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	<title>50 Anos de Textos</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Velho candidato</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 17:09:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A Itália tem uma tradição de cultuar seus velhos mais importantes, que tiveram uma vida marcante e construíram obras para a posteridade, e costuma reverenciá-los, chamando-os de “grandi vecchi” (grandes velhos). Foi assim que nos últimos anos os italianos se referiram, por exemplo, a Indro Montanelli no jornalismo, a Mário Monicelli no cinema, a Norberto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Itália tem uma tradição de cultuar seus velhos mais importantes, que tiveram uma vida marcante e construíram obras para a posteridade, e costuma reverenciá-los, chamando-os de “grandi vecchi” (grandes velhos). <span id="more-2377"></span>Foi assim que nos últimos anos os italianos se referiram, por exemplo, a Indro Montanelli no jornalismo, a Mário Monicelli no cinema, a Norberto Bobbio no pensamento político, a Sandro Pertini na política partidária.</p>
<p>Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL à Presidência da República, que na sua longa trajetória política avançou da esquerda da Democracia Cristã à esquerda de um partido desgarrado do PT, poderia ser um dos “grandes velhos” da política brasileira, se aqui houvesse algum tipo de reconhecimento parecido com aquele que os italianos dedicam aos seus, e se ele não se tivesse encapsulado em uma versão cada vez mais obsoleta e reacionária de sua utopia regressiva.</p>
<p>Plínio Sampaio faz parte de uma tribo que deixou o PT num primeiro momento por razões morais, e num segundo momento, por não considerar o partido suficientemente esquerdista para merecer o esforço e o calor de sua militância. A sua candidatura provocou um racha num partido que já é minúsculo pela sua própria natureza e ainda não conseguiu encontrar o eixo por onde tentar fazer fluir o seu projeto utópico de conciliar o socialismo com a liberdade. O PSOL (Partido do Socialismo e da Liberdade) – que tem em seus quadros ex-comunistas que chegaram a se comprometer no passado com a idéia da democracia como valor universal – não conseguiu ainda se desvencilhar das armadilhas de ser, mais do que um partido político, um intrigante oxímoro histórico: não se conhece um único caso real de convivência entre socialismo e liberdade, sendo que em todas as experiências feitas no mundo nesse sentido, um conceito acaba funcionando como negação do outro.</p>
<p>Para quem acreditava, no começo, que o PSOL viesse a ser uma tentativa de um sopro de renovação numa idéia que ampara o velho sonho de uma maior igualdade entre os homens, a campanha de Plínio está sendo uma decepção. Nenhuma centelha de novidade, nenhuma tentativa de regeneração da idéia, a mesma retórica velha e desgastada, e até mesmo a incorporação da recorrente idéia das bases de esquerda do PT, de domesticação da imprensa através do eufemismo do “controle social”. Plínio disse que é contra a censura à imprensa, mas que apóia todas as ações do tenente-coronel venezuelano Hugo Chávez em sua paciente cruzada para limitar a liberdade de expressão em seu país. “Chávez cumpriu a lei de seu país”, disse Plínio, sem levantar nenhuma sombra de objeção ao fato de que as leis num regime de violações constitucionais nada mais fazem do que institucionalizar a exceção, e que é exatamente nesse processo que se dá a legitimação das tiranias.</p>
<p>Um partido que pretendia renovar a esquerda, e que concorre à Presidência da República com um candidato que promete desapropriar qualquer propriedade – <em>produtiva ou não</em> (grifo inspirado por ele) – acima de 500 hectares, que manteria a desatinada política externa que vem sendo praticada por este governo, e que gostaria de estabelecer o controle social da imprensa (por ele, aliás, esse controle seria estabelecido desde já , porque ele gostaria de obrigar as TVs a convidá-lo compulsoriamente para todos os debates), não está muito longe de ser uma réplica de um grupelho com a mesma importância e representatividade de um PSTU.</p>
<p>O PSOL perde a oportunidade de ser um partido renovador, e Plínio a sua oportunidade de ser um “grande vecchio”.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a></em></p></blockquote>
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		<title>Aqui não tem terremoto</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 00:29:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>

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		<description><![CDATA[Vivemos no melhor dos mundos. Nunca estivemos tão bem. É o que nos comprovam as notícias dos últimos dias: * Foi demitido o presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio, funcionário de carreira da Caixa Econômica, sem ligação partidária. Nos últimos meses, segundo amigos dele ouvidos pelo Globo, Custódio vinha reclamando de que sua gestão era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vivemos no melhor dos mundos. Nunca estivemos tão bem. É o que nos comprovam as notícias dos últimos dias:<span id="more-2371"></span></p>
<p>* Foi demitido o presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio, funcionário de carreira da Caixa Econômica, sem ligação partidária. Nos últimos meses, segundo amigos dele ouvidos pelo <em>Globo</em>, Custódio vinha reclamando de que sua gestão era alvo constante de sabotagem interna e vista como “foco de resistência às negociatas políticas”. Para o lugar dele, faltando dois meses para as eleições, vai David José Mattos, apadrinhado pelo PMDB do Distrito Federal e ex-secretário de Joaquim Roriz, aquela fortaleza moral, aquele sujeito probo; também trabalhou com José Roberto Arruda, o do mensalão do DEM.</p>
<p>* A Caixa Econômica Federal emprestou R$ 5,6 bilhões para a Petrobras, no período de dois anos. A empresa estatal que serve para a propaganda dos “feitos” do governo Lula (e para financiar artistas já consagrados simpáticos ao lulo-petismo, como Wagner Tiso, por exemplo) deve à Caixa quase três vezes o total da carteira de aplicações em saneamento básico. De novo: quase três vezes do que o investido em saneamento básico.</p>
<p>* No governo Lula, o BNDES já botou R$ 18,5 bilhões em empréstimos e participações societárias no setor de frigoríficos. Se algum deles falir, nós, contribuintes, pagamos a conta. Se houver lucro, nós, contribuintes, não veremos um tostão. Os números foram levantados pelo <em>Estadão</em> junto ao BNDES.</p>
<p>* Às vésperas das eleições, o governo federal abre os cofres. No primeiro semestre deste ano, os repasses de verbas federais aos municípios cresceram 238% em relação ao mesmo período de 2009, num total de R$ 8,1 bilhões.</p>
<p>* Em junho, o país teve o maior déficit nas contas externas em 63 anos, desde 1947, quando começou a série histórica – um rombo de US$ 5,18 bilhões. O déficit acumulado no primeiro semestre do ano é recorde, US$ 23,762 bilhões, mais que o triplo do acumulado no mesmo período de 2009, e praticamente igual ao de todo o ano passado, US$ 24,3 bilhões. Os números são do próprio Banco Central.</p>
<p>* Dos 13 aeroportos que passarão por obras em 12 cidades-sede até a Copa de 2014, quatro não têm sequer projeto pronto. Sete estão com o início das obras programado para entre janeiro de 2011 e fevereiro de 2012, a pouco mais de um ano da Copa das Confederações. Os números são da própria Infraero, levantados pelo <em>Estadão</em>.</p>
<p>* Para abrir uma empresa no Brasil, é preciso enfrentar de seis a oito etapas e pagar até 16 taxas, a um custo médio de R$ 2.038 – ante um gasto médio de R$ 672 nos principais concorrentes do país, China, Índia e Rússia. Os dados são de um estudo da Firjan.</p>
<p>* Se uma empresa brasileira quiser exportar, terá que responder a 935 informações. São 14 os ministérios que atuam nos portos, e eles exigem dos navios que embarcam e desembarcam no país uma média de 112 documentos.</p>
<p>* O Brasil tem o terceiro pior nível de desigualdade de renda do mundo, empatado com o Equador, segundo os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).</p>
<p>Vivemos no melhor dos mundos. Nunca estivemos tão bem. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=E-2gEnJ9nkk">É como dizia o Premê</a>:</p>
<p><em>Aqui não terremoto, </em></p>
<p><em>Não tem revolução. </em></p>
<p><em>É um país abençoado</em></p>
<p><em>Onde todo mundo mete a mão. </em></p>
<p><em>Brasil, potência de nêutrons, </em></p>
<p><em>35 watts de explosão. </em></p>
<p><em>Ilha de paz e prosperidade </em></p>
<p><em>Num mundo conturbado e sem razão. </em></p>
<p>O que pode consolar um pouco é que, neste mundo conturbado e sem razão, estamos do lado de Cuba, Irã, Líbia, Coréia do Norte, Venezuela.</p>
