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	<title>50 Anos de Textos</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Faça-se a luz!</title>
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		<pubDate>Thu, 23 May 2013 01:55:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Maria Helena R.R. de Sousa]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vezes eu me surpreendo pensando em como Galileu, Isaac Newton, Edmond Halley, esses ‘mártires’ da inteligência acima da média, completaram suas obras sem luz elétrica&#8230; Normalmente, esse pensamento absolutamente inútil me ocorre quando falta luz. Meu marido, ao contrário, nem de piada os chamaria de mártires como eu; ele os chamava de abençoados por [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Às vezes eu me surpreendo pensando em como Galileu, Isaac Newton, Edmond Halley, esses ‘mártires’ da inteligência acima da média, completaram suas obras sem luz elétrica&#8230;<span id="more-10069"></span></p>
<p>Normalmente, esse pensamento absolutamente inútil me ocorre quando falta luz. Meu marido, ao contrário, nem de piada os chamaria de mártires como eu; ele os chamava de abençoados por não ter a luz elétrica que, certamente, com tudo que a vida moderna nos oferece, impediria que eles se dedicassem, como se dedicaram, a persistir em seus estudos e pesquisas e depois, com muito sacrifício, à luz de lamparinas ou velas, deixar tudo registrado para o homem do futuro.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzzerupção.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-10070" alt="zzzzzzzerupção" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzzerupção.jpg" width="600" height="450" /></a>O que será que esses três diriam sobre as tempestades solares que a <a href="http://noticias.terra.com.br/ciencia/espaco/nasa-registra-quatro-potentes-erupcoes-solares,136c75434c8ae310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html">Nasa</a> anuncia que virão ainda este ano? Parece que só em 2013 o Sol já teve três erupções violentas.</p>
<p>“Se uma tempestade solar &#8220;extrema&#8221; a caminho da Terra atingi-la de determinada maneira, é possível que coloque em risco redes elétricas interconectadas ao redor do mundo. Além de criar auroras &#8211; austrais e boreais -, esses fenômenos podem provocar a interrupção ou mau funcionamento de uma ampla gama de serviços que utilizam a fundamental energia elétrica, de acordo com especialistas ouvidos na edição deste ano da Electrical Infrastructure Security Summit (Cúpula sobre Segurança na Infraestrutura Elétrica, em tradução livre).&#8221; As informações são do portal Space.com e eu as copiei <a href="http://noticias.terra.com.br/ciencia/espaco/,1b866d6cb07ce310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html?fb_ref=FBRecommPluginTerra">no portal Terra</a>.</p>
<p>O espetáculo que a Natureza nos ofereceria é de uma beleza pungente. Mas não faço a menor questão de auroras austrais ou boreais. O que me importa, de verdade, é apertar o interruptor e inundar minha casa de luz&#8230;</p>
<p>Porque o fato inconteste é que o homem de hoje, sem energia elétrica, está perdido.</p>
<p>Nada funcionaria: nem hospitais, nem escolas, nem indústrias, nem governos, nem bancos, nem a vida familiar, já que conversar é um hábito perdido. Coisa de museu.</p>
<p>O negócio é cada um em seu micro ou em seu celular ou diante de seu aparelho de TV.</p>
<p>É molto male trovato, ma è vero&#8230;</p>
<blockquote><p><em>22 de maio de 2013</em></p>
<p><em>Maria Helena está com blog novo na praça: <a href="http://mariahelenarrdesousa.blogspot.com.br/">mariahelenarrdesousa.blogspot.com.br</a>. </em></p></blockquote>
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		<title>O dr. Ruy chegava anônimo</title>
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		<pubDate>Wed, 22 May 2013 03:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Ruy Mesquita morreu. Ao ler a notícia, travei. E achei estranho isso. Nunca tive qualquer relação com o dr. Ruy Mesquita, seja no jornal O Estado de S. Paulo, em que trabalhei por alguns anos, na sucursal de Brasília e em São Paulo ou fora dele. Mas claro, não era o Ruy Mesquita, mas Mario [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ruy Mesquita morreu. Ao ler a notícia, travei. E achei estranho isso. Nunca tive qualquer relação com o dr. Ruy Mesquita, seja no jornal <i>O Estado de S. Paulo</i>, em que trabalhei por alguns anos, na sucursal de Brasília e em São Paulo ou fora dele. Mas claro, não era o Ruy Mesquita, mas Mario Covas, a quem assessorei por quase 10 anos, fora e dentro do Governo do Estado, que me causou a emoção que senti.<span id="more-10048"></span></p>
<p>Explico.</p>
<p>Rui Mesquita era uma visita frequente quando Covas estava internado no Incor. Esteve lá algumas muitas vezes. Sempre só, quieto, quase imperceptível, não fosse ele Ruy Mesquita. Jamais colocou o nome no livro de visitas que a competente cerimonialista Brasília Arruda Botelho criou para registrar todos que lá iam e que, impedidos pelo estado de saúde do governador, não chegavam perto de Covas, mas ali estavam. Enquanto tinha consciência – e, acreditem ou não foi até pertinho do último dia – Covas gostava de saber quem tinha ido lá. A filha lia os nomes, ele conferia, comentava, gostava.</p>
<p>O nome de Dr. Ruy nunca esteve nesta lista. Mas ele foi lá mais de uma, mais de duas, várias vezes.</p>
<p>Como jornalista do Estadão jamais vi o Dr. Ruy. Antes das idas ao Incor, que fiz questão de ciceronear sem que ele soubesse que eu já tinha trabalhado em seu jornal, estive com ele como assessora de Covas, acompanhando uma daquelas tradicionais visitas de governadores ao jornal.</p>
<p>Ali, na sala da diretoria, vi Covas e Dr. Ruy se digladiarem em torno de ideias. A bem da verdade não lembro o teor do debate, preocupada que estava com as tais relações públicas. Discutiram, foram duros, trocaram divergências, riram e se despediram. Na saída, Covas me disse que admirava democratas da estirpe do Dr. Ruy.  Claro que não disse desse jeito, com essas palavras. Mas didático como gostava de ser, enfatizou o prazer do debate, as diferenças, a riqueza do contraditório.</p>
<p>Covas morreu em 2001. Faz uma falta danada. Dr. Ruy, nesta terça-feira de maio de 2013. Se a democracia já tinha perdido um líder raro, perde agora mais um de seus grandes defensores.</p>
<p>Tempos difíceis virão por aí.</p>
<blockquote><p><em>22 de maio de 2013</em></p></blockquote>
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		<title>O país fica muito mais pobre sem o dr. Ruy</title>
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		<pubDate>Wed, 22 May 2013 03:10:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[A morte do dr. Ruy Mesquita deixa este país muito mais pobre. E, diacho, este país anda mais pobre a cada dia. Jamais quis ser uma pessoa saudosista, nostálgica dos tempos passados. Mas a verdade dos fatos é que este país tem enterrado homens honrados e visto ocupar espaços importantes pigmeus, gnomos. Pouco tempo atrás, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A morte do <a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/o-dr-ruy-chegava-anonimo/">dr. Ruy Mesquita</a> deixa este país muito mais pobre.</p>
<p>E, diacho, este país anda mais pobre a cada dia.<span id="more-10043"></span></p>
<p>Jamais quis ser uma pessoa saudosista, nostálgica dos tempos passados. Mas a verdade dos fatos é que este país tem enterrado homens honrados e visto ocupar espaços importantes pigmeus, gnomos.</p>
<p>Pouco tempo atrás, num fim de noite, puto da vida, escrevi aqui um pequeno texto que mostrava esse descambar, este descer montanha abaixo:</p>
<p><i>1988: Ulysses Guimarães. Mário Covas. André Franco Montoro. Fernando Henrique Cardoso. Fernando Gabeira. José Serra. Geraldo Alckmin. Luís Eduardo Magalhães. Jarbas Passarinho. Sandra Cavalcanti. Cristina Tavares. Euclides Scalco. José Richa. Beth Mendes. Fábio Feldman. Severo Gomes. Fernando Lyra. Florestan Fernandes. Roberto Campos. </i></p>
<p><i>2013:</i><i> </i><i>Renan Calheiros. Henrique Eduardo Alves. Sandro Mabel. Valdemar Costa Neto. Anthony Garotinho. Cândido Vaccareza. Carlos Zarattini. Zeca Dir</i>ceu.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Com o dr. Ruy, vai-se embora toda uma geração que nos ensinou as coisas.</p>
<p>Uma vez, cheguei a imaginar um projeto de memória, de gravar longos testemunhos dos octogenários ou quase, os homens que compreendiam o Brasil. Teriam que ser ouvidos, entre outros, Olavo Setúbal, o melhor prefeito que São Paulo já teve, e o dr. Ruy. Claro que foi só uma idéia, que jamais se concretizou. (<em>A foto é de Silvio Ribeiro/AE.</em>)</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzruy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-10067" alt="zzzzzruy" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzruy.jpg" width="652" height="408" /></a></p>
<p>Estive pouquíssimas vezes com o dr. Ruy.</p>
<p>Trabalhei no <i>Jornal da Tarde</i> de 1970 a 1984, na Agência Estado de 1988 a 1992, na Agência Estado de novo e depois em <i>O Estado de S. Paulo</i> de 1995 a 2006. No total, uns 30 anos.</p>
<p>Bebi boas doses de cachaça com os filhos do dr. Ruy, mas com ele não tive convivência. Uma das minhas lembranças mais fortes dele é a do encontro que Fernando Lima Mitre arrumou entre ele, o dono, e todos nós, os editores, subeditores e chefes de reportagem do <i>Jornal da Tarde</i> no pós-greve de 1979.</p>
<p>O <em>Jornal da Tarde</em>, criado em 1966 para e pelo dr. Ruy, era um jornal tão único, tão sui generis, que até na greve foi diferente. Mitre era o redator-chefe (na época, não se usava o termo diretor de redação); para evitar que o jornal se dividisse entre grevistas e fura-greves, Mitre combinou conosco que todos nós ficaríamos fora da redação enquanto o movimento durasse; ele e mais o secretário de redação, os editorialistas e os filhos do dr. Ruy fariam o jornal.</p>
<p>E assim foi feito. Na noite em que a greve foi aprovada em assembléia no Tuca, fomos, como íamos todas as noites, para o Bar do Alemão, na Avenida Antártica. Lá pelas tantas, Ruyzito, o primogênito, entrou no bar carregando uma dezena de exemplares do jornal, que jogou orgulhoso sobre a grande mesa redonda onde estávamos. A manchete dizia: “Jornalistas em greve”.</p>
<p>Um absoluto vexame: de que serve uma greve de jornalistas se o jornal chega às bancas?</p>
<p>Quando a greve terminou, Mitre, eterno apaziguador, promoveu o encontro entre o capital e o trabalho. <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/historinhas-de-redacao-11-o-capital-e-o-trabalho/">Fomos todos para a casa do dr. Ruy</a> na Rua Angatuba, e bebemos o uísque que ele mandou nos servir.</p>
<p>Muitos anos mais tarde, lá por 2004, e até 2006, tive conversas telefônicas com o dr. Ruy. Foi a época em que Sandro Vaia, então diretor de redação de <i>O Estado de S. Paulo</i>, me botou como editor de texto do jornal. Os editores executivos fazíamos um rodízio de chefia do plantão de fim de semana. Infalivelmente, o dr. Ruy ligava para o chefe do plantão aos sábados para saber como estava a primeira página do jornal de domingo, qual era a manchete, quais eram as principais matérias da Política, da Economia, da Internacional. Eu, já passado do meio século de vida, mais de 30 anos de jornalismo nas costas, me sentia intimidado a cada vez que ele ligava. Muitas vezes dava bronca, reclamava que tal manchete era assunto que não merecia aquele destaque. Perguntava como estávamos dando determinado assunto, insistia em que aquele era um tema importante que deveria ser bem tratado.</p>
<p>Conversar com o dr. Ruy era a parte mais difícil das tarefas que eu tinha como chefe do plantão.</p>
<p>São muito estranhos os caminhos da vida. Quando comecei no jornalismo, como foca de tudo no jornal do dr. Ruy, aos 20 anos de idade, achava os editoriais do jornal, e de seu irmão mais velho, o <em>Estadão</em>, a coisa mais reacionária que existia.</p>
<p>Há alguns anos acho os editoriais do <em>Estadão</em> – sempre supervisionados, e muitas vezes até reescritos pelo dr. Ruy – a melhor coisa que o jornal tem.</p>
<p>O dr. Ruy não mudou, os editoriais não mudaram. Mudou o mundo, mudei eu. Ainda bem.</p>
<p>Temo muito pelo futuro do jornalão sem ele.</p>
<blockquote><p><em>21 e 22 de maio de 2013</em></p></blockquote>
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		<title>Joaquim Barbosa dá bom dia a cavalo</title>
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		<pubDate>Tue, 21 May 2013 02:57:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Convenhamos: a chefia dos três Poderes da República não está sendo ocupada por personalidades dignas dos seus cargos. A presidente da República não consegue sequer se expressar na Língua Portuguesa. Leva chá de cadeira de mais de uma hora do presidente venezuelano eleito por pequeníssima margem, em eleições absolutamente suspeitas. Os próprios partidários dela se [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Convenhamos: a chefia dos três Poderes da República não está sendo ocupada por personalidades dignas dos seus cargos.<span id="more-10038"></span></p>
<p>A presidente da República não consegue sequer se expressar na Língua Portuguesa. Leva chá de cadeira de mais de uma hora do presidente venezuelano eleito por pequeníssima margem, em eleições absolutamente suspeitas. Os próprios partidários dela se orgulham do fato de que o ex conseguiu eleger um poste.</p>
<p>Os presidentes da Câmara de Deputados e do Senado Federal têm muitas contas a acertar com a Justiça. O presidente do Senado e portanto do Congresso Nacional passou pelo vexame ultrajante de ter de renunciar ao mesmo cargo quando era fuzilado por acusações de corrupção.</p>
<p>E o presidente da Suprema Corte fala mais do que a boca.</p>
<p>Seguramente em parte por ter sido o relator do processo do mensalão, por ter tido atitude firme durante o julgamento, por ter atraído as simpatias dos brasileiros que sabem ler, considera-se agora um Ser Superior a tudo isto que está aí.</p>
<p>A empáfia, a soberba, o reizinho na barriga subiram-lhe à cabeça.</p>
<p>Acha que pode tudo, e até mais.</p>
<p>É mercurial, imperial, é dono de todas as verdades. Como Luís XV, como Lula, acha que o Estado é ele.</p>
<p>Diz notícia do portal do Estadão nesta segunda-feira:</p>
<p>“O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, atacou o Congresso Nacional e disse que o Brasil tem partidos &#8220;de mentirinha&#8221;. Segundo Barbosa, o Legislativo é &#8220;dominado pelo Executivo&#8221; e os deputados não representam a população.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>O nobre ministro Joaquim Barbosa, ao fazer essas declarações, a) atenta contra a Constituição, embora presida a Corte à qual cabe lutar pelo respeito a ela, ao proclamar-se contra a independência dos três Poderes, indispensável à existência da democracia, ao imiscuir-se em assuntos que não lhe cabem; b) demonstra, cabalmente, que não está preparado para o cargo que ocupa; e c) presta um imenso, enorme, gigantesco serviço aos mensaleiros.</p>
<p>Os incisos a e b falam por si sós.</p>
<p>Alguma dúvida quanto ao inciso c?</p>
<p>Vamos lá então.</p>
<p>Cada vez que Joaquim Barbosa fala asneiras (e ele fala asneiras todos os dias), ele se demonstra o que é: uma figura mercurial, imperial, dona da verdade. Não preparado para o cargo que ocupa. Sujeito figadal, dado a ódios virulentos.</p>
<p>Fornece, assim, excelentes argumentos para os mui nobres causídicos que representam os quadrilheiros do mensalão.</p>
<p>E, epa!, não são causídicos inexperientes, novatos, frouxos. Muito ao contrário. Um deles é apenas e tão somente o ex-ministro da Justiça do governo Lula, que era ministro enquanto agia a quadrilha dos mensaleiros. O experientíssimo criminalista que ensinou Lula a transformar o mensalão no crime muito menor do caixa 2. O criminalista, um dos melhores do Brasil, se não o melhor, que deu a dica para que Lula concedesse aquela entrevista grotesca nos jardins parisienses para uma repórter que não trabalhava em lugar algum e dissesse, candidamente, que, pô, gentinha boa, a gente só fez o que todo mundo faz, o caixa 2.</p>
<p>Ou uma, ou outra.</p>
<p>Ou bem o ministro Joaquim Barbosa deixou subir-lhe à cabeça a empáfia, a soberba, o reizinho na barriga, ou então ele combinou tudo de antemão, e está falando tanta asneira assim para garantir que os advogados dos mensaleiros consigam provar que na verdade o julgamento foi mesmo um tribunal de exceção, e portanto todos devem ser imediatamente inocentados.</p>
<p>Tá bom. Existe uma terceira opção. O ministro Joaquim Barbosa é o que há de bom, é o brasileiro mais corajoso que existe – e então por que não elegê-lo presidente em 2014?</p>
<p>Bem, partido não falta. Temos aí uns 50. Temos quase tantos partidos quanto ministérios.</p>
<blockquote><p><em>20 de maio de 2013</em></p></blockquote>
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		<title>Dilma, a neoliberal</title>
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		<pubDate>Mon, 20 May 2013 17:06:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Há tempos Dilma Rousseff não tinha uma semana de tantas boas novas. Colheu o sucesso da 11ª rodada de licitação de petróleo e gás, a primeira realizada em cinco anos, e aprovou a MP dos portos, ainda que a penas duríssimas, impondo ao Congresso humilhação e vexame. Duas vitórias de peso. Duas questões que viraram [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Há tempos Dilma Rousseff não tinha uma semana de tantas boas novas. Colheu o sucesso da 11ª rodada de licitação de petróleo e gás, a primeira realizada em cinco anos, e aprovou a MP dos portos, ainda que a penas duríssimas, impondo ao Congresso humilhação e vexame.<span id="more-10034"></span></p>
<p>Duas vitórias de peso. Duas questões que viraram urgentes, emergenciais, mas que até pouco tempo eram neoliberalismo puro, abominado pela presidente e seu partido.</p>
<p>Em <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/05/15/nova-rodada-velho-modelo-por-miriam-leitao-495973.asp" target="_blank">artigo </a>no dia 15, a jornalista Míriam Leitão chamou atenção para o fato de a licitação de petróleo e gás ter sido feita no modelo antigo que o governo considerava impróprio “por razões de interesse nacional”, conforme disse o ministro da Energia Edison Lobão, no calor da comemoração. “Como este leilão foi feito no modelo antigo, ele fere o interesse nacional? Ou o interesse nacional foi prejudicado antes, quando o governo decidiu suspender os leilões?”, questiona a colunista de O Globo.</p>
<p>Perderam-se cinco anos.</p>
<p>Nos portos viu-se algo semelhante. A lei dos portos do presidente Itamar Franco, regulamentada durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, foi rechaçada pelo PT à época. No governo Lula, o único feito no setor foi criar e conferir status de ministério à Secretaria Especial dos Portos, pasta de necessidade duvidosa, a não ser para matar a fome de aliados vorazes. Nada, nem uma emenda à lei existente, para conferir maior agilidade aos portos.</p>
<p>Perdeu-se mais de uma década.</p>
<p>E as novas regras não têm o poder mágico de modernizá-los.</p>
<p>Aprovada a toque de caixa como se não houvesse amanhã, em meio a acusações que levantaram suspeitas sobre os reais interesses que sustentam a matéria, a MP ainda deve enfrentar batalhas judiciais. Uma delas já anunciada: garantir a isonomia entre empresas privadas que hoje estão instaladas em áreas portuárias públicas e que só podem movimentar cargas próprias, e os novos investidores, autorizados a embarcar também cargas de terceiros. Muito pano para manga.</p>
<p>Nada que não pudesse ser corrigido &#8211; ou pelo menos escarafunchado, no caso das denúncias &#8211; com o aprofundamento do debate.</p>
<p>Mas o que salta aos olhos é o autoritarismo da presidente. A ela só os resultados interessam, ainda que para obtê-los tenha de negar aquilo em que dizia crer, como no caso dos leilões do petróleo e gás.</p>
<p>Pior: por soberba, o resultado tem de reproduzir o seu desejo, a sua ordem.</p>
<p>Um modelo em estágio de saturação até na sua própria base, que, como se viu, deu-lhe a vitória, mas de pirro. Dilma poderia tirar boas lições do episódio, mas, como diz o ditado “é impossível uma pessoa aprender aquilo que ela acha que já sabe”.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 19/5/2013. </em></p></blockquote>
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		<title>O lugar de ser inútil</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2013/o-lugar-de-ser-inutil/</link>
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		<pubDate>Mon, 20 May 2013 16:55:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Fernando Pessoa disse que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” Manoel de Barros diz que o poeta é um vidente, vê coisas que não existem. Poeta é o sujeito que inventa. Com sua caligrafia miúda, todos os dias ele se fecha [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Fernando Pessoa disse que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” Manoel de Barros diz que o poeta é um vidente, vê coisas que não existem. Poeta é o sujeito que inventa.<span id="more-10029"></span></p>
<p>Com sua caligrafia miúda, todos os dias ele se fecha no lugar de ser inútil, seu escritoriozinho de escrever poesia. Há mais de cinquenta anos ele se ocupa de construir inutilidades como o abridor de amanhecer e o esticador de horizonte.</p>
