu primeiro disco a canção “Bim bom”: “é só isso o meu baião e não tem mais nada não, o meu coração só diz assim, bim bom, bim bom, bim bom”.</p>
<p>Ela talvez não ache isso, mas foi bom que Denise custasse a perceber o mérito da obra de seu pai, ela que, quando jovem na zona sul do Rio, gostava naturalmente dos sons que a juventude de seu tempo apreciava.</p>
<p>E foi bom, também, que seu projeto demorasse cerca de oito anos para ficar pronto. Percebe-se que o filme foi amadurecendo enquanto era concretizado.</p>
<p>Do sonho inicial ao planejamento, da imaginação e da idealização à execução; das entrevistas às pesquisas e documentos que iam aparecendo, o perfil paterno foi clareando. É emocionante participar com ela da aventura da filha em busca de entender e acolher o pai. Ela que pouco sabia dele conhece verdades, qualidades e defeitos. Percebe a dimensão do compositor e letrista que ele foi. E põe em foco a música de gigantes.</p>
<p>O painel que ela ajudou a produzir deve ter sido de grande valia para iluminar sua história pessoal. Para mim e meus companheiros de música, foi como testemunhar uma vida muito parecida com a nossa. O filme <em>O homem que engarrafava nuvens</em> é um hino de amor à nossa profissão.</p>
<blockquote><p> <em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Estado de Minas.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/01/26/o-doutor-do-baiao/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cyd Charisse</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/01/20/cyd-charisse/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2010/01/20/cyd-charisse/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 16:48:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=839</guid>
		<description><![CDATA[Este é que é o grande e fascinante paradoxo: agora que a atriz e dançarina Cyd Charisse morreu, a triste notícia não mexe um milímetro com a certeza que sempre tive sobre a sua eternidade. Nem fez muitos filmes, porém todos que rodou foram absolutamente maravilhosos. Até os em que não aparecia como protagonista principal, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este é que é o grande e fascinante paradoxo: agora que a atriz e dançarina Cyd Charisse morreu, a triste notícia não mexe um milímetro com a certeza que sempre tive sobre a sua eternidade. Nem fez muitos filmes, porém todos que rodou foram absolutamente maravilhosos. <span id="more-839"></span>Até os em que não aparecia como protagonista principal, como <em>Festa Brava</em>, de 1947 (no topo vinha Esther Williams). Mas quem esquece da Conchita no memorável número de dança com Ricardo Montalban?</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/cyd0.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-842" title="cyd0" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/cyd0.jpg" alt="" width="600" height="460" /></a>Para mim, nos anos dourados do cinema em que o technicolor da Metro era regido por Natalie Kalmus, nenhuma outra atriz americana que passou diante dos meus pobres olhos foi mais linda do que Cyd Charisse. Morena, alta, de pernas galgas apontadas como as mais perfeitas do mundo de então. Além de tudo, amigos, tal criatura dançava. Quando digo isso assim de forma tão simplória, não dá para dimensionar o que realmente significa o fato de que ela certamente deixaria Terpsícore, apesar da olímpica condição de deusa, com acachapante complexo de inferioridade.</p>
<p>Cyd estourou para a admiração mundial com <em>Cantando na Chuva</em>, clássico musical de 1952. Aí novamente vale a observação que fiz acima: a protagonista não era ela, sim Debbie Reynolds. Porém o único número em que aparece dançando com Gene Kelly foi tão marcadamente espetacular, que a película acabou por ser mais dela do que de qualquer outro ator do fantástico elenco.</p>
