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	<title>50 Anos de Textos &#187; Valdir Sanches</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Repórter senta de frente para a porta</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 17:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
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		<description><![CDATA[Yes, baby, nós repórteres sentamos de frente para a porta. Não vá algum vilão entrar armado para acabar com a gente, e nos irmos desta estupidamente com um tiro nas costas. Cinema à parte, se o Bolsonaro entrar aos beijos com um gay, não perdemos o furo. Segui a regra, naquela noite, no restaurante de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Yes, baby, nós repórteres sentamos de frente para a porta. Não vá algum vilão entrar armado para acabar com a gente, e nos irmos desta estupidamente com um tiro nas costas. Cinema à parte, se o Bolsonaro entrar aos beijos com um gay, não perdemos o furo.<span id="more-6241"></span></p>
<p>Segui a regra, naquela noite, no restaurante de Itapetininga. A cidade do interior paulista nos oferecia alguns restaurantes promissores. Não sei exatamente por que, optamos por um que começava com um espaço um pouco estreito, e se abria no fundo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzvalance2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-6244" title="zzvalance2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2012/01/zzvalance2.jpg" alt="" width="500" height="304" /></a>Ocupei meu lugar, em uma mesa da parte estreita. Meu colega das lentes sentou ao meu lado. À nossa frente, de costas para a porta, ficou o colega do volante. Aí vai a noite. Um tira-gosto, uma bebidinha, que o dia tinha sido cheio. Em paz, porque a casa – graças, graças Senhor &#8211; não tinha aparelho de TV ligado.</p>
<p>(<strong>N.da R.</strong>: <em>No clichê ao lado, o bandido, à esquerda, entra no bar. O mocinho, à direita, estava de frente para a porta, é claro.</em>)</p>
<p>Fizemos o pedido, e se bem lembro estávamos no fim do jantar quando&#8230; Um fantástico som ao vivo eclode às nossas costas, enchendo o lugar com um número de bossa-nova! Viramos, eu e o fotógrafo, e descobrimos poucos metros atrás de nós um conjunto de piano, bateria, baixo de pau e cantora!</p>
<p>A cena clássica, o pianista com seu copo de uísque em cima do tampo. E um baixista jazzístico, de grande performance. O baterista, com a batida impecável (pelo menos aos nossos ouvidos amadores) da bossa nova. E a cantora? Afinadíssima.</p>
<p>É prudente dar o desconto de que estou falando de um dos meus gêneros prediletos. Aquele que, no fim dos anos 1950, embalou a juventude nas ondas de um barquinho&#8230;</p>
<p>Certamente o piano já estava lá, quando chegamos – e não notamos. Mas nada e ninguém mais. O baterista armou seu instrumento, e não percebemos! No intervalo falei com eles, e descobri que estavam ensaiando. Um ou dois dias mais tarde se apresentariam em um lugar da cidade que não gravei.</p>
<p>Pentelhamente, num intervalo depois de “Corcovado” (”Um banquinho, um violão”&#8230;), expliquei ao pianista que a letra original não era essa. Era um cigarro, um violão, mas, a pedido de João Gilberto, Tom trocou o cigarro pelo banquinho (erudição de leitura de jornal).</p>
<p>Os músicos foram simpáticos, aceitaram bem o pequeno discurso fora de hora. A música continuou. Dada a nossa empolgação, a casa ofereceu uma rodada de uísque. Sim, baby, nós repórteres não aceitamos presentes. Mas àquela altura seria uma grosseria devolver a bebida.</p>
<p>E fomos ficando&#8230; Até o momento em que o pianista deu o concerto por encerrado. Muito bêbado, achou que era hora de se despedir.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Cuidado com os repórteres fotográficos</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 17:12:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
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		<description><![CDATA[Fotógrafos de jornal, ou repórteres fotográficos, ou foto-repórteres, são no geral ótimas companhias de viagem. Não só para a pauleira da cobertura, mas para os momentos amenos. Mas cuidado: são perigosos e estão armados. Certa vez, paramos numa churrascaria simplória, para tomar um refrigerante. Meu companheiro era (nada menos que) Reginaldo Manente. Resolvi aliviar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fotógrafos de jornal, ou repórteres fotográficos, ou foto-repórteres, são no geral ótimas companhias de viagem. Não só para a pauleira da cobertura, mas para os momentos amenos. Mas cuidado: são perigosos e estão armados.<span id="more-6136"></span></p>
<p>Certa vez, paramos numa churrascaria simplória, para tomar um refrigerante. Meu companheiro era (nada menos que) Reginaldo Manente. Resolvi aliviar a bexiga, como se dizia antigamente, e caminhei para o banheiro. O dono do lugar disse que o banheiro dos homens estava com problemas. Melhor eu usar o das mulheres, que ficava ao lado. Não tinha mulher por ali, explicou.</p>
<p>Entrei, usei, sai&#8230; quando piso fora do banheiro dou com o Manente me apontando a câmara. Foto! Não me lembro se essa foi fixada no mural da redação, como era hábito. O fato é que se vê a ilustre pessoa deste profissional saindo por uma porta sobre a qual estava escrito, grande, na parede: Senhoras.</p>
<p>O grande Rolando de Freitas era um perigo em potencial. Estava sempre pronto para uma gozação. Numa viagem pelo interior do País, dormimos numa casa/hotel que não tinha chuveiro. O banho era no quintal, de canequinha. Vi o sacana pelado fingindo que ia tomar o tal banho, mas com a câmara na mão. Reclamei, xinguei e tomei muito cuidado, porque, afinal, eu estava no banho. Assim mesmo o meu posterior foi mostrado em uma grande foto, esta sim fixada na redação.</p>
<p>Heitor Hui, autor de capas na revista Manchete da época de ouro, é um cavalheiro. Mas com sense of humor. Um dia viajamos para Joaquim da Barra, perto da divisa com Minas, atrás de uma mulher que havia escapado de um terremoto no Japão. Achamos a sobrevivente, entrevistei, e ela disse que tinha rezado muito para uma santa cujo nome me escapa.</p>
<p>Fomos então à igreja, porque, uma vez a salvo em sua cidade, a mulher rezava com frequência à frente da imagem da santa, para agradecer. Impunha-se uma foto da fiel com a santa.</p>
<p>Na igreja, a situação se complica. A imagem, não lembro por que, estava guardada. Pedi a uma senhora permissão para levar a santa para seu lugar, perto do altar. Era uma imagem grande, de mais de metro. Carreguei-a como pude e, solícito, a deixei com Heitor e a mulher.</p>
<p>Mais tarde, Heitor me mostrou a foto que fizera: um ladrão de imagens roubando uma santa grande em plena igreja. Quase fui parar novamente no mural da redação.</p>
<p>Com Edward Costa, já tinha vivido certas boas aventuras, como a do peixe com abobrinha roubada de uma plantação que ele preparou para nós, numa viagem de barco. Agora estávamos em Boiçucanga, a velha praia do litoral norte paulista.</p>
<p>Às tantas, cansado, sento num velho banco de madeira, de uma praça, e ponho-me a garatujar anotações no meu bloco. Não ouvi o cléc do disparo da máquina (o obturador de cortina das velhas Nikon operadas com filme fazia esse barulho).</p>
<p>Depois, Edward me mostrou o resultado. Fui fotografado bem embaixo de uma placa, que não tinha notado, com o nome do lugar: Praça da Mentira.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Um bom 2012. Se o ano não acabar</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Dec 2011 16:41:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[2012 é um ano interessante, para muitos místicos e videntes: tem fim do mundo. Crêem que no dia 21 de dezembro o sol nascerá alinhado com o centro da Via Láctea, coincidindo com o fim do calendário maia. Isso destruirá a Terra. Se não for assim, acredita outra corrente, um corpo celeste chamado Nibiru, ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>2012 é um ano interessante, para muitos místicos e videntes: tem fim do mundo. Crêem que no dia 21 de dezembro o sol nascerá alinhado com o centro da Via Láctea, coincidindo com o fim do calendário maia. Isso destruirá a Terra.<span id="more-6095"></span></p>
<p>Se não for assim, acredita outra corrente, um corpo celeste chamado Nibiru, ou Planeta X, se chocará (na mesma data), com nosso planeta. A Nasa, a agência espacial americana, se deu o trabalho de desmentir. Mas o frisson está no ar.</p>
<p>Outra previsão, esta sem desmentido: o Corinthians será o campeão paulista de 2012. O autor desta profecia se assina ZYON3000, em página da web. Prevê, em compensação, que o Palmeiras vencerá o Campeonato Brasileiro.</p>
<p>Ficaria mesmo bom para os times paulistanos, se a previsão de Mãe Dinah, vidente famosa, se concretizasse: o São Paulo vencerá a Libertadores, embora eliminando o Corinthians. Isso não vai acontecer, pois o time do Morumbi está fora do torneio. Mas tem que se dar um desconto: Mãe Dinah entende de sua arte, não de futebol.</p>
<p>Na política, outro conhecido vidente, José Acleíldo, tem uma boa notícia para a presidente Dilma Rousseff. “Dilma terá muita vantagem, já que o 2012 será comandado por, entre outros signos, Sagitário, o mesmo da presidente”, disse em seu site (abaixo, como será o ano dos sagitarianos).</p>
<p>E Lula? Os búzios, a numerologia, as runas (baseadas em pedras) prevêem melhora de saúde. Mas o tarólogo (joga as cartas) Maurício Mantelli é mais otimista. Diz que Lula vai voltar à política com muita força. “Estará tão bem, que vai tentar a presidência novamente.” Lula para presidente, quem diria&#8230;</p>
