Ulisses ou Polifemo

Tenho um pingo de piedade por quem se monta na mesma verdade por toda a vida e nunca mais lhe sai de cima. Como Lady Godiva, a pureza a servir-lhes de nudez, Salazar e Cunhal tiveram a mesma equestre e unilateral relação com a verdade única e imutável. Mahershalalhashbaz Gilmore é um tipo de cavaleiro anti-salazarista e anti-cunhalista. O cavaleiro de uma só montada corre o risco de nunca saber se vai, quixotesco, em cima de um cavalo ou de um burro. Mahershalalhashbaz já montou o burro e o cavalo, e nem ele jura que tenha sido exactamente por essa ordem. Continue lendo “Ulisses ou Polifemo”

Aleijados da cabeça ou do coração?

Quem é que daria um milhão de dólares para matar qualquer um de nós? Ninguém, em seu pleno juízo, claro. É o que pensa James Bond, quando um dos seus superiores o avisa de que uma organização sinistra oferece essa redonda soma pelo seu belo cadáver. “Mas quem é que pode querer matar-me?” E o boss responde-lhe: “Maridos ofendidos, chefs ultrajados, alfaiates humilhados, a lista é interminável.” Continue lendo “Aleijados da cabeça ou do coração?”

O fantasma faleceu

Só se morre em parte. E nem falo dos gentis fantasmas que vinham de visita, nesse tempo em que os animais falavam e o mundo parecia ser simples. Seja pelo enterro de Shakespeare, autor branco e masculino, seja pelo fim do cinema clássico americano ou pelo insustentável aquecimento global, o fantasma faleceu. Continue lendo “O fantasma faleceu”

A ilha suicida

Eis o que sendo humano me é estranho: o suicídio. Jamais me passou pela cabeça. Ora, há cem anos, a cabeça de Dorothy Parker era uma ilha suicida. Uma ilha batida por terríveis ondas do tamanho das ondas da Nazaré. Continue lendo “A ilha suicida”

Prazer proibido

Há rios de champanhe na vida de Orson Welles. E eu devia ter escrito “champagne”, sem cedências ortográficas, com o mesmo imperativo com que Welles o exigia estupidamente gelado, quando, confessando-se a Deus, disse: “Há três coisas intoleráveis na vida, café frio, champanhe morno e mulheres sobrexcitadas.” Continue lendo “Prazer proibido”

Rosebud, um pequenino orgulho

Botão de rosa. Falasse ele português, era o que teria suspirado Charles Foster Kane na hora da sua morte, ámen, num dos mais belos começos de um filme em toda a história do cinema. A nebulosa morte já a agasalhá-lo, “Rosebud” é a palavra inglesa que lhe sai da boca que o bigode exangue cobre. Quem viu o filme já sabe que, no final, se descobrirá ser “Rosebud” a evocação da infância desse homem, que foi dono daquilo tudo. Evocação da neve e de um trenó, irrepetível momento de inocência e plenitude. Mas será mesmo esse o botão de rosa?  Continue lendo “Rosebud, um pequenino orgulho”

A infalibilidade do povo inglês

Faça-se justiça. Há uma infalibilidade que roça ombros com a infalibilidade do Papa, a infalibilidade do povo inglês. E já estou a ser de um intolerável sectarismo. A soletrada humanidade de Francisco tem feito da sua infalibilidade um sussurro. Pelo contrário, a energia ululante de Boris Johnson faz da infalibilidade inglesa o novo Big Bang. Continue lendo “A infalibilidade do povo inglês”

Roubos e carnificinas

Será que, hoje, se podia escrever a história dos roubos e carnificinas dos mais mal-afamados piratas dos últimos vinte anos como a que escreveu o capitão Charles Johnson, no século XVIII? Atrevam-se a dizer-me um nome que, olhos nos olhos, faça frente ao de um Barba Negra! Continue lendo “Roubos e carnificinas”

Quem construiu o muro de Berlim?