<p>Seus dois principais parceiros foram Gene Kelly e Fred Astaire. Contracenou com cada um, estrelando, por duas vezes. O primeiro a conduziu nos braços em <em>A Lenda dos Beijos Perdidos</em> e <em>Dançando nas Nuvens</em>. Com o segundo esteve em <em>A Roda da Fortuna</em> e <em>Meias de Seda</em>.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/cyd2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-843" title="cyd2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/cyd2.jpg" alt="" width="619" height="777" /></a>Ora, amigos, vamos falar a verdade, eu acho que <em>A Lenda</em> foi um filme meio injustiçado, à época em que passou. Mas a história que conta é tão adaptável às circunstâncias das fantasias de qualquer tempo, que acabou por virar clássico. A saga é ambientada em uma cidadezinha das Terras Altas da Escócia chamada Brigadoon (o nome da fita no original). Localidade que só emergia das brumas do tempo de cem em cem anos para que, durante 24 horas, seus moradores fossem tomados por momentos de festas. Pois lá chegam dois caçadores americanos (Gene e Van Johnson) perdidos. Kelly, de cara, se apaixona por Fiona (Cyd), linda habitante do local. Os números musicais são belíssimos, e Brigadoon acaba por ser metáfora atemporal aos mágicos momentos que, de repente, tomam nossas vidas para propiciar decisões e embates.</p>
<p>Com Fred o celulóide inesquecível, pra mim, foi <em>Meias de Seda</em>. Em que tudo é tão bem encaixado que se concluía que Cyd e Astaire haviam nascido um para o outro, caso não fosse verdade que tal situação poderia se desdobrar também quanto a ela e Kelly. Tudo isso com fundo musical de Cole Porter, o que por si só tornaria brilhante lapidado qualquer pedra bruta. A história, refilmagem de <em>Ninotchka</em>, de Ernest Lubitsch, se passa na época da Guerra Fria, com Cyd interpretando a comissária russa Nina Yoeshenko. Ela vai a Paris tentar dissuadir alguns parceiros comunas que se encantavam com o capitalismo, levados pelo personagem de Astaire, o bon vivant empresário americano Steve Caufield. Além da música maravilhosa e dos números de dança de tirar o fôlego, também os diálogos da película são ágeis e espirituosos. Lembro, agora, de um em que Nina se irrita com Steve por causa da apologia que ele fazia do champã e das noitadas cintilantes. Daí pergunta, ríspida, se ele, afinal, estava do lado dos oprimidos ou dos opressores.</p>
<p>- Dos opressores, é claro – vem a resposta.</p>
<p>Exatamente do mesmo jeito que, hoje, responderia o nosso presidente Lula num país em que os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro. E nem sequer temos, para consolar, os encantos dos números de dança de Fred Astaire e Cyd Charisse. Que revejo neste instante a pairar sobre os jardins do Central Park numa linda noite, envolvidos pelos sons dos violinos a tocar “Dancing in The Dark” no <em>Roda da Fortuna</em>. Saudades, amigos, profundas saudades. Apenas amenizadas porque o cinema é, de alguma forma, parceiro do eterno.  </p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi publicada pelo</em> Correio Popular, <em>na época da morte de Cyd Charisse, em 2008.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2010/01/20/cyd-charisse/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Em dois personagens de Gregory Peck, uma lição de vida</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2003/06/12/em-dois-personagens-de-gregory-peck-uma-licao-de-vida/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2003/06/12/em-dois-personagens-de-gregory-peck-uma-licao-de-vida/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2003 23:38:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=861</guid>