<p>No embalo do otimismo, vai também José Acleíldo. O Brasil virou vitrine do mundo. Em 2012 será o berço da conciliação mundial e do diálogo. O Rio de Janeiro, por sua vez, sofrerá “limpeza profunda”. “Poderemos atravessar aquela cidade com nossos anéis e relógios, sem sermos molestados.”</p>
<p>Não fala em limpeza em Brasília, onde mora. E prevê que, apesar das acusações de malfeitos, o governador Agnelo Queiroz conseguirá “concluir seu destino político”.</p>
<p>Em outra área, a artística, uma espécie de obituário premonitório frequenta blogs e sites. Mas a informação desejada – quem vai morrer em 2012 – não é confirmada por búzios, cartas de tarô, números, mapa astral, guias de pais e mães de santo.</p>
<p>Em um deles: “Famosa apresentadora da TV brasileira deve falecer em 2012”. Podia-se talar também em famoso cantor. A aposta na morte de Hebe Camargo e Roberto Carlos vem de pelo menos 2008, e no entanto eles continuam sãos e lampeiros.</p>
<p>Os dois estão em uma lista de 12 nomes, ao lado de Sílvio Santos, Sean Connery, Michael Douglas e Roger Moore. Antes dos nomes, há uma advertência: “Essa lista não afirma quais artistas morrem em 2012, apenas mostra os que devem cuidar melhor da saúde.” Toc, toc, toc (três pancadas na madeira).</p>
<p>Na área ambiental, no drama do aquecimento global, o Brasil não vai mal, a se confirmarem as premonições de Juscelino Nóbrega da Luz, premonitor. Num vislumbre de 31 anos, até 2043, enumera os países que mais sofrerão com o fenômeno.</p>
<p>Holanda em primeiro lugar. Japão em quinto. Estados Unidos em sétimo. No fim da lista o Egito, 70% do continente africano, Rússia, China e, no 52º lugar &#8211; o topo -, o menos prejudicado, o Brasil. Apesar disso, Juscelino alerta para tempestades em vários Estados e aconselha: “Proteja sua família, pois os ventos ficarão muito piores a partir do ano que vem.”</p>
<p>O astrólogo Guilherme Salviano, há 23 anos vergado sobre o mapa asstral, tem uma informação que traz grande alívio: o mundo não vai acabar em dezembro de 2012. “Assim como em 2011, 2000, 1999, 1988, e em outras diversas vezes, em que alguns provavelmente ouviram algo a respeito, o novo fim do mundo marcado para 2012 certamente passará batido”, escreve em seu site.</p>
<p>Tudo não passa de uma confusão criada pelo fim do calendário maia, de 5126 anos. “É como se a conta de dias do calendário começasse em 3114 antes de Cristo e se encerrasse no final de 2012”. Neste período, ocorrerá apenas o final do calendário. “Se isso fosse o fim do mundo, o mundo acabaria todo 31 de dezembro.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Os sagitarianos</strong></p>
<p>A presidente Dilma Rousseff estará muito bem em 2012, porque é de Sagitário. E esse será um dos signos que comandará o ano, como revela o vidente José Acleíldo.</p>
<p>A astróloga Andréia Modesto traçou o horóscopo de Sagitário para 2012. Alguns trechos:</p>
<p>“É antes de tudo um signo de autoridade, um signo masculino de concentração e poder. Não raro é franco demais ou economiza palavras, falando pouco e tendo pouco interesse em se expor.”</p>
<p>“Nos últimos tempos, Sagitário aprendeu muito sobre relacionamentos. É um signo de temperamento forte e refletiu bastante sobre quando se doa e quando se pode receber nas relações.”</p>
<p>“É possível que encontre espaço para (&#8230;) vencer desafios, sobretudo no primeiro semestre de 2012, considerando que muitas das posições planetárias já marcaram o ano de 2011.”</p>
<p>“Se existirem gastos excessivos no primeiro semestre, poderá ter que apertar o cinto depois de agosto.”</p>
<p>“Cuidados com a saúde, porque pode ganhar peso, pular de um manequim para outro, e o fígado sofrer com isto também.”</p>
<p>Em suas previsões, José Acleíldo descobriu que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, tentará impressionar Dilma para uma possível formação de chapa à vice-Presidência.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada do </em>Diário do Comércio<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Atolados na Transamazônica</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 17:43:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Sim, lá estava o grandioso Tocantins, com a ponte por onde passa o trem de Carajás. E, formando um Y, seu belo afluente, o Itacaiúnas. Com tanta beleza, por que essa cidade do sul do Pará – Marabá – tinha um apelido tão marcante – Marabala? A violência era tal que os pistoleiros andavam à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sim, lá estava o grandioso Tocantins, com a ponte por onde passa o trem de Carajás. E, formando um Y, seu belo afluente, o Itacaiúnas. Com tanta beleza, por que essa cidade do sul do Pará – Marabá – tinha um apelido tão marcante – Marabala?<span id="more-5838"></span></p>
<p>A violência era tal que os pistoleiros andavam à vontade pela cidade. Isso foi até que a autoridade considerada “o juiz mais macho do Pará’ &#8211; a juíza Marta Antunes Lima – começou a limpar o lugar. Ela já havia deixado sua marca (e sobrevivido a quatro atentados a bala) em Altamira, a 500 quilômetros. Foi por aqueles dias que Paulo César Bravos e eu desembarcamos no aeroporto de Marabá. Nosso propósito, no entanto, não era falar de pistoleiros e xerifes. Mas encarar uma aventura.</p>
<p>Tínhamos a pretensão de viajar pela Transamazônica, a estrada inaugurada em 1972 pelos militares para promover a ocupação do Norte. Deveria unir o Piauí ao Amazonas – mas, dizia-se, ligava o nada a lugar nenhum. Por ela queríamos ir de Marabá a Altamira – ou até onde desse.</p>
<p>Paulinho era um mestre das lentes, grande repórter fotográfico. Produziu um belo material para a revista Afinal, onde trabalhávamos. Mas me aprontou uma&#8230;</p>
<p>Em Marabá uma Belina nos esperava. A perua da Ford estava na moda, naquele ano, 1986. O importante para nós é que, se não era um jipe, pelo menos tinha tração nas quatro rodas.</p>
<p>A Amazônia só tem duas estações: seis meses de verão, seco; outro tanto de inverno, com chuvas abundantes. A estrada que íamos percorrer era precária, de terra, mal-afamada, com atoleiros capazes de reter vários caminhões. Um dos mais famosos, o Buraco da Aparecida, tinha metro e meio de fundo por quinhentos de comprimento (Aparecida era uma mulher que instalara uma vendinha, para atender os encalhados). Felizmente estava em outro trecho. E nós, todo animados, em pleno inverno, em um carro de passeio.</p>
<p>O asfalto chegara à Marabá um ano antes. Com isso, o trecho da Transamazônica que cortava a cidade tinha o benefício. Em uma manhã, deixamos o hotel, carregamos a Belina, e embarcamos. Seguimos até o fim do asfalto, fronteira com a realidade de terra. Bem ali, havia um buraco no qual, escrevi, “poderiam boiar uma dúzia de vitórias-régias”.</p>
<p>Presságio, aviso? Ignoramos. Puxei uma garrafa de uísque, e demos um gole pelo sucesso da empreitada. Partimos. Viajamos até bem pelos primeiros 40 quilômetros. Depois foi na base do Deus ajuda. A tração nas quatro rodas nos salvou nos primeiros atoleiros. Atolamos em outro, um pessoal nos ajudou a desencalhar. Seguimos em frente, vai que vai.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir3.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5842" title="zzvaldir3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir3-300x153.jpg" alt="" width="300" height="153" /></a>Teríamos rodado uns 90 quilômetros, quando chegamos ao acampamento de uma empreiteira. Um grande plástico preto, sustentado por estacas, oferecia teto a uma dúzia de homens. Esses peões e operadores de máquinas eram vítimas de um jogo de desmancha-prazeres. A duras penas arrumavam minimamente um trecho da estrada; vinha a chuva e desarrumava.</p>
<p>Ficamos com dó daquela gente, isolada em instalações tão precárias. Redes para dormir, um prato e uma colher para o boião (a comida), banheiro nem pensar. O chefe do acampamento era o Chaparral, que dispensava a colher – comia com as mãos. Ele e outros que ali estavam nos aconselharam a não prosseguir. Mas nós, repórteres, pessoas determinadas, especiais, nos safamos daquele lugar horrível. Demos adeus e seguimos em frente. Quatro quilômetros depois atolamos em um aterro que parecia uma montanha de lama.</p>
<p>Em pouco tempo surgiu um cortador de banana disposto a nos ajudar. Tinha um facão e estava bêbado. Depois, apresentou-se um lavrador com sua enxada. O trabalho deste homem nos deu esperança. Liguei o carro, acionei a tração, acelerei e&#8230; The End. A fricção, peça da embreagem, quebrou.</p>
<p>Passado algum tempo, Paulinho pôs o pé na estrada, com uma missão. Voltaria quatro quilômetros até o acampamento, para pedir socorro a Chaparral. Na boca da noite, voltou com uma promessa um pouco vaga de ajuda no dia seguinte, se não chovesse.</p>
<p>O trecho onde estávamos margeava a reserva dos índios paracanãs. O lavrador nos tranquilizara: não mexiam com brancos, a não ser que tentassem entrar na reserva. Juro que não tentamos. Ao anoitecer, a mata se encheu de sons. O mais impressionante eram rugidos que pareciam de onças alucinadas, mas vinham dos macacos guaribas. Jantamos dentro do carro, no melhor estilo náufrago. Roupas molhadas e enlameadas, sardinhas em conserva e biscoitos.</p>
<p>Na manhã seguinte encarei os quatro quilômetros. Chaparral disse que o único jeito seria rebocar a Belina com uma motoniveladora. Mas o pneu da máquina estava furado. E os humores do inverno amazônico presentes. Caía tremendo aguaceiro, e parava. O céu limpava, vinha a bonança, o sol surgia quente. O pessoal do acampamento estendia roupa lavada sobre o pára-brisa dos veículos. Secava em minutos. Logo, no entanto, o tempo fechava e lá vinha água.</p>
<p>Andei os quatro quilômetros de volta para a Belina. Encontro Paulinho dentro do carro, com ares de bem-estar. Não estava mais enlameado, como eu o deixara. Mostrava roupa limpa e asseio. Todo animado, contou que havia tomado um belo banho de chuva.</p>
