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	<title>50 Anos de Textos &#187; Laïs de Castro</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Profissão, silêncio</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Aug 2011 23:48:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele era magro tal um alfinete de cabeça e silencioso qual uma noite em Alcobaça. Quase nem fazia barulho para andar, como um gato. Sabia que, a todo barulho, corresponde o silêncio. Ficava com este lado da moeda. Quando nasceu pouco chorou e sorveu discretamente, sem gula, o leite materno. Foi crescendo junto com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele era magro tal um alfinete de cabeça e silencioso qual uma noite em Alcobaça. Quase nem fazia barulho para andar, como um gato. Sabia que, a todo barulho, corresponde o silêncio. Ficava com este lado da moeda.<span id="more-5248"></span> Quando nasceu pouco chorou e sorveu discretamente, sem gula, o leite materno. Foi crescendo junto com o próprio cabelo, já ralo, deixando ver o contorno craniano, ausência de recheio.</p>
<p>Ele era assim. Espelho liso, escorregadio, semente, planta, chuva e mar. Um produto da terra que a ela voltaria naturalmente, sem ruído. Desfilava sem preconceitos sua postura econômica de gestos e sentimentos. Sabia que quando se fecha a janela num dia de sol, a escuridão fica apenas do lado de dentro, pois para todo breu há o equivalente em luz. Tinha essa mania, de buscar o outro lado das coisas.</p>
<p>Lembrava, aos cinco anos, quando era convocado para cantar para a avó enferma, o quarto com um cheiro antigo de remédios, a ausência de oxigênio, canta filho, aquelas em italiano. Lembrava também que o velocípede encalhava na areia fofa toda vez que queria correr, a vida nunca foi um deslizar fluido e sim uma pesada sucessão de fatos bruscos, pulos, sustos brunos. Quase chegara aos vinte anos sem beijar uma mulher e quando beijou, ela lhe mordeu a língua, não aceitou o agrado. Mesmo assim o gosto de sangue sempre lhe trouxe alegria e felicidade até que se tornou matador profissional, aos 26 anos. Já que não fazia barulho sequer para respirar poderia cumprir bem essa tarefa.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlais.png"><img class="alignleft size-full wp-image-5253" title="zzlais" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlais.png" alt="" width="408" height="341" /></a>Não se importava com o que. Ele passava pela vida como um trem pela estação. Ida e volta, ida e volta, passageiros em frevo, em aflição, violões e marchas fúnebres, pandeiros e carnavais, neve, sol areia, tormenta e desassossego. Ele apenas passava, desejando ainda uma vez a polenta amarela da mãe, perfeitamente regada com o molho de tomate quase alucinógeno. A única coisa que lhe causara prazer na vida e não se repetiria, pois a mãe estava morta. Estavam todos mortos.</p>
<p>A cada despedida, maior se tornava o vácuo, aquele que verdadeiramente não transmite sons. Nem uma palavra de revolta, nem uma palavra de consolo. Calma. Equilíbrio. Ele jamais seria tempestade, era garoa fina caindo na montanha sem árvores. O observar, sempre. Nunca participar das cenas principais do drama – ou da comédia – da vida. Coadjuvante.</p>
<p>Nunca seria o começo, apenas o fim. Ele sabia que todo nascimento carrega, em si, a morte. E não hesitou em dedicar-se aos meios que apenas abreviavam a espera.</p>
<p>O primeiro trabalho foi realizado com tal precisão que o chefe se impressionou. Um tiro certeiro na nuca e pouco sangue. Pegou o pagamento e saiu sem ouvir os elogios até o fim. Não tinha idéia do que fazer com tanto dinheiro, a vida vale assim tanto dinheiro? A vida vale?</p>