<p>Devo ao meu amigo Paulo Vilara, que nos anos setenta morou em Campo Grande, a descoberta desse poeta deslumbrante. Ele me enviou três livros do fenômeno, desconhecido para mim e quase todos ao redor. Li os exemplares e os levei ao Suplemento Literário do Minas Gerais, que voltara a ser comandado pelo nosso Murilo Rubião. Uma ótima matéria foi publicada e só recuperei os meus livrinhos décadas depois. Paulinho Assunção e sua mulher tinham se apaixonado por eles. Guardaram bem guardados em seus corações e só quando a obra se espalhou pelas livrarias eles me devolveram com delicada mensagem.</p>
<p>Um pouco depois, Millôr Fernandes, em seu Pif Paf, revelava ao Brasil a maravilha de poesia que havia descoberto. A partir daí, o fechado meio cultural se abriu para o inquestionável.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzzmanoeldebarros.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-10032" alt="zzzzzzzmanoeldebarros" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzzmanoeldebarros.jpg" width="550" height="508" /></a>Lembro esses fatos porque assisti, esta semana, ao DVD <i>Só dez por cento é mentira</i>, uma beleza que recomendo a todas as pessoas sensíveis que me lêem. Manoel foge de entrevistas, por se sentir  uma pessoa letral e não oral:  a palavra oral não dá rascunho.Mas ele se comoveu com os jovens  que sonhavam em gravar um vídeo sobre ele e resolveu falar. Tragam suas máquinas amanhã e eu respondo o que achar que devo.</p>
<p>É comovente ouvir o que ele diz além dos livros. Sujeito encantador e não folclórico, ciente da felicidade de ter comprado para si o ócio. “Há varias maneiras sérias de não dizer nada. Mas só a poesia é verdadeira. Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. Daí o nome do DVD.</p>
<p>Para ele, o mestre inspirador foi Chaplin, que inventou o herói vagabundo. Charles Chaplin monumentou os vagabundos. Ou:  só as coisas rasteiras me celestam. As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis, elas desejam  ser vistas de azul.</p>
<p>Que lugar a poesia ocupa em sua vida?, perguntam-lhe. Todos os lugares. Não sei fazer mais nada. Quer dizer: sei abrir porta, puxar válvula, apontar lápis, comprar pão às seis da tarde. Essas coisas.</p>
<p>Segundo ele, o olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. É preciso trasver.</p>
<p>“O tempo só anda de ida.</p>
<p>A gente nasce cresce amadurece envelhece e morre.</p>
<p>Para não morrer é preciso amarrar o tempo no poste.</p>
<p>Eis a ciência da poesia:</p>
<p>Amarrar o tempo no poste.”</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Estado de Minas<em>, em maio de 2013. </em></p></blockquote>
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		<title>Foi contra tudo isto que lutámos</title>
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		<pubDate>Sun, 19 May 2013 23:27:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Passaram-se tan­tas coi­sas em Can­nes. Houve um tempo em que ia lá todos os anos. Entre o fes­ti­val de cinema, os gran­des mer­ca­dos de tele­vi­são, duas, três vezes ao ano, ali ao lado das encos­tas que Picasso, Cal­der, Fitz­ge­rald esco­lhe­ram para pin­tar e escrever. Can­nes é a um salto de Saint-Paul de Vence, a um [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzcannes.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-10023" alt="zzzzzzcannes" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzcannes.jpg" width="900" height="506" /></a>Passaram-se tan­tas coi­sas em Can­nes. Houve um tempo em que ia lá todos os anos. Entre o fes­ti­val de cinema, os gran­des mer­ca­dos de tele­vi­são, duas, três vezes ao ano, ali ao lado das encos­tas que Picasso, Cal­der, Fitz­ge­rald esco­lhe­ram para pin­tar e escrever.<span id="more-10022"></span></p>
<p>Can­nes é a um salto de Saint-Paul de Vence, a um pulo de lobo de Saint-Tropez, uma espa­dei­rada de heli­cóp­tero de Éze. Gosto de Can­nes e dos arre­do­res, dos almo­ços casei­ros no Mère Bes­son, dos jan­ta­res fora no Mou­lin de Mou­gins ou no Colombe d’Or. Das coli­nas, pelas estra­das estrei­tas e sinu­o­sas, escorre ainda um inde­ci­frá­vel boca­di­nho da aris­to­cra­cia russa escor­ra­çada a pon­ta­pés pro­le­tá­rios por Lenine, o sebo petro­lí­fero de alguns mili­o­ná­rios ame­ri­ca­nos que o capi­ta­lismo dos anos 30 ape­ral­tou, para não falar do mais con­tem­po­râ­neo toque semi­nal das vede­tas pop, espar­ti­lha­das pela obri­ga­tó­ria pose de transgressão.</p>
<p>Passaram-se tan­tas coi­sas em Can­nes. Redes­co­bri o mais pri­má­rio e sel­va­gem pra­zer de espec­ta­dor no dia em que lá vi – melhor seria dizer que afi­am­brei com den­tes de Wil­lem Dafoe – o <em>Wild at Heart</em>, de David Lynch. Estive com o mais exal­tado des­ca­ra­mento à espera que hou­vesse molho numa con­fe­rên­cia de imprensa de Godard. Dan­cei até às 4 da manhã na estrei­tís­sima deca­dên­cia do La Chunga com umas ame­ri­ca­nís­si­mas play­ma­tes da <em>Play­boy</em> que eram um poço de saúde e, vá lá, ino­cên­cia. Em cima da mesa. Quero dizer: dan­çá­va­mos em cima das mesas que é como se dança no La Chunga.</p>
<p>Passaram-se tan­tas coi­sas em Can­nes. Um dia, vin­dos desse <i>bun­ker</i> que é o Palá­cio do Fes­ti­val, a brisa medi­ter­râ­nica a ame­ni­zar o calor do Abril, a vaga som­bra das ilhas a desenhar-se con­tra o fim de tarde, três ami­gos meus entra­ram pela clás­sica porta do hotel Carl­ton. Pas­sa­ram a recep­ção e vira­ram em direc­ção à cris­ta­lina ele­gân­cia do bar. Os cor­re­do­res de altís­simo pé-direito, can­de­la­bros a fais­car ouro, as amplas jane­las a dila­tar o assom­broso azul da baía que só as linhas quase sin­ge­las dos iates recor­ta­vam. De den­tro para fora e de fora para den­tro respira-se no Carl­ton um luxo que se sente con­for­tá­vel de e por ser luxo. Em pleno cor­re­dor do mais belo hotel de Can­nes, a um dos meus ami­gos, em passo ainda mili­tante, cai-lhe um pingo de nos­tal­gia no cabelo bem tra­tado. Vira-se para outro dos com­pa­nhei­ros, o mais heróico e de outros tem­pos tão soli­dá­rios, e diz-lhe: “Foi con­tra tudo isto que lutámos!”</p>
<p>O meu segundo amigo ia con­cor­dar, dizer tal­vez que sim, mas hesi­tou, preso entre a sur­presa e o silên­cio que o chão de már­more pedia. “Foi con­tra tudo isto que lutá­mos” e, uns pas­sos atrás, a admi­rá­vel mulher do meu segundo amigo, leve, sem ofensa, res­sen­ti­mento, ou outra coisa que não seja a ben­dita acei­ta­ção do mundo que nos rodeia, res­ponde, gen­til: “Ainda bem que perderam.”</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://expresso.sapo.pt/">O Expresso</a>.</em></p>
<p><em><a href="mailto:manuel.s.phonseca@gmail.com">manuel.s.phonseca@gmail.com</a></em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia. </em></p></blockquote>
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		<title>A filha e a filha da filha</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2013/a-filha-e-a-filha-da-filha/</link>
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		<pubDate>Sun, 19 May 2013 01:54:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Geléia Geral]]></category>

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		<description><![CDATA[Faz dois meses que estou aprendendo na prática aquela verdade que tantos milhões de pessoas já haviam experimentando antes de mim, aquele axioma: avô é pai duas vezes. É bastante fascinante isso, experimentar na prática, na carne, uma verdade que a gente sabe que é verdade, mas que só sabe mesmo como é quando acontece. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Faz dois meses que estou aprendendo na prática aquela verdade que tantos milhões de pessoas já haviam experimentando antes de mim, aquele axioma: avô é pai duas vezes.<span id="more-10009"></span></p>
<p>É bastante fascinante isso, experimentar na prática, na carne, uma verdade que a gente sabe que é verdade, mas que só sabe mesmo como é quando acontece.</p>
<p>As verdades, a gente só entende de fato quando as vivencia.</p>
<p>Esse é um problema danado quando a gente cria filho, e deve ser também quando a gente é professor e tenta ensinar as coisas para os alunos. Dizemos para os filhos (e para os alunos) as coisas em que acreditamos, as coisas que achamos certas. Mas por que raios eles vão acreditar no que dizemos? Eles ainda não vivenciaram aquilo.</p>
<p>Passar valores é muito mais difícil do que passar DNA. DNA a gente passa sem perceber, sem fazer esforço algum. “A menudo los hijos se nos parecen, e asi nos dan la primeira satisfacction”, diz, brilhantemente, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Oj3jqtzqNX8">o catalão Juan Manuel Serrat</a>.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/2013-05-Marina-dia-5-Instagram.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-10014" alt="2013-05 - Marina dia 5 Instagram" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/2013-05-Marina-dia-5-Instagram.jpg" width="480" height="480" /></a>Minha filha, por exemplo, não se parece fisicamente comigo, graças ao bom Deus: seu rosto se parece com o da mãe, lindíssimo. Mas os dedos dela são idênticos aos meus, e isso me dá grande satisfação: são a prova escarrada de que ela é minha filha, tem meu sangue.</p>
<p>No entanto, muitas vezes o jeito com que ela raciocina, com que ela reage aos fatos, é extremamente parecido com o meu jeito. Chega a ser chocante como ela em muitas coisas se parece comigo.</p>
<p>A vida é toda loteria, mas Suely e eu ganhamos a sorte grande, e nossa filha tem todos os valores bons, corretos. Não dá para saber se conseguimos passar para ela os valores, ou se ela os aprendeu com o mundo, mas é muito mais importante do que ela ser linda como a mãe e ter os dedos idênticos aos do pai o fato de ela ser uma boa pessoa, com uma escala de valores admirável.</p>
<p>Bem. Acho que tergiversei.</p>
<p>Mas este texto está com jeito de ser uma grande tergiversação, um imenso viajandão mesmo, e então vamos em frente.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Eu tinha 20 anos (e Suely 17) quando Cat Stevens lançou <i>Tea for the Tillerman</i>, o disco que tem <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Q29YR5-t3gg">“Father and Son”</a>. Faz mais de 40 anos que ouço “Father and Son”, e cada vez fico mais impressionado com a beleza extraordinária da letra escrita por aquele garotão de fina estampa só dois anos mais velho do que eu. (Como é possível que aquele cara tenha escrito a letra dessa música com apenas 22 anos de idade? Ele deve mesmo ser um ET, um MIB.)</p>
<p>“Father and Son”, como se sabe, é um diálogo entre pai e filho. A rigor, é um diálogo de surdos-mudos – um não ouve o que o outro diz. Estão tão longe um do outro que um não consegue compreender nada do que outro diz.</p>
<p>Há duas histórias de uma amiga minha de que jamais vou esquecer. A primeira: eu traduzi para ela a letra da música (éramos muito, muito jovens), e ela então disse alguma coisa assim: “Nossa, se meu pai conversasse assim comigo, seria uma maravilha”.</p>
<p>O pai da minha amiga era ainda pior do que o pai de “Father and Son”: ele sequer conversava com a filha.</p>
<p>A segunda história: minha filha, bebezinho ainda, estava deitada na nossa cama, Suely trocando sua fralda. Diante dela, no nosso quarto, havia uma grande estante de livros. Essa minha amiga disse: “Ela deve estar pensando assim: nossa, será que eu vou ter que ler tudo isso?”</p>
<p>Minha filha, aquela criaturinha de quem Suely trocava fralda diante da estante de livros, é uma leitora voraz. Ela me surpreende com a velocidade e com a seriedade com que lê. Acho que basta dizer que leu <i>Anna Karênina</i> antes de mim.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/a-primeira-visita-de-marina/">Marina</a> passou dois dias aqui em casa. Minha filha estava se mudando para o apartamento novo, e veio para cá com Marina e uma imensidade de tralhas na véspera da mudança, para fugir da zorra. Na quarta, o povo da transportadora foi ao apartamento velho embalar as coisas – duzentos mil livros, uma quantidade absurda de papéis inclusive –, e minha filha trouxe Marina para cá, para não conviverem com a loucura da mudança.</p>
<p>Na quinta, foi feita a mudança propriamente dita.</p>
<p>Na sexta, mudança feita, trocentas caixas no apartamento novo, mas o quarto de Marina já devidamente organizado, filha e neta foram para lá, depois de dois dias aqui.</p>
<p>Senti a casa vazia.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/1975-09-João-Moura-00230026.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-10015" alt="1975-09 - João Moura - 00230026" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/1975-09-João-Moura-00230026-1024x678.jpg" width="1024" height="678" /></a>Nos dois dias em que estiveram aqui, filha e neta ficaram no quarto que foi o da filha, até que ela, onze anos atrás, se casou. Ao longo deste tempo, botamos uma estante que ocupa uma parede inteira, diante da cama que era dela e hoje é de hóspedes.</p>
<p>Quando minha filha trocava a fralda de Marina, os olhos de Marina se voltavam para a estante. As diferentes cores das capas dos livros devem mesmo chamar a atenção de um bebê.</p>
<p>Foi impossível não lembrar: a fralda da minha filha era trocada diante de uma grande estante de livros. A fralda da minha neta foi trocada diante de uma grande estante de livros.</p>
<p>Marina vai ler tudo aquilo, como a mãe leu boa parte dos livros dos pais, e muito mais?</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Poucos dias atrás, eu tinha revisto o DVD em que <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4cpX1ZjuaiA">o ex-Cat Stevens, hoje Yusuf, canta “Father and Son”</a>. É um show recente, de 2011, 2012, sei lá. O mesmo sujeito que havia composto e cantado “Father and Son” quando tinha 22 anos cantava agora, aos 60 e tantos, a mesma canção.</p>
<p>Fiquei pensando nessa coisa doida: hoje ele vê a vida como pai, como avô. E canta a canção que escreveu quando era um filho que contestava toda a visão de mundo do pai. Uma contestação violenta, forte – mas que a minha amiga, quando muito jovem, achava que era um diálogo que ela gostaria de ter tido com o pai.</p>
<p>Marina tem pai amantíssimo, mãe amantíssima.</p>
<p>Tem avô que baba, avó de coração que baba, avó paterna que baba também, do jeito dela, bisavós que babam, tios, tios-avós e primos que babam.</p>
<p>Faltam o avô paterno e a avó materna. Destes ela não vai sentir falta – só nós, os adultos, sentimos, e sentimos muito.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Então: avô é pai duas vezes.</p>
<p>Verdade. Verdade.</p>
<p>Quando minha filha se viu na casa nova, no quarto novinho da filha dela, ficou feliz demais de todas as contas.</p>
<p>Como não babar por aquele tantinho de gente que faz minha filha experimentar uma felicidade que nunca tinha tido?</p>
<p>Estou aqui aprendendo essa verdade universal de que avô é pai duas vezes.</p>
<p>Mas a verdade dos fatos é que a existência da neta me faz amar a filha ainda mais que antes.</p>
<blockquote><p><em>18 de maio de 2013</em></p>
<p><em>Para quem não se lembra bem, eis aí a letra de &#8220;<strong>Father and Son</strong>&#8220;, de Cat Stevens:</em></p>
<p>(O pai: )</p>
<p>It&#8217;s not time to make a change</p>
<p>Just relax, take it easy</p>
<p>You&#8217;re still young, that&#8217;s your fault</p>
<p>There&#8217;s so much you have to know</p>
<p>Find a girl, settle down</p>
<p>If you want, you can marry</p>
<p>Look at me, I am old</p>
<p>But I&#8217;m happy</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>I was once like you are now</p>
<p>And I know that it&#8217;s not easy</p>
<p>To be calm when you&#8217;ve found</p>
<p>Something going on</p>
<p>But take your time, think a lot</p>
<p>I think of everything you&#8217;ve got</p>
<p>For you will still be here tomorrow</p>
<p>But your dreams may not</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(O filho: )</p>
<p>How can I try to explain</p>
<p>When I do he turns away again</p>
<p>And it&#8217;s always been the same</p>
<p>Same old story</p>
<p>From the moment I could talk</p>
<p>I was ordered to listen</p>
<p>Now there&#8217;s a way and I know</p>
<p>That I have to go away</p>
<p>I know I have to go</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(O pai: )</p>
<p>It&#8217;s not time to make a change</p>
<p>Just sit down and take it slowly</p>
<p>You&#8217;re still young that&#8217;s your fault</p>
<p>There&#8217;s so much you have to go through</p>
<p>Find a girl, settle down</p>
<p>If you want, you can marry</p>
<p>Look at me, I am old</p>
<p>But I&#8217;m happy</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(O filho: )</p>
<p>All the times that I&#8217;ve cried</p>
<p>Keeping all the things I knew inside</p>
<p>And it&#8217;s hard, but it&#8217;s harder</p>
<p>To ignore it</p>
<p>If they were right I&#8217;d agree</p>
<p>But it&#8217;s them they know, not me</p>
<p>Now there&#8217;s a way and I know</p>
<p>That i have to go away</p>
<p>I know I have to go</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=aSZtD_NOwew">Nara Leão gravou uma versão em português da canção</a>, feita pelo seu então marido, Cacá Diegues. Eis aí: </em></p>
<p>É tão cedo pra partir,</p>
<p>Devagar, não se apresse</p>
<p>Nessa idade você tem</p>
<p>Tanta coisa que aprender</p>
<p>Ache a moça dos seus sonhos</p>
<p>Monte um lar e um negócio</p>
<p>Como eu fiz e eu sou velho</p>
<p>Mas feliz</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu já fui como você</p>
<p>E sei bem que é da idade</p>
<p>Se iludir com o sonho de um mundo irreal</p>
<p>Mas pense um pouco, no futuro</p>
<p>Pense em tudo que hoje tem</p>
<p>Pois o sonho se acaba</p>
<p>E você vai ficar só</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como posso lhe explicar</p>
<p>Quando eu tento ele não quer ouvir</p>
<p>Volta mesma, é sempre a mesma</p>
<p>Velha história</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desde o dia que aprendi a falar</p>
<p>Só faço ouvir vocês</p>
<p>Mas agora descobri</p>
<p>Que há um caminho e devo ir</p>
<p>Adeus, eu vou partir</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Adeus, adeus, adeus&#8230;</p>
<p>Eu sei que tenho que decidir sozinho&#8230;)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É tão cedo pra partir</p>
<p>Sente um pouco e reflita</p>
<p>Nessa idade você tem</p>
<p>Tanta coisa a realizar</p>
<p>Ache a moça dos seus sonhos</p>
<p>Monte um lar e um negócio</p>
<p>Como eu fiz e eu sou velho</p>
<p>Mas feliz</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Não vá, não vá&#8230;</p>
<p>Você vai ter que decidir sozinho)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sofri tanto pra guardar</p>
<p>Sempre em mim tudo em que acreditei</p>
<p>Me doia, mas dói mas se enganar</p>
<p>Vocês pensam que me entende</p>
<p>Mas é sempre de vocês, que vocês falam</p>
<p>Mas agora descobri</p>
<p>Que há um caminho e devo ir</p>
<p>Adeus, eu vou partir</p></blockquote>
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		<title>O PT e sua Dulcinéia</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 22:50:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[O moinho de vento contra o qual arremetia dom Quixote de la Mancha era aquele que ameaçava a donzela Dulcinéia del Toboso. Dom Quixote delirava. Imaginava duelos heróicos contra cavaleiros que não existiam para defender a pureza da donzela que também não existia. Um pouco da raiz ontológica da política moderna deve ser procurada na [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O moinho de vento contra o qual arremetia dom Quixote de la Mancha era aquele que ameaçava a donzela Dulcinéia del Toboso.<span id="more-10002"></span></p>
<p>Dom Quixote delirava. Imaginava duelos heróicos contra cavaleiros que não existiam para defender a pureza da donzela que também não existia.</p>
<p>Um pouco da raiz ontológica da política moderna deve ser procurada na metafísica onírica de dom Quixote de la Mancha: para manter-se motivado, sempre é preciso dispor de um inimigo, verdadeiro ou imaginário, e através dele manipular as conveniências. Quando o inimigo não existe, inventa-se um.</p>
<p>O PT executa esse trabalho com extraordinário zelo desde que vislumbrou a possibilidade concreta da instalar-se no poder e exercer o seu escassíssimo apetite para o exercício da alternância.</p>
<p>O professor <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/05/14/o-pt-nao-gosta-da-democracia-marco-antonio-villa-496579.asp">Marco Antonio Villa escreveu um artigo, esta semana, em <em>O Globo</em></a>, defendendo a tese de que o partido não gosta da democracia.</p>
<p>E enumera uma série de evidências que vão desde a recusa de assinar a Constituição de 1988 até as despudoradas investidas parlamentares contra a independência do STF, por pura retaliação contra o resultado do julgamento do mensalão.</p>
<p>É evidente que não fica bem a um partido político nascido exatamente da evolução democrática lenta e penosamente construída após a derrocada da ditadura militar declarar-se abertamente avesso à democracia.</p>
<p>Então o PT cria seus moinhos de vento e a sua Dulcinéia del Toboso para praticar seu bullying anti-democrático fingindo defender a donzela dos cavaleiros andantes que não existem.</p>
<p>A velha cantilena petista voltou a ser ensaiada durante as comemorações de dez anos do partido. Depois uma espécie de ensaio de mea culpa com aquela história de “resgatar os valores” do partido (só se resgata algo que se perdeu), Lula mirou de novo nos moinhos de vento da oposição e da imprensa, como se a primeira de fato existisse e como se a segunda de fato não fosse a fundadora do mito em que ele se tornou.</p>