		<description><![CDATA[Gregory Peck interpretou muitos personagens dignos, altivos, em sua belíssima carreira. Há o janota que parece covarde de Da Terra Nascem os Homens; o militar determinado de Os Canhões de Navarone; o advogado bom pai, bom marido, mas temeroso, de Círculo do Medo; o jornalista que leva a princesa Audrey Hepburn para o quarto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gregory Peck interpretou muitos personagens dignos, altivos, em sua belíssima carreira. Há o janota que parece covarde de <em>Da Terra Nascem os Homens</em>; o militar determinado de <em>Os Canhões de Navarone</em>; o advogado bom pai, bom marido, mas temeroso, de <em>Círculo</em> <em>do Medo</em>; o jornalista que leva a princesa Audrey Hepburn para o quarto de hotel e não encosta nela porque ela estava bebinha, de <em>A Princesa e o Plebeu</em> – e tantos outros. Mas dois deles, em especial, são extremamente marcantes.<span id="more-861"></span></p>
<p>O Philip Schuyler de <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2000/a-luz-e-para-todos-gentlemens-agreement/">A Luz é para Todos/Gentlemen’s Agreement</a></em>, de Elia Kazan, 1947, e o Atticus Finch de <em>O Sol é para Todos/To Kill a Mockinbird</em>, de Robert Mulligan, 1962,<em> </em>são dois dos  personagens  mais fascinantes que o cinema americano já produziu.</p>
<p>(Os dois filmes estão disponíveis no Brasil em DVD.)</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckkazan.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-864" title="peckkazan" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckkazan.jpg" alt="" width="320" height="310" /></a>São os dois, cada um à sua maneira, o protótipo ideal do ser humano bom, a personificação dos melhores valores que a humanidade já produziu – justiça, honestidade, hombridade, respeito aos outros, em especial os diferentes de você mesmo.</p>
<p>Quando começa <em>A Luz é para Todos</em>, o escritor Philip Schuyler interpretado por <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/homem-do-terno-cinza-the-man-in-the-gray-flannel-suit/">Gregory Peck</a> realmente acredita que vai conseguir, sem cutucar em gigantescas feridas ou criar novas, o seu intento: fazer-se passar por judeu – para depois relatar a experiência, em uma publicação de intelectuais liberais – em uma sociedade intrinsecamente racista. O racismo, a intolerância, a indestrutível divisão de classes sociais distintas, toda a dura e feia realidade vai aparecendo à sua frente, ameaçando a formação humanista que ele dá ao filho, destruindo a admiração que sente pela mulher que escolheu, infernizando seu dia-a-dia. O ator vai dando a seu Philip Schuyler a expressão de dor, desencanto, frustração – mas nela se mescla a cara da determinação, da pura e simples incapacidade de se deixar vencer.</p>
<p>Assim como o nova-iorquino intelectual Philip Schuyler do filme de Kazan, o advogado simples, interiorano, de uma cidadezinha do Sul profundo de <em>O Sol é para Todos</em> é viúvo, e assim carrega sozinho o peso e a responsabilidade de passar aos filhos os valores do bem em meio a uma sociedade degenerada. Atticus Finch é, nas conversas diárias com a filha de uns dez anos e o filho de uns seis, assim uma espécie de David do bem contra todo o Golias de um mundo racista, repressor, que privilegia as aparências e menospreza o conteúdo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckmulligan.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-865" title="peckmulligan" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/peckmulligan.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a>A cena em que Atticus Finch deixa o tribunal no qual defendeu um negro acusado de estuprar uma branca, diante do júri de brancos, é de arrepiar; era mesmo impossível que a Academia não desse o Oscar a Gregory Peck. Os negros das galerias se levantam à sua passagem, e o mais velho e respeitado deles diz para a filha do advogado que não conseguiu obter justiça: “Levante-se; seu pai está passando”.</p>
<p>Gregory Peck emprestou sua altivez a Philip Schuyler, a Atticus Finch, e o cinema ficou maior – assim como ficou um pouco maior a crença de muitos espectadores de que nem tudo está perdido.</p>
<blockquote><p><em><strong>A historinha por trás do texto</strong></em></p>
