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	<title>50 Anos de Textos &#187; Vivina de Assis Viana</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Tardinha, noitinha</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 00:31:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[— A gente já não pode mais se espantar com coisa nenhuma nesse mundo, compadre. Na cozinha da fazenda, mesa de madeira, bancos também, chão de tijolos, fogão de lenha, paredes enfumaçadas, a cena se repetia, diariamente. Diariamente, naquela hora lá chamada tardinha ou noitinha, hora que, na verdade, não é uma coisa nem outra, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>— A gente já não pode mais se espantar com coisa nenhuma nesse mundo, compadre.</p>
<p>Na cozinha da fazenda, mesa de madeira, bancos também, chão de tijolos, fogão de lenha, paredes enfumaçadas, a cena se repetia, diariamente.<span id="more-6165"></span></p>
<p>Diariamente, naquela hora lá chamada tardinha ou noitinha, hora que, na verdade, não é uma coisa nem outra, sendo as duas ao mesmo tempo, o Sebastião chegava.</p>
<p>Antes de atravessar um dos porões da construção antiga, entre o curral e o terreiro, e antes de subir os onze degraus da escada de pedra da cozinha, o Sebastião Garcia tossia. Bem alto.</p>
<p>— Preciso avisar que estou chegando, compadre. Assim, se alguém estiver conversando coisas que não posso ouvir, tem tempo de parar.</p>
<p>O compadre era meu pai, o patrão.</p>
<p>Os dois falavam do que conheciam: sol, lua, estrelas, chão, terra, mato, bicho, gente, água, chuva, raio, trovão, tempestade, enchente, cerração, geada, fumaça, fogo, incêndio, estrada, mata-burro, caminhão, jipe, trem, estação, trabalho.</p>
<p>Falavam também do que não conheciam, mas podiam imaginar: o mar, no Rio de Janeiro; as touradas, na Espanha; a Primeira Guerra Mundial, a Segunda; o Palácio do Catete, o da Alvorada.</p>
<p>As conversas dos dois, que todos podiam ouvir, esticando a tardinha, ou espichando-se pela noitinha, terminavam no tom resignado – quase filosófico – do empregado:</p>
<p>— Tá tudo muito difícil, compadre, mas, assim mesmo, tá bom. A gente tendo saúde, tá bom. O mundo revirou do avesso, a gente nem pode, mais, se espantar com o que acontece, mas tendo saúde, tá bom.</p>
<p>Se os dois não tivessem partido, sem volta, há muitos anos, em busca dos mares do Rio e das touradas de Madri, eu iria contar-lhes algumas histórias.</p>
<p>Se eu soubesse, se pudesse imaginar que mundos os dois habitam, em seus dias e noites eternos, eu lhes contaria algumas histórias destes nossos tempos de hoje. Deste nosso mundo, revirado pelo avesso. Cada vez mais.</p>
<p>Histórias corriqueiras, cotidianas, de gente que está na rua, esperando o ônibus: na calçada, conversando com um amigo; na fila do banco, na porta da escola, na entrada do hospital. No farol fechado.</p>
<p>Gente que, de repente, desaparece, silencia. Gente que, em um segundo, de repente, nunca mais.</p>
<p>Acho que os compadres se espantariam, sim.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Viagens sem volta</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Dec 2011 03:15:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Há poucos dias, ao terminar a leitura de Crônicas de Papel, livro simpático, e publicação cuidadosa da Editora Mercuryo Jovem, fiquei pensando em sua autora, Januária Alves. Ao criar a personagem Elis, adolescente, filha única, mãe jornalista, Januária, filha única, mãe e jornalista, de certa maneira se recria. A junção – mais que encontro – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há poucos dias, ao terminar a leitura de <em>Crônicas de Papel</em>, livro simpático, e publicação cuidadosa da Editora Mercuryo Jovem, fiquei pensando em sua autora, Januária Alves.<span id="more-5926"></span></p>
<p>Ao criar a personagem Elis, adolescente, filha única, mãe jornalista, Januária, filha única, mãe e jornalista, de certa maneira se recria.</p>
<p>A junção – mais que encontro – das duas, inevitável, não apenas confirma esperadas coincidências. Surpreende com inesperada revelação.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzcronicas.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5927" title="zzcronicas" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzcronicas.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a>Elis, as <em>Crônicas de Papel</em> contam, não é muito amiga dos livros. Em um caderno, chega a anotar: “Onde uma pessoa <strong>sem</strong> razões para ler pode encontrar <strong>cem</strong> razões para ler”? Januária, a vida inteira conta, sempre viu, leu e sentiu os livros como personagens absolutamente principais, capazes de mudar “o rumo dos acontecimentos com o rumor das palavras”.</p>
<p>Para eliminar a única e profunda aresta existente entre a autora e a personagem, surgem de maneira simples, natural e bonita, duas soluções. Duas ajudas. Primeiro, a professora. Aquela, específica, atenta. Depois, a amiga. Aquela, próxima, leitora.</p>
<p>Criando um mundo favorável às futuras leituras de Elis, espelho adolescente, Januária comove o leitor com uma densa e intensa declaração de amor aos livros.</p>
<p>Usando os mais finos instrumentos, nascidos da sensibilidade de quem, ao absorver as histórias alheias, absorve a sua própria, ela destrincha – com visível maestria –, os caminhos da leitura. Suas origens, suas fases. De onde vêm, por onde passam. Para onde vão, a leitura do livro de Januária não conta.</p>
<p>Ela deve saber que – enigma indecifrável –, não podemos nem imaginar onde as leituras nos levam. Grandes, riquíssimas viagens. Todas sem volta.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Filhos únicos</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Nov 2011 19:30:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais de dez da noite, o ônibus deixa a rodoviária simples, no interior mineiro, e toma o rumo da maior cidade do país. Poucos metros adiante, procura o acostamento: — O senhor tem passagem? – O motorista abre a porta para o vulto que, na estrada escura, agita os braços, pedindo que ele pare. — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais de dez da noite, o ônibus deixa a rodoviária simples, no interior mineiro, e toma o rumo da maior cidade do país. Poucos metros adiante, procura o acostamento:<span id="more-5765"></span></p>
<p>— O senhor tem passagem? – O motorista abre a porta para o vulto que, na estrada escura, agita os braços, pedindo que ele pare.</p>
<p>— Não, não tenho, mas&#8230;</p>
<p>— Então, nada feito, meu amigo. O ônibus está lotado.</p>
<p>— Mas, eu só vou até aqui bem pertinho&#8230;</p>
