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	<title>50 Anos de Textos</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Más notícias do país de Dilma (52)</title>
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		<pubDate>Fri, 18 May 2012 14:37:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[“Governos não decidem, por meio de atos de vontade política, quais serão as taxas de crescimento futuro de uma economia &#8211; só os ingênuos, ou arrogantes, pensam assim.” É necessário reconhecer que há algo que funciona, e extremamente bem, no governo Dilma: o marketing. O marketing do governo Dilma é ainda melhor do que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Governos não decidem, por meio de atos de vontade política, quais serão as taxas de crescimento futuro de uma economia &#8211; só os ingênuos, ou arrogantes, pensam assim.”<span id="more-7041"></span></p>
<p>É necessário reconhecer que há algo que funciona, e extremamente bem, no governo Dilma: o marketing. O marketing do governo Dilma é ainda melhor do que o de seu antecessor e criador. O país não anda, não se faz reforma alguma, não se aproveita para nada que preste a mais extravagante maioria parlamentar que um presidente já teve. Não há planejamento, não há rumo – desperdiçam-se as oportunidades, numa situação momentaneamente confortável, de se avançar.</p>
<p>A mulher foi eleita em cima da imagem de mãe do PAC; o PAC é ficção, está tudo empacado, as obras não andam, há uma total indigência gerencial – mas o ibope dela não pára de subir.</p>
<p>Ninguém pagou um tostão de tudo o que foi roubado, no governo anterior e neste; ninguém foi julgado pela roubalheira toda &#8211; e no entanto a imagem da presidente é de uma grande faxineira.</p>
<p>Ainda bem que ainda existem as pessoas que escrevem a verdade dos fatos, como a frase entre aspas acima, que mostra que Dilma e seu governo são ingênuos, ou arrogantes. Na verdade, ingênuos, arrogantes e incompetentes. Marketing fora, é só ingenuidade, arrogância e incompetência.</p>
<p>Aí vai a 52ª. compilação de notícias e análises que comprovam a incompetência do governo Dilma Roussef. Foram publicadas entre os dias 11 e 17/5/2012,</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As más notícias da Economia</strong></p>
<p><strong>* Os limites da política econômica voluntarista, construída com puxadinhos e expedientes improvisados</strong></p>
<p>“Há algumas semanas a economia brasileira vem passando certos sinais de desarrumação. Não dá mais, por exemplo, para continuar afirmando que a inflação não é problema. O avanço do IPCA de abril, de nada menos que 0,64% (foi de 0,21% em março), e, mais do que isso, o nível de difusão dessa alta (63%) mostram que ela não pode ser atribuída apenas à estocada dos preços dos cigarros – como sugeriu nesta quinta-feira (<em>10/5</em>) o ministro da Fazenda, Guido Mantega.</p>
<p>“A primeira prévia do IGP-M de maio também apontou uma guinada forte dos preços no atacado (de 1,15%). E, como o atacado de hoje tende a ser o varejo de amanhã, em consequência desse fator alguma inflação adicional está encomendada. A força das remarcações no atacado, por sua vez, reflete em alguma medida a escalada das cotações do dólar no câmbio interno, de 6,5% nas últimas cinco semanas, induzidas por ação do Banco Central.</p>
<p>“A ânsia por puxar pela desvalorização do real parece ter impedido o governo Dilma de entender que, nos dois últimos anos, a indústria ficou muito mais dependente das importações. Para enfrentar custos crescentes dos fatores de produção, sobretudo da mão de obra, o setor industrial recorreu mais pesadamente às importações de matérias-primas, insumos, peças e conjuntos. A alta do dólar no câmbio interno criou um custo adicional de produção que está sendo repassado quase automaticamente para os preços finais. (&#8230;)</p>
<p>A presidente Dilma enfrenta agora a perspectiva de não poder entregar, pelo segundo ano consecutivo, o crescimento econômico anual prometido, desta vez entre 4,0% e 4,5%. O discurso oficial ainda conta com essas projeções. Mas o mercado, consultado semanalmente pelo Banco Central por meio de sua Pesquisa Focus (que atinge cerca de 100 instituições), já trabalha com crescimento do PIB para 2012 de só 3,2%. Mas um punhado de analistas passou a projetar números inferiores a 3,0%. O mau desempenho da indústria, reafirmado por um punhado de estatísticas de origens diversas, parece confirmar essa percepção.</p>
<p>“Em outras palavras, o comportamento insatisfatório do setor produtivo vai mostrando os limites da atual política econômica voluntarista da presidente Dilma, construída com sucessão de puxadinhos e expedientes improvisados. Parece mais difícil agora esticar a alta do dólar e derrubar os juros para elevar a competitividade da indústria. Essa desarrumação foi enfaticamente desmentida pelo ministro Guido Mantega nesta quinta (<em>10/5</em>). Mas está cada vez mais difícil confiar nas declarações dele, ultimamente contrariadas pelos fatos. O último objeto dos reiterados desmentidos do ministro foram as mudanças nas cadernetas. Mantega argumentava que não havia o que alterar nas regras das cadernetas, porque não detectara migração significativa de aplicações dos fundos de renda fixa para elas. Agora, insiste em que a alta do dólar no câmbio interno não provoca inflação relevante.” <strong>(Celso Ming, <em>Estadão</em>, 11/5/2012.)</strong> <strong>* O BC muda, e aumenta o risco da economia como um todo</strong></p>
<p>“O sistema de metas de inflação mudou, na visão do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Ele acha que a crise fortaleceu o sistema de metas, tanto que este ano os Estados Unidos e o Japão adotaram o modelo explicitamente. Ao mesmo tempo, mudou a interpretação de como ele deve funcionar. ‘A estabilidade de preços é condição necessária mas não é condição suficiente’, diz o presidente do BC. (&#8230;)</p>
<p>“Essa reflexão ele fez num momento em que há muita dúvida sobre se o Banco Central atual tem autonomia para elevar os juros se necessário for. Uma coisa, certamente, não mudou: a inflação continua desafiadora. (&#8230;) Produtos afetados pelo dólar, os bens duráveis, ajudaram a puxar o índice para baixo. Estão em deflação de 2,65%. Os serviços, que são preços que não sofrem concorrência externa nem são afetados pelo dólar, estão em alta de 8%. O governo se esforçou para que o dólar subisse &#8211; com imposto à entrada de capital e restrição às importações &#8211; e a moeda americana teve alta de 7% nos últimos 30 dias. Isso significa que os produtos impactados pelo moeda americana podem ficar mais caros agora.</p>
<p>“A alta do dólar e um possível reajuste no preço da gasolina tornam mais difícil para o presidente do BC cumprir o que promete desde o início de seu mandato, que é levar a inflação para o centro da meta no fim de 2012. A inflação no Brasil está em torno de 5%, com perigo de aumentar mais no segundo semestre. A meta é 4,5%. Nos Estados Unidos, a meta é 2%. No Japão, 1%. Na Europa, 2%. (&#8230;)</p>
<p>“O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, deixou claro o que todo mundo já tinha notado: mudou a forma de o BC se comunicar. Ele será mais direto ao falar com o mercado. Quanto mais transparência, melhor. O que preocupa é a sensação de que o BC procura novas interpretações para esconder o fato de que é mais leniente com a inflação. ‘O Dionísio Dias Carneiro tinha uma frase que dizia: o BC deve ser o primeiro dos pessimistas e o último dos otimistas. Nosso Banco Central atual é o contrário disso. Ele gosta de tomar mais risco. Isso significa aumentar o risco da economia como um todo’, &#8211; disse a economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria.” <strong>(Míriam Leitão, <em>O Globo</em>, 11/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* A interferência do governo abala a credibilidade do BC</strong></p>
<p>“Mais transparente e democrático, o BC precisava de algo que tornasse mais previsível sua mais nobre tarefa: garantir o poder de compra da moeda, controlar a inflação. Em junho de 1999 foi criado o sistema de metas de inflação, pelo qual o governo define a meta (hoje de 4,5%, com tolerância de 2% para cima e para baixo) e o BC trata de cumpri-la com total autonomia, sem nenhuma interferência política.</p>
<p>“Pois bem, autonomia e sistema de metas sofrem, hoje, questionamentos, abalos de credibilidade. A percepção de interferência da presidente Dilma Rousseff em reuniões do Copom que definem a taxa Selic e a opção do governo pelo crescimento econômico, quando confrontado com a aceleração da inflação, têm enfraquecido o sistema de metas e conduzido a autonomia do BC ao descrédito. Hoje é unânime no mercado financeiro a convicção de que o BC abandonou o centro da meta (4,5%) e tenta salvar o teto (6,5%). O banco nega a interferência de Dilma e reafirma sua ‘total autonomia na condução da política monetária’. Mas as palavras cada vez mais se distanciam de suas ações.</p>
<p>“Recuperar a credibilidade não necessariamente implica elevar a taxa Selic na próxima reunião do Copom. Ela pode até cair, se a inflação ceder e a avaliação técnica indicar ser essa a melhor decisão. O que não cabe é o BC agir de forma a alimentar a percepção de interferência política e de que abandonou o sistema de metas. Seria um retrocesso na escalada de mudanças nos últimos anos, que têm contribuído, e muito, para a estabilidade da economia.</p>
<p>“Quem estudou o novo modelo de gestão do BC chega à mesma conclusão: a estabilidade da economia é sempre maior quando é menor a incerteza sobre o comportamento do BC em suas intenções. Por isso é fundamental manter a autonomia operacional e o sistema de metas, que reforçam a previsibilidade e inibem ações de quem especula para gerar lucro fácil. Hoje a autonomia é mera formalidade, uma concessão do governante, não consagrada em lei. FHC a respeitou, Lula também, mas com Dilma ela passou a ser questionada. Quando isso ocorre, portas se abrem à especulação e à volatilidade de preços.</p>
<p>“Dilma tem sido elogiada pela coragem de enfrentar forças políticas do atraso, partidos corruptos e seus representantes no Congresso. Se ela realmente não interfere nas decisões do BC, como tem reafirmado, que desfaça de vez essas desconfianças e tome a iniciativa de enviar proposta ao Congresso formalizando a autonomia do BC em lei. Faça o que FHC e Lula deixaram de fazer. Se ela confia na qualidade e na competência dos diretores que escolheu e nomeou, deixe com eles a tarefa de definir juros e proteger o País contra a inflação. O Congresso já foi mais resistente à ideia. Hoje, nem tanto.” <strong>(Suely Caldas, Estadão, 13/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O governo acredita que a força de sua vontade simplifica a gestão da economia</strong></p>
<p>“A política macroeconômica voltou a ser pautada pelo voluntarismo. O governo parece convencido de que basta a força de sua vontade para que as mazelas da economia sejam rapidamente corrigidas, uma a uma. O câmbio pode ser tão depreciado quanto se queira, as taxas de juros, reduzidas à vontade e o crescimento do PIB, acelerado ao sabor das conveniências políticas. Já era tempo de o país ter aprendido que as coisas não são tão simples. E que experiências voluntaristas desse tipo não passam de surtos coletivos de autoilusão, fadados a enfrentar uma conta salgada no final, quando a inexorável coerência entre as variáveis macroeconômicas se restabelece de forma socialmente perversa. Mas a verdade é que, entre nós, tal aprendizado se tem mostrado bem mais difícil do que se esperava. (&#8230;)</p>
<p>“Inconformado com a perspectiva de mais um ano de crescimento do PIB abaixo de 3%, com desempenho pífio da indústria de transformação, o governo decidiu sair em campo para acertar as coisas a seu modo. Já há algum tempo, o regime de câmbio flutuante havia sido convertido num arranjo de câmbio fixo, no qual o governo tentava impedir que a taxa caísse abaixo de R$ 1,60. Nos últimos meses, contudo, o governo tem recorrido a todo tipo de intervenção para, a qualquer custo, manter o câmbio acima de R$ 1,90.</p>
<p>“Do lado das taxas de juros, o Planalto parece convicto de que agora tem condições de dar solução definitiva ao problema. Não só prolongou &#8211; já não se sabe até quando &#8211; o vigoroso movimento de redução da Selic que teve início em agosto, como desencadeou cruzada nacional pela redução de spreads bancários, com palavras de ordem em discurso de 1 de maio, determinações férreas a bancos públicos e admoestações a bancos privados. (&#8230;)</p>
<p>“Salta aos olhos que a rápida depreciação do câmbio e a redução imprudente da taxa básica de juros, com efeitos amplificados pela substancial diminuição concomitante de spreads cobrados por bancos públicos &#8211; compelidos a expandir crédito e municiados de novas transferências diretas de recursos do Tesouro -, configuram ambiente propício a agravamento do quadro inflacionário em 2013. (&#8230;)</p>
<p>“O curioso é que, enquanto sobra voluntarismo na condução da política macroeconômica, falta determinação na gestão de outras áreas cruciais. O PAC continua entravado. Na esteira da sucessão de escândalos do ano passado, boa parte das cadeias de comando que acionam o investimento público teve de ser desmantelada. E, justo agora, quando, a duras penas, estava tentando remontá-las, o governo se viu às voltas com novas dificuldades, decorrentes da instalação da CPI do caso Cachoeira-Delta. Como a Delta é a maior empreiteira do PAC e tem obras em nada menos que 25 estados, foi preciso montar às pressas uma deprimente operação de contenção de danos. Que, tudo indica, não será capaz de impedir que, mais uma vez, os programas de investimento sejam seriamente afetados.” <strong>(Rogério Furquim Werneck, <em>O Globo</em>, 11/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Medidas apressadas, efeitos negativos</strong></p>
<p>“Medidas tomadas pelo governo para recuperar a economia com uma pressa excessiva têm um resultado contrário ao esperado. Seja na taxa de crescimento, seja na desvalorização da moeda nacional e na expansão do crédito. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, queixa-se do insuficiente crescimento do volume do crédito. E, agora, como já é costume, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, volta a exprimir a mesma queixa &#8211; embora num passado recente os documentos do BC clamassem por política de redução do ritmo de expansão de crédito, especialmente para as pessoas físicas.</p>
<p>“Ainda que, em março, a expansão do crédito para as famílias, nos 12 últimos meses, registrasse 20,3% (mais que o limite que o BC considerava razoável), no primeiro trimestre foi de apenas 3,2%, embora represente 15,8% do PIB. O que o ministro da Fazenda e o presidente do BC parecem esquecer é de que o baixo ritmo de crescimento do crédito resulta de boa parte das medidas que adotaram. Ao forçar uma redução das taxas de juros, por meio do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal &#8211; num momento em que a insolvência atinge valor preocupante -, as autoridades tinham de saber que, para enfrentar uma concorrência dessas, as instituições financeiras privadas se mostrariam muito mais exigentes quanto à qualidade dos créditos outorgados. Com efeito, a elevação da inadimplência as obriga a manter reservas maiores, o que está reduzindo as disponibilidades para fazer novos empréstimos.</p>
<p>“Mas o governo, ao pedir maior expansão do crédito às famílias para aumentar a demanda doméstica, parece não ter levado em conta os efeitos sociais dessa política, com a expansão da classe C. É que o aumento da renda dos trabalhadores, depois de uma elevação do salário mínimo e com o efeito da revisão de todos os outros níveis salariais, gera um novo patamar de poder aquisitivo. Este se reflete num forte aumento do endividamento, não apenas para a aquisição da casa própria (que vai exigir a compra de numerosos bens para equipá-la), mas também de outros bens de consumo duráveis que são pagos com uma prestação aparentemente reduzida.</p>
<p>“Os bancos enfrentam mutuários altamente endividados, aos quais não podem oferecer créditos quando outras prestações estão atrasadas. Paralelamente, a provisória desvalorização do real reduz fortemente o efeito deflacionista dos produtos importados. Faltou ao governo consultar os sociólogos&#8230;” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 12/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Em resumo, é assim: há limites para austeridade, há limites para o crescimento e há limites para o voluntarismo</strong></p>
<p>“’A austeridade não é uma fatalidade’, disse o novo presidente da França no dia de sua vitória, domingo passado. Os gregos, que votaram nesse mesmo dia, parecem estar de acordo, assim como muitos outros europeus. A frase de efeito de François Hollande não é incorreta, mas precisa ser situada no contexto do drama em que se debate a Europa desde 2007. Com particular intensidade desde que, há exatos dois anos, os ministros da Fazenda europeus viraram o segundo fim de semana de maio acertando a forma de evitar um então iminente calote grego, e o efeito contágio que isso teria sobre outros países da região &#8211; e sobre seus bancos. (&#8230;)</p>
<p>“Por certo, há limites para a austeridade, que podem ser de natureza econômica ou político-social, e que sempre dependem do contexto específico de cada país. Mas também é verdade que há limites para o crescimento, que são ou deveriam ser conhecidos. Governos não decidem, por meio de atos de vontade política, quais serão as taxas de crescimento futuro de uma economia &#8211; só os ingênuos, ou arrogantes, pensam assim. Em resumo, há limites para austeridade, há limites para o crescimento e há limites para o voluntarismo. Nenhum deles é uma fatalidade. Ainda bem. <strong>(Pedro Malan, economista, <em>Estadão</em>, 13/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Dólar sobe, ameaça inflação, BC não reage, analista fala em barco sem leme</strong></p>
<p>“Sob o clima de pânico que tomou conta dos mercados financeiros internacionais, o dólar comercial cruzou ontem (<em>segunda, 14/5</em>) a importante barreira de R$ 2 pela primeira vez em quase três anos. (&#8230;) Com a rápida escalada, o câmbio passou a acumular uma valorização de 6,47% frente ao real neste ano, o maior avanço entre as 16 principais moedas do mundo. Economistas manifestam uma preocupação crescente com o câmbio, o que pode ter impactos sobre a inflação e a política de corte de juros. E questionam se o governo brasileiro e o Banco Central (BC) não podem ter ido longe demais em suas intervenções na cotação da moeda em março e abril.</p>
<p>“Ontem, o dólar comercial valorizou-se no mundo inteiro. (&#8230;) Mas o avanço foi maior em relação ao real. Segundo Nathan Blanche, especialista de câmbio da Tendências Consultoria, isso seria resultado da ‘muralha’ criada contra a entrada de dólares no país, por meio de medidas como o aumento o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). ‘Quando o governo parou de intervir no câmbio, a moeda estava em R$ 1,90. O mercado entendeu que esse era o patamar que o governo queria a moeda. O dólar está agora a R$ 2. A impressão é, portanto, de um barco sem leme’, diz Blanche.</p>
<p>&#8220;Já Sidnei Nehme, analista da NGO Corretora, avalia que o governo alardeou uma ‘guerra cambial’ que pode não se confirmar e levar o dólar a R$ 2,20 nos próximos meses. ‘Para conter o dólar, o governo precisaria agora rever suas intervenções, o que significaria desmentir a ‘guerra cambial’, a ‘enxurrada’ e o ‘tsunami’. Isso teria um preço politico desgastante perante a comunidade financeira mundial.’</p>
<p>“Segundo Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora, mesmo com esse eventual desgaste, o governo precisa intervir no dólar para impedir os impactos sobre inflação. Ele cita operações como swap cambial (equivalente a uma venda de dólares no mercado futuro), venda de divisas à vista e via leilões no mercado a termo. ‘Para mim, a surpresa não chega a ser a valorização rápida do dólar frente ao real, mas a surpreendente ausência da autoridade monetária vendendo moeda para conter essa rápida alta’, avalia Velho.</p>