<p>Abri o porta-malas e procurei a garrafa de água mineral. Havíamos subestimado a situação. Aquela era a última garrafa. Procuro e procuro, na bagunça de roupas e bagagens, e não acho. Pergunto a Paulo:</p>
<p>- Meu, quede a garrafa de água?</p>
<p>Ele, firme:</p>
<p>- Estamos sem, acabou.</p>
<p>Eu tinha certeza de que ainda havia uma garrafa. Estava intacta, quando saí para o acampamento. Aperto o amigo, ele tergiversa, mas acaba por confessar:</p>
<p>- Lavei os pés.</p>
<p>A vida no acampamento da empreiteira até que não era mal. Os 12 homens e suas máquinas ficavam parados por longos dias, à espera de condições para operar. Contavam histórias, as proezas que faziam com suas máquinas a diesel. “Somos bons nisso”, diziam. Chaparral incentivava: “Fumaçou, aquele ali dirige até cachimbo”. Dormi na minha rede garimpeira (de nylon, pequeno volume fechada). Como os outros, e como Paulinho, tomei banho na água de uma mina e comi o boião com a colher. Tinha a promessa de Chaparral de que no dia seguinte, se não caísse toró, iria resgatar a Belina.</p>
<p>Às seis da manhã, com o pneu consertado, o chefe do acampamento pulou para o banco da motoniveladora e deu a partida. No lamaçal, manobramos o carro “na mão” e o prendemos à máquina com uma corda. Chaparral precisou de muita habilidade para a volta. Eles eram bons mesmo. Mal chegamos ao acampamento, a tempestade despencou.</p>
<p>À tarde, surgiu um caminhão da sede da empreiteira. Foi na carroçaria dele, com chuva no lombo, que conseguimos voltar até um ponto a uns 20 quilômetros de Marabá. E agora? Lá vinha uma velha caminhonete, carregada de bananas. Estendemos o polegar. O carregamento incluiu dois sujeitos mal ajambrados em cima das bananas. Foi assim que chegamos a Marabá e ao singelo porém maravilhoso hotel com chuveiro quente.</p>
<p>A concessionária que cedera a Belina incumbiu-se de buscá-la quando desse. Nos ofereceu agora uma picape com tração nas quatro rodas. Com ela chegamos, por uma variante, a Tucuruí, onde está a hidrelétrica. E a um lugar chamado Repartimento. Mas essa é outra história.</p>
<p>A delegada Marta Lima e a hidrelétrica foram mostradas em dois boxes.</p>
<blockquote><p><em>Novembro de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Em um site, o mar sem fim</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/em-um-site-o-mar-sem-fim/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 16:34:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aviso aos navegantes da web. Tempo bom e vento a favor para quem estiver disposto a viajar pelos quase 7.500 quilômetros da costa brasileira, descobrir sua dramática realidade, sua beleza, riqueza cultural, tradições. A partir de hoje, um clique em http://www.marsemfim.com.br/ oferecerá ao navegante 45 horas de documentários, cerca de 4 mil fotos, mapas, dezenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aviso aos navegantes da web. Tempo bom e vento a favor para quem estiver disposto a viajar pelos quase 7.500 quilômetros da costa brasileira, descobrir sua dramática realidade, sua beleza, riqueza cultural, tradições.<span id="more-5780"></span></p>
<p>A partir de hoje, um clique em <a href="http://www.marsemfim.com.br/">http://www.marsemfim.com.br/</a> oferecerá ao navegante 45 horas de documentários, cerca de 4 mil fotos, mapas, dezenas de entrevistas com professores universitários, ambientalistas, técnicos do governo, e gente simples e sofrida, os nativos.</p>
<p>O navegante ainda pode escolher outro destino, a Antártica. Esta expedição, que o levará à Ilha Rei George, onde está a base brasileira, resultou em cinco horas de documentários.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar41.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-5785" title="zzmar4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar41.jpg" alt="" width="700" height="464" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O criador do site e autor de todo o material é João Lara Mesquita, da família proprietária do jornal <em>O Estado de S. Paulo</em>. Apaixonado pelo mar desde criança, esse foi seu caminho natural quando deixou o comando da Rádio Eldorado de São Paulo, em 2003.</p>
<p>Capitão amador, transformou-se em um minucioso explorador e documentarista. Em uma viagem de dois anos (2005 a 2007) palmilhou a nossa costa. Partiu da foz do Rio Oiapoque, no Amapá, e chegou a Rio Grande, no sul do Rio Grande do Sul.</p>
<p>Durante a viagem, mandava para a TV Cultura episódios do documentário que ia produzindo, o <em>Mar Sem Fim</em>. Foram 90 episódios de meia hora, que somaram 45 horas.</p>
<p>“Afirmo sem medo de errar: este é um dos mais completos sites privados em conteúdo sobre o mar e a zona costeira”, diz João.</p>
<p>A programação para o ano que vem já está pronta. Ainda no primeiro semestre aproa o barco para o Norte. Vai refazer a viagem pela costa, desta vez no sentido contrário, de Rio Grande para o Amapá. A viagem estará no site e na TV Cultura.</p>
<p><em>Mar Sem Fim</em> não é apenas o nome do documentário já produzido e desse por fazer. Nem só o deste site. Foi o nome do veleiro usado na primeira viagem; e é o do barco atualmente em uso.</p>
<p>João é entusiasta da vela, mas a expansão de seus projetos obrigou-o a trocar seu veleiro por um troller. É uma traineira, um barco de pesca grande, robusto, de grande autonomia, que os americanos adaptaram para embarcação de cruzeiro. O de João tem 20 metros, três cabines e leva até seis pessoas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-5786" title="zzmar2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzmar2.jpg" alt="" width="276" height="183" /></a>O barco é um dos personagens na viagem à Antártica. A expedição resultou também em uma caixa com três DVDs, que estão sendo lançados agora: <em>Mar Sem Fim/ Viagem à Antártica</em> (veja em <a href="http://www.marsemfim.com.br/livros-dvds">Livros/DVDs no site</a>).</p>
<p>João criou um site de apoio durante a viagem de dois anos pela costa. Queria mostrar o que não cabia nos episódios da televisão. “Fazia uma entrevista de duas horas com um especialista, e tinha que escolher um minuto para pôr no ar.” Na viagem à Antártica, abriu “mais um pedaço no site”. Depois, incorporou um blog. ”Ficou confuso, feio, difícil de navegar”.</p>
<p>Precisava de um site novo, para colocar todo o conteúdo que acabou juntando (tem 25 mil a 30 mil fotos). Uma amiga o ajudou na criação do site. Abriu nele um banco de imagens, que podem ser compradas (há boa procura) por publicações. Mas basicamente está à disposição de estudantes e pesquisadores da costa brasileira.</p>
<p>O www.marsemfim.com.br é, por assim dizer, um site com trilha sonora. Basta clicar em Música p/ Navegar, e escolher uma das seleções. A música acompanhará a navegação pelo site. Nisto entrou a formação de João, que estudou música e foi programador de rádio (a Eldorado).</p>
<p>A página inicial do site poderia ser a foto de um belo recanto do litoral. Mas João buscou algo diferenciado. Assim, ao abrir a página, o navegante se depara com a foto da tela de um radar, que domina todo o espaço. O radar é o do barco de João.</p>
<p>Faz sua varredura, ao mesmo tempo em que soa o código morse: três toques curtos, três longos, três curtos. Ou seja, SOS, o pedido internacional de socorro. “É um recado subliminar”, explica João. “O pedido de socorro dos nossos mares.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“Tem que ocupar. Uma ocupação bem feita, ordenada, com regras”</strong></p>
<p>Na entrevista exclusiva abaixo, João Lara Mesquita conta como se transformou num especialista da costa brasileira entrevistando mestres, e depois se deslocando aos lugares para ver tudo com seus próprios olhos. A situação dramática que testemunhou também está relatada aqui.</p>
<p>“Eu sempre gostei de mar. Tive sorte de ter pai que gostava de pescar e desde o final dos anos sessenta (aos doze anos) comecei a sair de barco com ele. Eu nunca gostei daquele programa, eu sentia uma atração e repulsa ao mesmo tempo. Porque meu pai é pescador, é obcecado, fanático. Pescava doze horas por dia e eu achava aquilo um horror, chatíssimo, enjoava. Mas eu gostava do ambiente, gostava do mar. Quando ele parava de pescar eu dizia, que delícia, que espetáculo, que paisagens.</p>
<p>Durante os anos setenta, tive o privilégio de assistir as costas entre Rio de Janeiro e São Paulo desocupadas. Era antes da BR-101. Nós chegávamos a passar quinze a vinte dias em Angra dos Reis sem ver vivalma. E depois abriu a estrada, que não tinha um plano de ocupação, de zoneamento. Em três, quatro anos, detonaram o litoral. Se não tem regra de ocupação é o Deus dará.</p>
<p>Eu não sou xiita, como alguns ecologistas que dizem ‘não pode ocupar’. Tem que ocupar. Tem que fazer girar a economia, tentar fazer com que a vida desse pessoal que está na costa melhore. Agora, você pode fazer uma ocupação bem feita, ordenada, com regras. E você mantém aquela beleza para o resto da vida.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Frágil, sob pressão</strong></p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzjoão.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5787" title="zzjoão" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzjoão-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>“O saneamento básico no Brasil é uma piada. Ninguém quer fazer porque custa muito caro, é uma obra demorada, ninguém vê e não dá voto. No Brasil só 20% só do nosso coco e xixi recebem algum tipo de tratamento. E isso tudo se reflete no litoral. Nós temos uma densidade muito mais alta no litoral que no interior, dezessete metrópoles brasileiras estão na costa. Esse lugar onde existe uma tremenda pressão humana, uma pressão gigantesca de ocupação, é um lugar fragilíssimo. Como dizem os especialistas, é uma zona de encontro entre o mar e o continente, assolada por ventos, por maré, por ressaca, há uma série de forças naturais que maltratam essa faixa de zona de transição.</p>