<p>Pela primeira vez respirou fundo e ouviu o próprio respirar. O sofá era de um tecido escocês vermelho, amarelo e branco, os braços de madeira castanha, a cama viera da mãe, assim como as panelas e o fogão. Deitou ali e decorou 128 filmes de criminosos. Quase sem som. Quieto, durante dois meses aguardou o nome do segundo condenado. O dono de um banco que andava crescendo muito. Para todo banco que cresce há pequenos bancos que desaparecem, pensou. E foi em frente. Circulou feito um pião em torno da vida do ser humano e finalmente encontrou o ângulo perfeito. Havia uma possibilidade mínima daquela bala passar entre a árvore e o poste, entrar pelo vidro da janela da sala e atingir o coração do homem. Ele tinha nascido, porém, com o dom da pontaria. E ansiava pela perfeição.</p>
<p>Recebeu o dobro do dinheiro, desta vez em dólares. Flutuando na própria solidão, reencapou o sofá e traduziu seus desejos em sorvetes de chocolate. Pensou em casar-se, mas um matador não. Pensou numa prostituta, mas não tinha suficiente coragem – a todo ato corajoso sobrevem uma dose de medo – e menos ainda disposição para isso. Pensou numa viagem, mas viajava a serviço, separava acontecimentos. Pensou. Exausto. Pegou no sono.</p>
<p>Certa vez o avô pediu que ele fosse buscar uma garrafa de vermute na loja de importados do centro da cidade. Cumpriu a tarefa, aos 14 anos já cumpria tarefas discreta e corretamente. Como recompensa, pôde provar o vermute.</p>
<p>Então, desejou o aroma do vermute o e voltou à loja, mudo. Bebeu uma garrafa na mesma noite, deixando livres as lágrimas bêbadas de saudades do velho. O único homem com quem trocara algumas palavras. Falavam de futebol, chuva e armas. Exímio atirador, o avô lhe ensinara a profissão. Lugar comum, fato incomum, nosso homem superou o mestre. Mas ele sabia que toda superação – a qualquer momento – encontra uma relação direta com o fracasso. Portanto, puxar o gatilho com perfeição era, além de acertar o alvo, sair do cenário, ileso. Como o avô.</p>
<p>No terceiro trabalho viajou à Espanha. No quarto ao Brasil. E eles se sucederam, ao todo quinze mortes secas. Olhos secos. Não conhecia as vítimas. Conhecia o mundo, de passagem. De passagens, imagens, mensagens, pousos e decolagens.</p>
<p>Recebeu cada um dos fartos pagamentos em total abstenção de palavras e obras. Em taciturna despresença. Carregava consigo, além da violência fria, a estranha qualidade de esvair-se no ar. Era leve e invisível.</p>
<p>No trabalho seguinte voou para os Estados Unidos. Deu fim a um militar da reserva, sabe-se lá por que, nem a pedido de quem. Antes de voltar, porém, foi ao parque. Montanha russa e trem-fantasma, o cavaleiro salvando a princesa, branca de neve e cinderela, lindas. Fugiu do barulhento tiro-ao-alvo. A arma dele tinha silenciador.</p>
<p>Em casa, buscou, empenhou, desejou, até quando? Pensou novamente em ter companhia. Seus fundos já eram milhões espalhados em mil bancos. Melhor permanecer, rever, ver, abster. O tempo. O sonho. Assistiu a 128 filmes nos dois meses seguintes. Só que românticos. Um novo sofá, negro, de couro. Que não rangesse. Uma nova pintura, toda branca. Como se esperasse alguém. Nem notou que esteve quatro meses inerte, moderado, ensimesmado. Cuidado. Mal cuidado.</p>
<p>Sorveu um longo e sigiloso gole do vermute antes de atender ao telefone que o enviava a Veneza, terra do avô e da tal bebida.</p>
<p>Fez as malas.</p>
<p>Um trabalho perigoso. Quando o risco é maior a equivalência surge em oportunidade. Dizem. Cada cor tem a sua cor complementar.</p>
<p>Não ofereciam o vermute do avô no avião.</p>