<p>Entre uma festa e outra, no cenário que já vai ficando velho, surge a inefável figura do presidente do partido, Ruy Falcão, para rezar seu mantra de controle da imprensa, agora acrescido da irresistível tentação de controlar o Judiciário, condições indispensáveis para que o partido se perpetue no poder.</p>
<p>Assim, para guardar a donzela Dulcinéia del Toboso dos ataques dos cavaleiros andantes , o PT, como dom Quixote, precisa alimentar a fantasia dos recorrentes moinhos de vento: a oposição, a imprensa, a Justiça.</p>
<p>O que não faltam são Sanchos Panças e Rocinantes para ajudar o cavaleiro a compor a saga de sua triste figura.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 17/5/2013.</em></p></blockquote>
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		<title>Más notícias do país de Dilma (99)</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 02:14:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Mesmo nas raras ocasiões em que se encaminha para decisões corretas, o governo Dilma Rousseff erra – e, além de errar, demonstra como o lulo-petismo no poder é incoerente. A semana que termina teve dois casos exemplares que comprovam que o governo erra mesmo quando vai na direção correta. Uma foi o leilão de áreas [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mesmo nas raras ocasiões em que se encaminha para decisões corretas, o governo Dilma Rousseff erra – e, além de errar, demonstra como o lulo-petismo no poder é incoerente.<span id="more-9995"></span></p>
<p>A semana que termina teve dois casos exemplares que comprovam que o governo erra mesmo quando vai na direção correta. Uma foi o leilão de áreas para exploração de petróleo e gás. A outra foi a forma com que o governo conduziu a pretendida modernização dos portos.</p>
<p>Na terça, 14, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) promoveu a 11ª Rodada de Licitação de áreas para exploração, e foi um tremendo sucesso. A arrecadação foi de R$ 2,8 bilhões, um recorde. Empresas gigantes – ExxonMobil, Total, BP (British Petroleum) – voltaram a ter interesse em investir no Brasil.</p>
<p>Maravilha.</p>
<p>Mas então por que o lulo-petismo passou cinco longos anos sem promover rodadas de licitação de áreas?</p>
<p>Diz <b>Celso Ming</b> no <b><i>Estadão</i></b>: “Novas licitações ficaram bloqueadas desde 2009, por duas razões: (1) porque o governo pretendia deixar tudo ou quase tudo a cargo da Petrobrás que, no entanto, não tem fôlego financeiro nem sequer para tocar os US$ 236,7 bilhões em investimentos previstos até 2017; e (2) porque setores do governo federal ainda boicotam toda iniciativa que implique aumento da participação do setor privado na exploração de petróleo e gás.”</p>
<p>“Guiado por uma desastrosa mistura de nacionalismo, estatismo e centralismo administrativo, o governo tentou atribuir à Petrobrás um papel superior às suas possibilidades na estratégia de exploração e produção de petróleo e gás”, escreveu o <b><i>Estadão</i></b> em editorial. “Errou de forma infantil, ao subestimar os custos desse programa. Bastaria levar em conta as dificuldades excepcionais da exploração do pré-sal para renunciar àquela pretensão.”</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>A tentativa de modernizar os portos através de medida provisória demonstrou toda uma série de incompetências e desacertos. O partido que governa o país há dez anos de repente resolve enfrentar a extremamente complexa questão dos portos (complexa porque envolve interesses diferentes de vários grupos de empresários e trabalhadores) praticamente da noite para o dia, através de medida provisória, sem abrir espaço para negociação.</p>
<p>Dez anos de absoluta imobilidade – e de repente quer resolver tudo a toque de queixa. E de maneira mercurial, imperial, como se não existisse Congresso.</p>
<p>O Congresso hoje não é lá flor que se cheire – mas ainda assim é o Congresso.</p>
<p>Deu no que deu: com 80% dos nobres deputados e senadores teoricamente pertencentes à base aliada, o governo se enrolou, se enroscou com rebeldias de grupos dos partidos que o apóiam.</p>
<p>É como <b>Suely Caldas</b> escreveu no <b><i>Estadão</i></b>: “Depois de mais de dez anos de Lula e Dilma, o governo do PT até hoje não conseguiu acertar o passo para ativar investimentos privados em infraestrutura. O fracasso na aprovação da MP dos Portos pela Câmara dos Deputados e o recuo nas regras de licitação de rodovias &#8211; só para citar dois casos recentes, há outros &#8211; denunciam o caminhar desengonçado de um governo que tenta impor suas regras e, ante reações adversas, fraqueja, perde-se, paralisa, adia resultados.”</p>
<p>E <b>Merval Pereira</b> escreveu no <b><i>Globo</i></b>: “Além de explicitar um esquema falho de relacionamento com o Congresso, a MP dos Portos evidencia também a incoerência do petismo no poder. Tratar a privatização dos portos como fundamental para o desenvolvimento do país, depois de passar tanto tempo criticando medidas nesse sentido tomadas pelos governos tucanos, é revelar que uma postura ideológica obsoleta fez o país perder um tempo inestimável em seu desenvolvimento.”</p>
<p>Aí vai a 99ª <a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-98/">compilação de notícias e análises que comprovam a incompetência do lulo-petismo como um todo e do governo Dilma Rousseff em especial</a>. Foram publicadas entre os dias 10 e 16 de maio.</p>
<p>Está especialmente volumosa. É humanamente impossível ler tudo isso – mas só uma passada de olhos pelos títulos já é de estarrecer.</p>
<p style="text-align: center;"><b>A inflação</b></p>
<p><b>* Indústria quer reajustes de até 20% nos preços</b></p>
<p>“A alta da inflação nos últimos meses já provoca uma queda de braço entre indústria e varejo. As negociações entre os fornecedores &#8211; determinados a repassar o aumento de custos acumulados nos últimos dois anos &#8211; e as redes varejistas estão cada vez mais acirradas. Segundo fontes do setor, BRF, Nestlé e Unilever propuseram correções entre 10% e 20% às grandes redes de supermercados. No caso da BRF, os reajustes na tabela de preços dos produtos congelados da marca Sadia chegariam a 15%. Na Nestlé, o aumento seria de 10%, na média. Já a Unilever teria apresentado reajustes mais tímidos, de 5%, e apenas no sabão em pó. Procuradas, apenas a Nestlé se manifestou e informou que o reajuste ‘não foi no patamar de 10%’.</p>
<p>“A inflação subiu 0,55% em abril e, nos últimos 12 meses, acumula alta de 6,49%, informou ontem o IBGE. Pressionada pela alta nos custos, a indústria tenta repassar os reajustes para o varejo. Em alguns casos, a falta de acordo já tem provocado a falta temporária de marcas líderes, caso de papel higiênico, produtos de limpeza e laticínios. ‘Se faltam marcas importantes, é porque a briga está intensa. A pressão inflacionária, agora, virá dos industrializados’,  disse um executivo, que não quis se identificar.</p>
<p>“O vice-presidente comercial da rede de supermercados Zonal Sul, Pietrangelo Leta, confirma pedidos de reajuste de mais de 10% por alguns grandes fabricantes, mas diz que não adotou a estratégia de deixar de comprar algumas marcas: ‘Inflação ninguém gosta. Aumentam os preços, as vendas caem. Estamos trabalhando para evitar que os aumentos cheguem ao consumidor: compramos em maior quantidade, reduzimos os prazos de pagamento ou pagamos à vista e aumentamos as importações.”</p>
<p>“Segundo ele, os importados, que há três anos representavam 8,5% dos negócios da rede, hoje têm peso de 12%. Dos cerca de 8.300 diferentes itens vendidos nas lojas, 1.300 vêm de fora do país.</p>
<p>“Nicolas Tingas, economista da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), diz que os industriais vinham segurando os repasses da alta de custos desde 2011. Mas, ao perceberem que a economia não retomaria a velocidade esperada neste ano, iniciaram os reajustes represados.” <b>(Roberta Scrivano e Nice de Paula, O Globo, 10/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Inflação já afeta renda e dificulta queda da inadimplência</b></p>
<p>“A inadimplência do consumidor patina e recua em ritmo lento nos últimos meses porque a disparada da inflação acabou achatando a renda das famílias, especialmente as mais pobres e que gastam mais com alimentos. Para manter o padrão de consumo, a saída encontrada pelas famílias foi assumir novas dívidas. Isso amplia o risco de inadimplência futura num cenário de alta da taxa de juros.</p>
<p>“O índice de calote dos empréstimos com recursos livres do sistema financeiro fechou o ano em 8%, segundo o Banco Central (BC). Em março, o último dado disponível, a inadimplência tinha recuado para 7,6%. A expectativa do economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes, era que a inadimplência recuasse para a média histórica, que é 7,3%, em outubro deste ano. Agora acredita que essa marca será atingida só em dezembro.</p>
<p>“Mais cético do que Bentes, o economista Luiz Rabi, da Serasa Experian, já considera a hipótese de que o calote volte para o nível histórico no primeiro semestre de 2014.</p>
<p>“Flávio Calife, economista da Boa Vista Serviços, também viu suas projeções sobre o recuo da inadimplência serem frustradas. Ele projetava que o indicador caísse para 7,3% no fim de 2012, o que não ocorreu. Ele refez as projeções e considera que o calote encerre 2013 em 7,2%.</p>
<p>“Para Bentes, da CNC, e Fernanda Della, assessora econômica da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), o principal fator que atrasou a queda da inadimplência foi o aumento da inflação, em especial dos alimentos.” <b>(Márcia De Chiara, <i>Estadão</i>, 11/5/2013.)</b></p>
<p><b>* O aumento da inadimplência deveria ser razão suficiente para colocar em movimento políticas de maior controle da inflação</b></p>
<p>“Aumentam em todo o País os índices de inadimplência, situação em que o devedor deixa de honrar seus compromissos financeiros, quase sempre porque não pode. Crescem, também, os índices de endividamento das famílias.</p>
<p>“Desta vez, não são somente os números do Banco Central que comprovam esse aperto financeiro do consumidor do Brasil. Também apontam na mesma direção levantamentos da Federação do Comércio de São Paulo.</p>
<p>“São três os principais fatores responsáveis por essa situação. O primeiro deles é a inflação. A alta do custo de vida começa a fazer estragos crescentes no orçamento familiar. É a sobra de mês no fim do salário, que obriga o consumidor a escolher o pedaço de seus custos que fica sem cobertura. Nessas condições, a expansão da dívida não resolve, porque acrescenta carga de juros à relação de despesas mensais.</p>
<p>“O segundo fator a elevar a propensão ao calote é a nova pressão dos serviços sobre o custo de vida. Quem compra um carro, por exemplo, não tem de arcar apenas com mais uma prestação mensal. De repente, vê-se tomado por novas despesas, algumas delas imprevistas: combustível, seguro, impostos, mecânica ou assistência técnica, estacionamento, flanelinha, valet. Fica inevitável levar a família para um fim de semana na praia ou para o shopping center e aí as contas se multiplicam.</p>
<p>“O terceiro ponto é certo descontrole dos bancos, que passaram muitos anos ganhando com a aplicação em títulos públicos e se desacostumaram com o crédito e com a administração de risco. Quando se viram obrigados a girar sua carteira de crédito, sob pena de perda de rentabilidade e de participação de mercado, tiveram de enfrentar a inadimplência.</p>
<p>“O aumento do endividamento familiar é consequência do forte aumento das operações de crédito. No ano 2000, o estoque de crédito prestado pelos bancos no Brasil não passava de 27% do PIB. Agora, já é superior a 50%. Além disso, cresceu substancialmente a utilização dos cartões de crédito, não somente como meio de pagamento, mas também como sistema de crédito complementar.</p>
<p>“Por enquanto, o aumento da inadimplência parece administrável. Mas já leva a duas consequências: (1) vem obrigando os bancos a reservar parcelas crescentes de recursos para provisão de créditos de retorno duvidoso; e (2) impõe mais cautela às instituições financeiras nas concessões de créditos novos.</p>
<p>“Do ponto de vista da administração econômica, o aumento da inadimplência deveria ser razão suficiente para colocar em movimento políticas de maior controle da inflação.</p>
<p>“A corrosão do poder aquisitivo do consumidor por si só cria distorções, como pressões por reajustes salariais e por reindexação da economia, que realimentam a inflação, como já está acontecendo. Além disso, sabota o crescimento econômico, na medida em que reduz o consumo e, portanto, estreita o mercado interno.</p>
<p>“Por enquanto, apenas o Banco Central parece determinado a combater a inflação por meio da redução do volume de dinheiro na economia (política monetária). E, no entanto, sem mais austeridade na administração das contas públicas, o alcance da política de juros tende a ser limitado.” <b>(Celso Ming, <i>Estadão</i>, 11/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Inflação alta faz vendas dos supermercados caírem pela primeira vez em cinco anos</b></p>
<p>“A inflação determinou o comportamento do comércio no primeiro trimestre. Os preços nos supermercados, um dos principais termômetros do comércio, têm crescido mês a mês: 2% em janeiro, 1,4% em fevereiro e 1,2% em março. Para abril, a projeção da Confederação Nacional do Comércio (CNC) é de mais uma elevação de 1%.</p>
<p>“Com o orçamento corroído, as famílias compraram 2,1% menos alimentos e bebidas em março do que no mês anterior a primeira queda do segmento de hipermercados e supermercados, produtos alimentícios e bebidas desde fevereiro de 2008 (-2,2%). As vendas totais do comércio varejista caíram  0,1% em março ante fevereiro. Na comparação com março de 2012, houve aumento de 4,5% nas vendas, divulgou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).</p>
<p>“Para a CNC, a tendência é que em abril o cenário de alta de preços se repita, o que levou a instituição a revisar a projeção de crescimento do setor em 2013, de 5% para 4,5%. Os preços subiram 0,7% de fevereiro para março, mesmo período em que as vendas caíram 0,1%.” <b>(Fernanda Nunes e Marina Durão, <i>Estadão</i>, 16/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A desorientação na área de energia</strong></p>
<p><b>* Licitação foi um sucesso. Mas por que demoraram tanto para fazer?</b></p>
<p>“O sucesso da 11ª Rodada de Licitações de Petróleo e Gás, ontem (<i>14/5</i>), abre novas perspectivas para o setor, com entrada de novos investidores e novo ânimo aos já conhecidos. A comemoração do governo é justa, mas revela uma enorme contradição: a licitação foi feita no modelo antigo, contra o qual eles interromperam as rodadas. O país perdeu cinco anos e muitas chances.</p>
<p>“O ministro Edson Lobão fez uma declaração que exibiu a fratura no raciocínio do governo. ‘Por muito tempo, havíamos desistido de fazer tais licitações por razões de interesse nacional.’ Como este leilão foi feito no modelo antigo, ele fere o interesse nacional? Ou o interesse nacional foi prejudicado antes, quando o governo decidiu suspender os leilões?</p>
<p>“A última rodada que valeu foi a de 2007, já que a de 2008 foi anulada. Mas quando a de 2008 foi realizada, o Brasil tinha 350 mil Km2 de áreas concedidas em exploração. Antes do leilão de ontem, contava com apenas 95 mil Km2. Quando as empresas não encontram petróleo nas áreas nas quais venceram a licitação, elas devolvem os blocos e entram em novo leilão. Essa círculo foi interrompido com a suspensão injustificada dos leilões. ‘No ano passado, as cinco maiores empresas de petróleo do mundo investiram US$ 100 bilhões e nada disso foi no Brasil’, disse Adriano Pires.</p>
<p>“O governo comemorou ontem (<i>14/5</i>) o recorde de arrecadação em bônus de assinatura: R$ 2,82 bilhões. É recorde sim, mas nominal. De acordo com uma conta feita para nós por economistas da Tendências Consultoria, o leilão de 2007 arrecadou R$ 2,1 bi, o que em dinheiro de hoje seria R$ 2,85 bilhões.</p>
<p>“O relevante não é um real a mais ou a menos, mas o fato de que grandes empresas voltaram ao mercado brasileiro, como a Exxon. Esperava-se muito das chinesas, mas elas se recolheram. A suspeita é que aguardam o pré-sal. A Foz do Amazonas ficou com 77 blocos sem compradores.</p>
<p>“O sucesso de ontem também mostrou a demanda reprimida por investimentos no Brasil. De 2008 para cá, o país deixou de ser considerado a nova fronteira de petróleo, porque houve a revolução energética do gás de xisto. Apesar dos riscos enormes e mal estudados dessa fonte, é ela que está provocando uma nova corrida do ouro no mundo do gás e petróleo.</p>
<p>“O tempo perdido se refletiu na produção. Em setembro de 2009, quando o ex-presidente Lula enviou ao Congresso o projeto de lei que alterava o marco regulatório do setor, o país produziu 62 milhões de barris equivalentes de petróleo (BEP). Três anos depois, em setembro de 2012, a produção havia caído 5%, para 59 milhões de BEP. Em março deste ano, último dado disponível, a produção estava estagnada nos mesmos 59 milhões.</p>
<p>“De 2000 até o envio do projeto de lei, a produção havia aumentado 67%, de 37 milhões de BEP para 62 milhões. ‘O leilão de hoje mostrou como o modelo de concessão é bem visto e vitorioso e como o governo errou ao deixar o país sem cinco anos de rodadas de licitação’, disse Pires.</p>
<p>“A OGX surpreendeu com a compra de muitos blocos, a Exxon Mobil voltou ao mercado brasileiro, a BG inglesa confirmou seu interesse no país, assim como a francesa Total.” <b>(Míriam Leitão, <i>O Globo</i>, 15/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Demorou demais; o que se perdeu e o que se deixou de ganhar provavelmente não se recuperará mais</b></p>
<p>“Depois de cinco anos, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizou ontem (<i>14/5</i>) mais uma rodada de licitações de 289 blocos para exploração de petróleo e gás.</p>
<p>“Desta vez, não entraram as áreas do pré-sal. O leilão teve forte participação de blocos em terra, com o objetivo de atrair pequenas e médias empresas. Despertou interesse em 64 empresas e colocou 49% das áreas, com arrecadação recorde de R$ 2,8 bilhões em bônus de assinatura e com investimentos previstos de R$ 7 bilhões.</p>
<p>“O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, sugeriu que todos os brasileiros comemorassem o sucesso da empreitada, dando a impressão de que o governo federal esteve fortemente interessado em promover o aumento da produção.</p>
<p>“Não esteve. E ainda há dúvidas de que de fato esteja. Novas licitações ficaram bloqueadas desde 2009, por duas razões: (1) porque o governo pretendia deixar tudo ou quase tudo a cargo da Petrobrás que, no entanto, não tem fôlego financeiro nem sequer para tocar os US$ 236,7 bilhões em investimentos previstos até 2017; e (2) porque setores do governo federal ainda boicotam toda iniciativa que implique aumento da participação do setor privado na exploração de petróleo e gás.</p>
<p>“Desde 2010, a produção de petróleo no Brasil ficou estagnada na casa dos 2 milhões de barris (159 milhões de litros) por dia. Os levantamentos da ANP mostram que a área concedida para exploração e produção caiu de 333 mil km² em 2009 para 291 mil km² ao final do ano passado (&#8230;), porque a devolução pelas concessionárias de áreas em casos de insucesso não foi compensada por novas.</p>
<p>“Pior que tudo, as empresas de capital nacional que haviam se lançado nesse mercado não tiveram mais campo para se expandir e diversificar seus riscos geológicos. Além disso, o setor brasileiro que se dedica ao fornecimento de equipamentos e serviços não pôde se desenvolver por todo esse tempo em que o governo se omitiu. Entre o início de exploração e a produção de um campo descoberto de petróleo correm cerca de dez anos. Essa é a razão pela qual atrasos assim saem caros. O que se perdeu e o que se deixou de ganhar provavelmente não se recuperará mais.</p>
<p>“Desta vez, a Petrobrás participou do leilão com o breque de mão puxado. Aparentemente, guarda suas hoje relativamente escassas energias para as outras duas licitações já programadas para este ano: a que prevê a exploração de gás não convencional, agendada para outubro; e o primeiro leilão do pré-sal sob novas regras, previsto para novembro. Nesse último leilão, a Petrobrás terá de atuar como operadora de todas as áreas licitadas, com um mínimo de 30% de participação.</p>
<p>“Como já comentado nesta Coluna em edições anteriores, os Estados Unidos preparam-se para retomar sua condição de autossuficiência na produção de hidrocarbonetos. A revolução do gás de xisto, produzido a uma fração dos custos do gás convencional, aponta como a nova grande fronteira de energia barata ao redor do mundo. E, no entanto, a vacilação do governo brasileiro e a falta de clareza de sua política prejudicam todo o setor produtivo nacional, e não apenas as empresas ligadas ao setor de energia.” <b>(Celso Ming, <i>Estadão</i>, 15/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Desastrosa mistura de nacionalismo, estatismo e centralismo administrativo fez o país perder cinco anos</b></p>
<p>“O governo pode celebrar o bom resultado obtido no leilão de blocos para exploração de petróleo e gás, um sucesso de público e de renda, mas os brasileiros têm motivos ainda mais fortes para lamentar a perda de cinco anos desde a última licitação. Com arrecadação de R$ 2,82 bilhões &#8211; recorde em termos nominais &#8211; e participação de 12 empresas nacionais e 18 estrangeiras, a rodada comprovou a disposição de grandes empresas multinacionais, como a Exxon Mobil, a BP e a Total, de investir no Brasil.</p>
