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	<title>50 Anos de Textos &#187; Sandro Vaia</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>O Brasil sem voz</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 14:19:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Existem dois Brasis convivendo: o da fantasia virtual, retratado por uma boa parte da imprensa e pelas chamadas redes sociais, e o real, aquele onde as pessoas vivem de verdade. No mundo da fantasia, impõe-se aquele que faz mais barulho. Se você perder um dia navegando pelas redes sociais ou fazendo pesquisas temáticas no Google, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existem dois Brasis convivendo: o da fantasia virtual, retratado por uma boa parte da imprensa e pelas chamadas redes sociais, e o real, aquele onde as pessoas vivem de verdade.<span id="more-6346"></span></p>
<p>No mundo da fantasia, impõe-se aquele que faz mais barulho. Se você perder um dia navegando pelas redes sociais ou fazendo pesquisas temáticas no Google, vai achar que estamos às vésperas da queda da Bastilha ou da tomada do Palácio de Inverno.</p>
<p>Se uma simples manifestação contra o prefeito de São Paulo é convocada por uma lista assinada por 106 entidades (ao que parece, a manifestação não conseguiu reunir nem um representante de cada uma delas), e considerando que cada uma delas deve ter um site, é porque a revolução social está às portas.  Já chegamos ao estágio mais avançado da guerra de posições de Gramsci e a hegemonia ideológica sobre os aparelhos de Estado já foi alcançada.</p>
<p>Agora é só calar os adversários do outro mundo possível e partir para o abraço, jogar a camisa para a torcida e comemorar a vitória.</p>
<p>O diabo é que o Brasil real, aquele que está fora dos holofotes e dos megafones, que não tem tempo de esbravejar, que trabalha e cuida da sobrevivência da família, está ali, quieto, e só se manifesta quando é consultado.</p>
<p>E quando é consultado dá pontapés na lógica politicamente correta e bem pensante, para desespero dos “maîtres-à-penser” que têm nojinho dessa pobre gente que ainda não leu Pierre Bourdieu e sequer sabe que é alienada e instrumento da burguesia.</p>
<p>Pois a hecatombe social da retomada da Cracolândia é aprovada por 82% das pessoas. Esse mesmo povinho desagradável é contra o aborto, a a favor da diminuição da maioridade penal, quer maior rigor contra o crime e um monte de outras barbaridades. E quando é entrevistado pelo Datafolha ,47% deles se dizem de direita.</p>
<p>Mas votam num governo que se diz de esquerda. Vá entender.</p>
<p>Mas eles votam em Lula e Dilma, que são pessoas e não programas partidários, e elegem 88 deputados federais do PT num universo de 5l3, o que dá 17,1% do total. Há um evidente descolamento entre o petismo e o lulismo e seus derivados.</p>
<p>Não é à-toa que Gilberto Carvalho, o coroinha das boas causas, quer criar mídias específicas para a classe C, a tal da classe emergente, para disputar com as igrejas evangélicas o controle de suas mentes. Veja bem: não se trata de persuadir, trata-se de controlar. ”O governo não pode ter ciúme das clientelas que não batem mais às suas portas”, disse o filósofo.</p>
<p>E por clientelas ele quis dizer isso mesmo: clientelas.E quando ele fala governo, pensa partido, porque essas duas entidades, para certo tipo de pensamento, são a mesma coisa.</p>
<p>Na quilométrica defasagem que existe entre o país virtual e o país real há um abismo onde os partidos ditos de oposição se atiram alegremente dia após dias, como naquele penhasco de onde saltam os intrépidos banhistas de Acapulco. Só que os banhistas mergulham, nadam e voltam. A oposição, não, ela se afoga, porque nessa água não sabe como nadar.</p>
<p>À esquerda há os partidos de esquerda, com suas fantasias e seus sonhos hegemônicos; à direita não há nada, sequer um partido decente, e a grande massa da representação politica se concentra no enxame de partidos amorfos e fisiológicos cujo único princípio é o poder pelo poder para poder tirar proveito do poder.</p>
<p>Resultado: mais da metade do Brasil não tem quem fale por ela.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 3/2/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Tragédia de erros</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 15:55:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, foi a materialização da mais completa tragédia de erros ocorrida nos últimos tempos. Em diversas frentes: 1) O governo estadual seguiu a ordem judicial, como lhe cabia fazer, sem tomar o devido cuidado prévio de criar as mínimas condições materiais e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, foi a materialização da mais completa tragédia de erros ocorrida nos últimos tempos. Em diversas frentes:<span id="more-6279"></span></p>
<p>1) O governo estadual seguiu a ordem judicial, como lhe cabia fazer, sem tomar o devido cuidado prévio de criar as mínimas condições materiais e humanas para acolher os desabrigados e proporcionar-lhes condições decentes de sobrevivência. A Prefeitura Municipal de São José dos Campos divide com o governo estadual o troféu de omissão e incompetência.</p>
<p>2) O governo federal, através do seu coroinha das boas causas, o ministro Gilberto Carvalho, correu a criticar a ação da reintegração de posse, dizendo que teria sido melhor agir de outra forma, sem dizer qual seria essa outra forma (desobedeceria a ordem judicial?). Mais uma vez, como ocorreu no episódio da Cracolândia, insinuou que o governo federal teria uma solução pacífica e boa para todos, guardada em alguma gaveta. Não disse qual seria a solução e muito menos porque ela não saiu da gaveta para ser posta na mesa.</p>
<p>3) A imprensa, desde o primeiro momento, não foi sequer capaz de noticiar com precisão e muito menos de esclarecer o que significava o conflito de jurisdição entre a Justiça federal e a Justiça estadual em torno da ação de reintegração de posse. Nos primeiros momentos da ação policial na área ocupada, a impressão que se tinha era a de que a PM estava descumprindo a ordem da Justiça federal e agindo arbitrariamente por decisão própria. Além de não conseguir sequer acompanhar cronologicamente a sucessão de ordens e contra ordens da Justiça, a imprensa foi incapaz de contextualizar a própria situação do Pinheirinho, de explicar qual é a origem da posse da área, como foi que o megaespeculador Naji Nahas se tornou seu dono, de quem a comprou, quando e como a comprou , o que é uma massa falida, quais são os direitos de uma massa falida, qual é o valor da área, de como se deu a ocupação da área por aquelas pessoas, quais foram as tentativas de acordo entre as partes envolvidas durante os oito anos de ocupação. A imprensa tampouco foi capaz de dimensionar o verdadeiro papel do líder do acampamento, o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, Valdir Martins de Souza, o Marrom, militante do PSTU, na história do conflito e nas frustradas tentativas de acordo.</p>