<p><em>29 de julho de 2010</em></p>
<blockquote><p><em>Três registros. </em></p>
<p><em>Não achei no YouTube a gravação maravilhosa da canção “Bem Brasil”, do disco do Premê de 1985, o terceiro do conjunto, com uma bela e insuspeitada participação de Caetano Veloso. (A autoria da música é creditada ao conjunto, então formado por Wandi &#8211; Wanderley Doratiotto -, Mário Manga, Claus Petersen, Marcelo Galbertti, Osvaldo Luiz e A.C. Dal Farra.)</em></p>
<p><em>Como não estava lá, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=E-2gEnJ9nkk">criei um clipzinho para a música</a>. Não pedi autorização para o povo do Premê, nem para Caetano. Não sei se algum deles poderá ficar bravo, e pedir a exclusão do clip. Por enquanto, está lá. </em></p>
<p><em>A ótima idéia de usar “Bem Brasil” aqui não é minha – é de Mary Zaidan. Padeço da síndrome que Nelson Rodrigues atribuía a Dias Gomes: não consigo ser o melhor texto sequer do meu quarto. </em></p></blockquote>
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		<title>Fernando Falcão, um nome que devia ser gravado</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Jul 2010 05:40:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Seguramente é mínimo o número de pessoas que já ouviram sequer falar de Fernando Falcão, o artista que se apresenta; a partir de hoje e até o próximo dia 5 (este texto é de abril de 1981), na Sala Guiomar Novaes. Mas é possível dizer, também com segurança, que este nome hoje praticamente desconhecido passará [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Seguramente é mínimo o número de pessoas que já ouviram sequer falar de Fernando Falcão, o artista que se apresenta; a partir de hoje e até o próximo dia 5 (<em>este texto é de abril de 1981</em>), na Sala Guiomar Novaes. <span id="more-2360"></span>Mas é possível dizer, também com segurança, que este nome hoje praticamente desconhecido passará a ser cada vez mais falado. Nunca, é claro, como o de um Julio Iglesias. Mas com um respeito e uma admiração devida a gente como, por exemplo, Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos, Hermeto Paschoal, Airto Moreira.</p>
<p>Porque o não reconhecimento do talento de Fernando Falcão seria, simplesmente, uma absurda injustiça.</p>
<p>É o que fica claro ao se ouvir <em>Memória das Águas</em>, o LP que Falcão, paraibano de nascimento, há dez anos radicado na França, está lançando agora, juntamente com a estréia de seu espetáculo. É um lançamento independente, através de um selo novo, Poitou Produções Artísticas Ltda. O fato de ser uma produtora independente, nova e pobre, pode causar problemas na distribuição do disco, que talvez não vá chegar a muitas das lojas da cidade. Mas quem encontrar o disco será plenamente recompensado.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/07/falcão.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2365" title="falcão" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/07/falcão.jpg" alt="" width="250" height="250" /></a>Antes de mais nada, é preciso esclarecer que, se a distribuição do disco for pobre, quase marginal, isso não tem nada a ver com a sua produção. Não é um disco artesanal, feito em um porão ou uma garagem; a gravação foi feita, em 1979, em um estúdio parisiense, com todos os recursos que se poderiam exigir, e com uma série de músicos – franceses e brasileiros – absolutamente competentes.</p>
<p>Fernando Falcão – cuja única apresentação anterior para um grande público, no Brasil, foi no Festival de Verão do Guarujá, em fevereiro deste ano, diante de cinco mil pessoas – prefere dizer que o que faz é apenas música popular brasileira, e não um som de vanguarda. É música popular brasileira, certamente – e também música de vanguarda, com tons de música erudita, com pitadas de jazz, com corajosa e moderna demonstração de respeito pelas raízes africanas.</p>
<p>As oito faixas de seu LP (todas de sua autoria, com arranjos dele e de um desconhecido, José Luiz Castiñeira de Diós) são músicas de vanguarda, sim. (No Festival de Verão, por exemplo, o vanguardista Arrigo Barnabé afirmou, bem-humorado, ao entrar no palco depois de Falcão: “Depois daquele percussionista louco, o que a gente fizesse estava tudo bom&#8230;”). Mas é preciso dizer, especialmente àqueles a quem a vanguarda assusta, que a música de Fernando Falcão é tudo isso – sem jamais ser chata.</p>
<p>Ao contrário. A belíssima fusão de África, Nordeste, jazz, música erudita e música moderna que o compositor e instrumentista consegue é capaz de captar a atenção (e a admiração) do ouvinte desde o primeiro momento. Como em “Memória das Águas”, a primeira faixa, que se inicia com os instrumentos de percussão construídos pelo escultor francês François Lalanne, e que fazem a água produzir belíssimos sons, lembrando o clima de “Lux Aeterna”, de Gyorgy Ligeti, usada por Stanley Kubrik em “2001, Uma Odisséia no Espaço”; até que esse clima se vai diluindo, com a entrada emocionante, dos instrumentos de corda e sopro, construindo uma melodia bem próxima do clássico. Ou como em “Revoada”, em que o som erudito dos violinos, acompanhado por instrumentos de percussão que recriam o trinar de pássaros, dá lugar à flauta e ao violão descaradamente nordestinos.</p>
<p>Depois de se ouvir o disco, é difícil, de fato, acreditar que o nome de Fernando Falcão continue por muito tempo praticamente desconhecido.</p>
<blockquote><p><em> <strong>Umas considerações</strong></em></p>
<p><em>A resenha acima foi publicada no </em>Jornal da Tarde<em> em 1º/4/1981.</em></p>
<p><em>Errei. Fernando Falcão não ficou conhecido, não teve o respeito e a admiração que têm Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos, Hermeto Paschoal, Airto Moreira.</em></p>
<p><em>Errei feio.</em></p>
<p><em>É um erro de que tenho algum orgulho.</em></p>
<p><em>Falar bem, na grande imprensa, sobre artistas consagrados, é fácil. Falar mal também é fácil, e até dá mais ibope – uma vez falei mal de um disco do Zé Ramalho, e muita gente comentou a resenha. Foi uma das minhas resenhas mais comentadas.</em></p>
<p><em>Falar de gente nova, ou desconhecida, é mais difícil.</em></p>
<p><em>A resenha sobre o disco de Fernando Falcão foi o sexto texto sobre música que escrevi para o </em>Jornal da Tarde<em> – que, naquela época, era um jornal importante, grande imprensa. Antes, eu havia escrito sobre Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Baden Powell e Geraldo Pereira – nomões, artistas reconhecidos, dos maiores que havia e há. Comecei a receber discos das gravadoras. Ouvia tudo, seriamente. Ouvi o disco independente de Fernando Falcão e fiquei fascinado. Sugeri escrever sobre ele – foi a primeira vez em que não fui pautado, em que sugeri uma pauta. Permitiram que eu escrevesse.</em></p>
<p><em>Tenho uns pequenos orgulhos daquela minha fase de resenhista de música. De ter sido sério. De ter ouvido seriamente aqueles discos todos. De ter indicado gente boa simplesmente pelo fato de eu ter gostado – mesmo que não fosse gente conhecida, reconhecida, incensada. Denise Emer, por exemplo. Me encantei com o disco dela, e fiz uma resenha com muitos elogios. Olívia Byington, quando era muito jovem, estava começando, e ainda não era reconhecida. O Rumo, quando ainda era “um grupo novo”.</em></p>
<p><em>Cometi erros – como, por exemplo, dizer que Fernando Falcão ficaria tão importante quanto Gismonti. (Cometi outros erros, até piores que este. Quando Joana gravou “Nos Bailes da Vida”, de Milton e <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/fernando-brant/">Fernando Brant</a>, disse que era uma canção menor da grande dupla.)</em></p>
<p><em>Mas procurei sempre não seguir a cartilha do fale-do-que-é-muito-falado.</em></p>
<p><em>E fui honesto. Sempre fui honesto. </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>***</em></p>
<p><em>O texto sobre o disco de Fernando Falcão estava aqui comigo digitado, como vários outros dos que fiz para o JT entre 1981 e 1984, prontinho para ser postado no site, quando meu shuffle do iTunes tocou “Marinheira”, canção que está no disco </em><a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/06/27/nara-num-momento-especial/">Romance Popular</a><em>, de Nara. Cada vez que ouço “Marinheira” fico impressionado, queixo caído. A letra é de Fausto Nilo, grande letrista, uma espécie assim de Fernando Brant do Nordeste. O arranjo é brilhante, riquíssimo – lembra a grandeza de um George Martin, um Rogério Duprat. Mas a melodia é o que mais impressiona – é extraordinária, é suntuosa, é forte, é quase sinfônica, é um espetáculo. É de Fernando Falcão.  </em></p>
<p><em>Procurei no YouTube para dar o link – a canção não está no YouTube.</em></p>