<p>“O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reafirmou ontem (<em>segunda, 14/5</em>) que a alta do dólar não preocupa o governo, pois torna a indústria brasileira mais competitiva. No entanto, nos bastidores da equipe econômica, técnicos admitem que a disparada da moeda americana decorrente da recente turbulência na Europa já provoca alguma ansiedade pelo impacto na inflação, que deu sinais de alta em abril.” <strong>(Bruno Villas Bôas, Gabriela Valente e Martha Beck, <em>O Globo</em>, 15/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O ministro da Fazenda vê tudo cor de rosa</strong></p>
<p>“Os brasileiros têm motivos para otimismo, apesar da crise global, e podem esperar um crescimento econômico maior que o do ano passado e inflação em queda, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Alguns efeitos da crise, como a desvalorização do real, são até benéficos para a indústria nacional e para a geração de empregos, de acordo com sua avaliação. O País está mais preparado que em 2008 para enfrentar o choque externo e, além disso, o mercado interno continuará sustentando a expansão da atividade, afirmou o ministro numa entrevista exclusiva à Agência Estado. Ele tem motivos para exibir alguma tranquilidade, principalmente quando compara a situação do Brasil com a de países mais desenvolvidos, sobrecarregados pela dívida pública e atolados em sérias dificuldades fiscais. A situação desses países, segundo o ministro, se agravou nos últimos anos, por causa de políticas de ajuste estritamente recessivas. Um pouco menos de otimismo, no entanto, seria mais tranquilizador para quem examina com algum cuidado a situação brasileira e os principais obstáculos ao desenvolvimento nacional.</p>
<p>“O ministro da Fazenda está certo quando aponta o mercado interno como um ativo importante e uma vantagem do Brasil na comparação com muitos outros países. Exagera de forma perigosa, no entanto, ao insistir num roteiro de crescimento econômico baseado somente nesse mercado. A palavra ‘somente’ é justificável, quando se examina o desempenho da economia nacional nos últimos anos. A contribuição das exportações e importações de bens e serviços para a expansão da economia vem sendo negativa, principalmente por causa da baixa competitividade do setor industrial.</p>
<p>“O ministro, no entanto, mostra-se pouco preocupado com isso. Quanto ao poder de competição, deverá melhorar, segundo calcula, graças à valorização do dólar. Ele, a presidente Dilma Rousseff e as torcidas do Flamengo e do Corinthians estão satisfeitos com o dólar próximo de R$ 2,00. A depreciação do real, insiste, é boa para a indústria, porque barateia seus produtos em moeda estrangeira. O efeito inflacionário, de acordo com o ministro, será limitado, até porque as cotações dos produtos básicos têm caído no mercado internacional e devem pressionar menos os preços internos.</p>
<p>“Essa argumentação deixa de lado questões importantes, mas é, ao mesmo tempo, reveladora. Ao falar sobre competitividade industrial, o ministro quase se limita a mencionar o câmbio, como se outros fatores fossem irrelevantes. Ele só vai um pouco adiante ao apontar a possibilidade de novos setores serem beneficiados pela desoneração da folha de pagamento, iniciada no ano passado. É muito pouco. As desvantagens do produtor brasileiro, quando se trata de competição internacional, são muito mais amplas, mas o ministro da Fazenda e seus colegas muito raramente enfrentam esse fato. Ele também se refere na entrevista à continuidade dos investimentos públicos, como se de fato o governo federal fosse um importante investidor em infraestrutura e outros itens essenciais à eficiência produtiva. Mas esse não é o caso e não há sinal de reconhecimento desse fato.</p>
<p>“Além do mais, a redução dos preços das commodities, nos últimos meses, limitou severamente o aumento da receita de exportações &#8211; apenas 2% maior que a de um ano antes, de janeiro a abril &#8211; e diminuiu de 35% o superávit comercial. As importações, no entanto, foram 4,8% maiores que as de janeiro a abril de 2011 e essa é uma das consequências do crescimento baseado exclusivamente no mercado interno.</p>
<p>“O ministro falha, portanto, por exibir uma visão muito restrita das vantagens da economia brasileira e dos obstáculos ao crescimento equilibrado. Ao menosprezar esses obstáculos &#8211; e também o risco de inflação &#8211; ele mais uma vez confirma um padrão de governo marcado pela visão limitada e pela acomodação diante dos obstáculos. É fácil criticar os europeus pela ênfase excessiva nas políticas de ajuste recessivo. Muito mais difícil, para o governo brasileiro, tem sido o reconhecimento do próprio imobilismo, quando se trata de reformas para elevar o potencial de crescimento econômico do País.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 16/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Voluntarismo, protecionismo, intervencionismo, ineficiência</strong></p>
<p>“Quatro países sul-americanos cresceram bem mais que o Brasil, no ano passado, com taxas de inflação muito menores. Resultados melhores que os brasileiros foram alcançados também por economias emergentes da Europa. No Brasil, empresários desconhecem ou menosprezam esses dados e se mostram dispostos, mais uma vez, a embarcar na aventura de ‘um pouco mais de inflação’ para conseguir um pouco mais de crescimento – como se prosperidade e estabilidade fossem objetivos incompatíveis. (&#8230;)</p>
<p>“O voluntarismo, o protecionismo, a ineficiência do governo, o intervencionismo e a engorda do setor público são cada vez mais sensíveis. Sem compromisso com a reforma do péssimo sistema tributário, o governo se limita a remendos. Sua incompetência gerencial se reflete na incapacidade de conduzir programas e projetos para o aumento da produtividade geral do País. De vez em quando, empresários cobram reformas relevantes. Mas brigam a maior parte do tempo pela redução dos juros e pela correção do câmbio, como se isso resolvesse os problemas de competitividade. Obviamente não resolve. Quanto ao voluntarismo, será bem-vindo enquanto resultar em domesticação do Banco Central, reserva de mercado e formas variadas de protecionismo. O passado, em alguns países, é tão difícil de enterrar quanto um vampiro.” <strong>(Rolf Kuntz, <em>Estadão</em>, 16/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Dilma promete fazer reforma. Até agora, só fez puxadinhos</strong></p>
<p>“A presidente Dilma avisa que vai parar de discutir as reformas, que nunca saem, e que vai agir. Ela está carregada de razão. O único risco é que, como outras tantas iniciativas do seu governo, essa ação não passe de mais um item da política de puxadinhos, feita com improvisos e meias soluções, apenas para dar a impressão de que o governo faz alguma coisa.” <strong>(Celso Ming, Estadão, 17/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Os números comprovam: não é o valor do dólar que garante exportações. Falta é estratégia de comércio exterior</strong></p>
<p>“A análise da balança comercial nos quatro primeiros meses do ano mostra que não é mesmo o valor do dólar que garante as exportações. As vendas brasileiras tiveram aumento pífio, apesar da desvalorização cambial. Os números dizem também que o comércio foi afetado pela política protecionista argentina e pela desaceleração da China, que diminuiu o preço do minério de ferro. O Brasil continua dependente de poucos produtos.</p>
<p>“De janeiro a abril, o superávit comercial do Brasil caiu 35% em relação ao mesmo período de 2011. Só não recuou mais porque os Estados Unidos aumentaram a compra do nosso petróleo. A desaceleração chinesa derrubou o preço do minério de ferro, e a Argentina criou barreiras que impediram a entrada do produto brasileiro no país. Mesmo com a desvalorização do real, as exportações, pela média diária, subiram só 2% no período, e as importações cresceram 4,8%. O superávit caiu de US$ 5 bilhões para US$ 3,3 bilhões. (&#8230;)</p>
<p>&#8220;O Brasil ainda não tem uma estratégia de comércio exterior. O governo não parece ter entendido a eloquência desses números. O país continua tendo uma política comercial pouco ofensiva. Se a China tiver uma queda forte no crescimento será o suficiente para um resultado negativo na balança comercial.” <strong>(Míriam Leitão, <em>O Globo</em>, 17/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Não se justifica a notável complacência do governo diante do protecionismo argentino</strong></p>
<p>“Não há justificativa razoável para que o governo argentino, no bojo de uma ofensiva protecionista que vem merecendo censura de grande número de países, adote medidas que tenham como objetivo eliminar o déficit comercial com o Brasil. Os benefícios políticos da relação próxima entre Brasília e Buenos Aires não devem ser postos à prova pela escalada do protecionismo argentino nem por desdobramentos de decisões precipitadas quanto a investimentos estrangeiros na Argentina, como no caso da YPF.</p>
<p>“As reações de autoridades brasileiras às iniciativas argentinas violam qualquer suposição razoável sobre racionalidade na defesa dos interesses nacionais brasileiros. É notável a complacência tanto no caso da YPF &#8211; com a Petrobrás em posição exposta &#8211; quanto no do protecionismo. O banzo em relação à vertente do varguismo com afinidades peronistas é perceptível. A recente menção da presidente Dilma, na posse do ministro Brizola Neto, à sua juventude, fazendo paralelo com João Goulart, quando tomou posse na mesma pasta em 1953, é correta. Já a ênfase na ‘visão’ e no ‘grande peso político’ de Goulart não tem respaldo na história. É curioso que um governo que tem Lula como ícone &#8211; autêntico líder sindical &#8211; busque amparo em tais reminiscências do sindicalismo oficial. O reajuste do salário mínimo de 100%, proposto por Goulart em 1954, levou à sua demissão e, relutantemente endossado por Vargas, foi elemento importante na crise política que levaria o presidente ao suicídio.</p>
<p>“Por muito tempo as comparações entre Argentina e Brasil sublinharam a maior população brasileira e a maior renda per capita argentina. É verdade que, em 1928, a renda per capita argentina era cerca de quatro vezes a brasileira. Ainda em 2000, era o dobro. Esse quadro mudou: em 2010 já era menor do que a brasileira (Atlas, Banco Mundial). Hoje, a economia brasileira é cerca de cinco vezes a economia argentina. Fica cada vez mais difícil aceitar que o rabo abane o cachorro. As duas maiores economias do Mercosul devem se sentar à mesa e criar as condições para que o balanço de benefícios e custos do Mercosul continue a ser significativamente favorável aos dois países.” <strong>(Marcelo de Paiva Abreu, economista, <em>Estadão</em>, 14/5/2012.)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>As Malvinas de Dilma</strong></p>
<p><strong>* Briga de governos com bancos é a “quarta onda”. Sempre tem onda em período eleitoral</strong></p>
<p>”O atual embate entre o governo e os bancos privados foi batizado por dirigentes do setor financeiro de ‘quarta onda’, levando em conta as relações dessas instituições com o setor público nos últimos dez anos. Pelo ineditismo — e com a presidente da República na linha de frente — a onda atual é considerada a mais arrebatadora, embora ao longo do tempo as relações entre o governo e os bancos privados tenham gerado intensos debates, quase sempre vinculados a períodos pré-eleitorais.</p>
<p>“A primeira onda ocorreu em 2002, quando o então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva citou o tema em sua campanha e criou um grupo de trabalho para estudar ações para diminuir o spread (diferença entre os custos de captação dos bancos e o que cobram de juros nos empréstimos a empresas e pessoas físicas).</p>
<p>“Para os banqueiros, a segunda onda começou em maio de 2003, quando o então vice-presidente José Alencar passou a se queixar dos juros altos. Sempre que podia, Alencar alfinetava o sistema financeiro e o próprio Banco Central (BC), devido à elevada taxa de juros. O discurso de Alencar foi encampado pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.</p>
<p>“No fim de 2006 — na terceira onda — o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lançou um pacote para reduzir o spread que não surtiu efeito e foi tachado de ‘manobra diversionista’ pelo economista-chefe da Febraban à época, Roberto Troster, que acabou deixando a entidade por causa de sua declaração. Troster mantém seu ponto de vista em relação às tentativas do governo de baixar o spread, que no Brasil supera 30%, o que põe o país na 137ª posição do ranking mundial. ‘Essa briga da presidente Dilma com os bancos é inédita, mas ela não conseguirá baixar o spread, porque os bancos não têm margem para reduzir. É mais uma onda que passará sem que os problemas estruturais do sistema sejam resolvidos’, disse Troster. ‘Esse embate ocorre sempre em ano de eleição.’” <strong>(Eliane Oliveira, <em>O Globo</em>, 13/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Em vez de uma política consistente, o governo resolve baixar os juros na marra</strong></p>
<p>“É verdade que, em muitos países, juros muito baixos, por muito tempo, e muito dinheiro disponível levaram a bolhas e excessos de gastos públicos e privados. O momento, portanto, é de maior prudência. Não decorre daí que é melhor ter crédito caro e limitado. E, se for para escolher o problema, é melhor a abundância do que a falta de crédito.</p>
<p>“Vamos reparar, portanto: o mundo está num período de crescimento baixo, com inflação também baixa e juros no chão. Que, neste momento, o Brasil tenha crescimento muito baixo e, ainda assim, juros altos e inflação acima da meta é um baita sinal negativo. Como isso pode ter acontecido? Quais são as causas dessa anomalia?</p>
<p>“Em vez de responder a essas questões com uma política consistente, o governo resolve atropelar bancos, incluindo os públicos, para forçar a queda dos juros, na marra. Parece que os juros são altos por causa da ganância dos bancos e porque os governos anteriores, incluindo o de Lula, não tinham vontade de reduzi-los.</p>
<p>“Reparem: até a presidente Dilma iniciar a campanha, os bancos públicos cobravam juros ‘normais’, quer dizer, parecidos com aqueles praticados nas instituições privadas. De um dia para outro, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal descobrem que podiam cobrar bem menos.</p>
<p>“Quer dizer que antes estavam inteiramente errados? Ora, sendo bancos públicos, era preciso que viessem a público para explicar por que não reduziram essas taxas antes e ficaram tanto tempo punindo o público com juros excessivos. Nem os bancos, muito menos o governo, deram as explicações.</p>
<p>“Vai ver que a redução efetiva e duradoura dos juros depende de outros fatores além da determinação da presidente. E, se for isso, todo esse barulho pode levar a duas consequências. Ou essa derrubada estaria mais no barulho do que na realidade dos clientes (muitos já reclamando das condições difíceis para obter as novas taxas). Ou os bancos públicos vão mesmo derrubar suas taxas de modo amplo e geral, o que os levará, no mínimo, a uma perda de rentabilidade e, no limite, a prejuízos. Não nos esqueçamos: Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, conduzidos politicamente, já quebraram mais de uma vez. Só o governo FHC gastou cerca de R$ 15 bilhões, dinheiro nosso, dos contribuintes, para salvar esses dois bancos.” <strong>(Carlos Alberto Sardenberg, Estadão, 14/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* “Reduzir os juros a fórceps vai gerar apenas mais inflação”</strong></p>
<p>“A cruzada do governo pela queda da taxa de juros representa um fim nobre, mas com instrumentos inadequados. Ninguém pode celebrar as enormes taxas cobradas pelos bancos. Mas o governo erra feio na escolha dos alvos. (&#8230;)</p>
<p>“O governo prefere comprar uma briga com os bancos, e mandar o setor baixar as taxas na marra. E ai de quem reclamar! O governo é dono de 40% do mercado por meio dos bancos públicos, e ainda conta com outros mecanismos de pressão. Aqui aproveito para fazer um alerta contra o risco autoritário. O governo, com postura arrogante, teria exigido dos bancos uma retratação pública após uma nota da Febraban criticando as medidas estatais. Que país é este que não permite mais o contraditório? Os bancos não podem mais discordar das medidas do governo? Reduzir os juros a fórceps vai gerar apenas mais inflação.(&#8230;)</p>
<p>“O crédito no Brasil vem crescendo a taxas perto de 20% ao ano. Como não tivemos reformas estruturais, é claro que isso vai bater na inflação em algum momento. Na verdade, a inflação já está acima do centro da meta, que já é bastante elevado. E o crescimento econômico vem caindo. Corremos o risco de ter estagflação ou então uma bolha de crédito no país, fomentada pelo próprio governo e seu banco central subserviente (seu presidente se entrega quando chama Dilma de ‘presidenta’ em nota oficial). Depois não vai adiantar culpar os ‘loiros de olhos azuis’ e os banqueiros gananciosos pela crise&#8230;” <strong>(Rodrigo Constantino, economista, <em>O Globo</em>, 15/5/2012.)</strong></p>
<p align="center"><strong>A CPI, o BNDES e a Delta</strong></p>
<p><strong>* O perigo de recordes de trapalhadas, de incompetência e de má gestão de recursos públicos</strong></p>
<p>“O governo agirá muito bem se evitar qualquer participação, ao lado do Grupo J &amp; F ou de qualquer outro, na compra da Delta Construções, acusada de irregularidades em contratos com o setor público. O risco existe, embora a presidente Dilma Rousseff, segundo fonte do Palácio do Planalto, seja contrária ao envolvimento do governo na operação. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) detém 31,4% do capital do frigorífico JBS, controlado pela holding J &amp; F. Ontem, a diretoria do banco divulgou nota para negar participação no negócio com a Delta, mas sua explicação de nenhum modo é convincente. Ao contrário, é mais um motivo de preocupação.</p>
<p>“‘A iniciativa do negócio’, segundo a nota, ‘partiu exclusivamente da holding da família controladora e é uma decisão privada de natureza empresarial, que não depende da anuência do BNDES e sobre a qual a instituição não foi consultada.’ O banco ‘é acionista apenas da JBS, empresa do setor de proteína animal’, e não se tornará, portanto, sócio da construtora. Essas alegações perdem toda força quando se examina a carteira do Grupo J &amp; F. O JBS fechou o exercício de 2010 com ativos de R$ 44,7 bilhões e receita líquida de R$ 55,1 bilhões e é, de longe, a maior empresa do grupo e o seu pilar mais importante. Todas as demais empresas controladas pelo J &amp; F, somadas, são muito menores que o frigorífico.</p>
<p>“O BNDES é, portanto, um componente importante do Grupo J &amp; F, mesmo sendo acionista apenas de uma de suas empresas controladas. O poder financeiro da holding depende substancialmente do JBS e isso faz enorme diferença quando se trata de avaliar a participação do governo na compra da Delta Construções. A nota do BNDES é, portanto, preocupante por dois motivos. O primeiro é a participação de um banco público no principal pilar do pretendente a comprador de uma empresa acusada de irregularidades. O segundo é uma hipótese quase cômica. Se o negócio for consumado, esse banco nem sequer terá influência sobre a empresa comprada, por não ser sócio da holding compradora. Se a compra ocorrer, o banco será envolvido, portanto, num negócio duplamente ruim.</p>
<p>“Se a Delta for classificada como inidônea, o governo federal terá fornecido recursos públicos para a compra de uma empresa proibida de celebrar contratos com a União, os Estados e os municípios. Será motivo não só para mais uma CPI, mas também para a adição de três itens quase incríveis ao livro Guinness de recordes. No caso, recordes de trapalhadas, de incompetência e de má gestão de recursos públicos.</p>
<p>“Esse imbroglio resulta da combinação de duas séries de erros políticos e administrativos. Do lado do BNDES, há um problema de estratégia. Nada justifica a sua permanência como acionista de uma empresa como o frigorífico JBS, nem sua notória preferência por grandes grupos estatais e privados. O BNDES deveria concentrar-se no apoio à consolidação de empreendimentos, à inovação de processos e produtos, à modernização e à eliminação de gargalos. Mas tomou um caminho diferente e chegou à beira de encrencas muito sérias &#8211; quando estudou, por exemplo, o apoio à compra de uma rede estrangeira de supermercados por um grupo nacional.</p>