<p>— Nada feito. Com o ônibus lotado, nada feito.</p>
<p>— Mas, é um caso de urgência&#8230;</p>
<p>— Não insista, meu amigo!</p>
<p>— Mas, esse é o último ônibus&#8230;</p>
<p>O motorista, impaciente, ameaça fechar a porta.</p>
<p>— E daí, se é o último ônibus? Não posso fazer nada!</p>
<p>— Mas eu posso!</p>
<p>Tênis, jeans, camiseta da seleção brasileira de futebol, um jovem surge do fundo do ônibus e, passagem na mão, dispara pelo corredor.</p>
<p>Em seguida, mão no ombro do passageiro sem passagem que, aproveitando a distração do motorista, já estava dentro do ônibus, ele diz:</p>
<p>— Olha aí, cara, passagem pra São Paulo! É sua! E não precisa me pagar.</p>
<p>— Mas, eu só vou aqui pertinho&#8230;</p>
<p>— Que pertinho, que nada! Aproveita, cara! São Paulo!</p>
<p>— Devo estar ficando maluco – diz o motorista.</p>
<p>E, dirigindo-se ao desertor:</p>
<p>— Se você vai mesmo desembarcar, vamos logo! Tem bagagem no bagageiro?</p>
<p>— Bagagem? Tenho não! Só essa roupa aqui, que estou vestindo. E, sabe de uma coisa? Nem emprego eu tenho. E não tenho nada pra fazer em São Paulo, cara, nada.</p>
<p>— Pra que você tá indo pra lá, então?</p>
<p>— Pra ver se arrumo emprego, mas isso é só porque todo mundo fica falando, falando. Quero nada disso não. Quero é ficar aqui, cara. Não vou deixar minha mãe sozinha, de jeito nenhum. Sou filho único! Filho único, tá sabendo? Pensa bem, cara, tem sentido ela aqui, sem eu, e eu lá, sem ela?</p>
<p>O filho único abraça – efusivamente – seu salvador, deseja-lhe boa viagem – que pertinho, que nada! São Paulo tá te esperando! –, despede-se da platéia, aperta a mão do motorista e, dançando, ganha a estrada escura.</p>
<p>O motorista faz um sinal da cruz, fecha a porta que o separa dos passageiros, liga o rádio – e o ônibus – e, mais uma vez, ganha a estrada.</p>
<p>Poucos quilômetros adiante, um sinal estridente diz que ele deve parar:</p>
<p>— Ai, meu Deus, desse jeito, essa viagem não acaba nunca! E tenho mais de quinhentos quilômetros pela frente!</p>
<p>O ex-passageiro sem passagem, tranqüilo:</p>
<p>— Eu não falei que era pertinho?</p>
<p>— Pensei que o senhor ia pra São Paulo. Pensando bem, aquela passagem caiu do céu&#8230;</p>
<p>— São Paulo? De jeito nenhum!</p>
<p>— Qual o problema, meu amigo? Medo de arrumar emprego?</p>
<p>— Não, não! Emprego eu tenho, graças a Deus!</p>
<p>— Então?</p>
<p>— Também sou filho único!</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="Mais de dez da noite, o ônibus deixa a rodoviária simples, no interior mineiro, e toma o rumo da maior cidade do país. Poucos metros adiante, procura o acostamento:">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Sonho brasileiro</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Oct 2011 00:09:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quase nove da noite, chuvinha chata – ir pra casa, nem pensar –, converso com o porteiro do prédio em que trabalho. O sotaque nordestino me conta que seu dono acalenta um sonho antigo, nascido há tempos, antes de vir pro sul. Um dia, era pequeno, viu um conjunto de casas populares. Nunca mais esqueceu. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quase nove da noite, chuvinha chata – ir pra casa, nem pensar –, converso com o porteiro do prédio em que trabalho.</p>
<p>O sotaque nordestino me conta que seu dono acalenta um sonho antigo, nascido há tempos, antes de vir pro sul.<span id="more-5582"></span></p>
<p>Um dia, era pequeno, viu um conjunto de casas populares. Nunca mais esqueceu. Aquele mundo de casinhas, todas iguais, lindas, brancas, enfileiradas, esquecer de que jeito?</p>
<p>— Você viu essas casinhas onde, Raimundo? Em sua terra, Pernambuco?</p>
<p>— Não, na Bahia. Meu pai foi lá, de carona num caminhão, visitar a mãe dele, minha avó. Eu era pequeno, ele me levou. Minha mãe não queria, ele teimou, levou.</p>
<p>— Viagem grande, de Pernambuco até a Bahia, hein?</p>
<p>— É, mas não sou de Pernambuco, não.</p>
<p>— Não? De onde, então?</p>
<p>— Alagoas.</p>
<p>— Alagoas? Terra do Collor?</p>
<p>— Isso mesmo. Gente ruim, essa aí, nem conversa com pobre. Já trabalhei pra eles, faz tempo, ainda não era casado com a Janete. Vida muito mais difícil do que essa, aqui. A sorte foi que Deus ajudou, e a gente não arranjou menino.</p>
<p>— Você tem só um filho?</p>
<p>— Só, por enquanto. Coisinha de nada, quatro meses.</p>
<p>— E a Janete? Ela gosta daqui?</p>
<p>— Gosta demais, parece que nasceu aqui.</p>
<p>— Ela também é de Alagoas?</p>
<p>— Também, do mesmo lugar, lá no sertão.</p>
<p>— E a casinha, lá na Bahia?</p>
<p>— Tão bonita. Dava pra comprar, já juntei o dinheiro. Mas a Janete não vai. Não quer nem ouvir falar no assunto.</p>
<p>— Ela acaba indo, você vai ver.</p>
<p>— Será?</p>
<p>— Acaba indo.</p>
<p>— Vai não.</p>
<p>— Vai conversando com ela, cada dia um pouquinho.</p>
<p>— Ela não quer.</p>
<p>— Você insiste.</p>
<p>— Ela não acredita.</p>
<p>— Ela não acredita que você quer ir pra lá?</p>
<p>— Ah, nisso ela acredita, tem até medo.</p>
<p>— Então, Raimundo, ela não acredita em quê?</p>
<p>— Ela não acredita que gosto de lá de verdade, que quero ir, ficar. E nunca mais voltar pra cá. Ela não acredita, nunca acreditou.</p>
<p>— Se eu pudesse te ajudar&#8230;</p>
<p>Vivo conversando com ele, mesmo em dias sem chuva, e nunca vi seus olhos brilharem tanto, como naquela noite:</p>
<p>— Você pode ajudar, sim!</p>
<p>— Como, Raimundo?</p>
<p>— Me deixando falar com ela que a gente conversou, e que você me disse essas coisas.</p>
<p>— Que coisas, meu Deus?</p>
<p>— Posso falar com ela que você, também, gosta de casa popular?</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>, em outubro de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Passear, tão somente</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/passear-tao-somente/</link>
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		<pubDate>Fri, 14 Oct 2011 16:44:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Sábado, dez da manhã, vou passear – coisa antiga – no Mercadão, como é chamado, carinhosamente, o Mercado Central. Nas imediações da fervilhante – ou borbulhante? – 25 de Março, chamada, popularmente, de 25, às margens do Tamanduateí, no caminho da Cantareira, o velho prédio convive com vizinhanças das mais frenéticas e variadas. Com luz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado, dez da manhã, vou passear – coisa antiga – no Mercadão, como é chamado, carinhosamente, o Mercado Central.<span id="more-5492"></span></p>
<p>Nas imediações da fervilhante – ou borbulhante? – 25 de Março, chamada, popularmente, de 25, às margens do Tamanduateí, no caminho da Cantareira, o velho prédio convive com vizinhanças das mais frenéticas e variadas. Com luz própria, sua imponência soberana abarca – ou abafa? – mundos e fundos.</p>
