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	<title>50 Anos de Textos &#187; Artigos</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>O Brasil sem voz</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 14:19:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Existem dois Brasis convivendo: o da fantasia virtual, retratado por uma boa parte da imprensa e pelas chamadas redes sociais, e o real, aquele onde as pessoas vivem de verdade. No mundo da fantasia, impõe-se aquele que faz mais barulho. Se você perder um dia navegando pelas redes sociais ou fazendo pesquisas temáticas no Google, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existem dois Brasis convivendo: o da fantasia virtual, retratado por uma boa parte da imprensa e pelas chamadas redes sociais, e o real, aquele onde as pessoas vivem de verdade.<span id="more-6346"></span></p>
<p>No mundo da fantasia, impõe-se aquele que faz mais barulho. Se você perder um dia navegando pelas redes sociais ou fazendo pesquisas temáticas no Google, vai achar que estamos às vésperas da queda da Bastilha ou da tomada do Palácio de Inverno.</p>
<p>Se uma simples manifestação contra o prefeito de São Paulo é convocada por uma lista assinada por 106 entidades (ao que parece, a manifestação não conseguiu reunir nem um representante de cada uma delas), e considerando que cada uma delas deve ter um site, é porque a revolução social está às portas.  Já chegamos ao estágio mais avançado da guerra de posições de Gramsci e a hegemonia ideológica sobre os aparelhos de Estado já foi alcançada.</p>
<p>Agora é só calar os adversários do outro mundo possível e partir para o abraço, jogar a camisa para a torcida e comemorar a vitória.</p>
<p>O diabo é que o Brasil real, aquele que está fora dos holofotes e dos megafones, que não tem tempo de esbravejar, que trabalha e cuida da sobrevivência da família, está ali, quieto, e só se manifesta quando é consultado.</p>
<p>E quando é consultado dá pontapés na lógica politicamente correta e bem pensante, para desespero dos “maîtres-à-penser” que têm nojinho dessa pobre gente que ainda não leu Pierre Bourdieu e sequer sabe que é alienada e instrumento da burguesia.</p>
<p>Pois a hecatombe social da retomada da Cracolândia é aprovada por 82% das pessoas. Esse mesmo povinho desagradável é contra o aborto, a a favor da diminuição da maioridade penal, quer maior rigor contra o crime e um monte de outras barbaridades. E quando é entrevistado pelo Datafolha ,47% deles se dizem de direita.</p>
<p>Mas votam num governo que se diz de esquerda. Vá entender.</p>
<p>Mas eles votam em Lula e Dilma, que são pessoas e não programas partidários, e elegem 88 deputados federais do PT num universo de 5l3, o que dá 17,1% do total. Há um evidente descolamento entre o petismo e o lulismo e seus derivados.</p>
<p>Não é à-toa que Gilberto Carvalho, o coroinha das boas causas, quer criar mídias específicas para a classe C, a tal da classe emergente, para disputar com as igrejas evangélicas o controle de suas mentes. Veja bem: não se trata de persuadir, trata-se de controlar. ”O governo não pode ter ciúme das clientelas que não batem mais às suas portas”, disse o filósofo.</p>
<p>E por clientelas ele quis dizer isso mesmo: clientelas.E quando ele fala governo, pensa partido, porque essas duas entidades, para certo tipo de pensamento, são a mesma coisa.</p>
<p>Na quilométrica defasagem que existe entre o país virtual e o país real há um abismo onde os partidos ditos de oposição se atiram alegremente dia após dias, como naquele penhasco de onde saltam os intrépidos banhistas de Acapulco. Só que os banhistas mergulham, nadam e voltam. A oposição, não, ela se afoga, porque nessa água não sabe como nadar.</p>
<p>À esquerda há os partidos de esquerda, com suas fantasias e seus sonhos hegemônicos; à direita não há nada, sequer um partido decente, e a grande massa da representação politica se concentra no enxame de partidos amorfos e fisiológicos cujo único princípio é o poder pelo poder para poder tirar proveito do poder.</p>
<p>Resultado: mais da metade do Brasil não tem quem fale por ela.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 3/2/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Guerra no país da boquinha</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 17:33:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Com 22 mil cargos de confiança, o governo brasileiro é recordista absoluto em um ranking nefasto que só neste ano vai custar mais de R$ 200 bilhões. Ganha de lavada dos oito mil cargos dos Estados Unidos e dos quatro mil da França. E, garantidamente, o Estado nacional não funciona melhor do que o da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com 22 mil cargos de confiança, o governo brasileiro é recordista absoluto em um ranking nefasto que só neste ano vai custar mais de R$ 200 bilhões. Ganha de lavada dos oito mil cargos dos Estados Unidos e dos quatro mil da França. E, garantidamente, o Estado nacional não funciona melhor do que o da Inglaterra, com apenas 300 servidores comissionados.<span id="more-6297"></span></p>
<p>Eficazes para atrair apoios e garantir fidelidade cega a governantes, cargos públicos sempre foram disputados a tapas. Neles, políticos tentam encaixar suas turmas, de olho no pleito seguinte.</p>
<p>Se essa é a regra, a guerra por cargos entre o PT, o PMDB e os mais de 10 partidos do consórcio que elegeu Dilma Rousseff não deveria causar estranheza. Ao contrário, seria legítima. E os combatentes &#8211; conhecedores dos telhados de vidro dos integrantes da aliança – não precisariam usar e abusar do fogo amigo.</p>
<p>Seria nobre se o fizessem para limpar o Estado de maus servidores. Mas querem apenas abocanhar maiores nacos. Aproveitam-se da fragilidade dos quadros, onde é difícil fisgar alguém com ficha limpa, e abrem fogo.</p>
<p>A meia dúzia de ministros detonados por suspeita de corrupção, todos de partidos aliados, conhece bem a artilharia. Sabe ainda que quando o ministro é do PT, mesmo que as balas venham do próprio PT, Dilma arma a blindagem, como no caso de Fernando Pimentel, sangrado pelos petistas de Minas, e mantido longe da arena de luta.</p>
<p>Não raro, a proteção temporária ou definitiva é feita colocando-se na bandeja a cabeça de subalternos. Foi assim com o Dnit, antes da queda de Alfredo Nascimento, e agora, com a substituição no Dnocs, preservando Fernando Bezerra e seus inexplicáveis privilégios a Petrolina, seu curral eleitoral. Caiu também o chefe de gabinete do Ministério das Cidades, pasta em que Mario Negromonte, que nem o PP quer mais, ainda se sustenta.</p>
<p>Sem reforma ministerial à vista, a batalha agora é pelas estatais, Petrobras à frente. A divisão do bolo é tão difícil que para incluir um petista a mais – o ex-presidente do partido, José Eduardo Dutra – decidiu-se pela criação de uma nova diretoria. A Petrobras, terceira maior empresa de energia do mundo, funcionou até hoje sem uma diretoria coorporativa e não parece que lhe faça alguma falta. Mas, no país da boquinha, isso pouco importa.</p>