<p>Tomou apenas água, prevendo um batismo de dor, de amor, de suor, de pudor.</p>
<p>O serviço, minucioso, exigiu uma ronda de sessenta dias em torno do homem marcado. A mulher dele, as filhas, duas filhas, não queria que elas fossem espectadoras da morte. E adiava o balaço na têmpora. A próxima viúva parecia uma artista dos filmes românticos italianos que assistira. Belíssima, a vêneta. Parecia, queria, que dia, que noites em claro, ele saberia.</p>
<p>Ela não lhe saía da cabeça.</p>
<p>Os italianos falam alto, pensou.</p>
<p>E realizou.</p>
<p>A bala do fuzil que utilizava entregou a morte ao italiano voando a 900 m por segundo.</p>
<p>Desta vez o atirador não se esvaiu como água pelo ralo. Queria vê-la, precisava vê-la. Andava devagar e corria o risco. Acompanhou o funeral de longe, já sem a mira. Caminhou dois dias por ali, tão triste quanto a própria Veneza.</p>
<p>Desejava não ter feito. Gostaria de consolar a mãe e as filhas. Voltar no tempo. Recusar-se.</p>
<p>Comoveu-se ao vê-las chorar.</p>
<p>Um matador que se comove está acabado.</p>
<p>Pegou o avião para casa e, de novo, não serviram vermute.</p>
<blockquote><p><em>“Profissão, silêncio” é um dos 27 </em><em>contos de </em><strong>Sirva o coração em bandeja de cristal líquido</strong><em>, o novo livro de Laïs de Castro, lançado neste mês de </em><em>agosto pela Iluminuras. (Na foto, a autora com o colega Audálio Dantas.)</em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlala1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5298" title="zzlala" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/08/zzlala1-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a>Na apresentação do livro, a jornalista </em><em>e escritora Marta Goes diz:</em></p>
<p><em>“Os contos de Laïs de Castro  desenham-se rapidamente – personagem, tempo e </em><em>lugar. Em sucessão inesperada, com pinceladas curtas, levam-nos ao solar, ao </em><em>bordel, ao carnaval, a lençóis imaculados) ou ao campo rude. Os personagens </em><em>falam com as marcas da existência: sinhazinha, esposa ressequida, matador, </em><em>marido cruel, avó criadeira e uma apaixonada que arde em fogo sagrado. Freqüentemente, </em><em>a voz é de um narrador, que pode ser cúmplice, reconhecer, cá entre nós, certas </em><em>singularidades das situações que narra. (&#8230;)</em></p>
<p><em>“É a alma dos personagens que atrai </em><em>Laïs, com seus exageros, esquisitices e, sobretudo, sentimento. Os </em><em>protagonistas destes contos deseja, amam, deliram, ofendem-se mortalmente. Com </em><em>certa insistência, calam. O silêncio – como expressão do vazio ou como </em><em>instrumento der vingança – aparece como tema.”</em></p>
<p><em>Eis a Nota sobre a Autora, que encerra </em><em>o livro:</em></p>
<p><em>“Jornalista desde os 21 anos, </em><em>trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial (sob Luís</em><br />
<em>Carta) e outros mais na Azul. Foi diretora de várias revistas femininas, entre </em><em>elas </em>Boa Forma<em>, </em>Vida Executiva<em> e </em>Dieta Já<em>. </em></p>
<p><em>Ganhou três prêmios Abril de </em><em>Jornalismo, um concurso de contos infantis no Estado do Paraná (1970), o Concurso </em><em>de Contos Cursos Cidade de Porto Seguro, em 2009.</em></p>
<p><em>Participou da antologia </em>Le Grand Show des Écrivaines Brésiliennes<em>, lançada em 2010 no Salon du Livre de Paris.</em></p>
<p><em>É autora do livro de contos </em>Um Velho Almirante<em>, publicado pelo selo ARX (Siciliano). Atualmente é colaboradora da </em><em>revista Negócios da Comunicação, colaboradora do site literário <a href="http://pbondaczuk.blogspot.com">http://pbondaczuk.blogspot.com</a> e do</em><br />