<p>Entrada larga, pé direito alto, de castelo, vitrais restaurados, de catedral, bancas sem fim, de perder de vista, cheiros, cores, vozes, tudo parece me segredar: fui ao lugar certo.</p>
<p>Aquelas imensidões são, sim, lugares pra ser passeados. Tão somente.</p>
<p>Passear, ainda me lembro, é vagar sem propósito, nem despropósito.</p>
<p>Vagar devagar. Divagar. Rodar, rondar. Rodopiar. Às vezes, precisa.</p>
<p>Olhar pra lá, pra cá, pra lá e pra cá. Sondar, sonambular. Sonhar, sempre precisa.</p>
<p>Passear – ah, me lembro – é ir e vir. Como se não fosse, nem viesse. Sem rumo, só prumo. Sem hora, só demora.</p>
<p>Alguma filosofia. Dessa baratinha, corriqueira, contagiosa, quase nada.</p>
<p>Dessa capaz de inundar a alma de encanto, apenas com a visão – mesa próxima -, de um casal aparentemente feliz, sorvendo, olhos nos olhos, o segundo copo de chope, como se nunca mais – quem sabe? &#8211; fosse existir outro.</p>
<p>Passear – talvez eu saiba –, é, manhã de sábado, sair com filhos adultos e, Mercadão afora, vagar, contemplar, sonambular. Nem ir nem vir, talvez sonhar.</p>
<p>Filosofar. De jeito corriqueiro, contagioso: <em>olha, não me lembrava, pensei que fosse menor, eu não, pensei que fosse maior, bem maior, a lembrança que eu tinha era de criança, eu não tinha lembrança nenhuma, o sanduíche gigante acho que é lá em cima, a gente divide, vocês dividem um, nós dividimos o outro, tenho um amigo que vem aqui toda semana, conhece tudo, conhecer tudo pra quê, besteira, perde a graça, me avisa quando deixar de ser do contra, do contra é você, que fotos legais, olha, tá tendo um show ali no fundo, tem um salão lá, daqui dá pra ver melhor, essa mesa não, muito no meio, ah, essa tá ótima, todo mundo vai querer chope?</em></p>
<blockquote><p><em> Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O destino desfolhou</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/o-destino-desfolhou/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 16:01:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Na rua, relâmpagos e trovões. Dentro de casa, conversas e lembranças. Entre uma e outra xícara de café, eu me perguntava, naquela noite escura e molhada, por que levara tanto tempo para conhecer os olhos miúdos e atentos, e o riso largo e ruidoso de minha tia Olinda. Ela me olhava, olhava meus dois filhos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na rua, relâmpagos e trovões. Dentro de casa, conversas e lembranças.</p>
<p>Entre uma e outra xícara de café, eu me perguntava, naquela noite escura e molhada, por que levara tanto tempo para conhecer os olhos miúdos e atentos, e o riso largo e ruidoso de minha tia Olinda.<span id="more-5444"></span></p>
<p>Ela me olhava, olhava meus dois filhos, repetia seus nomes, eu lhe mostrava a foto de minha filha viajante, ela me olhava e dizia que havia vindo a São Paulo por três motivos: conhecer o primeiro bisneto, acabado de nascer, ver a casa que o filho, Maurício, estava construindo, e&#8230;</p>
<p>– Conheço suas irmãs há tanto tempo, faltava te conhecer.</p>
<p>E contava histórias de meu avô, que gostava de plantar, e que era seu irmão. De meu pai, que gostava de ler, e que era seu sobrinho. Dos dezesseis irmãos, cujos nomes – Leandro, Benvindo, Laudelino, Divino – evocados nessa noite de relâmpagos e trovões, me traziam de volta a voz de meu pai, que eu já não podia, mais, ouvir.</p>
<p>– Você sabia que foi seu pai quem escreveu a carta que me pediu em casamento?</p>
<p>Eu não sabia nem que minha tia Olinda lia minhas crônicas – Carmo da Mata, interior mineiro –, onde um professor das netas – gêmeas –, não acreditava que as alunas pudessem ser primas da cronista.</p>
<p>Perguntei à leitora que me visitava, se ela havia lido uma crônica recente, lembrando um tio seresteiro, irmão de minha mãe, que, sabe lá Deus quando, trocara as plantações de Minas pelas de Goiás.</p>
<p>Não tinha lido, mas jamais esquecera o seresteiro, que vivia cantando O destino desfolhou.</p>
<p>Cantarolando “cai a tarde, tristonha e serena”, minha tia Olinda se despediu.</p>
<p>Porta da sala ainda aberta, esperando o elevador, olhei-a pela última vez, e agradeci aos céus pelo nascimento do primeiro bisneto, que a trouxera até mim.</p>
<p>Visita abençoada. Povoada de conversas e lembranças, olhos atentos, riso largo, afastando relâmpagos e trovões.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma da tarde, quase duas</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/uma-da-tarde-quase-duas/</link>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 16:56:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma da tarde, quase duas. Hora de ficar em casa, sem inventar. Hora – por exemplo – de almoçar. Salada, arroz, feijão, couve, angu. Ah, pimenta. Ah, malagueta. Hora – quem sabe? –, de ligar o computador. Leitura de uma crônica, de outra, notícias de um amigo, de outro. De um filho. Hora – talvez [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma da tarde, quase duas. Hora de ficar em casa, sem inventar.</p>
<p>Hora – por exemplo – de almoçar. Salada, arroz, feijão, couve, angu. Ah, pimenta. Ah, malagueta.<span id="more-5410"></span></p>
<p>Hora – quem sabe? –, de ligar o computador. Leitura de uma crônica, de outra, notícias de um amigo, de outro. De um filho.</p>
<p>Hora – talvez – de ligar a tevê: mais um ministro, menos um ministro, que diferença faz? Mais uma rebelião, sei lá quantos atropelamentos, que mundo é esse? Frio, calor, chuva, vento, tudo junto, no mesmo dia, quem é que entende?</p>
<p>Hora de ouvir uma música, qualquer uma – “tu pisavas nos astros distraída” –, versos de poetas que, desde sempre, sintonizaram o mundo, quem não se lembra?</p>
<p>Uma e meia da tarde, quase duas, invento.</p>
<p>Bolsa no ombro, tomo o rumo do supermercado. Mesma rua, três quadras. Quase ao lado.</p>
<p>Rua cheia, almoços terminando, pessoas voltando ao trabalho, mulheres produzidas, homens engravatados, carros, buzinas, calor, tempo seco, cadê a chuva, parece que só vai chover quando o mundo acabar, pô, que sede.</p>
<p>Entro numa lojinha de nada, entrada de um restaurante natural, pequeno, escondido, lá no fundo:</p>
<p>— Uma garrafinha de água, por favor. Ah, sem gás. Ah, sem gelo.</p>
<p>Christian – rua pequena, todos nos conhecemos – me entrega o troco, centavos.</p>
<p>Carteira na mão esquerda, escorrego a bolsa pelo braço esquerdo, e sinto um vento voando.</p>
<p>— Pô! Aquele menino levou minha bolsa!</p>
<p>Três ou quatro pessoas, solidárias, ameaçam correr. Outras, assustadas, não sabem nem pra onde olhar.</p>