<p>E nós adoramos o mar, a praia, vamos viajar e se constroem casas, fazem condomínios, hotéis, em lugares onde não pode. Tudo isso, mais os esgotos mal tratados, está contribuindo para a gente detonar a vida dos oceanos. E se a costa brasileira já não tinha estrutura , hoje, com a redução da pobreza, há 31 milhões de pessoas a mais.</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Aulas antes do embarque</strong></p>
<p>“Quase todos os professores que entrevistei diziam: o poder público não nos ouve, não nos chama’. Ou seja, quando vão fazer uma obra preferem chamar uma ONG, um guru qualquer. Não vão à faculdade, onde estão os brasileiros pagos com dinheiro público. O professor fica a vida inteira estudando o mangue, a duna, sabe tudo daquilo, e não é chamado.</p>
<p>Na série do Mar Sem Fim, era estratégia nossa antes de começar qualquer Estado ver o que ele tem. Praia, costão, serra. Então íamos procurar os especialistas nisso para eles explicarem. Eu virei um expert. Com cada um desses eram duas horas, duas horas e meia. Depois, a gente fazia as perguntas e gravava. E a seguir eu entrevistava ambientalistas, procurava as ONGs, em cada Estado. Por fim, buscava a secretaria estadual ou municipal do Meio Ambiente.</p>
<p>Só depois a gente pegava o barco e fazia a costa. Então, eu fui aprendendo coisas do arco da velha. Geologia, biologia marinha, e aí ficava ainda mais grosseiro quando a gente via as barbaridades cometidas pela costa.</p>
<p>Os professores ficaram fãzíssimos da série Mar Sem Fim, porque eu fui, modéstia à parte, um dos primeiros jornalistas a ouvi-los e dar espaço para eles. Como eu vinha fazendo a costa do Amapá para baixo, quando cheguei no Paraná, por exemplo, estavam todos esperando pela gente, no campus de Paranaguá (no litoral).</p>
<p>Eu entrevistava hoje, semana que vem estava no ar. Então eles começaram a assistir aos programas, esperando a vez deles. Foi assim ao longo de toda a costa brasileira.”</p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Brasileiros ao Deus dará</strong></p>
<p>“Eu fiz questão de conversar com os nativos também, conhece-los. Eu considero esses brasileiros os mais deixados ao Deus dará entre todos. Porque eles não são unidos. As populações nativas não são unidas em lugar nenhum do mundo. Até pela dificuldade. Alguns pescadores, um pouco mais evoluídos, semi-profissionais, começam a tentar se unir para defender alguma coisa.</p>
<p>Em São Paulo, o Estado mais rico da nação, você vai para Ilha Bela (litoral norte), e vê o lado do Canal de São Sebastião: um primeiro mundo. Você sobe no carro e vai até Castelhanos, está praticamente na idade da pedra. Um morro e uma estrada de trinta quilômetros separam o cara do inferno e do céu.</p>
<p>Se em São Paulo você vê casos assim, imagine no Maranhão. Vi as casas da Ilha Cajual, de pau a pique, uma miséria absoluta, você entra é tão limpa ou mais limpa do que a minha. Chão de terra, mas você não vê uma folha fora do lugar. Eles se ressentem da ausência do Estado.</p>
<p>Um dia nós chegamos na ilha de Santana, no sul do Maranhão, e estava um pescador desesperado. Ele tinha dado em cima de um cardume de xaréu, tinha chapado o barco, e aquilo tudo apodreceu porque não tinha como escoar. Eles vivem com tão pouco, que se ele conseguisse transformar aquilo em dinheiro vivia dois três anos sossegadamente.</p>
<p>Só que não conseguiu, porque o governo fica fazendo essas coisas de demagogia que o Lula quer fazer, reforma aquária e não sei o quê. Bastava dar um mínimo de condições para esse pessoal espalhado ao longo da costa escoar a produção. Um geradorzinho com um freezer, por exemplo, uma merreca. Dava isso, o cara pescava o peixe dele, congelava, podia esperar um dia bom, pôr aquilo no barquinho e vender no centro mais próximo.</p>
<p>Eu ia falar com os professores e eles cansavam de me dar teses, tem aí duzentas teses que eles fizeram tentando subsidiar políticas públicas, seja para melhorar a vida do caiçara, seja para não ocupar duna. Está tudo espalhado por aí. Tinha os estudos, mas o Poder Público não chegou lá para conhecer.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Com a TV, dramas reais</strong></p>
<p>“Na Ilha do Mel, quando nós estivemos lá, em 2006, a luz elétrica tinha chegado fazia um ano. Até então, ninguém via televisão, não tinham vontade de consumir. Com a televisão surgiram os dramas. Os filhos abandonaram a profissão, não querem mais saber de virar pescador. Querem ir para a cidade consumir, ter o tênis bacana, e não têm dinheiro. Então começa o tráfico de droga, entrar para a bebida de uma forma violenta, porque o cara quer tudo aquilo que a televisão leva para ele e ele não vê possibilidade.</p>
<p>Numa dessas, um sujeito lá, que não tinha um dente na boca, tenho o depoimento dele, contou que um caiçara trocou a casa dele por uma garrafa de cachaça. Isso você vê acontecer ao lado da costa, não é de agora. Desde o tempo em que eu era garoto, eu via caiçara vender a casa por um maço de dinheiro deste tamanho em nota de um. Achava que estava rico e dava a posse.”</p>
<p style="text-align: center;"><strong> Mansão na areia</strong></p>
<p>“Aqui em São Paulo tem gente que vai para o litoral, compra a casa do sujeito para ter a posse, depois derruba a casa e faz aquela grande mansão em estilo neo-clássico, que destrói a beleza cênica. Constrói no meio da areia, muitas delas eu tenho fotos. A casa mal pronta, já está cheia de muro de arrimo para a ressaca não levar embora.</p>
<p>A praia é móvel, é o que os professores, os cientistas falam. Existe um equilíbrio dinâmico, e a hora em que você tenta parar esse equilíbrio, você arruína o negócio. Porque é para ser dinâmico. A foz de um rio um ano está aqui, outro ano está lá. Isso varia em função da ressaca, do vento, da coisa toda. A areia é móvel. Não pode tentar segurar. E toda vez que você tenta fazer isso gera erosão, gera desastres homéricos, um desastre em cadeia. Uma coisinha aqui, vai redundar lá na frente.”</p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Brasil que ninguém vê</strong></p>
<p>“O que eu mostrei no documentário, e está no site, é um Brasil que não se conhece. É preciso ir aos lugares para ver. Lugares que não atraem muita atenção da mídia. Esse Brasil continua lá atuando, sofrendo, maravilhoso, bonito, rico em cultura, em tradição oral, em festas tradicionais, e muito pouca gente vê, dá pelota para isso.</p>
<p>É por isso que eu fico mais apaixonado pelo meu trabalho. Eu vejo que por mais que eu possa fazer, e tentar ajudar para contribuir, é muito pouco. Tem muito a ser feito ainda. Isso para mim é maravilhoso, mostra que eu posso me dedicar a vida inteira a esse assunto, que ele é inesgotável.</p>
<p>Além de tudo eu amo isso, eu adoro as duas coisas: eu adoro ter uma bandeira para defender, eu adoro ter um assunto que me obrigue a estudar, eu adoro estar no mar. Então isso tudo&#8230; minha profissão acabou sendo jornalismo, então eu falei caramba, o prato do dia está aqui, é eu transformar isso no que eu sei fazer, e procurar divulgar, e não vai acabar nunca. Tem outros enfoques, tem outras coisas, por mais que eu faça eu não vou conseguir esgotar esse assunto jamais.”</p>
<blockquote><p> <em>Esta reportagem e a entrevista foram originalmente publicados no </em><a href="http://www.dcomercio.com.br/">Diário do Comércio</a><em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Na Amazônia, ao natural</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Nov 2011 15:19:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Programa de índio, na Amazônia, é você viver como um deles, nem que seja por alguns minutos. A sensação gostosa de se integrar à Natureza de um jeito inteiramente natural, ou seja, nu. Sinto não poder descrever o que estava fazendo na Amazônia, quem era o meu companheiro das lentes (o fotógrafo), em que ano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Programa de índio, na Amazônia, é você viver como um deles, nem que seja por alguns minutos. A sensação gostosa de se integrar à Natureza de um jeito inteiramente natural, ou seja, nu.<span id="more-5694"></span></p>
<p>Sinto não poder descrever o que estava fazendo na Amazônia, quem era o meu companheiro das lentes (o fotógrafo), em que ano estávamos. Não lembro mais. Mas recordo que voávamos em um gracioso Skylander, um aviãozinho monomotor bom de pouso em pista de terra.</p>
<p>Foi assim que descemos em um povoado, às margens do Teles Pires. Ver um riozão desses vale a viagem. Ele corre pelo Mato Grosso, para o Norte; lá em cima, forma com outros dois rios o Bico de Papagaio, divisa desse Estado com Pará e Amazonas.</p>
<p>O comandante, como se deve chamar o piloto, ficou no lugarejo com o avião. O colega e eu alugamos um barco e zarpamos. O destino era uma ilha do Teles Pires. Ali, alguns dos Mesquitas, nossos patrões no Jornal da Tarde, costumavam passar alguns dias no lazer da pescaria.</p>
<p>Chegamos ao entardecer. Fiquei surpreso ao ver onde nos hospedaríamos. Uma espécie de palacete de pau a pique, coberto por palha. O rústico confortável.</p>
<p>O responsável pelo lugar nos esperava (seguramente havíamos avisado sobre nossa ida por rádio). Era um homem amável, e pareceu contente por nos ver. Descemos as malas, e demos uma olhada pelo lugar.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir11.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-5703" title="zzvaldir1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/11/zzvaldir11.jpg" alt="" width="740" height="572" /></a>Então, o bravo profissional que vos escreve teve a idéia, por sinal um pouco óbvia. Aquela proximidade de noite, tanto calor&#8230; Que tal um banho de rio? Siiimm. E por que não, só nós e a natureza, pelados? Claaarooo.</p>
