Arquivos do Rótulo: Cinema

Cinta de ligas e meias de vidro

Lifeboat é um filme à deriva no mar da II Guerra. Filmou-o Hitchcock num bote onde meteu nove vidas sem destino. O caos tomou conta do oceano e no salva-vidas, no início, só está uma mulher madura e bela, cabelo, maquilhagem e jóias irrepreensíveis, casaco de arminho, esplêndidas meias de vidro. Tão certo como ser um filme de Hitchcock, uma delicada cinta de ligas mantém essas meias esticadas para que, sem dobras nem refegos, bem torneiem a bela perna. Ler Mais »

Dalí era virgem

Com excepção da mão que num sonho se lhe enxameou de formigas, Salvador Dalí era virgem. Já o ateu Luis Buñuel, que num sonho desatou a cortar olhos humanos com uma lâmina, nem dos dedos do pé era casto, como bem se vê em L’Age d’Or. Ler Mais »

Tomai e comei

Que coisa exprime hoje as nossas esperanças ou o nosso mal-estar? Que filmes, livros ou canções? Os filmes de Pedro Costa, de Malick ou o Fast and Furious 8? Ler Mais »

A starlet

Gosto de starlets. Negá-las, seria negar a minha adolescência. E o cinema precisou tanto delas. O que seria de Botticelli sem Vénus, essa starlet do Olimpo? Peço desculpa aos mais fundamentalíssimos cinéfilos, mas de vez em quando faz-me falta um fim-de-semana com Elke Sommer.

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Não lhes posso dar murros

A nostalgia da mãe. Tal como John Ford, em cuja boca nunca entrou e ainda menos saiu a palavra “nostalgia”, mas que tinha nostalgia de tudo, o japonês Kenji Mizoguchi reclama a nostalgia da mãe. Ler Mais »

Um irretocável desejo de Primavera

A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Ler Mais »

Warren Beatty travou

Gosto do erro. Warren Beatty travou. Daqui a 20 anos, destes Oscars, lembrar-nos-emos apenas disto: Beatty travou. Ia lançado como uma velha Zundap nas ruas de Luanda da minha infância e – como é que é, mano? – travou. Ler Mais »

A roçar-se pelo delírio

Aí estão eles, embrulhados na mesma cama: Kennedy, o pai de todos os Kennedys, e Gloria Swanson, a maior diva dos anos 20. Kennedy despachou o marido da Swanson para um dia de pesca no alto mar e mandou Rosa, sua mulher, ter o oitavo filho em Boston, longe de Hollywood. Livres, foi uma cama diária de três anos e não lhes chegava: levaram os lençóis para o cinema. Ler Mais »

As mãos de um católico

Sei lá se Joseph P. Kennedy gostava de cinema. Sei que nos filmes em que nós vemos sonho, ele viu ouro. Estou a falar do Kennedy pai dos Kennedys e o cinema, 1927, é o mudo dos estúdios de Hollywood dirigidos por judeus, que vendiam roupa em feiras do Relógio, da Rússia à Hungria, antes de desembarcarem na abençoada América. Ler Mais »

O papa apóstata

Só há um papa, Anthony Quinn. O cinema não é só melhor do que a vida, o cinema antecipa a vida. Em As Sandálias do Pescador, filme da minha infância, Quinn fundia a bondade de João XXIII com o intervencionismo de João Paulo II e com o generoso desassombro de Francisco. Quinn era um bispo libertado de um gulag soviético. Chega a papa e salva a humanidade de uma guerra nuclear. Ler Mais »

Fujam para Samarra!

Por onde anda a morte? Disfarçada no capachinho de Trump, na rasteira solidez de Putin? Que morte rumina na paz de cemitério da geringonça? A morte será ainda a velha morte, a senhora de branco que, contou ele, uma noite visitou Álvaro Cunhal e logo foi embora? Ou anda por aí a nova morte, a saltitar em discursos de género, em tiroteios niilistas? Será fracturante a nova morte? Ler Mais »

Hollywood jamais agradou aos conservadores

Simpatizantes de Donald Trump – os que admitem abertamente, e também os mais envergonhados – vão seguramente dizer, como já começaram a dizer tão logo foi encerrada a 89ª festa de entrega dos Oscars, na madrugada desta segunda-feira, que Hollywood resolveu fazer discursos, comícios, em vez de show, e por isso deu aquele vexame histórico, nunca visto antes. Ler Mais »

As duas noites de um sonhador

Foi em 1973, em Lis­boa, onde vim estu­dar Direito, catorze anos depois de ter sido adop­tado por uma África que já só exis­tia em Hollywood e nas nos­sas ton­tas e amo­ro­sas cabe­ças colo­ni­ais. Ler Mais »

Ela cospe-lhe!

Eu já vi Michelle Pfeiffer lavar os dentes. Al Pacino também. Tanta intimidade requer uma confissão: lembro que tentei encavalitar-me na cadeira da primeira fila com a mesma encantada displicência com que ele se encostava à porta da casa de banho dela. Ler Mais »

Xé, minino

Ouvimos a palavra “ilha” e sacamos logo da pistola que dispara a velha pergunta: “O que levavas para uma ilha deserta?”. Como se as toneladas de areia e solidão de uma ilha, as palmeiras que o vento finta, pudessem ser humanizadas pela bagagem de livros ou filmes, um disco, o ocioso tabuleiro de xadrez do náufrago metafísico. E Trump? Levaria Melania? Feito Robinson Crusoé, sozinho e a água de coco, Trump deixaria entrar na ilha um Sexta-Feira refugiado? Ler Mais »