<p>Desconsolada, olho minhas mãos, desconsoladas. Na direita, garrafa de água sem gelo e sem gás. Na esquerda, carteira com documentos, protocolo pra buscar um passaporte que me deu mais trabalho do que mereço, talão de cheques, anotações, três notas de vinte, duas de cinqüenta. Ah, fotos de filhos, que ninguém é de ferro.</p>
<p>Na bolsa que disparou Alameda Campinas afora e abaixo, três objetos queridos. Um, lembrança de gente amiga. Dois, lembranças de mim.</p>
<p>Há alguns anos, em andanças pela Espanha, minha amiga Sonia Junqueira pensou em mim. O chaveiro, uma evocação à tragédia de Guernica, guardava todas as minhas chaves – casa, escritório, fazenda, gaveta, isso, aquilo –, um exagero.</p>
<p>Há alguns muitos anos, em andanças pela Alemanha, pensei em mim quando vi um porta-moedas sendo vendido no meio da rua, feirinha de domingo, cidade pequena – Wiesbaden –, nem sei como ainda me lembro. Ah, sei que sempre me lembrarei das milhares de folhas amareladas sob as árvores, outono inesquecível.</p>
<p>Há três, quatro anos, em andanças pela Internet, pensei em mim ao encontrar uma bolsa literária. Explico: bolsa simples, quase sacola. Na frente, homenagem a cinco escritores nacionais: Érico Veríssimo, Machado de Assis, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos. Junto ao nome de cada autor, o nome de um de seus livros.</p>
<p>Pensei em mim por causa de Graciliano/<em>Vidas Secas</em>.</p>
<p>Uma da tarde, quase duas, vento voando, Graciliano, Wiesbaden e Guernica dispararam Alameda Campinas abaixo e afora.</p>
<p>Tempos secos. E vidas.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Relíquia sem cofrre</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Sep 2011 02:07:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Passaporte vencido, lá fui eu em busca de um novo. Com preguiça, confesso. — Acesse o site da Polícia Federal, é fácil –, disseram. Obediente, obedeci. Fácil, sim. Só ler, entender, imprimir. Imprimi tudo: taxa a ser paga sei lá que dia, em que banco, comparecimento sei lá que hora, em que lugar. Documentos? Sei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Passaporte vencido, lá fui eu em busca de um novo. Com preguiça, confesso.</p>
<p>— Acesse o site da Polícia Federal, é fácil –, disseram.<span id="more-5319"></span></p>
<p>Obediente, obedeci. Fácil, sim. Só ler, entender, imprimir.</p>
<p>Imprimi tudo: taxa a ser paga sei lá que dia, em que banco, comparecimento sei lá que hora, em que lugar. Documentos? Sei lá quantos.</p>
<p>Li, reli e treli a lista de documentos. Mais uma vez, decorava.</p>
<p>Passaporte antigo, RG, CPF, título de eleitor com aqueles papeizinhos – facílimos de perder – provando que votei nos dois turnos, certidão de casamento. Tudo original.</p>
<p>Fui ao banco, paguei a taxa, guardei o recibo com o maior cuidado – e o medo de perder, de não ter mais jeito? –, comecei a contar os dias – contagem regressiva – pro dia agendado. Sessenta.</p>
<p>— Tanto tempo assim? – se espantaram.</p>
<p>Tanto tempo assim, ordenou a Internet. Sessenta dias, ou nada. Fazer o quê? Sessenta dias.</p>
<p>Contagem regressiva terminada, véspera do sexagésimo dia, lá fui eu, já madrugada, juntar os documentos. Todos originais.</p>
<p>Com medo de cometer sei lá que erro, pedi ajuda a um dos filhos. Que me socorresse, ainda que – era visível –, caísse de sono.</p>
<p>— Tá tudo certo, mãe, fica tranqüila.</p>
<p>— É que tenho medo da polícia, filho.</p>
<p>— Ah, mãe, vamos dormir, anda!</p>
<p>No sexagésimo dia, lá fui eu, sei lá quanto tempo de táxi, o valor eu sei, quarenta e cinco reais, lá fui eu, minuto a minuto abrindo o envelope, conferindo, polícia é polícia, o que será que ia ser de mim?</p>
<p>— Essa certidão é cópia.</p>
<p>— Cópia, como?</p>
<p>— Cópia.</p>
<p>— É a que tenho em casa, há milhares de anos.</p>
<p>— Cópia.</p>
<p>— Tá vendo? Amarelada, rasgada, antiga, batida à máquina, nem existia computador! Mais de quarenta anos!</p>
<p>— Cópia. A senhora volta amanhã. E traz o original.</p>
<p>— Se os outros documentos, todos originais e atualizados não servem pra nada, se votei à toa, por que, então, vocês não exigem apenas essa bendita certidão? Se só ela fala a verdade, pra que esse aparato todo?</p>
<p>— A senhora volta amanhã.</p>
<p>Polícia é polícia. Falou, tá falado. Obediente, obedeci. E tome táxi.</p>
<p>Na conversa-desabafo com o motorista, descubro que isso acontece com todos, todos os dias. Aliás, com todas. A exigência é só para as mulheres. Não todas. Apenas aquelas que tiveram o nome modificado com o casamento. Ah, se eu soubesse.</p>
<p>No sexagésimo primeiro dia, manhã cedinho, lá fui eu – quarenta e cinco reais –, buscar os caminhos da Lapa de Baixo, fim do mundo. Do meu mundo.</p>
<p>Com medo, olhos firmes fingindo coragem, exibi outra folha amarelada, antiga, batida à máquina. Mesma idade da outra, mais de quarenta.</p>
<p>Na véspera, tarde da noite, meu filho ao lado, por mais que analisássemos, nada encontramos que pudesse distinguir uma da outra. Levei as duas. Garantia. Polícia é polícia.</p>
<p>Sem uma palavra, o rapaz, nem vinte anos, rosto fino, pálido – doente? –, segura a folha antiga, mais de quarenta, e, sem uma palavra – milagre, viva! – coloca-a na copiadora.</p>
<p>Cópia nova na mão, ele me devolve a bendita, sei lá se original ou não, melhor não pensar mais em nada disso, só passar pra outra sala – foto, impressões digitais –, voar pra casa, guardar aquela relíquia – que não sabia que tinha –, no cofre que nunca tive.</p>
<p>Guardar – ou esconder – até o próximo passaporte. Ou as próximas encarnações. Quem sabe – se Deus me ajudar, e os anjos também –, ainda nasço filha de presidente?</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Livros da Fernão Dias</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Aug 2011 00:53:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Algumas seis vezes por ano, quando a saudade começa a falar alto, ou quando precisam de mim – coisa rara –, tomo o rumo de Minas. Café amargo, bagagem quase nenhuma, despedidas rápidas, “semana que vem eu volto”. Escravo do portão automático, o porteiro ordena que ele me liberte, e ganho as ruas de todos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Algumas seis vezes por ano, quando a saudade começa a falar alto, ou quando precisam de mim – coisa rara –, tomo o rumo de Minas.<span id="more-5200"></span></p>
<p>Café amargo, bagagem quase nenhuma, despedidas rápidas, “semana que vem eu volto”.</p>
<p>Escravo do portão automático, o porteiro ordena que ele me liberte, e ganho as ruas de todos os dias, familiares.</p>