<em>site 50anosdetextos.com.br (sem o www).</em></p>
<p><em>Participou como palestrante da Flipoços 2011. Ministra </em><em>oficina de contos em bibliotecas de São Paulo, SP.”</em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>Meus 20 minutos com Jean Paul Jacob</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 19:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Engenheiro eletrônico brasileiro, considerado guru do mundo digital, Jean Paul Jacob é citado como um dos 50 Campeões de Inovação pela revista americana Info, e esteve no Brasil para dar uma palestra – entre as dezenas que dá no grande mundo da tecnologia do mundo inteiro – no I Congresso Internacional do Livro Digital, promovido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Engenheiro eletrônico brasileiro, considerado guru do mundo digital, Jean Paul Jacob é citado como um dos 50 Campeões de Inovação pela revista americana <em>Info</em>, e esteve no Brasil para dar uma palestra – entre as dezenas que dá no grande mundo da tecnologia do mundo inteiro – no I Congresso Internacional do Livro Digital, promovido pela Câmara Brasileira do Livro em agosto de 2010.<span id="more-4047"></span> Ele profetizou, há cerca de cinco anos, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/o-kindle-os-livros-de-papel-e-a-catherine/">o fim do livro impresso</a> no mundo.</p>
<p>Bonachão e sorridente embora hoje portador de um mal que lhe agiganta as pernas, forçando-o a utilizar um andador, é formado no ITA, de São José dos Campos, SP, mas fez tantas pós-graduações, mestrados e doutorados (entre os quais dois na Universidade de Berkerley, na Califórnia, onde leciona) e especializações que, se eu fosse enumerá-las, tornaria este artigo tão chato que todos parariam de ler agora mesmo.</p>
<p>A exemplo do que já havia feito na década de 1980 quando decretou <a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/vem-ca-quem-toca-a-flauta-em-%e2%80%9clondon-london%e2%80%9d/">o fim do disco de vinil</a> (o velho LP) diante do aparecimento de CDs, Jean Paul Jacob vem avisando aos livreiros do mundo que o livro vai mudar de formato e que todos precisam se atualizar. É pesquisador emérito da IBM.</p>
<p>Despojado e comunicativo, ele foi, enquanto esteve no Brasil o sonho de consumo de dezenas de repórteres dos jornais e revistas semanais. Esquivou-se educadamente, pois gosta de estar sozinho e descansar, quase meditar, antes de suas palestras.</p>
<p>Pois não é que eu, depois de 30 anos de jornalismo, tive a sorte de me encontrar com ele e conversar durante 20 minutos, como se fôssemos velhos amigos, sem representar &#8211; ou talvez por isso mesmo &#8211; nenhum jornal?</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/jeanpaul1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4053" title="jeanpaul" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/03/jeanpaul1.jpg" alt="" width="542" height="361" /></a>Como trabalhava na Câmara Brasileira do Livro, estava nos bastidores da palestra cerca de duas horas antes que ela começasse. Andando por ali, vi, caminhando em minha direção, um senhor com uma enorme barba e ainda belo, apesar de entrado em anos. Era JPJ que, atrás do palco do Auditório Elis Regina, meio que para o perdido, buscava um copo de água e um café “bem quente, sem açúcar”. Ele fez o pedido com um simpático sorriso nos lábios. Corri a me apresentar – sou Laïs de Castro, da Câmara Brasileira do Livro – e ele respondeu imediatamente:</p>
<p>- Sou Jean&#8230;</p>
<p>Eu cortei:</p>
<p>- Eu já o conheço. Posso ajudá-lo?</p>
<p>- Eu quero um café.</p>
<p>- Pois não, imediatamente. O senhor entra nesta sala, senta-se e eu vou providenciar.</p>