<p>“A segunda série de erros está ligada à péssima gestão dos financiamentos do setor público. A Delta Construções tornou-se a principal empreiteira de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), entregue no governo anterior à responsabilidade da ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil da Presidência da República.</p>
<p>“Numerosas irregularidades foram identificadas pela Controladoria-Geral da União entre 2007 e 2010, mas a empresa continuou obtendo contratos com o governo federal no ano passado, quando a ‘Mãe do PAC’ já havia assumido a Presidência da República. Ou ela não sabia dos problemas &#8211; e como poderia não saber? &#8211; ou preferiu menosprezá-los, como se fossem irrelevantes. Falta explicar essa longa história de irregularidades e, mais que isso, de negligência em relação às denúncias. Não se deveria fazer do caso Delta um penduricalho da CPI do caso Cachoeira. Os escândalos da Delta valem por si mesmos uma investigação muito séria. <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 11/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O desperdício de dinheiro público, a Delta e o capitalismo de companheiros</strong></p>
<p>“Atingida pelo escândalo da descoberta do esquema mafioso de Carlinhos Cachoeira, a empreiteira Delta, campeã de obras no PAC, entrou em rota para o colapso. Sem crédito nos bancos, a empresa começou a repassar contratos — o de participação na reforma do Maracanã foi um deles —, e tornou-se questão de tempo a falência. Sem credibilidade junto a bancos e governos não há empreiteira que resista. A surpreendente decisão do grupo J&amp;S de comprar a construtora poderia ser motivo de alívio, por salvar empregos. Mas gerou problemas para o governo federal, ao levantar suspeitas de envolvimento político em um negócio que teria sido desenhado, acusa-se, para salvar o dono da empreiteira, Fernando Cavendish. (&#8230;)</p>
<p>“A operação se candidata a ser exemplo de distorções causadas toda vez que o Estado resolve interferir no mercado privado a fim de induzir o crescimento de empresários escolhidos para serem os tais ‘campeões nacionais’. No setor de frigoríficos, agora em destaque devido à polêmica em torno da Delta, o BNDES já empatou — e perdeu — dinheiro público.</p>
<p>“Nos últimos 30 anos fortaleceu-se no Brasil, ao lado do grande aparato financeiro estatal, um forte braço sindical envolvido em bilionários investimentos, os fundos de pensão de estatais. Previ, Petros e outros atuam no alto mundo dos negócios, algumas vezes juntos com o BNDES. A escolha dos investimentos não é transparente, até porque os fundos, por lei, são entidades privadas. E o BNDES, por sua vez, não se notabiliza por ser translúcido. Se todo este cenário for analisado de um plano mais elevado, constata-se que há no Brasil instrumentos para a prática daquilo que os americanos chamam de ‘crony capitalism’, capitalismo entre amigos ou, mais adequado para o Brasil, ‘capitalismo de companheiros’. O Ministério Público Federal do Rio deseja barrar o negócio, porque há evidências de fraudes cometidas pela Delta no relacionamento com Cachoeira. O mesmo pedido é feito pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) à Procuradoria-Geral da República. Falta mesmo projetar luz sobre toda esta história.” <strong>(Editorial, <em>O Globo</em>, 12/5/2012.)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A CPI e os mensaleiros</strong></p>
<p><strong>* Facções do PT insistem em manipular a CPI</strong></p>
<p>“Continuam as manobras de facções radicais do PT, ligadas aos mensaleiros, para usar a CPI do Cachoeira com objetivos sem qualquer relação com o escândalo da montagem pelo contraventor goiano de uma rede de influência em todos os poderes da República. Uma das intenções é constranger o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, por ser ele o responsável pelo encaminhamento da denúncia do Ministério Público Federal contra os envolvidos no esquema de troca de dinheiro sujo — inclusive público — por apoio parlamentar ao governo, na primeira gestão de Lula.</p>
<p>“Estes grupos começaram a pressionar Gurgel quando, no estouro do escândalo, com a descoberta da proximidade entre Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (GO), foi noticiado que o procurador-geral recebera em 2009 o inquérito da Operação Las Vegas, da PF, e nada fizera. Nele já havia registros da afinidade da dupla. Instalada a CPI, as facções partiram para tentar uma convocação de Gurgel ou convite. Não importava, contanto que o procurador-geral da República comparecesse perante os holofotes da comissão, para certamente ouvir toda sorte de provocações de representantes dos mensaleiros. (&#8230;)</p>
<p>“Como o objetivo é político e de constrangimento pessoal, não adiantou, também, Gurgel explicar, antes do depoimento do delegado, que, por lei, ele não pode falar acerca de inquéritos sobre os quais se pronunciará como procurador da República. Também é de fundo político-ideológico a definição por esta facção radical, minoritária no PT, de um segundo alvo na CPI: a imprensa independente. O fato de Cachoeira ter sido fonte de denúncias publicadas pela revista <em>Veja</em> contrárias a interesses do grupo leva à tentativa de conversão da comissão num exótico tribunal de julgamento do jornalismo profissional.</p>
<p>“Parece uma forma de buscar alguma vantagem no tapetão político depois que as tentativas institucionais de manietar a imprensa se frustraram. Dilma, como Lula, se mantém distante dessas aventuras, numa demonstração de maturidade. (&#8230;)</p>
<p>“Fariam melhor os radicais se gastassem tempo e energia fazendo a CPI funcionar para de fato mapear as conexões do crime organizado dentro do Estado brasileiro.” <strong>(Editorial, <em>O Globo</em>, 11/5/2012.)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Incompetência, ineficiência</strong></p>
<p><strong>* Para termos as 6 mil creches prometidas, só falta um pequeno detalhe: construir as creches. </strong></p>
<p>“Só falta um detalhe para os brasileiros poderem festejar a construção de 6 mil creches até o fim de 2014, uma promessa de campanha repetida várias vezes pela presidente Dilma Rousseff e reafirmada em seu discurso do Dia das Mães. Esse detalhe é muito simples: o governo precisa apenas tomar as providências necessárias para a realização das obras. Mas deve fazê-lo com rapidez, porque a presidente já cumpriu quase um ano e meio de mandato e esse programa, como tantos outros anunciados pela administração federal, continua emperrado. Sem mudanças muito sérias na gestão de programas e projetos, a construção de creches e pré-escolas será um fracasso tão grande quanto as obras da Copa, outro compromisso reiterado nos últimos dias.</p>
<p>“O quadro já seria bem melhor se o Proinfância, lançado em 2007, na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tivesse avançado um pouco mais rapidamente. Foram aprovadas a partir daquele ano 4.035 obras para atendimento a crianças em idade pré-escolar. Em março de 2012 o Ministério da Educação anunciou já terem sido entregues 221 inteiramente concluídas. Esse número equivale a 5% das aprovadas para inclusão no programa de financiamentos. O total subiria para 258, se fossem contadas 37 unidades com obras muito próximas da conclusão, mas isso ainda representaria só 6,4% dos projetos aprovados. Em 2007, ano de lançamento do Proinfância, o presidente Lula comprometeu o Brasil com a realização da Copa do Mundo e, portanto, com grandes investimentos em estádios, aeroportos, hotéis e sistemas de mobilidade urbana. Os resultados são muito parecidos nos dois casos, mas os pronunciamentos a favor das criancinhas foram mais raros e mais suaves. Faltou um Jerôme Valcke, da Fifa, para receitar um chute no traseiro das autoridades educacionais.</p>
<p>“Para cumprir sua promessa de campanha, a presidente Dilma Rousseff deveria ter dado maior impulso ao Proinfância ou passado a limpo todo o programa para garantir uma execução mais eficaz. A única novidade, no entanto, foi o compromisso de construção de 6 mil creches em quatro anos. Na prática, nenhum efeito sensível.</p>
<p>“Em 2011, primeiro ano de governo, R$ 891 milhões foram autorizados no orçamento e R$ 308,3 milhões foram pagos. Mas o ano terminou sem a conclusão de uma única obra. Todo o valor foi empenhado, isto é, formalmente comprometido com a execução de projetos, e R$ 582,3 milhões sobraram para 2012 como restos a pagar. Mas também o desembolso desse dinheiro, assim como o das verbas incluídas no orçamento deste ano, dependerá do ritmo das obras. Como no caso dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o cenário é de muita ineficiência, quando se trata de creches e unidades de pré-escola. <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 15/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O pedágio das rodovias federais é baratinho. Agora, obra, que é bom, nada</strong></p>
<p>“No primeiro grande leilão de concessão de rodovias federais ficou estabelecido que somente depois de seis meses, durante os quais obras emergenciais seriam concluídas, é que as concessionárias poderiam ser autorizadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) a cobrar pedágio. Contudo, relatório há pouco divulgado pela Controladoria-Geral da União (CGU), registra que seis das sete rodovias entregues à gestão privada a partir de 2008, passaram a cobrar o pedágio antes de cumpridas plenamente as obrigações exigidas nos contratos. (&#8230;)</p>
<p>“Aquele leilão, que abrangeu importantes eixos rodoviários do País, como as Rodovias Fernão Dias e Régis Bittencourt, foi marcado por tarifas que ficaram abaixo do mínimo previsto &#8211; era o chamado ‘pedágio de R$ 1’, contrastando com o valor mais elevado cobrado nas rodovias paulistas. O relatório da CGU afirma que a concessão foi feita quando persistiam 38 problemas nas rodovias, incluindo buracos no asfalto, desnível de acostamentos, falta de iluminação, deficiência de sistemas de drenagem, etc. (&#8230;)</p>
<p>“Constata-se, porém, que, tanto na rodovia Fernão Dias como na Régis Bittencourt, algumas obras básicas continuam sendo realizadas até hoje. Mondolfo admite que a transferência das rodovias para a administração privada não deve ser encarada como solução final para os problemas. Convém lembrar que, quando foram concedidas as rodovias federais, técnicos do setor advertiram que as tarifas previstas não eram suficientes para que as concessionárias pudessem realizar, em um prazo relativamente curto, todas as obras necessárias para melhorar as condições de tráfego e segurança. Tendo feito do pedágio reduzido o critério básico da licitação, o governo federal pode ter evitado a impopularidade advinda de tarifas mais altas, mas, com isso, adiou a solução de problemas estruturais e de conservação das rodovias.</p>
<p>“Muito diferente tem sido a opção do Estado de São Paulo, que tem preferido fazer as concessões pelo maior valor de outorga, mantida a exigência de padrões de qualidade, sendo o preço do pedágio fixado de acordo com o valor dos investimentos necessários. Isso torna as rodovias autossustentáveis. Com isso, não só o governo arrecada mais, podendo utilizar mais recursos para tocar outros projetos, como garante que investimentos sejam feitos em obras de construção e manutenção nas estradas paulistas, de modo a manter o alto padrão de qualidade que apresentam. Resta esperar que o governo federal, se e quando promover novas licitações de rodovias, leve em consideração a experiência já adquirida.” (<strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 15/5/2012.)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>E dá-lhe Febeapá</strong></p>
<p><strong>* Quando acusam pagadodeiro, craque e funkeiro de racismo, a coisa tá preta</strong></p>
<p>“Quando um pagodeiro, um jogador de futebol e um funkeiro, fantasiados degorilas e cercados por popozudas de biquíni à beira de uma piscina, se divertem em um clipe do pagode Kong, e são acusados de racismo e sexismo pelo Ministério Público Federal em Uberlândia por ‘unir artistas e atletas em um conjunto de estereótipos contra a sociedade, comprometendo o trabalho contra o preconceito’, a coisa tá preta.</p>
<p>“Alexandre Pires não é só um pagodeiro, é cantor romântico milionário, com carreira internacional, queridíssimo do público. Funkeiro é só um pouco de Mr. Catra, figuraça da cena musical carioca, rapper famoso nacionalmente por suas letras contundentes e suas paródias. E não é só um jogador de futebol: é Neymar. Não por acaso, uns mais e outros menos, são todos negros, ricos e famosos por seu talento, ídolos das novas gerações do Brasil mestiço. Já o procurador é branco, preocupado em proteger os negros para que não façam mal a eles mesmos.</p>
<p>“Assim como a beleza, o preconceito também está nos olhos de quem vê. Quem ousaria associar o genial Neymar, o galã Alexandre e o marrentíssimo Mr. Catra a macacos? Só um racista invejoso. Quem se incomoda com piadas e brincadeiras com jogadores de futebol, pagodeiros, funkeiros e marias-chuteira? Logo vão proibir o Criolo de usar o seu nome artístico. <strong>(Nelson Motta, <em>Estadão</em> e <em>O Globo</em>, 11/5/2012.)</strong></p>
<blockquote><p> <em>18 de maio de 2012</em></p></blockquote>
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		<title>Como aglutinar as pessoas de bem?</title>
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		<pubDate>Thu, 17 May 2012 06:27:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>- “Do you like Dylan?”</p>
<p>Foi a Lalá que trouxe a informação. Tinha passado seis meses (ou seria um ano?) nos Estados Unidos, num intercâmbio cultural – American Fields, chamava-se na época.<span id="more-7035"></span> Um monte de gente do Aplicação fez American Fields, mas acho que Lalá foi a primeira. Esteve lá em 1964, o ano do golpe, e até o início de 1965. Na volta, trouxe o <em>Bringing it All Back Home</em>, o disco novíssimo de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/dylan-soberbo-para-uma-plateia-que-merecia-dylan/">Bob Dylan</a>, lançado lá em março daquele ano. Botou pra gente ouvir – e ficamos lá tontos diante daquilo.</p>
<p>Não me lembro exatamente quantos éramos, quem éramos. Um grupo assim de umas cinco ou seis pessoas: Loló, Cuca, Mercedes, eu, mais alguém de quem não me lembro.</p>
<p>Nosso inglês não era nem de longe tão bom quanto o dela, claro, depois que ela havia passado seis meses vivendo entre os gringos. Não entendemos nem dez por cento do que aquela voz roufenha, fanha, dizia, mas juro que guardo até hoje a lembrança de ter ficado impressionado com aquilo.</p>
<p>E a Lalá nos explicou que, para as pessoas com quem ela conviveu lá, Dylan era a coisa certa. Que era assim uma espécie de senha: os jovens estudantes americanos de 1964, 1965 se dividiam entre os que gostavam de Dylan e os que não gostavam de Dylan.</p>
<p>Para definir se alguém era in ou out, se era gente boa, inteligente, que sabia das coisas, ou se era uma toupeira alienada, ou um reaça, bastava perguntar:</p>
<p style="text-align: left;">- “Do you like Dylan?”</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Isso era meados de 1965. O grupo que Lalá chamou para a casa dela foi seguramente dos primeiros a ouvir <em>Bringing it All Back Home</em> no Brasil. Bem, pelo menos em Belo Horizonte.</p>
<p>No início de 1967 me mudei de Belo Horizonte para Curitiba. Não por minha vontade, até porque vontade de menino não conta, ou não contava, mas por determinação dos meus irmãos mais velhos.</p>
<p>Acho que foi em 1967 que a então CBS, a subsidiária brasileira da Columbia, lançou pela primeira vez no Brasil um disco de Dylan. Meus poucos amigos de Curitiba já haviam falar nele, é claro. Me lembro perfeitamente de ter contado para um deles, um colega do Colégio Estadual do Paraná, Sérgio Augusto, um homônimo do grande jornalista, a história do “Do you like Dylan?” Sérgio Augusto, um jovem intelectual da província (naquela época, Curitiba ainda era uma província), comentou (e juro que me lembro bem disso): &#8211; “Interessante. No Brasil, não temos uma senha assim”.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Esses fatos tão distantes me vieram à cabeça hoje, de repente, ao chegar em casa depois de um encontro com um pequeno grupo de pessoas.</p>
<p>Uma delas, que eu estava vendo pela segunda vez, apenas, é um homo politicus: Antônio Sérgio Martins, do blog <a href="http://pitacos-politicos.zip.net/index.html">Pitacos Políticos</a>. Só pensa em política, 24 horas por dia. Foi comunista na juventude, graças a Deus, foi preso pela ditadura, permaneceu preso por dois anos. Manteve-se idealista através das décadas, e, como acontece com todo idealista neste país, tornou-se, nos últimos anos, um virulento adversário do PT.</p>
<p>Ele apresenta as seguintes questões:</p>
<p>Como conseguir reunir pessoas que pensam mais ou menos da mesma forma que você? Não exatamente da mesma forma, mas mais ou menos – gente parecida com você? Gente que tenha basicamente os mesmos ideais?</p>
<p>Como achar o mínimo múltiplo comum, ou o máximo divisor comum das pessoas?</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Esse meu novo amigo pensa em tentar aglutinar as pessoas da esquerda democrática, pluralista, progressista, pró-direitos humanos.</p>
<p>Tarefa difícil, aglutinar pessoas.</p>
<p>Tarefa dificílima, aglutinar pessoas da esquerda democrática, pluralista, progressista, pró-direitos humanos.</p>
<p>Muitas das que acreditavam nisso arranjaram empregos no governo.</p>
<p>Muitas ficaram ricas, e se esqueceram dos princípios.</p>
<p>Muitas ficaram velhas, cansadas.</p>
<p>Muitas morreram.</p>
<p>Umas duas ou três não abandonaram os sonhos, mas ainda acreditram que o lulo-petismo, apesar de seus problemas, a roubalheira, e tal, até que está conseguindo melhorar a distribuição de renda.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Falta uma senha. Falta um “Do you like Dylan?”</p>
<p>Falta algo que faça a distinção entre as pessoas. Os epítetos direita e esquerda, criados em 1789, como diz Fred Navarro, já não se prestam mais.</p>
<p>Uma possível senha de hoje talvez fosse a seguinte: “Você tem caráter, ou quer dinheiro do governo?”</p>
<p>Humm&#8230; Má tentativa. Ninguém admitiria não ter caráter e querer dinheiro do governo.</p>
<p>Talvez a senha de hoje pudesse ser assim: &#8211; “Você é petista? Tem emprego no governo?”</p>
<p>Quem respondesse sim às duas questões não seria convidado a participar de qualquer tentativa de transformar este país em algo melhor, mais digno, mais são.</p>
<blockquote><p><em>17 de maio de 2012</em></p>
<p><em>Rápido no gatilo, Antônio Sérgio Martins respondeu a este meu textinho, este meu suelto, com boas considerações. Estão aí abaixo. </em></p></blockquote>
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		<title>Escândalos de hoje abafam os de ontem</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 17:41:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre que um novo escândalo vem à tona &#8211; e eles têm sido férteis e velozes como crias de ratos &#8211; , o script se repete. Primeiro, os envolvidos negam. Depois, buscam desqualificar o denunciante para diminuir o poder de fogo da denúncia e, em seguida, tentam explicar o inexplicável com a cartilha de sucesso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que um novo escândalo vem à tona &#8211; e eles têm sido férteis e velozes como crias de ratos &#8211; , o script se repete. Primeiro, os envolvidos negam. Depois, buscam desqualificar o denunciante para diminuir o poder de fogo da denúncia e, em seguida, tentam explicar o inexplicável com a cartilha de sucesso recitada pelo ex-presidente Lula: todo mundo faz igual ou pior.<span id="more-7029"></span></p>
<p>E todos, sem exceção, apostam no esquecimento. Do escândalo, não deles.</p>
<p>As declarações de quem está sob suspeita também seguem um padrão. Variam entre &#8220;punição exemplar&#8221;, algo que o país ainda não viu ser aplicada em roubalheira de dinheiro público, a &#8220;doa em quem doer&#8221;, explicitando, com todas as letras, que a dor é mais aguda quando atinge um companheiro.</p>
<p>Paralelamente, em escândalo sim noutro também se produz uma fartura de medidas ditas moralizadoras que são esquecidas na semana seguinte. Ninguém é preso. O preço máximo é perder o cargo. Nenhum centavo é devolvido. E tudo fica como sempre foi.</p>
<p>Quem se lembra hoje dos escândalos que derrubaram os ministros do Turismo, do Esporte ou do Trabalho, todos eles referentes a pagamentos indevidos a entidades sem fins lucrativos?</p>