<p>Uma estação de metrô aqui, outra ali, trajetos rápidos, Terminal Tietê, guichê de passagens, assento ao lado da janela, ônibus das dez, – “boa viagem” –, escada rolante, cafezinho, plataforma Um, ônibus encostando, pontual, quem diria.</p>
<p>Mochila quase vazia, ajeito-a com facilidade no bagageiro, sobre a janela. Antes, procuro – e encontro – entre badulaques e bugigangas, o livro da viagem. Viagens. Ida e volta.</p>
<p>Algumas seis vezes por ano, a não ser que o mundo acabe, tenho encontro marcado com alguns autores, na maior rodoviária da cidade.</p>
<p>Solícitos, eles me contam suas histórias durante, mais ou menos, mil quilômetros de retas e de curvas, sobretudo de curvas. Metade na ida, metade na volta.</p>
<p>O espanhol Alberto Vasquez-Figueroa, que meus irmãos e alguns amigos, inconformados, insistiam para que eu conhecesse –“já passou da hora, diziam” –, me encontrou em um dia de muita chuva.</p>
<p>Com medo de que alguma gota invadisse e inundasse o ônibus, quase o deixei em casa, na estante, sossegado, ao lado de colegas vindos daqui e dali. Vai ser melhor pra ele, pensei.</p>
<p>Não seria melhor pra mim, lembrei, ouvindo o eco das palavras de meus irmãos e de alguns amigos.</p>
<p>Mais por eles que por mim, coloquei-o na mochila e, Fernão Dias afora, lá fui eu me emocionar com as aventuras de <em>Tuareg</em>, beduíno que me conquistou imediatamente, não me deixando cochilar em quilômetro algum. Nem na monotonia das retas.</p>
<p>Nos dias mineiros, não nos procuramos. Fidelidade conta, e se o encontro é na viagem, na estrada e no balanço das curvas, metade na ida, metade na volta, terras firmes não valem. Ou melhor, valem. Pra outras personagens, vindas de outros recantos. Sem mochilas, sem plataformas de embarque.</p>
<p>Semana seguinte, caminho inverso, saudade de casa e da história, lá vou eu, Fernão Dias afora, me comovendo com aquele tuareg. Esse cara vai me fazer chorar, penso, já não sabendo se me refiro ao autor ou à personagem, ambos um só.</p>
<p>A poucos quilômetros de São Paulo, sei que a história vai terminar. E sinto que, pior que chorar, será não ter com quem comentar absolutamente nada. Nem uma linha.</p>
<p>Reparo em meus companheiros de viagem. Muitos, sonolentos. Alguns, gulosos. Outros, falantes. Outros, quem sabe?</p>
<p>Onde, meus irmãos e amigos, fiéis e leais? Como podem me deixar assim, sozinha, abandonada, no meio da estrada, corpo e alma invadidos e inundados por uma avalanche de emoções imprevistas, ainda que sutilmente anunciadas, página a página, curva a curva, Fernão Dias afora?</p>
<p>Livro fechado, história encerrada, olhos úmidos, emoção contida, ônibus cheio e vazio, senti – e vivi – um momento de intensa solidão.</p>
<p>À noite, telefonema para minha irmã, no interior mineiro. Que ela soubesse, e os outros – irmãos e amigos – também: eles estavam certos, todos. Estava passando da hora, sim, há muito.</p>
<p>Há muito, eu poderia ter ligado minha história à daquele peregrino do deserto, alma reta, curva nenhuma. Muito diferente da Fernão Dias.</p>
<p>Há pouco, nem um mês, dia de muito frio, liguei minha história à dos imigrantes japoneses.</p>
<p>Terminal Tietê, passagem na mão – “boa viagem” –, cafezinho, plataforma Um, mochila – quase vazia – no bagageiro, abro <em>Arigatô</em>, presente de meu amigo, Jorge Nagao.</p>
<p>Escrito por dois jornalistas, Jhoni Arai e César Hirasaki, o livro é bilíngüe, fato que me divertiu, retas e curvas afora.</p>
<p>Após ler cada página ímpar, eu me dava ao luxo de brincar com as pares, povoadas de riscos, traços e desenhos que, por mais que me esforçasse, não conversavam comigo. Apenas números e datas eram fielmente reproduzidos, lá e cá.</p>
<p>Editado com cuidado, <em>Arigatô</em> traz, além dos idiomas duplos, fotos enriquecedoras, que ilustram a história comovente daqueles que, em 1908, deixaram sua pátria, fascinados pelo “ouro” extraído de milhares e milhares de pés de café.</p>
<p>O ouro era real, sim. Não para eles, perceberam logo. Não para imigrantes falando uma língua incompreensível, cultivando costumes desconhecidos, estranhando a comida local.</p>
<p>Se promessas e sonhos ficavam cada vez mais distantes, desgraças e doenças – tsunamis brasileiros –, brotavam como sementes.</p>
<p>Cansados – nunca desesperados – de conviver com perdas e mortes, os sofridos – e valentes – imigrantes fizeram trocaram de sementes.</p>
<p>De batatas a hortaliças, de coragem a perseverança, incansavelmente, eles semearam.</p>
<p>Aos poucos, pacientemente, colheram. E começaram a vender. E fundaram, em Cotia, a primeira cooperativa agrícola do Brasil.</p>
<p><em>Arigatô</em> poderia ser apenas um registro correto da trajetória brasileira do povo japonês, tão bem integrado à vida, nesse lado do mundo.</p>
<p>É muito mais. É o registro comovente da trajetória brasileira de um povo que soube, sim, encontrar o ouro prometido.</p>
<p>Ausente dos cafezais, ele se encontrava entre seus próprios compatriotas. Escondido em olhos amendoados, quase fechados. Em mãos calejadas, sempre abertas. Em mentes incrivelmente perseverantes.</p>
<p>Que meu amigo Jorge Nagao ouça, nas entrelinhas desse texto, um comovido “Arigatô” pelo mais recente usuário das retas e das curvas da Fernão Dias. Sobretudo das curvas.</p>
<blockquote><p> <em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Mudei eu</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jul 2011 17:18:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Há algum tempo, década de noventa, publiquei, durante dez anos, sei lá quantas mil crônicas em um jornal semanal. Os assuntos, sedutores, sobravam. Alguma coisa mudou, porque escrever anda muito difícil. Não que faltem assuntos, eles continuam sobrando. Entretanto, não seduzem. Não mais. Machado de Assis, que jamais errava, sabia o que estava fazendo, ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há algum tempo, década de noventa, publiquei, durante dez anos, sei lá quantas mil crônicas em um jornal semanal. Os assuntos, sedutores, sobravam.<span id="more-5035"></span></p>
<p>Alguma coisa mudou, porque escrever anda muito difícil. Não que faltem assuntos, eles continuam sobrando. Entretanto, não seduzem. Não mais.</p>
<p>Machado de Assis, que jamais errava, sabia o que estava fazendo, ao indagar, no verso final do conhecido soneto:</p>
<p>“Mudaria o Natal ou mudei eu”?</p>
<p>Nos dez anos da década de noventa, eu me ocupei, frequentemente, de temas que julgava procedentes.</p>
<p>Assim, lá estavam, crônica após crônica, as caminhadas diárias do presidente que usava camisetas – “o tempo é o senhor da razão” – com recados aos súditos; a ministra da Fazenda dançando “Besame mucho” com o ministro da Justiça; as desavenças conjugais da primeira-dama, chorosa porque o ilustre mandatário do país havia comparecido, sem aliança, a um evento social de suma importância.</p>