<p>Pouco importa também se os recém-nomeados para o segundo escalão dos ministérios da Saúde, da Agricultura ou de Minas e Energia entendem alguma coisa do riscado. O que vale é a partilha, a satisfação dos donos de cada uma das sesmarias que, como sanguessugas, chupam tudo até a última gota. E o contribuinte paga a conta.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 29/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Os pássaros de David Lynch</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 20:17:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Vivemos tempos de Bosch. Entra-se num comboio, num avião e os gemidos vêm das próprias cadeiras. As ruas gritam, os restaurantes sussurram. A realidade está a hiperventilar. Um amigo meu foi a Bruxelas. Ou pode ter sido a Cannes, ao G-20. Cheirava bem, a maçãs, a flores secas, mas de repente levantou os olhos e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vivemos tempos de Bosch. Entra-se num comboio, num avião e os gemidos vêm das próprias cadeiras. As ruas gritam, os restaurantes sussurram. A realidade está a hiperventilar.<span id="more-6285"></span></p>
<p>Um amigo meu foi a Bruxelas. Ou pode ter sido a Cannes, ao G-20. Cheirava bem, a maçãs, a flores secas, mas de repente levantou os olhos e viu-se num tempo de Bosch. Era “Cristo Carregando a Cruz”, o quadro em que mais hediondos são os rostos humanos. De tal maneira que o Filho do Homem caminha de olhos fechados. A multidão que o esmaga é uma orgia de crueldade, bocas torcidas, narizes inflados pela soberba, caras suinamente crispadas pela avareza. Cheirava a maçãs, disse o meu amigo, e o egoísmo era brutal.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzbosch2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6291" title="zzbosch2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzbosch2.jpg" alt="" width="800" height="738" /></a>O pintor flamengo viveu o estertor de um mundo. A prodigiosa arquitectura teocrática – de inferno e paraíso, pecado, culpa e morte – estava a dar as últimas. Talvez não se visse, mas o mistério instilava-se na Natureza e roçava-se pela carne. Bosch não pintava com as mãos e ainda menos o que os olhos lhe davam a ver. Bosch pintava com a mente. Pintava o caos e a irracionalidade: um cavaleiro a nascer do rabo de uma sereia, uma mulher pútrida com casca de árvore segurando nos dedos-raízes uma enfaixada criança. Pintou nas “Tentações” um músico com cabeça de porco, exemplo do bizarro bestiário em que fundiu homem, bicho e vegetal.</p>
<p>Vejo um auto-retrato de Bosch e começo a ter alguma confiança na reincarnação: poderia ser o pai, o avô de David Lynch. A Idade Média era propícia a mistérios. Pois é. David Lynch é o único cineasta medieval de que há memória: é ainda teológico e escolástico. Bosch era brumoso. David Lynch, para começar, estreou-se com a névoa industrial de <em>Eraserhead</em>. Mesmo em <em>Mullholand Drive</em> pinta a Califórnia com as oníricas brumas dos recorrentes pesadelos dele e de Naomi Watts.</p>
<p>Faço questão de não usar a palavra surreal. Vivemos um tempo de Bosch e Lynch anda já a filmá-lo há alguns anos. Uma ninhada de cachorros mama sofregamente a cadela sua mãe na sala de estar da namorada do rapaz de <em>Eraserhead</em>, mais depressa se faria uma festinha a Angela Merkel do que às repugnantes costas do herói proboscídeo de <em>Elephant Man</em> e há, em <em>Blue Velvet</em>, uma ominosa orelha humana com que os insectos se deliciam no relvado de uma small town americana.</p>
<p>Não se chame fantasia ao que é a livre expressão de uma violenta irracionalidade. Veja-se <em>Blue Velvet</em>. Primeiro a nudez masoquista, depois os dois mortos (orelhas cortadas, trapo de veludo a sair-lhes da boca) na sala da escravizada Isabela Rossellini, oferecem, como as “Tentações de Santo António” ou os “Sete Pecados Capitais”, um mundo hipersexualizado, mais grávido de maldade do que mãe de Hitler. Pássaros estranhos poisam-nos na janela com apavorados insectos no bico: vivemos um tempo de Lynch.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português </em><a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><em>O Expresso</em></strong></a><em>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.</em></p></blockquote>
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		<title>Tragédia de erros</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 15:55:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, foi a materialização da mais completa tragédia de erros ocorrida nos últimos tempos. Em diversas frentes: 1) O governo estadual seguiu a ordem judicial, como lhe cabia fazer, sem tomar o devido cuidado prévio de criar as mínimas condições materiais e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, foi a materialização da mais completa tragédia de erros ocorrida nos últimos tempos. Em diversas frentes:<span id="more-6279"></span></p>
<p>1) O governo estadual seguiu a ordem judicial, como lhe cabia fazer, sem tomar o devido cuidado prévio de criar as mínimas condições materiais e humanas para acolher os desabrigados e proporcionar-lhes condições decentes de sobrevivência. A Prefeitura Municipal de São José dos Campos divide com o governo estadual o troféu de omissão e incompetência.</p>
<p>2) O governo federal, através do seu coroinha das boas causas, o ministro Gilberto Carvalho, correu a criticar a ação da reintegração de posse, dizendo que teria sido melhor agir de outra forma, sem dizer qual seria essa outra forma (desobedeceria a ordem judicial?). Mais uma vez, como ocorreu no episódio da Cracolândia, insinuou que o governo federal teria uma solução pacífica e boa para todos, guardada em alguma gaveta. Não disse qual seria a solução e muito menos porque ela não saiu da gaveta para ser posta na mesa.</p>
<p>3) A imprensa, desde o primeiro momento, não foi sequer capaz de noticiar com precisão e muito menos de esclarecer o que significava o conflito de jurisdição entre a Justiça federal e a Justiça estadual em torno da ação de reintegração de posse. Nos primeiros momentos da ação policial na área ocupada, a impressão que se tinha era a de que a PM estava descumprindo a ordem da Justiça federal e agindo arbitrariamente por decisão própria. Além de não conseguir sequer acompanhar cronologicamente a sucessão de ordens e contra ordens da Justiça, a imprensa foi incapaz de contextualizar a própria situação do Pinheirinho, de explicar qual é a origem da posse da área, como foi que o megaespeculador Naji Nahas se tornou seu dono, de quem a comprou, quando e como a comprou , o que é uma massa falida, quais são os direitos de uma massa falida, qual é o valor da área, de como se deu a ocupação da área por aquelas pessoas, quais foram as tentativas de acordo entre as partes envolvidas durante os oito anos de ocupação. A imprensa tampouco foi capaz de dimensionar o verdadeiro papel do líder do acampamento, o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, Valdir Martins de Souza, o Marrom, militante do PSTU, na história do conflito e nas frustradas tentativas de acordo.</p>