<p>As denúncias de convênios irregulares de R$ 4,4 milhões apuradas pela Operação Voucher no Turismo, os desvios feitos em nome do Programa 2º Tempo do Esporte, as entidades fantasmas de treinamento de mão de obra. Na época, final de 2011, a presidente Dilma Rousseff não só demitiu os titulares das pastas, como baixou decreto sustando por 30 dias qualquer repasse a entidades civis e mandou a CGU apurar tudo, tintim por tintim.</p>
<p>Mas qual o quê. De acordo com o site Contas Abertas, as transferências do governo a instituições privadas sem fins lucrativos alcançaram R$ 807,5 milhões de janeiro a abril de 2012, 17% a mais do que no mesmo período do ano passado. Ou seja, depois de espernear, bater na mesa, fazer as vezes que exigia isso e aquilo, Dilma, em ano eleitoral, passou a gastar ainda mais com ONGs e afins.</p>
<p>E tudo passa quase que despercebido. Talvez pela proliferação de novos escândalos</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 13/5/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>O muro e a grade</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 17:30:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Em frente à nossa casa havia um muro, com cerca de um metro de altura e mais de vinte centímetros de largura. Baixo e largo, acabou virando um imenso banco onde os estudantes se assentavam à espera do ônibus que os levaria ao Colégio Estadual. Em outras horas servia de arquibancada para os que queriam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em frente à nossa casa havia um muro, com cerca de um metro de altura e mais de vinte centímetros de largura. Baixo e largo, acabou virando um imenso banco onde os estudantes se assentavam à espera do ônibus que os levaria ao Colégio Estadual.<span id="more-7026"></span> Em outras horas servia de arquibancada para os que queriam assistir às gloriosas peladas dos meninos da região. Futebol que, algumas vezes, era interrompido pela chegada do coletivo, que desembarcava seus passageiros.</p>
<p>Nas noites, o nosso murinho acolhia meninos e meninas na adolescência, vizinhos amigos que comentavam os fatos corriqueiros de suas vidas e iniciavam os primeiros passos de namoros breves e outros que permaneceram ao longo dos anos e acabaram gerando famílias.</p>
<p>Era um tempo de muita timidez e costumes rígidos. O menino, depois de um período probatório de semanas, pôde enfim pegar nas mãos da namorada. O amor avança e a ansiedade juvenil demandava novas ousadias. Eis que ao se despedirem numa noite fria, e como era amena a temperatura da cidade naqueles anos, ele disse a ela que tinha um surpresa a lhe oferecer. E encostou suavemente seus lábios aos dela, naquilo que hoje chamamos de “ selinho”. Nada de línguas se encontrando, apenas o suave roçar de bocas fechadas. Enrubescida, e como os rostos das meninas e dos meninos se avermelhavam por qualquer motivo, ela lhe disse que, se aquilo se repetisse, as suas relações estariam cortadas.</p>
<p>Não me lembro ao certo quando o nosso muro recebeu uma alta grade, deixando de ser poleiro de meninos e estudantes e, talvez em nome da segurança, isolou a casa da rua. Sei com certeza que foi um movimento coletivo, pois todas as residências começaram a se proteger com paredes altas gradeadas. Perdia-se o contato físico, mas o visual continuava. Não havia ainda o medo da violência urbana, mas já havia um pressentimento de que muita coisa estava mudando na vida da cidade e das pessoas.</p>
<p>Quando a insegurança e o medo se instalaram de fato, as casas tiveram que buscar outras modernidades: alarmes e câmeras tomaram conta do pedaço. O amor seguiu novos rumos, a inocência foi aos poucos se perdendo, o tradicionalismo também.</p>
<p>A pressão social e familiar separou os dois namorados da história aqui contada.</p>
<p>Agora eles estão à minha frente contando sua aventura, os descaminhos pelo mundo, sua busca individual pela felicidade. Casaram e descasaram com outros parceiros, mudaram do país para terras diferentes, estudaram, trabalharam sem, no entanto, se realizarem afetivamente. Existia um beijo selado há muitos e muitos anos, numa noite da cidade que cheirava a “dama-da-noite”, que os marcou para sempre. Eu arrisco a dizer que se ele tivesse sido mais arrojado, avançasse mais na qualidade do beijo, talvez eles nunca tivessem se separado. Ela faz que concorda.</p>
<p>O certo é que eles agora vivem juntos, há sete anos. E guardam nos sorrisos a mesma ternura que eu conheci em minha juventude.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em maio de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Sangue no Deserto</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 03:08:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem é que disse que os wes­terns se divi­diam em três tipos: os de ima­gens, os de ideias, e os de ima­gens e de ideias? Só pode ter sido Godard. E agora me lem­bro: foi jus­ta­mente num texto sobre um wes­tern de Anthony Mann, O Homem do Oeste, que ele, aliás, con­si­de­rava um exem­plo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin11.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-7019" title="zztin1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin11.jpg" alt="" width="640" height="361" /></a></p>
<p>Quem é que disse que os <em>wes­terns</em> se divi­diam em três tipos: os de ima­gens, os de ideias, e os de ima­gens e de ideias? Só pode ter sido Godard. E agora me lem­bro: foi jus­ta­mente num texto sobre um <em>wes­tern</em> de Anthony Mann, <em>O Homem do Oeste</em>, que ele, aliás, con­si­de­rava um exem­plo do <em>wes­tern de ima­gens e ideias</em>.<span id="more-7014"></span> Já <em>San­gue no Deserto</em>, <em>The Tin Star</em> no ori­gi­nal, pela sua extrema abs­trac­ção, é um exem­plo óptimo do <em>wes­tern de ideias</em>. Nenhum outro <em>wes­tern</em> de Mann tem a extrema depu­ra­ção que pode­mos encon­trar em <em>San­gue no Deserto</em>.</p>
<p>Por exem­plo, logo na pri­meira sequên­cia – lin­dís­sima e mór­bida – se dese­nha a lógica for­mal do filme e que é, como se reco­nhe­cerá à saci­e­dade, um movi­mento do exte­rior para o inte­rior. Vemos Henry Fonda, com uma barba de 3 dias, entrar na minús­cula cidade a cavalo e, num outro cavalo que traz pela rédea, con­du­zir um cadá­ver até ao largo cen­tral. Servindo-se bem da música muito inten­ci­o­nal de Elmer Berns­tein, Mann, que era um con­su­mado mes­tre do <em>tra­vel­ling </em>late­ral, con­se­gue trans­for­mar o largo num palco para onde con­ver­gem todos os olha­res e con­se­gue que um <em>wes­tern</em> – por exce­lên­cia o género cine­ma­to­grá­fico dos gran­des espa­ços aber­tos – seja um exem­plo aca­bado de arte tea­tral.</p>
<p>É tea­tro e há um equi­lí­brio pre­cá­rio entre palco e bas­ti­do­res, suge­rido pela alter­nân­cia de pon­tos de vis­tas: Mann filma do inte­rior do escri­tó­rio do xerife para o largo, mas é para o inte­rior do escri­tó­rio que con­ver­gem os olha­res dos per­so­na­gens que estão no largo.</p>
<p>E como é tea­tro, há um equi­lí­brio entre o <em>décor</em> e as per­so­na­gens. A impor­tân­cia ful­cral do cená­rio cen­tral não anula a força das per­so­na­gens que o ocu­pam, em par­ti­cu­lar o tri­ân­gulo Fonda-Anthony Perkins-Neville Brand. E sendo o tea­tro de um <em>wes­tern</em>, há um equi­lí­brio entre o colec­tivo e o indi­vi­dual situ­ando numa comu­ni­dade pre­cisa a his­tó­ria de trans­fe­rên­cia de matu­ri­dade em que con­siste a rela­ção entre as per­so­na­gens de Henry Fonda e Anthony Per­kins.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-7020" title="zztin2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zztin2.jpg" alt="" width="500" height="280" /></a>E há ainda a explo­ra­ção de outra ideia, a do equi­lí­brio entre o mecâ­nico e o humano, belis­si­ma­mente tra­tado em duas cenas de sinal con­trá­rio. A pri­meira sobre­va­lo­ri­zando dra­ma­ti­ca­mente a perí­cia mecâ­nica de pis­to­leiro de Henry Fonda, quando inter­vém no duelo entre o xerife e o vilão. A segunda, con­cluindo a apren­di­za­gem de Per­kins no manejo das armas, quando Fonda lhe diz: &#8220;<em>Estuda os homens. Uma pis­tola não é mais do que uma fer­ra­menta.&#8221;</em></p>
<p><em>San­gue no Deserto</em> é uma pará­bola. O argu­mento de Dudley Nichols é notá­vel e obteve nome­a­ção para o Oscar. Com uma sim­ples his­tó­ria de apren­di­za­gem, a his­tó­ria de um xerife, Per­kins, que aprende com um ex-xerife, Fonda, o manejo do revól­ver que lhe per­mi­tirá ven­cer o vilão, Neville Brand, o argu­men­tista eleva-se a voos mais arris­ca­dos, mos­trando a génese e fazendo a prova da neces­si­dade da Lei para o esta­be­le­ci­mento de uma comu­ni­dade.</p>
<p>O tea­tro de Mann fun­ci­ona como ponto de pas­sa­gem do caos à civi­li­za­ção, tema nobre de que outro <em>wes­tern</em>, <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-homem-que-matou-o-facinora-the-man-who-shot-liberty-valance/">O Homem que Matou Liberty Valance</a></em> de John Ford, cons­ti­tuirá, anos mais tarde, o cume.</p>
<p>O argu­mento de Nichols era suma­rento. Anthony Mann secou-o. Mos­trou que se pode resu­mir um grande tema huma­nista a um só objecto dra­má­tico, neste caso à estrela de latão que deu ori­gi­nal­mente título ao filme, e que Per­kins passa o tempo a empur­rar para a lapela do casaco de Fonda. E Mann tam­bém mos­trou, servindo-se da cara inde­ci­frá­vel de Henry Fonda (e do seu andar feito para a len­ti­dão de um <em>tra­vel­ling</em>), que o nii­lismo pode ser a apa­rên­cia do mais alto sen­tido moral.</p>
<p>Se tenho a cer­teza de ter estado a escre­ver sobre um <em>wes­tern</em>? Abso­luta. Vêem-se bons due­los e há uma mul­ti­dão pronta para um lin­cha­mento. Não há bei­jos. Tudo feito por Mann com enqua­dra­men­tos manei­ris­tas e uma escrita que leva­ria Godard a chamar-lhe “cine­asta virgiliano”.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong>O Expresso</strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Inês e Sweet Baby James</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 00:49:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Sweet Baby James cantou hoje na Philarmonie, em Munique, e Inês estava lá. Não tenho idéia, é óbvio, de que tipo de teatro seja a Philarmonie de Munique, mas deve certamente ser um belíssimo lugar, germanicamente organizado, com uma senhora acústica. Inês diz que show foi lindo, lindo. E, o show à parte, impressionou Inês [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sweet Baby James cantou hoje na Philarmonie, em Munique, e Inês estava lá. Não tenho idéia, é óbvio, de que tipo de teatro seja a Philarmonie de Munique, mas deve certamente ser um belíssimo lugar, germanicamente organizado, com uma senhora acústica.<span id="more-7007"></span></p>
<p>Inês diz que show foi lindo, lindo. E, o show à parte, impressionou Inês o jeito cativante do cara que admiro há mais de quatro décadas: “Ficou sentadinho na beira do palco dando autógrafos e tirando fotos até a última pessoa ir embora!”, ela contou. “Fiz uma foto com ele pra te mostrar. Ele me disse: so nice to meet you, so brief&#8230; Fiquei encantada. O povo da organização querendo acabar logo e ele uma paciência e delicadeza.”</p>
<p>Vejo que Sweet Baby James está no meio de uma turnê intensa. Depois de Munique, ele canta amanhã, domingo, 13 de maio, em Zurique; em seguida faz Paris, Amsterdã, Reikjavik. Em seguida, em junho, faz 22 shows nos Estados Unidos, intercalados por dois em Montréal.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzines.png"><img class="alignright size-full wp-image-7008" title="zzines" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzines.png" alt="" width="597" height="419" /></a>Me emocionou o fato de Inês ter se lembrado de mim no show. Me mandou mensagens via Facebook no intervalo e depois do final do show.</p>
<p>É um tanto esquisito pensar isso, mas Inês herdou de mim o gosto por muita coisa de música que ela ouvia no som da nossa casa. James Taylor, Joan Baez, gente que ela, garotinha, ouviu muito, mas não só: gosta até hoje de Beto Guedes e Fagner, por exemplo – tudo herança do meu toca-discos.</p>
<p>Quando Maria, a primogênita dela, era novinha, Inês me pediu uma fita com <em>Peter, Paul and Mommy</em>, o disco de 1969 de Peter, Paul and Mary só com canções infantis. Queria que a filha ouvisse as canções que ela ouvia quando criança. Quase chorei de emoção.</p>
<p>De tempos em tempos, quando vem ao Brasil, Inês gosta de fuçar nos meus discos e no meu iTunes. Numa das últimas vezes em que veio, estava apaixonada por “The Scarlet Tide”. Ficamos ouvindo as versões de Alison Krauss, Joan Baez e Elvis Costello com Emmylou Harris.</p>
<p>Canções folk. Que coisa fantástica: quis o destino que os ouvidos de Inês se apaixonassem por canções folks. Uma herança minha.</p>
<p>As coisas têm duas mãos, na vida, e foi com Inês que aprendi a gostar do Police e de Cazuza, da mesma maneira que aprendi com Fernanda a gostar do Legião e mais tarde do Karnak e da Orquesta Tipica Fernandez Fierro.</p>
<p>Então vamos combinar, Inês querida: da próxima vez, vamos a um show juntos. Tomara que tenha coisa boa rolando.</p>
<blockquote><p><em>12 de maio de 2005</em></p></blockquote>
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		<title>O presidente do PT e o silêncio de ouro</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 17:05:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[É sempre previsível que um petista se entusiasme diante de sua torcida e cometa bravatas retóricas. O calor humano e o alarido da militância ajudam a multiplicar a valentia. O próprio ex-presidente Lula, sangue, nervos e razão de ser do partido, reconheceu que fazia muito isso quando era oposição. (Quando era governo também, mas isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É sempre previsível que um petista se entusiasme diante de sua torcida e cometa bravatas retóricas. O calor humano e o alarido da militância ajudam a multiplicar a valentia.<span id="more-7004"></span></p>
<p>O próprio ex-presidente Lula, sangue, nervos e razão de ser do partido, reconheceu que fazia muito isso quando era oposição. (Quando era governo também, mas isso não foi objeto de suas considerações.)</p>
<p>Dias atrás, falando a uma platéia partidária em Embu das Artes, o presidente do partido, ex-jornalista Rui Falcão, foi mais fundo do que já tinha ousado ir na carga de sua brigada ligeira contra a imprensa.</p>
<p>Colocou seu guardanapo ideológico na testa, deixou cair os eufemismos e foi direto ao ponto:</p>
<p>“(a mídia) é um poder que contrasta com o nosso governo desde a subida do (ex-presidente) Lula, e não contrasta só com o projeto político e econômico. Contrasta com o atual preconceito, ao fazer uma campanha fundamentalista como foi a campanha contra a companheira Dilma (nas eleições presidenciais de 2010).”</p>
<p>Em suas intervenções anteriores sobre o tema da regulamentação das comunicações, o presidente do PT sempre tomou o cuidado de ressaltar que se tratava da elaboração do marco regulatório para as comunicações previsto no texto constitucional e que isso não tinha nada a ver com controle de conteúdos.</p>
<p>Ao declarar que a mídia “contrasta” com o projeto político e econômico do governo, e que por isso o governo se preparava para “peitar” (a mídia) como tinha acabado e “peitar os bancos”, o presidente do PT cometeu um ato falho.</p>
<p>Deixou explícito que o partido não admite que a mídia “contraste” o governo. Considerando-se o significado da palavra (comparar, cotejar, ser contra ou opor-se a), Rui Falcão defendeu nada menos que a interdição do debate e da oposição.</p>
<p>Não “contrastar” o projeto político e econômico do governo deveria, portanto, tornar-se uma obrigação. Já vimos isso antes aqui e em outros lugares, não vimos?</p>
<p>Paulo Bernardo, ministro das Comunicações e dos panos quentes, correu a esclarecer que as opiniões do partido não têm nada a ver com as do governo e desautorizou a bravata do presidente de seu partido.</p>
<p>Rui Falcão deve saber disso melhor do que ninguém, mas nem por isso deixou de aproveitar a chance de jogar um pouco de gasolina na fogueira das milícias partidárias virtuais.</p>
<p>Essas milícias estão empenhadas em promover uma campanha de desmoralização da imprensa, para ver se conseguem envolvê-la na mesma lama dos acusados do mensalão, na tentativa de diminuir o impacto do julgamento que se aproxima.</p>
<p>Em vez de negar o crime, o que é uma tarefa difícil, tentam distribuí-lo igualmente entre todos, democratizando a lama.</p>
<p>Além de peitar os bancos, seria saudável se a presidente da República peitasse também o presidente do seu partido e deixasse claro que ela, como a maioria do País, prefere “o barulho da imprensa ao silêncio das ditaduras”.</p>
<p>Nesse caso, o silêncio do presidente do PT seria de ouro.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 11/5/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Más notícias do país de Dilma (51)</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-51/</link>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 03:00:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Ilha da Fantasia, a presidente da República ataca os bancos pelos juros altos – a versão brasiliense das tolices de Cristina Kirchner sobre as Ilhas Malvinas. No país real, as notícias são estas: A inflação triplica em abril. Dólar sobe e efeito do câmbio sobre a inflação já incomoda o governo. O Banco Central parece [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na Ilha da Fantasia, a presidente da República ataca os bancos pelos juros altos – a versão brasiliense das tolices de Cristina Kirchner sobre as Ilhas Malvinas. No país real, as notícias são estas:<span id="more-6997"></span></p>
<p>A inflação triplica em abril. Dólar sobe e efeito do câmbio sobre a inflação já incomoda o governo. O Banco Central parece domesticado e desmoralizado. O país vai mal no comércio exterior, e a estratégia do governo é errada. O governo está pagando para o país apanhar da Argentina. Tarifas de importação tolhem a indústria. O governo não faz qualquer mudança relevante sobre suas contas: continua a mesma marcha da insensatez.</p>
<p>Aí vai a 51ª <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-50/">compilação de notícias e análises que comprovam a incompetência do governo Dilma Rousseff</a>. Foram publicadas entre os dias 4 e 10 de maio.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>As más notícias na Economia</strong></p>
<p><strong>* O Banco Central domesticado e desmoralizado</strong></p>
<p>“A domesticação do Banco Central (BC) poderá custar caro ao Brasil, como custou, em outros tempos, a sua subordinação ao ministro da Fazenda ou a quem comandasse a política econômica. Longe de ser um luxo, a autonomia operacional da autoridade monetária é uma garantia de segurança contra desmandos do governo, um contrapeso para a irresponsabilidade fiscal e uma proteção contra a política eleitoreira e os interesses partidários de curto prazo. As lições de um passado não muito remoto mantêm clara a lembrança de todos esses males. Ninguém, no Palácio do Planalto, deveria desconhecê-las. No entanto, já não pode haver dúvida sobre a influência da presidente Dilma Rousseff na política oficial de juros, principal instrumento da administração monetária. A mansidão do presidente do BC diante da ingerência palaciana encoraja as pressões de ministros, empresários, sindicalistas e políticos e desmoraliza a instituição. (&#8230;)</p>
<p>“A presidente Dilma Rousseff, assim como seu antecessor e padrinho político, sempre se opôs à autonomia das agências reguladoras. Coerentes com essa posição, nunca aceitaram a ideia de um BC legalmente autônomo. Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aceitou na prática essa condição, ao convidar o banqueiro Henrique Meirelles para dirigir o BC. Esse foi um dos itens da negociação mediada pelo futuro ministro da Fazenda Antônio Palocci. Para o presidente Lula, a concessão era uma forma de tranquilizar o sistema financeiro tanto no País quanto no exterior. Deu certo. O controle da inflação facilitou a política oficial de valorização dos salários e contribuiu para a reeleição do presidente da República. Tendo assumido o governo em condições muito mais favoráveis, a presidente Dilma Rousseff tinha menos motivos que seu antecessor para respeitar a autonomia de fato do BC e para refrear o próprio voluntarismo. O resultado é um perigoso e indisfarçável retrocesso na gestão da política monetária.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 9/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Inflação triplica em abril</strong></p>