<p>A água estava uma delícia. Em terra, nosso anfitrião deixou um empregado, um rapaz, nos observando. E lá ficamos, desfrutando a sensação única da vida “selvagem”&#8230; Momentos raros (viagens são boas, cheias de aventura, mas de muito trabalho).</p>
<p>Foi quase por acaso que uma idéia varou minha mente. Olhei para o fotógrafo, nenhuma preocupação. Gritei para o funcionário à margem:</p>
<p>- Companheiro, este rio tem jacaré?</p>
<p>E ele, em tom tranquilizador:</p>
<p>- Não, não&#8230; Só o de papo amarelo.</p>
<p>Rápida debandada. Quem está interessado em cor de papo? A salvo, na margem, o rapaz nos explicou que o de papo amarelo não costumava atacar. Pior era o peixinho tal (disse o nome), minúsculo, que entrava no canal da uretra. Felizmente, desse também escapamos.</p>
<p>Logo anoiteceu. Eu estava no banho, quando ouvi alegres exclamações. Alguma coisa encantava meu companheiro.</p>
<p>Vesti uma tanga&#8230; Não, a cota de vida selvagem terminara. Bermuda e camisa. O clima festivo vinha da cozinha. Entrei e vi o peixão nas mãos do amável homem.</p>
<p>Era um pintado grande, acabara de ser pescado. Com nossa chegada, um pescador (talvez o da casa) pulara para o barco com a missão de providenciar o jantar. E pescara o baita.</p>
<p>Acresce que o nosso anfitrião era cozinheiro de mão cheia. Tivemos um jantar delicioso. Peixe tirado da água tem outro gosto (e o homem realmente manejava bem o fogão). O Teles Pires é rio muito piscoso, mas nem sempre, nos informou o bom homem, a pescaria dá certo. Por garantia, matara uma ou duas galinhas, deixadas de lado. A sorte estava mesmo do nosso lado.</p>
<p>O dia seguinte era domingo. Nosso anfitrião insistiu em que ficássemos para uma pescaria. Mas tínhamos muito o que fazer. Algum tempo depois, o Skylander decolou para outro destino&#8230;</p>
<blockquote><p><em><strong></strong><strong>A charge é de Oswaldo Gil</strong></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Twitters de quem não tuíta</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Oct 2011 15:46:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Jus sperneandi]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Amigos, eis algumas idéias que me ocorreram. Bate-boca em Brasília sobre o horário de verão. Protestam os que agem na calada da noite. Aplaudem os que agem à luz do dia.  *** Se gritar pega ladrão&#8230; Não dá, não sobrou quem grite.   *** No Brasil, a primeira instância faz justiça, e as demais desfazem.   *** [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Amigos, eis algumas idéias que me ocorreram.</p>
<p>Bate-boca em Brasília sobre o horário de verão. Protestam os que agem na calada da noite. Aplaudem os que agem à luz do dia.<span id="more-5573"></span></p>
<p style="text-align: center;"> <strong>***</strong></p>
<p>Se gritar pega ladrão&#8230; Não dá, não sobrou quem grite.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>No Brasil, a primeira instância faz justiça, e as demais desfazem.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Certos políticos do País não morrem, escapam para sempre.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Finalmente Orlando Silva foi cantar em outra freguesia.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Orlando Silva é pessoa prática. Se auto defendeu, auto julgou, auto absolveu, não precisou de procurador nem de juiz. Até pediu à <em>Veja</em> direito de resposta. Maluf não tem dinheiro no Exterior. Aí o teflon falhou&#8230;</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Aldo way, isto é, Rebelo, é a pessoa certa para cuidar de futebol e da Copa. Você põe um calção de jogador dos anos 1930 e um boné, ele fica o goalkeeper, o guarda-redes, perfeito.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Depois de todo esse bafafá para construir os estádios, ainda vamos ter que ganhar a Copa?</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Itaquera, Pedra Dormente. Não sei não&#8230;</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Idoso pobre ao se deitar em cama guarnecida por lençol do lixo hospitalar americano: “Ah, então é assim a gente ficar em uma cama de hospital”.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>A importação desse lixo deve ser rigorosamente investigada. Para os envolvidos, nada a temer. Dificilmente ficarão em maus lençóis.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>Assembléia do Maranhão estatiza a Fundação José Sarney &#8211; despesas serão pagas pelo governo. Projeto de Roseana Sarney, em regime de urgência, votado em uma semana. Sorte do Maranhão não ter outras urgências.</p>
<p style="text-align: center;">  <strong>***</strong></p>
<p>São Luiz (o santo) que se cuide. Próximo passo é tentar a canonização e mudar o nome da capital para São José Sarney.</p>
<blockquote><p><em>Outubro de 2011.</em></p>
<p><em>Nota do administrador: Valdir Sanches não tuíta. Uma pena.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A bermuda folgazã</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-bermuda-folgaza/</link>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 03:11:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O relacionamento dos casais na velhice não é coisa fácil. As mulheres implicam muito com os maridos. Vejam meu caso (fatos reais). Sentamos para nossa happy hour e abro a conversa com assunto deveras interessante: - Preciso de uma bermuda nova, a minha me aperta todo. Cintura, as partes. Mas não sei como fazer. Ela: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O relacionamento dos casais na velhice não é coisa fácil. As mulheres implicam muito com os maridos. Vejam meu caso (fatos reais).<span id="more-5538"></span></p>
<p>Sentamos para nossa happy hour e abro a conversa com assunto deveras interessante:</p>
<p>- Preciso de uma bermuda nova, a minha me aperta todo. Cintura, as partes. Mas não sei como fazer.</p>
<p>Ela:</p>
<p>- Vai na loja e compra.</p>
<p>Bem, pondero, vai ser difícil.</p>
<p>- Chego na loja e digo para a moça que quero uma bermuda folgazã. Ela não vai entender.</p>
<p>- Você diz folgada.</p>
<p>- Não é a mesma coisa, quero folgazã.</p>
<p>Na mesinha de centro está o tira-gosto. Berinjela em pedacinhos, sobra da festa de uma amiga. Examino.</p>
<p>- Quanto tempo de geladeira tem isto? Está com cara de podre.</p>
<p>- Podre? Como podre? Está ótima.</p>
<p>Experimento, não está mau.</p>
<p>- Vou comer, no mínimo resolve o meu problema de intestino preso.</p>
<p>Ela se irrita.</p>
<p>- De novo essa historia? Você tem sempre a mesma gracinha, essas coisas escatológicas. Podia parar com isso.</p>
<p>- Como, você está me censurando? – reajo, afetando indignação. &#8211; Vou te apresentar à Iriny Lopes, aquela ministra que censurou o comercial da Gisele. Vocês fariam um bom par.</p>
<p>Nisso, me lembro da Folha. Remexo os jornais sobre a mesa e pego a Ilustrada. Foto do Chico, com grande título:</p>
<p>AFASTE DE MIM ESSE CÁLE-SE. Abro o jornal e saio em passeata pela sala, levantando o improvisado cartaz de protesto.</p>
<p>Tenho platéia. A filha e a cunhada dividem o sofá. Platéia hostil ao protesto. Volto ao sofá, triunfante. Elas não dão a mínima. Minha filha foi ao comércio ver mobiliário para o novo apartamento. Conversa para duas horas. Gostou de algum supérfluo que não entendi bem e custa R$ 900.</p>
<p>Entro com um pequeno comentário.</p>
<p>- Pois é&#8230; uma vez e meia o que nossa empregada ganha para se matar de trabalhar durante um mês.</p>
<p>Uma simples frase causa uma revolução. Proponho mudar de assunto. Vocês viram que o Meirelles entrou no partido do Kassab com pinta de candidato à Prefeitura?</p>
<p>Nãããoooo. Política não.</p>
<p>- Então voltem às suas frivolidades, passem a noite inteira falando nelas.</p>
<p>Ameaço me retirar, mas vou ficando. Sempre pode surgir alguma deixa para eu enfiar minha colher provocadora. Somos dois homens (o neto de cinco anos e o vovô) contra três mulheres. Ainda, para piorar, às vezes me permito um trocadalho.</p>
<p>Apesar da greve, chegou meu livro pelo correio.</p>
<p>Minha cunhada e eu vamos abrir. Difícil. Está bem embrulhado em papel, fora o durex.</p>
<p>A cunhada:</p>
<p>- É embrulho com esse papel pardo, que é forte.</p>
<p>Eu, achando que vou agradar.</p>
<p>- Isso indica que o embrulho foi feito à noite.</p>
<p>- Por que?</p>
<p>- Porque à noite todos os embrulhos são pardos.</p>
<p>Resta contar meu grito de protesto, por levantar de uma cadeira e sair andando todo trôpego e dolorido.</p>
<p>- Meu corpo não está dando conta da vitalidade da minha alma!</p>
<p>Se alguém quiser minha companhia para tornar agradável alguma reunião em família, estou às ordens.</p>
<blockquote><p><em>Outubro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Maníaco sexual, eu?</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2011 20:56:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Num fim de tarde, chegamos a Ribeirão Preto cansados, depois de um dia correndo atrás da notícia. Se não me engano era coisinha leve, um rapaz de boa aparência, bem vestido, que se insinuava a moças de família da região, como médico. Tão educado, que as escolhidas logo se apaixonavam e pensavam em casamento. Acabavam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num fim de tarde, chegamos a Ribeirão Preto cansados, depois de um dia correndo atrás da notícia. Se não me engano era coisinha leve, um rapaz de boa aparência, bem vestido, que se insinuava a moças de família da região, como médico. Tão educado, que as escolhidas logo se apaixonavam e pensavam em casamento. Acabavam vítimas de um serial killer, tal era a verdadeira natureza do boa pinta.<span id="more-5366"></span></p>