<p>4) As chamadas “redes sociais” contribuíram notavelmente para a infantilização do debate sobre a ação de reintegração de posse, dando livre curso a um debate ideológico obscurantista e a um constrangedor festival de desinformação, com alguns lances patéticos de má-fé e ignorância factual sobre princípios básicos que regem a ordem jurídica do País. Para uma boa parte da simplória militância ideológica de esquerda, tratou-se simplesmente de uma maldade do governador tucano, que tomou a terra dos pobres para entregá-la de volta ao ricaço Naji Nahas, que , evidentemente, deve tê-la roubado de alguém. Na cabeça da torcida instalada na arquibancada ideológica, uma ação tão truculenta só poderia produzir vítimas. Na falta de um massacre concreto, inventou-se um, e um advogado dos invasores, falando em nome da OAB, desandou a denunciar mortes que não aconteceram. E a agência oficial de notícias do governo, irresponsavelmente, espalhou a notícia pelo país, sem dar-se ao trabalho de checar se era verdadeira ou não. No dia seguinte foi só publicar: o advogado fulano de tal não confirmou as mortes que ele divulgou ontem. Vida que segue, como se nada tivesse acontecido.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 27/1/2012.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O Iraque é aqui</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 15:15:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Como diz o grupo paulistano Premeditando o Breque, “aqui não tem terremoto, aqui não tem revolução”. Ainda assim, 49.932 pessoas foram vítimas de homicídios em apenas um ano no Brasil, 192.804 nos últimos quatro anos. Quase o triplo da guerra do Iraque, 5,3 vezes mais do que os registros do México, país que há anos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como diz o grupo paulistano Premeditando o Breque, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=E-2gEnJ9nkk">“aqui não tem terremoto, aqui não tem revolução”</a>. Ainda assim, 49.932 pessoas foram vítimas de homicídios em apenas um ano no Brasil, 192.804 nos últimos quatro anos.<span id="more-6232"></span> Quase o triplo da guerra do Iraque, 5,3 vezes mais do que os registros do México, país que há anos vive uma guerra civil originária da luta pelo controle do tráfico de drogas, armas e até de gente.</p>
<p>Os dados estão no <a href="http://www.sangari.com/mapadaviolencia/">Mapa da Violência 2012</a>, do Instituto Sangari, que analisa os índices da violência brasileira nos últimos 30 anos. Os números são de deixar os cabelos em pé.</p>
<p>Se São Paulo e Rio de Janeiro estão hoje entre os melhores na lista em que já foram os piores há 10 anos, ver a linda Maceió ter 109 assassinatos por 100 mil habitantes em um só ano é de arrepiar. Ou Salvador, que com 2,4 milhões de habitantes contabiliza 1.484 homicídios no ano, número absoluto superior aos 1.460 de São Paulo, com 10,4 milhões de residentes. A maior cidade do país conseguiu, em uma década, obter a melhor posição entre as 27 capitais.</p>
<p>O Rio também fez bonito. Em 2000, a cidade maravilhosa era a 6ª na lista. Hoje está em 23º, quinta melhor colocação.</p>
<p>Na linha inversa, entre os estados, a Bahia saiu da 23ª posição para a 7ª, o Pará da 21ª para a 3ª, a Paraíba da 20ª para a 6ª, e Alagoas da 11ª posição para a liderança desse ranking macabro. Pior: a maior parte dos que morrem a tiros, facadas e porretes, são jovens entre 15 e 24 anos.</p>
<p>O mapa deveria ser baliza para o poder público, mas ficou longe disso. Rio e São Paulo comemoraram. O governo Dilma Rousseff ficou mudo.</p>
<p>Para o Planalto, o silêncio tem lógica. As regiões Norte e Nordeste, onde a presidente tem aprovação quase unânime, foram as que explodiram em violência. E não há explicações aceitáveis para quem está há nove anos no poder.</p>
<p>Segurança Pública é um imbróglio para Dilma. A mesma pesquisa Ibope que lhe conferiu recordes mostra que 60% condenam a ação de seu governo na área.</p>
<p>Ainda assim, Dilma se deu ao luxo de usar apenas 7,7% do prometido no Sistema Único de Segurança Pública, R$ 48 milhões dos R$ 620 milhões. Outro programa, o Pronasci, caiu de R$ 2 bilhões para R$ 600 milhões. Para completar, suspendeu a elaboração do plano nacional para a redução de homicídios, anunciado, no início de 2011, pelo ministro José Eduardo Cardozo.</p>
<p>“É um país abençoado onde todo mundo mete a mão”, prossegue o bem humorado Premê. Somada à inoperância, talvez essa seja uma das explicações para que o Brasil, a 6ª economia do mundo, ainda exiba indicadores tão trágicos que nem as nações em guerra conseguem.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 21/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Nara Tropicália</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 03:09:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[É muito por causa de Nara que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu. Ao anunciá-lo, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É muito por causa de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/nara-e-elis/">Nara</a> que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu.<span id="more-6224"></span></p>
<p>Ao anunciá-lo, o site da empresa dizia tratar-se de uma homenagem &#8220;ao movimento encabeçado por Caetano Veloso e Tom Zé&#8221;. Nomes de outras canções minhas estavam sugeridos para praças internas. Será que os compradores de apartamentos gostariam de viver num lugar que se vende como homenagem sabendo que o(s) homenageados(s) não quer(em) que suas obras nomeiem o empreendimento?</p>
<p>Homenagem é a que a Escola de Samba Águia de Ouro, de São Paulo, vai prestar ao movimento tropicalista. Para isso tomo um avião e vou a Sampa juntar-me a Rita Lee. Os organizadores, ao expor seu enredo, mostraram conhecimento do que significa a Tropicália.</p>
<p>Mas um condomínio fechado, como parte do modo desregulado como vem se dando o crescimento da Cidade do Salvador, não condiz com nosso trabalho: nem o meu, nem o de Tom Zé, nem o de Gil, nem o de Rita, nem o dos irmãos Baptista, nem o de Duprat &#8211; nem o de Nara.</p>
<p>É natural que quase todos pensem em Nara como a musa da bossa nova e a pioneira da música participante: ela foi principalmente isso. Mas quero falar da Nara tropicalista. Bem, se ela é sempre retratada como uma moça tímida, um tropicalista ressaltaria antes sua personalidade determinada, seu desassombro em perguntar pela verdade crua das coisas, sua pesquisa permanente sobre a liberdade.</p>
<p>Três cenas representam Nara para mim. A primeira (nunca entendida corretamente pelo objeto da discussão): Nara me pergunta se eu concordo com amigos seus que, ao ouvirem Jorge Mautner falar em bomba atômica, contestam que &#8220;esse assunto não tem nada a ver com a realidade brasileira&#8221;, o que explicaria que Mautner fosse tido por eles como alienado.</p>
<p>A pergunta era feita por Nara como um pedido de socorro de sua inteligência franca, trazia o desconforto com o modo de pensar vigente nos meios em que andávamos. Ela não aceitava o veredicto e estava pescando argumentos para se posicionar responsavelmente.</p>
<p>A segunda cena suponho que esteja em &#8220;Verdade tropical&#8221;. Caía a audiência do &#8220;Fino da bossa&#8221; e subia a da Jovem Guarda. Paulinho Machado de Carvalho, dono da TV Record, marca reunião com Elis, Vandré, Simonal, Gil e Nara para buscar uma solução.</p>
<p>Gil pede que eu o acompanhe. Paulinho admite, mas não tenho voz, só posso ouvir.</p>
<p>Ouço. Vandré se arrepia e enche os olhos de lágrimas na defesa da cultura nacional contra o pop americanizado.Os outros, com bem menor veemência, repetem o discurso. Nara cala.</p>
<p>Paulinho pergunta:&#8221; E você Nara, não vai dizer nada? &#8221; Nara dirigi-se exclusivamente a ele: &#8221; Paulinho, você é o dono da emissora, eu sou contratada, canto nos shows para que for escalada. Só peço que, se for possível, não me escale num programa em que esteja Elis Regina: ela disse numa revista que eu não sou cantora&#8221;.</p>