<p>“Foram arrematados em dois dias 142 dos 289 blocos licitados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com enorme atraso, o governo acabou reconhecendo, na prática, o erro cometido quando resolveu, a partir de 2009, condicionar a participação estrangeira no setor de petróleo a critérios tão míopes quanto ineficazes.</p>
<p>“Guiado por uma desastrosa mistura de nacionalismo, estatismo e centralismo administrativo, o governo tentou atribuir à Petrobrás um papel superior às suas possibilidades na estratégia de exploração e produção de petróleo e gás. Errou de forma infantil, ao subestimar os custos desse programa. Bastaria levar em conta as dificuldades excepcionais da exploração do pré-sal para renunciar àquela pretensão.</p>
<p>“Além disso, o Palácio do Planalto, o centro real de comando da Petrobrás, tentou impor à empresa um conjunto absurdo de obrigações. A estatal teria de contribuir para o controle da inflação, operando com preços contidos. Teria de servir às fantasias geopolíticas do presidente Luiz Inácio da Silva, participando de empreendimentos com a PDVSA do caudilho bolivariano Hugo Chávez. Deveria operar como instrumento de uma política industrial anacrônica, suportando custos excessivos para beneficiar fornecedores nacionais de insumos e equipamentos. Nenhuma dessas políticas funcionou.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 16/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>O jogo de erros na negociação sobre os portos</strong></p>
<p><b>* Provas do caminhar desengonçado de um governo que tenta impor suas regras e, ante reações adversas, fraqueja, perde-se, paralisa, adia resultados</b></p>
<p>“Depois de mais de dez anos de Lula e Dilma, o governo do PT até hoje não conseguiu acertar o passo para ativar investimentos privados em infraestrutura. O fracasso na aprovação da MP dos Portos pela Câmara dos Deputados e o recuo nas regras de licitação de rodovias &#8211; só para citar dois casos recentes, há outros &#8211; denunciam o caminhar desengonçado de um governo que tenta impor suas regras e, ante reações adversas, fraqueja, perde-se, paralisa, adia resultados.</p>
<p>“No caso da MP dos Portos, deputados de partidos da base aliada (alguns do PT) impuseram derrota ao projeto do governo, mostrando que no Congresso o interesse público coletivo se rende quando é confrontado com lobbies corporativos de empresas e trabalhadores há anos enraizados no setor portuário e que sabem muito bem o que fazer e quem procurar para não perder privilégios. Esses lobbies agiram nos corredores da Câmara, conseguiram apoio político de deputados governistas e desfiguraram tanto o formato final da MP que sua aprovação implicaria ‘recuar 50 anos’ no tempo, na avaliação do presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários, Wilen Manteli. Agora o governo tem até quinta-feira para aprovar a MP na Câmara e no Senado. Vai distribuir cargos e verbas para conseguir?</p>
<p>“Já no caso da privatização de rodovias as regras de licitação não dependem do Congresso, só do Executivo &#8211; e aí estão os erros e desacertos que se repetem desde a gestão Lula e tampouco servem de aprendizado. Uma espécie de culpa ideológica determina as ações do governo quando se trata de privatizar, e ele segue um rito: primeiro, tenta impor regras e condições desconectadas da realidade; e, diante do completo desinteresse dos investidores, ele recua, às vezes só um pouquinho, às vezes com uma guinada surpreendente, como agora, ao oferecer o BNDES como sócio do negócio. Com essas idas e vindas e em cada recuo, o governo passa a sensação de vacilo, insegurança e fraqueza, abrindo campo para o empresário exigir mais. E investimentos absolutamente necessários e urgentes para adequar o País ao progresso são seguidamente adiados.</p>
<p>“Se as novas regras na concessão de rodovias atrairão ou não investidores o País saberá nos próximos dias. O governo cedeu em algumas condições e a principal foi elevar a taxa de retorno (lucro) do negócio de 5,5% para 7,2%, que o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada, Rodolpho Tourinho, considerou ‘minimamente aceitável’. Dilma preferiu ela própria definir o lucro a acatar sugestão de seu conselheiro Delfim Netto, de ‘fixar a qualidade da concessão’ e deixar para os competidores disputarem a taxa de retorno em leilão.</p>
<p>“Surpreendente foi a entrada do BNDES em cena, oferecido como sócio aos consórcios que vencerem o leilão de rodovias e ferrovias. Faz lembrar os anos 80, quando o banco perdeu muito dinheiro ao socorrer empresas falidas, tornando-se delas sócio financeiro para impedir a falência. Na época, até de hotel o banco virou acionista. Quem não quer ter por sócio um banco de capital público, um leal parceiro a quem é possível recorrer nas horas difíceis? Depois de perder muito dinheiro tornando-se sócio dos chamados ‘campeões nacionais’ e dar esse programa por encerrado, a direção do banco agora quer desviar seu dinheiro societário para as privatizações. Faz lembrar, também, as operações de crédito do BNDES para investidores comprarem estatais na gestão FHC. Condenadas e demonizadas pelo PT na época, o dinheiro dessas operações retornou nas respectivas datas de vencimento do crédito. Agora o PT quer fazer do banco não um financiador, mas sócio nas privatizações e das empresas concessionárias permanentes tomadoras de dinheiro público do sócio.</p>
<p>“Foi esse espírito de paizão generoso que, em 2011, levou Abílio Diniz a acertar com a diretoria uma operação para o Pão de Açúcar comprar o Carrefour, no valor de R$ 4 bilhões, dos quais 18% eram ações do banco na nova empresa. Negócio da China, não concluído quando veio a público.” <b>(Suely Caldas, <i>Estadão</i>, 12/5/2013.)</b></p>
<p><b>* “A presidente não parece ter a menor noção do que significam termos e expressões como articulação, negociação”</b></p>
<p>“Fato inusitado, digno de figurar no catálogo dos ineditismos dos quais se orgulha o PT na alucinação de que reinventou o Brasil: a presidente da República é altamente popular, conta com maioria parlamentar esmagadora, tem oposição mirrada e, no entanto, em questões fundamentais perde uma atrás da outra no Congresso.</p>
<p>“A lista de reveses mais recentes é conhecida: Código Florestal, lei de distribuição dos royalties do petróleo, reforma do ICMS e marco regulatório dos portos.</p>
<p>“Para governo que em tese domina 80% do Parlamento, convenhamos, são proezas de monta ter um veto derrubado (royalties), ser derrotado por ação do principal parceiro (PMDB, no Código Florestal), ver uma proposta retaliada por governistas (ICMS), cogitar recorrer a decreto caso deputados e senadores não atendam ao ‘apelo’ de aprovar medida provisória (portos) às vésperas de perder a validade.</p>
<p>“A conclusão óbvia é a de que essa base aliada só tem tamanho. Serve para interditar investigações parlamentares, para dar seguimento a manobras como a tentativa de restringir o funcionamento de novos partidos &#8211; para criar dificuldades a possíveis adversários eleitorais; serve para garantir tempo de televisão na propaganda política, mas não tem a menor serventia quando se trata de fazer andar o País.</p>
<p>“Simplesmente porque a presidente Dilma Rousseff não parece ter a menor noção do que significam termos e expressões como articulação, negociação, construção de consenso, poder moderador, conciliação de interesses, exercício de autoridade delegada, composição de opiniões. Ignora solenemente os componentes indispensáveis ao funcionamento de uma administração em regime democrático.</p>
<p>“Inepta na pilotagem da política &#8211; atividade que dá sinais de menosprezar &#8211; Dilma acabou por transformar sua enorme base parlamentar em um gigante desgovernado.</p>
<p>“Talvez ela não saiba ou não tenha dado ouvidos a quem porventura tentou avisá-la: a mera aquisição de aliados mediante distribuição de ministérios não move o moinho. Pode até não parecer, mas o fisiologismo sozinho não motiva o Congresso. O voluntarismo, a imposição da vontade, os maus modos, a irritabilidade podem até compor uma imagem forte de governante, mas não asseguram a fortaleza de estadista.</p>
<p>“O mau relacionamento da presidente da República com o Congresso vem desde o início do governo e não se resolve com agradinhos, jantares, reuniões de aconselhamento simulado e promessas que não se realizam.</p>
<p>“É preciso um mínimo de compromisso com o outro (no caso, o Poder Legislativo), que pode até ser visto como vendido mas tem todo o direito de não se considerar mercadoria à disposição para qualquer uso.” <b>(Dora Kramer, <i>Estadão</i>, 12/5/2013.)</b></p>
<p><b>* “Além de explicitar um esquema falho de relacionamento com o Congresso, a MP dos Portos evidencia a incoerência do petismo no poder</b></p>
<p>“Aconteça o que acontecer com a Medida Provisória dos Portos, o que fica patente é que o governo não tem uma interlocução competente com sua base aliada. Com a adesão envergonhada do PSD, apesar da aceitação desavergonhada de um ministério, o governo tem, em tese, praticamente 80% do Congresso em suas mãos, seja de que maneira for: ou por meio da adesão ideológica ou do pragmatismo puro e simples. (&#8230;)</p>
<p>“Não é a intenção neste momento analisar os benefícios para a economia do país contidos na medida provisória, nem seus pontos negativos. O que é mais importante registrar nesta crise política é que o governo não tem uma linha lógica de atuação e, em consequência, não consegue guiar seus seguidores por um caminho que leve a bom porto, abrindo condições para disputas mais variadas de interesses contraditórios.</p>
<p>“A falta de gosto pela negociação política, que já é uma marca da ‘presidenta’, e a certeza de que essas questões se resolvem com a distribuição de benesses fizeram com que o Planalto se habituasse com a edição de medidas provisórias, acatadas submissamente por um Congresso subjugado.</p>
<p>“A coordenação política do governo e a própria presidente Dilma demonstraram não ter noção do ambiente no Congresso, ávido por se mostrar autônomo, especialmente diante da enxurrada de medidas provisórias que retira de seus membros a prerrogativa de legislar.</p>
<p>“Exemplo disso é a exigência no Senado de duas sessões para a análise de medidas provisórias, rejeitando assim as decisões de afogadilho, que só fazem humilhar seus membros. (&#8230;)</p>
<p>“O desgaste sofrido pelo governo federal deixou evidente que seu prestígio junto à base aliada no Congresso está afetado seriamente, e mais ainda porque o próprio governo antecipou a disputa eleitoral, elevando o cacife de cada um dos partidos da base aliada, que venderão mais caro do que nunca os seus minutos de televisão.</p>
<p>“Além de explicitar um esquema falho de relacionamento com o Congresso, a MP dos Portos evidencia também a incoerência do petismo no poder. Tratar a privatização dos portos como fundamental para o desenvolvimento do país, depois de passar tanto tempo criticando medidas nesse sentido tomadas pelos governos tucanos, é revelar que uma postura ideológica obsoleta fez o país perder um tempo inestimável em seu desenvolvimento.</p>
<p>“Da mesma maneira que comemorar o sucesso do leilão de áreas de exploração de petróleo, utilizando o mesmo método de concessões do governo FH, processo que o próprio governo petista havia paralisado há cinco anos por questões ideológicas, é uma confissão de ineficiência na gestão pública que prejudica o país.” <b>(Merval Pereira, <i>O Globo</i>, 16/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Ninguém é contra portos mais eficientes. Mas o governo encaminhou as mudanças de forma errada</b></p>
<p>“Não há quem não queira portos eficientes no Brasil e não concorde que esse é um dos nós do país. Desse consenso, o governo produziu um dissenso histérico. Nos últimos dias, o país acompanhou um debate em que se tinha a impressão de que a grande questão é quem tem piores credenciais na Câmara dos Deputados. Todos os contendores pareciam certos sobre os adversários.</p>
<p>“Mas o que interessa não é o patamar moral bem conhecido de algumas excelências. O que se quer é portos eficientes. Há muito a fazer nessa área. Certamente não é criando vantagens para algumas empresas em detrimento de outras que se vai chegar a isso. O Brasil precisa de todo o investimento que puder mobilizar para melhorar a logística.</p>
<p>“A MP foi apresentada como uma panacéia, uma segunda abertura dos portos às nações amigas. Os portos isoladamente não resolvem o nó logístico. É preciso que eles sejam interligados a ferrovias, rodovias, hidrovias e tenham um calado com a profundidade compatível com os grandes navios de contêineres ou os graneleiros de hoje.</p>
<p>“Nove grupos privados operam doze terminais, hoje, em concessões feitas pela antiga Lei dos Portos, de 1993. Eles pagam outorga, tarifas para acessar o canal, têm que contratar trabalhadores através do Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo). Os empresários se queixam de não poder treinar trabalhadores avulsos. É impossível melhorar os portos sem acabar com distorções criadas por essa obrigatoriedade de se contratar trabalhadores pelo Órgão Gestor.</p>
<p>“Os novos investidores não pagarão as mesmas taxas e outorgas e, além disso, vão poder contratar pela CLT. Suas concessões poderão ser renovadas indefinidamente e, se desistirem do negócio, serão indenizados pelos investimentos que fizeram. O primeiro grupo, se a concessão não for renovada, tem que deixar para a União os investimentos feitos.</p>
<p>“Essa diferença de tratamento dentro do setor privado não prejudica apenas os atingidos. Confirma a impressão de um governo intervencionista e discricionário. A insegurança jurídica criada se espalha como aversão a investimentos, seja em que área for.</p>
<p>“Se o governo não está feliz com os atuais operadores de terminais privados em portos públicos pode usar seu poder concedente e não renovar, ou até cassar a concessão se tiver como provar que eles não cumpriram as obrigações. Mas é difícil explicar para qualquer investidor que o governo mudou uma lei, que foi discutida durante três anos no Congresso, através de uma MP, e que se ela não for aprovada a tempo vai legislar por decreto.</p>
<p>“O governo não teve coragem de enfrentar a necessidade de modernização da relação capital-trabalho nos portos, e então decidiu que futuros empreendimentos &#8211; ou aqueles que estão em construção &#8211; poderão ter liberdade. Segundo os atuais operadores, só nesse ponto a diferença de custo é de 20%.</p>
<p>“Os novos entrantes no mercado, investidores no mercado de portos privados, argumentam que eles têm que fazer muito mais investimentos do que os que se instalaram nos portos com seus terminais no antigo regime, por isso é justo que não paguem outorga e algumas das tarifas. Difícil explicar, no entanto, a diferença na contratação de mão de obra.</p>
<p>“Quando o governo criou a estatal Empresa de Planejamento Logístico (EPL) e a entregou a um dos assessores favoritos da presidente Dilma, Bernardo Figueiredo, acreditou-se que a logística seria pensada como um todo. Os empresários que tentaram dialogar com o governo tiveram poucas reuniões na EPL. Foram direcionados à Casa Civil, onde alegam não ter tido qualquer chance de diálogo. Não é desta forma que se alavancará investimentos no país.” <b>(Míriam Leitão, <i>O Globo</i>, 16/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A infra-estrutura em frangalhos</strong></p>
<p><b>* Concessão de estradas é bom – mas o governo não sabe como fazer, vai na tentativa e erro</b></p>
<p>“Em mais um lance do jogo de tentativa e erro em que transformou as concessões de rodovias e ferrovias anunciadas com entusiasmo pela presidente Dilma Rousseff em agosto do ano passado, o governo mudou novamente as condições para as empresas privadas participarem desse programa.</p>
<p>“Desta vez, para atrair o interesse dos investidores, elevou em 31% a rentabilidade dos projetos rodoviários, que passará de 5,5% para 7,2%. Além disso, permitirá que o BNDES seja sócio dos consórcios que vencerem os leilões.</p>
<p>“Já é praticamente certo que, dos R$ 133 bilhões de investimentos em rodovias e ferrovias previstos no programa de concessões &#8211; e que, no desejo da presidente, deveriam estimular o crescimento já em 2013 -, nada será aplicado neste ano. As condições definidas inicialmente para a concessão de 9 lotes (com 13 trechos) de rodovias e 12 de ferrovias em regime de concessão afugentaram os investidores, o que forçou sua revisão.</p>
<p>“Com as mudanças agora anunciadas, o governo quer evitar que o programa enfrente novos atrasos. Não há, porém, certeza de que isso ocorrerá. Embora sejam melhores para os investidores, as novas regras podem ser insuficientes para atraí-los ao projeto.</p>
<p>“Os editais do primeiro conjunto de concessões, com 7 lotes rodoviários, deveriam ter sido publicados em março, mas só o serão em julho, se até lá tiverem sido analisados e aprovados pelo Tribunal de Contas da União. Os editais dos dois lotes restantes deverão ser publicados em setembro.</p>
<p>“Se esses prazos forem cumpridos, os primeiros leilões serão realizados a partir de outubro. Não haverá tempo para o início das obras ainda neste ano.</p>
<p>“Quanto às ferrovias, o cronograma também está sendo revisto e deve ficar para 2014, como já admite Bernardo Pimentel, presidente da Empresa de Planejamento de Logística (EPL), a estatal encarregada da gestão do programa de concessões.</p>
<p>“Ao anunciar o programa, a presidente Dilma afirmou que ele oferecia aos investidores ‘ótimas oportunidades com ambiente de estabilidade’, pois as parcerias ‘são muito atraentes em termos de rentabilidade e risco’.</p>
<p>“Se, há alguns meses, o governo ainda podia falar em ‘estabilidade’ sem causar muita estranheza, hoje o quadro é diferente. O desdém com que as autoridades vêm reagindo à aceleração da inflação, a insistência do governo em escolher determinados setores para serem beneficiados com isenções tributárias e, especialmente, a notória deterioração da política fiscal geraram desconfiança entre os investidores.</p>
<p>“Além de desconfiados, eles não conseguiram ver a rentabilidade anunciada pela presidente. E o próprio governo, ao rever os critérios que havia estabelecido para as concessões, reconheceu na prática que, se existia, ela não era suficiente.</p>
<p>“Parâmetros econômico-financeiras estabelecidos inicialmente &#8211; como o teto para a tarifa do pedágio e a obrigatoriedade da conclusão de obras de duplicação de boa parte do trecho concedido no prazo de cinco anos (com a exigência adicional de que os pedágios só poderiam ser cobrados depois da conclusão de 10% das obras &#8211; limitavam drasticamente a rentabilidade do investimento.</p>
<p>“Além disso, projeções sobre movimentação de veículos nos trechos a serem concedidos foram superestimadas. Houve casos de previsão de crescimento médio anual de 5% ao ano do número de veículos que pagariam pedágio durante o período de concessão, quando, na realidade, o crescimento tem sido de 3% ao ano. Assim, nas previsões do governo, a receita futura dos concessionários seria maior do que a que efetivamente poderia ser obtida.</p>
<p>“O governo vem corrigindo algumas deficiências nas regras, mas o faz topicamente, o que retarda o processo. É provável, por isso, que encerre o ano com a assinatura de apenas um contrato de concessão, o do trecho da BR-101 no Espírito Santo. Mas esse trecho não faz parte do programa anunciado em agosto pela presidente da República: seu leilão foi realizado no início de 2012, mas contestações na Justiça atrasaram a assinatura do contrato.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 10/5/2013.)</b></p>
<p><b>* &#8220;Caos logístico força governo a trazer milho da Argentina para o Nordeste&#8221;</b></p>
<p>“Apesar da safra recorde deste ano, entraves logísticos obrigarão o governo federal a receber milho argentino para ajudar no combate à maior seca dos últimos 50 anos no Nordeste. O caos logístico, que prejudica o escoamento da produção para a exportação, também impede o transporte do milho guardado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no interior da Bahia. Como solução, a companhia decidiu trazer o cereal da Argentina.</p>
<p>“Trata-se do segundo problema logístico de grandes proporções, em conjunto com as filas de caminhões para embarcar a supersafra de grãos em alguns portos brasileiros. É, também, uma ironia, tendo em vista a situação de ampla oferta de milho no mercado interno, o que leva os produtores brasileiros a pressionar por medidas de apoio ao escoamento da safra, já que falta espaço nos armazéns no Centro-Oeste e há risco de ser estocada a céu aberto.</p>
<p>“O lote de 20 mil toneladas de milho argentino, que será entregue no Porto de Salvador, foi a primeira compra do governo em leilões realizados pela Conab. Ao todo serão compradas 103 mil toneladas de milho para atender os pequenos criadores que sofrem com a seca prolongada. O cereal será doado aos governos estaduais, que serão responsáveis pelo ensacamento, transporte e distribuição.</p>
<p>“O Nordeste enfrenta a maior seca em mais de meio século, com 1.386 municípios em situação de emergência, segundo a Secretaria Nacional de Defesa Civil. Em visita à região, a presidente Dilma Rousseff prometeu a entrega de 49,1 mil toneladas de milho e máquinas escavadoras. Neste ano, o Brasil deve colher 78 milhões de toneladas de milho, 7% mais que na safra passada, segundo a Conab.” <b>(Venilson Ferreira, <i>Estadão</i>, 11/5/2013.)</b></p>
<p><b>* É chocante a hesitação do governo nas concessões de infra-estrutura</b></p>