<p><em>Eu errei feio quando fiz a resenha do disco de Fernando Falcão. E, ao mesmo tempo, acertei. Fernando Falcão é grande. Não ficou conhecido, reconhecido, incensado. Problema do mundo – não dele.</em></p></blockquote>
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		<title>Guantânamo nunca mais</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 16:29:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A dignidade humana não é negociável e qualquer afronta a ela deveria causar aversão, repulsa. Em especial quando o agente da agressão é o Estado. E não interessa se o ofensor é a ilha de Fidel, um reino de aiatolás ou o império do tio Sam. Ninguém tem o direito de desculpar torturas, encarceramento injustificado, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A dignidade humana não é negociável e qualquer afronta a ela deveria causar aversão, repulsa. Em especial quando o agente da agressão é o Estado. E não interessa se o ofensor é a ilha de Fidel, um reino de aiatolás ou o império do tio Sam. <span id="more-2355"></span>Ninguém tem o direito de desculpar torturas, encarceramento injustificado, cerceamento de liberdade. E muito menos defender pecados de alguns porque há muitos que pecam.</p>
<p>Mas a candidata do PT, Dilma Rousseff, parece não saber disso.</p>
<p>As atrocidades cometidas contra os presos de Guantânamo não perdoam a tirania do regime castrista, os assassinatos de inocentes cometidos por Mahmoud Ahmadinejad ou a perseguição insana de Hugo Chávez aos seus adversários. Todos merecem o repúdio e a condenação de qualquer um que tenha a mínima noção do que, de verdade, são os direitos humanos.</p>
<p>Mas Dilma parece não saber disso.</p>
<p>Na entrevista solo à TV Brasil, a candidata do presidente Lula chegou a ficar irritada. Para desculpar a esquizofrênica política externa do governo de seu padrinho, seja em relação a Cuba, ao Irã ou à Venezuela, Dilma primeiro tentou o lugar comum de que o Brasil não se mete em quintal alheio. Depois se enrolou com Honduras e, mais tarde, contra-atacou: “E em Guantânamo, se respeita os direitos humanos?”</p>
<p>Uma frase juvenil, ingênua, que não teria lá grande importância se não fosse da candidata à Presidência do Brasil, país que sob a batuta de Lula não aderiu à condenação pública de Guantânamo, feita pela ONU em 2006 e apoiada por dezenas de nações. Talvez pelos laços de amizade fraterna do criador de Dilma com o então presidente George W. Bush.</p>
<p>Mas é verdade, Dilma. Não há desculpas para Guantânamo. Assim como não as há para as prisões de Cuba, para os desvarios do Irã, as barbáries do Sri Lanka, da Coréia do Norte, de Mianmar (ex-Birmânia) &#8211; um regime militar que se arrasta há 20 anos, condenado pela ONU por manter mais de dois mil presos de etnias minoritárias. No entanto, o governo Lula decidiu instalar lá uma embaixada brasileira, o que também deve acontecer na Coréia do Norte.</p>
<p>Não, Dilma, em Guantânamo não se respeitam os direitos humanos. Mas isso não justifica as condições subumanas em que presos políticos são mantidos na mesma ilha ou em qualquer outro lugar do planeta.</p>
<p>É imperativo que o mundo cobre de Barack Obama a promessa de acabar de vez com a prisão dos horrores, algo que já devia ter acontecido. E o Brasil, ao lado de outros países que defendem o Estado de Direito, deveria exigir isso. Mas não se credenciará para tal se insistir no Estado ideológico, no esquerdismo barato e ultrapassado. Só poderá fazê-lo se parar de vez de incensar regimes totalitários como os de Fidel e seu irmão Raúl, ou democracias de mentirinha como as do Irã e da vizinha Venezuela.</p>
<p>É verdade Dilma, Guantânamo não respeita direitos humanos. Mas a insistência em usar esse truque maroto para proteger regimes amigos, ainda que opressores e cruéis, atenta contra tudo e todos. Quem os defende flerta com o autoritarismo. Só podem ser ideólogos do atraso ou antidemocratas declarados.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a></em></p></blockquote>
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		<title>Mal rompe a manhã</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/07/25/mal-rompe-a-manha/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 16:48:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[É esquisito, mas, ás vezes, tenho a sensação de que já fui feliz. Completamente.  E, ainda que digam que tudo que é bom dura pouco, meu enlevo durou longos oito anos e oito meses, os primeiros da minha vida.  Pais, irmãos, cheiros, cores, ruídos, sossego, quintal, bichos, córrego, árvores, frutas. Casa clara, cheia de janelas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É esquisito, mas, ás vezes, tenho a sensação de que já fui feliz. Completamente.<span id="more-2351"></span></p>
<p> E, ainda que digam que tudo que é bom dura pouco, meu enlevo durou longos oito anos e oito meses, os primeiros da minha vida.</p>
<p> Pais, irmãos, cheiros, cores, ruídos, sossego, quintal, bichos, córrego, árvores, frutas. Casa clara, cheia de janelas.</p>
<p> Depois, fui trancada no internato de umas freiras francesas, em São João del-Rei, Minas Gerais. Início do pesadelo.</p>
<p> Não as missas diárias e obrigatórias, cinco da manhã, mesmo para quem só tinha oito anos e oito meses.</p>
<p> Nem os silêncios compridos e cumpridos, em salas de estudo e refeitórios.</p>
<p> Nem os banhos de camisola, a porta do banheiro apenas encostada, sem chave.</p>
<p> Nem a visão proibida da rua, por onde passavam e passeavam – a pé ou de bicicleta – os garotos da cidade, futuros prováveis namorados.</p>
<p> Nem os dormitórios sombrios, de onde se avistava, alta noite, o fogo fátuo, no cemitério de São Gonçalo.</p>
<p> Meu pesadelo era outro. Pontual e repetitivo, ele me assaltava às cinco da madrugada, quando – tortura – uma freira invadia o dormitório, batendo palmas e obrigando nossa sonolência a sair da cama, mãos postas, rezando.</p>
<p> Após uma eternidade inteira por lá, fui parar em Juiz de Fora, onde a sessão de tortura – felicidade! – começava uma hora mais tarde.</p>
<p> — Um dia, entro na Faculdade e me vingo, durmo até cansar – jurava.</p>
<p> Em Belo Horizonte, mal rompia a manhã, lá ia eu, de tortura em tortura, acordando em um ponto de ônibus, cochilando em outro. Mal enxergando, no destino final, os bancos da Praça da Liberdade.</p>
<p> — Um dia, me formo – jurava.</p>
<p> Professora formada, acordava com os passarinhos.</p>
<p> — Um dia, deixo essas aulas e vivo sem horário – sonhava.</p>
<p> Sem missa e sem palmas, durante anos acordei meus filhos, mal rompia a manhã.</p>
<p> — Um dia, esses meninos se formam, saem de casa, vou dormir até cansar.</p>
<p> Formados, ainda em casa, acordam sozinhos, tomam café, se vão.</p>
<p> Devo ter desaprendido como se dorme até cansar. Como talvez tenha desaprendido como se vive com a sensação, simples, esquisita, de ser feliz. Completamente.</p>
<blockquote><p> <em>As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma.com.br</a>, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro &amp; Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). Com a autorização de Vivina e de Leonel, estou aproveitando o trabalho dele e republicando também aqui os textos.</em></p></blockquote>
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		<title>Viajando no Padre Antonio Vieira</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 20:08:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Viajei com meus amigos para Bilbao, para enfrentar um desafio e buscar uma vitória. Enfrentamos os obstáculos e conquistamos o que queríamos, ao final de três longos dias de muita conversa e chuva. O Brasil, através de nossa UBC ( União Brasileira de Compositores), está agora na mesa de direção da Confederação Internacional das Sociedades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Viajei com meus amigos para Bilbao, para enfrentar um desafio e buscar uma vitória. Enfrentamos os obstáculos e conquistamos o que queríamos, ao final de três longos dias de muita conversa e chuva. <span id="more-2346"></span>O Brasil, através de nossa UBC ( União Brasileira de Compositores), está agora na mesa de direção da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores, CISAC, a ONU dos direitos autorais, apesar do trabalho contrário dos espanhóis, que ainda pensam que são os Hernán Cortez do século 21.</p>
<p>Chegando dois dias antes da batalha, eu e Ronaldo Bastos pudemos conhecer e gostar muito daquela cidade do país basco. Vindo do aeroporto, a caminho do hotel, pudemos ver o Museu Guggenheim e, quase em frente, o Bar e Restaurante Bosta. O primeiro nós visitamos e apreciamos no dia seguinte; do outro nós mantivemos distância.</p>
