Arquivos da Categoria: Manuel S. Fonseca

Ela cospe-lhe!

Eu já vi Michelle Pfeiffer lavar os dentes. Al Pacino também. Tanta intimidade requer uma confissão: lembro que tentei encavalitar-me na cadeira da primeira fila com a mesma encantada displicência com que ele se encostava à porta da casa de banho dela. Ler Mais »

Xé, minino

Ouvimos a palavra “ilha” e sacamos logo da pistola que dispara a velha pergunta: “O que levavas para uma ilha deserta?”. Como se as toneladas de areia e solidão de uma ilha, as palmeiras que o vento finta, pudessem ser humanizadas pela bagagem de livros ou filmes, um disco, o ocioso tabuleiro de xadrez do náufrago metafísico. E Trump? Levaria Melania? Feito Robinson Crusoé, sozinho e a água de coco, Trump deixaria entrar na ilha um Sexta-Feira refugiado? Ler Mais »

Uma bala entre os olhos

O actor Lee van Cleef, em O Bom, o Mau e o Vilão, era senhor do seu tempo e das suas palavras. A lentidão dele enervava o público italiano e o seu silêncio exasperava-o. Nas plateias de Roma, durante a projecção, gritava-se: “Stronzo, estás à espera de quê para falares?” Ler Mais »

A impertinente falha técnica

Crónicas atrás, ignorando-lhe o carpo, metacarpo, pus na minha mão direita o tarso, metatarso, que fui cruamente arrancar ao pé do mesmo lado. Ou seja, meti os pés pelas mãos. Não admira que me tenha estatelado na calçada molhada de Lisboa. Pois bem, podia chover a cântaros ou até cães e gatos, que a actriz e ginasta Debbie Reynolds, com os tarsos, metatarsos que tinha, jamais cairia. Ler Mais »

O deleite de Hitchcock

Somos todos Cary Grant. Já vamos a meio do filme e ainda não sabemos em que história estamos enfiados. Nem sequer que personagem andamos a representar. Ler Mais »

Eu vejo pessoas mortas

zzzzmanuel

Como o pequeno Haley Joel Osment, em Sixth Sense, também eu vejo pessoas mortas. Os primeiros mortos entraram-me autocarro dentro, em 1974. Três mortos das noites anteriores de tiros, medo e ódio nas fronteiras raciais dos musseques de Luanda. Ler Mais »

Com a bênção de Hemingway

zzmanuel1

Não eram de se render. Marlene Dietrich não se rendeu a Hitler, Jean Gabin não se rendeu à pata nazi, na Paris ocupada. Juntou-os a América, que ainda não sabia se ia ou não à guerra. Ou talvez tenha sido um involuntário Hemingway a apresentá-los, num selecto clube de Nova Iorque. Ler Mais »

Veste-me essas calças!

zzmanuel1-550

Steve Rowland já tinha as calças bem puxadas para baixo quando descobriu quem ela era. Steve estava de corpo curvado, a cintura das Levis a passar os joelhos, o rabo graciosa e expectantemente erguido, e soube então quem ela era. Ler Mais »

O colonialismo caiu na lama

zzmanuel1

Caí. Foi a minha primeira queda dos 60 anos. Ainda ia no ar e já um coro impudico do passado me azucrinava os ouvidos com a velha frase que tanto cantei nos comícios do Lobito e de Luanda: o colonialismo caiu na lama. Ler Mais »

Marxismo-Marilynismo

zzzzmanuel1

Ainda está vivo o moço que nos anos 60 foi entregar mercearias a um apartamento de Manhattan e a quem uma distraída mulher agarrada a um ruidoso aspirador disse: “Ponha aí.” De boca aberta, ele percebeu que era, e não podia ser, Marilyn Monroe. “É a Marilyn?”, perguntou-lhe. “Sim, às vezes sou eu. E tu quem és?” Ler Mais »

A língua de Einstein

zzmanuel1

Temos presente a mais e o tempo, este tempo, é um cárcere. Sou inábil e inepto para o explicar, mas sei que a seta do tempo não existe. O passado está sempre a irromper no presente e o futuro já aconteceu. Acordam-nos pela manhã os nossos mortos e já dormimos há muito tempo com o amor que ainda nem conhecemos. Ler Mais »

Quem matou o homem?

zzzzmanuel1

Foi a secretária que matou o homem. Ali, onde o homem moderno morreu, qualquer Tarzan morria. As políticas de género pós-modernas podem andar a gabar-se, agitando a desenfreada certidão de óbito, mas, digo eu, têm fraco killer instinct. Ler Mais »

O pecado e a mulher jovem

zzmanuel1

Raymond Chandler foi virgem até aos 32 anos. É sabido que o virgem tardio reverencia a mulher mais velha. Chandler entregou o seu puro ceptro a uma mulher de 50 anos. Raymond conhecia tudo da vida, a violência doméstica, a universidade, o poema, a guerra, o trabalho de contabilista, menos uma coisa, a mulher nua. Ler Mais »

Os meus sentimentos

zzmanuel1

Queria dizer os meus sentimentos, como se dizia, de negro, na aldeia beirã onde nasci. E são tantos os sentimentos. De admiração e orgulho por João Lobo Antunes, que nunca conheci. Dele sei esse desfile de méritos e talento que os jornais voltaram agora a publicar e que, por felicidade, ele escutou em vida com o pudor que era sua natureza. Ler Mais »

Pílulas

zzzzcleo1-650

Sou um fanático da pílula. E há pílulas de humor – frases ácidas, episódios insólitos – que, na sua concisão e surpresa, valem mais do que qualquer crónica. Vamos, então, às pílulas: Ler Mais »