<p>“A inflação brasileira triplicou em abril. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) saiu de 0,21% em março para 0,64% — a maior taxa em um ano. Apenas três itens (cigarro, empregado doméstico e remédios) concentraram quase 40% da taxa de abril. Mas os preços maiores, frisam analistas, aparecem disseminados na economia. Assim, o índice acumula variação de 1,87% no ano e 5,10% nos últimos 12 meses. Números que já levantam dúvidas no mercado: uma inflação mais salgada pode dar um basta aos cortes dos juros? A princípio, não. Mas a resposta, para especialistas, depende do nível da atividade da economia e dos desdobramentos da crise internacional — indicadores que mexem com câmbio, demanda e, naturalmente, com a inflação. Na semana passada, o governo mexeu no rendimento da caderneta de poupança, com a intenção de permitir um corte maior dos juros.” <strong>(Fabiana Ribeiro, <em>O Globo</em>, 10/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Dólar sobe e efeito do câmbio sobre a inflação já incomoda o governo</strong></p>
<p>“Pela primeira vez desde julho de 2009, o dólar ultrapassou R$ 1,95, nível que já começa a incomodar o governo por causa do efeito sobre a inflação e a atividade econômica. Em meio às tensões no mercado global, a moeda americana subiu 1,3%, para R$ 1,962. A mudança no câmbio respondeu por parte da disparada do IPCA de abril, que chegou a 0,64%, ante 0,21% em março. A equipe econômica, que tem celebrado a desvalorização do real por causa dos benefícios que pode trazer à indústria, está apreensiva com o movimento. A avaliação é a de que a inflação deve subir um pouco mais do que o governo esperava, o que resultará em perda do poder de compra da população, na medida em que preços mais elevados ‘comem’ a renda do trabalhador.</p>
<p>“É mais um golpe em uma economia que roda em ritmo inferior ao que Dilma Rousseff gostaria – em torno de 3%, ante os desejados 4,5%. Se a alta se limitar à casa de R$ 1,95, a análise do governo é de que o efeito sobre o resto da economia será absorvido sem grandes traumas. Por isso, analistas e operadores de mercado já especulam sobre quando o Banco Central (BC) venderá dólares para tentar amenizar a escalada das últimas semanas.” <strong>(Leandro Modé, Estadão, 10/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Controlar a inflação não é objetivo da política econômica do governo</strong></p>
<p>“A inflação oscilou entre o mínimo de 3,1%, em 2006, e os 6,5%, do ano passado, com média de 5,21%. Para este ano e o próximo, a previsão é de um IPCA acima dos 5%, mas abaixo dos 6%, o que garantiria ganho real para a poupança velha. Existe o risco de a inflação subir além disso? A resposta é sim. A presidente Dilma explicitou sua agenda de política econômica: derrubar juros, desvalorizar o real e reduzir impostos. Não tem feito nada para o último quesito. A arrecadação tem obtido seguidos ganhos reais expressivos, quer a economia cresça, quer não.</p>
<p>“Quanto aos dois primeiros quesitos, há ações efetivas. Não é o caso de discuti-las aqui, mas de chamar a atenção para outro ponto. Notaram que a presidente não relacionou a inflação &#8211; baixa, claro &#8211; como objetivo de política econômica? Duas possibilidades: uma, a presidente dá de barato que a inflação está firmemente controlada; ou duas, a presidente não se incomodará com um índice de preços mais elevado.</p>
<p>“Reparem: a derrubada acelerada dos juros, com o objetivo explícito de ampliar o crédito para pessoas e empresas, tem efeito inflacionário. (Não faz muito tempo, o próprio BC dizia que era preciso segurar a expansão do crédito.) A desvalorização do real em relação ao dólar também tem efeito inflacionário. Variam conforme o momento, as circunstâncias locais e externas, mas são movimentos pró-inflação.</p>
<p>“É mais difícil, toma mais tempo e exige reformas profundas a redução dos juros mantendo inflação baixa. Já os chamados economistas desenvolvimentistas, que consideravam Dilma até um pouco ortodoxa, dão outra receita: juro lá embaixo imediatamente, na base da vontade política e da pressão; dólar caro (ou moeda local desvalorizada); controle de capitais; proteção à indústria local; e pé na tábua do crescimento. E se der inflação de, digamos, 15% a 20%? Não tem problema, dizem, países emergentes podem suportar isso na arrancada.</p>
<p>“Pensaram na Argentina?” <strong>(Carlos Alberto Sardenberg, <em>Estadão</em>, 7/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O país vai mal no comércio exterior. E a estratégia do governo é errada</strong></p>
<p>“Os resultados do comércio exterior mais numa vez confirmam o principal defeito da estratégia anticrise adotada pelo governo brasileiro. O Brasil, têm repetido a presidente Dilma Rousseff e seus ministros, enfrentará com sucesso a crise global graças ao potencial de seu mercado interno. O poder de compra desse mercado tem sido alimentado tanto pelo aumento do bolo de rendimentos quanto pela expansão do crédito. Mas a indústria brasileira tem sido incapaz, por vários fatores, de responder ao crescimento da procura. Mesmo a depreciação do real, nos últimos meses, pouco elevou o poder de competição dos produtores nacionais, prejudicado por uma série de custos e de ineficiências made in Brazil. Por isso, o vigor do mercado interno tem criado excelentes oportunidades para a produção estrangeira. Com a retração de outros compradores, os mercados brasileiro e de outros países latino-americanos se tornam especialmente atraentes para chineses e outros competidores.</p>
<p>“Além disso, os efeitos da crise global são bem visíveis nas exportações de commodities. Um levantamento de 23 dos principais produtos básicos e semimanufaturados vendidos pelo Brasil mostrou a seguinte evolução: 18 deles têm preços menores que os de um ano antes e 16 têm menor volume de vendas. No conjunto, 16 desses produtos proporcionaram receita menor que a de abril de 2011. (&#8230;)</p>
<p>“O aumento das vendas de manufaturados é em boa parte explicável pela expansão das exportações para os Estados Unidos, 29,5% maiores que de janeiro a abril do ano passado. A receita das vendas para a China foi apenas 5% superior à de igual período de 2011 &#8211; e essas vendas, como sempre, foram constituídas quase exclusivamente de commodities. A maior e mais desenvolvida economia do mundo é um dos melhores mercados para a indústria brasileira. Com o maior dos emergentes, a economia brasileira tem uma relação semicolonial, mas definida como estratégica pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O atual governo parece manter essa avaliação.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 4/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O governo está pagando para o país apanhar da Argentina</strong></p>
<p>“De conivente com os seguidos maus-tratos que o governo de Cristina Kirchner vem aplicando às exportações brasileiras, o governo de Dilma Rousseff se dispõe agora a estimular a Argentina a agir como tem agido. Como que movido por um injustificável complexo de culpa &#8211; que o impede de cumprir o papel que dele se espera, de defesa dos interesses do País -, aos maus modos com que os fiéis servidores de Kirchner tratam os produtos brasileiros, o governo do Partido dos Trabalhadores responderá com oferta de crédito para as exportações argentinas.</p>
<p>“É como se estivesse disposto a pagar para que a economia brasileira continue a apanhar. Por coincidência, o volume a ser financiado pode chegar exatamente ao valor do superávit comercial registrado pelo Brasil no comércio com a Argentina em 2011, de US$ 5,8 bilhões, como admitiu o secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alessandro Teixeira.</p>
<p>“Se chegar a esse montante, o financiamento será maior do que o superávit que o País alcançará neste ano no comércio com a Argentina. As medidas protecionistas que, contrariando as regras do comércio internacional, o governo Kirchner adota há tempos estão provocando forte queda das importações de todas as origens.</p>
<p>“Mas entre os parceiros comerciais mais prejudicados pelo crescente protecionismo kirchnerista está o Brasil, principal sócio da Argentina no Mercosul &#8211; bloco comercial que, na prática, está se tornando cada vez menos relevante por causa de medidas como as adotadas pelos argentinos, que reduzem sua condição de união aduaneira a uma mera formalidade. Em abril, as exportações brasileiras para a Argentina caíram 27% em relação às vendas de abril de 2011. (&#8230;)</p>
<p>“Os exportadores brasileiros, além dos transtornos causados pelo aumento das exigências argentinas, são onerados com o aumento dos custos logísticos ou mesmo perda de negócios. O governo Dilma parece concordar com tudo isso.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 7/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Mesmo prejudicado pelo protecionismo do vizinho, Brasil ajudará Argentina</strong></p>
<p>“O Brasil está disposto a financiar exportações de bens e serviços para a Argentina para ajudar o vizinho a recuperar sua economia, mesmo sendo alvo de medidas protecionistas. Um encontro entre autoridades dos dois países deve ocorrer na próxima semana para tratar do tema. Em um primeiro momento, a ideia é usar recursos do BNDES e dos atuais programas de crédito às vendas externas para melhorar o intercâmbio bilateral. No entanto, não se descarta o repasse direto de dinheiro a empresas daquele país. As exportações brasileiras para a Argentina caíram substancialmente no quadrimestre, em parte por causa das barreiras ao comércio, mas também em decorrência da crise no país vizinho. Os embarques para a Argentina caíram 27,1% em abril, em relação ao mesmo período no ano passado.” <strong>(Eliane Oliveira, <em>O Globo</em>, 8/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Governo e empresários brasileiros legitimam política abusiva da Argentina</strong></p>
<p>“A omissão do governo brasileiro tem servido como sinal verde para a continuação e até para a ampliação do protecionismo argentino. Governos europeus indicaram, recentemente, a disposição de iniciar na Organização Mundial do Comércio (OMC) uma ação contra a Argentina. Para mostrar a ilegalidade das políticas adotadas pela Casa Rosada, basta mencionar a demora &#8211; frequentemente superior a 90 dias &#8211; das licenças para importação. Mas isso é apenas um dos aspectos da ação protecionista.</p>
<p>“O descaso do governo brasileiro pelas condições de comércio com a Argentina deixa espaço para os empresários tentarem resolver o problema. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, descreveu o recebimento da missão (<em>de pequenos e médios empresários argentinos</em>) como tentativa de resolver as questões de forma construtiva. Desse esforço poderão resultar novos negócios. Será, aparentemente, um resultado positivo. Mas esse resultado será obtido por um processo errado: ao buscar o entendimento, sem exigir a eliminação das barreiras, governo e empresários brasileiros acabam, na prática, aceitando e legitimando uma política abusiva, desrespeitosa e inegavelmente ilegal. <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 10/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* “O Brasil não pode continuar sem uma estratégia de negociação comercial”</strong></p>
<p>“A crise econômica na Europa, com a queda do crescimento e o aumento do desemprego, não impediu entendimentos ou o início de negociações comerciais da União Europeia (UE) com os EUA, a Índia, o Canadá, o Vietnã, a Coreia do Sul. O mesmo não ocorre com as negociações com o Mercosul. (&#8230;)</p>
<p>“Se os entendimentos do Mercosul com a UE são difíceis, a grave crise entre a Argentina e a Espanha, em razão da nacionalização da empresa de petróleo YPF-Repsol, torna sua conclusão ainda mais problemática. A Argentina cancelou recente visita de alto funcionário europeu e a próxima reunião negociadora, que se realizaria em Buenos Aires, não foi marcada e teve de ser transferida para o Brasil.</p>
<p>“Caso as negociações com a UE não prosperem, o Brasil continuará a ser um dos poucos países a não ampliarem sua rede de acordos de livre-comércio. Nos últimos 12 anos o Brasil negociou apenas um acordo comercial em vigor, com Israel. Os dois outros, assinados com o Egito e com a Autoridade Palestina, ainda não entraram em vigor e têm pouca relevância comercial.</p>
<p>“A situação ficará ainda pior para o Brasil se a UE e os EUA formalizarem nos próximos anos um acordo comercial estendendo preferências na área agrícola para os EUA. Isso afetaria a competitividade dos produtos agrícolas brasileiros no mercado europeu e acarretaria a perda de espaço para os dos EUA. Por outro lado, o já anunciado desaparecimento do SGP, que beneficia cerca de 15% das exportações brasileiras para a Europa, tornará ainda mais difícil o acesso de produtos manufaturados àquele mercado.</p>
<p>“No difícil contexto político, agravado pela decisão argentina e pela reação espanhola, o Mercosul, para avançar nos entendimentos, não terá alternativa senão repetir com a UE o que foi feito com Israel e com a Comunidade Andina de Nações: formalizar um acordo-quadro Mercosul-UE, que incluiria normas comerciais, e aprovar, como propõe o Uruguai, a negociação de listas individuais, separadas, de produtos, com regras de origem e salvaguardas rígidas. Os países-membros do Mercosul, no futuro, poderão negociar a convergência da Tarifa Externa Comum, a qual, aliás, não está sendo respeitada por ninguém pelas sucessivas e crescentes exceções. O Brasil não pode continuar sem uma estratégia de negociação comercial e permanecer, assim, à margem da tendência global de abertura de mercado via acordos de livre-comércio.” <strong>(Rubens Barbosa, <em>Estadão</em>, 8/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Tarifas de importação tolhem a indústria</strong></p>
<p>“O crescimento econômico exige investimentos nos setores público e privado e a recuperação da indústria nacional passa pela melhoria da sua competitividade e da sua capacidade de inovação. Em face disso, não se entende que a importação de máquinas e equipamentos, beneficiada com redução não desprezível de tarifas (de 14% para 2%) incidentes nos bens sem similar nacional, sofra, de repente, uma suspensão dessa facilidade.</p>
<p>“A secretária de Desenvolvimento da Produção, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), explicou que a suspensão é temporária, uma pausa para aperfeiçoamento dos critérios que permitem esta quase isenção de tarifas. Esperamos que seja só isso, sem deixarmos de lamentar que essa interrupção ocorra justamente quando se pretende dar um alento ao setor manufatureiro e num momento em que se acredita que ele poderá voltar a crescer com uma taxa cambial mais adequada.</p>
<p>“É fácil imaginar o efeito da suspensão para as empresas industriais que haviam projetado a modernização dos seus equipamentos, pois sofrerão dois impactos: o primeiro, oriundo da desvalorização do real ante o dólar; e o segundo, a incidência de um imposto de importação que não foi previsto no seu planejamento. A redução da taxa de juros, mesmo que se comprove, não compensa a alta de preço dos equipamentos importados. Além disso, fica a desconfiança sobre as ‘bondades’ dirigidas à recuperação do setor, com o efeito de levar à desistência de muitos programas de investimentos.</p>
<p>“É preciso ir mais longe ao discutir a noção de similar nacional, que preside a obtenção das isenções tarifárias. Na realidade, há aí avaliações muito subjetivas, porque, na prática, máquinas que produzem os mesmos artigos podem ser muito diferentes quando analisadas sob diversos aspectos.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 8/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Ao reter os produtos importados, Receita está prejudicando o país</strong></p>
<p>“Se a ‘Maré Vermelha’, lançada pela Receita Federal em março como ‘a maior operação contra fraudes no comércio exterior da história’, fosse o que se anunciou, certamente estariam ganhando os produtores nacionais, que se veriam livres de bens contrabandeados, subfaturados na origem, falsificados ou que entraram no País por outros meios ilegais ou em desacordo com as regras internacionais. Os resultados práticos da operação, porém, têm sido muito diferentes, com prejuízos e transtornos para o setor produtivo e para os consumidores.</p>
<p>“A intensificação do controle alfandegário decorrente da ‘Maré Vermelha’, mais do que uma medida de combate a fraudes e ilegalidades, está se transformando numa manobra administrativa de caráter protecionista. Setores da indústria que dependem de componentes e insumos importados e consumidores, sobretudo os que utilizam os meios eletrônicos para comprar no exterior bens de pequeno valor, encontram cada vez mais dificuldades para liberar suas importações. Em alguns casos, a demora para a liberação do produto pode chegar a quatro meses, como mostrou reportagem de Raquel Landim publicada pelo Estado (30/4). A medida poderá ser questionada na Organização Mundial do Comércio (OMC) sob a alegação de que fere as normas do comércio internacional. (&#8230;)</p>
<p>“Ao anunciar o início da ‘Maré Vermelha’, a Receita justificou-a citando entre seus objetivos ‘o aumento da presença fiscal e da percepção de risco para os fraudadores’, o que, em tese, representa uma proteção para os importadores e para os contribuintes em geral que cumprem suas obrigações tributárias, pois afasta parte da concorrência desleal. Mas, ao transformar essa operação numa verdadeira maré, que não tem condições nem estrutura para controlar e fiscalizar, em vez de assegurar a lisura do comércio internacional, prejudica o País.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 4/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* A economia do país perde demais com a corrução</strong></p>
<p>“Na economia, a corrupção é devastadora. O que normalmente se tem em mente é o volume de recursos desviado dos cofres públicos através das estratagemas de sempre: empresas fantasmas que não prestam o serviço para o qual são pagas; sobrepreço na compra de bens e serviços pelo governo; compras aprovadas por políticos e funcionários que receberam a sua parcela do dinheiro sujo; desperdício de obras inacabadas.</p>
<p>“Há muitas outras perdas. As empresas fornecedoras do governo adotam normas de organização gerencial que promovam o funcionário que sabe o caminho, ou descaminhos, do cofre. Como o Estado é o grande comprador, se a má prática se dissemina, todos os milhares de fornecedores do Estado serão colocados em algum momento diante do dilema: aceitar ou não a regra vigente. Hoje, já se vê no Brasil o desdobramento disso, que é a corrupção nos negócios entre empresas privadas.</p>
<p>“Grandes investidores podem considerar que o Brasil não é um país para o qual se deva ir. A corrupção de tão frequente pode estar neste momento desanimando alguma diretoria a tentar voos maiores para o Brasil. Ou então desembarcam com a orientação de adotar padrões éticos mais flexíveis para se adaptar à cultura local.</p>
<p>“A democracia corre riscos evidentes a cada nova pancada que a opinião pública recebe. A economia vai se viciando, encontrando os atalhos, perdendo sua eficiência, atraindo apenas os piores, os que sabem se movimentar em ambiente tão degradado. O Brasil tem sonhos altos e nesse momento tem mais confiança de que pode alcançá-los. Quer estar entre os primeiros países do mundo, mesmo sabendo que o sexto lugar em PIB só será efetivo quando houver o mesmo grau no desenvolvimento humano. Ninguém desconhece que há uma lista grande de tarefas por fazer. A dúvida é quanto do nosso destino está sendo diariamente sabotado pela corrupção no momento em que temos tantas chances.” <strong>(Míriam Leitão, <em>O Globo</em>, 6/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* “O governo não faz qualquer mudança relevante sobre suas contas. Continua a mesma marcha da insensatez”</strong></p>