<p>4) As chamadas “redes sociais” contribuíram notavelmente para a infantilização do debate sobre a ação de reintegração de posse, dando livre curso a um debate ideológico obscurantista e a um constrangedor festival de desinformação, com alguns lances patéticos de má-fé e ignorância factual sobre princípios básicos que regem a ordem jurídica do País. Para uma boa parte da simplória militância ideológica de esquerda, tratou-se simplesmente de uma maldade do governador tucano, que tomou a terra dos pobres para entregá-la de volta ao ricaço Naji Nahas, que , evidentemente, deve tê-la roubado de alguém. Na cabeça da torcida instalada na arquibancada ideológica, uma ação tão truculenta só poderia produzir vítimas. Na falta de um massacre concreto, inventou-se um, e um advogado dos invasores, falando em nome da OAB, desandou a denunciar mortes que não aconteceram. E a agência oficial de notícias do governo, irresponsavelmente, espalhou a notícia pelo país, sem dar-se ao trabalho de checar se era verdadeira ou não. No dia seguinte foi só publicar: o advogado fulano de tal não confirmou as mortes que ele divulgou ontem. Vida que segue, como se nada tivesse acontecido.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 27/1/2012.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Boxe com luvas de pelica</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 16:16:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Engana-se quem pensa que a juíza Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, tenha recolhido as armas. As evidências de irregularidades no Judiciário não param de aparecer. Além das movimentações “atípicas” detectadas pelo COAF em contas bancárias de milhares de juízes e funcionários do Judiciário, as evidências de corporativismo e favorecimento não param de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Engana-se quem pensa que a juíza Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, tenha recolhido as armas.<span id="more-6201"></span></p>
<p>As evidências de irregularidades no Judiciário não param de aparecer. Além das movimentações “atípicas” detectadas pelo COAF em contas bancárias de milhares de juízes e funcionários do Judiciário, as evidências de corporativismo e favorecimento não param de aparecer.</p>
<p>Juizes recebem dinheiro para consertar coberturas inundadas, outros para pagar dividas pessoais, outros para pagar a moradia mesmo morando nas cidades onde trabalham.</p>
<p>Não há como negar: abriu-se um rombo no casco da credibilidade do Judiciário.</p>
<p>As escaramuças entre a juíza Eliana e o estamento corporativo dos magistrados estão em recesso como a Justiça, mas tudo indica que voltarão vigorosas quando o plenário do STF julgar o mérito das liminares concedidas por Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, que na prática sustaram as investigações conduzidas pelo CNJ sobre irregularidades no Judiciário.</p>
<p>Mas, afinal, trata-se da saga heróica de uma juíza destemida contra privilégios e desmandos de um poder, ou de um surto de abuso de autoridade exercido inconstitucionalmente por alguém que não tem poderes para isso?</p>
<p>Boa discussão.</p>
<p>Uma coisa é certa: a juíza Eliana incomoda. Num recente “Roda Viva”, o ministro Marco Aurélio Mello mal conseguiu disfarçar seu desconforto com o que ele chamou de “concentração ilimitada de poderes” que a corregedora estaria conferindo ao CNJ. Chegou a compará-la a um xerife.</p>
<p>Como acontece com quase todos os problemas político-institucionais do País, a origem de tudo parece estar na ambiguidade do texto da emenda constitucional que definiu as atribuições do CNJ. Num país onde quase todos os conflitos são resolvidos numa espécie de conciliação “por cima”, os legisladores formularam uma lei que não desagradasse nem gregos nem troianos.</p>
<p>Na época em que a emenda constitucional que criou o CNJ foi aprovada, falava-se na necessidade de um “controle externo do Judiciário”.</p>
<p>Mas a ouvidos mais sensíveis, isso soava como uma espécie de agressão ao Judiciário, e era importante que a lei, afinal, não o afrontasse nem ferisse suscetibilidades. O CNJ então é um órgão de controle externo mas não é. Tem autonomia mas não tem.</p>
<p>A investigação sobre irregularidades administrativas continuou sendo atribuição das corregedorias dos tribunais de Justiça mas o CNJ pode dar seu pitaco se desconfiar que as corregedorias, como diz Marco Aurélio Mello, estão “procrastinando”.</p>
<p>A dra. Eliana, ao contrário do estamento oficial da Magistratura, não acha que o CNJ esteja indo além de suas atribuições constitucionais e sustenta que a constatação de movimentações “atípicas” de dinheiro na conta bancária de juízes e funcionários do Judiciário pelo COAF não configura quebra de sigilo bancário, mesmo porque nenhum nome foi divulgado.</p>
<p>Ela diz, por exemplo, que as corregedorias não cumprem as suas funções e nem sequer investigam desembargadores. O CNJ faz, então, o que as corregedorias deveriam fazer mas não fazem.</p>
<p>O ministro Marco Aurélio disse na TV que se for para o CNJ fazer as vezes das 90 corregedorias, então seria melhor fechá-las.</p>
<p>Quando lhe perguntaram se ele achava que a dra. Eliana estava exorbitando de suas funções, o ministro usou de seu mais refinado espírito eufemístico: “Não acho que ela esteja exorbitando. Ela apenas potencializou o objetivo em detrimento do meio”.</p>
<p>No conflito da Justiça, há golpes de boxe de verdade, mas as luvas são de pelica. E na boca do ringue, a massa torce para que no fim da luta o árbitro levante o braço da dra. Eliana.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 20/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Escândalos, paixões e correrias</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jan 2012 16:27:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estavam os habitantes da Cracolândia de São Paulo (que odeio chamar de “nóias”, uma palavra que tem acento pejorativo de gíria vulgar) postos em sossego em seu torpor de zumbis, quando chegou uma tropa da PM e os colocou pra correr. Escândalos, paixões e correrias, como alardeava uma velha canção de João Bosco e Aldir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estavam os habitantes da Cracolândia de São Paulo (que odeio chamar de “nóias”, uma palavra que tem acento pejorativo de gíria vulgar) postos em sossego em seu torpor de zumbis, quando chegou uma tropa da PM e os colocou pra correr.<span id="more-6147"></span></p>
<p>Escândalos, paixões e correrias, como alardeava uma velha canção de João Bosco e Aldir Blanc, popular nos anos 70.</p>
<p>Imediatamente colocou-se em pauta não uma discussão racional sobre o destino das desafortunadas criaturas e as consequências da ocupação do espaço público, mas exatamente a primeira rodada antecipada do campeonato eleitoral municipal, que irá se desenvolver em outubro deste ano em São Paulo.</p>
<p>Eles estão lá há 15 anos, e fora um sobressalto ou outro, parece que ninguém se preocupava muito com eles &#8211; com exceção, é claro, daqueles que eram obrigados por contingências pessoais a dividir e disputar o espaço com eles ou aqueles que, por razões profissionais tentavam, em silêncio e anonimamente, salvar os viciados de si mesmos.</p>
<p>Com a ação policial ,aconteceu aquilo que costuma acontecer quando a TV acende seus holofotes em direção a uma torcida de futebol, que passa da apatia total ao entusiasmo enlouquecido assim que a luz os ilumina e a câmera começa a registrar sua súbita e descontrolada euforia.</p>
<p>A luz acordou pelotões de políticos, jornalistas, especialistas, direito-humanistas, promotores, juristas, padres, pastores, sacerdotes, urbanistas, ativistas de toda espécie, cada qual com sua receita pronta para resolver o problema.</p>