<p>Um exemplo estético e urbanístico o museu criado pelo arquiteto Frank O. Gehry. É um impacto externa e internamente. Faz bem aos olhos e à sensibilidade. Tão importante quanto a arquitetura admirável e as exposições que vimos – de Anish Kapoor, Robert Rauschenberg e Henri Rousseau – o que mais me fascinou foi conhecer o que eram aqueles arredores antes e depois da construção do museu. Que cidade limpa e linda é Bilbao.</p>
<p>Hora de voltar, com glórias, para casa, pego o querido EMBRA 145, velho conhecido meu do aeroporto da Pampulha. Destino: Belo Horizonte, com pequena parada para descanso e festa de Santo Antônio em Lisboa. Nas poucas horas em que permaneci na capital portuguesa, participei da alegria popular da gente lusitana.</p>
<p>Dia seguinte, domingo, acordo com as ruas já limpas. Ou não muita sujeira, duvido, ou o serviço público de limpeza é bastante rápido e eficaz. Poucos sinais da festa noturna. Quase todas as lojas estão fechadas, mas eu tenho uma tarefa para cumprir: comprar uma imagem de Santo Antônio para uma amiga. Que namorar e casar e acredita no santo. Mas tem de ganhar e não comprar ela mesma. Só assim dará certo. Eu, que pouco entendo dessas crenças, imagino que não pode ser uma imagem grande. Não é nem pelo fato de não caber em minha mala, ela está com muito espaço vazio. É que vi aquele filme brasileiro,  <em>Marvada Carne</em>, em que o sortilégio só acontecia quando a imagem caía na cabeça da requerente. Não faria isso com a amiga.</p>
<p>Depois de andar pela cidade domingueira, acabei achando uma pequena loja de lembranças. E lá estava o santo no tamanho ideal. Foi só comprá-lo e, passos à frente, entrar na FNAC e, milagre, encontrar duas caixas com vinte CDs de concertos regidos por Karajan por módicos 11 euros e noventa centavos, R$ 30,00 mais ou menos.</p>
<p>Dia seguinte, embarquei no avião batizado com o nome de “Padre Antonio Vieira” e voltei feliz para casa.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Estado de Minas</p></blockquote>
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		<title>Um estado racial</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 17:40:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.  Ou o artigo 5º da Constituição Federal foi revogado ou o Estatuto da Igualdade Racial é inconstitucional. Não há outra hipótese. O conflito entre a lei maior e o Estatuto aprovado em junho e sancionado na semana passada pelo presidente da República é evidente. Embora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.</em></p>
<p> Ou o artigo 5º da Constituição Federal foi revogado ou o Estatuto da Igualdade Racial é inconstitucional. Não há outra hipótese.<span id="more-2342"></span> O conflito entre a lei maior e o Estatuto aprovado em junho e sancionado na semana passada pelo presidente da República é evidente.</p>
<p>Embora tenha sido amenizado pela Comissão de Justiça do Senado, por esforço do senador Demóstenes Torres, que tratou, entre outras coisas, de eliminar o conceito de “raça” (substituindo-o por “cor”), os sistemas de cotas para entrada nas universidades públicas, em órgãos de administração pública e para papéis em produções de TV, e um particularíssimo conceito de saúde que criava no SUS um organismo destinado apenas ao estudo e tratamento de doenças dos “afro-descendentes” (conceito também extirpado do texto), o fato é que o Estatuto estabelece oficialmente a existência de apenas dois tipos de pessoas no Brasil: os brancos, e a “população negra”.</p>
<p>A mestiçagem histórica da população brasileira desapareceu da vida real. Embora os negros sejam, de acordo com o IBGE, 6% da população brasileira, essa classificação, pelo Estatuto, fez desaparecer os pardos, que constituem 41% da população. Por lei, agora, a miscigenação não existe.</p>
<p>Sob o pretexto de tratar desigualmente os desiguais, o Estatuto investe também contra o artigo 19 da Constituição Federal, que diz: “É vedado, à União, aos Estados e aos Municípios, criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. Um dos artigos da lei racialista dá garantia de moradia à população negra de favelas; embora seja pura retórica, o artigo estabelece um direito discriminatório, pois não dá à parcela branca e pobre que habita as favelas o mesmo direito que dá aos moradores negros. Esse é apenas um exemplo da discriminação às avessas que a lei implanta e estabelece.</p>
<p>Mesmo na África do Sul, que foi vítima do brutal e odioso regime de apartheid, e onde a população negra foi esmagada pelo colonizador branco durante muitos anos, o sinal para a sonhada reconciliação está no espírito da Carta da Liberdade de Nelson Mandela, que o Congresso do Povo aprovou em 1955: “Os direitos do povo serão os mesmos, independente de raça, cor ou sexo”.</p>
<p>A instituição de políticas raciais nos Estados Unidos, depois do fim da escravidão, produziu resultados desprezíveis, e serviu apenas para consolidar a divisão racial, a tal ponto que a Suprema Corte, há menos de dois anos, declarou inconstitucionais as políticas de acesso ao sistema educacional baseadas em critérios raciais.</p>
<p>Como já se comprovou, o conceito de raça é uma inconsistência científica, e tentar impor à sociedade conceitos de justiça baseados numa falácia, tende a trazer resultados desastrosos. Não por acaso este era o sonho de Martin Luther King: “Eu tenho o sonho que meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter”.</p>
<p>O presidente da Suprema Corte dos EUA, John G.Roberts Jr., foi mais definitivo e lapidar. Em seu voto a favor da revogação das políticas de favorecimento racial no acesso á educação, disse: “O caminho para acabar com a discriminação baseada na raça é acabar com a discriminação baseada na raça”.</p>
<blockquote><p> <em>Este artigo foi publicado originalmente no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a></em></p></blockquote>
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		<title>Joplin e Satie, num disco original</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 17:19:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[No lado A, duas peças de Erik Satie – Satie, o compositor erudito, que exerceu influência sobre Debussy, Ravel e Stravinsky, um músico sofisticado, amigo de Jean Cocteau e Pablo Picasso, autor de uma obra que surgiu em meio às experiências impressionistas e cubistas na refinada França do início do século. No lado B, sete curtas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No lado A, duas peças de Erik Satie – Satie, o compositor erudito, que exerceu influência sobre Debussy, Ravel e Stravinsky, um músico sofisticado, amigo de Jean Cocteau e Pablo Picasso, autor de uma obra que surgiu em meio às experiências impressionistas e cubistas na refinada França do início do século.<span id="more-2335"></span> No lado B, sete curtas composições de Scott Joplin – Joplin, negro do então pouco desenvolvido Sul dos Estados Unidos, filho de um ex-escravo, e que morreria num asilo de doentes mentais, autor de ragtimes, a música que era considerada pela fina sociedade norte-americana como vulgar e imoral, música de divertimento, feita para ser tocada em bordéis, bares e casas de jogos.</p>
<p>Uma estranha mistura, pode parecer à primeira vista. No mínimo, uma mistura original.</p>
<p>Mas originalidade é o que se pode esperar de um disco de Clara Sverner, uma das mais conceituadas e conhecidas pianistas eruditas do Brasil. Com uma sólida formação clássica, tendo sido discípula de José Kliass, com curso de aperfeiçoamento em Genebra (onde ganhou medalha de ouro em 1957) e passagem pelo Mannes College of Music de Nova York, prêmios e reconhecimento internacionais, essa paulista radicada há muitos anos no Rio de Janeiro tem uma discografia recheada de originalidades.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Sem apego a repertório exaustivamente testado</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/07/sverner.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2340" title="sverner" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/07/sverner.jpg" alt="" width="500" height="363" /></a>Instrumentista que jamais foi apegada a um repertório pronto, acabado, já exaustivamente testado por outros músicos (o diretor do Conservatório de Genebra, depois de elogiar seu talento, advertiu-a de que ela gostava de tocar “muita coisa moderna”), Clara Sverner foi, por exemplo, a primeira brasileira a gravar aqui obras dos eruditos contemporâneos Alban Berg e Anton Webern (em seu terceiro LP, de 1974). Foi também a primeira instrumentista a gravar um LP só com obras do ainda pouquíssimo conhecido, entre o grande público, Glauco Velásquez (1882-1914), um carioca nascido em Nápoles (em seu quarto LP, de 1977). Foi dos pouquíssimos instrumentistas eruditos a gravar LPs só com música popular brasileira – primeiro no LP <em>Rio de Janeiro – Álbum Pitoresco-Musical</em>, e depois nos dois volumes de <em>O Piano de Chiquinha Gonzaga</em>, lançados, em 1980 e 1981, com um extraordinário sucesso (cada um dos dois LPs vendeu cerca de 15 mil cópias, quando em geral um disco de instrumentista erudito no Brasil não chega a vender mais que duas mil cópias).</p>