É preciso gritar para corrigir a História. Quem construiu o muro de Berlim foi o cineasta Billy Wilder. Em 1961, no último estertor da Hollywood clássica, Wilder filmou One, Two, Three em Berlim e a vertiginosa velocidade das peripécias do filme forçou as pobres autoridades soviéticas – só podia, caro Jerónimo! – a proteger as cândidas almas germânicas dos cidadãos de Berlim Leste. Continue lendo “Quem construiu o muro de Berlim?”

Zé Mário, qual é a tua, ó meu?

Para onde foi, para tão longe, o Zé Mário que hoje nos deixou? Estava eu sentado, em Luanda, nos meus 17 anos, e quem me mostrou o primeiro álbum dele foi o Carlos Brandão Lucas. O nosso grande patrão Carlos, o António Macedo, o Artur Neves e o Emílio Cosme tinham-me adoptado e metido no programa Equipa, da Emissora Católica de Angola. E puseram-me a ouvir, e a Luanda inteira, o “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Continue lendo “Zé Mário, qual é a tua, ó meu?”

Talvez Umberto Eco venha almoçar

O que é que separa cada um de nós, condoídos mortais, de Umberto Eco? Vejamos, juraria que Eco ia gostar de comer uma cabeça de garoupa grelhada no Verde Gaio, como a que os meus amigos Manolo Bello, Francisco Balsemão e Pedro Norton partilharam comigo com a promessa de repetirmos ainda por cumprir. Umberto Eco havia de se lamber e relamber com o fondue de mariscos e peixes do Go Juu, ao lado do editor amigo Guilherme Valente ou do mais cinéfilos dos cirurgiões, o meu camarada António Setúbal. Continue lendo “Talvez Umberto Eco venha almoçar”

O prodigioso peito de Jane Russell

Se o gordinho Arbuckle não tivesse violado a inocente Virgina Rappe, se o realizador e actor William Desmond Taylor não tivesse sido assassinado com um tiro nas costas por sabe-se lá quem, talvez o cinema americano nunca tivesse adormecido à sombra do Código Hays. Escândalos, tiros, drogas e violações atraíram as moscas da Imprensa cor-de-rosa e os mil gritos das ligas de decência sobre a Hollywood dos anos 20. Continue lendo “O prodigioso peito de Jane Russell”

Sutiãs e négligés

Marilyn Monroe telefonou para casa de Billy Wilder. Atendeu-a a mulher dele. Com aquela voz que provocava arrepios a um eucalipto, pinheiro manso ou até a um rijo carvalho, Marilyn disse-lhe, “diga ao seu marido que se vá…” e usou como ponto de exclamação a expletiva palavra inglesa que começa por “f” e tem quatro impronunciáveis e por vezes aprazíveis letrinhas. Continue lendo “Sutiãs e négligés”

Pesca à linha

Nesse tempo ainda se ia à pesca. Foi há menos de um século, começo dos anos 30, que o escritor William Faulkner e o realizador Howard Hawks foram à pesca. Leva­ram o actor Clark Gable. Gable não sabia que Faulkner era um escritor, mas cheirou-lhe a inte­lec­tual e perguntou quem eram os melho­res escri­to­res. “Hemingway, Willa Cather, Tho­mas Mann, John dos Pas­sos e eu” res­pon­deu Faulk­ner, incluindo-se, sem falsa modés­tia. Gable ficou de boca aberta: “Você escreve, Mr. Faulk­ner?” “Sim, Mr. Gable. E o senhor o que faz?” Continue lendo “Pesca à linha”

De canhão apontado

Tiananmen é uma criação platónica do meu amigo Victor. A vagarosa humanidade abriu os olhos, espantada, em 1989, para os protestos na poética Praça da Paz Celestial, em Pequim. E abateu-se sobre as nossas almas o silêncio frio que precede a tragédia, quando um solitário cidadão chinês, singela camisa e calça, opôs a sua humilde fragilidade tolentina ao poder dos explicativos tanques que o comité central mandou para dissuasiva conversa com o povo da rua. Continue lendo “De canhão apontado”