<p>O Ministério Público, que até então jazia em santa indiferença diante da ação dos traficantes da Cracolândia, anunciou que vai investigar a ação da polícia, pois a considera precipitada, uma vez que foi deflagrada um mês antes da inauguração de um centro de apoio que está sendo construído pela prefeitura perto do local.</p>
<p>Sem esse centro de apoio, a ação policial de dispersar os viciados e dificultar a vida dos traficantes não faria sentido.</p>
<p>Talvez não fizesse de fato se a ação fosse apenas policial. O MP ignora, ou prefere fingir que ignora, que a Prefeitura tem 1.200 leitos psiquiátricos disponíveis para tratamento e que 150 agentes comunitários da Secretaria Municipal de Saúde trabalham, alternadamente, todos os dias da semana, inclusive aos feriados, junto aos dependentes químicos da região.</p>
<p>Uma entrevista do coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, dizendo que a privação de drogas causa ao viciado “dor e sofrimento” , e que isso o levaria a pedir ajuda, foi usada para batizar pejorativamente a açao da polícia de Operação Dor e Sofrimento. Um nome que caiu do céu.</p>
<p>Os humanistas profissionais correram a gritar contra a ação “higienista” , e estão pouco se lixando se a procura dos dependentes por ajuda dobrou desde o desencadeamento da operação.</p>
<p>Eles não estão interessados na sorte dos zumbis da Cracolândia. Estão mais interessados em fazer praça de sua sociologia progressista e em industrializar seus bons sentimentos.</p>
<p>Uma chaga aberta e sangrando rende mais demagogia e demagogia rende mais votos.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 13/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>O país das pessoas incomuns</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jan 2012 00:33:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Brasil é um país estranho. Sérgio Buarque escreveu que o brasileiro é um homem cordial &#8211; no sentido de que age mais com o coração do que com a razão &#8211; e logo leram que o brasileiro é uma pessoa gentil, lhana, de fino trato, que é o significado mais corriqueiro e coloquial da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Brasil é um país estranho.</p>
<p>Sérgio Buarque escreveu que o brasileiro é um homem cordial &#8211; no sentido de que age mais com o coração do que com a razão &#8211; e logo leram que o brasileiro é uma pessoa gentil, lhana, de fino trato, que é o significado mais corriqueiro e coloquial da cordialidade.<span id="more-6117"></span></p>
<p>Não era esse, naturalmente, o significado que Sérgio Buarque queria dar ao seu “homem cordial”.</p>
<p>Na semana passada, escrevi algumas observações no Twitter a respeito das declarações do novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Ricardo Garisio Sartori , sobre as férias de dois meses que a lei concede aos juízes.</p>
<p>O desembargador, para defender a lei, disse que “o legislador sempre tem uma razão” e que provavelmente ao dar dois meses de férias aos juízes estava pensando em preservar “a sanidade mental” deles.</p>
<p>No meu comentário eu disse estranhar que num país que de repente se descobriu tão entusiasmado defensor do igualitarismo, ainda existissem defesas tão enfáticas de privilégios de castas e classes especiais.</p>
<p>Todos são iguais perante a lei, reza o artigo V da Constituição, mas Orwell já advertia que alguns são mais iguais que os outros. E olha que Orwell falava da sua revolução dos bichos, não das peculiaridades da “igualdade” brasileira.</p>
<p>Algum motivo deve haver para que a sanidade mental dos juízes seja mais importante que a sanidade mental dos outros mortais, como os açougueiros, os artistas de cinema, os médicos, os engenheiros, os professores, os jornalistas, os pipoqueiros e todo o resto da atribulada humanidade.</p>
<p>Deve haver também um motivo especial para que eles ganhem mais do que os outros, para que tenham licenças-prêmio de 3 meses a cada 5 anos de trabalho, para que ocupem os prédios mais suntuosos de um país onde 11 mihões de pessoas moram em favelas, barracos, palafitas ou outros buracos, para que recebam auxilio-moradia mesmo trabalhando na cidade onde moram, para que tenham tantos carros ou tantos funcionários à disposição, ou para que estejam a salvo das investigações do Conselho Nacional de Justiça, que afinal foi criado, em última instância, para evitar que abusassem do poder.</p>
<p>Evidente que no Twitter não há nem espaço para enumerar as últimas e polêmicas discussões que envolveram a instituição do Judiciário, deflagradas, por sinal, interna corporis, pela jurista Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça.</p>
<p>Limitei-me a comentar a estranha noção de igualdade que impera em certos círculos num País tão faminto de igualitarismo.</p>
<p>Recebi uma resposta de um interlocutor que contestou o meu comentário dizendo que eu fazia parte “da classe média ressentida”. Não era um interlocutor qualquer, desses que passam o dia disparando interjeições ou espalhando sabedoria pelo Twitter.</p>
<p>Era um juiz federal titular de uma Vara do Amazonas, professor, pós graduado, ex-Procurador Federal e ex-Advogado da União.</p>
<p>Cordialmente, defendia seus privilégios e os de sua classe, pairando olimpicamente acima do plebeu ressentimento da classe média, que não consegue alcançar, em sua espessa e mesquinha ignorância, a necessidade de que alguns sejam mais iguais do que os outros perante a lei.</p>
<p>Descobrimos, afinal, que os juízes, assim como alguns senadores, são pessoas incomuns.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 6/1/2012.</em></p></blockquote>
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		<title>Dilma, Ano 1</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/dilma-ano-1/</link>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2011 16:23:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Um ano de governo, Dilma está na praia e o Brasil virou a sexta economia do mundo. Vamos comemorar? Vamos, mas com cuidado e um pouco de zelo. Dilma na praia não tem nada demais. Chefes de Estado merecem e precisam tirar férias. Vão dizer que é mesquinharia reclamar dos R$ 650 mil usados para reformar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um ano de governo, Dilma está na praia e o Brasil virou a sexta economia do mundo.</p>
<p>Vamos comemorar? Vamos, mas com cuidado e um pouco de zelo.<span id="more-6084"></span></p>
<p>Dilma na praia não tem nada demais. Chefes de Estado merecem e precisam tirar férias. Vão dizer que é mesquinharia reclamar dos R$ 650 mil usados para reformar a casa da base naval de Aratu onde ela está passando as férias, mas nas repúblicas é assim: a oposição reclama de tudo e é para prevenir-se disso e evitar esse falatório que a maioria dos chefes de Estado, cautelosamente, costuma passar as férias às suas próprias custas.</p>
<p>(Aliás, essas chiadeiras não acontecem apenas nas repúblicas. Os espanhóis descobriram agora que sua família real custa 8 milhões e 800 mil euros por ano e os quase 22% de desempregados do país não devem ter gostado muito da notícia. Ainda mais sabendo que o genro do rei andava se metendo em negócios suspeitos).</p>
<p>O que tivemos de inesquecível neste primeiro ano do governo Dilma, além da ascensão do país ao posto de sexta economia do mundo (que os desmancha-prazeres querem atribuir à inflação e ao real valorizado) e à substituição de sete ministros, seis dos quais abatidos por suspeitas do que a Chefe chama de “malfeitos”?</p>