<p>Enquanto a “Enciclopédia de Música Brasileira” creditava ao compositor Eduardo Souto (nascido em São Vicente, em 1882) cerca de 15 peças, Clara Sverner partiu para um paciente trabalho de pesquisa, e conseguiu encontrar as partituras de mais de 300 peças só para piano; o resultado desse trabalho de pesquisa saiu no LP <em>Clara Sverner interpreta Eduardo Souto</em>, lançado em 1982, ano do centenário do nascimento do compositor. Só que o disco não aproveitou a ocasião e os festejos – ao contrário, como disse a Clara Sverner, se ela não tivesse lançado o disco, pouquíssima gente neste país se lembraria que se completavam então cem anos do nascimento do compositor.</p>
<p>A originalidade, o papel de pioneira e desbravadora de Clara Sverner voltariam a ficar patentes com o seu penúltimo LP, <em>Clara Sverner e Paulo Moura</em>, de 1983, quando a instrumentista veio tirar de um absurdo, incompreensível limbo junto às gravadoras o saxofone extraordinário de Paulo Moura, cuja última gravação solo havia sido em 1975, pelo RCA.</p>
<p>Esse encontro do piano erudito com o saxofone jazzístico, promovido no LP de 1983, havia sido primeiramente imaginado por Clara Sverner para se realizar com Victor Assis Brasil. Em 1980 os dois já haviam inclusive escolhido parte do repertório do disco que gravariam juntos – mas o projeto foi destruído pela prematura morte do saxofonista, em 1981. Clara já havia começado a tocar em dueto com Paulo Moura quando, em 1982, iniciou nova parceria, justamente com o irmão gêmeo de Victor, o pianista erudito João Carlos Assis Brasil, aluno de Jacques Klein, com cursos de aperfeiçoamento em Paris, Viena e Londres, e uma sólida reputação como concertista em vários países europeus.</p>
<p style="text-align: center;">Mais pontos em comum do que se poderia imaginar</p>
<p>Clara e João Carlos Assis Brasil fizeram alguns recitais em São Paulo e no Rio, apresentando peças para dois pianos, ou para um piano a quatro mãos. “Encontrar obras para dois pianos requer tempo; é preciso vasculhar o repertório dos compositores”, dizia Clara. Em meados de 1983, surgiu o plano de gravarem juntos este disco que agora chega às lojas, <em>Joplin &#8211; Satie</em>, pelo Selo Angel da EMI-Odeon.</p>
<p>Por que Satie e Joplin em um único disco? Segundo Clara, os dois compositores foram escolhidos “porque ambos têm peças que possuem humor, dança”. E, de fato, há mais pontos de contato entre as obras de dois compositores tão distantes e diferentes do que se poderia pensar. Não é apenas porque Satie (1866-1925) e Joplin (1868-1917) foram contemporâneos.</p>
<p>O poeta Augusto de Campos, no seu texto do encarte do LP <em>Joplin – Satie</em>, fala de acasos e contatos, e afirma: “A saúde das artes exige, de quando em vez, para o ar rarefeito das elucubrações e das pesquisas sem tréguas, o oxigênio generoso da intuição e da informalidade. Daí a dialética interpenetração dos avessos que a música experimenta, para além dos rótulos e compartimentos”.</p>
<p>Interpenetração dos avessos. O popular Joplin aspirava um lugar de destaque, dentro da música “culta”, para o seu ragtime – e foi o fracasso de sua ambiciosa ópera “Treemonisha” que agravou a depressão nervosa que o levou ao hospício. O erudito Satie gostava de se divertir com a música dita séria – e inclui, na versão orquestrada da peça “Parade” (apresentada neste LP em versão para dois pianos), ruídos de sirenes, tiros de revólver e máquina de escrever.</p>
<p>Um trecho da composição “Parade” é um ragtime, o estilo de que Joplin foi o grande expoente. Foi o primeiro ragtime composto na Europa como música de concerto.</p>
<p>Satie, aliás, como lembra Augusto de Campos, gostava de tocar ao piano os ragtimes de Jelly Roll Morton. Morton, sabe-se, foi profundamente influenciado por Scott Joplin.</p>
<blockquote><p><em>Esta resenha foi publicada no </em>Jornal da Tarde<em> em 19 de março de 1984</em></p></blockquote>
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		<title>Concerto para clarineta</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 16:44:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre que chove à noite como hoje aqui em Campinas, uma chuva mítica e de lentos espantos, lembro de Lars Bjenikold. Imagine uma pequena cidade perdida no litoral do Pará, onde a estação das águas provoca dias de umidade tão intensa que as gotas de vapor chegam a escorrer em nossa própria alma. Pois ali [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que chove à noite como hoje aqui em Campinas, uma chuva mítica e de lentos espantos, lembro de Lars Bjenikold. Imagine uma pequena cidade perdida no litoral do Pará, onde a estação das águas provoca dias de umidade tão intensa que as gotas de vapor chegam a escorrer em nossa própria alma. Pois ali eu tinha uma casinha, franciscana e simpática, há tempos.<span id="more-2332"></span></p>
<p>Por que não em Ubatuba ou Ilhabela?, hão de perguntar os mais afoitos, uma vez que moro em São Paulo. Respondo: é que naquele pedaço da Amazônia, ao contrário dos invernos chuvosos, os verões são de uma luminosidade estonteante e o céu, escandalosamente azul, só é de vez em quando fendido pelos enormes flocos (de algodão) de nuvens alvíssimas. E a abóbada noturna se apresenta crivada de tantas estrelas e é tão clara que, em certas ocasiões, a silhueta da Via Láctea se desenha. Foi o que Olavo Bilac deve ter visto, em algum outro lugar, quando escreveu o seu famoso soneto. Aquele do ora, direis, ouvir estrelas etc. etc.</p>
<p>Sim, mas eu dizia que era inverno, a estação das águas, e saí, uma noite, munido de exíguo guarda-chuvas, em busca da birosca de um cara conhecido como Ceará, no fim da remota praia do Maçarico, para curtir uma sopinha de caranguejos, que a mulher do bom homem preparava com engenho e arte. Ao me aproximar, no deserto não só de pessoas, mas, até, de fantasmas, escutei, vindo da biboca, o Concerto para Clarineta, de Mozart. Está claro que parei, espantado.</p>
<p>Assim é que conheci Lars Bjenikold, o ornitólogo dinamarquês. Ele havia chegado ao litoral alguns dias antes de mim e, à noitinha, ia para a barraca do Ceará, sempre deserta então, comer peixe lendo um livro posto ao lado do prato. De quebra levava uma fita com o Concerto que eu ouvira, e que pedia pro barraqueiro colocar no sonzinho capenga, porém suficiente.</p>
<p>O gringo se encontrava na região fazendo pesquisa sobre certo pássaro, porém não um pássaro qualquer. Buscava, para fotografar e gravar o canto, um tipo de sabiá que só existia nos mangues daquela área, ou alguns outros que se estenderiam até o litoral do Maranhão. Na terceira noite de papo, em que nos entendíamos através de um inglês e um portunhol medonhos, o cientista me convidou:</p>
<p>- Venha conosco, já localizamos o passarinho.</p>
<p>O “conosco”, constatei no dia seguinte, era Ingrid, a esposa sueca de Lars. Loura, lindíssima, corpo de negra calipígia, acumulava as funções de fotógrafa. Incorporei-me ao duo como uma espécie de ajudante para carregar tralhas. Com o casal passei a me enfiar nos mangues e caminhos tortuosos, em certas manhãs tão derretidas sob chuvas que acabei perguntando a Lars qual a razão de não ter optado pelo verão, a estação mais seca.</p>
<p>- É que no inverno – explicou – os sabiás se tornam mais visíveis. Acasalam então, e praticamente só nesta época cantam.</p>
<p>Quando Lars e Ingrid partiram, após quase um mês de convivência comigo, senti falta deles. Principalmente dos papos que tinham se tornado a três na birosca do Ceará. Voltei para Campinas antes da data que marcara.</p>
<p>Mas foi no verão amazônico, seis meses depois, que, ao chegar à minha casinha no então ainda poupado litoral, recebi, do caseiro, um pacote. Ao verificar, pelos selos, que vinha de Estocolmo, abri com avidez. Dei então de cara com um belo livro, publicado anos antes por Lars Bjenilkold sob o patrocínio da Real Academia da Dinamarca, intitulado <em>Pássaros da Nicarágua</em>. Que ficou comigo durante algum tempo, porém, ao final, teve melhor destino: o doei à bela professora campineira Raquel de Almeida Prado que, na época, organizava, junto com o falecido escritor Darcy Ribeiro (ele se apaixonou pela obra de Lars), a Biblioteca do recém inaugurado Memorial da América Latina, em São Paulo.</p>