<p>A terceira ressurgiu em minha cabeça anteontem à noite, ao ouvir Criolo dizer a Marília Gabriela o quão grande é sua admiração por Ney Matogrosso: numa minifesta na casa de Guilherme Araújo, Nara se aproxima de mim e propõe que saiamos, ela, Ney e eu: ela nutria fascinada curiosidade a respeito dele e queria ter uma aproximação sincera.</p>
<p>Saímos. Conversamos e muita coisa se revelou para ela. Sem sombra de obscenidade ou cafajestice, Ney, Nara e eu aprendemos muito sobre nós mesmos e sobre as complexidades da vida. Ela não teve nenhuma hesitação ao nos convidar a sair daquela casa, nem um milímetro de preocupação pelo que os outros poderiam pensar.</p>
<p>Nara não era tímida. Com sua voz trêmula e pura, com seu violão aplicado, ela foi uma grande artista, uma grande investida brasileira na modernidade. O mesmo impulso que a levou a perguntar sobre o Brasil e a bomba, a desmascarar a farsa do dono da estação de TV, a sair de uma festa pequena com dois colegas esquisitos, a fez ter a ideia de encomendar uma canção sobre um quadro de Rubem Gerschaman.</p>
<p>Assombrada com a passeata contra as guitarras elétricas (o segundo ato da comédia da TV Record para resolver problemas de Ibope), ela viu ali uma marcha integralista, protofascista. E assim me disse. Num dia 25 de dezembro, ela me contou que, na véspera, estando sozinha na cozinha de sua casa, sentiu-se invadida de súbita e intensíssima felicidade: &#8220;Será motivo para preocupação ou comemoração?&#8221;, ela perguntou.</p>
<p>&#8220;Bem, foi um feliz Natal&#8221;, concluiu com um sorriso preocupado. Pouco depois apresentou sintomas mais sérios. Ela tinha algo de poeta. Tudo o que há de corajoso, livre, luminoso no tropicalismo é como o espírito de Nara Leão. Não posso trair sua memória: tenho que pedir à Odebrecht que retire o nome que batizou algo em que ela esteve envolvida de um projeto que representa, no limite, a ameaça de encher a Ilha dos Frades de prédios altos.</p>
<p>Copacabana (onde Nara cresceu) livrou-se da sombra sobre a areia com um aterro feito nos anos 70; Recife sofre ainda desse mal; Salvador, que teria tudo para ser uma joia, deve ao menos poder manter suas praias ao sol.</p>
<p>Nara era uma praia ao sol. Franca, livre. Por causa dela, não posso fazer por menos. &#8220;Tropicália&#8217; não deve se confundir com o seu oposto. A morte prematura de Nara lançou uma sobra em minha vida; sua lembrança mantém o sol no meio do céu.</p>
<blockquote><p><em>(*) Transcrevo aqui o artigo de Caetano Veloso para </em>O Globo<em> deste domingo, 22/1/2012, sem a devida autorização do autor. Fiz isso pouquíssimas vezes na vida: tenho o maior respeito pelos direitos autorais. Mas creio que Caetano não se oporia à republicação aqui de seu texto brilhante. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Boxe com luvas de pelica</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 16:16:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
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		<description><![CDATA[Engana-se quem pensa que a juíza Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, tenha recolhido as armas. As evidências de irregularidades no Judiciário não param de aparecer. Além das movimentações “atípicas” detectadas pelo COAF em contas bancárias de milhares de juízes e funcionários do Judiciário, as evidências de corporativismo e favorecimento não param de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Engana-se quem pensa que a juíza Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, tenha recolhido as armas.<span id="more-6201"></span></p>
<p>As evidências de irregularidades no Judiciário não param de aparecer. Além das movimentações “atípicas” detectadas pelo COAF em contas bancárias de milhares de juízes e funcionários do Judiciário, as evidências de corporativismo e favorecimento não param de aparecer.</p>
<p>Juizes recebem dinheiro para consertar coberturas inundadas, outros para pagar dividas pessoais, outros para pagar a moradia mesmo morando nas cidades onde trabalham.</p>
<p>Não há como negar: abriu-se um rombo no casco da credibilidade do Judiciário.</p>
<p>As escaramuças entre a juíza Eliana e o estamento corporativo dos magistrados estão em recesso como a Justiça, mas tudo indica que voltarão vigorosas quando o plenário do STF julgar o mérito das liminares concedidas por Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, que na prática sustaram as investigações conduzidas pelo CNJ sobre irregularidades no Judiciário.</p>
<p>Mas, afinal, trata-se da saga heróica de uma juíza destemida contra privilégios e desmandos de um poder, ou de um surto de abuso de autoridade exercido inconstitucionalmente por alguém que não tem poderes para isso?</p>
<p>Boa discussão.</p>
<p>Uma coisa é certa: a juíza Eliana incomoda. Num recente “Roda Viva”, o ministro Marco Aurélio Mello mal conseguiu disfarçar seu desconforto com o que ele chamou de “concentração ilimitada de poderes” que a corregedora estaria conferindo ao CNJ. Chegou a compará-la a um xerife.</p>
<p>Como acontece com quase todos os problemas político-institucionais do País, a origem de tudo parece estar na ambiguidade do texto da emenda constitucional que definiu as atribuições do CNJ. Num país onde quase todos os conflitos são resolvidos numa espécie de conciliação “por cima”, os legisladores formularam uma lei que não desagradasse nem gregos nem troianos.</p>
<p>Na época em que a emenda constitucional que criou o CNJ foi aprovada, falava-se na necessidade de um “controle externo do Judiciário”.</p>
<p>Mas a ouvidos mais sensíveis, isso soava como uma espécie de agressão ao Judiciário, e era importante que a lei, afinal, não o afrontasse nem ferisse suscetibilidades. O CNJ então é um órgão de controle externo mas não é. Tem autonomia mas não tem.</p>
<p>A investigação sobre irregularidades administrativas continuou sendo atribuição das corregedorias dos tribunais de Justiça mas o CNJ pode dar seu pitaco se desconfiar que as corregedorias, como diz Marco Aurélio Mello, estão “procrastinando”.</p>
<p>A dra. Eliana, ao contrário do estamento oficial da Magistratura, não acha que o CNJ esteja indo além de suas atribuições constitucionais e sustenta que a constatação de movimentações “atípicas” de dinheiro na conta bancária de juízes e funcionários do Judiciário pelo COAF não configura quebra de sigilo bancário, mesmo porque nenhum nome foi divulgado.</p>
<p>Ela diz, por exemplo, que as corregedorias não cumprem as suas funções e nem sequer investigam desembargadores. O CNJ faz, então, o que as corregedorias deveriam fazer mas não fazem.</p>
<p>O ministro Marco Aurélio disse na TV que se for para o CNJ fazer as vezes das 90 corregedorias, então seria melhor fechá-las.</p>
<p>Quando lhe perguntaram se ele achava que a dra. Eliana estava exorbitando de suas funções, o ministro usou de seu mais refinado espírito eufemístico: “Não acho que ela esteja exorbitando. Ela apenas potencializou o objetivo em detrimento do meio”.</p>
<p>No conflito da Justiça, há golpes de boxe de verdade, mas as luvas são de pelica. E na boca do ringue, a massa torce para que no fim da luta o árbitro levante o braço da dra. Eliana.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 20/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>A tragédia nossa de cada ano</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 16:28:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