<p>Saindo da ressaca de uma farra fiscal de ano eleitoral que fez o País crescer 7,5% , voltamos aos parâmetros usuais, que limitam as fronteiras do nosso crescimento ao padrão dos 3 a 4% ao ano. É mais do que a Europa e EUA em crise, o que seria um consolo se esse número não estivesse abaixo da média de crescimento dos países emergentes, que é com quem devemos nos comparar.</p>
<p>A área econômica do governo tratou apenas de administrar o varejo, aplicando medidas pontuais para evitar a desaceleração da economia , reduzindo impostos sobre alguns itens de consumo e anunciando medidas protecionistas para alguns setores da indústria, correndo o risco de premiar a ineficiência e castigar o consumidor.</p>
<p>Na área política, mesmo enfrentando a menor oposição que um governo teve desde a redemocratização, não foi capaz de se livrar da armadilha da chantagem de uma base aliada construída não sobre compromissos programáticos, mas sobre as bases fisiológicas do loteamento das áreas da administração pública.</p>
<p>Chegar a sexta economia do mundo e provavelmente a quinta dentro de uns cinco anos, como prevê o ministro Mantega, terá um significado apenas simbólico se isso não vier acompanhado de uma revolução estrutural que retire o país de um melancólico 84º lugar no Indice de Desenvolvimento Humano.</p>
<p>Crescer porque os outros estão encolhendo não é um grande mérito. O Reino Unido tem menos de um terço de nossa população e o PIB que conta, aquele que é medido por habitante, ainda é 3 vezes maior do que o brasileiro.Ser a sexta economia do mundo com 56% dos domicílios não ligados à rede de esgotos não chega a ser motivo de orgulho.</p>
<p>Em seu primeiro ano, Dilma impôs um estilo mais sóbrio e recatado do que aquele do seu antecessor. Será bom para todos se nos próximos 3 anos ela trocar de vez o triunfalismo oco pelo trabalho de construir um país que seja o sexto do mundo de verdade.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 30/12/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Correndo atrás da bola</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 02:25:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vamos aproveitar o espírito de Natal e esquecer de banalidades como o corporativismo da Justiça brasileira e as decisões do STF favorecendo indiretamente juízes do STF. O momento é muito mais grave. Estamos a dois anos da Copa do Mundo, temos problemas de estádios, de mobilidade urbana, de aeroportos, de desvios de dinheiro em obras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos aproveitar o espírito de Natal e esquecer de banalidades como o corporativismo da Justiça brasileira e as decisões do STF favorecendo indiretamente juízes do STF.<span id="more-6053"></span></p>
<p>O momento é muito mais grave.</p>
<p>Estamos a dois anos da Copa do Mundo, temos problemas de estádios, de mobilidade urbana, de aeroportos, de desvios de dinheiro em obras públicas, de venda de cerveja nos estádios, de ingerência da Fifa nas leis brasileiras, mas tudo isso não é nada perto da catástrofe que se desenha.</p>
<p>Depois da mais longa roda de bobinho da história do futebol mundial, no jogo Barcelona x Santos na semana passada em Yokohama, descobrimos que o futebol brasileiro, que era tão sólido, desmanchou-se no ar. E quando Karl Marx inventou essa frase sequer conhecia Mano Menezes.</p>
<p>Desde Zagalo estamos habituados a ouvir, com o sotaque carioca dos passarinhos na boca, que ninguém é capaz de superar a graça,a beleza, a malemolência e a picardia dos nossos craques e que, portanto, somos imbatíveis, capazes de decidir uma copa com um lance genial de qualquer de um dos nossos Van Goghs da bola.</p>
<p>Não tem sido assim desde que geração de daniéis alves veio substituir a de pelés e ronaldos. A camisa amarela perdeu há algum tempo o poder de fazer a terra tremer.</p>
<p>Mano, mais circunspecto do que Zagalo, jamais seria capaz de comemorar um gol imitando um aviãozinho com os braços abertos perto do banco de reservas do time adversário.</p>
<p>Com o ar grave de quem sabe o tamanho do fardo que carrega, Mano foi direto ao ponto, ao falar depois do sublime vareio do Barcelona sobre o pasmo Santos:</p>
<p>“Esse time veio para fazer história. O Barcelona decidiu há 35 anos que queria ser assim. Trabalharam incansavelmente nesse sentido e o resultado está á vista de todos. A capacidade que tem não se discute. Eles são os melhores”.</p>
<p>Mas não era apenas o reconhecimento óbvio de quem é o melhor. Qualquer um seria capaz de reconhecer isso, até Zagalo, num intervalo de seus delírios de patriótica grandeza.</p>
<p>Mano ampliou a sua reflexão para além da simples admiração pela exibição extraordinária de um time:</p>
<p>“Ouço que sempre vencemos da nossa maneira e que os outros fazem da maneira que fazíamos antes. Temos de perceber que eles estão fazendo algo diferente e temos de aceitar, entender e resolver isto. “</p>
<p>De tempos em tempos, como o Honved de Puskas, o Real Madrid de Di Stefano, o Santos de Pelé e a Holanda de Cruyff, aparece um grupo que reinventa o futebol e é sempre uma reinvenção que leva ao mesmo ponto: um time veloz, imprevisível, que troca bolas com uma precisão incrível, onde ninguém guarda posição, formado por talentos individuais fulgurantes mas enquadrados num esquema tático igualitário, consciente e de espírito predominantemente coletivo, onde o talento está a serviço do time.</p>
<p>Eles chegam em avalanche, trocando bolas, abrindo espaços, dispensando chuveirinhos , e preparando o gesto mortífero final que é o gol, que sempre nasce de parto normal, sem os fórceps do acaso ou da sorte.</p>
<p>Mano tem razão: temos que entender isso. E resolver.</p>
<p>Parodiando Churchill , o futebol é uma coisa muito séria para ser deixada na mão dos retranqueiros.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicadno no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 23/12/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Notas sobre um livro</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2011 14:41:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[1) Não há nenhum motivo para que a imprensa não noticie e não comente o lançamento do livro Privataria Tucana , de Amaury Ribeiro Júnior, como não havia para que não noticiasse ou comentasse o livro O Chefe, de Ivo Patarra. Não há motivo, portanto, para que só a publicação de notícia sobre um deles [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1) Não há nenhum motivo para que a imprensa não noticie e não comente o lançamento do livro <em>Privataria Tucana</em> , de Amaury Ribeiro Júnior, como não havia para que não noticiasse ou comentasse o livro <em>O Chefe</em>, de Ivo Patarra.<span id="more-6013"></span></p>
<p>Não há motivo, portanto, para que só a publicação de notícia sobre um deles seja exigida, enquanto o outro continua ignorado.</p>
<p>2) Uma das informações de maior impacto do livro é a acusação de que Ricardo Sérgio de Oliveira, homem forte das privatizações, ex-tesoureiro da campanha de FHC , e ligado a José Serra, teria recebido propina de US$ 15 milhões de Benjamin Steinbruch para facilitar a vitória de seu consórcio no leilão da Vale . A acusação foi publicada em maio de 2002 pela revista <em>Veja</em>, paradoxalmente a mesma que é acusada hoje de falta de credibilidade pelas acusações contra ex-ministros demitidos pelo atual governo.</p>