<p>“Passados nove meses desde o anúncio do grande pacote que corresponde à terceira fase do programa federal de concessões rodoviárias, e após inúmeras reuniões com representantes do setor privado, o governo finalmente anunciou que adotaria a taxa interna de retorno (TIR) de 7,2% ao ano para os empreendimentos ainda não licitados. Essa taxa serve, basicamente, para calcular a tarifa máxima que aceitará considerar nas propostas. Vencerá aquele que oferecer a menor tarifa abaixo desse limite superior. Antes, vinha batendo o pé na incompreensível marca de 5,5% ao ano, quando se deu conta de que o leilão da BR-040 (Juiz de Fora/Brasília), entre outras, fracassaria por falta de candidatos.</p>
<p>“Agora o programa finalmente deslancha? Houve, sem dúvida, importante avanço no processo. Só que, segundo noticiado após a entrevista oficial, empresas da área esperavam algo entre 8 e 10% ao ano, como taxa mínima para cobrir o alto risco desse tipo de negócio.</p>
<p>“Vê-se que o governo continua brincando com fogo nesse assunto e noutros correlatos. Conforme demonstrei com parceiros em livro lançado no Fórum Nacional Especial de setembro/2012 (com PDF disponível no email: raul_velloso@uol.com.br), investir em infraestrutura é a principal saída para, literalmente, tirar o País do buraco. E a única saída é recorrer às concessões privadas, já que o Estado tem espaço zero para gastar em infraestrutura. São décadas de investimento pífio e total descaso com a área, a ponto de o Brasil aparecer muito atrás na recente classificação de qualidade de meios de transporte, que vale a pena detalhar.</p>
<p>“Segundo noticiado pelo <i>Financial Times</i> em 1º de abril, estudo do World Economic Forum classificou o Brasil, numa amostra de 144 países, onde quanto mais alto pior, como o 107º pior avaliado, para o conjunto dos modais de transporte. Qualquer brasileiro que vai ao exterior, fica envergonhado quando compara nossa precária infraestrutura com a dos demais, e percebe um dos fatores básicos que explicam, junto com a elevadíssima carga tributária, a nossa ridícula posição no ranking mundial de competitividade . Por modal, a classificação ficou assim. Brasil. Rodovias: 123; Ferrovias: 100; Portos: 135; Aeroportos: 134. Enquanto isso, para a China os números análogos seriam, respectivamente, 54, 22, 59 e 70. A média, lá, deu 69. Chocante a diferença&#8230; (&#8230;)</p>
<p>“É chocante observar a hesitação do governo em temas correlatos, como o das concessões de infraestrutura. Como, diante de quadro tão dramático, se prender a picuinhas como a de exigir uma taxa de retorno que pareça implicar tarifas irrealisticamente baixas, só para colher os dividendos políticos a elas associadas?</p>
<p>“Outra evidência da necessidade imperiosa de mudar de atitude é o dramático engarrafamento de trânsito que se verifica hoje no país, especialmente em estradas e portos, que impede o escoamento da safra recorde de grãos que não temos as menores condições de escoar. De nada adianta transferir tantos recursos a pessoas no orçamento público, se não formos capazes de evitar que toneladas de milho e soja apodreçam ao ar livre nas áreas de produção ou nos engarrafamentos.” <b>(Raul Velloso, economista, <i>O Globo</i>, 13/5/2013.)</b></p>
<p><b>* O abismo logístico do país é algo que nem mesmo o mais convicto propagandista do governo será capaz de negar</b></p>
<p>“Não há bravata nacional-desenvolvimentista que resista à frieza dos números. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que há um abismo a separar o Brasil de seus principais competidores no mercado internacional no que diz respeito à infraestrutura de transportes.</p>
<p>“Já se sabia que a precariedade da malha de transportes era um dos principais nós do sistema produtivo nacional. Com seu estudo, porém, a Fiesp conseguiu demonstrar o tamanho real do problema, e o resultado é algo que nem mesmo o mais convicto propagandista do governo será capaz de negar ou desmentir. A pesquisa indica que o nível de desempenho da infraestrutura de transportes no Brasil é equivalente a apenas 33% do verificado nos países que são considerados modelos em logística. Isso significa que o País teria de triplicar sua performance nessa área para competir em condições de igualdade com seus principais concorrentes.</p>
<p>“Para chegar a essa espantosa mensuração, a Fiesp criou o Índice de Desempenho Comparado da Infraestrutura de Transportes (IDT), que se calcula a partir de dados das 50 maiores regiões metropolitanas, usando 18 indicadores. No melhor dos casos, o da malha rodoviária, há uma média de 2,5 quilômetros por 10 mil habitantes, proporção 43% inferior ao padrão considerado de excelência internacional, que é de cerca de 4,8 quilômetros por 10 mil habitantes. A Fiesp estima que, desde o ano 2000, o déficit em relação ao nível ideal não mudou significativamente, estando sempre por volta de 50%.</p>
<p>“Portanto, mesmo com toda a fanfarronice midiática dos últimos anos a respeito do potencial competitivo do Brasil sob a administração petista, que incluiu iniciativas com nomenclaturas grandiloquentes &#8211; como o ‘Programa de Aceleração do Crescimento’, cuja primeira etapa foi administrada pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff -, o fato é que o Brasil permanece estagnado num setor vital para seu pleno desenvolvimento, pois de nada adianta melhorar e ampliar a produção se não é possível distribuí-la.</p>
<p>“Para conseguir fazer chegar sua mercadoria ao comprador, o produtor paga um frete rodoviário de US$ 51,75 para cada mil toneladas por quilômetro, segundo calcula a Fiesp. Trata-se de um valor 270% maior do que a média verificada nos países mais competitivos. Em alguns casos, como o da soja de Mato Grosso, metade da produção destina-se ao pagamento de frete, um óbvio despropósito. O custo para levar um contêiner até o ponto de onde será exportado é, no Brasil, de cerca de US$ 1.800, enquanto a média de excelência é de US$ 621.</p>
<p>“No caso das hidrovias, a capacidade nacional corresponde a apenas 21% do padrão mais alto, embora elas sejam uma solução óbvia para transportar a produção do Centro-Oeste para os portos do Norte sem a necessidade de enfrentar as longas distâncias, por terra, para chegar aos terminais do Sul e do Sudeste. Já o desempenho da malha ferroviária corresponde a 20% do verificado entre os grandes competidores internacionais, com frete quase 16 vezes superior ao padrão de excelência.</p>
<p>“Além disso, a extensão das ferrovias nacionais está 93% abaixo do ideal. Nessa área, a inépcia atravessa gerações, e seu maior símbolo é a Ferrovia Norte-Sul, que está em construção desde 1987, teve seu valor reajustado 17 vezes e notabilizou-se pelo acúmulo de irregularidades.</p>
<p>“Nos aeroportos, a situação é igualmente dramática. O tempo de liberação de mercadorias nos terminais da Infraero chega a 3.200 minutos, enquanto o padrão de excelência é de 324 minutos. ‘Temos muito a fazer’, disse o diretor do Departamento de Infraestrutura da Fiesp, Carlos Cavalcanti, resumindo bem o desafio que se impõe ao País. Tarefa ainda mais dura quando se leva em conta que o Mistério dos Transportes, crucial para seu sucesso, é objeto de barganha fisiológica para a manutenção do ‘presidencialismo de coalizão’ petista, um sinal de que os obstáculos para o desenvolvimento nacional não se limitam aos buracos nas estradas.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 15/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Um frenesi de iniciativas que ameaça levar o governo a tropeçar nos seus próprios pés</b></p>
<p>“Os leitores já se deram conta que o governo da presidente Dilma está num frenesi de iniciativas realizadoras que ameaça levá-lo a tropeçar nos próprios pés. E não é apenas por estar de olho na reeleição, embora isso alimente o atropelo. Mas qualquer outro governante brasileiro teria de saltar em seu cavalo branco e disparar em todas as direções, pois o País está ficando para trás em tudo.</p>
<p>“O  motivo pode ser resumido numa palavra: atraso. Tudo era para ontem no Brasil Tudo o que faz um país ou uma economia avançar está atrasado. A evidência do atraso, que se apresenta para todos nós, em praticamente todos os setores de atividade, é especialmente exasperante para os governantes que têm diante de si, na melhor das hipóteses, só oito anos para tirar décadas de atrasos, em alguns casos, mais de cem anos.</p>
<p>“E o pior é que as reviravoltas da política nacional geram novos e desnecessários atrasos &#8211; como ocorreu com os leilões para exploração de áreas possivelmente petrolíferas, paralisados durante cinco anos porque o governo Lula achou que petróleo era um negócio que deveria ser exclusivo da Petrobrás, e não o queria entregue à iniciativa privada, eventual ponta de lança do ‘imperialismo ianque’ e das ‘sete irmãs (que nem existiam mais).</p>
<p>“Agora que os fatos da vida deram uma clara comprovação de que a Petrobrás nunca nunca conseguirá recursos suficientes para a imensa tarefa de que o governo pensava incumbi-la, é possível que até arcas do pré-sal acabem leiloadas para o setor privado. Mas o tempo perdido é a coisa mais cara do mundo, por  irrecuperável.</p>
<p>“Além de recursos materiais, qualquer país, para igualar-se aos níveis, ao menos medianos, de desenvolvimento do mundo atual, precisa empenhar-se firmemente em algumas coisas fundamentais e mantê-las up to date: educação, é a principal; saúde; saneamento; justiça; segurança pública &#8211; essas quatro são da esfera, principalmente, das instituições e dos governos. O quinto fator de desenvolvimento, que também depende dos governos, no que se refere à sua regulamentação, mas que pode ser tocado com sucesso pela iniciativa privada ou em regime misto, é a infraestratura.</p>
<p>“Convido o leitor desapaixonado a se distanciar de suas preferências políticas, pelo tucanato, pelo petismo, pelo peexnedebismo, pelo socialismo, pelo capitalismo, ou qualquer outro ismo, e dar uma olhada naquelas cinco coisas no Brasil para dizer, de sã consciência, em qual delas estamos, como país, atualizados.</p>
<p>“Em nenhuma delas. Estamos atrasados em tudo o que é fundamental para entrar na era do desenvolvimento sustentado, de que falam e prometem nossos governante e nossos candidatos a governantes.</p>
<p>“Na verdade, todos os governantes da União, de Estados e município só têm uma resposta para o público e os jornalistas que apontam para os atrasos em quase tudo: ‘estamos providenciando’, ou, estamos construindo tantas escolas, tantos tribunais, tantas creches e postos de saúde, tantas cadeias, tantas estradas.</p>
<p>“Ou seja, só daqui a não se sabe quantas décadas o País estará minimamente estruturado. Se os deuses colaborarem, porque, na verdade, já ficou para trás até na comparação com vizinhos da América do Sul.</p>
<p>“Não temos os meios, as ferramentas para ingressar na era do desenvolvimento sustentado, por isso tivemos, recentemente, a partir dos governos FHC, Lula e agora Dilma, de entrar na era do atropelo. Na era de tentar fazer em 5 anos ou menos o que deveria ter sido feito e não foi nos últimos 50. Os portos decadentes, as ferrovias decadentes, as estradas, aeroportos e até estádios de futebol decadentes &#8211; são o hardware do Brasil, que até se pode consertar com muito dinheiro. O problema é o software: educação, justiça, segurança, saúde, manejado hoje por pessoas que receberam educação deficiente.” <b>(Marco Antonio Rocha, <i>Estadão</i>, 16/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>O fracasso no comércio exterior</strong></p>
<p><b>* Brasil é o 10º mais protecionista do mundo</b></p>
<p>“Mais protecionista do que nunca, o mundo impõe ao novo diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o diplomata brasileiro Roberto Azevêdo, que assume em setembro, o desafio de brigar com números alarmantes. Dados do relatório Global Trade Alert (GTA), aos quais <i>O Globo</i> teve acesso, mostram que os países jamais aplicaram tantas medidas restritivas ao comércio. Movimento semelhante havia sido feito logo após o início da crise financeira global, em 2008. Nos últimos 12 meses, a Rússia, que acaba de entrar para a OMC, foi, de longe, o país que mais se fechou, com 48 novas medidas restritivas. Em seguida, vem a combalida Argentina, com 28.</p>
<p>‘O Brasil aparece na décima posição, com nove. ‘O agravante é que, atualmente, os governos não admitem estar sendo protecionistas e tendem a esconder debaixo do tapete o que têm feito para se proteger’, disse ao <i>Globo</i> Simon Evenett, responsável pelo GTA, um dos documentos mais respeitados pelo mundo, coordenado pelo Center for Economic Policy Research (CEPR), baseado em Londres.</p>
<p>“Desde a eclosão da crise financeira, em 2008, a Rússia se mantém na liderança do protecionismo, com 269 novas barreiras estabelecidas, sendo seguida pela Argentina, com 214, e pela Índia, com 165. Acusado pelos países ricos de ser protecionista, o Brasil aplicou 120 medidas restritivas. O número é considerado alto, mas ainda está dentro da média dos maiores exportadores do mundo.</p>
<p>“Na União Europeia (UE), região que votou em bloco contra o candidato brasileiro na eleição da OMC, todos os países aplicaram individualmente mais do que cem medidas. Juntas, as 27 nações adotaram quase 3 mil barreiras tarifárias ou não. ‘O novo diretor geral da OMC terá de lidar não só com a Rodada de Doha (ciclo de negociações que visa a ampliar a abertura comercial em todo o mundo), mas também com a flagrante tendência protecionista dos países, o que é cada vez mais preocupante. Boa parte das medidas não respeita as regras da OMC’, destacou Simon Evenett.</p>
<p>“O GTA tem um ‘protecionômetro’ on-line, uma espécie de taxímetro para calcular medidas e apontar os maiores protecionistas do mundo e as maiores vítimas do protecionismo alheio, quase em tempo real. A China tem sido o principal alvo de barreiras.</p>
<p>“Evenett afirma que a crise está por trás do processo de fechamento dos países e alerta para mais restrições que devem surgir daqui por diante, tendo em vista que ainda não há uma solução definitiva para as turbulências financeiras, sobretudo na Europa, o que não facilita em nada o trabalho de Roberto Azevêdo, que, para renovar a desgastada imagem da OMC, terá de buscar acordos para derrubar barreiras pelo mundo todo.” <b>(Vivian Oswald, O Globo, 12/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Há 20 anos o país era forte no comércio exterior. Hoje somos apenas um grande exportador de algumas commodities</b></p>
<p>“<i>‘In Latin America, and elsewhere, it&#8217;s no coincidence that the practitioners of free trade are also the ones who consistently enjoy the most robust economic growth and development.’</i> (Claudio Loser, revista <i>Forbes</i>, maio de 2013.)</p>
<p>“É minha convicção que estamos crescentemente limitados e isolados em nossas opções de comércio internacional. Em termos de acordos, só temos a exibir uma lista particularmente magra, em especial pela obrigação de negociar conjuntamente com os demais sócios do Mercosul. Ora, na realidade o Mercosul desviou-se totalmente de sua concepção original de projeto de integração comercial e econômica e hoje é quase que somente uma frente política. Há fortes tendências protecionistas internas que frequentemente colidem com os propósitos originais do próprio Mercosul.</p>
<p>“Há 20 anos era possível encher o peito para dizer que o Brasil era um global trader. Hoje somos apenas um grande exportador de um número restrito de commodities de pouco valor agregado e de uma pequena e decrescente porcentagem de manufaturados que só se destinam a um número muito limitado de mercados. Daí é legítimo concluir que algo deu errado.</p>
<p>“Nossa pauta de exportações voltou a ser, como era antes dos anos 1970, marcada pela preponderância dos produtos de base, com todos os riscos gerados pela volatilidade de preços inerente a esse tipo de mercados. Nossos produtos manufaturados vêm perdendo espaço, seja por obra do protecionismo, em particular da Argentina, seja pela perda de vantagem competitiva criada por preferências comerciais dadas por nossos tradicionais compradores a nossos competidores em razão de acordos comerciais ou, enfim, por concorrência intensa de produtos chineses.</p>
<p>“A persistir esse quadro, o Brasil terá déficits de balança comercial cada vez maiores, ficando mais vulnerável a flutuações de preços de commodities e mais dependente de grandes ingressos de capital estrangeiro para equilibrar a conta corrente. Além do mais, é preciso enfatizar que não pertencer a acordos comerciais importantes significa tornar o Brasil menos atrativo para a integração de cadeias produtivas que, sempre mais, constituem a essência dos acordos de comércio modernos.</p>
<p>“Recorde-se, aqui, a existência dos diversos acordos de grande alcance: entre Estados Unidos e Coreia do Sul (Korus), o acordo entre China e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), a Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile), a Parceria Trans-Pacífico (TPP)e o acordo Estados Unidos-União Europeia. Alguns deles em fase de negociação, outros já em plena vigência. O Brasil não pertence a nenhum deles.</p>
<p>“Pertencemos à Organização Mundial do Comércio (OMC), entretanto, e ela continua a ser a tábua das leis. As 550 páginas de seus textos normativos são o fundamento do livre-comércio. Há grandes lacunas, sem dúvida, especialmente na agricultura, em que o protecionismo que falseia o comércio continua a vigorar em todo o mundo desenvolvido. Mas a OMC é a instituição em que impera o sistema de solução de controvérsias que permite a qualquer de seus membros questionar os atos de outros, qualquer que seja a disparidade de força entre eles. Por isso ganhamos importantes questões dos Estados Unidos e da União Europeia. Temos de defender a OMC, porque ela é o último reduto contra os abusos dos mais fortes.</p>
<p>“A vitória de Roberto Azevêdo para diretor-geral da OMC é, antes de mais nada, um êxito pessoal de um diplomata de grande profissionalismo e competência. Sem isso não teria sido possível eleger um brasileiro que serve a um governo cada vez mais protecionista e, portanto, pouco afinado com o espírito de liberalização do comércio, que é a alma da OMC. Mas o que contou na eleição foi a mensagem central de Roberto de que não há tempo a perder, pois &#8211; uma vez institucionalizados os acordos extra-OMC, como os acima mencionados, em vigor ou em gestação, entre um limitado número de países &#8211; será dificílimo retomar a dinâmica multilateral e evitar que a OMC se torne um organismo apenas subsidiário.</p>
<p>“Independentemente dessa vitória e da luta permanente pelo fortalecimento da OMC, é urgente reavaliar as opções internacionais do Brasil. Será necessário rever a regra da posição solidária de todos os membros do Mercosul ou deveremos continuar a nos apresentar, sem muitas chances, em companhia da Argentina e da Venezuela nas mesas de negociação que virão? Devemos estudar a possibilidade de buscar acordos bilaterais com a União Europeia, os Estados Unidos e outras grandes potências do comércio internacional? Podemos explorar um entendimento com os quatro países da Iniciativa do Pacífico? São questões de grande atualidade que precisam ser estudadas a fundo pelo governo, pelo Congresso Nacional, pelos atores econômicos brasileiros e por todos os que nelas têm interesse. O que não é possível é praticar a política da cabeça enterrada na areia, que o avestruz aperfeiçoou.</p>
<p>“O preço do imobilismo seria o aprofundamento do protecionismo nacional e, portanto, o afastamento dos principais centros de inovação. Seria também a exclusão crescente do Brasil do movimento de integração de cadeias industriais produtivas que está em marcha em escala global.</p>
<p>“Esses grandes temas precisam ser objeto de uma reflexão profunda entre nós. Não levá-la a cabo significará uma crescente marginalização do Brasil em termos de investimentos, balanço de pagamentos, comércio internacional e, portanto, de desenvolvimento econômico.” <b>(Luiz Felipe Lampreia, <i>Estadão</i>, 12/5/2013.)</b></p>
<p><b>* A crise que o governo insiste em não ver</b></p>
<p>“Ao minimizar os maus resultados da balança comercial &#8211; que, de janeiro a abril, acumulou um déficit de US$ 6,15 bilhões, o maior da história para o período -, como fez na segunda-feira (<i>6/5</i>) em São Paulo, a presidente Dilma Rousseff tenta encobrir um problema que preocupa cada vez mais o empresariado e está cada vez mais longe de ser passageiro. ‘Qualquer oscilação na balança comercial é apenas uma oscilação’, disse tautologicamente a presidente, na posse da nova diretoria da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, para demonstrar despreocupação com o desempenho do comércio exterior. É uma atitude que pode ter consequências &#8211; e não serão positivas para o Brasil.</p>
<p>“Nessa questão, quanto mais despreocupado estiver o governo tanto pior para o País, pois cada vez menos os responsáveis pelas políticas públicas voltadas para o setor produtivo conseguirão entender que o problema não é ocasional. Por sua persistência e profundidade, começa a transformar-se em problema estrutural da economia brasileira. Ainda há tempo para evitar que a situação piore tanto que fique muito mais difícil corrigi-la, mas é preciso que, primeiro, o governo entenda o que ocorre e, depois, admita que o problema existe e é grave e comece a agir na direção correta.</p>
<p>“São muitos os fatores que afetam o setor produtivo brasileiro, sobretudo a indústria de transformação, que vem tendo dificuldades cada vez maiores para enfrentar os competidores, tanto no mercado externo como no interno.</p>