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		<description><![CDATA[Entra ano, sai ano, janeiro é sempre igual: chuvas torrenciais desabrigam, soterram e matam gente. Não deveriam causar qualquer surpresa, muito menos pegar governos de calças curtas. A cantilena dos políticos para minimizar o problema também se repete. Em sobrevôos e visitas aos locais afetados – quando dá, com uma ou outra pose para as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entra ano, sai ano, janeiro é sempre igual: chuvas torrenciais desabrigam, soterram e matam gente. Não deveriam causar qualquer surpresa, muito menos pegar governos de calças curtas.<span id="more-6169"></span></p>
<p>A cantilena dos políticos para minimizar o problema também se repete. Em sobrevôos e visitas aos locais afetados – quando dá, com uma ou outra pose para as câmeras – governantes, de todos os matizes partidários, prometem investimentos substanciais que nunca chegam. Unânimes ao falarem de ações preventivas, abandonam a maioria delas antes mesmo de as águas de março encerrarem o verão.</p>
<p>Um ano depois da maior tragédia “natural” do país, que resultou na morte de mais de 900 pessoas e outras quase 10 mil lançadas ao desabrigo na região serrana do Rio de Janeiro, pouco ou quase nada foi feito.</p>
<p>Mal e mal os recursos emergenciais para, literalmente, tirar pessoas da lama aportaram em seus destinos. A regra geral é macabra: dinheiro para socorro rápido atrasa e, quanto chega, não raro acaba desviado. Não se sabe, por exemplo, onde foram parar os R$ 2,9 milhões liberados para Nova Friburgo, registrados em uma falsa nota de compra de material hospitalar.</p>
<p>Prevenção, então, nem pensar. Algumas das áreas da serra fluminense atingidas no ano passado receberam sirenes. Elas soam alto para avisar pessoas que não têm para onde ir que têm de sair correndo sabe-se lá para onde. Nenhuma das cinco mil casas prometidas para quem teve tudo destruído ficou pronta. Sem saída, volta-se para a área de risco, reocupa-se a construção ameaçada e reza-se para que a sirene não toque.</p>
<p>Embora prevenir seja mais barato e eficaz – até porque poupa vidas – entra governo, sai governo, a escolha é sempre agir depois que a chuva despenca, e com ela, casas, estradas e pessoas. Pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) mostra que, entre 2006 e 2011, o governo federal gastou R$ 6,3 bilhões para, na correria e a fundo perdido, socorrer regiões dizimadas. E apenas R$ 745 milhões em ações preventivas.</p>
<p>Ou seja, não se trata de ter ou não recursos, mas de competência. De querer ou não aplicá-los.</p>
<p>Obra de prevenção não é emergencial; exige licitação e controle. Prefere-se abrir os cofres só depois dos temporais, repetindo-se assim o descaminho dos recursos. Será diferente com os R$ 75 milhões liberados agora pela União para que se possa adquirir – em regime de urgência &#8211; o mínimo para sobreviver: comida, remédios, combustíveis?</p>
<p>Como se vê, ainda que beire o absurdo, governos insistem em remediar a prevenir. Raios que nos partam, passa da hora de o eleitor dar o troco.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 15/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Deus ou é uma aranha ou é a Audrey Hepburn</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Jan 2012 19:32:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
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		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Deus é a pintada prova da vaidade humana. Os gregos inventaram deuses, os bantus deram à luz Nzambi e os esquimós afogaram no Árctico uma deusa gélida. Os australianos têm desculpa: quem inventa o boomerang não precisa de inventar raio e trovão de mais coisa nenhuma. Os nossos dinossáuricos avós inventaram deuses para a guerra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Deus é a pintada prova da vaidade humana. Os gregos inventaram deuses, os bantus deram à luz Nzambi e os esquimós afogaram no Árctico uma deusa gélida. Os australianos têm desculpa: quem inventa o boomerang não precisa de inventar raio e trovão de mais coisa nenhuma.<span id="more-6152"></span></p>
<p>Os nossos dinossáuricos avós inventaram deuses para a guerra e o amor, comércio e oceanos. Um avô judeu achou que devia fundir essa multidão celeste num só Deus que pode e sabe tudo, está em todo o lado e, por estranho que pareça sabendo-se que saiu de cabeça humana, é infinitamente bom.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzalways.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6153" title="zzalways" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzalways.jpg" alt="" width="1200" height="814" /></a>Orgulhoso com tão perfeita invenção, o homem não resistiu à vaidade de transformar a coisa criada em Criador. Por não saber donde vinha, o homem fez-se filho dos deuses que inventara. Como se Deus fosse um Botticelli ou Michelangelo e nós saíssemos das Suas mãos feitos Vénus (sim no caso da brasileira Bündchen) ou David (errado no meu portuguesíssimo caso).</p>
<p>Tão pura vaidade arranjou uma valente carga de trabalhos. Sobretudo a Deus. Para satisfazer a vaidade de termos um Pai dono do Universo, abandonámos Deus à solidão da transcendência, à eterna chatice de motor imóvel. Coitado de Deus, tão sozinho, tão conceptual, sempre um milésimo de segundo atrás do Big Bang!</p>
<p>Esse Deus – ouço-o gemer de angústia – está nos filmes do sueco Bergman. É uma presença muito parecida com o frio que nos passa pela espinha: rosto histérico, corpo psicótico. O vermelho, cor de <em>Lágrimas e Suspiros</em>, é um reflexo da glória imutável e incompreensível desse Deus dos fiordes. Em <em>Através do Espelho</em>, <em>Luz de Inverno</em> e <em>O Silêncio</em>, Bergman pintou-o austero, devorado por um mutismo rígido e incolor, extremando o que o dinamarquês Dreyer preparara em <em>A Palavra</em> e <em>O Dia da Ira</em>.</p>
<p>Os filmes luteranos de Bergman figuram Deus como uma aranha. Nos filmes do católico Pasolini (católico da heterodoxia marxista que dispensa baptismo mas não o acto de contrição), Deus passa de aranha a Terence Stamp. No <em>Teorema</em>, que se devia mostrar nas aulas de matemática, Stamp instala-se numa casa de família e, num processo a que nos tempos da revolução angolana se chamaria de engajamento sexual, traça, um a um, os membros da família, da criada ao pai, passando pela mãe, filho e filha. Com estilo e metafísica, não poupando gerações nem classes, Pasolini filmou a carne a vencer, com vantagem e êxtase, o espírito.</p>
<p>Agarrados à mãezinha (e a Freud), os americanos nunca aceitariam a ambígua polivalência pasoliniana. Por ninguém ser pau para toda obra, Bob Fosse e Spielberg fizeram de Deus uma mulher. Mulher com apetites e merecedora de apetites em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2011/o-show-deve-continuar-all-that-jazz/">All That Jazz</a></em>. Diáfana e gentil no <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/alem-da-eternidade-always/">Always</a></em> de Spielberg. Se, como Spielberg sugere, Deus se parece com Audrey Hepburn, palpita-me que a teologia voltará a ser uma disciplina popular.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzall.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-6154" title="zzall" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzall.png" alt="" width="700" height="386" /></a></p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português </em><a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><em>O Expresso</em></strong></a><em>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.</em></p></blockquote>