<p>A informação sobre suposta propina que teria sido paga por Carlos Jereissatti na formação do consórcio das teles que arrematou a Telemar também foi publicada pela <em>Veja</em> e por vários jornais e revistas. O que comprova que a imprensa sempre cumpriu o seu papel, e só passou a ser contestada e chamada de “golpista” quando o protagonista da noticia era alguém do partido errado.</p>
<p>3) As considerações do autor do livro sobre todo o processo de privatização representam as razões de um dos lados do debate ideológico que contrapõe em todo o mundo o dirigismo estatal ao modelo liberal de Estado mínimo. O próprio uso da palavra “privataria” reflete uma opção ideológica.</p>
<p>Não há no livro referência à sentença do juiz da 17ª Vara Federal sobre a licitude do processo de privatização da Telebrás no caso da denúncia do Ministério Público Federal contra Luiz Carlos Mendonça de Barros e outros no famoso episódio do “limite da irresponsabilidade”. O juiz absolveu os acusados, dizendo que eles defenderam o interesse do Estado (estimulando a criação de um consórcio que aumentaria o preço mínimo do leilão) e não se locupletaram ou beneficiaram pessoalmente de suas ações.</p>
<p>4) O emaranhado de documentos copiados dos arquivos públicos da Junta Comercial, mostrando inextrincáveis criações, extinções e multiplicações de empresas, mudanças de razão social, saídas e entradas de sócios, mudanças de cargos, movimentações enigmáticas em paraísos fiscais, dão ao livro a solene impressão de uma farta “documentação”, mas faltou um editor ou um especialista em finanças para explicar o que significa cada uma dessas coisas e qual é a relação entre elas.</p>
<p>Ficamos sabendo que José Serra tem uma filha que era sócia de Verônica Dantas, irmã do famigerado Daniel (o que em si não chega a constituir crime) e que tem um “primo político” (casado com uma prima) e um genro aparentemente muito ativos em tenebrosas transações. Todos eles, supostamente, abriam, fechavam e multiplicavam empresas para lavar dinheiro e internalizá-lo legalmente no País.</p>
<p>Mas de onde vinha esse dinheiro ? Há uma vasta coleção de divagações, suposições, insinuações, ilações, que levam a uma conclusão que quer parecer óbvia porém não é comprovada: seria dinheiro desviado das privatizações. Não há prova nem indício do chamado “crime antecedente”, que a lei exige para a tipificação do delito da lavagem de dinheiro.</p>
<p>O livro virou uma peça da guerrilha política que ocorre em algumas rotas do ‘bas fond” das redes sociais e, até prova em contrário, está destinado a provocar mais calor do que luz.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 16/12/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Discussão sem luz</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Dec 2011 15:07:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um grande tema apaixona todas as faculdades de jornalismo e de comunicação social no Brasil &#8211; e só elas: o diploma deve ou não ser obrigatório para o exercício da profissão? É certo que os leitores de jornais e todos os consumidores de produtos jornalísticos estão se lixando para isso. Eles pagam para adquirir produtos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um grande tema apaixona todas as faculdades de jornalismo e de comunicação social no Brasil &#8211; e só elas: o diploma deve ou não ser obrigatório para o exercício da profissão?<span id="more-5971"></span></p>
<p>É certo que os leitores de jornais e todos os consumidores de produtos jornalísticos estão se lixando para isso. Eles pagam para adquirir produtos de qualidade e é isso que esperam consumir quando compram um jornal, uma revista, ou quando assistem a um programa jornalístico na TV ou lêem notícias na internet.</p>
<p>O debate é mesquinhamente corporativo. Embora o Supremo Tribunal Federal já tenha decidido, por 8 votos a l, em 2009, que a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista é inconstitucional, o tema voltou à pauta graças a uma proposta de emenda constitucional apresentada pelo senador Antonio Carlos Valadares, do PSB, que estabelece de novo a obrigatoriedade do diploma.</p>
<p>A PEC foi aprovada em primeiro turno por 65 votos a 7 graças a um bem sucedido lobby de entidades sindicais e o novo PSD foi o único partido a fechar questão contra.</p>
<p>E exigência do diploma é uma velha história que nasceu com o decreto lei 972/69, baixado pelo regime militar, muito pouco interessado em facilitar a vida do jornalismo e dos jornalistas.</p>
<p>Então volta a discussão que já se dava por vencida: é preciso ter diploma para ser jornalista?</p>
<p>O ministro Gilmar Mendes, relator da decisão do STF de 2009, disse em seu parecer que “a formação específica em curso de jornalismo não é o meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”.</p>
<p>O senador Aloysio Nunes Ferreira, ao votar contra a PEC do senador Valadares, foi também incisivo: o jornalismo é “instrumento ligado à liberdade de expressão” e, portanto, “não cabe nenhum tipo de restrição” ao seu exercício.</p>
<p>Não existe nada na especialização do jornalista que exija conhecimentos técnicos específicos que não sejam adquiridos no exercício da profissão. Um mau médico pode matar, um mau engenheiro pode derrubar pontes, um mau enfermeiro pode trocar a medicação. Um mau jornalista pode no máximo maltratar a língua ou narrar mal os fatos, mas isso ele pode fazer com ou sem diploma.</p>
<p>Para o STF, “ a doutrina constitucional entende que as qualificações profissionais de que trata o art. 5º, inciso XIII, da Constituição, somente podem ser exigidas, pela lei, daquelas profissões que, de alguma maneira, podem trazer perigo de dano à coletividade ou prejuízos diretos a direitos de terceiros, sem culpa das vítimas, tais como a medicina e demais profissões ligadas à área de saúde, a engenharia, a advocacia e a magistratura, dentre outras várias.”</p>
<p>É evidente que um diploma de curso superior, de qualquer especialização humanista, só vai ajudar a melhorar a capacitação intelectual de qualquer jornalista.</p>
<p>A volta da discussão sobre o diploma é ociosa, inoportuna e corporativista.</p>
<p>Com ele, pretende-se apenas criar uma reserva de mercado para sindicatos sem clientela.</p>
<p>Nenhum diploma vai iluminar o jornalismo ou criar um Gabriel Garcia Marquez, um Mario Vargas Llosa, um Nelson Rodrigues, um Barbosa Lima Sobrinho.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 9/12/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>O jogo do gato e o rato</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 16:24:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O PT continua brincando de gato e rato no velho tema do controle social da mídia. A brincadeira muda de nome conforme a estação. O nome atual do folguedo é Marco Regulatório das Comunicações. Duas semanas atrás, o partido promoveu uma conferência nacional para debater o tema e convidou até mesmo especialistas em países-de-um-jornal -só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O PT continua brincando de gato e rato no velho tema do controle social da mídia. A brincadeira muda de nome conforme a estação.<span id="more-5915"></span></p>
<p>O nome atual do folguedo é Marco Regulatório das Comunicações. Duas semanas atrás, o partido promoveu uma conferência nacional para debater o tema e convidou até mesmo especialistas em países-de-um-jornal -só para dar palpites.</p>