<p>Bem, a esta altura seria mais interessante contar a historia do serial, mas, já que comecei com a minha, sigo em frente. “Chegamos a Ribeirão” eram este que vos escreve e o fotógrafo Antonio Carlos Mafalda, um gaúcho barbudo vindo da Zero Hora, de Porto Alegre.</p>
<p>Na volta das viagens, na redação, eu me divertia contando (com exagero) como ficava traduzindo o gauchês do Mafalda. “No restaurante ele pediu ao garçom: ’Índio véio, me traga um salsichão’, e eu traduzi: amigo, me traz uma linguiça.” Fora o fato, verdadeiro, de chamar PM de brigadiano (de Brigada Militar, a PM gaúcha).</p>
<p>Em Ribeirão Preto não conseguimos um único quarto de hotel. Havia uma convenção de dentistas (ou seriam médicos?) e até mesmo o bom Stream Palace, a duas quadras do Pinguim, estava lotado. Acho que foi um motorista de táxi quem deu a dica. Subimos pela Rua da Saudades (tínhamos um carro alugado) e chegamos a um motel.</p>
<p>Imagine um gauchão parando na recepção com outro homem. Não imagine, porque Mafalda, ao volante, não parou. Passou batido e estacionou uns cinco metros adiante. Desci do carro, caminhei até a janela da recepção, falei sobre os hotéis lotados (eu também não queria ficar mal na fita com outro barbudo) e pedi dois quartos.</p>
<p>Nos hospedamos. Investiguei o banheiro, boa cara. Tirei a roupa, para o banho. Fui ligar a luz do quarto e&#8230; onde? Não achei o interruptor. Vasculhei a cabeceira, havia ali comando de rádio e TV e outros botões. Um deles me pareceu um interruptor. Apertei. Nada.</p>
<p>Procurei com mais cuidado na parede, perto da porta de entrada. Nem sombra de interruptor. Então pensei (a gente tem cada idéia de jerico): vai ver está no lado de fora. Abri um pouco a porta, o suficiente para estender um braço para fora. E comecei a busca pela parede. Procurava, arrastava a mão, e não achava nada. Acabei pondo meio tronco – nu – para fora, acho que até um pedaço de perna. Tateei, tateei, mais uma vez sem resultado.</p>
<p>Fechei a porta e estava a caminho do telefone, para exigir uma explicação de quem atendesse, mas esse “quem” foi mais rápido. O telefone tocou. Era uma moça.</p>
<p>- Está tudo bem? O senhor precisa de alguma coisa?</p>
<p>Ainda irritado vociferei contra a má qualidade do projeto do quarto, que transformou o simples acender de luz em um quebra-cabeças, etc.,etc.. A funcionária me ouviu educadamente. Quando parei, me orientou para aquele botão da cabeceira que parecia um interruptor.</p>
<p>- Já apertei esse, moça. Não adiantou nada.</p>
<p>Ela, atenciosa.</p>
<p>- O senhor não aperte, ele é para girar.</p>
<p>Girei e o quarto se iluminou. No banho, repassou ligado (antigo caiu a ficha): o que a pessoa que me viu, e deu o alerta (e atraiu sabe Deus quantos outros), achou da minha performance? Um sujeito pelado, encoxando um batente, e passando a mão na parede de fora de um quarto de motel? Imaginei a testemunha contando para os amigos: “Já vi muita coisa, mas uma tara como essa nunca”.</p>
<p>Bem, hoje penso o seguinte do que aconteceu em Ribeirão Preto. Diante de um serial keller, um maníaco sexual por acidente pode ser perdoado.</p>
<blockquote><p><em>Setembro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Trocar casa por apartamento&#8230; Brrrr!</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Aug 2011 19:52:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Mulheres têm a mania de, na velhice, querer sair de sua confortável casa, com árvores e passarinhos ciscando migalhas do café da manhã, e mudar para um apartamento. A queixa, todos conhecem: a casa é muito grande, dá trabalho. É verdade que dá trabalho, mas para a empregada, aquela abnegada que chega de manhã e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mulheres têm a mania de, na velhice, querer sair de sua confortável casa, com árvores e passarinhos ciscando migalhas do café da manhã, e mudar para um apartamento. A queixa, todos conhecem: a casa é muito grande, dá trabalho.<span id="more-5214"></span></p>
<p>É verdade que dá trabalho, mas para a empregada, aquela abnegada que chega de manhã e só vai embora à tarde, com o serviço feito. Bem, mas também há a escada, íngreme, para o quarto. Tem umas goteiras, e o piso do quintal está gasto&#8230;</p>
<p>Fomos ver um conjunto de prédios em fim de construção.</p>
<p>Magnífico, deduz-se da maquete. Todas aquelas atrações batizadas em inglês (tem até car wash). Mais sala de cinema com 40 cadeiras, cantinho de leitura. Aconchegante. Quem desfrutará destes mimos?</p>
<p>Trata-se de seis torres, cada uma com 23 andares. Pelos meus cálculos, serão algo como 2.500 moradores. Vizinhança animada&#8230;</p>
<p>Longe de mim ser desmancha-prazeres, mas em casa me permiti um pequeno comentário:</p>
<p>- Se eu não me adaptar, sempre posso me jogar lá de cima.</p>
<p>De manhã, acordei e comparei meu quarto, com janelão de madeira que abre em duas folhas, e o banheiro confortável. Se estivesse no apartamento (e o de maior metragem) me veria ilhado na cama, entre a janela insípida e o armário embutido. Dali, o corredorzinho com a porta do banheiro. Igualzinho quarto de hotel.</p>
<p>Ao almoço, ponderei. Para mudar, teríamos que deixar para trás coisas que até ontem amávamos. O maleiro, daqueles que as pessoas usavam quando a travessia dos oceanos era de navio (adorna a sala). O bar de mogno, com mesinha e cadeiras, que eu mesmo fiz. A grade do bar, amarrada com grampos, numa época em que não existia solda. A cômoda de gavetões, onde guardamos nossa roupa, que tem pelo menos 80 anos.</p>
<p>Sem falar dos móveis em estilo provençal, pesados, herdados do sogro. E, afinal, dos meus livros.</p>
<p>Para que me serve a coleção completa do Tesouro da Juventude, impresso antes da reforma ortográfica que trocou o ph por f? E a Enciclopédia Britânica? Tempos de e-book, jogo na fogueira?</p>
<p>Foi assim que produzi mais uma frase:</p>
<p>- Quem muda são os nossos corpos, a nossa alma fica.</p>
<p>O júri feminino (mulher, filha, cunhada) não se deu por achado. Quer o prático, o moderno. Um mundo diminuto, clean. Ah, estou sendo crítico demais. Teremos a deslumbrante varanda gourmet, com churrasqueira. Lotação: quatro sentados e cinco em pé.</p>
<blockquote><p><em>Agosto de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Minha foto na coluna de óbitos</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jul 2011 18:04:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem abri o jornal e vi minha foto na coluna de óbitos. Estranho, pensei. Será que morri e ninguém me avisou? Pior, não percebi? Bem, se nunca tinha morrido antes, não podia mesmo saber como era. Vai ver é assim mesmo. A gente morre mas não vai direto para onde vão as almas. Fica um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem abri o jornal e vi minha foto na coluna de óbitos. Estranho, pensei. Será que morri e ninguém me avisou? Pior, não percebi? <span id="more-5057"></span>Bem, se nunca tinha morrido antes, não podia mesmo saber como era. Vai ver é assim mesmo. A gente morre mas não vai direto para onde vão as almas.</p>
<p>Fica um tempo em casa, para se acostumar com a novidade.</p>
<p>Só então me ocorreu ler a nota no obituário, para ver se o nome do morto era o da foto. Ou seja, o meu. E não é que estava lá, o nome certinho. Pensei em telefonar para o jornal e perguntar se não tinha havido engano. Eu me sentia tão vivo! Mas não liguei, tive medo que dissessem que não conversam com mortos.</p>
<p>Só me restava fazer uns testes. Pensei: vou tentar atravessar essa parede. A da sala &#8211; do outro lado é o quarto. Mas fiquei com medo de, estando vivo, fazer papel de idiota. Ou quebrar o nariz. Achei melhor sair à rua, para ver o que acontecia. Mas também desisti. Podiam me tomar por um fantasma e sair correndo, o que seria humilhante.</p>
<p>Bem, só me restava esperar. Joguei o jornal no chão e fui para o quarto. Só quando deitei na cama percebi que a porta estava fechada.</p>
<p>(Psicografado pelo médium A. Castro)</p>
<blockquote><p><em>Julho de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>No tempo de Dick Tracy na Sala de Imprensa</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 17:15:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Dick Tracy entrando na chefatura de polícia? Bem, o personagem usava capa de chuva e chapéu, como o detetive das tiras dos jornais americanos da década de 1930. Mas não era um detetive, era um repórter policial. Não estava nos States, mas na moderna São Paulo de 1957. A chefatura era na verdade a Central [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dick Tracy entrando na chefatura de polícia? Bem, o personagem usava capa de chuva e chapéu, como o detetive das tiras dos jornais americanos da década de 1930. Mas não era um detetive, era um repórter policial.<span id="more-5009"></span></p>
<p>Não estava nos States, mas na moderna São Paulo de 1957. A chefatura era na verdade a Central de Polícia, ao lado do Pátio do Colégio. A vestimenta do repórter ficava um tanto deslocada no tempo, mas ele não se importava. Seu nome: Maurício de Souza.</p>
<p>Ficou um ano nessa vida. Depois seguiu seu destino de desenhista, e inventou Bidu, Franjinha, e toda a turma da Mônica. Outro desenhista famoso foi Chester Gould, que criou Dick Tracy. Durante aquele ano, Maurício foi um desenho de Chester Gould.</p>
<p>Eis o que diz hoje: “Eu me fantasiava de detetive americano porque era tímido. Vestido como herói, tinha coragem para falar.” Um repórter policial detetive com um ponto fraco: não podia ver sangue que desmaiava.</p>
<p>A Sala de Imprensa da Central de Polícia parecia um filme em preto-e-branco, com o tic tac das máquinas de escrever como trilha sonora. Os jornalistas ora se agitavam com fatos importantes, ora viviam o tédio de esperar pela notícia. Nestas horas, a jogatina corria.</p>