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		<title>Escândalos, paixões e correrias</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jan 2012 16:27:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Estavam os habitantes da Cracolândia de São Paulo (que odeio chamar de “nóias”, uma palavra que tem acento pejorativo de gíria vulgar) postos em sossego em seu torpor de zumbis, quando chegou uma tropa da PM e os colocou pra correr. Escândalos, paixões e correrias, como alardeava uma velha canção de João Bosco e Aldir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estavam os habitantes da Cracolândia de São Paulo (que odeio chamar de “nóias”, uma palavra que tem acento pejorativo de gíria vulgar) postos em sossego em seu torpor de zumbis, quando chegou uma tropa da PM e os colocou pra correr.<span id="more-6147"></span></p>
<p>Escândalos, paixões e correrias, como alardeava uma velha canção de João Bosco e Aldir Blanc, popular nos anos 70.</p>
<p>Imediatamente colocou-se em pauta não uma discussão racional sobre o destino das desafortunadas criaturas e as consequências da ocupação do espaço público, mas exatamente a primeira rodada antecipada do campeonato eleitoral municipal, que irá se desenvolver em outubro deste ano em São Paulo.</p>
<p>Eles estão lá há 15 anos, e fora um sobressalto ou outro, parece que ninguém se preocupava muito com eles &#8211; com exceção, é claro, daqueles que eram obrigados por contingências pessoais a dividir e disputar o espaço com eles ou aqueles que, por razões profissionais tentavam, em silêncio e anonimamente, salvar os viciados de si mesmos.</p>
<p>Com a ação policial ,aconteceu aquilo que costuma acontecer quando a TV acende seus holofotes em direção a uma torcida de futebol, que passa da apatia total ao entusiasmo enlouquecido assim que a luz os ilumina e a câmera começa a registrar sua súbita e descontrolada euforia.</p>
<p>A luz acordou pelotões de políticos, jornalistas, especialistas, direito-humanistas, promotores, juristas, padres, pastores, sacerdotes, urbanistas, ativistas de toda espécie, cada qual com sua receita pronta para resolver o problema.</p>
<p>O Ministério Público, que até então jazia em santa indiferença diante da ação dos traficantes da Cracolândia, anunciou que vai investigar a ação da polícia, pois a considera precipitada, uma vez que foi deflagrada um mês antes da inauguração de um centro de apoio que está sendo construído pela prefeitura perto do local.</p>
<p>Sem esse centro de apoio, a ação policial de dispersar os viciados e dificultar a vida dos traficantes não faria sentido.</p>
<p>Talvez não fizesse de fato se a ação fosse apenas policial. O MP ignora, ou prefere fingir que ignora, que a Prefeitura tem 1.200 leitos psiquiátricos disponíveis para tratamento e que 150 agentes comunitários da Secretaria Municipal de Saúde trabalham, alternadamente, todos os dias da semana, inclusive aos feriados, junto aos dependentes químicos da região.</p>
<p>Uma entrevista do coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, dizendo que a privação de drogas causa ao viciado “dor e sofrimento” , e que isso o levaria a pedir ajuda, foi usada para batizar pejorativamente a açao da polícia de Operação Dor e Sofrimento. Um nome que caiu do céu.</p>
<p>Os humanistas profissionais correram a gritar contra a ação “higienista” , e estão pouco se lixando se a procura dos dependentes por ajuda dobrou desde o desencadeamento da operação.</p>
<p>Eles não estão interessados na sorte dos zumbis da Cracolândia. Estão mais interessados em fazer praça de sua sociologia progressista e em industrializar seus bons sentimentos.</p>
<p>Uma chaga aberta e sangrando rende mais demagogia e demagogia rende mais votos.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 13/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Dentaduras eleitorais</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 17:31:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Duas cenas antagônicas – uma de punição e outra de ostensiva cara de pau – inauguraram 2012. De um lado, o TSE negou liminar ao prefeito de Ribeira do Piauí, Jorge de Araújo da Costa (PTB), cassado em outubro sob acusação de compra de votos. De outro, a descarada compra de votos em curso no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Duas cenas antagônicas – uma de punição e outra de ostensiva cara de pau – inauguraram 2012. De um lado, o TSE negou liminar ao prefeito de Ribeira do Piauí, Jorge de Araújo da Costa (PTB), cassado em outubro sob acusação de compra de votos. De outro, a descarada compra de votos em curso no estado de Pernambuco, sob o patrocínio do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra (PSB).<span id="more-6131"></span></p>
<p>A história de Araújo Costa e de seu vice, Justino João da Costa, dá vida à folclórica troca de votos por dentaduras. Além do presente aos desdentados, teriam usado cestas básicas para obter a preferência dos eleitores do município, situado a 380 quilômetros de Teresina. De acordo com o último Censo do IBGE, Ribeira abriga 4.263 habitantes, a maioria na miséria quase absoluta.</p>
<p>O rolo de Fernando Bezerra é mais elaborado. Mereceria punição antecipada.</p>
<p>Além do delito de aplicar 90% dos recursos reservados para a prevenção de danos com enchentes no seu estado natal, onde pretende ser candidato a governador em 2014, Bezerra teve o desplante de dizer que o fazia porque Pernambuco não poderia ser “discriminado” por ser a terra do ministro.</p>
<p>Substituiu privilégio por discriminação e pronto.</p>
<p>Não bastasse a desfaçatez da explicação que nada explica, Bezerra foi pego com a mão na botija de novo: em uma manobra na surdina, tentou transferir recursos da transposição do Rio São Francisco – obra abandonada e que exigirá pelo menos mais R$ 1,6 bi para ser concluída &#8211; para a barragem de Serro Azul, também em Pernambuco.</p>
<p>E não parou por aí. O Ministério, por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), presidida por Clementino de Souza Coelho, irmão do ministro, destinou para Petrolina quase 23 mil das 60 mil cisternas de plástico que comprou para todo o semiárido.</p>
<p>Bezerra foi por três vezes prefeito da cidade, e um de seus filhos, o deputado Fernando Bezerra Coelho, é candidato ao cargo nas eleições de outubro.</p>
<p>Petrolina precisa de cisternas, mas não está no topo da lista, lugar que pertence a cidades da Bahia, do Ceará e de Minas. Pelo menos é o que diz o Plano Brasil sem Miséria, menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff. Ainda assim, as baianas Juazeiro e Bom Jesus da Lapa vão receber só 11 mil cisternas, menos da metade das do berço político do ministro.</p>
<p>Pelo que se sabe, Bezerra não chegou a distribuir dentaduras. Mas, assim como o prefeito da paupérrima Ribeira do Piauí, explora a miséria em benefício próprio. Seus dentes mordem nacos de dinheiro público para o seu curral eleitoral. Aos eleitores caberá lhe permitir ou não o sorriso</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 8/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>O cineasta em fuga</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jan 2012 01:27:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Toda a arte é bicéfala: já vi, em muitos filmes, aparecer a cabeça do autor e rolar depois, no ecrã, outra cabeça, a da própria obra. Em Outubro de 1986, no aeroporto de Lisboa, vi pela primeira vez aparecer a cabeça de Michelangelo Antonioni. Pareceu-me ver, na elegante serenidade da cabeça dele, a cabeça dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda a arte é bicéfala: já vi, em muitos filmes, aparecer a cabeça do autor e rolar depois, no ecrã, outra cabeça, a da própria obra.<span id="more-6122"></span></p>