<p>O especialista, inclusive, disse que entre um prato de comida e a liberdade é justo escolher um prato de comida. Não entrou, porém, em maiores detalhes sobre o que fazer no caso em que nenhuma das duas opções esteja disponível.</p>
<p>A brincadeira de gato e rato dá-se da seguinte forma: um graduado do partido diz que estão confundido regulação com censura, mas que não é nada disso. Regulação é só regulação, ninguém vai mexer nos conteúdos, não se preocupem, etc. e etc.</p>
<p>Outro graduado, ainda que despido momentaneamente das dragonas adquiridas por tempo de serviço dedicado à causa, fez o contraponto, no qual foi traído pelo inconsciente:</p>
<p>“Lamento que não tenha no Brasil um jornal também de esquerda, que seja a favor do governo, que em todos os países têm. Porque os proprietários de jornais são contra nós”.</p>
<p>No maniqueismo de bodega do sofisticado pensador, publicar notícias cujo conteúdo não seja especialmente apreciado pelo governo é ser “contra nós”.</p>
<p>Se houvesse jornais de esquerda, problemas como a corrupçao, por exemplo, não deixariam de existir, mas pelo menos não seriam publicados.</p>
<p>É o que se deduz da frase.</p>
<p>Como não existe nenhum entrave legal à criação de jornais que sejam favoráveis ao governo e ao PT, como quer o ex-graduado, é de se supor que o único impedimento à existência deles seja uma indisposição do mercado leitor a consumir informação chapa branca.</p>
<p>No jogo de gato e rato que o PT joga consigo mesmo nesse assunto, uma das principais armas é esconder ou disfarçar os reais objetivos pretendidos. O que é, afinal, regulação da mídia?</p>
<p>Para o ministro Paulo Bernardo, que acabou nem aparecendo no evento, é um assunto incômodo que fica melhor na gaveta, que é o lugar onde ele guardou bem guardado o anteprojeto que o ex-ministro Franklin Martins preparou durante a gestão passada.</p>
<p>A presidente Dilma já disse que o melhor controle social é o controle remoto e também não morre de entusiasmo pelo tema.</p>
<p>Mas os soldados do partido não precisam da anuência dos generais para a sua batalha. Enquanto os generais, como Leônidas, combatem à sombra, eles vão à luta.</p>
<p>Dando uma no cravo e outra na ferradura, alternando tapas e beijos, os atores dessa comédia petista do gato e do rato estão mesmo é atrás de seu sonho de uma noite de verão: ressuscitar o projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo, porque ele reúne aquilo que é a essência de seu credo ideológico: “Orientar, disciplinar e fiscalizar os meios de comunicação”.</p>
<p>Não terão uma noite de sono tranquilo enquanto não conseguirem isso.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 2/12/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Os trilhos da Copa</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Nov 2011 16:13:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando você começa a se acostumar com a idéia de que, apesar das evidências de que mentiu, o ministro Carlos Lupi continuará no cargo até a reforma ministerial, eis que surge na avenida um novo samba enredo. Enquanto o ministro que ama a presidenta está garantido por mais alguns meses, o outro, Mario Negromonte, das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando você começa a se acostumar com a idéia de que, apesar das evidências de que mentiu, o ministro Carlos Lupi continuará no cargo até a reforma ministerial, eis que surge na avenida um novo samba enredo.<span id="more-5853"></span></p>
<p>Enquanto o ministro que ama a presidenta está garantido por mais alguns meses, o outro, Mario Negromonte, das Cidades, que já andava na berlinda há alguns meses, é acusado agora de facilitar uma fraude que aumenta em R$ 700 milhões os gastos previstos para um projeto de mobilidade urbana a ser realizado em Cuiabá (MT), para a Copa do Mundo de 2014.</p>
<p>O truque foi relativamente simples: havia no ministério um processo para a construção de uma linha rápida de ônibus em Cuiabá, ao custo de R$ 500 milhões.</p>
<p>O governo de Mato Grosso alterou o projeto para a construção de um VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) que custaria R$ 1,2 bi, R$ 700 milhões a mais do que o projeto original.</p>
<p>Um parecer de 16 páginas produzido pela assessoria técnica do próprio ministério foi contra a construção do VLT não só por causa do custo, mas também por causa dos prazos e da falta de estudos comparativos entre as duas modalidades de transporte.</p>
<p>Com autorização do chefe de gabinete do ministro das Cidades, Cassio Peixoto, e com o aval do próprio ministro, o parecer contrário da área técnica foi substituído por um parecer favorável, que foi inserido no processo com o mesmo número de páginas do parecer original e com o mesmo número de nota técnica: 123/2011.</p>
<p>O novo parecer teria sido feito pela diretora de Mobilidade Urbana do ministério, Luiza Gomide Vianna.</p>
<p>Enquanto o PPS pedia ao TCU para que investigasse o caso, o Ministério das Cidades divulgava uma nota dizendo que a mudança de parecer teve “caráter técnico” e é “um procedimento normal”.</p>
<p>Diz ainda a nota do Ministério:</p>
<p>&#8220;Seguindo o rito processual da administração pública, os técnicos envolvidos no trabalho discutiram, analisaram e reavaliaram a pertinência ou não do novo modelo de transporte proposto pelo Governo do Estado, tendo manifestado opinião divergente ao parecer final, opinião essa que foi revisada e refutada tecnicamente no momento da conclusão da análise&#8221;.</p>
<p>O líder do governo, Cândido Vacarezza, teve a mesma reação que costuma ter sempre que aparece uma denúncia ou suspeita sobre a administração pública : é preciso ver se existe o documento, não podemos permitir linchamentos , e as platitudes já consagradas do gênero.</p>
<p>Segundo a tabela da Fifa, Cuiabá vai sediar quatro jogos pela série B da Copa do Mundo de 2014, e é bem possivel que conseguisse melhorar bastante a sua mobilidade urbana com ônibus de R$ 500 milhões sem precisar de trens de R$ 1,2 bilhão.</p>
<p>Uma coisa é certa: há mais mistérios entre a Copa do Mundo e as obras públicas do que sonha nossa vã filosofia.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 25/11/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Problemas de memória</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/problemas-de-memoria/</link>
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		<pubDate>Fri, 18 Nov 2011 14:50:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ele diz que não viajou no avião e depois diz que viajou mas não sabe bem se viajou porque não tem memória absoluta. Há uma foto dele descendo do avião no qual nunca subiu. Ele diz que não tem relações com o homem da ONG Pró-Cerrado mas viajou pelo Maranhão com o mesmo homem cujo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele diz que não viajou no avião e depois diz que viajou mas não sabe bem se viajou porque não tem memória absoluta.<span id="more-5798"></span></p>
<p>Há uma foto dele descendo do avião no qual nunca subiu.</p>
<p>Ele diz que não tem relações com o homem da ONG Pró-Cerrado mas viajou pelo Maranhão com o mesmo homem cujo nome ele se esforça para esquecer, numa encenação pública de fazer corar de vergonha qualquer Victor Mature de pedra.</p>
<p>Como ministro, ele deu aval à criação de sete sindicatos patronais fantasmas, um dos quais representando a indústria da construção naval do Amapá, ainda que o Estado jamais tenha visto um só estaleiro em toda sua existência.</p>