<p>Ele entrou na sala, onde me apresentaram melhor, e avisou que preferia tomar seu café no palco, pois queria revisar a luz do local da palestra e ainda descansar um pouco lá. Encomendei o café e fui andando, devagar, no ritmo dele e ao seu lado:</p>
<p>- O que o senhor sente ao falar no Brasil, em seu idioma, para uma platéia de editores e donos de livrarias?</p>
<p>- É uma experiência única falar no meu idioma, só que vou falar o que as pessoas não querem ouvir.</p>
<p>- Por que não querem ouvir?</p>
<p>- Porque a maioria delas ainda mantém essa relação amorosa com o texto impresso&#8230;. e isto não vai durar muito.</p>
<p>Ele estava avisando, ali, que o livro impresso vai morrer.</p>
<p>- O que o senhor diria, então do <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/o-kindle-o-ipad-e-o-google/">livro digital</a>?</p>
<p>- Os adultos &#8211; com exceção dos pioneiros &#8211; só vão se adaptar definitivamente à leitura em tablets na próxima geração. Mas, no caso das crianças, o que vai acontecer é exatamente o contrário.</p>
<p>Eu não entendi, mas continuei em silêncio, ouvindo.</p>
<p>Ele falava pausadamente:</p>
<p>- Nas próximas gerações é a tecnologia que vai se adaptar ao indivíduo e não o indivíduo à tecnologia, como estamos sendo obrigados a fazer. Veja só, eu digo para o meu livro impresso: “aumente o tamanho destes caracteres” e ele fica parado. Eu digo a ele, “passe agora um vídeo da paisagem que foi descrita” e ele continua parado. No caso do livro digital (e inteligente), ele me obedeceria imediatamente. Assim, o que você acha que as novas gerações vão preferir?</p>
<p>- O livro impresso vai acabar?</p>
<p>- Esse objeto vai ser substituído por outro, como aconteceu com o vinil. Pode ser até que, com o formato, também mude o nome desse novo objeto onde vamos ler.</p>
<p>Enquanto conversava comigo, de maneira absolutamente natural, Jean Paul Jacob marcava a intensidade de luz do palco, o local de onde iria falar na palestra dali a pouco mais de uma hora.</p>
<p>Levantava a mão esquerda e dizia ao iluminador: “vê como está a luz aqui. E vê na minha cara. O que eu mais fico furioso é quando a luz bate nos meus olhos e eu não consigo ver a platéia, fica tudo um brilho horrível&#8230;” Jean Paul falava tudo isto, mesmo com seu andador e suas dores, parecendo um homem alegre, corajoso, mais vivo do que tudo. Parecia manter o tempo todo seu astral lá em cima.</p>
<p>Chegou, enfim o café.</p>
<p>- Isso não é café, é amostra&#8230; (era uma xicarazinha de café nos moldes brasileiros). Pode me trazer outra daqui a pouco? &#8211; disse ao garçom, com muita simpatia e simplicidade. Olha, quantas gotas desse troço (falando do adoçante) eu ponho? E como é mesmo seu nome?</p>
<p>- Meu nome é só Laïs.</p>
<p>- E você, “só Lais” &#8211; falou rindo -, me disseram que escreveu&#8230;</p>
<p>- Um livro de contos, em véspera de dois. Quer ler o primeiro?</p>
<p>- Quero, me dá o seu papel que eu vou escrever meu endereço.</p>
<p>Pegou o papel e escreveu.</p>
<p>Muito bem humorado e irreverente apesar das dificuldades físicas, chamou um rapaz que parecia ser seu acompanhante permanente e pediu:</p>
<p>- Sinval, levanta minha perna e põe naquela cadeira, porque ela está doendo. E você, Laïs, me manda seu livro.</p>
<p>- Mas você vai ler?</p>
<p>- Não. Mas quero ter, com seu autógrafo e tudo.</p>
<p>- Bem eu sou uma sortuda. Estou aqui com o senhor, neste bate-papo informal, e um tanto de repórteres querendo entrevistá-lo&#8230;</p>
<p>- Sorte minha de encontrar você lá na frente, eu sou um velho que já vai morrer&#8230;</p>
<p>Repliquei:</p>
<p>- Não é mais velho do que eu (o rosto dele parece bem jovem).</p>
