Espanquem-me, sou um privilegiado!

Bret Weinstein tem a cara porreira e barbuda de esquerda que a esquerda tinha quando eu era de esquerda. Sejamos claros, Bret, professor de biologia na universidade americana de Evergreen, é de esquerda. Apoiou Bernie Sanders, fez músculo pelos ocupas de Wall Street. Fê-lo em nome da razão e da justiça social. Olha-se para a cara de Bret e apetece ir beber copos com ele. Continue lendo “Espanquem-me, sou um privilegiado!”

Larvas sociais

Nasceu no bairro de má fama de Filadélfia de onde vem o Rocky dos filmes. Tinha também punhos de pugilista, que usava sem cerimónia. Distingue-o, e talvez já seja eu a fazer-me interessante, a blenorragia ter sido o eixo da sua vida. Ia falar do cão francês, mas adiante. Continue lendo “Larvas sociais”

Vão-se lá fender

Ninguém voltará a pintar a mulher nua. A dulcíssima indolência carnal das “Banhistas” e das “Grandes Banhistas”, que Pierre-Auguste Renoir pintou há mais de cem anos, é varrida com escândalo para baixo do tapete pelo austero progressismo de género da revista New Yorker. Continue lendo “Vão-se lá fender”

Dá-me o teu sofrimento

Andava ele a matar Deus quando a conheceu. E nem foi ele que a descobriu, mas um Espírito Santo de orelha, o seu amigo Paul Rée. Adiante hei de falar eu da afrontosa trindade que juntos incarnaram. Agora apresento-os: ele é o filósofo Friedrich Nietzsche e ela é Lou Salomé, russa-alemã, romancista, poeta, filósofa, mais tarde psicanalista. Continue lendo “Dá-me o teu sofrimento”

Uma mulher

Nadavam nuas no Danúbio. E antes de falar de Hitler ou de Simone de Beauvoir, digo já os nomes dessas americanas que nadavam nuas ali perto de Budapeste. São mulheres mortas, mas estavam vivas nos anos 20 do século passado. Passaram cem anos e custa imaginar, à nossa vigilância policialmente correcta, a líquida liberdade de uma poeta, Edna St. Vincent Millay, e de uma jornalista, Dorothy Thompson, nesses anos em que nos querem fazer crer que a mulher ainda não existia. Continue lendo “Uma mulher”

As duas metades de um corpo

Quem cantou o Sexo Todo Poderoso foi Edna St. Vincent Millay. Cantou-o em verso e em público, na cama e fora da cama. A mãe dela, Cora, despachou um pai impertinente e, sozinha, criou Edna e as irmãs com hinos à natureza humana. Com a franqueza e sinceridade que nenhum ministro das finanças, nem mesmo o nosso heróico Centeno, há-de ter, Cora disse isto um dia: “Sou uma slut e criei as minhas filhas para serem umas sluts.” Continue lendo “As duas metades de um corpo”

Tanta vida, tanta morte

É rara a pessoa que só morre uma vez. Até James Bond nos aconselha a viver duas vezes para podermos morrer outras tantas. Mas ninguém morre tanto como o escritor. O escritor morre em cada personagem, falece-lhe a vida a cada romance que acaba. Machado de Assis morreu em Brás Cuba e foi já a sua finada mão a escrever essas memórias póstumas. Com o fino humor que só quem morreu tem. Continue lendo “Tanta vida, tanta morte”

Não posso nem ver-te

Cortou-a em pedaços. Com um machado. William Kemmler era atarracado e tão bêbado como pai e mãe, imigrantes alemães, a quem o pesado álcool abreviou a escassa vida. A 29 de Março de 1888, num bairro da lata de Buffalo, no estado de Nova Iorque, Kemmler acordou com aquela ressaca bolsonara e estado de espírito trumpiano de não posso nem ver-te, quanto mais ouvir-te. Continue lendo “Não posso nem ver-te”

A mulher casada

Nicolas um ano antes do fim

Matou-se. Lançou-se de um terraço, em Antibes. Era órfão, exilado e príncipe russo. Pintor sobretudo. Do terraço fatal via-se o mar, essa oscilante antecipação da eternidade. Continue lendo “A mulher casada”

Nunca casou comigo

As duas mulheres levantam-se e dirigem-se à porta. Não é uma porta qualquer. É uma porta que abre para uma rua nova-iorquina dos anos 30. Qual das duas mulheres, Dorothy Parker ou Clare Boothe Luce, sairá primeiro? Qual delas dará prioridade à outra depois de uma primeira conversa que mais parecia uma venenosa batalha de talentos? Continue lendo “Nunca casou comigo”

É futebol a dor que deveras sentes

Ele era a antítese de Marilyn Monroe. E repare-se, nem sequer estou a falar de beleza, mas só da insignificância a que chamamos confiança em si mesmo. A confiança de Carlos Kaiser em si mesmo esgotaria a lotação de qualquer estádio. Mesmo a do Maracanã. Continue lendo “É futebol a dor que deveras sentes”

Se ainda têm um coração

Se ainda bate um coração no peito dos leitores do Jornal de Negócios, bebam-me estas lágrimas. São as lágrimas da mãe de Joseph Cyr. É um dia de Outono de 1951 e que mãe não choraria ao ver o nome do seu filho desenhado num jornal, a letras generosas, contando como ele, Joseph Cyr, cirurgião, na insidiosa guerra da Coreia, a bordo de um destroyer canadiano, em pleno deck e o céu por testemunha, operara três norte-coreanos, um deles com uma bala a tricotar-lhe o coração, salvando-os da nefanda morte. Essa é a mais franciscana das nobrezas: salvar o próprio inimigo. Continue lendo “Se ainda têm um coração”

Não matarás!

O quinto mandamento, versão talmúdica ou católico-romana, era uma auto-estrada por onde Eugen Weidman entrava, imparável, a zunir e em contramão. Não matarás! Mas Eugen matava, matou com gosto, e mataria sempre e mais se não lhe têm posto o corpinho com dono. Continue lendo “Não matarás!”

Para a boca, só de Paris

De François Villon, poeta francês do século XV, não há selfies e sabe-se tão pouco. Orfão de pai, nasceu estava a cleresia a atirar a milagrosa Joana d’Arc para a fogueira. Eram maus tempos para recalcitrantes e um patrono generoso enfiou Villon na Faculdade de Paris, com o objectivo salutar de que ele, no futuro, fosse dos que queimam e não dos que ardem. Continue lendo “Para a boca, só de Paris”