<p>Jogavam cartas ou dados, a dinheiro. No calor do jogo gritavam, brigavam. De repente, o telefone tocava. Repórteres vestiam o paletó, fotógrafos pegavam a Rolleiflex e o flash, e saíam todos apressados. Em algum lugar da cidade, podia haver um corpo crivado de balas. Ou isto será cena de filme?</p>
<p>Era a realidade, como atesta João Bussab, um dos mais conhecidos repórteres policiais dessa época. Bussab era rádio-escuta da TV Tupi, canal 3, com suas transmissões em preto-e-branco. Em 1963 foi cobrir as férias de um colega, na Central de Polícia, para os Diários Associados. Ficou 14 anos.</p>
<p>Quase colada à sala dos jornalistas ficava a do delegado de plantão. Certo dia, lembra Bussab, o delegado invadiu a sala de imprensa, apreendeu o baralho, e autuou os repórteres em flagrante por jogo de azar.</p>
<p>O azar foi do delegado. Outros repórteres se mobilizaram e procuraram o secretário da Segurança Pública, para explicar que o jogo era apenas uma forma de matar o tempo. O flagrante foi relaxado, e o delegado, transferido para outro distrito.</p>
<p>Além da timidez, Maurício de Souza tinha aquele outro sério problema. “Era uma coisa horrível, eu não podia ver sangue que desmaiava”. No local de um crime, pedia socorro ao fotógrafo. “Ele olhava o corpo e me dizia como estava, se era em decúbito ventral (barriga para baixo)” – conta, divertindo-se com o linguajar técnico.</p>
<p>Maurício trabalhava de madrugada, se é que se pode dizer isso. Naquelas em que nada acontecia, e como não aderisse ao jogo, juntava as mesas (podia ser a da <em>Folha</em>, onde trabalhava, a dos Diários Associados, a da <em>Última Hora</em>, do <em>Estadão</em>), e assim tinha uma cama “grande como de casal”. Fazia um travesseiro de jornais amassados, deitava-se e dormia&#8230;</p>
<p>É verdade que, em plena madrugada, podia ser incomodado por uma notícia. Neste caso, pedia condução e fotógrafo, e a <em>Folha da Manhã</em> (hoje <em>Folha de S.Paulo</em>) mandava o carro da reportagem, um jipe laranja.</p>
<p>Eventualmente podia chegar também o jipe dos Diários Associados (que Bussab, em outras horas, também usava). Naquela época, a periferia da cidade não era asfaltada.</p>
<p>Muitas vezes Maurício se deparava com um crime passional, o marido pegou a mulher com o amante, ou vice-versa. “Na confusão, a polícia ali, a família chorando, eu cumpria ordens do jornal: roubava a foto do casamento.”</p>
<p>A foto era uma ótima ilustração para a reportagem. Maurício achava “uma coisa desrespeitosa”, mas se consolava. “Se eu não pegasse, um colega pegaria.”</p>
<p>Na Sala de Imprensa os jornalistas se davam bem, procuravam ser solícitos uns com o outros. Mas amigos, amigos, furo à parte.</p>
<p>Certo dia explodiu nos jornais o caso de um mafioso que tentara matar a tiros o dono da famosa Boate Michel, da Rua Major Sertório, na Boca do Luxo. Começa a caçada ao criminoso (que acertara a vítima, mas não a matara) por toda a cidade.</p>
<p>Bussab ficou na cola de certo competente policial. “Fui com ele para as bocas.” Chega o sábado, a Sala de Imprensa está calma. O mesmo policial chama Bussab, discretamente, como este recorda: “O cara está preso aí embaixo.” Aí embaixo era o xadrez.</p>
<p>Bussab, também na moita, pede fotógrafo. Descem ao xadrez e passam bom tempo com o preso. Na segunda-feira, os Diários saem com o furo estrondoso.</p>
<p>Naqueles tempos, em que o delegado Israel dos Santos Sobrinho, o “Gravatinha”, fazia pregações de moral para os presos, algo muito curioso ocorria na Sala de Imprensa. O repórter Sílvio Nunes, o Espaguete, vivia sob intensa vigilância.</p>
<p>O apelido vinha do fato de que, toda noite, jantava a massa, num restaurante próximo. Quem vigiava Espaguete era Dona Laura, sua mulher. Ela se sentava em uma cadeira, dentro da Sala de Imprensa.</p>
<p>Quando o marido saía no jipe do <em>Diário da Noite</em>, Dona Laura ia junto. Os jornalistas gostavam muito de Espaguete, educado e amável, que, por brincadeira, chamava os outros de “meu caro caríssimo”.</p>
<p>Por solidariedade ao colega, os repórteres proibiram que a mulher ficasse na Sala de Imprensa. Ela e sua cadeira saíram&#8230; mas se instalaram no corredor, à porta da sala.</p>
<p>Conta-se que, depois, o jornal proibiu que “estranhos” viajassem no carro da reportagem. E que Dona Laura seguia o carro de táxi. Mas isto é apenas o que se conta.</p>
<p>Num fim de plantão, Maurício de Souza passou pela sala do delegado e a encontrou vazia. Foi ao cartório, não havia ninguém. As viaturas policiais, que ficavam à frente do prédio, não estavam lá. Em uma sala onde chegavam informações, encontrou, junto ao telefone, um papel com um endereço no Belém, na zona leste.</p>
<p>Pediu o jipe e partiu. A rua do Belém estava cheia de carros da polícia, policiais agitados, muitos curiosos. Dick Tracy pulou um cordão de isolamento e subiu as escadas do sobrado em frente. Lá em cima, deu com o delegado do plantão.</p>
<p>“Ele me disse: ‘O que você está fazendo aqui?’ Não vai poder escrever uma linha sobre isto.” Foi impedido de se mover e de sair da casa. Mesmo assim, deu uma espiada num cômodo e viu o corpo de um homem.</p>
<p>Mais tarde chegaram repórteres de rádio e de televisão, e o delegado viu que não tinha como segurar a notícia. Contou então o que acontecera. O pai do governador do Estado, Jânio Quadros, fora assassinado.</p>
<p>Maurício prefere não dizer por quê. O noticiário da época registra que Gabriel Quadros foi morto por um vendedor de limões que o flagrou com sua mulher. No fundo, mais um crime passional na cidade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O sobrado do século 19 está para se revelar de novo</strong></p>
<p>Como uma noiva que se veste para o casamento, a Casa Número 1 não pode ser vista. Esse antigo sobrado, de fins do século 19, está com obras de restauro prestes a terminar. A Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo só vai mostrá-lo quando tudo estiver de acordo com o figurino.</p>
<p>No entanto, mesmo com tapumes cobrindo o térreo, dá para ver que ficou muito bonito. A fachada, com janelas altas e balcão, e o belo ornamento do telhado, é um presença de certa forma inesperada, na rua.</p>
<p>O endereço era Rua do Carmo, número 1. A primeira casa da rua, vizinha ao Pátio do Colégio, o lugar em que São Paulo começou. Em meados do século passado, aquele trecho da rua passou a se chamar Roberto Simonsen. O sobrado ainda é a primeira casa, mas agora sob o número 136-B.</p>
<p>O bandeirante Gaspar Godoy Moreira foi um dos primeiros moradores. Depois, ainda no século 19, a construção abrigou um colégio, foi sede de uma empresa de serviços, e de uma “Sociedade de Imigração”, até passar para a Companhia de Gás. A partir de 1910 sediou órgãos policiais.</p>
<p>Durante décadas, esteve ali a Central de Polícia, para onde convergiam as informações sobre todas as ocorrências da cidade. Com isso, os repórteres dos jornais ficavam de plantão ali dia e noite.</p>
<p>Para abrigá-los, a Secretaria da Segurança cedeu uma sala, onde puderam ter mesa e máquina de escrever. A Sala de Imprensa tinha setoristas de todos os jornais. De lá, saiam para cobrir crimes e acidentes na cidade, como se mostra a matéria acima. Foi assim até 1970, quando a polícia deixou o prédio e este passou para a Prefeitura.</p>
<blockquote><p><em>Esta reportagem foi originalmente publicada no </em>Diário do Comércio<em>, em julho de 2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Lindberg e a camisinha</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Apr 2011 17:09:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Com tudo o que fez como líder estudantil, Lindberg Farias pode ter passado por porra-louca. Agora está no outro lado, o da camisinha. Todos viram como o hoje senador petista ampliou o projeto de sua colega Maria do Carmo Alves, do falecido DEM, para salvar o País da aids. A senadora apresentou projeto de lei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com tudo o que fez como líder estudantil, Lindberg Farias pode ter passado por porra-louca. Agora está no outro lado, o da camisinha. Todos viram como o hoje senador petista ampliou o projeto de sua colega Maria do Carmo Alves, do falecido DEM, para salvar o País da aids.<span id="more-4350"></span></p>
<p>A senadora apresentou projeto de lei que obriga os motéis a fornecer o preservativo para a clientela. Lindberg pegou carona e ampliou a exigência a todos os hotéis, pousadas e pensões do território nacional. É verdade que a maioria dos hóspedes desses estabelecimentos vai lá apenas para dormir, mas prudência não faz mal à ninguém.</p>
<p>Já que ficou assim, Lindberg deveria se preocupar em cobrir todas as possibilidades. Cada carro também teria que portar sua camisinha, porque banco de trás tem mil e uma utilidades.</p>
<p>Pena que Lindberg não pensou nisso quando o novo Código de Trânsito impôs aos motoristas <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/kits-da-tesoura-a-camisinha/">o estojo de primeiros-socorros</a>, na época de FHC. Gaze, mercuro cromo, esparadrapo e camisinha. O estojo caiu, mas a camisinha, por eventualmente útil, poderia ter ficado.</p>
<p>Lindberg também deveria ter exigido que se colocassem camisinhas atrás de muros e moitas, em lugares de pouco movimento. E em barrancos idem, pois não há de ser à toa que existe o verbo “barrancar”.</p>
<p>Não seria demais que se baixassem exigências com vistas à Copa do Mundo, caso fique pronto o mínimo para a realização do certame no País. Para acalmar hóspedes estressados com problemas de infra-estrutura, a camisinha, assim que desenrolada, mostraria a frase-símbolo do turismo nacional: Relaxe e Goze.</p>