<p><em> Eu era editor-chefe do portal do jornal O Estado de S. Paulo, o estadao.com.br, quando Gregory Peck morreu, no dia 12 de junho de 2003. Trabalhava feito um condenado, muitas longas horas por dia, e sempre tinha mais umas 37 coisas para fazer a cada momento, mas, depois que demos a notícia da morte do grande ator, consegui a proeza de deixar as outras obrigações de lado para fazer o textinho aí acima – minha humilde homenagem a ele. Fiz na redação mesmo (sempre preferi escrever meus textos em casa, podendo consultar meus livros, meus alfarrábios), no meio do trabalho, as pessoas pedindo orientação para isso e aquilo e aquilo outro, quase de memória, sem muita consulta, pesquisa. </em></p>
<p><em>Pensando bem, acho que eu deveria ter feito mais isso, na vida. Ter escrito mais, em vez de dedicar todo o tempo a melhorar os textos dos outros. </em></p>
<p><em>É um texto pequenininho, sem qualquer importância, mas gosto dele, e quis que ele constasse do site.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2003/06/12/em-dois-personagens-de-gregory-peck-uma-licao-de-vida/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Não, glamour não é para todo mundo</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2000/08/06/nao-glamour-nao-e-para-todo-mundo/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2000/08/06/nao-glamour-nao-e-para-todo-mundo/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 06 Aug 2000 17:23:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://50anosdetextos.com.br/?p=1596</guid>
		<description><![CDATA[Em Repulsa ao Sexo, de 1965, o primeiro filme que dirigiu depois de deixar seu país, a Polônia, o cineasta Roman Polanski teve que fazer um intenso exercício para desglamourizar Catherine Deneuve, então na glória de seus vinte e poucos anos. Carol, o personagem, é uma louca varrida, uma esquizofrênica que vai se distanciando cada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em <em>Repulsa ao Sexo</em>, de 1965, o primeiro filme que dirigiu depois de deixar seu país, a Polônia, o cineasta Roman Polanski teve que fazer um intenso exercício para desglamourizar Catherine Deneuve, então na glória de seus vinte e poucos anos. <span id="more-1596"></span>Carol, o personagem, é uma louca varrida, uma esquizofrênica que vai se distanciando cada vez mais da realidade, aprisionada no universo à parte contido em seu pequeno apartamento, engolfada por um surto brabo.</p>
<p>Mais recentemente, em 1996, Sharon Stone passou por um ritual semelhante de desglamourização para viver, em <em>A Última Chance</em>, a mulher condenada à morte por ter assassinado, com extrema crueldade, um casal, quando era uma adolescente drogada. No auge da fama depois de ter, para o bem do bolso de muito cardiologista, cruzado e descruzado as pernas em <em>Instinto Selvagem</em>, Sharon Stone foi sem dúvida corajosa em se submeter ao trabalho furioso dos maquiadores para conseguir deixá-la com um rosto macilento, sem brilho, sem chama.</p>
<p>São dois exemplos radicais, exagerados, rasgados, para demonstrar que, em alguns casos, é preciso um trabalho danado para criar a falta de glamour. Da mesma maneira com que seria um trabalho imenso tentar criar glamour onde faltam as condições básicas para a existência dele.</p>
<p>Louisa Young que perdoe, mas glamour não é para todos, e não se aprende em nenhum tipo de escola.</p>
<p>Porque o glamour, afinal, é o resultado da combinação de um conjunto de atributos com os quais o Criador, ou a natureza, ou a vida não brindou a todos indistintamente; ao contrário, foi – ou foram todos – extremamente parcimonioso. Um conjunto de atributos. Beleza, é claro, dádiva rara, tão rara quanto a inteligência. Mais charme, elegância, sensualidade, esses dons difusos, complexos, multifacetados, difíceis de definir mas facilmente identificáveis, mesmo à distância. Mais uma pitada certa, exata, de luxo, de adorno, de complementos. Mais atmosfera, momento, inclinação, vontade.</p>