<p>Ah, sim, algum volume sobre os tais sabiás que ajudei a procurar naquela parte do litoral atlântico do Pará, nunca recebi. Contudo, junto com o que chegou no verão tão especial, encontrei também um pacotinho com uma fita cassete e um bilhete de Ingrid. Era o “Concerto para Clarineta”, de Mozart. Que escutava ainda há pouco, nesta noite de chuva e um razoável frio ao qual caberia, até, uma lareira. Fundo musical para as boas lembranças do nunca mais.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>O repórter vai atrás do diamante puro</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jul 2010 17:47:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Falo por mim, mas sei que repórteres adoram quando acham (ou lhes cai no colo) um personagem sob medida para sua matéria. Agora, esse personagem é como diamante. A menor imperfeição compromete a qualidade. Não sei se estou sendo claro&#8230; Dou um exemplo. Fui cobrir há pouco, para o Diário do Comércio, a apresentação da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Falo por mim, mas sei que repórteres adoram quando acham (ou lhes cai no colo) um personagem sob medida para sua matéria. Agora, esse personagem é como diamante. A menor imperfeição compromete a qualidade.<span id="more-2328"></span></p>
<p>Não sei se estou sendo claro&#8230; Dou um exemplo.</p>
<p>Fui cobrir há pouco, para o <em>Diário do Comércio</em>, a apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira, na Sala São Paulo. Na platéia estavam alunos que tocam em bandas ou fanfarras, em suas escolas, na periferia. Adolescentes ou quase isso. A matéria já estava boa, porque a maior parte deles nunca tinha ido a um concerto.</p>
<p>Aplaudiam tudo, até instruções sobre as saídas de emergência. À sua maneira. Gritaria, assobios, zoada, como se estivessem num programa de auditório da TV. Os músicos foram ruidosamente ovacionados, à medida em que o maestro Roberto Minczuk os apresentava. Podia-se ver em seus rostos o prazer que sentiam com aquilo (um cello me disse, depois, que nunca recebera tamanha aclamação). Na vez dos metais, houve uma explosão. Afinal são instrumentos de fanfarra.</p>
<p>A matéria ia muito bem. Minczuk havia explicado como o maestro rege a orquestra. Um, dois, três, quatro&#8230; Mostrava os tempos com a mão. Entra no palco o britânico James Judd, que conduziria o concerto. Então, Minczuk pergunta se alguém da platéia gostaria de reger a orquestra. Inúmeros braços se erguem, mas ele praticamente pesca um menino que estava na primeira fila.</p>
<p>Um pretinho bonito, bochechudo, como uma criança de New Orleans. Dez anos. O menino sobe ao palco, e daí para o pódio, de onde os maestros regem. Pega a batuta. À sua frente está a orquestra completa, 80 músicos. Um menino de uma escola da periferia, veio no ônibus. Ergue a batuta e, repetindo o movimento mostrado por Minczuk, começa a reger.</p>
<p>Os acordes da <em>Pastoral</em> de Beethoven tomam a sala. O bom maestro Judd, ao lado do pódio, coadjuva o “titular” discretamente. Durou pouquíssimo, mas o magia se dera. O menino ficou meio atrapalhado com a ovação, que enchia os ouvidos; agradeceu, e saiu de cena.</p>
<p>Seguiu-se o concerto, mais de uma hora. Embalou a platéia de tal de forma que, quando terminou, muitos dos alunos cochilavam, ou dormiam a sono solto. Este repórter (ou a nossa reportagem) estava sentado numa fileira no meio da platéia, junto com alunos de uma das escolas. Agiu rápido. Havia colhido as expectativa daquele grupo, antes do espetáculo. Agora, teria que ir com o irrespirável, “então, o que você achou?”. Recurso óbvio, para a matéria?</p>
<p>Concordo, mas como iria imaginar que um menino regeria a sinfônica?</p>
<p>Falar nele, não despreguei olho. Vai que desaparecesse com seu grupo. Liquidei rapidamente as entrevistas e saí apressado. Andava e imaginava a página com a matéria, uma foto bem aberta do menino regendo. Ingredientes para o título: Fulano, dez anos, rege a sinfônica&#8230; Filho de pedreiro rege&#8230; Pedreiro, chacareiro?&#8230; Da periferia&#8230; Cheguei.</p>
<p>Conversa e tal, nome? Pedro Silvestre. Onde mora, como é o lugar? etc.. E vamos ao ponto.</p>
<p>- Com que seu pai trabalha?</p>
<p>- É advogado.</p>
<p>- Advogado?</p>
<p>- Sim, ele é advogado.</p>
<p>Sim, é advogado, e lá se vai um bocado da graça da matéria. Diamante defeituoso.</p>
<p>Sempre, um menino que regeu uma orquestra dá samba, isto é, dá boa chamada na capa, com foto. Dentro, página limpa. Grande foto, bom título.</p>
<p> Mas não é a mesma coisa.</p>
<p style="text-align: center;"> * * *</p>
<p> Há muitos anos fui a Varginha, porque o juiz da cidade mineira havia inocentado um jovem que roubara uma galinha. Dera a sentença em versos. Dizia não ser possível punir um simples ladrão de galinha num País com tanta roubalheira.</p>
<p>Boa matéria. Entrevistado o juiz, eu e meu colega fotógrafo fomos atrás do beneficiado. Morava em uma cidade vizinha, singela, pobre, com a igrejinha no alto do morro. Bate aqui, busca lá, conseguimos achar o mineirinho.</p>
<p> Rapaz simples, meio sem-jeito. Entro com a pergunta:</p>
<p> - O que achou desse juiz, que te livrou da prisão?</p>
<p> Meus ouvidos se prepararam para algo como “Moço bão, sô”. Mas a resposta foi:</p>
<p> - Legal pra caramba.</p>
<p> Trincou o diamante.</p>
<blockquote><p><em>Julho de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Pior, impossível</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 16:56:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mary Zaidan]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Toda campanha eleitoral desperta paixões, gera futricas, intrigas e comportamentos irracionais que não raro se assemelham ao fundamentalismo xiita. Até aí, tudo bem. Sempre foi assim, com maior ou menor grau de contundência das partes e de suas torcidas. Mas nunca antes neste país se viu uma campanha como esta. Desta vez, vale tudo. E, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda campanha eleitoral desperta paixões, gera futricas, intrigas e comportamentos irracionais que não raro se assemelham ao fundamentalismo xiita. Até aí, tudo bem.<span id="more-2324"></span></p>
<p>Sempre foi assim, com maior ou menor grau de contundência das partes e de suas torcidas. Mas nunca antes neste país se viu uma campanha como esta. Desta vez, vale tudo. E, assim sendo, o país, suas instituições, sua Constituição e suas leis de nada valem.</p>
<p>Em apenas 10 dias de campanha oficial – sem contar, portanto, os crimes já cometidos até o dia 6 de julho –os abusos se multiplicaram com requinte e velocidade inimaginável.</p>
<p>O volume e a natureza das imoralidades são de tal tamanho que assustam: confirmação de quebra de sigilo fiscal de adversários, cartilhas pró-Dilma feitas com recursos públicos e fartamente distribuídas, e até uma Kombi a serviço da Prefeitura do Rio carregando material de campanha do PT, flagrada no dia do primeiro grande comício da candidata Dilma Rousseff, na Cinelândia.</p>
<p>Isso sem falar do hors-concours presidente Lula, líder absoluto do ranking não só quantitativo, mas também qualitativo das contravenções eleitorais.</p>
<p>Como não bastasse, Lula ainda faz chacota de suas punições.</p>
<p>Deu de ombros para as seis multas que já lhe foram cravadas e demonstrou que pouco se importa com a que virá pela citação que fez de sua pupila no evento de lançamento do edital do trem-bala. Tanto que voltou a propagandear o nome de Dilma ao fingir estar se desculpando da menção do dia anterior. E o fez, sem qualquer pudor ou rubor, na presença do presidente do TSE, Ricardo Lewandowski. Este também não mudou a expressão nem a cor da face.</p>
<p>Na sexta-feira, no palanque de campanha do Rio, Lula voltou a falar do episódio. Dessa vez, criticando, sem citar o nome, a procuradora eleitoral Sandra Cureau, responsável por vários dos processos contra o presidente. Como era de se esperar, Lula alimentou o tom de conspiração contra ele: &#8220;Há uma premeditação para me tirarem da campanha para impedir que eu ajude a Dilma.”</p>
<p>E continuou a abusar da desfaçatez. &#8220;Querem me inibir para que eu finja que não conheço Dilma”, como se o problema fosse o fato de ele conhecer a ex-ministra e não o de infringir as leis. “Até botaram uma procuradora no meio para fingir que eu não a conheço&#8221;, como se procurador fosse um cargo de livre nomeação e, ainda por cima, escolhido por opositores.</p>
<p>As situações criadas por Lula são tão intencionalmente provocativas que parecem nos indicar que ele alimenta um prazer especial em desafiar as instituições. Do alto de sua estupenda popularidade, age certo de que ninguém terá coragem desafiá-lo. E se alguém o fizer, ainda que em nome de se cumprir a lei, essa será uma ação golpista, como ele já antecipou no primeiro comício oficial. Na verdade, quer fazer crer que será uma premeditação para impedir não a ajuda, mas a eleição de Dilma.</p>