<p>Em Outubro de 1986, no aeroporto de Lisboa, vi pela primeira vez aparecer a cabeça de Michelangelo Antonioni. Pareceu-me ver, na elegante serenidade da cabeça dele, a cabeça dos seus filmes.</p>
<p>Mesmo cercado pela simpatia de Luis de Pina e João Bérnard, Antonioni, cujo ciclo na Cinemateca organizei, parecia o menos exuberante dos nossos convidados.</p>
<p>Os seus filmes, a começar pela célebre trilogia de silêncio angustiante em que até a paisagem tem crises existenciais, são filmes sobre a incomunicabilidade e a solidão.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzantonioni.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6125" title="because neuer schnitt_0001" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzantonioni.jpg" alt="" width="805" height="516" /></a>Por­que razão um homem de beleza adriática, discretamente hedónico, muito atraente para as mulheres, faria filmes tão misteriosamente escassos e rarefeitos?</p>
<p>Adiante. No fim de semana, levámos Antonioni a visitar a euforia arquitectónica do Palácio da Pena. Antonioni regalou-se com o exterior e seguiu para a visita guiada do interior. Éramos cinco ou seis e permiti-me ficar cá fora a fumar o meu cigarro imaginário.</p>
<p>O guia fechou a porta e eu desandei a pensar que a obscena verdura do Outono em Sintra mais depressa pedia um cineasta irlandês do que um italiano de Ferrara: em que deboche é que a natureza tinha passado o Verão para que agora montanhas e vales desabrochassem assim? Era o que pensava quando, sobre a minha perplexa cabeça, se abriu uma janela do Palácio e dela irrompe uma perna coberta pelo melhor corte italiano, a perna de Antonioni. A altura era razoável e a firme decisão dele para saltar pedia ajuda. Dei-lha e o cineasta aterrou são e salvo.</p>
<p>O que se passou, o que não se passou, e Antonioni conta-nos que fechar-se atrás dele a porta lhe evocara um trauma terrível. Durante a Guerra, a militância política tornara-o um alvo para os nazis que controlavam Itália. Escapou escondendo-se numa cave. Ficou três meses entre quatro paredes, incomunicável. Nunca mais pudera ouvir fechar-se uma porta atrás de si.</p>
<p>É a memória desse medo que está em L’Avventura, L’Eclisse e La Notte? É a cabeça de Antonioni fechada numa cave o que vemos no olhar de Monica Vitti e Jeanne Moreau, no desterro arquitectónico dos filmes a que se chamou a “trilogia dos sentimentos”?</p>
<p>À noite, ao jantar dado pelo embaixador de Itália, veio também Manoel de Oliveira. Com a graça brejeira que a idade autoriza, Oliveira contou uma anedota, Antonioni respondeu com outra. E durante uma hora contou as mais impensáveis barzelette, sofisticadas, a roçar o obsceno, de carabiniere e maridos traídos. Vimos outra cabeça de Antonioni, a que nunca ele deixou aparecer em nenhum dos seus filmes.</p>
<p>(Não disse. No palácio, a minha linda mulher, claustrófoba impenitente, saltou logo a seguir. Se era rapto, acabou logo ali.)</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português </em><a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><em><span style="color: #333333;">O Expresso</span></em></strong></a><em>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>O país das pessoas incomuns</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jan 2012 00:33:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[O Brasil é um país estranho. Sérgio Buarque escreveu que o brasileiro é um homem cordial &#8211; no sentido de que age mais com o coração do que com a razão &#8211; e logo leram que o brasileiro é uma pessoa gentil, lhana, de fino trato, que é o significado mais corriqueiro e coloquial da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Brasil é um país estranho.</p>
<p>Sérgio Buarque escreveu que o brasileiro é um homem cordial &#8211; no sentido de que age mais com o coração do que com a razão &#8211; e logo leram que o brasileiro é uma pessoa gentil, lhana, de fino trato, que é o significado mais corriqueiro e coloquial da cordialidade.<span id="more-6117"></span></p>
<p>Não era esse, naturalmente, o significado que Sérgio Buarque queria dar ao seu “homem cordial”.</p>
<p>Na semana passada, escrevi algumas observações no Twitter a respeito das declarações do novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Ricardo Garisio Sartori , sobre as férias de dois meses que a lei concede aos juízes.</p>
<p>O desembargador, para defender a lei, disse que “o legislador sempre tem uma razão” e que provavelmente ao dar dois meses de férias aos juízes estava pensando em preservar “a sanidade mental” deles.</p>
<p>No meu comentário eu disse estranhar que num país que de repente se descobriu tão entusiasmado defensor do igualitarismo, ainda existissem defesas tão enfáticas de privilégios de castas e classes especiais.</p>
<p>Todos são iguais perante a lei, reza o artigo V da Constituição, mas Orwell já advertia que alguns são mais iguais que os outros. E olha que Orwell falava da sua revolução dos bichos, não das peculiaridades da “igualdade” brasileira.</p>
<p>Algum motivo deve haver para que a sanidade mental dos juízes seja mais importante que a sanidade mental dos outros mortais, como os açougueiros, os artistas de cinema, os médicos, os engenheiros, os professores, os jornalistas, os pipoqueiros e todo o resto da atribulada humanidade.</p>
<p>Deve haver também um motivo especial para que eles ganhem mais do que os outros, para que tenham licenças-prêmio de 3 meses a cada 5 anos de trabalho, para que ocupem os prédios mais suntuosos de um país onde 11 mihões de pessoas moram em favelas, barracos, palafitas ou outros buracos, para que recebam auxilio-moradia mesmo trabalhando na cidade onde moram, para que tenham tantos carros ou tantos funcionários à disposição, ou para que estejam a salvo das investigações do Conselho Nacional de Justiça, que afinal foi criado, em última instância, para evitar que abusassem do poder.</p>
<p>Evidente que no Twitter não há nem espaço para enumerar as últimas e polêmicas discussões que envolveram a instituição do Judiciário, deflagradas, por sinal, interna corporis, pela jurista Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça.</p>
<p>Limitei-me a comentar a estranha noção de igualdade que impera em certos círculos num País tão faminto de igualitarismo.</p>
<p>Recebi uma resposta de um interlocutor que contestou o meu comentário dizendo que eu fazia parte “da classe média ressentida”. Não era um interlocutor qualquer, desses que passam o dia disparando interjeições ou espalhando sabedoria pelo Twitter.</p>
<p>Era um juiz federal titular de uma Vara do Amazonas, professor, pós graduado, ex-Procurador Federal e ex-Advogado da União.</p>
<p>Cordialmente, defendia seus privilégios e os de sua classe, pairando olimpicamente acima do plebeu ressentimento da classe média, que não consegue alcançar, em sua espessa e mesquinha ignorância, a necessidade de que alguns sejam mais iguais do que os outros perante a lei.</p>