<p>Marilyn Monroe, enfim – se se quiser simplificar em uma única imagem.</p>
<p>Nunca Norma Jean, a garota pobre, problemática, carente, sequer bonita. Só a mulher mais madura, a partir da emblemática foto da folhinha, sobre o fortíssimo vermelho brilhante do fundo, que logo iria aí sim virar Marilyn, quanto mais exuberante melhor.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1657" title="marilyn2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn2.jpg" alt="" width="541" height="300" /></a>Até os dicionários, em geral tão sóbrios, sucintos, ao mesmo tempo se esparramam e se espantam para definir o termo. “Qualidade excitante e charmosa de algo não usual e especial, com um poder mágico de atração; atração pessoal forte que excita admiração, em especial beleza excitante sexualmente” – o Dictionary of English Language and Culture da Longman recorre a diversos adjetivos para tentar a definição certa do substantivo.</p>
<p>Na sua edição especial de 60º aniversário, a revista <em>Life</em>, que atravessou boa parte do século tentando incutir breves instantes de glamour na vida das famílias americanas, trouxe a histórica foto de Rita Hayworth em négligé, feita por Bob Landry em 1941, ao lado de um texto soberbo: “O glamour, que é muito diferente da beleza, é uma invenção moderna; não existia na arte antes do advento da fotografia. E fotos de pinups são a quintessência do glamour, uma espécie de propaganda em que beleza e celebridade se combinam para criar um ideal cujo apelo fundamental é uma promessa que jamais poderá ser cumprida.”</p>
<p>A própria expressão pinup é coisa recente; está lá no <em>Aurélio</em> como “representação da mulher e, eventualmente, do homem, em pose erótica, utilizada em impressos, como calendários, cartazes, etc”, mas o verbete omite a origem do termo, que não é nada glamourosa, embora tenha charme: pin é alfinete; pinup passou a ser o objeto que se pendura com alfinete no armário ou na parede, basicamente a foto da mulher bonita e famosa.</p>
<p>O mesmo texto da <em>Life</em> sobre Rita Hayworth, “a Mona Lisa das pinups”, dizia que a famosa foto “prometia a mesma experiência compartilhada para um número infinito de observadores”. E concluía: “Mas para cada um dos milhares de milhares de soldados americanos que carregaram essa imagem para a guerra, em bolsos e malas, em tanques e aviões, a foto era sua e apenas sua, um lembrete maravilhoso do motivo pelo qual ele estava lutando”.</p>
<p>O texto da <em>Life</em> de fato tem glamour. Se a gente pensar, no entanto, em foto pendurada no armário, soldado, adolescente, <em>American Pie</em>, borracharia, aí o glamour da quintessência do glamour vai para o brejo.</p>
<p>O glamour é coisa rara e pode virar pó com muita facilidade.</p>
<p>Na verdade, o glamour não é nada extremamente objetivo. Muito ao contrário. Um exemplo: entre tantas mulheres glamourosas que o cinema descobriu para expor ao mundo, a inglesa Deborah Kerr seguramente não estaria entre os primeiros 20 ou 30 nomes que viriam à cabeça dos mais fanáticos cinéfilos. Grande atriz, excepcional atriz, sem dúvida alguma, mas não propriamente um expoente de glamour. No entanto, é exatamente com ela a cena inesquecível, antológica, histórica, sensualíssima do beijo na praia de <em>A um Passo da Eternidade</em> – um dos grandes marcos do cinema de Hollywood rumo à quebra das regras da antes rigorosa censura.</p>
<p>No sentido inverso, tome-se o exemplo de Demi Moore, um dos maiores sex symbols dos anos 90, a mulher por quem o personagem de Robert Redford paga um milhão de dólares em <em>Proposta Indecente</em>, a estrela de <em>Striptease</em>, que mostra a barriga grávida em capa de revista (décadas depois de Leila Diniz) e tira a roupa até mesmo em programa de entrevista na TV, o Jô Soares deles. Há quem ache o máximo. Mas também há quem ache aquilo tudo um amontoado desagradável de cirurgias plásticas e muita malhação.</p>
