Arquivos da Categoria: Manuel S. Fonseca

A mulher irretocável

Tenho falado muito com jovens. O facto de eu usar chapéu facilita. No meu tempo, o chapéu preto era reaccionário, pidesco até, se ainda alguém sabe o significado destes coxos qualificativos. Havia uma excepção, o chapéu na cabeça de Bogart. A cabeça de Bogart enchia qualquer peito de admiração. Ler Mais »

A culpa é de Chuck Norris

Estimado Woody Allen, eu pecador me confesso. Parte da culpa é minha. Quando o senhor Castello Lopes, nos meus tempos de director de programas, tentava vender à SIC os teus filmes, eu propunha-lhe sempre comprá-los por um terço do preço que custava um Chuck Norris. Ui, o teu orgulho artístico ferido. Ler Mais »

Filmes, marmelada e um funeral

Quem frequenta salas de cinema é suspeito. Exige-se-lhe que responda, com cara de Buster Keaton, a este questionário slapstick à la Proust iniciado a semana passada. Ler Mais »

Somos todos arguidos

Mas quem é que não vai ao cinema para matar ou morrer? No cinema abraça-se, beija-se, acaricia-se, come-se. Come-se tudo. O cinema é a cama de toda a virgindade: ali se perde, ali se volta a ganhá-la. Ler Mais »

A mulher imperseguível

Não sei o que pensava Camões, mas eu estou farto de mudança: invoco um tempo definitivo.  Não quero que nada mude. Num filme, Baisers Volés, de Truffaut, havia um detective que anunciava esse tempo sempre igual, perene. Ler Mais »

Os benefícios da calacice

Já houve um mundo perfeito, um tempo em que a palavra “senhor” não saíra ainda do dicionário. E era impossível, na Cinemateca de João Bénard, pensarmos neles sem lhes juntar a então respeitável qualificação: o senhor Alberto e o senhor Gil. Eram mais unha com carne do que Jack Lemmon e Walter Matthau. Lemmon e Matthau dançaram juntos a rumba, foram jornalistas siameses em The Front Page, mas “buddy, buddy” foram, nas suas excelsas vidas, o senhor Alberto e o senhor Gil. Ler Mais »

Vi-lhes a alma

Não podemos ser todos Sócrates, pensou David E. Kelley, o produtor de Big Little Lies, pequena mini-série ovo, com clara televisiva e gema cinematográfica protegidas por robusta casquinha social. Não vi melhor este ano. Ler Mais »

Quem dá o que tem no bolso…

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema. Ler Mais »

Bamboleiem-se

Não acreditem em mim, mas afianço-vos que o email foi inventado em 1913. Tinha a forma de memorando interno e a Universal Pictures fazia com eles um verdadeiro fogo de barragem entre os escritórios de Nova Iorque e Los Angeles. Ler Mais »

Ninguém manda nela

A última vaga reaccionária que anda a ver se acerta caneladas na liberdade artística chama-se “apropriação cultural”. Para os seus sicários, certos temas só podem ser tratados por artistas que deles tenham vivência identitária. Só cantaria o fado uma lisboeta branca, só pintaria os deuses indianos um pintor hindu, só um artista negro americano choraria o assassínio criminoso de outro negro por polícias brancos no Minnesota. Ler Mais »

O indissolúvel ménage à trois

Imaginem que Clark Gable, com cósmica bebedeira, espetava o carro a cem metros de um motel manhoso, na companhia de um irresistível par de pernas e de um ilegítimo palminho de cara. O estúdio dele, a MGM do poderoso Louis B. Mayer, mandava-lhe logo um pronto-socorro, Eddie Mannix. Ler Mais »

Para reacender a alma de Santo Agostinho

Parece que foi ele que matou ou mandou matar o Super-Homem. Já estou a falar de Eddie Mannix, que é a mesma coisa que agarrar um gato pelo rabo só para o assanhar. Ler Mais »

Um branco par de cuecas

“O realismo existe. É uma coisa.” É o que Harry Dean Stanton assevera – que é mais do que dizer – em Lucky, o mais belo filme do ano, garantem os meus olhos, coração e alma, se o velho Harry Dean não me convencesse de que a alma, ao contrário do realismo, não é uma coisa, logo não existe. Qual escola de Frankfurt, qual caneco, se posso também eu asseverar, este filme existe e é uma coisa. Ler Mais »

Deambulação maniqueia: o visível e o invisível

Há o visível e há o invisível. Temo que se queixem de algum exagero conceptual nestas crónicas. Ora, eu prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses dos últimos anos. Com um dedo aponto para Greta Garbo, com outro para Marilyn Monroe. Ler Mais »

Mas ontem no sofá

A cara era de trombalazanas. Charles Laughton se fosse cão seria um bulldog. Marlon Brando, se quis ser Don Corleone, teve de atafulhar as bochechas com algodão. Laughton tinha as bochechas cheias de Shakespeare e Old Vic. Era, como os actores que se amam a si mesmos, um actor difícil: amador, disse ele, profissionais são as putas. Ler Mais »