<p>“As contas do governo continuam fechando da mesma forma. Com a ajuda de uma arrecadação maior do que a inflação e com um pequeno déficit coberto por mais endividamento. No primeiro trimestre, as receitas cresceram 8,3% em relação ao mesmo período do ano passado, já descontada a inflação. O governo gastou 5,8% a mais, também descontando a inflação. Mesmo assim, ninguém espera que o ano termine em azul.</p>
<p>“As previsões são de que o governo deve gastar este ano 7% a mais do que no ano passado, que já teve um aumento de 3,5% em relação a 2010. Levando-se em conta que o PIB em 2011 cresceu 2,7% e este ano deve crescer em torno de 3,5%, o governo continua aumentando seu gasto acima do crescimento da economia, como tem ocorrido desde 1995, com raras exceções, como a do ano de 2003. É por isso que a conta só fecha com aumento da carga tributária. Prisioneiro dessa armadilha, o governo sempre promete &#8211; e nunca cumpre &#8211; fazer a reforma tributária. O temor é o de reduzir os impostos para quem está pagando excessivamente e, como isso, ficar sem dinheiro suficiente em caixa para cobrir seus gastos crescentes. (&#8230;)</p>
<p>“O déficit nominal &#8211; que inclui o gasto com juros &#8211; consolidado fechou no negativo em 2,6% do PIB em dezembro e continuou no vermelho em 2,4% em março. Essa pequena melhora é resultado do aumento da arrecadação. De janeiro a março, a receita do Imposto de Renda da Pessoa Física aumentou 9,65%. A da Pessoa Jurídica subiu 12,75%. Já a Cide, imposto que incide sobre combustíveis, e cuja alíquota foi reduzida para evitar o aumento da gasolina, teve uma queda de arrecadação de 42%.</p>
<p>“O que esses números mostram é que o governo não faz qualquer mudança relevante nas sua forma de cobrar impostos e gastar suas receitas. Continua a mesma marcha da insensatez, que é gastar cada vez mais, contar com o aumento da arrecadação, e dar descontos em alguns impostos por razões absolutamente conjunturais e casuísticas, como no caso da Cide.” <strong>(Míriam Leitão, <em>O Globo</em>, 9/5/2012.)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>As Malvinas de Dilma</strong></p>
<p><strong>* Espera-se que Dilma não se aventure a procurar juros baixos no pasto</strong></p>
<p>“O atual governo tem demonstrado inédita inquietude em relação aos juros. Em vez de prosseguir o trabalho paciente e tecnicamente fundamentado de seus antecessores, que permitiu diminuir de forma sustentada as taxas de juros, agiu politicamente. Determinou que os bancos públicos reduzissem as taxas de juros para induzir as instituições financeiras privadas a fazer o mesmo. Experiências semelhantes provocaram perdas e necessidade de injeção de recursos do Tesouro naqueles bancos. Em lugar de recorrer a medidas estruturais, a presidente Dilma decidiu atacar os bancos privados: ‘É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo’.</p>
<p>“Acontece que solidez e lucratividade não têm necessariamente relação com juros altos. A solidez foi construída ao longo de anos, fruto do trabalho dos bancos e do governo, particularmente do Banco Central. A solidez explica por que os bancos brasileiros resistiram bem aos efeitos da atual crise financeira mundial. A solidez é para ser comemorada, não para outros motivos. Quanto à lucratividade, estudos mostram que os bancos não têm retorno diferente do das grandes empresas brasileiras.</p>
<p>“Medidas para reduzir as elevadas taxas de juros do Brasil devem integrar permanentemente a agenda do governo. Isso tem acontecido nos últimos dezoito anos, pelo menos. Ainda figuramos entre os campeões dos juros altos, mas a situação tem melhorado. A taxa de juros básica do Banco Central (Selic) &#8211; que influencia as demais &#8211; já foi de mais de 40% ao ano e hoje caminha para as proximidades dos 8% ao ano. O spread bancário também diminuiu. Foi o efeito de um esforço de reformas para atacar as razões estruturais da excepcionalidade.</p>
<p>“A vitória contra a inflação descontrolada (Plano Real) e a estabilidade macroeconômica foram seguidas de outros avanços: a alienação fiduciária, a nova Lei de Falências, o crédito consignado, o acompanhamento sistemático das condições de crédito pelo Banco Central e, mais recentemente. a Lei do Cadastro Positivo. Tudo isso reforçou a segurança na concessão de empréstimos e melhorou o ambiente informacional. Os bancos adquiriram meios para bem avaliar riscos, premiar os bons pagadores com menores taxas de juros e expandir o acesso ao crédito. O potencial de crescimento se ampliou. O bem-estar aumentou.</p>
<p>“É preciso avançar com medidas estruturais de mesmo quilate. Por exemplo, duas causas explicam as altas taxas de juros: a tributação das transações financeiras e o volume de recursos que os bancos são obrigados a recolher ao Banco Central, ambos sem paralelo no mundo. Resquícios de insegurança jurídica típica do Brasil reclamam novas reformas.</p>
<p>“Além de ter taxas de juros das mais altas do mundo, o Brasil ostenta um dos maiores níveis de emprego informal do planeta. São duas excepcionalidades derivadas de problemas estruturais acumulados, de difícil solução em prazo curto. Não se vê, todavia, alguém culpando os empregadores pela informalidade no mercado de trabalho. Não há como promover no grito a formalização, nem dessa forma baixar a taxa de juros. Felizmente, tal como aconteceu nos juros, a informalidade tem diminuído sob a influência da estabilidade macroeconômica, do crescimento da economia, da melhor fiscalização e de avanços institucionais.</p>
<p>“A presidente mira e acena um alvo fácil. Atacar sintomas que a população confunde com causas faz subir a popularidade. A maioria pensa como Dilma. A desinformação é enorme. A educação financeira é deficiente no Brasil. Os bancos nunca foram benquistos. O tema tende a ser influenciado pela emoção.</p>
<p>“No Plano Cruzado (1986), faltou carne no mercado. Era um sintoma decorrente do insustentável congelamento dos preços. Vender gado para abate era o caminho certo para o prejuízo. Os pecuaristas se protegeram. O custo de reter o seu rebanho era preferível à falência. O governo empreendeu então uma espetaculosa caça ao boi no pasto, com helicópteros e policiais federais. A medida não salvou o Plano Cruzado. Espera-se que, caso fracasse sua cruzada contra os bancos, Dilma não se aventure a procurar juros baixos no pasto.” <strong>(Maílson da Nóbrega, <em>Veja</em>, 9/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* “Uma política de desconcentração bancária é um adequado dever de casa para o Planalto. Só discurso não adianta”</strong></p>
<p>“As instituições financeiras brasileiras não têm no momento dificuldades para captar recursos. Assim, o custo de captação tem diminuído — até pelos cortes na Selic (taxa básica de juros) —, e era de se esperar que esse fenômeno se refletisse nos juros dos empréstimos, o que não ocorreu, reforçando as críticas aos excessivos “spreads” bancários no país.</p>
<p>“Essa inércia pode ser quebrada por iniciativas em várias frentes, entre as quais a redução do risco do crédito (pois a inadimplência é apontada como uma das principais causas dos altos “spreads”). A carga tributária também deve ser considerada. Mas é preciso também estimular a concorrência no seio do sistema bancário, mas não só pela ação dos bancos públicos, pois nesse caso não haverá modificação no quadro de concentração do sistema financeiro, transferindo-se apenas alguma fatia de mercado de uma instituição para outra.</p>
<p>“Na ofensiva para reduzir os “spreads”, o governo deve ter uma política que favoreça a desconcentração — hoje, os dez maiores grupos financeiros, de um total de 120 bancos, detêm aproximadamente 80% do mercado. Se a oferta de crédito se disseminar por um maior número de instituições, a concorrência se encarregará de derrubar as taxas dos empréstimos. Por causa da concentração bancária, a “mobilidade” dos clientes é pequena. Poucos mudam de bancos atraídos por oferta de crédito a custos mais baixos, porque as diferenças de taxas não têm sido significativas. Uma política de desconcentração bancária é um adequado dever de casa para o Planalto. Só discurso não adianta.” <strong>(Editorial, <em>O Globo</em>, 4/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* “Nenhuma iniciativa do governo para mexer nos impostos e em vários outros custos tem efeito mais que epidérmico”</strong></p>
<p>“O governo tem-se empenhado principalmente na campanha pela redução dos juros. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica foram mobilizados para cortar suas taxas e impor alguma concorrência aos bancos privados. Os banqueiros responderam com o barateamento de algumas linhas. A mudança foi principalmente cosmética, embora haja, de fato, muito espaço para redução da margem dos bancos.</p>
<p>“O governo está certo quanto à necessidade de corte dos juros, mas seu discurso falha em relação a um ponto: se o custo do crédito for reduzido mais amplamente, neste momento, a indústria brasileira ainda terá dificuldade para aumentar a produção. Não basta, agora, estimular a demanda com mais crédito, porque o produtor nacional tem enorme dificuldade para competir com o estrangeiro. Sem mexer mais seriamente numa porção de outros custos, o governo dificilmente mudará as condições desse jogo. Investir sai muito caro para a indústria brasileira não só pelo custo do capital, mas também por causa dos impostos e isto é só uma pequena parte do problema.</p>
<p>“Nenhuma iniciativa do governo federal para mexer nos impostos e em vários outros custos especificamente brasileiros tem efeito mais que epidérmico. A presidente Dilma Rousseff não manifestou, até hoje, a mínima disposição de atacar de modo mais consequente os problemas da produção. Falta levar a outras áreas a coragem demonstrada na alteração da poupança.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 5/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Dilma pressiona e Febraban recua das críticas</strong></p>
<p>“A presidente Dilma Rousseff ficou irritada com o teor do relatório divulgado na segunda-feira (<em>7/5</em>) pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). No texto, assinado pelo economista-chefe da entidade, Rubens Sardenberg, a conclusão é de que os bancos não elevariam a oferta de crédito no país de maneira significativa, como o governo pretende, com o intuito de alavancar o crescimento econômico.</p>
<p>O economista chegou a dizer que ‘você pode levar um cavalo até a beira do rio, mas não pode obrigá-lo a beber água’, numa referência velada à ofensiva do governo de forçar o aumento do crédito e a queda dos juros e spreads, apesar dos índices de inadimplência elevados. Um interlocutor próximo da presidente rebateu a declaração de Sardenberg dizendo que ‘o cavalo poderia morrer de sede’. A notícia sobre o teor da nota da Febraban e a reação palaciana foi publicada ontem (8/5) pelo <em>Globo</em>.</p>
<p>“O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, telefonou hoje de manhã para o ministro da Fazenda, Guido Mantega , tentando contornar a reação negativa que o relatório provocara e reafirmou a disposição de colaborar com o governo no esforço para a ampliação do crédito e o crescimento econômico. Diante da irritação de Dilma e seguindo sua orientação, Mantega avisou ao banqueiro que a retratação teria de ser pública, assim como foi a divulgação do relatório, e deu um prazo até o fim da tarde para a Febraban manifestar-se.</p>
<p>“Trabuco tentou explicar a Mantega, por telefone e por e-mail, que o relatório refletia uma realidade de mercado e não se tratava de uma tentativa do setor de bater de frente com o governo. Mas, no fim da tarde, a Febraban soltou nota desautorizando o relatório distribuído na véspera por Sardenberg.” <strong>(Martha Beck, Gabriela Valente e Aguinaldo Novo, <em>O Globo</em>, 9/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* “O Planalto pode aumentar a popularidade numa guerra contra os bancos auxiliado por marqueteiros. Mas será inócuo”</strong></p>
<p>“Uma questão de fundo técnico, a formação das taxas de juros no mercado, resvala para um embate político entre governo e bancos, inclusive com arroubos mais adequados a palanques eleitorais. Não se tinha notícia, antes do último Primeiro de Maio, de o tema frequentar discurso presidencial no Dia do Trabalhador. Pois aconteceu, com a presidente Dilma, em cadeia nacional, acusando a ‘lógica perversa’ do sistema financeiro nacional, por não acompanhar em seus guichês a proporção da queda da taxa de juros básica (Selic). (&#8230;)</p>
<p>“Está no campo de ação da presidente mandar os bancos oficiais reduzir custos de crédito. Mas se isso gerar prejuízos às instituições oficiais, a conta deverá ser paga, em algum momento, pelo contribuinte, por meio de aportes de capital do Tesouro ao BB e CEF. Isso já ocorre na injeção de recursos no BNDES pela perigosa via da ampliação do endividamento público. (&#8230;)</p>
<p>“Há, ainda, no sistema financeiro uma grande parcela de crédito subsidiado — BNDES, agrícola etc. —, que não só reduz a eficácia da política monetária (juros) como trava a oferta, em mais um fator de manutenção de taxas elevadas no mercado. O assunto é complexo e não poderá ser resolvido ‘no grito’. Não são boas as relações entre o governo e os bancos, representados pela Febraban. Mas a troca de frases cáusticas de lado a lado nada produz de objetivo. Ganhariam todos se medidas concretas fossem tomadas para eliminar os obstáculos à queda dos ‘spreads’ e houvesse ações para estimular a concorrência no setor bancário, atividade muito concentrada (80% do mercado estão com dez grupos).</p>
<p>“O Planalto pode aumentar ainda mais a popularidade numa ‘guerra’ contra os bancos auxiliado por marqueteiros. Mas será inócuo. Apenas repetirá o equívoco observado em certos países latino-americanos em que assuntos intrincados são tratados em meio a jargões inflamados em praça praça.” <strong>(Editorial, <em>O Globo</em>, 9/5/2012.)</strong></p>
<p align="center"><strong>Toma lá, dá cá</strong></p>
<p><strong>* “Gasto do governo com varejo político dispara após a crise”</strong></p>
<p>“A crise no relacionamento com os partidos aliados e a criação da CPI do Cachoeira coincidiram com a multiplicação da liberação, pelo governo Dilma Rousseff, de verbas de interesse de deputados, senadores, prefeitos e governadores. Os registros diários dos desembolsos federais mostram um salto, a partir de março, das despesas incluídas por congressistas no Orçamento da União em favor de seus redutos eleitorais -as chamadas emendas parlamentares.</p>
<p>“Para detectar a movimentação de recursos destinados a negociações políticas, a <em>Folha</em> selecionou uma amostra das iniciativas orçamentárias que mais recebem emendas e servem de base para as barganhas cotidianas entre o Planalto e o Congresso. Os desembolsos para essas finalidades quadruplicaram de fevereiro para março, quando ultrapassaram a casa dos R$ 350 milhões &#8211; patamar repetido em abril. Em consequência, os primeiros quatro meses do ano terminaram com liberação de R$ 911 milhões, contra R$ 363 milhões no primeiro quadrimestre de 2011, quando Dilma lançava seu pacote de austeridade fiscal.” <strong>(Gustavo Patu, <em>Folha de S. Paulo</em>, 6/5/2012.)</strong></p>
<p align="center"><strong>Lições da Europa</strong></p>
<p><strong>* “Medidas populistas têm fôlego curto” </strong></p>
<p>“As ideologias, neste início da segunda década do século 21, bifurcam-se na encruzilhada dos desafios de nações às voltas com profunda crise econômica. O continente europeu, berço da civilização democrática, é o cenário mais visível dessa mudança. Lá a esquerda desloca seu eixo piscando para a direita, atenuando as cores do seu antigo discurso. Já não eleva ao alto do mastro a bandeira da ‘propriedade coletiva dos meios de produção’. (&#8230;)</p>
<p>“O que podemos extrair da lição francesa para a nossa realidade? Os recados são claros. Vejamos.</p>
<p>“Ponto 1: não há mais sentido em brandir bordões e refrãos insuflando a luta de classes, pobres contra ricos, socialismo contra liberalismo. Parcela dos nossos representantes continua a erguer bandeiras rotas.</p>
<p>“Ponto 2: atacar as estruturas intermediárias da República &#8211; Parlamento, Judiciário, imprensa &#8211; é desconstruir o próprio edifício da democracia. Desvios cometidos por pessoas físicas não podem ser confundidos com a importância das instituições democráticas. No entanto, viceja por estas plagas uma peroração que defende o controle da mídia, a revelar a simpatia de grupos pelo Estado autoritário.</p>
<p>“Ponto 3: o combate às elites políticas por quem as integra soa demagógico. Mandatários que escalaram os degraus da pirâmide para chegar ao topo devem saber que também eles integram o Olimpo elitista.</p>
<p>“Ponto 4: é um risco ancorar a estabilidade de um governo numa base nacionalista e protecionista. A deriva populista que uma atitude nessa direção proporciona, apesar de gerar conforto no curto prazo, ameaça comprometer o conceito internacional de um país. Olhe-se para os casos da Argentina e da Bolívia. A decisão da presidente Cristina Kirchner de nacionalizar 51% do patrimônio da petrolífera YPF, controlada pela espanhola Repsol, e a decisão do presidente Evo Morales de expropriar as ações da rede elétrica espanhola SAU podem até servir à almejada estratégia de aprovação popular. Mas quem garante que, mais adiante, não se transformarão em bumerangue?</p>
<p>“Decisões dessa ordem têm o condão de conferir aos governantes uma imagem situada na banda esquerda do arco ideológico. Mas a esquerda tem sofrido, e muito, para debelar o caos econômico. A Europa que o diga. Ali a crise fez cair, nos últimos três anos, 11 dos 15 governos de esquerda ou de centro-esquerda &#8211; Espanha, Reino Unido, Portugal, Bulgária, Finlândia, Hungria, Irlanda, Letônia, Lituânia, Eslovênia e Holanda. O aviso é oportuno: medidas populistas têm fôlego curto.”  <strong>(Gaudêncio Torquato, <em>Estadão</em>, 6/5/2012.)</strong></p>
<p align="center"><strong>“O Brasil fará a melhor de todas as Copas do Mundo”</strong></p>
<p><strong>* Vexame nacional à vista</strong></p>
<p>“É cada vez maior o risco de um vexame nacional na Copa do Mundo &#8211; e não por causa do desempenho da equipe brasileira. As informações mais recentes sobre o andamento dos projetos não permitem outra conclusão. Quem se dispuser a vir ao Brasil para acompanhar os jogos terá de enfrentar aeroportos despreparados para um tráfego mais intenso de passageiros, cidades congestionadas e sistemas de transporte urbano inapropriados para metrópoles modernas. O governo terá de correr muito para garantir a conclusão a tempo das obras necessárias. Se não conseguir desemperrar em pouco tempo os investimentos programados, ainda acabará pagando muito mais que os valores atualmente orçados, porque não terá outro meio de compensar o tempo perdido. Os valores atuais já são muito maiores que os estimados quando o governo brasileiro assumiu o compromisso de realização da Copa.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 8/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Hotéis do Rio cheios no 1º de maio. Imagine na Copa</strong></p>
<p>“Os hotéis do Rio tiveram ocupação de 90% no feriadão do Dia do Trabalho.” <strong>(Ancelmo Gois, <em>O Globo</em>, 5/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* Virão 50 mil pessoas para a Rio+20. O Rio tem 31.594 quartos de hotel. Imagine na Copa</strong></p>
<p>“Neste mês de junho, todos os hotéis de nível razoável do Rio de Janeiro estarão reservados, praticamente de alto a baixo, para alojar os participantes da Rio+20. A previsão é que as reuniões, que começam no dia 13 e têm seu ponto alto entre os dias 20 e 22, atraiam cerca de 50.000 pessoas à cidade. O Rio dispõe de 31.594 quartos de hotel. Está declarada a guerra por hospedagem, mais acirrada ainda pelas rivalidades – pessoais, diplomáticas, de hierarquia – embutidas num encontro dessa magnitude. ‘Estamos usando a imaginação. Por exemplo, vamos juntar suítes sênior e júnior e criar quartos maiores para os visitantes mais ilustres’, explica o presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação, Alexandre Sampaio.” <strong>(Helena Borges, Veja, 9/5/2012.)</strong></p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Como os viciados, eles sempre voltam ao tema predileto: o controle da imprensa</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>* “Depois dos bancos, governo enfrentará a mídia, diz presidente do PT”</strong></p>