<p>“São muito expressivos os números que mostram a progressiva perda de competitividade dos produtos manufaturados brasileiros. O jornal <i>O Globo</i> (6/5) mostrou que, no ano passado, o setor de bens manufaturados registrou um déficit comercial de US$ 94,9 bilhões. Não se trata de uma oscilação, mas de um processo que começou há seis anos (em 2006, o setor registrou superávit comercial, que, naquele ano, alcançou US$ 5,2 bilhões), intensificou-se em consequência da crise mundial iniciada em 2008 e mantém-se ativo. Os resultado vêm piorando de maneira persistente.</p>
<p>“A crise mundial aprofundou uma tendência iniciada em 2007 (no primeiro trimestre daquele ano, a balança da indústria de transformação registrou saldo positivo), fazendo crescer os déficits até os níveis observados atualmente.</p>
<p>“De acordo com um relatório divulgado há dias pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o crescimento do déficit comercial da indústria de transformação nesse período não ocorreu de maneira homogênea. Em 2010 e 2011, o saldo negativo foi causado sobretudo pelo rápido aumento das importações, fato que ficou conhecido como ‘invasão’ do mercado por produtos estrangeiros. Embora as exportações continuassem a crescer, as importações cresceram a velocidades bem maiores.</p>
<p>“Em 2013, no entanto, embora as importações continuem a crescer, as exportações começaram a diminuir, o que pode tornar ainda maiores os déficits do setor. Essa tendência é observada em três dos quatro segmentos da indústria classificados de acordo com a densidade tecnológica dos produtos. A exceção é a indústria de baixo conteúdo tecnológico, cuja linha de produção inclui itens como alimentos industrializados, bebidas, fumo, produtos de madeira, celulose, papel.</p>
<p>“Quanto maior o conteúdo tecnológico, mais rápida tende a ser a deterioração da balança comercial. A balança conjunta da indústria de alta intensidade tecnológica &#8211; que atende aos mercados que mais crescem em todo o mundo &#8211; e de média intensidade, por exemplo, registrou déficit de US$ 16,3 bilhões no primeiro trimestre, 22,6% maior do que o dos três primeiros meses de 2012.</p>
<p>“As causas da perda de competitividade da indústria são conhecidas. Carga tributária excessiva, graves deficiências de infraestrutura, ausência de política efetiva de comércio exterior, escassez cada vez mais aguda de mão de obra adequadamente preparada, entre outras. Sobre isso, o governo nada diz.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 12/5/2013.)</b></p>
<p><b>* Sem estratégia de negociação comercial, o Brasil está cada vez mais isolado</b></p>
<p>“Poucos no governo, e mesmo no setor privado, parecem estar atentos às profundas mudanças que estão ocorrendo no comércio internacional e às suas consequências sobre o setor externo brasileiro.</p>
<p>“Com a eleição, agora, de um brasileiro para o comando da OMC talvez surja um maior interesse nas implicações desse novo cenário sobre a economia brasileira, em especial sobre nossa política industrial e de comércio exterior.</p>
<p>“Em termos geoeconômicos, está ocorrendo a transferência do eixo econômico e comercial do Atlântico para o Pacífico, com a emergência da China como o maior importador e exportador global.</p>
<p>“As transformações no processo de globalização estão sendo aceleradas pela tendência de concentração da produção de manufaturas em poucos países: EUA, Alemanha, Japão e China. Algumas consequências dessa tendência já podem ser identificadas:</p>
<p>“-A capacidade de cada pais de vender passa a depender da capacidade de compra do resto do mundo, como mostra a Embraer.</p>
<p>“-Fora do circuito das cadeias produtivas globais, a maioria dos países em desenvolvimento está concentrando suas exportações em commodities.</p>
<p>“Estamos assistindo a uma proliferação de mega-acordos regionais e bilaterais de comércio. Dos 543 acordos de livre comércio em negociação, 354 entraram em vigor. Dois mega-acordos estão em marcha: o a Parceria Transpacífica na Ásia e a Parceria Transatlântica entre os EUA e a Europa. Japão e China mudaram sua política e passaram a negociar acordos bilaterais. Na América do Sul, países como Chile, Colômbia e Peru assinaram acordos comerciais com os EUA e a Europa e estão negociando acordos na Ásia.</p>
<p>“Esses acordos estão criando diferentes regras sobre investimento, compras governamentais, serviços, entre outras.</p>
<p>“A revolução energética nos EUA, em consequência do aproveitamento do folhelho (gás de xisto), está acelerando o processo de reindustrialização da economia americana. A renovada agressividade comercial dos EUA vai propiciar a abertura de mercados para seus produtos manufaturados e aumentar a pressão para que os países adiram às novas normas.</p>
<p>“Nunca a influência de fatores alheios ao comércio esteve tão presente nas negociações comerciais. Considerações de natureza geopolítica estão se sobrepondo a diferenças internas para permitir a prevalência de interesses concretos (contenção da China) e ao estabelecimento de regras e padrões (standards), como no caso do acordo EUA-UE e no da Ásia.</p>
<p>“O Brasil, sem estratégia de negociação comercial e com dificuldades para criar um mercado regional para seus produtos, integrando os demais países em um intercâmbio de cadeia produtiva, a exemplo do que ocorre na Ásia e na Europa, está cada vez mais isolado. E, se persistir a política de ignorar o que ocorre no mundo, dificilmente poderá associar-se às novas tendências do comércio internacional.” <b>(Rubens Barbosa, <i>O Globo</i>, 14/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tudo errado nas decisões sobre a economia</strong></p>
<p><b>* Estão demolindo o que o país conquistou ao longo de 15 anos</b></p>
<p>“Está em curso uma alarmante escalada no processo de demolição institucional que, já há algum tempo, vem colocando abaixo o arcabouço que sustentou a condução da política fiscal nos últimos 15 anos.</p>
<p>“Em entrevista publicada no <i>Valor</i> em 29/4, véspera da divulgação do desastroso desempenho das contas públicas em março, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, anunciou com todas as letras que o governo deixou de trabalhar com uma meta rígida para o superávit primário, para poder ter ‘liberdade’ de conduzir uma política fiscal mais contracionista ou expansionista, ‘dependendo do momento’. Anunciou ainda que o novo arranjo de condução da política fiscal, já em vigor em 2013, será mantido, não só em 2014, como no próximo mandato, caso a presidente seja reeleita.</p>
<p>“O anúncio merece toda a atenção. Afinal, noticia-se (<i>Folha de S.Paulo</i>, 4/5) que Augustin vem tendo crescente ascendência sobre a presidente e papel ativo nas articulações para a reeleição, devendo integrar a futura coordenação da campanha eleitoral. Encarregado de conceber a ‘plataforma econômica para o segundo mandato’, o secretário vem sendo visto como o provável sucessor de Guido Mantega.</p>
<p>“Na verdade, o novo arranjo é ainda pior do que pode parecer à primeira vista. A ideia, esclareceu o secretário, não é eliminar a meta de 3,1% do PIB para o superávit primário do setor público, e, sim, dar às autoridades fazendárias liberdade para descumpri-la na extensão que julgarem razoável, ao sabor dos acontecimentos. A meta permaneceria como uma miragem a que o Banco Central (BC), por exemplo, poderia continuar a fazer menção, ao explicitar as premissas sobre política fiscal que estariam pautando a condução da política monetária.</p>
<p>“As declarações do secretário deixaram patente a desarticulação que hoje se observa entre a política monetária e a política fiscal. Num momento em que o BC está supostamente empenhado em elevar a taxa de juros para conter a demanda agregada, o secretário se diz convencido de que a economia precisa ser estimulada pelo lado fiscal.</p>
<p>“Tendo relaxado de várias formas as restrições fiscais dos governos subnacionais, o Tesouro anunciou há alguns dias que não pretendia compensar o não cumprimento de metas de superávit fiscal pelos Estados e municípios. Mas, agora, o secretário informou que, quando uma política expansionista for necessária, o Tesouro estará pronto a facilitar a expansão fiscal de Estados e municípios, já que não faria sentido que o gasto público aumentasse num nível da Federação e caísse em outro.</p>
<p>“Um arranjo de política fiscal contracíclica, seriamente concebido, que desse a devida importância à sustentabilidade fiscal, representaria grande avanço na condução da política macroeconômica do País. Mas não é bem o que o governo tem em mente. O que o secretário quer vender como política fiscal contracíclica é só a falta explícita de compromisso com metas e regras de qualquer espécie. E a possibilidade de racionalizar qualquer desempenho fiscal, a posteriori, com uma boa história de última hora sobre política de demanda agregada.</p>
<p>“Em países onde a política fiscal contracíclica tem sido conduzida com seriedade, as autoridades fazendárias são pautadas por metas de médio prazo, regras fiscais claras e exigências de transparência que asseguram previsibilidade e possibilidade de aferição objetiva de desempenho. A condução da política contracíclica pode ser monitorada pelos agentes econômicos e devidamente levada em conta pelo BC. Algo bem diferente da simples declaração de descompromisso com restrições à política fiscal que acaba de ser feita pelo Tesouro.</p>
<p>“No arranjo totalmente discricionário agora instaurado, o secretário do Tesouro conduzirá a política fiscal como bem entender. Uma perspectiva ainda mais preocupante, quando se tem em conta a visão primitiva e insensata das questões fiscais que têm pautado a atuação de Arno Augustin na Secretaria do Tesouro Nacional.” <b>(Rogério L. Furquim Werneck, <i>Estadão</i> e <i>O Globo</i>, 10/5/2013.)</b></p>
<p><b>* É assustador o grau de intervenção do governo na economia</b></p>
<p>“O grau de intervenção do governo na economia chega a ser assustador. Controlam-se de forma arbitrária os preços dos combustíveis e da energia elétrica, sem nenhuma preocupação com a saúde financeira das empresas que exploram tais atividades. Impõem-se exigências de conteúdo nacional mínimo para fornecedores de plataformas e equipamentos para exploração de petróleo e gás, pouco importando se a indústria brasileira está capacitada ou não para atender à demanda em condições adequadas de qualidade, preço e prazo de entrega. Desonerações tributárias são concedidas ou retiradas na medida em que os estoques aumentam ou diminuem em determinados setores de atividade, especialmente bens duráveis como veículos e eletrodomésticos. Ou pior: tais desonerações são utilizadas equivocadamente como política anti-inflacionária, como argumentei em meu último artigo neste espaço.</p>
<p>“Na mesma linha, o governo vem diminuindo o grau de abertura da economia, com medidas protecionistas que acabam prejudicando a própria indústria nacional, pois dificultam seu acesso a bens de capital e a matérias-primas importadas de melhor qualidade e custo mais baixo.</p>
<p>“Hoje é difícil encontrar um setor importante da atividade econômica do País que não tenha recebido alguma intervenção arbitrária do governo ou que não tem sido ameaçado de vir a recebê-la. Os exemplos mais contundentes são petróleo, energia elétrica, mineração e setor financeiro. Como esperar a retomada do investimento nesse ambiente de tamanha incerteza?</p>
<p>“Enfim, o capitalismo brasileiro precisa aprender a respeitar a economia de livre mercado.” <b>(Claudio Adilson Gonçalez, economista,<i> Estadão</i>, 13/5/2013.)</b></p>
<p><b>* O criativo ministro Mantega reinventa o emprego</b></p>
<p>“Sempre criativo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, acaba de lançar uma teoria sobre a criação de emprego sem crescimento econômico. Segundo ele, a geração de empregos pode ser mais importante que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), como se a primeira fosse independente da segunda. De fato, a oferta de vagas pode até crescer mais que a atividade geral da economia, em circunstâncias muito especiais, como tem ocorrido no Brasil. As limitações econômicas, no entanto, deverão prevalecer depois de algum tempo. Assim terminará a bonança dos trabalhadores, se a produção continuar estagnada ou em marcha muito lenta.</p>
<p>“A tese apresentada a parlamentares do PT, na quinta-feira (<i>9/5</i>), pode servir à campanha eleitoral de um governo preocupado sobretudo com eleições. Mas o ministro ainda terá algum trabalho para garantir respeitabilidade acadêmica a suas ideias inovadoras. Não basta a inventividade, como ele deveria ter aprendido quando recorreu à contabilidade criativa para fechar as contas federais.</p>
<p>“A oscilação do emprego na indústria de transformação desmente componentes importantes do discurso oficial, mas a presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda parecem desconhecer esses dados. Em março, o número de ocupados no setor de transformação foi 0,2% maior que em fevereiro, mas 0,6% menor que um ano antes. O número de empregados no primeiro trimestre foi 1% inferior ao do período entre janeiro e março de 2012. Em 12 meses o contingente diminuiu 1,4%. Os números são do IBGE. A abertura de vagas de um ano para cá dependeu, portanto, principalmente de outros segmentos. São, na maior parte dos casos, atividades menos envolvidas na absorção e na difusão de tecnologia e na criação dos chamados empregos de qualidade.</p>
<p>“Apesar disso, o quadro geral mantém-se razoável, especialmente quando se observa a situação internacional. Seria muito pior se as demissões na indústria de transformação refletissem mais precisamente as condições econômicas do setor. Há um mistério aparente nessa história, mas algumas observações bastam para tornar o cenário menos estranho.</p>
<p>“Em primeiro lugar, estímulos ao consumo têm contribuído para manter alguns segmentos da indústria em movimento e para sustentar seu quadro de pessoal. Esses estímulos têm sido insuficientes, no entanto, para estimular um maior empenho na produção e para afetar positivamente outras áreas da indústria.</p>
<p>“Em segundo lugar, empresas têm preferido manter seu pessoal pela combinação de dois motivos muito compreensíveis. Demissões custam muito e, além disso, quem demitir poderá encontrar dificuldade para preencher as vagas depois, se a economia voltar a crescer. Falta mão de obra qualificada e a escassez ficará mais grave, se muitas empresas decidirem contratar.</p>
<p>“A Confederação Nacional da Indústria (CNI) chamou a atenção para esses pontos, em estudos divulgados recentemente. Isso ajuda a explicar, também, os ganhos reais obtidos pelos trabalhadores nas negociações dos últimos anos. Há desequilíbrio no mercado.</p>
<p>“Em resumo: 1) a criação de empregos tem dependido de estímulos de curto alcance, isto é, insuficientes para gerar crescimento sustentável; 2) boa parte das vagas tem resultado na criação de ocupações de baixa qualidade; e 3) a preservação de quadros na indústria tem sido motivada, em boa parte, por um dado negativo para a economia brasileira &#8211; a escassez de mão de obra qualificada e até, como já havia indicado a Confederação Nacional da Indústria, pela falta de pessoal preparado para receber treinamento na fábrica.</p>
<p>“Esse dado reflete a política educacional do Partido dos Trabalhadores (PT). O governo dedicou-se a facilitar de forma eleitoreira o acesso a faculdades e negligenciou a formação indispensável à atividade produtiva. Recentemente o discurso oficial começou a valorizar a educação técnica. Já seria bom se o governo cuidasse mais da educação fundamental. Mas sua maior realização nesse campo foi a defesa da frase ‘os menino pega os peixe’ como padrão aceitável de linguagem.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 13/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><b>Tudo pela reeleição. O país? Que se dane</b></p>
<p><b>* Dilma dá posse a seu 39º ministro – e explica por que o novo ministério é necessário</b></p>
<p>“Na posse de seu 39º ministro, o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos (PSD), que comandará a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, a presidente Dilma Rousseff defendeu a criação de mais uma pasta, criticada por adversários políticos como apenas uma forma de abrigar novos aliados e reforçar sua candidatura à reeleição em 2014.</p>
<p>“’No Brasil, nós temos de ter, e de reconhecer, que é necessário um processo de expansão para depois abrir um processo de redução e afinamento. Nós precisamos de políticas focadas, o ministro será responsável por essa política focada das micro e pequenas empresas’,  justificou Dilma.” <b>(Chico de Gois e Luíza Damé, <i>O Globo</i>, 10/5/2013.)</b></p>
<p><b>* E Dilma vai fazendo o diabo para se reeleger</b></p>
<p>“Lula foi duramente criticado por ter inventado ministérios e cargos só para distribui-los com aliados de ocasião. Afirma-se que nenhum presidente loteou mais seu governo do que Lula.</p>
<p>“Com licença: e Dilma? O que a diferencia de Lula em tal quesito?</p>
<p>“No seu primeiro ano de governo, Dilma afastou ministros e partidos suspeitos de corrupção. Para se reeleger, carinhosamente chamou-os de volta. E eles voltaram, felizes.</p>
<p>“Sem fazer alarde, Dilma dedica-se nos últimos meses a tapar todas as frestas por onde possa entrar oxigênio suficiente para fortalecer seus eventuais adversários nas eleições do próximo ano. Ou pelo menos para mantê-los vivos. O PSD de Afif poderá vir a apoiá-la presenteando-a com seu tempo de propaganda no rádio e na tv? Solta logo um ministério para adoçar a boca dele.</p>
<p>“Um milionário do Mato Grosso do Sul encantou-se com a retórica e os belos olhos azuis de Eduardo Campos, governador de Pernambuco e aspirante a candidato a presidente pelo PSB? Manda o vice-presidente da República oferecer a legenda do PMDB para que ele concorra ao governo do seu Estado. Certamente deve dinheiro e favores ao BNDES. Não desejará sofrer um aperto.</p>
<p>“O governador de Santa Catarina flerta com Eduardo? Flertava. Dilma recebeu-o outro dia. E na presença do ex-prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, garantiu-lhe ajuda para que governe bem. ‘Tudo que lhe darei servirá de desculpa para que você me apoie’, ensinou Dilma com a refinada sutileza que dita seus gestos. ‘Não é preciso. Eu a apoiarei de todo jeito’, respondeu o governador, encabulado.</p>
<p>“O aperto de mão trocado por Lula e Paulo Maluf nos jardins da mansão de Maluf no ano passado ficou como o mais notável símbolo da eleição de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo. Símbolo da conversão reafirmada do PT à política do vale tudo e qualquer coisa pelo poder. Até aqui, somente até aqui, a entrega a Afif de um ministério sem a contrapartida do seu afastamento do governo de São Paulo é o mais sério candidato a símbolo da provável reeleição de Dilma.” <b>(Ricardo Noblat, <i>O Globo</i>, 13/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><b>O jeito petista de ser</b></p>
<p>* <b>“O PT tem plena consciência que sua permanência no poder exigirá explicitar cada vez mais sua veia antidemocrática”</b></p>
<p>“O PT não gosta da democracia. E não é de hoje. Desde sua fundação foi predominante no partido a concepção de que a democracia não passava de mero instrumento para a tomada do poder. Deve ser recordado que o partido votou contra a aprovação da Constituição de 1988 — e alguns dos seus parlamentares não queriam sequer assinar a Carta.</p>
<p>“Depois, com a conquista das primeiras prefeituras, a democracia passou a significar a possibilidade de ter acesso aos orçamentos municipais. E o PT usou e abusou do dinheiro público, organizando eficazes esquemas de corrupção.</p>
<p>“O caso mais conhecido — e sombrio — foi o de Santo André, no ABC paulista. Lá montaram um esquema de caixa 2 que serviu, inclusive, para ajudar a financiar a campanha presidencial de Lula em 2002.</p>
<p>“Deve ser recordado que auxiliares do prefeito Celso Daniel, assassinado em condições não esclarecidas, hoje ocupam posições importantíssimas no governo (como Gilberto Carvalho e Míriam Belchior).</p>
<p>“Antes da vitória eleitoral de 2002, os petistas já gozavam das benesses do capitalismo, controlando fundos de pensão de empresas e bancos estatais; e tendo participação no conselho gestor do milionário Fundo de Amparo ao Trabalhador. Os cifrões foram cada vez mais sendo determinantes para o PT.</p>
<p>“Mesmo assim, consideravam que a ‘corrupção companheira’ tinha o papel de enfrentar o ‘poder burguês’ e era o único meio de vencê-lo. Em outras palavras, continuavam a menosprezar a democracia e suas instâncias.</p>
<p>“Chegaram ao poder em janeiro de 2003. Buscaram uma aliança com o que, no passado, era chamado de burguesia nacional. Mas não tinham mudado em nada sua forma de ação.</p>
<p>“Basta recordar que ocuparam mais de 20 mil cargos de confiança para o partido. E da noite para o dia teve um enorme crescimento da arrecadação partidária com o desconto obrigatório dos salários dos assessores. Foi a forma petista, muito peculiar, de financiamento público, mas só para o PT, claro.</p>
<p>“Não satisfeitos, a liderança partidária — com a ativa participação do presidente Lula — organizou o esquema do mensalão, de compra de uma maioria parlamentar na Câmara dos Deputados. Afinal, para um partido que nunca gostou da democracia era desnecessário buscar o debate. Sendo coerente, através do mensalão foi governando tranquilamente e aprovando tudo o que era do seu interesse.</p>