<blockquote><p><em>Abril de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Sobre motoqueiros e a Nascimento e Silva, 107</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Feb 2011 04:34:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[“Rua Nascimento e Silva, 107. eu saio correndo do pivete”&#8230;  Avenida General Olímpio da Silveira, eu saio correndo do motoquete&#8230; Vinha plácido e faceiro como em anúncio de bonde, descera do meu metrô e subira as escadas, saíra na praça, atravessara sob o Minhocão e caminhava para o meu destino, quando dou de cara com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Rua Nascimento e Silva, 107. eu saio correndo do pivete”&#8230; </p>
<p>Avenida General Olímpio da Silveira, eu saio correndo do motoquete&#8230;<span id="more-3941"></span></p>
<p>Vinha plácido e faceiro como em anúncio de bonde, descera do meu metrô e subira as escadas, saíra na praça, atravessara sob o Minhocão e caminhava para o meu destino, quando dou de cara com a moto.</p>
<p>Eu ia, o cara vinha. Muito trânsito na avenida, achou mais fácil andar pela calçada. Simples. Subiu, e acelerou, sem se preocupar com aqueles obstáculos de carne e osso se movendo por ali, coisa irritante. Quando veio para cima de mim, fiquei imóvel como um obelisco. Acho que ele pensou que eu fosse desviar. Como não fiz, parou. Isso me livrou do atropelamento. Pôs um pé no chão, executou uma manobra esquisita, que me tirou da mira, e saiu de novo na correria, o tarado.</p>
<p>Isso foi há uns três meses. Um pouco depois, em Guarulhos, vou atravessar uma praça. Tomo o cuidado de caminhar até a faixa de pedestre, em uma das esquinas. Longa espera. O homenzinho verde do sinal brilha para mim, indicando que era minha vez. Na rua, esquina da praça, o trânsito parado no vermelho. Ônibus, muito ônibus, carros&#8230;</p>
<p>Inicio a travessia, de olho na esquina. Não vá um motoqueiro&#8230; Veio. Dobrou a esquina, avançou pela faixa, tirou uma fina da minha ilustre pessoa&#8230; O cidadão bem comportado, irritado com a selvageria do outro, reclama como um babaca, apontando para o homenzinho verde: “Olha o sinal aberto”!</p>
<p>O que aconteceu? O sujeito me olhou feio, não gostou nada de eu ter saído do papel de trouxa passivo que me destinou. Pareceu ofendido, desacatado em seu direito. Mas não perdeu mais tempo, acelerou e sumiu-se.</p>
<p>É bom ser motoqueiro em São Paulo, em Guarulhos. A categoria está isenta de respeitar o Código Nacional de Trânsito. Os “cachorros-loucos”, como os mais bravios são chamados por eles próprios, destacam-se nesse liberou geral. Mesmo entre os mais santos, sempre há uma conversão proibida a ser feita, limite de velocidade a ser desrespeitado, um farolzinho vermelho varado aqui e ali.</p>
<p>Em Guarulhos, há um farol especialmente chato, que fecha em sincronismo com outro. Este abre, mas quem vira à direita, numa avenida de duas pistas, dá com o outro fechado. É um farol para pedestres. Outro dia, cheguei e parei. Por acaso, vinham atrás de mim várias motos. Todas vararam no vermelho, como se não existisse farol, nem faixa.</p>
<p>Lembrei de uma definição que escrevi, certa vez: “Faixa de pedestre: bandagem com que são envolvidas, no pronto-socorro, as fraturas dos que acharam seguro atravessar a rua no lugar destinado a eles”.</p>
<blockquote><p><strong><em>Uma notinha </em></strong></p>
<p><em>Os mais jovens talvez não saibam ao que Valdir Sanches se refere quando fala da Rua Nascimento e Silva, 107.</em></p>
<p><em>“Rua Nascimento e Silva, 107, você ensinando pra Elizeth as canções do amor demais.”</em></p>
<p><em>Em 1958, quando ainda não existia o termo “bossa nova” para designar um tipo de música, Elizeth Cardoso – cantora já consagradíssima, grande estrela da música brasileira – gravou um LP para o pequeno selo Festa (mas uai, os discos independentes não surgiram não foi muito depois disso?) com 12 canções recém-criadas pela então nova dupla Antônio Carlos Jobim-Vinicius de Moraes. O LP chamou-se </em><a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/o-disco-que-lancou-a-bossa-nova-nao-nao-e-de-joao-gilberto/">Canção do Amor Demais</a><em>. Em duas das faixas, um jovem baiano praticamente desconhecido tocava violão – um tal de João Gilberto.</em></p>
<p><em>A letra inteira de “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZjeEqBKhGW4">Carta ao Tom</a>”, escrita por Vinicius de Moraes com música de Toquinho, vai aí abaixo. </em></p>
<p><em>“Como se o amor doesse em paz.” Que maravilha de verso. E pensar que </em><em>Toquinho costumava ser chamado de Troquinho.</em></p>
<p><em>Que Toquinho tenha muito menos reconhecimento do que merece é uma prova de que este país é muito doido. </em></p>
<p><em><strong>Carta ao Tom</strong></em></p>
<p><em>Rua Nascimento e Silva, 107</em></p>
<p><em>Você ensinando pra Elizete</em></p>
<p><em>As canções de Canção do Amor Demais</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Lembra que tempo feliz</em></p>
<p><em>Ah, que saudade</em></p>
<p><em>Ipanema era só felicidade</em></p>
<p><em>Era como se o amor doesse em paz</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Nossa famosa garota nem sabia</em></p>
<p><em>A que ponto a cidade turvaria</em></p>
<p><em>Esse Rio de amor que se perdeu</em></p>
<p><em>Mesmo a tristeza da gente era mais bela</em></p>
<p><em>E além disso se via da janela</em></p>
<p><em>Um cantinho de céu e o Redentor</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>É, meu amigo, só resta uma certeza</em></p>
<p><em>É preciso acabar com essa tristeza</em></p>
<p><em>E preciso inventar de novo o amor</em></p>
<p><em>Grande gozador, o maestro homenageado na canção criou depois mais uma estrofe ironizando as modernidades introduzidas na paisagem carioca. A ironia de Tom está no final do <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZjeEqBKhGW4">ótimo clip no youtube</a>, que reúne a letra original cantada por Vinicius e Toquinho e algumas paisagens estonteantes do Rio. Eis o acréscimo feito por Tom, que Valdir citou na abertura de seu texto:</em></p>
<p><em>Rua Nascimento e Silva, 107</em></p>
<p><em>Eu saio correndo do pivete</em></p>
<p><em>tentando alcançar o elevador.<br />
Minha janela não passa de um quadrado, </em></p>
<p><em>a gente só vê cimento armado</em></p>
<p><em>onde antes se via o Redentor. </em></p>
<p><em>Ah, meu amigo, só resta uma certeza, </em></p>
<p><em>é preciso acabar com a natureza, </em></p>
<p><em>é melhor lotear o nosso amor. </em></p>
<p><em>(<strong>Sérgio Vaz)</strong></em></p>
<p><em> </em></p></blockquote>
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		<title>Um dia ponho uma lauda na Remington</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Jan 2011 19:29:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Valdir Sanches]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Preciso mandar um texto para o Servaz, faz tempo que não me dou ao prazer. Muita correria&#8230; O que há de agradável na minha mente (de ruim, basta o noticiário), para botar no papel?<span id="more-3693"></span></p>
<p>Papel? Um dia ponho uma lauda na minha velha Remington e saio a escrever com ela como se estivesse acelerando um Chevrolet coupê da época do velho Al (Capone). Vou ter a garantia de chegar ao fim do texto, mesmo que à luz de vela.</p>
<p>No domingo, há dois dias, despencou mais um oceano sobre Guarulhos, temporal diluviano, com raios de filme de terror, e apedrejamento por granizo (felizmente, pouco). Depois de flanar o fim de semana no interior, coisa de besta, ficamos em um hotel executivo meio chique, em São José dos Campos, pa-ra des-can-sar, eu disse à Haydée que se era para ficar lendo livro no apartamento não precisaríamos dos apelos à natureza das pousadas do interior, do tipo hotel fazenda, que de fazenda só tem cavalo para alugar, e eu estou fora desse negócio de cavalo, que não sou John Wayne, e Haydée não é Barbara Stanwyck (ainda bem, ô mulher feia), se fosse seria um fiasco, jamais chegaria perto de um equino (o trema, que falta faz o trema), e ainda tem a tal comida caseira, quem come fica três dias sem sair de casa (velha piada), o que não acontece em hotéis executivos, que, se você tiver sorte, não tem nenhuma convenção de vendedores de seguro para fazer barulho no lobby e no restaurante, embora, no restaurante, fatalmente estará montado o buffet do almoço, com a desvariedade de sempre, mas, escolhendo bem o hotel, à noite haverá um tranqüilo serviço à la carte, com o garçom errando o uísque e o filé pedido, que se revelará, sob o molho parmegiana, um guerreiro contra-filé, como nos aconteceu, embora tenha se estabelecido depois que a culpa foi do cozinheiro plantonista, que ficou sem saber o que fazer com a carência do mignon, o foca, ele podia ter mandado explicar que só tinha contra-filé, se não quiséssemos ficaríamos com outros pratos do cardápio, variado, mas nessa altura eu também não ia pedir peixe, estava lá: robalo, mas vai que viesse merlusa, é impressionante como a gente gosta de falar do restaurante, quando o quarto era bem interessante, e deu para nos enfadonharmos com alguma classe, e a Haydée assistir à novela num desses televisores finos que deixa as pessoas na tela gordas, mas não foi por isso que deixamos o hotel cedo, e fomos almoçar (onde, onde, bom Senhor?) no shopping e logo nos picamos, de modo que à tarde eu já estava no computador para tocar a matéria do <em>Diário do Comércio</em> sobre o homem que fez a bandeira da cidade de São Paulo, ele é um vexilologista, Deus o ampare, uma pessoa discreta, mas que dá bandeira (ah, ah, ah), mas não fui longe com o texto porque a borrasca caiu duas vezes e a luz acabou três, e fui deitar sem ter terminado com o vexilo(bandeira)logista</p>
<p>Se estivesse batendo à máquina, à luz de vela, a matéria teria ficado pronta.</p>
<blockquote><p><em>Janeiro de 2011</em></p></blockquote>
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