<p>Bobagens. Puras bobagens sem a mínima importância.</p>
<p>O país continua o mesmo, claro, mas me recuso a registrar o apartamento de não sei quanto, de sei lá quem; o sigilo eterno – ou de 50 anos – de sei lá o quê; o estádio que vai inaugurar a Copa de sei lá quando; o banco que vai bancar a fusão de sei lá quais e quantas empresas.</p>
<p>Se Machado de Assis me fizesse a pergunta que tem atravessado décadas e décadas sem envelhecer, eu responderia, sem pestanejar: mudei eu.</p>
<p>O mundo continua o mesmo, assuntos sobrando. Assuntos que não mais me seduzem. Não devo ter aprendido a conviver com fatos carregados de constante desencanto.</p>
<p>Mudei eu, sim. Não completamente, graças a Deus e aos anjos que me guardam. Ou é um anjo só?</p>
<p>Por mais difícil que seja seguir escrevendo, jamais deixarei de lembrar amigos eternos, familiares queridos, paixões inesquecíveis.</p>
<p>Amigos eternos, como citá-los? Nem precisa, eles se sabem, se conhecem, se garantem.</p>
<p>Familiares queridos? Vivem por aqui, sondando, rondando, vigiando, guiando. Escrevendo comigo.</p>
<p>Paixões inesquecíveis? O tempo há muito me reafirma quais são, pouquíssimas. Nara, Paulinho, Pena Branca, Graciliano, Karl May, Cortázar, Galo, Guga, Giba.</p>
<p>Mais: ovo, uma coleção de lápis, outra de caixinhas.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>.</em></p></blockquote>
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		<title>Eternidade</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Jul 2011 20:13:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Passamos três dias no interior de Minas, minha irmã, meu irmão e eu. Na fazenda onde crescemos, sonhamos, aprendemos, desaprendemos. Vivemos. Faltou o irmão mais velho, oitenta anos. Justamente o que mora perto, de lá da porteira. Logo depois da árvore torta. Estava na capital, como dizia nosso pai. Indo a médicos, que ninguém é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Passamos três dias no interior de Minas, minha irmã, meu irmão e eu. Na fazenda onde crescemos, sonhamos, aprendemos, desaprendemos. Vivemos.<span id="more-4953"></span></p>
<p>Faltou o irmão mais velho, oitenta anos. Justamente o que mora perto, de lá da porteira. Logo depois da árvore torta.</p>
<p>Estava na capital, como dizia nosso pai. Indo a médicos, que ninguém é de ferro. Nem ele, adepto de longas caminhadas e leituras. Guimarães Rosa, de preferência. Nada mais natural. Falam a mesma linguagem, irmanados.</p>
<p>Irmanados, três dias afora e três noites adentro, minha irmã, meu irmão e eu falamos muitas linguagens. Ora a das lembranças, ora a dos sonhos, ora a do espanto. Sempre a da saudade. Nada mais natural. Durante os três dias e três noites, na casa grande, colonial, paredes brancas, janelas azuis, finitas e infinitas imagens iam e vinham, presentes, ausentes, próximas, distantes.</p>
<p>Pais, avós, bisavós, filhos, netos, tios, sobrinhos, cunhados, empregados, um desfile sem fim de fatos e figuras que nem sabíamos que sabíamos, nem lembrávamos que não esquecêramos.</p>
<p>Na mesa grande da cozinha, nós três éramos muitos. Ora com vinte anos, ora com mais de cem, éramos muitos. Inúmeros.</p>
<p>Compramos e vendemos fazendas, plantamos aqui e ali, escalamos árvores, ouvimos músicas, lemos livros, andamos a pé, a cavalo, de trem, de jipe, atravessamos rios, pontes, porteiras, saímos pra não mais voltar. Voltamos sempre.</p>
<p>Na mesa da cozinha, muito maior que nós, nós três, que éramos tantos, dividimos, na primeira noite, o presente e o passado, as idas e vindas, a vida e morte com alguém que, continuação de nós todos, tantos, inúmeros, tinha dupla função: filho e sobrinho.</p>
<p>Filho de meu irmão, sobrinho de minha irmã – e meu, claro –, ele ouvia, falava, lembrava. Algumas de suas lembranças pareciam incorporadas, coladas, herdadas. Nada mais natural. Família é mundo múltiplo, múltipla multidão. Mistério palpável, insondável.</p>
<p>Mistério palpável, herdado de avós ou bisavós, de pais ou tios, o sobrinho carrega o estranho – e bendito – dom, reservado a poucos, de saber alimentar os famintos.</p>
<p>Quase madrugada, um prato feito com antigos e cuidadosos costumes familiares e artesanais surgiu à mesa, fechando a conversa, segurando o tempo, unificando as épocas, sacramentando os laços. Irmanando.</p>
<p>Ao lado de minha irmã, meu irmão, meu sobrinho, enquanto degustava e revivia sabores inesquecíveis, ouvi, pertinho, um sussurro amigo.</p>
<p>A voz de Carlos Drummond de Andrade, mineiro do interior, cidadão universal, me segredava, como se não soubéssemos:</p>
<p>“Há sempre uma família na conversa.</p>
<p>Aqui presentes avós há muito falecidos. Mas falecem deveras os avós?</p>
<p>Alguém deste clã é bobo de morrer?</p>
<p>A conversa o restaura e faz eterno”.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/">primeiroprograma</a>, em junho de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Atalhos e trilhas</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/atalhos-e-trilhas/</link>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 20:42:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma vez, em uma escola, uma garota – treze, quatorze anos –, saia curta, cabelos compridos, olhos atentos, jeito de quem sabia das coisas, quis saber se eu me considerava diferente dos outros mortais. — Outros mortais? — É, mortais comuns! — Mortais comuns? — É, simples mortais! — Simples mortais? — É, mortais que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma vez, em uma escola, uma garota – treze, quatorze anos –, saia curta, cabelos compridos, olhos atentos, jeito de quem sabia das coisas, quis saber se eu me considerava diferente dos outros mortais.</p>
<p>— Outros mortais?<span id="more-4549"></span></p>
<p>— É, mortais comuns!</p>
<p>— Mortais comuns?</p>
<p>— É, simples mortais!</p>
<p>— Simples mortais?</p>
<p>— É, mortais que não escrevem! Eu, por exemplo.</p>
<p>Tentei argumentar, ela mal me ouvia.</p>
<p>Recurso extremo, recorri aos membros da Academia Brasileira de Letras.</p>
<p>— Até aqueles imortais são simples mortais – disse-lhe.</p>
<p>— Não, não! De jeito nenhum! E os livros?</p>
<p>— Livros?</p>
<p>— Os livros ficam, não ficam?</p>
<p>— Imortais não seriam os livros, então? – perguntei, me animando.</p>
<p>Nada feito. A garota, que em momento algum demonstrava sonhar com a imortalidade – nem gostava de escrever, disse –, queria porque queria que eu me confessasse à margem da humanidade. Um ser não obrigatoriamente melhor, mas certamente diferente dos simples e comuns mortais.</p>
