Arquivos da Categoria: Manuel S. Fonseca

Uma lista conservadora

  1. A boa moral

Abomino, pelo aborrecido que me palpita ser, a ideia de um mundo libertino. Defendo, por amor ao insidioso pecado, o modelo conservador que Jean Renoir recomendava aos seus financiadores: “É do interesse dos produtores manterem um adequado padrão moral, sem o que os filmes imorais deixarão de vender.”  Ler Mais »

Bob cut

Atormentam-me as injustiças. Sobretudo se lhes dou involuntário acolhimento, uma vez que comprovadamente sou pura bondade, mesmo mais do que os corações de compota que são o Henrique Monteiro e o Pedro Norton, meus companheiros do blogue Escrever é Triste, se me desculpam a private joke. Ler Mais »

O actor onomatopaico

Rabo todos temos, mas a cauda que o distingue de qualquer um de nós é um privilégio de Christopher Walken. E, não obstante, se forem a atravessar a rua e ele vier do outro lado, mesmo que Walken venha a dar à cauda, não se iludam. Se ele dá à cauda, o melhor é mesmo não se lhe meterem à frente, que a cauda de Chris não é como a que um cão abana, feliz, a pedir mão no pêlo e festinhas. Ler Mais »

Fechem os olhos

Quando és novo, atravessas os filmes de olhos abertos. Fui ver Paterson, de Jim Jarmusch. O título do filme tanto é o nome da cidade onde tudo se passa, como o nome do condutor de machimbombos que escreve versos num caderno desangustiado e inocente. O motorista do machimbas é o rapaz do filme, como se gritaria em luandina euforia – “rapaz! cuidado então, rapaz!” – se estivéssemos a ver Paterson no cineminha São Domingos. Ler Mais »

O poder e os lírios do campo

Foi um beijo paz na Terra aos homens de boa vontade, mas ia caindo o Carmo e a Trindade. Quem me disse, na longínqua Luanda dos meus 12 anos, que numa noite dos Oscars a mediterrânica Anne Bancroft beijara o lírio do campo que era Sidney Poitier? Terá sido o Cesarito, que a minha mãe achava ser o meu amigo mais bonito, para logo ele se rir, pois, pois, por eu ter nariz de branco, não é? Ler Mais »

Era um cavalheiro quando não bebia

“Olha para ti, Dreyfuss, só comes e bebes, és gordo e desmazelado. Nessa idade, é criminoso. Nem dez flexões de braços fazes.” Era o que, nos dias de maior cortesia, Robert Shaw, actor shakespeariano, dizia ao jovem americano Richard Dreyfuss, que Spielberg escolhera para o papel de cientista marinho em Jaws. Ler Mais »

O enxovalho

Richard Dreyfuss é um choramingas, um cry-baby. Vi-o lavado em lágrimas na televisão irlandesa. Mas permitam-me que primeiro invective os portugueses. Temos a mania de que somos desenrascados, que o improviso para o português é como limpar o cu a meninos. Ler Mais »

A praia deserta

Não, desta vez não se atrevam a espetar o dedo no peito da minha subjectividade. É estarrecedor de objectivo: tive um fim de adolescência de praia deserta. Privilégios coloniais. Das terras do fim do mundo, António Lobo Antunes escrevia cartas de amor e guerra para que eu andasse de caiaque entre os mangais, a meio caminho entre Luanda Sul e a foz do dolente Kwanza. Ler Mais »

Nunca saí do liceu

Se a vida fizesse sentido, não havia filmes. Nem livros. Não sabemos onde moramos e, por vezes, um filme ou um livro dão-nos a impressão de estarmos em casa. Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa. Ler Mais »

Pagou-lhe uma reconstrução dentária

Ainda não se tinha inventado o telemóvel e já a actriz Joan Crawford tinha 26 telefones em casa. Ainda não se inventara o GPS, e já Joan usava sininhos nos chinelos para que os criados soubessem sempre onde estava, na sua estarrecedora mansão. Ler Mais »

Erros meus, amor ardente

Era muito alta. Estiquei-me para lhe dar dois canónicos beijos na face e, rotundo falhanço, beijei na boca a conselheira cultural de um país amigo. Já relatei aqui esse erro benigno. Mas estes seis anos de crónicas no Expresso estão tintados por erros e beijos menos exaltantes. Ler Mais »

O coração do povo

Liz Taylor esteve às portas da morte. Redimiu assim a má fama que ganhara por ter sacado o marido à virginal Debbie Reynolds. Não se rouba o marido a uma escoteira, muito menos um mês depois de se ter enterrado, como Liz fizera, o seu. Odiaram-na. Mas a gripe asiática e o coma de Liz, em Londres, interrompendo as filmagens de Cleópatra, reinstalaram-na no coração do povo cinéfilo. Ler Mais »

Cleópatra

O ciclo menstrual de Elizabeth Taylor é que teve a culpa. Vejamos, Walter Wanger só queria a glória. Saíra da prisão por ter dado uns tiros bem aviados, mas não mortais, ao amante de Joan Bennett que, não fortuitamente, era a sua querida mulher. Antes, fora o produtor que descobrira Valentino, que fizera da Garbo a Rainha Cristina, que em Stagecoach juntara dois Johns, um Ford, outro Wayne. Queria fechar a idade de ouro de Hollywood e a sua com um épico: subir o Nilo e ajoelhar-se aos lindos pés de Cleópatra. Ler Mais »

A arte nem pode, nem antipode

A fúria com que, em Red River, Montgomery Clift e John Wayne esmurram as ventas um do outro não é de esquerda nem de direita. Os murros deles não são políticos. Nem é político o rabo de Marilyn Monroe, que, em curtas cenas de 20 segundos, desreprimiu o recalcado baixo-ventre do cinema, a cores em Gentlemen Prefer Blondes e a preto e branco em Some Like It Hot, por obra e graça do bom olho de Hawks e de Wilder. Ler Mais »

As ancas de John Wayne

Era mais fácil falar das pernas de Angie Dickinson, mas vou obrigar-me a só olhar para o cinturão, coldre e colt de John Wayne. Sei do que falo, xerife foi a primeira coisa que fui na vida, revólver à cintura, uma longa cana de mamoeiro a fazer de Winchester. Também fui índio e bandido, mas xerife era a minha devoção, meio John Wayne, meio Buck Jones, insofismável semi atestado da minha caretice infantil. Ler Mais »