<p>Em defesa do presidente, o coordenador de comunicação da campanha de Dilma e vice-presidente do PT, deputado Rui Falcão, disse que o governador de São Paulo, Alberto Goldman também desrespeitou a lei ao citar o candidato José Serra em vários discursos. Ora, se assim o é, que ambos sejam punidos – Lula e Goldman.</p>
<p>O que não dá é buscar a impunidade com a mesma lengalenga do todo mundo faz. Muito menos tentar, mais uma vez, coletivizar o crime e culpar a lei. Se a lei é ruim, os nobres parlamentares que a mudem. Mas até que se cocem é obrigatório respeitá-la</p>
<blockquote><p><em>18/7/2010. </em></p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a></em></p></blockquote>
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		<title>Culpa de quem?</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jul 2010 18:11:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Mesmo tendo sido criada em fazenda, custei a conviver com tratores. Meu pai, mineiro, antigo, cauteloso, incapaz de um passo maior que as pernas, pelejava com arados e carros de bois. Mais tarde, anos 80, a fazenda dividida entre os filhos, apareceu por lá um desses milagres modernos, socorro da agricultura precária, abandonada. Pneus, volante, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mesmo tendo sido criada em fazenda, custei a conviver com tratores.</p>
<p>Meu pai, mineiro, antigo, cauteloso, incapaz de um passo maior que as pernas, pelejava com arados e carros de bois.<span id="more-2321"></span></p>
<p>Mais tarde, anos 80, a fazenda dividida entre os filhos, apareceu por lá um desses milagres modernos, socorro da agricultura precária, abandonada.</p>
<p>Pneus, volante, carreta, tudo enorme, exagerado. Desengonçado.</p>
<p>Com o tempo, de tanto vê-lo cruzando as estradas, pra lá e pra cá, me acostumei com o geringonça. E com seu ruído rude, anúncio de plantações, colheitas, transportes.</p>
<p>Uma vez, fui transportada.</p>
<p>Estava indo visitar minha irmã, que sempre me esperava com pães de queijo e flores. Os primeiros, quentinhos, acabados de sair do forno. As outras, perfumadas, acabadas de ser colhidas.</p>
<p>No ônibus, apesar dos sacolejos e da poeira – ou talvez por isso – não tirava os olhos do jornal, que me deixava em dia com os grandes acontecimentos do país.</p>
<p>O presidente Collor, por exemplo. Andava sem aliança, por causa de uma briga com a mulher.</p>
<p>A ministra Zélia, por exemplo. Havia comemorado o aniversário dançando um bolero – “Besame Mucho” – com o ministro Cabral.</p>
<p>Embalada por notícias tão edificantes, não percebi quando o ponto em que devia descer – uma porteira conhecida desde sempre – ficou pra trás.</p>
<p>Alguns quilômetros adiante, me vi na estrada, fazendo o caminho de volta.</p>
<p>— Dessa mala pesada, cheia de livros, me livro logo – pensei, planejando escondê-la entre os galhos de alguma árvore.</p>
<p>Antes que eu fizesse fosse o que fosse, ele chegou. Barulhento, rude, vagaroso.</p>
<p>— Você leva minha mala? – perguntei ao motorista, chamado de tratorista.</p>
<p>Antes que ele dissesse fosse o que fosse, uma voz conhecida se espantou:</p>
<p>— Uai, você? Perdeu o rumo? A Delza foi te esperar no ponto, de carro, você não viu, não? Anda, sobe, vamos embora.</p>
<p>Segurei firme a mão que, do alto de um monte de capim, meu cunhado Jairo me estendia, e fiz minha estréia num trator, que achei simpático. Parecido com carro de boi. Primos, talvez.</p>
<p>Em casa, minha irmã:</p>
<p>— Você? Pensei que não tivesse vindo!</p>
<p>— Eu não te disse que viria?</p>
<p>— Mas você não desceu no ponto! Fui te esperar, o quê que aconteceu?</p>
<p>— Ah, depois te conto. Culpa do Collor. E da Zélia.</p>
<p>— De quem?</p>
<blockquote><p><em>26/5/1991</em></p>
<p><em>As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp"><strong>primeiroprograma.com.br</strong></a>, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro &amp; Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). Com a autorização de Vivina e de Leonel, estou aproveitando o trabalho dele e republicando também aqui os textos.</em></p></blockquote>
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		<title>Os órfãos e os roedores do Estado</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 20:55:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fernando Brant]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe gente que, diante de qualquer problema, clama pela bênção do Estado ou do governo do momento. Muitas são as tarefas que o poder, representante dos eleitores e cidadãos, arrecadador voraz de impostos, deve assumir. Mas existe uma montanha de assuntos que o cidadão livre, por si ou com os seus vizinhos e familiares, deve [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existe gente que, diante de qualquer problema, clama pela bênção do Estado ou do governo do momento. Muitas são as tarefas que o poder, representante dos eleitores e cidadãos, arrecadador voraz de impostos, deve assumir.<span id="more-2318"></span></p>
<p>Mas existe uma montanha de assuntos que o cidadão livre, por si ou com os seus vizinhos e familiares, deve fazer por conta própria. A política, no melhor dos sentidos, deve passar por aí. A maioria das situações dentro de uma cidade ou país se resolveria se houvesse mais cidadania, solidariedade, civilidade.</p>
<p>Tudo é culpa ou bondade do governo. Sobrou dinheiro no fim do mês?, ó. como é bom meu Presidente. Estou cheio de dívidas nas lojas e no cartão de crédito?, malditos esses políticos. Ora, na origem, o Estado foi criado para trabalhar pelo bem estar da comunidade, o que significaria hoje garantir saúde, educação, segurança e habitação para a maioria e, se possível, para todos.</p>
<p>Gosto muito de um livro dos tempos da ditadura, do Claudius , do Fortuna e do Jaguar: “Hay gobierno? Soy contra.” E dessa frase síntese do Millôr Fernandes: “ imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados.”</p>
<p>Acrescento um pensamento meu: é doloroso assistir à despolitização a que o país está sendo levado. Isso, na história da História, sempre aconteceu no mundo e em todos os lugares. Mas me assusta assistir, no meu tempo e no meu lugar, a essa trama diabólica de impedir o debate claro sobre o que o país realmente é e o que se pretende fazer para que o seu destino feliz se realize.</p>
<p>As delícias do poder devem ser muito boas, para quem as quer e cultiva. Eu, que já escrevi, muitos anos atrás, que meu dever é recusar o poder – seja em casa, na rua, na cidade ou no país –, continuo fiel ao que aprendi e fui lapidando, ao longo da vida, no convívio com as pessoas, nas leituras, na experiência. Cargo público, para mim, não vale nada. O valor que pode existir é no servir. Mas isso, dizem, é conversa mole para boi dormir. O que conta é o aprisionamento dos cargos, salários e benesses, para benefício próprio e dos seus. E o pior é que os funcionários públicos, a maioria, têm muito trabalho e pouco reconhecimento.</p>
<p>Os órfãos do Estado são infelizes manipulados pela demagogia, omissos. Já os roedores no Poder são rápidos, famintos, devastadores. Se um dia pensaram no bem comum, há muito se esqueceram. Roem roem roem. E são de múltiplas colorações partidárias.</p>
<p>Vamos assistir da arquibancada a esse espetáculo trágico ou vamos reagir? Está na hora de melhorarmos o jogo que vai ser jogado no campeonato brasileiro da política de 2010. Outubro e as eleições vêm aí.</p>
<blockquote><p><em>Julho de 2010.</em></p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado no </em>Estado de Minas.</p></blockquote>
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		<title>Um dia quero imitar Buñuel</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 05:10:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sérgio Vaz]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia gostaria de fazer um texto com coisas de que gosto e coisas de que não gosto – uma necessariamente pobre cópia do que fez Buñuel, de forma genial, em sua autobiografia escrita por Jean-Claude Carrière, Mi Ultimo Suspiro. (Sim, é autobiografia, porque é o espírito de Buñuel – embora tenha sido escrita por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia gostaria de fazer um texto com coisas de que gosto e coisas de que não gosto – uma necessariamente pobre cópia do que fez Buñuel, de forma genial, em sua autobiografia escrita por Jean-Claude Carrière, <em>Mi Ultimo Suspiro</em>. (Sim, é autobiografia, porque é o espírito de Buñuel – embora tenha sido escrita por Carrière, seu comparsa em vários filmes.)<span id="more-2303"></span></p>
<p>Seria uma cópia necessariamemte pobre porque, obviamente, eu estou para Luís Buñuel assim como a poeira do cocô do cavalo do bandido para <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/rota-sangrenta-blood-alley/">John Wayne</a>; como Leandro e Leonardo para <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/11/24/levaram-24-anos-para-lancar-bookends-no-brasil/">Simon e Garfunkel</a>; como Paulo Coelho para Liev Tolstói; como Dunga para Nilton Santos; como Lula para Fernando Henrique Cardoso.</p>