<p>— Não sei por que você insiste em não entender! Estou falando da maioria! Daqueles que não escrevem. Ou porque não sabem, ou porque não querem, ou porque não gostam, ou porque têm preguiça -, dizia ela, dogmática.</p>
<p>Tentei lhe dizer que qualquer cidadão considerado normal pode não saber, não querer, não gostar ou ter preguiça de encarar qualquer trabalho, dos mais corriqueiros aos mais sofisticados.</p>
<p>Nada feito. A garota parecia o escritor que, diante de uma crônica semanal, precisa vencer o desafio, custe o que custar.</p>
<p>Terminado o tempo da conversa, não conseguimos nos entender, não sei se feliz, ou infelizmente.</p>
<p>Deixei a escola convicta de que nada me faria diferente de ninguém, e ela deve ter tomado o caminho de casa certa de que existia gente que não entendia nada de nada. Como é que podia? Como é que podia um escritor não ter noção do próprio trabalho?</p>
<p>Frequentemente, tenho certeza de que não tenho noção de meu trabalho.</p>
<p>Terminado um texto – conto, crônica, carta, história juvenil, infantil, o que for –, nunca sei, naqueles primeiros momentos, se dei conta do recado. Se produzi, como gostaria, algo bom de ler, ou se me perdi em linhas apenas legíveis, sem eira, nem beira.</p>
<p>O segredo – quando se pode –, é esperar. Uma releitura, dias, meses depois, como se o texto, imunizado pelo tempo, fosse de outro autor, pode clarear as ideias. Se não passar de conversa fiada, sem eira, nem beira, voltará à gaveta. Ou adormecerá no arquivo de computador. Se, por outro lado, for de leitura fácil e agradável, será lançado aos olhos alheios.</p>
<p>Os olhos alheios têm me feito pensar. E lembrar.</p>
<p>Quando leio os comentários que, vez ou outra, leitores conhecidos ou desconhecidos deixam nesse espaço semanal, penso no ofício de escrever. E me lembro da garota da escola, saia curta, cabelos compridos, olhos atentos. Jeito de quem sabia das coisas.</p>
<p>Se a encontrasse de novo, haveria de dizer-lhe que, vez ou outra, me sinto, sim, um mortal meio privilegiado. Não pelo que escrevo, mas pelo que leio. Pequenas frases, observações, afagos, afetos. Surpresas, emoções, coincidências, confidências.</p>
<p>Uma vez, o colega Souza Freitas, leitor atento, me lembrou que a “primeira pomba desgarrada”, que eu trouxera de volta de um verso de Raimundo Correia, era, na verdade, uma “pomba despertada”&#8230;</p>
<p>Naquele dia, mortal simples e comum, me senti duplamente privilegiada. Por ser lida com cuidado e por saber que, quando me enganasse em meus caminhos, alguém haveria de – delicadamente –, me indicar atalhos e trilhas mais certeiros.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/">primeiroprograma</a>, em maio de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Era uma vez</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 16:51:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu era criança, ouvi muitas histórias. Algumas tinham reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas, madrastas, bruxas, castelos, carruagens, cavalos. Casamentos. Outras, monstros, dragões, lobisomens, assombrações, armas, esqueletos, caveiras, cemitérios. Enterros. As primeiras – princesas adormecendo anos e anos, madrastas colocando veneno em maçãs, bruxas dançando diante de caldeirões fumegantes – me emocionavam, ainda que não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu era criança, ouvi muitas histórias.</p>
<p>Algumas tinham reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas, madrastas, bruxas, castelos, carruagens, cavalos. Casamentos.<span id="more-4508"></span></p>
<p>Outras, monstros, dragões, lobisomens, assombrações, armas, esqueletos, caveiras, cemitérios. Enterros.</p>
<p>As primeiras – princesas adormecendo anos e anos, madrastas colocando veneno em maçãs, bruxas dançando diante de caldeirões fumegantes – me emocionavam, ainda que não me impressionassem tanto.</p>
<p>Afinal, eu nunca tinha vista nenhum rei. Nem um. Nenhuma princesa. Nem uma. Carruagem? Jamais. Bruxa? Nem pensar, ainda bem.</p>
<p>Sobravam os cavalos, esses sim, meus amigos de cavalgadas quase diárias. Galopando pelos campos, escorregando em pedras, comendo milho na mão, em nada eles lembravam os companheiros ilustres. Aqueles das histórias ouvidas cada noite, na cozinha, em volta do fogo. Aqueles habitavam reinos infinitos, por onde conduziam carruagens de ouro.</p>
<p>A vida de todo dia sempre me ensinava que reis, rainhas e carruagens douradas, só no reino do faz de conta.</p>
<p>Por outro lado, lobisomens e assombrações, esses rondavam a casa, quem não sabia? Urravam, gemiam. Arrombariam a porta, mais dia, menos dia. Isto é, mais noite, menos noite.</p>
<p>Os tempos de criança foram ficando pra trás, a vida foi acontecendo, minhas impressões se confirmando.</p>
<p>Reis eram, sim, de mentira. Lobisomens, deus me livre, poderiam ser de verdade.</p>
<p>Entretanto, como o mundo é cheio de surpresas e, como tudo o que inventam, acontece – o que não inventam também –, na última semana, diante da televisão, me senti na fazenda, aquecida pelas brasas que sempre ardiam no centro da cozinha.</p>
<p>Chão de tijolos, problema algum. Em volta do fogo, noite adentro, a vida ia e vinha entre café, bolos, pães de queijo, pipocas, conversas, histórias. Histórias.</p>
<p>Um dia, isto é, uma noite, brasas mais ardentes que o necessário, histórias certamente mais alucinantes, ninguém se lembrou de apagar as brasas. Dia seguinte, um buraco bem no centro da cozinha. Tijolos também podem ser queimados, aprendemos.</p>
<p>A lembrança ficou lá, longo tempo, marcando, manchando – e escurecendo – os tijolos, até que, um dia, uma reforma tornou tudo novo. Como se fosse possível.</p>
<p>Como se fosse possível, na última semana a televisão me levou de volta a aqueles lugares e aconchegos.</p>
<p>Ocupadas por reis, rainhas, príncipes e princesas, as carruagens douradas e seus cavalos ilustres pareciam conhecer meus caminhos. Sem nem um errinho, sem confundir nem uma esquina, me levaram de volta ao chão queimado da minha infância. Bem no meio da cozinha.</p>
<p>Tive certeza de ouvir – “era uma vez” – as antigas histórias.</p>
<p>Histórias de mentira, à beira do fogo, em que príncipes e princesas se casavam, participavam de uma festa de muitos dias e muitas noites e, depois, eram felizes pra sempre.</p>