<p>Descobrimos, afinal, que os juízes, assim como alguns senadores, são pessoas incomuns.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 6/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>O novo ano velho</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 20:35:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Pode ser má vontade ou rabugice mesmo. Mas tudo indica que o novo ano que estréia hoje começa velho, caduco. Pelo menos na política, onde mudanças só devem ocorrer para deixar tudo o mais igual possível. Tanto no governo quanto na oposição. A reforma ministerial, alardeada sempre que um titular era abatido, está enterrada de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pode ser má vontade ou rabugice mesmo. Mas tudo indica que o novo ano que estréia hoje começa velho, caduco. Pelo menos na política, onde mudanças só devem ocorrer para deixar tudo o mais igual possível. Tanto no governo quanto na oposição.<span id="more-6106"></span></p>
<p>A reforma ministerial, alardeada sempre que um titular era abatido, está enterrada de vez. As trocas de comando serão pontuais e manterão intocadas as searas dos partidos que compõem a base. Ainda que o equilíbrio dos acertos feitos em 2010 tenha se mostrado um tanto precário, Lula continuará primeiro e único mentor e avalista da mais ampla coalizão que um governo já teve.</p>
<p>Dilma Rousseff, que chegou a acalentar a ideia de uma reestruturação mais profunda em seu governo, perdeu o elã. Colheu o recorde de ter seis ministros afastados por suspeitas de corrupção – todos indicados por Lula &#8211; e outro por incontinência verbal, mas não teve saída: continuará nomeando quem o seu padrinho quer. Aloizio Mercadante na Educação é só mais um.</p>
<p>Também sob suspeição, o ministro do Desenvolvimento &#8211; único, entre os 39, tido como da cota pessoal da presidente &#8211; está quase na lona. As festas não serão suficientes para fazer esquecer as consultorias sem contrato e as palestras fantasmas de Fernando Pimentel, que entra em 2012 tão ou mais desgastado, já que não conseguiu produzir uma única explicação plausível.</p>
<p>A oposição, que até ensaiou mostrar a que veio nos últimos meses do ano, também não parece mobilizada o suficiente para produzir qualquer tipo de mudança. Os tucanos batem o pé que têm hoje uma nova agenda, mas não conseguem convencer nem a si próprios. Continuam mesmo é batendo os bicos, entoando a mesma cantilena que opõe serristas e aecistas. O DEM, desidratado, até quer dar o troco, mas faltam-lhe forças.</p>
<p>Fato novo, o PSD de Gilberto Kassab é mais uma prova de que o novo pode nascer velho. Ficou grande e deve continuar a crescer. E pretende fazê-lo a partir da pregação de seu líder: nem à esquerda, nem à direita, nem ao centro.</p>
<p>Do Senado, a certeza de que tudo continuará como sempre chega a assustar. Ali, José Sarney (PMDB-AP), entre umas e outras, encerrou o ano pagando por uma reforma administrativa que nunca existiu. Fez o que sempre fez e continuará a fazer. E, embora ausente na posse do senador Jader Barbalho (PMDB-PA) no apagar de 2011, estará lá, em fevereiro, para presidir a sessão em que o ficha suja que o STF limpou promete sua reestréia.</p>
<p>Cena simbólica de um ano que nada tem de novo. Que nasce velho, sem ter aprendido as boas lições da velhice. Que insiste em manter os mesmos vícios de estímulo à velhacaria.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 1º/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Um fim de semana com Godard</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2011 19:03:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Havia sangue no asfalto e cadáveres espalhados pela berma, junto ao mato europeu. Sangue e cadáveres desfilavam a 24 imagens por segundo num cine-esplanada do Lobito. Ao contrário do Miramar, debruçado sobre a fingida Guanabara que é a baía de Luanda, o Flamingo virava as costas ao mar para que os espectadores se concentrassem na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Havia sangue no asfalto e cadáveres espalhados pela berma, junto ao mato europeu. Sangue e cadáveres desfilavam a 24 imagens por segundo num cine-esplanada do Lobito.<span id="more-6088"></span> Ao contrário do Miramar, debruçado sobre a fingida Guanabara que é a baía de Luanda, o Flamingo virava as costas ao mar para que os espectadores se concentrassem na tela. O filme, <em>Weekend</em> de Godard, projectava-se no escuro de África, o tutelar Cruzeiro do Sul a preguiçar altíssimo, num céu que os espectadores ignoravam.</p>
<p>Foi, depois do meu inaugural <em>Pierrot le fou</em>, o segundo filme que vi dele. <em>Weekend</em> era de 67, o último filme normal antes do autor entrar nos seus “anos Mao” furiosamente militantes e palestinos. Nesse ano, 1975 digo agora, andava também eu em êxtase revolucionário e independentista. Perdidos no cosmos, como diria Godard, Unita e MPLA preparavam os dias e noites de facas longas em que se iriam trucidar fraternal e impiedosamente. Porventura mais Truffaut do que Godard, já eu acreditava que o sexo e a poesia eram as coisas mais importantes da vida. Bem entendido, só depois da revolução que, a meu ver, conjugava os dois e não negava nenhum. A ver se me desculpam: eram os meus 20 anos.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzweek3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6093" title="zzweek3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzweek3.jpg" alt="" width="722" height="439" /></a></p>
<p>E vi <em>Weekend</em>. Godard, no mais longo travelling da história do cinema, filmava carros destroçados, feridos ensanguentados, corpos a arder. Prenúncio de morte.</p>
<p>À minha volta havia um mundo em desagregação: os portugueses partiam, colonos, chicoronhos, os nossos pais, os pais dos nossos pais. Alguns filhos, muito poucos, ficavam, querendo ser tão filhos da terra como os indesmentíveis filhos da terra.</p>
<p>Lembro-me que tínhamos um olhar firme. Um olhar aprendido no cinema. No filme, nesse filme, <em>Weekend</em>, Godard obrigava-me a ver, de cabeça levantada, terroristas revolucionários que praticavam o canibalismo. Parecia só cinema, o cinema de Godard, refractário da vida, ou pelo menos do que chamávamos a vida burguesa.</p>
<p>Alguns dias depois, vá lá um mês, a Unita aprisionou um comandante do MPLA e os tiros das akás encheram de ecos a amena vastidão da praça que era o Terreiro do Pó. Filhos e enteados da terra, rastejámos para ir ver. Mas nesse fim de tarde, no Terreiro do Pó, ao lado do Chá Para Dois, doce pastelaria, não se conseguia, como ao olharmos para o ecrã do Flamingo, levantar a cabeça do chão. Depois, dias depois, libertado o guerrilheiro, soube-se, disse-se ou mentiu-se, que a Unita o tinha obrigado a comer as próprias barbas. Onde é que começava o cinema, onde é que acabava a vida?</p>
<p>Foi a primeira vez que escrevi sobre um filme. Escrevi, escrevia-se à máquina, com papel químico, e passavam-se as cópias de mão em mão. Em liberdade, para logo aprender que liberdade é violência, como da tela do Flamingo me disse Saint-Just, feito personagem nesse <em>Weekend</em> de Godard.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português </em><a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><em>O Expresso</em></strong></a><em>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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