<p>“O exercício do governo permitiu ao PT ter contato com os velhos oligarcas, que também, tão qual os petistas, nunca tiveram qualquer afinidade com a democracia. São aqueles políticos que se locupletaram no exercício de funções públicas e que sempre se colocaram frontalmente contrários ao pleno funcionamento do Estado democrático de Direito.</p>
<p>“A maior parte deles, inclusive, foram fiéis aliados do regime militar. Houve então a fusão diabólica do marxismo cheirando a naftalina com o reacionarismo oligárquico. Rapidamente viram que eram almas gêmeas. E deste enlace nasceu o atual bloco antidemocrático e que pretende se perpetuar para todo o sempre.</p>
<p>“As manifestações de desprezo à democracia, só neste ano, foram muito preocupantes. E não foram acidentais. Muito pelo contrário. Seguiram e seguem um plano desenhado pela liderança petista — e ainda com as digitais do sentenciado José Dirceu. Quando Gilberto Carvalho disse, às vésperas do Natal do ano passado, que em 2013 o bicho ia pegar, não era simplesmente uma frase vulgar. Não.</p>
<p>“O ex-seminarista publicizava a ordem de que qualquer opositor deveria ser destruído. Não importava se fosse um simples cidadão ou algum poder do Estado. Os stalinistas não fazem distinção. Para eles, quem se opõe às suas determinações não é adversário, mas inimigo, e com esse não se convive, se elimina.</p>
<p>“As humilhações sofridas por Yoani Sánchez foram somente o começo. Logo iniciaram a desmoralização do Supremo Tribunal Federal. Atacaram violentamente Joaquim Barbosa e depois centraram fogo no ministro Luiz Fux. Não se conformaram com as condenações. Afinal, o PT está acostumado com os tribunais stalinistas ou com seus homólogos cubanos.</p>
<p>“E, mais, a condenação de Dirceu como quadrilheiro — era o chefe, de acordo com o STF — e corrupto foi considerada uma provocação para o projeto de poder petista.</p>
<p>“Onde já se viu um tribunal condenar com base em provas, transmitindo ao vivo às sessões e com amplo direito de defesa? Na União Soviética não era assim. Em Cuba não é assim. E farão de tudo — e de tudo para o PT tem um significado o mais amplo possível — para impedir que as condenações sejam cumpridas.</p>
<p>“Assim, não foi um ato impensado, de um obscuro deputado, a apresentação de um projeto com o objetivo de emparedar o STF. Absolutamente não. A inspiração foi o artigo 96 da Constituição de 1937, imposta pela ditadura do Estado Novo, honrando a tradição antidemocrática do PT.</p>
<p>“E o mais grave foi que a Comissão de Constituição e Justiça que aprovou a proposta tem a participação de dois condenados no mensalão e de um procurado pela Interpol, com ordem de prisão em mais de cem países.</p>
<p>“A tentativa de criar dificuldades ao surgimento de novos partidos (com reflexos no tempo de rádio e televisão para a próxima eleição) faz parte da mesma estratégia. É a versão macunaímica do bolivarianismo presente em Venezuela, Equador e Bolívia.</p>
<p>“E os próximos passos deverão ser o controle popular do Judiciário e o controle (os petistas adoram controlar) social da mídia, ambos impostos na Argentina.</p>
<p>“O PT tem plena consciência que sua permanência no poder exigirá explicitar cada vez mais sua veia antidemocrática.” <b>(Marco Antonio Villa, historiador, O Globo, 14/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Vamos tocar caxirola, irmão”</strong></p>
<p><b>* “A presidente troca com regularidade a cor dos olhos. Mas não consegue ver outro caminho”</b></p>
<p>“Na economia, a galinha pousou e ainda cacareja com estridência, sob o impulso do contato com o solo. Na política, o edifício dominante começa a mostrar suas rachaduras. O PSB, por meio de Eduardo Campos, parte para a carreira solo; dentro do governo, tremem os alicerces da fraternidade.</p>
<p>“Alguns petistas acham que Dilma Rousseff, com os olhos verdes desenhados para a nova temporada, protege Erenice Guerra, seu ex-braço direito, e o ministro Fernando Pimentel. Em contrapartida, Dilma, segundo eles, persegue Rosemary Noronha e mantém certa frieza ante os condenados pelo mensalão. É um delicado tipo de fissura. Os acusados amigos de Lula são tratados com rigor, os acusados amigos de Dilma seguem sua trajetória milionária. Erenice é um pouco, no governo Dilma, o que foi José Dirceu no governo Lula: ela articula inúmeros negócios na área de eletricidade, representa poderosos grupos estrangeiros.</p>
<p>“A essência dessa intrincada luta interna não é estranha à História do Brasil: ou todos se locupletam ou restaure-se a moralidade. O ideal é de que todos se locupletem, não exista nenhuma distinção entre trambiqueiros da cota de Lula e da cota de Dilma. São todos irmãos, bro.</p>
<p>“Como se não bastassem os ácidos humores internos, a aliança do governo embarcou numa aventura contraditória. O PT quer se vingar do Supremo Tribunal Federal (STF). O PMDB pede paz. Por que tanta briga, se podemos continuar comendo de mansinho?</p>
<p>“O embate contra o STF era previsível. E não só pelas tintas bolivarianas que ainda colorem os sonhos da esquerda no poder. A tese de que o mensalão nunca existiu não deixa margem de manobra. É preciso desarticular o Poder que escreveu a narrativa do episódio. O edifício está condenado pela Defesa Civil. No entanto, a experiência das andanças pelas áreas de risco mostra que um edifício condenado nem sempre cai ou é abandonado pelos ocupantes.</p>
<p>“Surge aí o papel da oposição. Será capaz de se unir, apresentar uma alternativa, enfrentar a dura luta cotidiana contra um esquema que estendeu seus braços como um polvo, abraçando tudo o que lhe oferece ainda alguma resistência?</p>
<p>“Vamos tocar caxirola, irmão. Chegamos aos grandes eventos esportivos, uma aventura do novo Brasil mostrando ao mundo sua capacidade de organização, sua pujança. O edifício vizinho, o da cúpula esportiva, está literalmente ruindo. João Havelange deixou a presidência da honra da Fifa, em segredo. Ricardo Teixeira gasta seus dólares em Miami. Sobrou apenas José Maria Marin, enrolado com gravações em que estigmatiza Vladimir Herzog e prega em defesa da família brasileira.</p>
<p>“Alguns patriotas que defendem a família costumam pintar os cabelos e beliscar a bunda das secretárias, em Brasília. Marin só pinta os cabelos e rouba medalhinhas em eventos esportivos. É inútil esperar que as tribos de cabelo acaju e negro como as asas da graúna entrem em conflito mortal, numa batalha que tinja a verde grama da Esplanada.</p>
<p>“Vamos tocar caxirola! Soldados vestidos com capa de chuva protegerão nossa sinfonia na seca de Brasília, em estádio que nos custou os olhos da cara.</p>
<p>“A aventura política parte do mito de que somos os melhores no futebol. Os alemães, entre outros, têm mostrado como o nosso esporte precisa de uma renovação de craques, técnicos e dirigentes. Quando o edifício da cúpula esportiva cair, e com ele o mito de que somos os maiorais, vamos jogar caxirola, irmão. O impacto se fará sentir no outro edifício condenado.</p>
<p>“A caxirola é uma granada de plástico que explode no chão fazendo ploft. Toda uma tentativa de driblar a História, de transitar pelo atalho do consumo na economia, de trilhar os caminhos revoltantes do cinismo na política será reduzida à sua verdadeira dimensão.</p>
<p>“O Rio de Janeiro tem três prédios conhecidos como ‘balança, mas não cai’. Estão ali para lembrar que as previsões só se podem cumprir se houver uma vontade ampla de achar outros rumos para o País. O edifício pode não cair no próximo teste. Nosso único consolo será ver a presidenta do Brasil tocando de novo sua caxirola, símbolo de uma visão de mundo, de povo, de festa: caxirola, cartolas, a base do governo, tudo com mordomos a R$ 18 mil e garçons a R$ 15 mil por mês. E concluir, resignadamente: venceram, mas da próxima não escapam.</p>
<p>“A caxirola passa, o Brasil segue em frente. No momento, a política aparece como uma espetáculo distante e ridículo. Não por caso os programas humorísticos montaram tenda no Congresso. Mas o ano eleitoral necessariamente trará um debate sobre os rumos do País. Já devia ter começado, no momento surgem apenas alguns slogans.</p>
<p>“Eleições podem ser uma armadilha. Cortinas de fumaça costumam dar mais votos do que argumentos sérios. Quase ninguém lê programa. Debates na TV, entrevistas ajudam a conhecer as perspectivas dos candidatos, mas ensinam um pouco também sobre o que as pessoas estão pensando sobre o País. Mas as eleições serão uma excelente oportunidade para tomarmos o pulso do Brasil, esperando constatar, como na canção, que o pulso ainda pulsa.</p>
<p>“Vivemos grandes alianças ao longo do processo de democratização: a luta pelas diretas, o impeachment de Collor. Depois foi a vez dos dois grandes partidos experimentarem o poder. O governo Fernando Henrique Cardoso construiu as bases para a estabilidade econômica e a bonança internacional inspirou o PT a dinamizar o consumo.</p>
<p>“Em 2008 a crise internacional instalou-se para lembrar que as coisas não seriam mais como antes. E nos colheu ainda com uma educação medíocre, uma infraestrutura tosca e uma gigantesca e dispendiosa máquina administrativa. Para agravar nossos custos, a imensa corrupção, vendida como um mal necessário, uma pequena taxa no banquete do consumo.</p>
<p>“Isso já era realidade em 2010. Dilma Rousseff pegou o bonde andando e manteve o rumo, indiferente ao fim da linha. Ela troca com regularidade a cor dos olhos. Mas não consegue ver outro caminho.” <b>(Fernando Gabeira, <i>Estadão</i>, 10/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Vexame</strong></p>
<p><b>* Sucessor de Chávez visita Lula – e dá chá de cadeira na presidente da República</b></p>
<p>“A presidente do Brasil é Dilma Rousseff, mas isso parece ser apenas um detalhe. Na fabulação bolivariana, ela não passa de uma nota de rodapé ante os ‘gigantes’ Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner. Por isso, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, não teve nenhum pudor em deixá-la esperando por quase duas horas, durante sua visita ao Brasil, enquanto se encontrava com o ex-presidente Lula. Não foi apenas Dilma que saiu menor desse episódio. É a própria Presidência brasileira que encolhe a olhos vistos ante o menosprezo de Lula pela liturgia do cargo que ele não mais ocupa, mas do qual não consegue ‘desencarnar’. Dilma, por sua vez, obediente e disciplinada, parece aceitar seu status de presidente ad hoc.</p>
<p>“Como se sabe, Maduro veio ao Brasil para obter a legitimidade política que lhe falta na Venezuela, graças à truculência com que ele está tratando a oposição &#8211; dona de metade dos votos na controvertida eleição vencida pelo herdeiro de Chávez. Maduro enfrenta resistência também nas próprias fileiras chavistas, porque, com a morte do Comandante, se multiplicaram focos de rebelião daqueles que se sentiram preteridos dentro do Politburo venezuelano e relutam jurar lealdade ao presidente.</p>
<p>“Já começam a circular rumores de que os próprios chavistas, principalmente o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, estão conspirando para prejudicar Maduro. Suspeita-se que Cabello &#8211; que já está sendo chamado de ‘ditador em espera’, é muito ligado aos militares e não é bem visto pelo regime cubano, padrinho de Maduro &#8211; esteja incitando a violência para precipitar a crise.</p>
<p>“Tudo isso acontece em meio a uma avassaladora crise econômica, cujo lado mais perverso e politicamente explosivo é o desabastecimento de alimentos &#8211; que Maduro atribuiu à ‘sabotagem econômica’, sem reconhecer a óbvia incompetência de seu governo. Não surpreende que já haja pesquisas mostrando que, se a eleição presidencial fosse hoje, o vencedor seria o opositor Henrique Capriles.</p>
<p>“Nesse contexto, Maduro veio ao Brasil para pedir ajuda &#8211; que se traduzirá em acordos comerciais francamente desequilibrados em favor da Venezuela &#8211; e para consultar-se com Lula para saber o que fazer. O ex-presidente não o decepcionou. ‘Hoje, Lula nos banhou de sabedoria’, declarou, entusiasmado, o venezuelano, após a audiência que contou também com a presença do presidente do PT, Rui Falcão, numa deliberada confusão de questões de Estado com interesses político-ideológicos. Lula falou durante uma hora sobre sua ‘experiência de luta’, disse Maduro, que qualificou o petista de ‘pai dos homens e mulheres de esquerda da América Latina’. Para o venezuelano, ‘dos três gigantes que começaram este processo de integração da América Latina, Kirchner, Chávez e Lula, só nos resta Lula’. Assim, a visita oficial de um chefe de Estado ao Brasil converteu-se em peregrinação para adorar um santo vivo e beber de seus ‘ensinamentos’.</p>
<p>“Somente depois de beijar a mão de Lula e de reconhecer-se como seu ‘filho’ é que Maduro dirigiu-se ao Planalto para ser recebido por Dilma, que lhe reservou honras de Estado, a despeito do chá de cadeira que levou. Não contente em fazê-la esperar, Maduro ainda lhe presenteou com um enorme retrato de Chávez, numa cena constrangedora, que tornou a presidente ainda menor em todo o contexto. Restou a Dilma fazer um discurso curto, protocolar, em que exaltou a ‘parceria estratégica’ entre Brasil e Venezuela e chamou de ‘momento histórico’ o fato de que a Venezuela assumirá a presidência do Mercosul no segundo semestre &#8211; situação esdrúxula que só está sendo possível graças a um golpe bolivariano para isolar o Paraguai, que se opunha à entrada da Venezuela no bloco.</p>
<p>“À vontade, Maduro sentiu-se autorizado a dizer, sem que a mentira fosse contestada, que o projeto do Mercosul ‘nasceu em essência das ideias de Chávez’. No culto à personalidade de Chávez e Lula, Dilma é cada vez mais apenas uma coadjuvante.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 11/5/2013.)</b></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Idéia de jerico</strong></p>
<p><b>* A falácia da importação de médicos cubanos</b></p>
<p>“Não poderia ser pior a medida em estudo pelo governo federal &#8211; a importação de 6 mil médicos cubanos &#8211; para resolver o problema da falta desses profissionais em cidades do interior, principalmente nas regiões mais pobres do País. Além das restrições legais ao seu trabalho aqui, que deveriam bastar para invalidar a ideia, é preciso considerar também a duvidosa qualificação técnica desses médicos. Como essa não é a primeira vez que a medicina cubana é apresentada como valiosa ajuda para a solução de nossos problemas, sem base em nenhum dado objetivo, tal insistência torna inescapável a conclusão de que o governo está misturando perigosamente política com saúde da população.</p>
<p>“Embora a questão esteja sendo estudada, além dele, também pelos Ministérios da Saúde e da Educação, não deixa de ser significativo que tenha sido o titular do Ministério das Relações Exteriores, Antônio Patriota, que anunciou a possível adoção da medida, depois de um encontro com seu colega cubano, Bruno Rodriguez, em Brasília. ‘Estamos nos organizando para receber um número maior de médicos (cubanos) aqui, em vista do déficit de profissionais de medicina. Trata-se de uma cooperação que tem grande potencial e a qual atribuímos um grande valor estratégico’, disse ele.</p>
<p>“Acrescentou o ministro, de acordo com o jornal <i>O Globo</i>, que a vinda daqueles médicos fortaleceria ainda mais a parceria do Brasil com Cuba numa área em que este país ‘detém clara vantagem e se estabeleceu mundialmente como um país que contribui para elevar os níveis de saúde aqui na América Latina’. Como o que está em discussão não são sistemas de saúde, mas especificamente a possível contribuição de médicos cubanos, supõe-se que Patriota, ao falar em ‘clara vantagem’, tenha se referido à da medicina cubana sobre a brasileira. Isto é, na melhor da hipóteses, um exagero retórico, que não pode ser levado a sério, mas que coloca em evidência o componente político da medida em estudo.</p>
<p>“Os médicos cubanos viriam como prestadores de serviço ao governo brasileiro, com contratos temporários &#8211; de dois a três anos &#8211; assinados com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Como a lei exige a revalidação dos diplomas desses profissionais para que eles possam trabalhar aqui, o Ministério da Saúde estaria tentando, desde o ano passado, negociar com o Conselho Federal de Medicina (CFM) a concessão de licença provisória por aquele período, tanto para médicos de Cuba como de Portugal e Espanha. A pronta reação do CFM ao anúncio de que aquela medida estava em estudo, com duras críticas do governo, mostra que a negociação deu em nada.</p>
<p>“Em dura nota oficial, ele condena ‘qualquer iniciativa que proporcione a entrada irresponsável de médicos estrangeiros e de brasileiros com diplomas de Medicina obtidos no exterior sem sua respectiva validação’. Como pela lei essa validação é obrigatória, a questão deverá ser levada à Justiça. A nota chama a medida de ‘agressão à Nação’, porque atenderia a ‘interesses específicos e eleitorais’. A posição adotada pelo CFM se justifica plenamente. Como o governo sabe que dificilmente os médicos cubanos conseguirão passar no exame para validação de seus diplomas, a tal licença provisória é um expediente para contornar a exigência legal.</p>
<p>“Foram decepcionantes os resultados do exame, feito no ano passado, para a validação de diplomas de médicos, cubanos ou não, formados em Cuba. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), dos 182 inscritos, só 20 foram aprovados, ou seja, 1 de cada 9. É aos cuidados desse tipo de médico, comprovadamente sem a necessária qualificação, que o governo quer deixar a população pobre das pequenas cidades.</p>
<p>“Têm razão portanto os especialistas, quando afirmam que a solução não é importar médicos cubanos ou contratar brasileiros formados em Cuba, sem diplomas validados. É investir cada vez mais na formação de médicos brasileiros e criar estímulos para que trabalhem no interior.” <b>(Editorial, <i>Estadão</i>, 10/5/2013.)</b></p>
<blockquote><p><i>17 de maio de 2013</i></p>
<p><em>Outras compilações de provas da incompetência de Dilma e do governo:</em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-85/"><em>Volume 85 – Notícias de 1º a 7/2.</em></a></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-86/"><em>Volume 86 – Notícias de 8 a 14/2.</em></a></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-87/"><em>Volume 87 – Notícias de 15 a 21/2.</em></a></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-88/"><em>Volume 88 – Notícias de 22 a 28/2.</em></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-89/">Volume 89 – Notícias de 1º a 7/3.</a></em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-90/"><em> Volume 90 – Notícias de 8 a 14/3.</em></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-91/">Volume 91 – Notícias de 15 a 21/3</a></em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-92/"><em>Volume 92 – Notícias de 22 a 28/3.</em></a></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-93/"><em>Volume 93 – Notícias de 29/3 e 4/4.</em></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-94/">Volume 94 – Notícias de 5 a 11/4.</a><br />
</em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-no-pais-de-dilma-95/"><em>Volume 95 – Notícias de 12 a 18/4.</em></a></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-96/"><em>Volume 96 – Notícias de 19 a 25/4.</em></a></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-97/">Volume 97 – Notícias de 26/4 a 2/5.</a></em></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/mas-noticias-do-pais-de-dilma-98/"><em>Volume 98 &#8211; Notícias de 3 a 9/5.</em></a></p></blockquote>
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		<title>Thaddeus Stevens, um político e tanto</title>
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		<pubDate>Wed, 15 May 2013 19:07:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Maria Helena R.R. de Sousa]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8216;Dentre as manias que eu tenho&#8217;… uma é nunca assistir filmes ou ler livros que estejam no topo das listas logo que vêm a público. Não sei o motivo dessa birutice, mas com livros sempre foi assim. Comprava o livro e só ia lê-lo algum tempo depois. Com os filmes era mais complicado. Só não [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div dir="ltr">
<p><em>&#8216;Dentre as manias que eu tenho&#8217;</em>… uma é nunca assistir filmes ou ler livros que estejam no topo das listas logo que vêm a público. Não sei o motivo dessa birutice, mas com livros sempre foi assim. Comprava o livro e só ia lê-lo algum tempo depois.<br />
<span id="more-9986"></span></p>
<p>Com os filmes era mais complicado. Só não ia assistir nos primeiros dias, esperava um pouco. Nisso, o progresso me foi favorável. Hoje compro o DVD e vejo quando quero.</p>
<p>Foi o que aconteceu agora com <em>Lincoln</em>, que amei! É um filme palavra. Sem desfazer das interpretações magistrais, ou da reconstituição brilhante da época, são os diálogos que apaixonam.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzthaddeus.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-9992" alt="zzthaddeus" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzthaddeus.jpg" width="360" height="257" /></a>Abraham Lincoln foi um homem fora de série. Sua força moral, sua postura de homem público, seus discursos, suas cartas, seu relacionamento com Mary Todd, sobre tudo isso eu já lera. Diante do monumento a ele em Washington, D.C., fiquei muito emocionada e chorei. Segundo Spielberg, há mais de 700 biografias dele. Li duas, interessantes as duas, mas dizem que essa em que o filme se baseou é simplesmente sensacional. Pretendo ler.</p>