<p>“Depois de deflagrar a cruzada contra o sistema financeiro privado e a cobrança de juros elevados no País, o governo da presidente Dilma Rousseff poderá colocar em discussão o polêmico tema do marco regulatório da comunicação. A informação foi dada ontem (<em>sexta, 4/5</em>), pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, durante discurso em evento sobre estratégia eleitoral do PT nesta campanha municipal, em Embu das Artes, São Paulo. ‘Este é um governo que tem compromisso com o povo e que tem coragem para peitar um dos maiores conglomerados, dos mais poderosos do País, que é o sistema financeiro e bancário. E se prepara agora para um segundo grande desafio, que iremos nos deparar na campanha eleitoral, que é a apresentação para consulta pública do marco regulatório da comunicação’, disse o dirigente petista em seu pronunciamento.</p>
<p>“Segundo Falcão, ‘a mídia é um poder que está conjugado ao sistema bancário e financeiro’. No discurso, ele frisou: ‘(A mídia) É um poder que contrasta com o nosso governo desde a subida do (ex-presidente) Lula, e não contrasta só com o projeto político e econômico. Contrasta com o atual preconceito, ao fazer uma campanha fundamentalista como foi a campanha contra a companheira Dilma (nas eleições presidenciais de 2010) que saiu dos temas que interessavam ao país para recuar no obscurantismo, na campanha de reforço da direita que hoje está sendo exposta aí, inclusive agora, provavelmente nas próximas duas semanas com a nomeação dos sete nomes da Comissão da Verdade que vai passar a limpo essa chaga histórica que nós vivemos.’ E continuou: ‘(A mídia) produz matérias e comentários não para polarizar o País, mas para atacar o PT e nossas lideranças.’ ‘O poder da mídia, esse poder nós temos de enfrentar.’</p>
<p>“A presidente Dilma Rousseff herdou do governo Lula o anteprojeto de criação do marco regulatório das comunicações, elaborado pelo então ministro da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins, e apresentado durante a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em 2010, determinando ‘criação de instrumentos de controle público e social’ da mídia. Em razão da polêmica que o tema gerou, Dilma determinou que o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, fizesse um pente-fino no texto para evitar tópicos que possam indicar censura ou controle de conteúdo.” <strong>(Guilherme Waltenberg e Daiene Cardoso, <em>Estadão</em>, 5/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* A indisfarçável tentativa de atemorizar a imprensa profissional</strong></p>
<p>“Blogs e veículos de imprensa chapa branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista <em>Veja</em>, na esteira do escândalo Cachoeira/Demóstenes/Delta.</p>
<p>A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo.</p>
<p>“É indisfarçável, ainda, a tentativa de atemorização da imprensa profissional como um todo, algo que esses mesmos setores radicais do PT têm tentado transformar em rotina nos últimos nove anos, sem sucesso, graças ao compromisso, antes do presidente Lula e agora da presidente Dilma Rousseff, com a liberdade de expressão. A manobra se baseia em fragmentos de grampos legais feitos pela Polícia Federal na investigação das atividades do bicheiro Carlinhos Cachoeira, pela qual se descobriu a verdadeira face do senador Demóstenes Torres, outrora bastião da moralidade, e, entre outros achados, ligações espúrias de Cachoeira com a construtora Delta.</p>
<p>“As gravações registraram vários contatos entre o diretor da Sucursal de <em>Veja</em> em Brasília, Policarpo Jr, e Cachoeira. O bicheiro municiou a reportagem da revista com informações e material de vídeo/gravações sobre o baixo mundo da política, de que alguns políticos petistas e aliados fazem parte. A constatação animou alas radicais do partido a dar o troco. O presidente petista, Rui Falcão, chegou a declarar formalmente que a CPI do Cachoeira iria ‘desmascarar o mensalão’.</p>
<p>“Aos poucos, os tais blogs começaram a soltar notas sobre uma suposta conspiração de <em>Veja</em> com o bicheiro. E, no fim de semana, reportagens de TV e na mídia impressa chapas brancas, devidamente replicados na internet, compararam Roberto Civita, da Abril, editora da revista, a Rupert Murdoch, o australiano-americano sob cerrada pressão na Inglaterra, devido aos crimes cometidos pelo seu jornal <em>News of the World</em>, fechado pelo próprio Murdoch. Comparar Civita a Murdoch é tosco exercício de má-fé, pois o jornal inglês invadiu, ele próprio, a privacidade alheia.” <strong>(Editorial, <em>O Globo</em>, 8/5/2012.)</strong></p>
<p><strong>* O Falcão do PT parece o da ditadura. Só que o ditadura não declarava nada, e se poupava de dizer bobagens</strong></p>
<p>“Falando durante reunião de dirigentes do partido realizada na semana passada em Embu das Artes, na Grande São Paulo, o Falcão do PT demonstrou mais uma vez que sua aversão à imprensa livre é exatamente a mesma que cultivava o Falcão da ditadura militar &#8211; o Armando. Com a diferença de que este, às vezes, se poupava de proclamar bobagens, recorrendo ao ‘nada a declarar’.</p>
<p>No Embu, o Falcão petista deixou a imaginação correr solta e deitou falação, mais uma vez, contra essa mania que a mídia tem de falar mal de seu partido. Para esse destemido defensor da mordaça, a mídia ‘é um poder que contrasta com o nosso governo desde a subida do Lula’, e também ‘ao fazer uma campanha fundamentalista como foi a campanha contra a companheira Dilma’. E enfatizou: ‘O poder da mídia, esse poder nós temos de enfrentar’. O que significa que, para Falcão, a imprensa ou apoia o governo ou está condenada à danação eterna. É exatamente o que pensava o Falcão da ditadura militar.” <strong>(Editorial, <em>Estadão</em>, 10/5/2012.)</strong></p>
<blockquote><p><em>11 de maio ede 2012</em></p>
<p><em>Outros apanhados de provas de incompetência de Dilma e do governo:</em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/mas-noticias-do-pais-de-dilma-30/"><strong>Volume 30 – Notícias de 25/11 a 1º/12</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/mas-noticias-do-pais-de-dilma-31/"><strong>Volume 31 – Notícias de 2 a 8/12. </strong></a></em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/mas-noticias-do-pais-de-dilma-32/"><strong><em>Volume 32 – Notícias </em> <em>de 9 a 15/12.</em></strong></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/mas-noticias-do-pais-de-dilma-33/"><strong>Volume 33 – Notícias 16 a 29/12.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-34/"><strong>Volume 34 – Notícias de 30/12/2011 a 5/1/2012.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-35/"><strong>Volume 35 – Notícias de 6 a 12/1.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-36/"><strong>Volume 36 – Notícias de 13 a 19/1. </strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-37/"><strong>Volume 37 – Notícias de 20/1 a 26/1.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-38/"><strong>Volume 38 – Notícias de 27/1 a 2/2. </strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-39/"><strong>Volume 39 – Notícias de 3 a 9/2. </strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-40/"><strong>Volume 40 – Notícias de 10 a 23/2.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-41/"><strong>Volume 41 – Notícias de 24/2 a 1º/3.</strong></a></em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-43/"><strong><em>Volume 42 – Notícias de 2 a 8/3. </em></strong></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-43/"><strong>Volume 43 – Notícias de 9 a 15/3. </strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-44/"><strong>Volume 44 – Notícias de 16 a 22/3.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-45/"><strong>Volume 45 – Notícias de 23 a 29/3.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-46/"><strong>Volume 46 – Notícias de 30/3 a 5/4. </strong></a> </em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-47/"><strong>Volume 47 – Noticias de 6 a 12/4. </strong></a></em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-48/"><em><strong>Volume 48 – Notícias de 13 a 19/4. </strong></em></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-49/"><strong><span style="color: #333333;">Volume 49 – Notícias de 20 a 26/4.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/mas-noticias-do-pais-de-dilma-50/">Volume 50 &#8211; Notícias de 27/4 a 3/5. </a></em></p></blockquote>
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		<title>Orra, meu: magina de pipo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 03:29:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra. Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui. “Magina de pipo&#8221;, letra e música de André Abujamra, do disco Infinito de Pé, de 2004. André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Magina de Pipo” é uma das mais deliciosas canções que já foram escritas na face da Terra.<span id="more-6979"></span></p>
<p>Magina o quê?, poderiam perguntar os oito leitores que viessem parar aqui.</p>
<p>“Magina de pipo&#8221;, letra e música de André Abujamra, do disco <em>Infinito de Pé</em>, de 2004.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzkarnak1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6993" title="zzkarnak1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzkarnak1.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a>André Abujamra é um desses gênios dos novos tempos, em que há tanta coisa sendo criada e lançada no mercado que não dá mais para separar o melhor trigo em meio a tanto joio. É joio demais – e é até trigo demais.</p>
<p>Nos anos 60, houve uma explosão de talentos: Edu, Chico, Caetano, Gil, Milton, Sidney Miller, Paulinho da Viola.</p>
<p>O país inteiro os acompanhava.</p>
<p>Depois dos anos 90, tudo se estilhaçou. Há uns 78 tipos de música sendo feitos no Brasil, uns 438 no mundo. É absolutamente impossível conhecer tudo. O que era amplo, geral e irrestrito virou uma grande quantidade de nichos.</p>
<p>Faz muito tempo que deixei de tentar acompanhar tudo o que surge de bom na música popular, brasileira ou internacional. Não dá – é impossível, é coisa demais.</p>
<p>Mas há algumas coisas tão extraordinariamente boas que a gente acaba conhecendo – mesmo quem, como eu, é cada vez mais pré-antigo num mundo pós-moderno.</p>
<p>André Abujamra é uma dessas coisas.</p>
<p>Não conheci o Mulheres Negras, formado em 1985 pelo André e Maurício Pereira. Só fui conhecer o André na sua fase Karnak, que me foi apresentado pela minha filha. O Karnak é genial, faísca de talento saindo pelo ladrão. Em seus dois discos, de 1995 e 1997, fez algumas canções extraordinárias, da melhor qualidade: “Alma não tem cor”, “O Mundo”, “Espinho na Roseira/Drumonda” são algumas das melhores canções feitas nos anos 90 que ouvi.</p>
<p>André tem um tipo peculiar de humor. Mistura, como numa salada, assertivas sérias, seriíssimas, com frases que parecem babacas, bobocas. Em “Alma não tem cor” e “O Mundo”, faz panfletos contra todos os racismos, todas as discriminações – mas panfletos em forma de piada gostosa.</p>
<p>Em “Magina de Pipo” ele faz o seu hino da utopia. Um hino piada, que ri dele próprio.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>A música brasileira e o bom humor sempre se deram bem. Houve muita fossa, muito, como diria Regina Berlim, kit gilete na música brasileira – Dolores Duran, Maysa, Antônio Maria –, mas sempre houve bom humor, gozação, tiração de sarro. Noel, o gigante Noel, era um grande sarrista. Lamartine Babo era tão ou mais irreverente, engraçado, escrachado, gozador, que no cinema são Mel Brooks e Woody Allen.</p>
<p>A Tropicália foi, entre muitas outras coisas, um movimento bem humorado, apesar de ter surgido (ou por isso mesmo) na ditadura, nos tempos mais sombrios da nossa História recente. TomZé sempre foi um grande gozador. Os Mutantes foram gozadores homéricos – gozaram de maneira espalhafatosa, melbrooksiana, uma das maiores glórias do cancioneiro nacional, “Chão de Estrelas”. Tropicália, o disco, gozava tudo – inclusive Vicente Celestino e o coração materno que quicava na estrada.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Uma década depois do Tropicalismo, o Rumo trouxe de volta o bom humor dos mestres, Noel, Lamartine, e ainda acrescentou o seu próprio humor – ferino, inteligente, letrado, estudado, uspianizado.</p>
<p>E não é que a união música-bom humor seja uma coisa brasileira. De forma alguma. Ainda nos anos 70, o conjunto argentino Les Luthiers fez música cômica da melhor qualidade – gozando tudo que vinha pela frente, inclusive a música brasileira, a bossa nova, a eterna saudação do é sol, é sal, é sul.</p>
<p>Muito mais recentemente, teve e tem Kevin Johansen, mezzo porteño, mezzo Alasca – mas nada a ver com Sarah Palin, muito ao contrário.</p>
<p>E agora mesmo tem o Fernandez Fierro, o conjunto (a banda?) de tango pós-tudo, que tem quatro bandoneons e quatro violinos, para fazer um som que deixaria Piazzolla de queixo caído. Fernandez Fierro faz avançar o tango como se ele tivesse – como diz o Caetano em relação à música brasileira – uma linha evolutiva. É o tango pós-Piazzolla, se é que isso pode haver. (Ouvindo um e outro, penso que Piazzolla é mais avançado que os bravos garotos do Fernandez Fierro – mas talvez isso seja só uma visão de um velhinho conservador.)</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Vixe! Acho que viajei um pouco.</p>
<p>Eu só queria fazer um elogio a “Magina de Pipo”.</p>
<p>A pérola, enão, como eu dizia, foi gravada num disco de 2004, <em>O Infinito de Pé</em>. Pós Mulheres Negras, pós Karnak, André Abujamra fazia um disco dele mesmo.</p>
<p>A 14ª faixa é “Magina de pipo”.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzar-a.png"><img class="alignright size-full wp-image-6994" title="zz,ar a" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzar-a.png" alt="" width="589" height="434" /></a>“Magina de Pipo”, uma belíssima, ousadíssima gozação de “Imagine”, de John Lennon, começa com um monte de cordas. Paul McCartney fazia isso, por que André Abujamra não poderia?</p>
<p>Vem então um dueto de André Abujamra com Miriam Maria, cantando várias vezes a frase “magina de pipo”.</p>
<p>André é um ator, um artista multimídia. Quando quer, sabe fazer uma voz bonita.</p>
<p>Miriam Maria tem um timbre de voz de anjo.</p>
<p>Os dois ficam repetindo as palavras “magina de pipo”.</p>
<p>Não é comum alguém gozar um herói com toda a aparência de que está acima de qualquer suspeita. Gozar a cara de John Lennon, que virou um emblema como o Che, é enfrentar jogo pesado. É preciso coragem. André tem, de sobra.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Não tem graça alguma este texto se o eventual leitor não conhecer &#8220;<a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/14-Magina-de-Pipo3.m4a">14 Magina de Pipo</a>&#8220;, ou não puder conhecê-la na internet.</p>
<p>Parece, no entanto, que ela não está.</p>
<p>As canções de André Abujamra que citei lá pra cima estão disponíveis no YouTube. “Magina de pipo” não está.</p>
<p>Um absurdo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Eis aí a letra da canção.</p>
<p>Maysa, Antônio Maria e Dolores Duran certamente morreriam de inveja dos versos que falam da separação.</p>
<p>Eu sinto uma inveja danada é do letra inteira. Gostaria de ter escrito estes versos maravilhosos. A bela canção, a melodia, bem, esta eu jamais saberia como fazer.</p>
<p><em><strong>Magina de Pipo</strong></em></p>
<p><em>André Abujamra</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.</em></p>
<p><em>Deus fez o homem, colocou o sentimento</em></p>
<p><em>Deus fez o céu, fez o mar e o firmamento.</em></p>
<p><em>Deus fez o homem, colocou o sentimento</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ai meu Deus, como dói meu coração</em></p>
<p><em>Separação é pior que morte</em></p>
<p><em>Só que o fantasma é de carne e osso</em></p>
<p><em>e ainda vai casar com outro moço</em></p>
<p><em>Ai meu Deus, como dói meu coração</em></p>
<p><em>Separação é pior que morte</em></p>
<p><em>Só que o fantasma é de carne e osso</em></p>
<p><em>e ainda vai casar com outro moço</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Foi, foi, foi,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p><em>Foi, foi, foi,</em></p>
<p><em>Dói, dói, dói,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão</em></p>
<p><em>mas ficou a mancha negra no fundo do coração</em></p>
<p><em>Depois da tempestade vem a luz, vem o clarão</em></p>
<p><em>mas ficou a mancha negra no fundo do coração</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Se eu pudesse mudar o mundo ia fazer você me amar</em></p>
<p><em>ia trocar a cor do céu, ia trocar a cor do mar</em></p>
<p><em>Os bichos iam falar, quem tivesse fome ia poder se alimentar</em></p>
<p><em>não haveria religião e eu mudaria o gosto do pimentão</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Não teria câncer, anemia</em></p>
<p><em>e eu tiraria semente da melancia</em></p>
<p><em>não teria classe social, não teria guerra, não teria arma mortal</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>(recitado) Se não tivesse tristeza só teria alegria, mas depois de um certo tempo ficaria uma porcaria</em></p>
<p><em>por isso se eu pudesse não tiraria nem o sofrimento nem a dor</em></p>
<p><em>pra que quando viesse a felicidade sentíssemos o sabor do amor</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<p><em>Magina de pipo, magina de pipo</em></p>
<blockquote><p><em>Maio de 2012</em></p></blockquote>
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		</item>
		<item>
		<title>Roubar pode, só não pode embolsar o roubo</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/roubar-pode-so-nao-pode-embolsar-o-roubo/</link>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 16:45:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Peixe morre pela boca. Só não é assim quando o peixe é petista e goza de algum prestígio junto ao dono do partido, o ex Lula. Os absurdos ditos ficam por não ditos. Pior, são tidos como normais e não como absurdos. A pérola da semana veio do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), que, ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Peixe morre pela boca. Só não é assim quando o peixe é petista e goza de algum prestígio junto ao dono do partido, o ex Lula. Os absurdos ditos ficam por não ditos. Pior, são tidos como normais e não como absurdos.<span id="more-6969"></span></p>
<p>A pérola da semana veio do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), que, ao apontar diferenças entre o mensalão e o caso do contraventor Carlos Cachoeira, considerou menor o crime de roubar quando o fruto do roubo não vai para o bolso do ladrão. &#8220;Não há entre todos os réus do mensalão um acusado de apropriação particular do recurso&#8221;, garantiu, com peculiar soberba, em entrevista ao site Consultor Jurídico. Como se isso alterasse a tipificação do crime pelo qual ele e outros 35 são acusados.</p>
<p>E foi ainda mais longe ao citar a Land Rover de Silvio José Pereira, o Silvinho, único da turma que teria embolsado propina. Ao que parece, se o carro de luxo fosse para o partido, tudo bem. Crime eleitoral, um &#8220;erro que o PT corrigiu&#8221;.</p>
<p>Político experiente, exercendo seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados, casa que presidiu de 2003 a 2005, Cunha deveria saber que certas coisas podem ser pensadas, nunca ditas. Outras nem mesmo poderiam ser pensadas.</p>
<p>Mas como tudo é dito com a deliberada intenção de minimizar o mensalão, tudo bem. Insiste-se na tecla de que o pagamento periódico a aliados não passou de caixa 2, um pecado que todo mundo comete. O refrão, lançado por Lula na inesquecível entrevista de Paris, tem de ser repetido, repetido mais uma vez e de novo. Assim, quem sabe, vira verdade. Esse foi o papel de Cunha.</p>
<p>Em 2006, Cunha quase foi cassado. Perdeu na Comissão de Ética, ganhou no plenário. Não quer, de forma alguma, que volte à tona o saque em espécie que sua mulher fez no Banco Rural do Brasília Shopping. Muito menos a singela desculpa que deu à época: ela foi ao banco pagar uma conta de TV a cabo.</p>