<p>Nas histórias de hoje, de verdade – até bruxas estavam presentes, disseram – com televisão e tudo, príncipes e princesas também devem ser felizes para sempre. Até que o para sempre acabe.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprograma</a>, em maio de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Nada acontece lá fora</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2011 17:11:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem, sábado, depois de um dia inteiro brigando com um texto que teimava em não me obedecer, busquei o melhor remédio. Música. Fora de casa, pra me distanciar do teimoso. Eu sabia: se não saísse, se – simplesmente – trocasse o escritório pela sala, sorrateiro, insistente, ele se insinuaria em trabalhos alheios já devidamente musicados. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, sábado, depois de um dia inteiro brigando com um texto que teimava em não me obedecer, busquei o melhor remédio. Música. Fora de casa, pra me distanciar do teimoso.<span id="more-4448"></span></p>
<p>Eu sabia: se não saísse, se – simplesmente – trocasse o escritório pela sala, sorrateiro, insistente, ele se insinuaria em trabalhos alheios já devidamente musicados. Pesadelo sem tamanho.</p>
<p>Sem tamanho. Em vez de ouvir, encantada, “toda a dor da vida me ensinou essa modinha”, eu ouviria, desolada, “nada acontece lá fora”.</p>
<p>Eu sabia – o autor sempre sabe – que o problema do meu texto estava – sobretudo – nessa frasezinha sem importância: “Nada acontece lá fora”.</p>
<p>Poderosa, a maldita – ou bendita? – ela imperava lá fora e, cá dentro, emperrava meu pensamento, que se recusava a me revelar segredos frequentemente escondidos em linhas e entrelinhas.</p>
<p>Consciente de que a maldita – ou bendita – invadiria o universo alheio, contaminando as letras das músicas que me emocionariam, resolvi fugir. Sem deixar endereço.</p>
<p>Fechei a porta com cuidado. Ruídos insignificantes podem trair, nunca se sabe.</p>
<p>Fui pro teatro da Livraria da Vila, pedir socorro ao Wagner Homem, ao Rogério Silva e ao seu filho, Gustavo Godoy, que me inundaram de melodias e de textos buarqueanos.</p>
<p>Quando cheguei, Wagner, já tendo me visto por lá algumas vezes, perguntou, entre surpreso e sorridente:</p>
<p>— Você não se cansa de nós?</p>
<p>Eu poderia ter lhe respondido que me canso, sim, mas de textos emperrados, em que “nada acontece lá fora”.</p>
<p>Disse-lhe que não me cansava, e era verdade. Não se cansa de belezas, nem de emoções.</p>
<p>Fui ao lugar certo. Trancado em casa – sem dono, sem rumo, sem solução –, meu texto não teve saída.</p>
<p>Mudo, não teve como invadir as histórias contadas – com graça – pelo Wagner, nem as letras das melodias cantadas – com carinho – por Rogério e Gustavo.</p>
<p>Uma a uma, mais uma vez, fui ouvindo as histórias e as músicas contadas e cantadas a partir do livro <em>Chico Buarque: Histórias de Canções</em>, resultado de um trabalho meticuloso de pesquisa de Wagner Homem, acompanhado de perto pela edição cuidadosa e competente de Leonel Prata.</p>
<p>Hoje, manhã clara de domingo, ligo o computador, e sinto que a noite de ontem ainda me faz bem. E, mansamente, uma leve desconfiança me assalta: lá fora, alguma coisa haverá de acontecer.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/default.asp">primeiroprogama</a>, em abril de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Os tempos são outros</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Apr 2011 16:04:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vivina de Assis Viana]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Li no jornal. Alguém – quem? –, disse que não se usa mais escrever crônicas sobre falta de assunto, como Rubem Braga se cansou – ou não? – de fazer. Os tempos são outros. Pena. Se me fosse dado o direito de imitar o mestre, hoje eu escreveria sobre o nada. No máximo, uma borboleta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Li no jornal. Alguém – quem? –, disse que não se usa mais escrever crônicas sobre falta de assunto, como Rubem Braga se cansou – ou não? – de fazer. Os tempos são outros.<span id="more-4342"></span></p>
<p>Pena. Se me fosse dado o direito de imitar o mestre, hoje eu escreveria sobre o nada. No máximo, uma borboleta pousada – ou pousando – na janela.</p>
<p>Impossível. São outros os tempos, sim. Borboletas já não pousam em janelas. Nem em lugar nenhum.</p>
<p>De vez em quando, por um ou outro motivo, nos damos conta do sumiço de coisas antes corriqueiras. Os sonetos, por exemplo.</p>
<p>Eternos companheiros “da aurora da minha vida, que os anos não trazem mais”, eles andam desaparecendo. Não apenas das antologias escolares, que também não sei se ainda existem, mas – sobretudo – do dia a dia de nossas vidas, frequentemente sem aurora alguma.</p>
<p>Desolada com a falta de borboletas, antologias, sonetos e auroras, e ciente de que crônicas sobre o nada estão fora de moda, eu imaginava tudo – ou quase tudo – perdido, quando me lembrei.</p>
<p>Dia desses – segunda-feira, calor abrasador –, entrei no consultório de um médico. Um amigo, arrisco.</p>
<p>Arrisco. Desde a primeira consulta, senti que nos entenderíamos. Ele gostava de falar, percebi logo. De ouvir, também, exultei, em seguida.</p>
<p>Muitas têm sido as conversas. Criamos filhos, descobrimos cidades, viajamos. Lamentamos tragédias, preconceitos. Relembramos músicas, filmes, livros. Nomes, acontecimentos, histórias. Não poucas vezes, consertamos o mundo.</p>
<p>Dia desses, segunda-feira, calor abrasador, enquanto cuidava de meus pontos fracos, lembrando-se do tsunami no Japão, citou o “mar, belo mar selvagem das nossas praias solitárias”, e disse que Vicente de Carvalho havia sido seu poeta preferido, nos tempos de colégio. Ainda sabia de cor muitos de seus poemas, sonetos.</p>
<p>— Sonetos?</p>
<p>— Sonetos. Do Vicente de Carvalho e de vários outros poetas. Ainda me lembro.</p>
<p>Naquela tarde, ouvi versos de Camões, Raul de Leoni, Casimiro de Abreu – ah, “aurora da minha vida”&#8230; –, Augusto dos Anjos, Castro Alves – “senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor Deus, se é delírio, ou se é verdade&#8230;” –, Jorge de Lima, Cruz e Souza, Bocage, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Alphonsus de Guimaraens, sei lá quem mais. Melhor, sei, sim. Raimundo Correia: “vai-se a primeira pomba desgarrada”&#8230;</p>
<p>Bendita seja a memória, que faz parte da tribo de Deus, pensei. Tarda, não falta.</p>
<p>Entre mares selvagens, delírios, verdades e pombas desgarradas, não senti agulhas, dores, ou ardores.</p>
<p>Senti, sim, a presença de alguém que me arrisco a chamar de amigo. E que, neste momento em que escrevo, à distância, sem saber, acaba de me salvar da terrível ameaça da crônica proibida. Aquela, sobre o nada.</p>
<p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no <a href="http://www.primeiroprograma.com.br/site/website/">primeiroprograma</a>.</em></p>
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