<p>Simplifiquei uns gosto-e-não-gosto de Buñuel, <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2010/tristana-uma-paixao-morbida-tristana/">ao falar de um filme dele</a> (tirando fora as explicações dele para cada gosto ou não gosto), assim :</p>
<p>“Gostei de Wagner. Gosto do Norte, do frio e da chuva. Detesto o pedantismo e a linguagem empolada. Sinto horror dos fotógrafos de jornais. Gosto da pontualidade. Adoro os bares, o álcool e o tabaco. Tenho horror a multidões. Gosto dos operários. Gosto muito de <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/katyn/">Wajda</a> e de seus filmes. Detestei <em>Roma, Cidade Aberta</em>, de Rosselini. Não gosto das estatísticas. Gostei muito da literatura russa. Destesto mortalmente os banquetes e as entregas de prêmios. Detesto a proliferação da informação – a informação-espetáculo é uma vergonha. Não gosto dos donos da verdade, quaisquer que sejam; me entediam e me dão medo. Gosto das manias. Detesto a publicidade.”</p>
<p>Meu gosto-e-não-gosto, quando finalmente eu conseguir escrevê-lo, deverá incluir estes itens:</p>
<p>Gosto dos ex-comunistas; quem não foi comunista quando jovem não tem generosidade. Desprezo quem ainda hoje é comunista; são pouco informados, ou então simplesmente burros, imbecis.</p>
<p>Da mesma forma, gosto de ex-petistas; acreditaram em um sonho, tiveram esperança. Desprezo quem ainda hoje é petista; hoje só pode ser petista quem é pouco informado, burro, imbecil, ou então, pior, quem transformou ideologia em Bolsa-Auxílio, ou em emprego bem pago no Estado privatizado pelos cupinchas do poder.</p>
<p>Respeito quem vota no PSOL, no PSTU, PCO; são loucos – é preciso respeitar os loucos.</p>
<p>Para que não pareça que estou falando apenas de política, de eleição, digo que vou querer incluir, no meu gosto-e-não-gosto à la Buñuel, coisas que não têm a ver o PT e o lulismo.</p>
<p>Quando finalmente conseguir escrever meu gosto-e-não-gosto, gostaria de dizer:</p>
<p>Detesto as pessoas que arrebitam o nariz e dizem que não gostam de “cinema americano”.</p>
<p>Gosto de comédias românticas.</p>
<p>Detesto os cínicos. Admiro os believers.</p>
<p>Gosto de <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/04/03/joan-baez-volume-1-uma-trajetoria-luminosa/">Joan Baez</a>, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/04/26/cancoes-doces-violoes-suaves/">Kate Wolf</a>, <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2008/simplesmente-amor-love-actually/">Eva Cassidy</a>. Não tenho o menor interesse por Madonna, Lady Gaga, Amy Winehouse.</p>
<p>Acho a revista <em>Veja</em> a coisa mais reacionária, mais prepotente, mais babaca da imprensa brasileira. Pior ainda que a <em>Folha de S. Paulo</em>, ela também prepotente, babaca, produto de marketing, coisa da <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/cidadao-boilesen/">empresa que apoiou e ajudou a ditadura militar</a> e, quando os ventos começaram a mudar, mudou só por isso, para ir para onde ia o vento, por marketing, pelas vendas, jamais por princípios, coisa que, aliás, jamais teve.</p>
<p>Tenho profundo desprezo pelas revistas <em>Carta Capital</em> e <em>Caros Amigos</em>, exemplos perfeitos do lulismo – fingem-se de “progressistas” porque são pagas apenas e tão somente por anúncios do governo.</p>
<p>Acho <a href="http://50anosdetextos.com.br/1982/06/19/quando-paul-mccartney-fez-40-anos/">Paul McCartney</a> absolutamente genial. Acho que Paul McCartney dá de mil a zero em <a href="http://50anosdetextos.com.br/1990/10/01/john-no-ceu-com-diamantes/">John Lennon</a>.  </p>
<p>Gosto de coisas clássicas, detesto modismos.</p>
<p>Gosto do Fellini antes de ele se achar gênio. Adoro Truffaut, acho Godard um chato de galocha. Admiro Bruno Barreto, respeito Cacá Diegues, babo com o personalismo de Domingos Oliveira, acho Gláuber Rocha um saco &#8211; não apenas por ele ter feito uma elegia a Sarney e outra a Golbery, mas porque os filmes dele são insuportáveis.</p>
<p>Gosto de Robert Wise, acho Orson Welles de uma metidez insuportável.</p>
<p>Tenho um desprezo imenso pelas pessoas de ego inflado demais &#8211; Orson Welles parecia o maior deles, até conhecermos Lula, o apedeuta de ego mais inflado da história da humanidade.</p>
<p>Gosto de viver em São Paulo. Gosto tanto de viver em São Paulo quanto de vez em quando passar férias na Praia do Forte.</p>
<p>Gosto de pessoas simples.</p>
<p>Mas gosto mais ainda de pessoas grandes. Por isso gosto de Fernanda, de Mary, de Regina, de Suely.</p>
<blockquote><p><em>Julho de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Palmadas estatais</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Jul 2010 17:47:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sabemos nos comportar e tampouco sabemos como cuidar dos nossos flhos. Para sorte nossa, o Estado pai, mãe, provedor, empresário, indutor, educador, fiscal, guia e farol dos nossos dias, se dispõe a cuidar de mais essa lacuna do nosso caráter. O presidente Lula encaminhou ao Congresso um projeto de lei que proíbe maus tratos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sabemos nos comportar e tampouco sabemos como cuidar dos nossos flhos. Para sorte nossa, o Estado pai, mãe, provedor, empresário, indutor, educador, fiscal, guia e farol dos nossos dias, se dispõe a cuidar de mais essa lacuna do nosso caráter.<span id="more-2297"></span></p>
<p>O presidente Lula encaminhou ao Congresso um projeto de lei que proíbe maus tratos dos pais contra as crianças, inclusive o prosaico tapinha na bunda, porque ele, como emérito educador que é, sabe, como quase todo governante moderno, como somos incapazes de lidar com as nossas próprias responsabilidades, tanto paternas como cívicas. Sem o olhar protetor do Estado, sabe Deus que tipo de iniqüidades seríamos capazes de cometer.</p>
<p>Outro dia, comentando esse assunto no twitter, o jornalista Antero Greco, companheiro de muitos anos de trabalho e de muitas sagas de sofrimentos palmeirenses, escrevia: “Minha mãe dizia: ‘Mazze e panelle fanno i figli belli’. Levei palmadas, tive carinho, fui bem alimentado, sem traumas”.</p>
<p>Sabedoria simples e vital da senhora napolitana. Sabedoria caseira coberta por poeira de séculos, um tesouro a ser preservado num reduto íntimo, espaço onde as relações humanas ainda fazem prevalecer o desígnio da ação individual sobre a barbárie coletivista que a paranóia da correção política quer impor à força sobre as consciências.</p>
<p>Brinquei no twitter dizendo que só faltava agora o governo criar uma “Criançobrás”, empregando alguns milhares de fiscais de palmadas-na-bunda, e fui logo admoestado por um desses cretinos fundamentais que enriquecem a blogosfera com a profunda sutileza de seu pensamento: “Quer dizer que você é a favor do espancamento de menores?”. Vejam até onde a idiotia pode chegar.</p>
<p>Não sou a favor do espancamento nem de menores nem de maiores, mas eu perderia meu tempo tentando explicar isso ao cretino fundamental? Teria que contar até que já existem leis que punem agressões físicas, indistintamente, seja contra crianças, seja contra adultos, e que elas são suficientemente abrangentes para punir até as palmadas na bunda dos filhos. Não precisamos de mais leis, precisamos que se cumpram as que já existem.</p>
<p>Não precisamos de tutores, nem de comportamento nem de consciência. Não precisamos que nos digam como devemos criar nossos filhos, nem quais jornais podemos ler, nem quais programas de TV podemos ver, nem o que podemos comer ou beber, e nem quando e onde podemos fumar, desde que não desrespeitemos os direitos do próximo.</p>
<p>Ficaríamos muito gratos se o Estado conseguisse cumprir com o mínimo de suas tarefas básicas, como cuidar da infra-estrutura do País, assegurar oportunidades iguais para todos, investir o dinheiro dos impostos em serviços de saúde e educação decentes.</p>
<p>Essa persistente e minuciosa necessidade de intervir na vida dos outros é um dos traços mais incômodos do vagalhão estatista que avança pelo mundo afora. Aqui no Brasil atinge um grau mais agudamente intolerável na medida em que toda ingerência vem apresentada como um ato de bondade de governantes cheios de boas intenções e que não conseguem dormir à noite se não gastarem o seu dia produzindo o bem e distribuindo-o para todos.</p>
<p>Estatizar as relações familiares é mais um passo no processo de substituição da responsabilidade individual pela idiotização coletiva.</p>
<blockquote><p><em>Julho de 2010.</em></p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>. </em></p></blockquote>
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