<p>Mentiu lá e mente agora. Afinal, já deu certo e pode dar de novo.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi publicado originalmente no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 6/5/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>A descoberta de um novo amor</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 16:04:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Como um raio que nos enche de emoção, a paixão inesperada às vezes nos invade e revolve nosso coração, nosso corpo, nossa sensibilidade. Damos e recebemos choques que não machucam, apenas arrepiam, estremecem e alegram. Geralmente acontece com um casal que se revela em comunhão de sentidos. Mas pode ser um amigo que entra em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como um raio que nos enche de emoção, a paixão inesperada às vezes nos invade e revolve nosso coração, nosso corpo, nossa sensibilidade. Damos e recebemos choques que não machucam, apenas arrepiam, estremecem e alegram.<span id="more-6966"></span> Geralmente acontece com um casal que se revela em comunhão de sentidos. Mas pode ser um amigo que entra em nossa vida como uma dádiva, um irmão. Os primeiros momentos desse terremoto sentimental são indeléveis, impossível esquecer esse arrebatamento.</p>
<p>Pode ser a felicidade de ter nos braços, pela primeira, os filhos que o amor e a vida nos deram, esse sentir intransferível, inexplicável. Só quem passa pela mesma experiência pode entender. Os primeiros tempos de quem adquire a paternidade mudam a existência da pessoa, o que pode ser notado por todos, na rua, no trabalho ou em casa. E quem incorpora com força esses acontecimentos pode levar para sempre esse sentimento eterno de alegria, o que será muito bom para quem circula ao seu redor. Isso se acentua, mais tarde, com a chegada dos netos, motivo de inveja justa para quem não os possui.</p>
<p>Mas não é só nas relações pessoais que isso ocorre. Nunca fui o mesmo depois de bater de frente com a poesia. Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca e tantos outros admiráveis autores, no instante primeiro da revelação que tomou conta de mim, me provocaram esse tipo de distúrbio benigno que o leitor tem diante do inusitado. O que mesmo se deu no dia em que vi o filme <em>Oito e Meio</em>, de Fellini. Essa luz que acende em nós a estrada da beleza artística permanece, ao longo nos anos, com seu clarear constante e não nos abandona, nos orienta.</p>
<p>É o que está acontecendo, nestes dias, com o Leo, talentoso amigo uruguaio, produtor musical preciso, exato, em suas escolhas. Acabou de nos oferecer, junto com seu parceiro, Ronaldo Bastos, o CD <em>Liebe Paradiso</em>, obra-prima irretocável, mas que toca os que amam a boa música popular do Brasil.</p>
<p>Leo está passando por um tempo de espanto. Por obra da quantidade de artistas que gravam no país e pelo mau gosto explícito dos nossos meios de comunicação, só agora, nestes dias, ele conheceu a obra de um compositor de qualidade rara, o nosso Tavinho Moura, de harmonias e melodias supimpas. Eletrizado por esse mundo novo que se abriu aos seus ouvidos, ele passa os dias e as noites ouvindo, apreendendo e buscando entender os mistérios do compositor mineiro. Imagino a felicidade dele, envolvido nessa viagem que é uma floresta de beleza e de uma diversidade incomum.</p>
<p>Acabei de lhe enviar o único CD que ele não tinha, O aventureiro do São Francisco, que tem parcerias com Gonzaguinha, Milton, Murilo Antunes, Márcio Borges e este humilde escritor de canções que lhes fala. As ideias devem estar fervendo na cabeça do Leo e daí certamente virá coisa boa, de espantar.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em abril de 2012.</em></p></blockquote>
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		<title>A alegria epiléptica</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/a-alegria-epileptica/</link>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 17:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[É afro­di­síaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afro­dite. Falo da grande ale­gria, daquela que já não cabe no corpo, dessa ale­gria que nos estre­mece, enche e esva­zia os pul­mões. A ale­gria con­vulsa. Ima­gi­nem um campo de pri­si­o­nei­ros. Jim, um miúdo inglês, cres­ceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois cor­ré­cios ame­ri­ca­nos. Cres­ceu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É afro­di­síaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afro­dite. Falo da grande ale­gria, daquela que já não cabe no corpo, dessa ale­gria que nos estre­mece, enche e esva­zia os pul­mões. A ale­gria con­vulsa.<span id="more-6961"></span> Ima­gi­nem um campo de pri­si­o­nei­ros. Jim, um miúdo inglês, cres­ceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois cor­ré­cios ame­ri­ca­nos. Cres­ceu entre o des­dém e a humi­lha­ção dos guar­das japo­ne­ses.</p>
<p>O campo de pri­si­o­nei­ros já é o deserto de toda ale­gria. Mas o campo de pri­si­o­nei­ros que sofre o ata­que da nossa pró­pria avi­a­ção é o pan­de­mó­nio dos sen­ti­men­tos, a lágrima de san­gue que trans­borda do cálice. Só o Pai que sabe­mos tem a cru­el­dade de dar esse cálice a um Filho. É o que acon­tece em <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/1988/imperio-do-sol-empire-of-the-sun/">Empire of the Sun</a></em>, filme de Ste­ven Spi­el­berg. Há um ata­que ali­ado. Um Chris­tian Bale novi­nho, o actor que dá corpo a Jim, corre eufó­rico para o telhado meio-destruído de uma das cons­tru­ções do campo de con­cen­tra­ção.</p>
<p>Lá em cima, salta, abraça-se a si mesmo, treme de exci­ta­ção, res­pira forte para não sufo­car e explode num grito e num riso epi­lép­ti­cos. O mundo suspende-se, o movi­mento quase pára para dei­xar voar a beleza fan­tás­tica de um avião de fogo e morte.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzempire0.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6962" title="zzempire0" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/05/zzempire0.jpg" alt="" width="615" height="407" /></a></p>
<p>O pin­dé­rico ingle­si­nho sobre­vi­vente berra: “P-51 Cadil­lac of the skies”. Vénus quando era vir­gem, Deus nosso senhor, a ino­mi­ná­vel Beleza, não seriam sau­da­dos com mais exal­ta­ção e exul­ta­ção. Jimmy salta de cos­tas, salta de frente, enquanto as bom­bas reben­tam com tudo à sua volta. “P-51 Cadil­lac of the skies”, ó ale­gria de um catano: o fogo, a morte, a des­trui­ção, sabem-lhe a vitó­ria. O avião dos seus sonhos, que os seus dedos quase tocam fisi­ca­mente, arrasa o mundo em escom­bros onde sobre­vive. Tudo morre, mas tudo morre para que ele renasça. A ale­gria con­vulsa, epi­lép­tica, é pri­vi­lé­gio de cri­ança. Tem de ser inau­gu­ral. Lembro-me da minha pri­meira vez, dos sin­to­mas e do devas­ta­dor ata­que. Conto.</p>
<p>A pri­meira vez que eu vi mesmo o mar foi já no meio do Oce­ano Atlân­tico. De Angola, o meu pai cha­mava os meus 5 anos e lá iam eles agar­ra­dos à saia da minha mãe e a toque de caixa da minha irmã. O pouca-terra, pouca-terra, numa tarde de cere­jas ver­me­lhís­si­mas, trouxera-nos da Beira fria, farta e feia. Em Lis­boa, Cais da Rocha, tínha­mos entrado no Vera Cruz, então sofis­ti­cado tran­sa­tlân­tico. Des­ce­mos logo ao cama­rote e quando vol­tá­mos a subir – no dia seguinte? –cercava-nos um vasto tapete ondu­lado, de um azul inú­til e livre. Flu­tuá­va­mos num infi­nito len­çol osci­lante: Hou­dini tinha escon­dido a terra.</p>
<p>Os pul­mões não me cabiam no peito de con­ten­tes; em riso e lágri­mas até pelos olhos os pul­mões me saíam. Dizem que é a ple­ni­tude. Gos­tava de me lem­brar melhor, se era igual o azul de céu e mar, se havia vento, quase nenhu­mas nuvens, e se can­ta­vam sereias ou sonhava já contigo.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://aeiou.expresso.pt/"><strong><span style="color: #333333;">O Expresso</span></strong></a>.</em></p>
<p><em>msfonseca@netcabo.pt</em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia</em></p></blockquote>
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		<title>Carlos Cachoeira, cidadão honesto e trabalhador</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/carlos-cachoeira-cidadao-honesto-e-trabalhador/</link>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 00:18:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Se alguém disser a Carlos Cachoeira que é um bandido e deve ser preso, ele acha graça. Não é cinismo. Esse Carlos Cachoeira é pessoa de bem. Só tem o mesmo nome do outro, o poderoso bicheiro, cheio de tentáculos, investigado pela CPI do Congresso. Carlos Cachoeira Ibanez é contador, casado, com filhos. Mora em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se alguém disser a <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/o-cachoeira-do-itaim-bibi/">Carlos Cachoeira</a> que é um bandido e deve ser preso, ele acha graça. Não é cinismo. Esse Carlos Cachoeira é pessoa de bem. Só tem o mesmo nome do outro, o poderoso bicheiro, cheio de tentáculos, investigado pela CPI do Congresso.<span id="more-6957"></span></p>
<p>Carlos Cachoeira Ibanez é contador, casado, com filhos. Mora em Interlagos, na zona sul de São Paulo. Diz que procura manter o humor, porque as brincadeiras são inevitáveis. “Até minha professora de espanhol faz piada. Fica dizendo para eu desviar dinheiro para a conta dela.”</p>
<p>O que Carlos não gostaria mesmo nada é que o chamassem pelo diminutivo, como se faz com o bicheiro. “Graças a Deus não me chamam de Carlinhos.”</p>
<p>Estas poucas palavras foram tudo o que Carlos disse. Como outros Cachoeira procurados pelo <em>DC</em>, não quis saber de reportagem, muito menos com família, fotos. O propósito da pauta era mostrar como vivem os Cachoeira comuns, trabalhadores e honrados. Um contraponto a Carlinhos Cachoeira, o bicheiro. Mas a simples referência a este nome parece causar arrepios.</p>
<p>Um empresário do Cambuci enviou esta resposta: “Obrigado pelo contato, mas gostaríamos de ficar anônimos.” Um vereador de cidade do sul da Bahia, que criou página na internet sobre os Cachoeira, despistou o repórter por dois dias.</p>
<p>Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, vive uma Cachoeira, empresária, que busca as origens de sua família. Ela informou que ainda não chegou a resultados. E sobre pedido de entrevista: “A respeito da pessoa que usa Cachoeira como apelido, lamento, mas pela repercussão do caso, qualquer exposição na mídia, mesmo para mostrar que não existe conexão com os verdadeiros Cachoeira, é uma ideia que não me agrada”.</p>
<p>Em São Paulo, Rodrigo Cachoeira, 22 anos, técnico em edificações, foi ao ponto: “Ter o nome exposto fica ruim para a família Cachoeira.” A exposição do nome no noticiário o exaspera. “Fico bravo com isso, esse sujeito (o bicheiro) estar sujando o nosso nome”. Pois, afinal, “quando falam Cachoeira no noticiário, as pessoas que nos conhecem podem pensar ‘será que é parente do Cachoeira’?”</p>
<p>A situação, para Rodrigo, é ainda mais grave, “quando se sabe que o sujeito não se chama Cachoeira, é apenas um apelido.” A família mora na Ponte Rasa, na região da Penha, zona leste de São Paulo. Em curta conversa por telefone, Rodrigo diz que seu avô paterno veio da Bahia.</p>
<p>Não tem mais detalhes. Sabe apenas que, em São Paulo, o avô se instalou como feirante. Teve sete filhos. Um deles, o pai de Rodrigo, é metroviário. Teve, por sua vez, seis filhos.</p>
<p>Rodrigo conta que é chamado pelos amigos de Cachoeira. “Eu gosto, é um nome bonito.” Se num lugar público, uma lanchonete, chamam seu nome, todo mundo olha? “Não sei, nunca notei.” Ele pesquisou nas redes sociais, e encontrou cinco pessoas com seu nome e sobrenome. “É uma família grande, mesmo. Será que aqueles são meus primos?”</p>
<p>A advogada aposentada Zenaide Cachoeira da Silva, que mora na Liberdade, perdeu o pai há 17 anos. Sabe que sua família veio de Vitória da Conquista, na Bahia, a 512 quilômetros de Salvador. O pai era agricultor, e aqui trabalhou como taxista.</p>
<p>Zenaide diz não ter “interesse especial” pelo noticiário sobre Carlinhos Cachoeira, o bicheiro. “Também não me preocupo com o nome dele, não tem nada a ver com a família Cachoeira. Cada um responde por seus atos.”</p>
<p>Há dois anos, o gol de um craque deu ao ABC de Natal, no Rio Grande do Norte, o título mais importante do Estado. Sagrou-se campeão brasileiro da série C. O jogador por pouco não se inclui entre os que têm relação com o nome Carlinhos Cachoeira. Estamos falando, neste caso, do atacante Cascata.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio</p></blockquote>
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		<title>O Cachoeira do Itaim-Bibi</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2012/o-cachoeira-do-itaim-bibi/</link>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 00:12:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Parece improvável, mas nunca se sabe, que Carlinhos Cachoeira venha a ter uma rua batizada com seu nome. Já João Cachoeira, que abria a porteira para o patrão passar, deu nome à mais conhecida rua do Itaim Bibi – o valorizado bairro no sudoeste de São Paulo. Cachoeira, o Carlinhos, era filho de um motorista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Parece improvável, mas nunca se sabe, que <a href="http://50anosdetextos.com.br/2012/carlos-cachoeira-cidadao-honesto-e-trabalhador/">Carlinhos Cachoeira</a> venha a ter uma rua batizada com seu nome. Já João Cachoeira, que abria a porteira para o patrão passar, deu nome à mais conhecida rua do Itaim Bibi – o valorizado bairro no sudoeste de São Paulo.<span id="more-6954"></span></p>
<p>Cachoeira, o Carlinhos, era filho de um motorista de caminhão que morava com a mulher e uma penca de filhos em uma fazenda de Araxá, Minas Gerais. O nome da fazenda era Cachoeira. O motorista chamava-se Sebastião Almeida Ramos, mas ficou conhecido como Tião Cachoeira.</p>
<p>Certo dia, Tião Cachoeira resolveu mudar de profissão e de cidade. Assim chegou a Anápolis, Goiás, com a família. Trabalhou um pouco como camelô, mas acabou se envolvendo com o jogo do bicho. Fez carreira. De cambista, que anota as apostas, passou a sócio de um bicheiro.</p>
<p>O nosso Cachoeira, o João, vivia em um lugar chamado Chácara do Itahy. As terras não valiam muito, por serem inundáveis. Em compensação, eram um paraíso para caçar e pescar, e apanhar frutas das incontáveis árvores. Cenário propício para um episódio que faria jus a um romance do nosso José de Alencar.</p>
<p>O dono das terras era um general, José Vieira de Couto Magalhães. O general nunca casou; viveu e morreu solteiro. Mas, em certo momento de sua vida, conheceu uma índia do Pará, e se relacionou com ela. Da aventura nasceu um menino, batizado José Couto de Magalhães. Quando o pai morreu, José herdou a chácara. Mas vendeu-a para um tio, irmão do general.</p>
<p>O filho deste, Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, um dos herdeiros, morou na chácara a vida toda.</p>
<p>Hoje dá nome a outra importante rua do Itaim Bibi. Destinos cruzados: a rua corta a João Cachoeira.</p>
<p>João vivia com a família de Leopoldo. O que se registra, hoje, é que era um agregado. Brincava com as crianças, contava histórias e cantava. Um de seus trabalhos era abrir a porteira da chácara, quando alguém da família saía ou chegava. “Mas quando procurado, onde está o João? A resposta era: o João está na cachoeira.”</p>
<p>É isto que conta um estudioso do bairro, o professor Helcias Bernardo de Pádua, presidente da Associação Grupo Memórias do Itaim-Bibi. A cachoeira em questão era uma pequena queda d´água do Córrego do Sapateiro, que corria ali perto. O pequeno curso d’água ainda existe, mas não está mais à vista. Foi canalizado.</p>
<p>Há uma segunda versão, que Helcias considera menos provável. “João era alegre, violeiro e frequentador das vendinhas da época, onde bebia. Ficava sempre numa água só, ou seja, bêbado.” Seja como for, Cachoeira vivia bem. “Era muito querido pela família Couto de Magalhães e grande amigo, desde pequeno, de Leopoldo Couto de Magalhães Júnior.”</p>
<p>O Cachoeira dos escândalos de hoje, Carlinhos, tinha 13 irmãos. Quando seus pais se separaram, ainda nos primeiros tempos, quatro dos filhos ficaram com Cachoeira pai. Um deles, Cachoeira filho &#8211; Carlinhos. Como se disse, estavam em Anápolis. Tião Cachoeira e o sócio expandiram seus domínios do jogo do bicho pela cidade.</p>
<p>Carlinhos demonstrou talento para o negócio. Assumiu a parte do pai e não parou mais. Jogo do bicho, bingo eletrônico, caça-níqueis. Seu império não cabia mais em Anápolis. Mudou para Goiânia, a capital. Enredou políticos, empresários e policiais. A história toda deve ser contada na Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI, em curso no Congresso Nacional.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Um novo convidado para o palco da CPI</title>
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		<pubDate>Fri, 04 May 2012 18:03:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[O PMDB, que ia tão divertido, leve e solto para a CPI do Cachoeira, embora achasse a sua instalação uma insensatez, ganhou alguns motivos para cair em si e colocar alguns pés atrás. Se o maior partido de apoio da base aliada aparentemente só tinha a lucrar com a sua posição de muro de arrimo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O PMDB, que ia tão divertido, leve e solto para a CPI do Cachoeira, embora achasse a sua instalação uma insensatez, ganhou alguns motivos para cair em si e colocar alguns pés atrás.<span id="more-6949"></span></p>
<p>Se o maior partido de apoio da base aliada aparentemente só tinha a lucrar com a sua posição de muro de arrimo de qualquer eventualidade que viesse a incomodar o governo, viu-se de repente na condição de também ter que explicar algumas coisas.</p>
<p>Se não o partido como tal, pelo menos o governador Sérgio Cabral, como uma de suas figuras proeminentes.</p>
<p>As fotos e os vídeos da divertida e breguissima turnê etílico-gastronômico-cultural do governador do Rio, de alguns de seus secretários e do amigo do peito Fernando Cavendish, dono da operosa empreiteira Delta, por luxuosos hotéis franceses, vazados pelo blog do ex-governador Antony Garotinho, introduziram pelo menos mais um complicador no cenário de uma CPI já atrapalhada pela própria natureza.</p>
<p>Além de Demóstenes, carta fora do baralho da sobrevivência política, os grandes vetores da CPI seriam os governadores Marconi Perillo e Agnelo Queiroz, além do próprio Cachoeira e do dono da Delta, Fernando Cavendish.</p>
<p>Junte-se a eles, agora, Sergio Cabral, que deveria explicar não o gosto duvidoso de suas farras , mas a relação promíscua com um contratado para executar obras públicas.</p>
<p>Os primeiros passos da CPI, depois de formada, foram titubeantes. Tentou-se circunscrever o escopo das investigações sobre a Delta às suas atividades no Centro-Oeste, como se fosse possível isolar geograficamente as práticas duvidosas de suas relações com o poder público.</p>
<p>Com um pouco de esforço, derrubou-se essa barreira.</p>
<p>A convocação dos governadores envolvidos foi tratada com luvas de pelica. Ninguém parece querer dar o primeiro passo mais ousado, com medo de provocar o ímpeto revanchista do lado afetado.</p>
<p>Todo mundo parece pisar em ovos e preocupado em evitar um possível efeito bumerangue que redirecione a artilharia para suas próprias tropas.</p>
<p>Se a CPI avançar nesse ritmo, e as investigações forem sendo limitadas às atividades do contraventor Carlinhos Cachoeira e às suas relações com o seu preposto Demóstenes Torres, ela se tornará inútil, porque qualquer investigação policial rotineira poderia dar conta dessa questão.</p>
<p>O único fato novo realmente relevante da questão da CPI é a chegada ao palco do governador Sergio Cabral e seu séquito, que atraiu a atenção sobre as relações promíscuas entre a empreiteira e as autoridades encarregadas de contratá-la e de auditar os contratos.</p>
<p>Embora alguns peemedebistas tenham comemorado o fato de Sergio Cabral ser obrigado a “descer de seu pedestal” para se explicar, o fato é que o partido perdeu a inocência que lhe dava a superioridade tática de poder usar a sua força para conseguir manipular a sua relação de garantidor dos interesses do governo no decorrer da investigação.</p>
<p>Agora está em pé de igualdade com os outros protagonistas.</p>
<p>Se o empenho em blindar Cabral, Perillo, Agnelo e Cavendish continuar, a CPI tenderá a ser uma ação entre amigos onde só perderão os dedos e os anéis aqueles que já os perderam: Cachoeira e Demóstenes.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 4/5/2012.</em></p></blockquote>
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