<p>- Olha, eu tenho 72 anos, claro que você não tem isso&#8230;</p>
<p>- Não, ainda não. Mesmo assim para mim é a glória conversar com alguém tão ilustre, assim, só os dois, nos bastidores da palestra.</p>
<p>- “Só Laïs”, você me manteve acordado, eu estava quase dormindo&#8230; eu agradeço.</p>
<p>- Tá tirando uma&#8230; me chamando de “Só Laïs”</p>
<p>Ele riu de novo:</p>
<p>- Eu sou o Jean Paul, não sou só não&#8230;</p>
<p>- Claro, você é fantástico.</p>
<p>- Deixa disso, eu sou só um homem chegando lá&#8230; não enxergo bem, tudo dói&#8230; (mas ele falava isto com um sorriso, parecia rir de si mesmo).</p>
<p>- Bem, vou deixá-lo descansar antes da palestra. Muito obrigada pelo excesso de simpatia! Vou lhe mandar mais um café.</p>
<p>- Eu é que agradeço. Foi gostoso conversar antes da palestra, eu me distraí, obrigado.</p>
<p>Saí dali pensando que havia conversado, sozinha ali, com um mago, com o homem que é um respeitado consultor da IBM há mais de 30 anos. Um homem simples. Como todos os gênios do mundo. Se o cara não for simples, desconfie: é porque ele não é tão bom assim!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p>Como estou me especializando em bastidores, não vou deixar escapar a maravilha de ter estado 20 minutos, absolutamente sozinha com Jean Paul Jacob.</p>
<blockquote><p><em>Março de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>No Brasil ninguém lê ficção brasileira</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 16:15:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Olho, com tristeza, mas uma tristeza inominável e profunda, a lista de livros mais vendidos. Pego como referência a revista Veja de fins de abril de 2010: na ficção, lá estão os leitores brasileiros prestigiando nada menos do que 10 entre 10 estrangeiros. Haja tradutores e tomara que pelo menos estes sejam bons. Não sei, porque [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olho, com tristeza, mas uma tristeza inominável e profunda, a lista de livros mais vendidos. Pego como referência a revista <em>Veja</em> de fins de abril de 2010: na ficção, lá estão os leitores brasileiros prestigiando nada menos do que 10 entre 10 estrangeiros.<span id="more-1829"></span> Haja tradutores e tomara que pelo menos estes sejam bons. Não sei, porque não li nenhum livro entre os 10 mais vendidos neste momento: três livros de um autor chamado Rick Riordan, dois de Stephenie Meyer, que descobriu a mina nos vampiros, e outros menos votados. Puxado pelo filme, <em>Alice</em>, de Lewis Carroll, é o único que marca um tento de qualidade.</p>
<p>Para mim, fica uma cruel pergunta no ar: não temos nenhum ficcionista que mereça ser lido por nós mesmos, os brasileiros?</p>
<p>Sem resposta.</p>
<p>Volto no tempo e busco os livros mais lidos no quesito ficção, na mesma revista <em>Veja</em>, em junho de 1980. Há três décadas, os brasileiros liam <em>A Tragédia da Rua das Flores</em>, um romance do maravilhoso Eça de Queiroz que teve lançamento póstumo. Palmas para nós, brasileiros. Devo dizer, sem nenhuma modéstia, que estava entre esses leitores, e ainda havia comprado uma edição especial, ilustrada e linda. Além dele, naquela lista, estava bem representados Fernando Sabino (<em>O Grande Mentecapto</em>), nosso cronista de plantão, e Jorge Amado comum de seus últimos escritos, <em>Farda, Fardão, Camisola de Dormir</em>.  Alguns podem dizer: nem era tão bom assim, três em dez&#8230; Verdade, mas a qualidade ainda vinha marcada pela presença de Erich Segal e Graham Greene. Importados assim são sempre bem vindos.</p>