<p>Um auxiliar direto seu foi afastado acusado de extorsão.</p>
<p>Ao depor no Senado, ficou sabendo que recebeu três diárias e meia por uma viagem que não se lembra de ter feito, e com toda segurança afirmou que “tenho que ver se tem algum detalhe irregular, se tiver eu devolvo depois.”</p>
<p>Carlos Lupi já tinha espantado o País no começo da crise da sua pasta dizendo que “Duvido que a Dilma me tire, ela me conhece muito bem. Para me tirar, só abatido à bala”.</p>
<p>Um ministro que dissesse alguma coisa parecida em qualquer outro país do mundo provavelmente já estaria descansando em casa, cuidando da família e recolhido à sua vida particular. Lupi não. Usou seu peculiar talento retórico para desculpar-se com a pessoa que lhe garante o emprego, a presidente da República: “Presidente Dilma, desculpe se eu fui agressivo. Eu te amo”.</p>
<p>Num primeiro momento, a presidente parece ter se encantado com a declaração de amor e devolveu com um tenro “o passado já passou”.</p>
<p>Ao contrário do que aconteceu nos episódios anteriores da demissão de ministros dos Transportes, do Turismo, da Agricultura e dos Esportes (a demissão de Palocci da Casa Civil não entra nesta contagem porque no PT ele está longe de ser um campeão de popularidade), o partido do qual Carlos Lupi é presidente e manda- chuva licenciado, o PDT, não ameaçou cortar os pulsos. Pelo contrário: o presidente interino do partido, André Figueiredo, aconselhou-o a sair de fininho.</p>
<p>A blogosfera chapa-branca prestou a Lupi um apoio formal, o que naturalmente faz parte de suas atribuições funcionais, mas discreto e quase frio, sem aquele derramamento de emoções que envolveu a saída traumática de Orlando Silva, embrulhado numa espécie de Santo Sudário dos mártires da trama diabólica da imprensa golpista.</p>
<p>Lupi usou o padrão usual dos acusados daquilo que a chefe chama de “malfeitos”: acusou a imprensa e pediu as provas. Cadê as provas? Se além de todas as outras evidências, uma foto dele descendo do avião no qual disse jamais ter subido não for prova suficiente de que ele mentiu, o que seria uma prova, no seu entendimento?</p>
<p>Mentir pode não ser crime capitulado no Código Penal, mas no universo político onde o ministro transita, é mais do que pecado mortal. Ministros não podem mentir porque a mentira, ainda mais quando apanhada em flagrante, significa perda de confiança.</p>
<p>Se a presidente continuar achando que ainda assim o ministro merece a sua confiança, ela tem um problema. E o País também.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 18/11/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Meu reino por uma causa</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Nov 2011 14:45:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Um jovem é um ser imaculado por natureza, e por ser puro é inimputável. Antes de crescer, ele tem direito a uma cota de desatino que já lhe é concedida não só pela natureza mas pela má consciência dos adultos, que vêem neles a encarnação dos sonhos que perseguiram na juventude e abandonaram para tocar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um jovem é um ser imaculado por natureza, e por ser puro é inimputável.<span id="more-5743"></span></p>
<p>Antes de crescer, ele tem direito a uma cota de desatino que já lhe é concedida não só pela natureza mas pela má consciência dos adultos, que vêem neles a encarnação dos sonhos que perseguiram na juventude e abandonaram para tocar a maldita, prosaica e material vida.</p>
<p>Por isso é muito malvado e reacionário querer impor freios à natural energia criadora dos jovens.</p>
<p>É isso que faz, por exemplo, o repórter da TV Globo chamar de “meninos” meia dúzia de marmanjos jubilados que usam o campus da universidade para exercitar seu peculiar senso de democracia, onde 300 se acham no direito de dizer o que os outros 84.700 devem fazer ou pensar da vida.</p>
<p>É muito “libertador” querer expulsar do campus universitário uma polícia que foi chamada para reprimir o crime (e conseguiu reduzi-lo em quase 90%) mas que não pode aplicar a mesma lei a todos, porque, como sabemos, no nosso modelo de democracia, todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais que os outros.</p>
<p>A lei é para os comuns, e alguns vetustos senadores e alguns sobredotados estudantes universitários são incomuns &#8211; portanto, fora do alcance da lei.</p>
<p>Desde maio de 1968 a efervescência política juvenil foi alçada à categoria de pensamento, ainda que a memória daquela época não tenha deixado legados muito mais concretos do que a mitificação de alguns danny-le-rouges e alguns filmes épico-existenciais de Godard e Bertolucci.</p>
<p>O episódio da reitoria da USP está mais para uma estética J.B.Tanko do que uma estética Bertolucci, mas mesmo assim é compreensível que jovens ajam como jovens e demonstrem toda a sua monumental ignorância histórica comparando o chega-pra-lá da PM com a repressão da ditadura e chamando de “tortura” as duas horas de calorão forçado dentro de um ônibus.</p>
<p>O cômico quase desaparecimento de um aluno filho de pai militante, que esteve a ponto de transformar em mártir o pimpolho que estava bem protegido na casa da mamãe, encerrou com chave de ouro a épica jornada dos estudantes à procura de uma causa.</p>
<p>A desocupação da reitoria, em cumprimento a uma decisão judicial de reintegração de posse, foi executada com a devida serenidade e cautela pela tropa da PM, e os estudantes e seus apoiadores procuraram com minúcias um hematoma que fosse para transformar em bandeira, mas não conseguiram achar sequer um mísero arranhão para chamar de arbitrariedade ou violência. Um fiasco.</p>
<p>Ao ver aqueles meninos e alguns nem-tão-meninos privilegiados olhando para a polícia com o desdém que os oprimidos dedicam aos opressores, foi impossível não lembrar do intelectual comunista italiano Pier Paolo Pasolini e seu famoso poema sobre a Batalha do Valle Giulia, um embate entre policiais e estudantes da Universidade de Roma ocorrido em março de 1968, no contexto da revolta estudantil que abalou toda a Europa.</p>
<p>Naquela batalha, dizia o marxista Pasolini, ele simpatizava com os policiais, pois eles eram os verdadeiros filhos de famílias pobres, e os estudantes eram os filhos da burguesia.</p>
<p>A eles disse:</p>
<p>“Vocês são medrosos, inseguros, desesperados (muito bem)</p>
<p>mas sabem também como ser</p>
<p>prepotentes, chantagistas, seguros</p>
<p>prerrogativas pequeno-burguesas, amigos.”</p>
<blockquote><p><em> Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 11/11/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>Os lírios do campo</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 15:22:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem semeia ventos não colhe exatamente lírios do campo. As redes sociais, no Brasil, se transformaram ultimamente num tipo de lixeira político-ideológica onde todos os dias se lincham em primeiro lugar a verdade, em segundo lugar a razão, em terceiro lugar o respeito da convivência humana e, por último, mas nem por isso menos importante, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem semeia ventos não colhe exatamente lírios do campo. <span id="more-5669"></span></p>
<p>As redes sociais, no Brasil, se transformaram ultimamente num tipo de lixeira político-ideológica onde todos os dias se lincham em primeiro lugar a verdade, em segundo lugar a razão, em terceiro lugar o respeito da convivência humana e, por último, mas nem por isso menos importante, os resquícios de civilidade que deveriam reger uma sociedade aberta e democrática.</p>
