Um tombo do Entroncamento

O seu bigode tinha todos os traços dos ideais republicanos: dois arcos reflexivos, pontas enroladas a apontar o céu, enfim, uma andorinha de asas abertas a decorar o lábio superior. Este é o bigode de Paul Deschanel e o voto dos eleitores fez desse bigode e de Deschanel o Presidente de França por sete meses e poucos dias. Continue lendo “Um tombo do Entroncamento”

O descanso eterno dos ricos

A esmagadora maioria dos ricos só sabe fazer de ricos. Atrevo-me a dizer: mesmo os que um dia já foram pobres. E perdoem-me se não falo aqui do riso de Berardo. Já não há nele, no seu soletrado riso, cordão umbilical que o ligue à ancestral humildade, à genuína humanidade do pobre. Eis o que interessa, há um rico que ficou rico a fazer de pobre: Charlie Chaplin. Continue lendo “O descanso eterno dos ricos”

As bombas atómicas de Palomares

É que nem Deus aceitava. Francisco lembra-se. Humilde e cristão, chegou-se a Nosso Senhor com um prato de vermelhíssimos camarões de Palomares: “Aceita Senhor, Bom Deus!” E logo o poliglota patriarca das barbas, com um vozeirão que tomara Pavarotti, declinou: “Pues, Paco, hijo mio, no gracias, que te hagan buen provecho.” Continue lendo “As bombas atómicas de Palomares”

Apologia da fake-news

Todo o santo ser humano gosta de mentir. A mentira é a verdadeira medida da nossa santidade. Ao mais acabado campeão da verdade sempre diremos, transforme-se o meu amigo num veículo automóvel e meta a verdade no porta-bagagens. Continue lendo “Apologia da fake-news”

A coisa em si

A imaginação humana é esfomeada e vai com toda a sede ao pote. Não lhe chega o feijão com arroz da realidade. Ponham-se os olhos em Jean-Baptiste Botul. Ninguém sabe nada dos seus 51 anos de vida, de 1896 a 1947. Ora, nem todo o ouro do Banco de Portugal pagaria a riqueza da sua existência. Continue lendo “A coisa em si”

O paraíso

Tive um vislumbre do que é o paraíso. Tinha vinte anos, uma das melhores idades para se ver o paraíso, e a primeira coisa que descobri foi que, no paraíso, Deus primava pelo absentismo. Não estava lá. Continue lendo “O paraíso”

Orgulhosamente só

O japonês Hirō Onoda tinha a mesma impotência da ideia fixa de um António de Oliveira Salazar, de um Álvaro Barreirinhas Cunhal. A impotência da férrea ideia única converte um homem num Hércules, num imbatível Aquiles. Continue lendo “Orgulhosamente só”

O CEO e o taco de baseball

Não me digam, com boca de raiva, que era um gangster, que me obrigam a gritar a clamorosa verdade: era um benemérito. Espanta-me até que André Veríssimo, director do nosso Jornal de Negócios, não tenha já dedicado uma separata ao maior CEO do século XX, Alphonse Gabriel Capone. Continue lendo “O CEO e o taco de baseball”

Eu era para ser Papa

Não sei se comece pela orgia, se pela minha professora primária. Sabia lá eu o que era uma orgia e já o áugure romano que era a Dona Emília, minha iluminada professora na Missão de São Paulo, em Luanda, antevia que eu seria Papa. Nem padre, nem bispo, sequer cardeal, eu entraria, como Chalana aos 17 anos, no onze inicial, directamente para Papa. Continue lendo “Eu era para ser Papa”

A corda ao pescoço

A multidão exulta com a morte dos outros. Em Paris, na Place de Grêve, até ao século XVIII, a multidão festiva ululava por mais condenados. É daí, dessa multidão ociosa, desempregada e de mãos nos bolsos, que vem, em ínvia etimologia, a palavra greve. O último poeta que essa multidão gulosa e gourmet viu arder foi Claude Le Petit, condenado à fogueira, por ter escrito um voluptuosamente obsceno “Bordel das Musas”. Continue lendo “A corda ao pescoço”

Farda, tiro e queda

Caiu um grão de pimenta na minha vida. E dois de mostarda, já agora. Naquele tempo tinha dezanove anos e transitei, mais com um suspiro do que com um estrondo, de acólito a guarda vermelho, ou seja, do catolicismo progressista para o maoismo. Continue lendo “Farda, tiro e queda”