<p>E são muitos os que insistem em descrever Grace Kelly como uma loura gelada. Ela, que não era fria nem como a quaker careta de <em>Matar ou Morrer</em>, e que fez até o impassível Cary Grant suar em <em>Ladrão de Casaca</em> ao perguntar: “Você quer peito ou coxa?”</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1658" title="marilyn3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/marilyn3.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a>E há também as que se confundem quanto à quantidade de adornos. Há uma dose certa; se passar dela, deixa chapado – como bebida, ou doce desandado. Marilyn era glamour puro de jeans e camisa branca de homem em <em>Os Desajustados</em>, seu último filme (ela não chegaria a terminar <em>Something’s Got to Give</em>, no qual aparecia saindo de uma piscina – é das filmagens dessa obra inacabada a foto que está na capa desta edição do maga.zine). Assim como a Liz Taylor dos anos 50, uma das mais extraordinariamente belas visões do século. Depois de Richard Burton e muita birita, no entanto, ela passou a exagerar nas cores e nos adereços; perdeu o glamour, chegou perto de virar brega. Quase como – de novo que Louisa Young perdoe – a Joan Collins dos últimos anos.</p>
<p>Até porque a verdade dos fatos é que a TV é um meio que sempre tenta ser glamourosa como o cinema, e volta e meia tudo o que consegue é tropeçar na breguice.</p>
<p>Para a imensa maioria dos mortais a quem não foi concedida a graça rara do glamour, pode, eventualmente, servir de consolo ou lição de vida a lembrança de que tudo isso – beleza, charme, elegância, sensualidade, luxo – às vezes não vale coisa alguma. Os pouquíssimos que têm tudo isso muitas vezes querem outras coisas.</p>
<p> Aquela mesma edição da <em>Life</em> trazia uma frase exemplar de Rita, a mulher aquinhoada pela fortuna com uma quantidade everestiana de glamour:</p>
<p>“Sou uma atriz. Tenho profundidade. Tenho sentimentos. Mas eles não ligam. Tudo o que eles querem é uma imagem.”</p>
<p>Marilyn, todos sabemos, é a eterna lembrança disso.</p>
<blockquote><p><strong> <em>A historinha por trás do texto</em></strong></p>
<p><em>O texto acima foi publicado em agosto de 2000, no portal estadao.com.br.</em></p>
<p><em>Em 2000, o portal estadao.com.br tinha uma revista semanal, com textos sobre cinema, música, moda, comportamento, assuntos culturais em geral – uma coisa amena, distante do noticiário do dia-a-dia, das hard news. O portal na época era editado pela Agência Estado, onde eu trabalhava. A revista, que ia ao ar nos fins de semana, chamava-se maga.zine, e era editada por Lúcia Carneiro, que cuidava com talento e paciência tanto dos textos quanto da diagramação, do design. Algumas vezes ela me encomendou uns textinhos. </em></p>
<p><em>Uma das matérias que ela editou era sobre um livro, ou um artigo, já não me lembro mais, de uma tal de Louisa Young, a respeito de glamour. A tese da moça era de que todo mundo pode ter glamour. E a Lúcia me encomendou um texto auxiliar, secundário, para sair junto com a matéria sobre o livro ou o artigo de Louisa Young. O resultado foi o texto que está aí acima.  </em></p>
<p><em>Lúcia Carneiro publicou várias belas reportagens, muitíssimo bem diagramadas e ilustradas, no mega.zine do estadao.com.br. Todo o trabalho dela, me parece, se perdeu. Por alguma incompetência do povo da técnica, da informática, do Grupo Estado, grande parte do que se produziu no portal simplesmente desapareceu da internet, segundo me contou, chocado, Edmundo Leite, um jornalista de grande talento, que trabalha no portal do Estadão praticamente desde que ele existe. </em></p>
<p><em>Coisa de louco – como é possível tanta incompetência?</em></p>
<p><em>São Paulo, abril de 2010 </em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://50anosdetextos.com.br/2000/08/06/nao-glamour-nao-e-para-todo-mundo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