<p>O espetáculo degradante é regido pelas turbas militantes que trocaram os debates sobre conceitos, valores, princípios e convicções numa jihad alucinada, onde o que importa não é convencer o outro mas destruir o inimigo.</p>
<p>A espessa estupidez dos que atribuem intenções racistas a uma frase coloquial e banal como “o ministro caiu do galho”, ou que realmente acreditam que um almoço com um embaixador transforma um jornalista em “espião”, ganha o inacreditável contraponto da estupidez de sinal trocado de pessoas que se regozijam com a doença do ex-presidente Lula como se ela fosse a manifestação de algum tipo de categoria política.</p>
<p>Não existe forma de expressão humana capaz de chocar tanto quanto a manifestação de indiferença- ou pior ainda, de regozijo &#8211; de um ser humano diante do sofrimento do outro.</p>
<p>O respeito diante do padecimento dos outros é um traço cultural importante da raça humana e às vezes é o que nos distingue de alguns irracionais.</p>
<p>Desejar o padecimento ou a aniquilação física de qualquer ser humano por razões politicas é uma vileza difícil de conceber. O uso político de uma doença é uma indignidade e uma canalhice que dificilmente encontrariam paralelo no vasto histórico das baixezas humanas.</p>
<p>Ponto e parágrafo.</p>
<p>Se o decoro recomenda a supressão da exploração política da doença, isso vale rigorosamente para os dois lados. Transformar o mau agouro em bandeira política é tão ultrajante quanto tentar mitificar a doença e transformá-la em valor ou estandarte triunfalista.</p>
<p>Reduzir tudo à literalidade das palavras empobrece e estupidifica não apenas o seu significado, encolhendo-o ao maniqueísmo mais raso, mas é capaz mesmo de interditar a validade de um debate como aquele sobre o SUS, que se abriu nas redes sociais a pretexto da doença do ex-presidente.</p>
<p>É evidente que Lula tem o direito de escolher onde, quando e como vai se tratar, pois ele, além do livre-arbítrio, tem as condições econômicas para arcar com o tratamento.</p>
<p>Pedir que o ex-presidente vá se tratar no SUS, é uma evidente figura de linguagem, um sarcasmo usado para ironizar discursos e afirmações que ele fez no passado e que seria melhor que não tivesse feito.</p>
<p>Isso é desrespeito?</p>
<p>Desrespeito não seria falar demais sem medir as consequências?</p>
<p>Desrespeito não seria interditar o direito do cidadão de lembrar que ele não é idiota e que ninguém tem o direito de usá-lo como consumidor passivo de demagogia e mentiras?</p>
<p>Desrespeito seria lembrar que um líder político não tem o direito de dizer que “a saúde no Brasil está a um passo da perfeição” sem um dia ser cobrado por isso?</p>
<p>Essa não é uma boa hora para essas cobranças?</p>
<p>Tanto quanto não é uma boa hora para gravar um vídeo chamando para o próximo comício.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publido no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 4/11/2011.</em></p></blockquote>
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		<title>O Quinto Homem</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Oct 2011 22:02:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sandro Vaia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A prova, onde está a prova? A guerrilha virtual das milícias ideológicas na internet passou 12 dias atirando desesperados torpedos contra seu alvo ficcional preferido, a mídia golpista, tentando salvar da morte anunciada o ministro do Esporte Orlando Silva, que foi posto a agonizar publicamente na Esplanada dos Ministérios até o golpe de misericórdia ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A prova, onde está a prova?<span id="more-5561"></span></p>
<p>A guerrilha virtual das milícias ideológicas na internet passou 12 dias atirando desesperados torpedos contra seu alvo ficcional preferido, a mídia golpista, tentando salvar da morte anunciada o ministro do Esporte Orlando Silva, que foi posto a agonizar publicamente na Esplanada dos Ministérios até o golpe de misericórdia ao cair da tarde da quarta-feira.</p>
<p>Difícil entender essa predileção quase sádica que o centro decisório do governo tem por prolongar a agonia pública de seus cadáveres políticos.</p>
<p>Deixar que o ministro fosse ao Congresso para falar sobre a Lei Geral da Copa exatamente no dia em que o Supremo Tribunal Federal aceitava um pedido do Procurador Geral da República para investigá-lo soou como uma inaudita maldade, quase uma falta de compaixão.</p>
<p>Quem quereria saber as opiniões de um ministro politicamente moribundo sobre um evento com o qual ele não tinha mais nada a ver?</p>
<p>A narrativa da militância dividiu-se em duas vertentes: a primeira, francamente decepcionada com a “fraqueza” da presidente Dilma, segundo seus intérpretes, impotente diante das “pressões da mídia golpista”, a quem teria se curvado covardemente; a segunda, insistindo no enredo da “falta de provas”, como se uma questão francamente politica fosse obrigada a seguir um script mais adequado à justiça criminal, uma instância a quem caberá entrar em cena no final do processo.</p>
<p>A gritaria desatinada simplesmente optou por ignorar a enxurrada de provas sobre o aparelhamento e o desvio de recursos do ministério para a mão (e os cofres) de ONGs suspeitíssimas e todas ligadas ao PCdoB, proprietário a porteiras fechadas de todas as instâncias do Ministério.</p>
<p>Os militantes insistiam na falta de provas de que o ministro teria recebido maços de dinheiro na garagem do prédio, como se a denúncia de malversação se resumisse a isso.</p>
<p>O ministro, eles achavam &#8211; e ainda acham &#8211; só poderia ser demitido se flagrado recebendo maços de notas.</p>
<p>Estranho critério de probidade. Todas as outras evidências apresentadas e documentadas pelos jornais, pela TV e pelas revistas e todas as provas amealhadas pela AGU e pelo TCU mostrando detalhadamente as fraudes nos convênios, não bastaram para os são tomés do PCdoB e seus aliados ocasionais do PT se conformassem com a demissão.</p>
<p>Nem mesmo o fato de que o denunciante do ministro, desqualificado como “bandido”, tenha sido favorecido por um segundo convênio quando o primeiro já estava sob investigação, conseguiu convencer os renitentes defensores do ministro de que havia algo de podre no reino da Dinamarca.</p>
<p>E lá se foi o quinto ministro indicado pelo ex-presidente Lula que a atual presidente foi obrigada a desalojar em apenas dez meses de governo.</p>
<p>Ele ainda conclamou os comunistas do B e o ministro a resistirem, para depois, diante das evidências do descalabro, sair discretamente de cena dizendo-se “enganado” pelos seus parceiros.</p>
<p>Apesar de todas as evidências de que o ME está sendo usado para engordar o caixa do partido, ele continuou nas mãos do PCdoB, por força do arranjo político de loteamento entre aliados que Lula implantou e Dilma não desmontou.</p>
<p>O fato de o novo ministro, Aldo Rebelo, ser dono de uma boa reputação moral não é garantia de que ele consiga desmontar o esquema que seu partido montou e do qual vem se locupletando.</p>
<blockquote><p><em>Este artigo foi originalmente publicado no <a href="http://oglobo.globo.com/pais/noblat/">Blog do Noblat</a>, em 28/10/2011.</em></p></blockquote>
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