Arquivos da Categoria: Manuel S. Fonseca

Quem dá o que tem no bolso…

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema. Ler Mais »

Bamboleiem-se

Não acreditem em mim, mas afianço-vos que o email foi inventado em 1913. Tinha a forma de memorando interno e a Universal Pictures fazia com eles um verdadeiro fogo de barragem entre os escritórios de Nova Iorque e Los Angeles. Ler Mais »

Ninguém manda nela

A última vaga reaccionária que anda a ver se acerta caneladas na liberdade artística chama-se “apropriação cultural”. Para os seus sicários, certos temas só podem ser tratados por artistas que deles tenham vivência identitária. Só cantaria o fado uma lisboeta branca, só pintaria os deuses indianos um pintor hindu, só um artista negro americano choraria o assassínio criminoso de outro negro por polícias brancos no Minnesota. Ler Mais »

O indissolúvel ménage à trois

Imaginem que Clark Gable, com cósmica bebedeira, espetava o carro a cem metros de um motel manhoso, na companhia de um irresistível par de pernas e de um ilegítimo palminho de cara. O estúdio dele, a MGM do poderoso Louis B. Mayer, mandava-lhe logo um pronto-socorro, Eddie Mannix. Ler Mais »

Para reacender a alma de Santo Agostinho

Parece que foi ele que matou ou mandou matar o Super-Homem. Já estou a falar de Eddie Mannix, que é a mesma coisa que agarrar um gato pelo rabo só para o assanhar. Ler Mais »

Um branco par de cuecas

“O realismo existe. É uma coisa.” É o que Harry Dean Stanton assevera – que é mais do que dizer – em Lucky, o mais belo filme do ano, garantem os meus olhos, coração e alma, se o velho Harry Dean não me convencesse de que a alma, ao contrário do realismo, não é uma coisa, logo não existe. Qual escola de Frankfurt, qual caneco, se posso também eu asseverar, este filme existe e é uma coisa. Ler Mais »

Deambulação maniqueia: o visível e o invisível

Há o visível e há o invisível. Temo que se queixem de algum exagero conceptual nestas crónicas. Ora, eu prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses dos últimos anos. Com um dedo aponto para Greta Garbo, com outro para Marilyn Monroe. Ler Mais »

Mas ontem no sofá

A cara era de trombalazanas. Charles Laughton se fosse cão seria um bulldog. Marlon Brando, se quis ser Don Corleone, teve de atafulhar as bochechas com algodão. Laughton tinha as bochechas cheias de Shakespeare e Old Vic. Era, como os actores que se amam a si mesmos, um actor difícil: amador, disse ele, profissionais são as putas. Ler Mais »

Um rosto pré-Big-Bang

Olhem para a cara de pedra de Buster Keaton. Pode parecer uma cara irresoluta. Ou de uma inexpressiva perplexidade. Ler Mais »

O obstetra de John Barrymore

O António, digo eu a toda a gente que me quer ouvir,
é o meu obstetra. Conhecemo-nos, não no consultório, mas nas salas de cinema de Tróia. Digo eu para facilitar. Estavam connosco a Antónia, minha mulher, de quem, por acaso, o António não é obstetra, que já bem basta que seja o meu.
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A angústia da despedida

Ninguém se despediu como Sócrates. Condenado pelos juízes, feito o discurso de adeus aos amigos, já a rude taça de cicuta à espera dos seus lábios, as últimas palavras de Sócrates rompem entre a vida e a morte: “Agora é tempo de partir. Eu para morrer, vós para viver. Quem vai para melhor nenhum de nós o sabe, sabem-no talvez os deuses.” Ler Mais »

Cortem as alusões intelectuais

Nem a mãe gostava dele. Em Dead End, um filme de William Wyler, Bogart é um assassino impiedoso. Acompanhado por um dos seus facínoras, regressa ao bairro onde cresceu, na busca nostálgica de um pingo perdido de afecto. Ler Mais »

A literatura contra o cinema

No cinema, não há memória de ninguém ter amado um burro como Anne Wiazemsky amou Balthazar. O filme, Au Hasard, Balthazar, realizou-o Robert Bresson, inspirando-se no Idiota de Dostoievsky. Ler Mais »

A humilde voz de Charles Laughton

Charles Laughton é para aí avô de Francis Coppola. Em 1940, vestindo a pele de Tony Patucci, o actor Charles Laughton foi dono de uma vinha em Napa Valley. Coppola tinha então menos de um ano e vivia em Detroit, longe de saber o que era um cacho de uvas e uma garrafa de vinho e mais longe ainda de saber o que o século XXI faria a Detroit. Ler Mais »

Uma noite no Soho

Hoje não vou ao cinema. Iria, se me prometessem que lá estavam Francis Bacon e Lucian Freud. Digo-vos quem são. São dois tipos que se revoltaram contra o futuro. Haverá quem diga que são ou eram dois pintores e eu, com a arrogância dos ignorantes, insisto: eram dois tipos sentados pantagruelicamente no presente. Comiam o presente, embebedavam-no e fodiam-no como quem respira, desvairado. Jogavam nas corridas, andavam à porrada, mergulhavam em champagne e caía-lhes o corpo exausto nas cavalariças, ao lado dos cavalos que tanto amavam. Ler Mais »