<p>Mas o que o filme fez de melhor por mim foi me apresentar a um personagem da história americana que eu não conhecia. Ou, pelo menos, para não desfazer dos livros onde estudei a história dos EUA, ele era mencionado sem muito destaque.</p>
<p>E, no entanto, segundo o filme e de acordo com pesquisas após ver o filme, Thaddeus Stevens fez pelos americanos o que Joaquim Nabuco fez pelos brasileiros.</p>
<p>Aqui não houve necessidade da força bruta. Mas nos EUA a Guerra Civil foi terrível. E Stevens foi dos que mais pugnaram pela guerra total. Olhem o que ele disse em 22 de janeiro de 1862:</p>
<p>“Não nos deixemos enganar. Aqueles que falam em paz dentro de 60 dias são políticos sem tutano. A guerra não terá fim até que o governo reconheça a imensidão da crise; até que perceba que essa é uma guerra que vai durar até que uma das partes tenha seu poder de reagir totalmente aniquilado. É triste, mas essa é a realidade”.</p>
<p>Ele achava que isso não ocorreria enquanto o Sul contasse com seus escravos para cultivar os campos e que o Norte, apesar de seus milhões de combatentes e incontável riqueza, não conquistaria o Sul com uma guerra que era quase que um ‘desacordo’ entre cavalheiros. Dizia que enquanto os estados sulistas contassem com mão de obra escrava, a União podia desperdiçar o sangue de milhares e bilhões de dólares ano após ano, sem nunca se aproximar de uma solução. A escravidão, segundo ele, dava muita vantagem ao Sul.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzthaddeus2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-9993" alt="zzthaddeus2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzthaddeus2.jpg" width="535" height="300" /></a>“Se os escravos não cultivassem algodão e arroz, tabaco e grãos para os rebeldes, esta guerra terminaria em seis meses”.</p>
<p>No dia da votação, 31 de janeiro de 1835, foi dele a tirada magistral que deu a vitória à 13ª emenda. Para não afastar os votos dos favoráveis ao fim da escravidão, mas que não rezavam pela cartilha da igualdade total, os inimigos querem forçá-lo a repetir em seu voto que acreditava na igualdade absoluta. Saída de Stevens: “Não acredito na igualdade entre todas as coisas, apenas na igualdade perante a Lei, e nada mais”.</p>
<p>No filme ele é interpretado por Tommy Lee Jones, num trabalho magnífico! É a terceira vez que o personagem é apresentado em um filme: Griffith, em <em>O Nascimento De Uma Nação </em>(1915), o apresenta como um congressista fanático, meio patife, mas bastante tosco; num filme de 1942 sobre a vida do presidente Andrew Jackson, interpretado por Lionel Barrymore, ele é retratado como um vilão fanático&#8230;</p>
<p>Ainda bem que Steven Spielberg pôde contar com a mais recente e completa biografia de Lincoln e sua luta pela abolição. Fez-se justiça a Thaddeus Stevens.</p>
<blockquote><p><em>15 de maio de 2013</em></p></blockquote>
</div>
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		<title>Porto inseguro</title>
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		<pubDate>Mon, 13 May 2013 21:42:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Dilma Rousseff, Lula e o PT só pensam naquilo: reeleição, eleição, reeleição. Não necessariamente nessa ordem, já que depende da maré &#8211; leia-se, da economia &#8211; quem será o protagonista em 2014. E de tanto pensar no calendário eleitoral, a presidente, que nunca foi lá muito jeitosa na arte da conversação, move-se trôpega na política. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Dilma Rousseff, Lula e o PT só pensam naquilo: reeleição, eleição, reeleição. Não necessariamente nessa ordem, já que depende da maré &#8211; leia-se, da economia &#8211; quem será o protagonista em 2014.<span id="more-9981"></span></p>
<p>E de tanto pensar no calendário eleitoral, a presidente, que nunca foi lá muito jeitosa na arte da conversação, move-se trôpega na política. Ainda não a ponto de comprometer sua liderança suprema, mas já turvando o cenário que emoldura a ambição de poder eterno do PT.</p>
<p>A MP dos Portos é um exemplo acabado disso. Ninguém em sã consciência é contrário à modernização dos portos do País. Torce-se para que o Brasil consiga desatar os nós cada vez mais cegos pela corrupção, leniência pública e oportunismo privado que se imiscuem há anos nos portos brasileiros.</p>
<p>Mexer nesse vespeiro é um ato de coragem. Mas por que a prepotência? Por que não fazê-lo direito?</p>
<p>A resposta parece estar no fato de Dilma crer que tudo sabe. De seu governo ter aversão à política, diagnóstico expresso nas contundentes críticas que o líder do PMDB na Câmara Eduardo Cunha (RJ) fez em entrevista ao jornal <em>Valor Econômico</em>.</p>
<p>Entre uma estocada e outra, o deputado disse que o governo “não articula e depois quer impor o que o tecnocrata decide”, e que quem escreveu a MP nunca teria visto um contêiner.</p>
<p>Cunha pode ser flor que não se cheire &#8211; é réu na Suprema Corte por falsificação de documentos. Mas sua fala traduz com precisão cartesiana o comportamento da presidente.</p>
<p>Especificamente na questão dos portos, Dilma abusou. Buscou apoio de empresários sem se dar conta de que cada um cuidaria de seus próprios interesses. Ganhou Paulo Skaf, presidente da Fiesp, de olho em um trampolim para disputar o governo de São Paulo, Jorge Gerdau e Eike Batista, ambos investidores diretos em portos, e que se digladiam.</p>
<p>Amansou trabalhadores que ameaçavam greve, mas só adiou o embate. E nem deu bola para o Congresso, segura de que a pressão sobre a gigantesca base, ainda que pelas práticas franciscanas do toma-lá-dá-cá, asseguraria a vitória.</p>
<p>Em um flanco, sumiram os votos do PSB do governador Eduardo Campos, que não admite a hipótese de perder poderes sobre o porto de Suape (PE). Em outro, não teve o apoio de parte do PDT de Paulinho da Força (SP) e do PSD de Gilberto Kassab. E o PMDB lhe puxou o tapete.</p>
<p>O governo que angariou a maior base de apoio já vista na história deste País está paralisado por essa mesma base. Por soberba, incompetência e inapetência da presidente. Até agora, uma combinação que só lhe impõe desconforto, mas que tende a se tornar explosiva.</p>
<p>Ainda que Dilma resista a crer, política não é só eleição.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 13/5/2013. </em></p></blockquote>
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		</item>
		<item>
		<title>A lição do juiz poeta</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2013/a-licao-do-juiz-poeta/</link>
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		<pubDate>Mon, 13 May 2013 18:55:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Na tevê, o jornalista quer saber de Carlos Ayres Britto, ex-ministro e presidente do STF, qual a sua opinião sobre o propagado conflito entre o Congresso e o Supremo. Com sua tranquila serenidade, que os brasileiros atentos já se acostumaram a admirar, ele joga toalha fria nos que apostam em confronto. Tudo se resolve na [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na tevê, o jornalista quer saber de Carlos Ayres Britto, ex-ministro e presidente do STF, qual a sua opinião sobre o propagado conflito entre o Congresso e o Supremo. Com sua tranquila serenidade, que os brasileiros atentos já se acostumaram a admirar, ele joga toalha fria nos que apostam em confronto.<span id="more-9978"></span></p>
<p>Tudo se resolve na conversa e os poderes estão dialogando. Suas intervenções, no programa exibido pelo canal a cabo no último sábado (<i>dia 3 de maio</i>), sempre esclarecem didaticamente. Não há como não entender sua explanação objetiva.</p>
<p>Bebi com prazer suas palavras sobre a diferença entre a Assembléia Nacional Constituinte, que mais do que a voz do povo é a voz da Nação, esse ente superior que congrega a todos e é a mais alta manifestação institucional de todos os brasileiros.</p>
<p>O Congresso, o Executivo e o Supremo são poderes constituídos e portanto</p>
<p>têm de se submeter à vontade maior expressa por quem os constituiu,</p>
<p>a Assembléia Constituinte através da Constituição que é fruto do desejo</p>
<p>da Nação. A Constituição une o passado, o presente e o futuro, molda o rumo do País. Por ser originária, ela dita o que a Nação quer, impõe limites à atuação dos poderes dela derivados.</p>
<p>Dessa forma, o Congresso pode muito mas não pode tudo. Ele, poder constituído, pode revisar e emendar muita coisa que está escrita na Constituição, mas não pode nem pensar em tocar no que o Constituinte original estabeleceu como definitivo.</p>
<p>É o que acontece com o que há de mais sagrado e belo em nossa Bíblia jurídica, o capítulo quinto, dos direitos e garantias fundamentais. É ali que estamos todos abrigados contra todas as tentativas autoritárias e desumanas das autoridades. É arma do cidadão contra os abusos.</p>
<p>O parágrafo quarto do artigo 60 diz de forma explícita que “não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir&#8230;os direitos e garantias individuais”.</p>
<p>Muitos congressistas passam a impressão de que não leram, não entenderam ou fingem não compreender o livro da cidadania e da Nação. Mas o professor poeta e juiz Ayres Britto, na vida comum, continua ministrando ensinamentos necessários. E escrevendo coisas belas, tais como:</p>
<p>minhas rugas vão aumentando para que minhas rusgas diminuam; sentei-me no topo do sorriso de um guri e foi como sentar para ver Michelangelo esculpindo o seu Davi; meu baú de guardar mágoas tem o fundo aberto; nosso olhar é sábio: só prende em sua retina o que foge da rotina; o movimento dos quadris daquela moça condena tudo o mais ao desolhar; não quero ser melhor do que os outros, quero é ser melhor do que antes; minhas tristezas eu trato de esquecer o quanto ontem; a lua é a coisa mais linda que Deus não botou na face da terra.</p>
<p>Belezas do juiz e do poeta.</p>
<blockquote><p><i>Esta crônica foi originalmente publicada no </i>Estado de Minas<i>, em maio de 2013. </i></p></blockquote>
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		<title>O coração numa bandeja</title>
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		<pubDate>Sun, 12 May 2013 18:14:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuel S. Fonseca]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Mesmo alguém que não se cha­masse Coe­lho estre­me­ce­ria ao ouvir a voz melan­có­lica de Pedro I, rei de Por­tu­gal, orde­nar: “Preparem-me esse coe­lho que tenho fome.” Num conto de Os Pas­sos em Volta, de Her­berto Hel­der, um dos assas­si­nos de Inês, Pêro Coe­lho, de joe­lhos entre os guar­das, reco­nhece o direito de vin­gança do monarca [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzzhanibal.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-9974" alt="zzzzzzzhanibal" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/zzzzzzzhanibal.jpg" width="618" height="402" /></a></p>
<p>Mesmo alguém que não se cha­masse Coe­lho estre­me­ce­ria ao ouvir a voz melan­có­lica de Pedro I, rei de Por­tu­gal, orde­nar: “<i>Preparem-me esse coe­lho que tenho fome.</i>” Num conto de <em>Os Pas­sos em Volta</em>, de Her­berto Hel­der, um dos assas­si­nos de Inês, Pêro Coe­lho, de joe­lhos entre os guar­das, reco­nhece o direito de vin­gança do monarca e sabo­reia a iro­nia da frase real.<span id="more-9973"></span> A cru­el­dade do rei pre­cisa de ter a medida san­grenta e bár­bara equi­va­lente ao assas­sí­nio que deu asas de lenda ao amor de Pedro e Inês, preservando-o para a eternidade.</p>
<p>Há quem jure que Han­ni­bal Lec­ter é uma cri­a­ção do escri­tor Tho­mas Har­ris que o cinema adap­tou. Tolice. Han­ni­bal é uma per­so­na­gem viva que se apo­de­rou do corpo do actor Anthony Hop­kins durante um filme, <em>The Silence of the Lambs</em>, abandonando-o, sem prés­timo, deste então. Entre D. Pedro I e Han­ni­bal há um traço gas­tro­nó­mico comum, o gosto de ambos pelo cru. Tenho dois exem­plos na ponta da língua.</p>
<p>Tra­zem a Pedro, numa ban­deja, o cora­ção que aca­ba­ram de arran­car a Coe­lho pelas cos­tas. Pulsa ainda. O rei exibe-o para que a mul­ti­dão aplauda e sacie o seu justo ódio. A seguir, os den­tes do rei enterram-se com gosto na vís­cera tão quente, tão humana.</p>
<p>Numa das mais bri­lhan­tes cenas de <em>Silence of the Lambs</em>, filme de uma sen­si­bi­li­dade ino­cente, Han­ni­bal ataca os dois guar­das que o vigiam. Com uma gula intem­pes­tiva, come a boca de um, num beijo san­grento, tár­taro, diga­mos; depois arranca ao outro, com deli­ca­deza, a pele inteira do rosto, que lite­ral­mente veste, ence­nando a fuga perfeita.</p>
<p>Pedro I de Por­tu­gal e Han­ni­bal, o cani­bal, par­ti­lham o mesmo género de amor pela huma­ni­dade. É um amor desi­lu­dido e triste. O des­me­dido amor que têm pelo pró­ximo fá-los com­pre­en­der que só comendo-o, integrando-o no pró­prio corpo, o podem salvar.</p>
<p>Para se redi­mir, o cora­ção de Pêro Coe­lho quer ser comido pelo rei. Tam­bém as víti­mas de Han­ni­bal Lec­ter dese­jam o perigo, a exci­ta­ção de estar ao alcance dos pode­ro­sos maxi­la­res dele, da boa man­dí­bula, den­tes fir­mes, lín­gua que de vez em quando ele agita, vipe­rina, na boca impi­e­dosa. Que­rem que lhes caia uma gota de saliva em cima. Cla­rice, a per­so­na­gem que Jodie Fos­ter incarna no filme, quando conhece Han­ni­bal expe­ri­menta um fré­mito tão sexual que se pode chei­rar. Jodie Foste nunca é comida, mas não é certo que não tenha pena. Não poderá dizer, como Pêro Coe­lho, “<i>irei cres­cendo den­tro do rei que comeu o meu cora­ção</i>.”</p>
<p>“<i>Preparem-me esse coe­lho que tenho fome.</i>” A essas pala­vras ten­ras do rei por­tu­guês, Han­ni­bal, ofe­rece a rima certa no fim de <em>Silence of the Lambs</em>. Despede-se de Cla­rice, que não comeu, com aris­to­crá­tica iro­nia: “<i>Tenho um amigo para o jan­tar</i>.” Tal­vez a pers­pec­tiva de um futuro cani­bal possa, por deli­ca­deza, dar outro sabor à huma­ni­dade que somos.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no semanário português <a href="http://expresso.sapo.pt/">O Expresso</a>.</em></p>
<p><em><a href="mailto:manuel.s.phonseca@gmail.com">manuel.s.phonseca@gmail.com</a></em></p>
<p><em>Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia. </em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Do testezinho de Hélio Cabral à tristeza</title>
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		<pubDate>Sat, 11 May 2013 03:12:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[“Testezinho aí, senhor?”, ele perguntava. Pegava uma foto, cena de um filme, tapava pedaços que poderiam revelar qual era o filme, qual era o ator ou atriz que aparecia na foto (muitas eram fotos de publicidade, enviadas aos jornais pelos distribuidores), e fazia a pergunta: “Testezinho aí, senhor?” Hélio Cabral queria saber quem acertava o [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>“Testezinho aí, senhor?”, ele perguntava. Pegava uma foto, cena de um filme, tapava pedaços que poderiam revelar qual era o filme, qual era o ator ou atriz que aparecia na foto (muitas eram fotos de publicidade, enviadas aos jornais pelos distribuidores), e fazia a pergunta: “Testezinho aí, senhor?”<span id="more-9966"></span></p>
<p>Hélio Cabral queria saber quem acertava o teste, quem saberia dizer o nome do ator ou da atriz da foto, e qual era o filme.</p>
<p>Isso acontecia toda noite na velha redação do <i>Jornal da Tarde</i>, no quinto andar do prédio da Major Quedinho. A tradição se manteve quando mudamos para o sexto andar, e depois, quando houve a mudança para o então prédio novo, na Marginal.</p>
<p>Até que um dia, de repente, Hélio Cabral parou de brincar. Por motivos extremamente pessoais, que jamais entendi perfeitamente. Parece que alguém o agrediu, e ele fechou-se em copas, como um tatu-bola. Jamais voltou a sorrir.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>São insondáveis os caminhos da memória da gente. Me lembrei de Hélio Cabral fazendo sua pergunta de todos os fechamentos – “Testezinho aí, senhor?” – ao ver <a href="https://www.youtube.com/watch?v=64lDaAmpvSo">a homenagem prestada pelo Google na sua página de abertura a Saul Bass</a>, o gênio do design gráfico, pelo dia em que ele faria 93 anos. Saul Bass morreu em 1996, aos 76 anos.</p>
<p>Fiquei absolutamente encantado com o filmetinho que o Google botou no lugar de seu próprio logo, no dia 8 de maio, dia de nascimento de Saul Bass. Tuitei, facebookei. O filmetinho, que dura pouquíssimo, e vem ao som da “Unsquare Dance”, do disco <i>Time Out</i> de Dave Brubeck, mostra trechos de diversos filmes que tiveram a honra de ter seus créditos iniciais e cartazes desenhados por Saul Bass.</p>
<p>E aí, no Facebook, provoquei: “Cinéfilos de todos os tempos, quantos filmes vocês conseguem identificar na homenagem do Google ao Saul Bass?”</p>
<p>Impressionante: a resposta foi quase, como diz o samba, o silêncio que atravessa a madrugada.</p>
<p>Márcia Lobo comentou. Sandro Vaia retuitou, fez elogio a Saul Bass.</p>
<p>Carlos Bêla, atento, ligado, como sempre, comentou no Face: “ Ótima animação, gostei demais. Sou fanático pelo Saul Bass. referência de animação e design até hoje”.</p>
<p>Mas não é tanto a reação que importa. O que importa é que, depois que fiz a provocação – quantos filmes vocês conseguem identificar? –, me lembrei, de repente, de Hélio Cabral fazendo os testezinhos.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>E a lembrança é boa, gostosa, agradável, mas ao mesmo tempo é dura demais, porque traz inevitáveis comparações.</p>
<p>Hélio Cabral fazia seus testezinhos no início dos anos 1970. Sei lá se ele já fazia isso em 1966, quando o <i>JT</i> começou; cheguei lá em 1970, e ele fazia os testezinhos. Umas cinco, oito, dez pessoas se reuniam para os testezinhos. Era junto da mesa da Diagramação, para onde eram levadas as fotos, as fotos em papel, que sairiam no jornal do dia seguinte, e Hélio Cabral ia até lá quando a Editoria de Variedades enviava as fotos dos filmes que iriam passar na TV no dia seguinte, e berrava que era a hora do testezinho.</p>
<p>Eu era um foquinha, um iniciantezinho de merda, e observava aquilo embasbacado.</p>
<p>Aos 20 anos, foquinha, iniciantezinho de merda no jornalismo, eu já tinha visto muito filme. Epa! Milhares deles. Tinha visto muito Godard, Glauber, toda essa coisa chata que agora, depois de velho, não tenho mais que ver. Mas também já tinha visto muito do que realmente importa: Bergman, Buñuel, Fellini, Antonioni, mas, sobretudo, e isso sim é o que vale a pena na vida, Ford, Hawks, Capra, Truffaut&#8230;</p>
<p>Mas não me lembro de ter acertado muito testezinho do Hélio Cabral. Realmente não me lembro.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>O que dói, e dói muito, é lembrar da velha redação do <i>JT</i>, aquela coisa vibrante, emocional, emocionada, emocionante, e pensar naquilo que o jornalismo virou, tem virado, nos últimos anos.</p>
<p>Tudo bem: o <i>JT</i> foi uma coisa especial na imprensa brasileira. Havia tempo de sobra para trabalhar, e não se exigia que o jornal desse todas as notícias importantes do dia. O <i>JT</i> selecionava o que os editores consideravam os melhores assuntos do dia, e tentava ir fundo neles. Não havia ainda, naquele início dos anos 70, a cobrança no dia seguinte: nós não demos tal matéria. Importava era ter dado bem as matérias que pareceram as mais interessantes.</p>
<p>Era outro tempo, outro mundo, outro jornalismo. É óbvio que não dá para comparar com o mundo, o jornalismo de hoje.</p>
<p>Mas o fato é que a redação interagia, as pessoas falavam uma com a outra, perguntavam coisas umas às outras. Enquanto Hélio Cabral fazia seus testezinhos, a gente ia de mesa em mesa perguntar aos colegas qual das três opções de títulos que tínhamos feito pareciam as melhores.</p>
<p>Os jovens aprendiam com os mais velhos. Os jovens respeitavam os mais velhos porque eles sabiam mais.</p>
<p>E aí lembrar daquilo dói, quando vemos o que se faz hoje, em redações com cada vez menos gente, e gente sendo obrigada a fazer mais.</p>
<p>Não é uma questão de reclamar dos jornalistas de hoje. A culpa não é deles.</p>
<p>Mas a verdade é que, nas últimas décadas, o jornalismo brasileiro (sei lá como é o jornalismo nos outros países) vem se encaminhando celeremente para o suicídio coletivo.</p>
<p>E o apavorante é que, sem imprensa sólida, sem grandes, poderosas, ricas (e portanto independentes dos governos de plantão), a democracia sai profundamente sacrificada.</p>
<p>Só quem lucra com a crise da grande imprensa são os donos do poder.</p>
<p>E não adianta os donos do poder de hoje virem dizer que eles são pró-povo, e a imprensa é a defensora dos privilégios, das oligarquias. Isso é bla-bla-blá idiota, novilíngua petista. Todos sabemos que as oligaraquias retrógradas – os Sarneys, os Collors de Mello, os Barbalhos – são aliadas do partido que se diz dos trabalhadores, e na verdade hoje é formado pelos gafanhotos que tomaram de assalto o país.</p>
<blockquote><p><em>Maio de 2013</em></p>
<p><em>Comecei esse texto no dia 8 de maio, a quarta passada, e não o retomei. Voltei a ela só nesta sexta, dia 10, depois de ler o belo (e triste) <a href="http://50anosdetextos.com.br/2013/o-figado-de-ulysses/">artigo do meu amigo Sandro Vaia</a> no Blog do Noblat e aqui mesmo sobre como o jornalismo anda preguiçoso, leniente, incompleto.</em></p>
<p><em>Ah, sim, o testezinho do Google. Em um filmete de 1 minuto e 21 segundos, identifiquei </em>O Homem do Braço de Ouro, Tempestade Sobre Washington, West Side Story, Um Corpo que Cai, Intriga Internacional, Anatomia de um Crime <em>e</em> A Volta ao Mundo em 80 Dias<em>. Alguém aí vê outros filmes? </em></p></blockquote>
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