Arquivos da Categoria: Manuel S. Fonseca

A noite e o riso

Gosto tanto do riso que rasga a insossegada noite. O senso comum reclama o silêncio nocturno. Peço ao senso comum a mesmíssima desculpa que peço a Shakespeare.  Ler Mais »

A bomba atómica

Talvez explodisse a uma fulgurantíssima terça-feira. Ou a um domingo, apanhando a família a comer caranguejos, na casinha colonial que tínhamos em pleno musseque Sambizanga. Estava para explodir a bomba atómica que apagaria da face da terra a afrodisíaca insatisfação da humanidade. Ler Mais »

Deus já foi um Eusébio cósmico

Tenho uma saudade estrábica da missa de sábado às sete da tarde. Toda a gente sabe que a saudade tem problemas oftalmológicos, mas quem é que ainda sabe o que era a missa de sábado, que já valia como missa dominical, abrindo-me as portas a um domingo inteiro de praia, colonial e tropical, na Ilha de Luanda, ou nos mangais do km 36, antes do Miradouro da Lua? Ler Mais »

A mulher irretocável

Tenho falado muito com jovens. O facto de eu usar chapéu facilita. No meu tempo, o chapéu preto era reaccionário, pidesco até, se ainda alguém sabe o significado destes coxos qualificativos. Havia uma excepção, o chapéu na cabeça de Bogart. A cabeça de Bogart enchia qualquer peito de admiração. Ler Mais »

A culpa é de Chuck Norris

Estimado Woody Allen, eu pecador me confesso. Parte da culpa é minha. Quando o senhor Castello Lopes, nos meus tempos de director de programas, tentava vender à SIC os teus filmes, eu propunha-lhe sempre comprá-los por um terço do preço que custava um Chuck Norris. Ui, o teu orgulho artístico ferido. Ler Mais »

Filmes, marmelada e um funeral

Quem frequenta salas de cinema é suspeito. Exige-se-lhe que responda, com cara de Buster Keaton, a este questionário slapstick à la Proust iniciado a semana passada. Ler Mais »

Somos todos arguidos

Mas quem é que não vai ao cinema para matar ou morrer? No cinema abraça-se, beija-se, acaricia-se, come-se. Come-se tudo. O cinema é a cama de toda a virgindade: ali se perde, ali se volta a ganhá-la. Ler Mais »

A mulher imperseguível

Não sei o que pensava Camões, mas eu estou farto de mudança: invoco um tempo definitivo.  Não quero que nada mude. Num filme, Baisers Volés, de Truffaut, havia um detective que anunciava esse tempo sempre igual, perene. Ler Mais »

Os benefícios da calacice

Já houve um mundo perfeito, um tempo em que a palavra “senhor” não saíra ainda do dicionário. E era impossível, na Cinemateca de João Bénard, pensarmos neles sem lhes juntar a então respeitável qualificação: o senhor Alberto e o senhor Gil. Eram mais unha com carne do que Jack Lemmon e Walter Matthau. Lemmon e Matthau dançaram juntos a rumba, foram jornalistas siameses em The Front Page, mas “buddy, buddy” foram, nas suas excelsas vidas, o senhor Alberto e o senhor Gil. Ler Mais »

Vi-lhes a alma

Não podemos ser todos Sócrates, pensou David E. Kelley, o produtor de Big Little Lies, pequena mini-série ovo, com clara televisiva e gema cinematográfica protegidas por robusta casquinha social. Não vi melhor este ano. Ler Mais »

Quem dá o que tem no bolso…

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema. Ler Mais »

Bamboleiem-se

Não acreditem em mim, mas afianço-vos que o email foi inventado em 1913. Tinha a forma de memorando interno e a Universal Pictures fazia com eles um verdadeiro fogo de barragem entre os escritórios de Nova Iorque e Los Angeles. Ler Mais »

Ninguém manda nela

A última vaga reaccionária que anda a ver se acerta caneladas na liberdade artística chama-se “apropriação cultural”. Para os seus sicários, certos temas só podem ser tratados por artistas que deles tenham vivência identitária. Só cantaria o fado uma lisboeta branca, só pintaria os deuses indianos um pintor hindu, só um artista negro americano choraria o assassínio criminoso de outro negro por polícias brancos no Minnesota. Ler Mais »

O indissolúvel ménage à trois

Imaginem que Clark Gable, com cósmica bebedeira, espetava o carro a cem metros de um motel manhoso, na companhia de um irresistível par de pernas e de um ilegítimo palminho de cara. O estúdio dele, a MGM do poderoso Louis B. Mayer, mandava-lhe logo um pronto-socorro, Eddie Mannix. Ler Mais »

Para reacender a alma de Santo Agostinho

Parece que foi ele que matou ou mandou matar o Super-Homem. Já estou a falar de Eddie Mannix, que é a mesma coisa que agarrar um gato pelo rabo só para o assanhar. Ler Mais »