<p>Cinco anos depois, os brasileiros – que excelente notícia –, tomavam para si nada menos do que seis lugares entre os dez livros mais vendidos (falo de 1985, na lista da mesma <em>Veja</em>). É preciso dizer: 60% dos livros mais vendidos eram de literatura de ficção <strong>nacional</strong>!</p>
<p>Estou sendo bairrista?</p>
<p>Não. Se pelos menos entre os dez mais vendidos de hoje marcassem presença os que marcavam naquele momento os importados de altíssima qualidade: Vargas Llosa e Milan Kundera (com o inesquecível <em>A Insustentável Leveza do Ser</em>), além de Irving Wallace e Arthur Haklley (nada é perfeito). Os seis que ali estavam sendo prestigiados pelos leitores de seu próprio país eram os grandes Jorge Amado (<em>Tocaia Grande</em>), Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro (vivo e produzindo, mas hoje pouco lido), Carlos Drummond de Andrade Josué Montello e Rubem Braga. Só.</p>
<p>Pergunto ainda uma vez: onde estão nossos ficcionistas?</p>
<p>Morreram, alguém mais cético responderia.</p>
<p>E outros não nasceram.</p>
<p>O Brasil é um país que não produz ficcionistas ou, se é que os produz, não os prestigia. Não os lê. Não se interessa por – sequer – conhecê-los.</p>
<p>Vamos ver a lista dos mais vendidos de 1995?</p>
<p>Dez anos depois daquela lista gloriosa, tenho a informar que Paulo Coelho estava no pódio em primeiro e segundo lugares, com <em>Maktub</em> e <em>Nas Margens do Rio Piedra</em>&#8230; e no sétimo lugar com <em>O Alquimista</em>. Três lugares entre os 10 mais vendidos foram para as mãos desse escritor discutido, elogiado e criticado. Sou da turma da crítica, acho a qualidade baixa. No entanto, não seria pior, acredito, do que o para mim desconhecido William Young, que escreveu <em>A Cabana</em>. O primeiro colocado de 2010.</p>
<p>Mas voltemos a 1995. Estavam lá, marcando uma presença melancólica para a cultura do país: James Redfield (você sabe quem seria? Nem eu), Sidney Sheldon e Danielle Steel. Presenças que nos honravam: Umberto Eco, o intelectual italiano, Luis Fernando Veríssimo de primorosa prosa e o saudoso Caio Fernando Abreu, que cedo partiu e deixou uma obra pequena, mas marcante. Tanto que seus contos, hoje, viram filmes.</p>
<p>Para não ficar amolando muito, pulo mais dez anos e constato (<em>Veja</em>, junho de 2005), com maior tristeza do que antes, que entre os dez livros de ficção mais lidos no país apenas três eram de autores nacionais: Jô Soares estava plantado num honroso segundo lugar (<em>Assassinato na Academia Brasileira de Letras</em>) e, pasmem, Carlos Drummond de Andrade, com <em>Declaração de Amor</em>! Lia-se poesia no Brasil! Fantástico! E inusitado. O terceiro brasileiro era Paulo Coelho, mas ele nem se conta, é café-com-leite. Naquele anos, antes da era dos vampiros que enfrentamos agora cabisbaixos, havia sido descoberto o fenômeno Dan Brown, de <em>O Código da Vinci</em>.</p>
<p>Como todos puderam constatar, pelas minhas desafortunadas pesquisas, o número de brasileiros entre os mais vendidos exibe o que os economistas chamariam de “viés descendente”: vai caindo, caindo, até simplesmente, em 2010, desaparecer.</p>
<p>Conclusão infeliz: os brasileiros não gostam de ler livros de brasileiros. Espero, ansiosa, a lista dos mais vendidos de 2015.</p>
<blockquote><p><em>Maio de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Gil, depois do Domingo</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 03:57:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de “Domingo no Parque”, segunda colocada no Festival da Record (1967), Gilberto Gil já compôs várias músicas e está preparando um novo LP. InTerValo antecipa para seus leitores algumas dessas músicas, com interpretação do autor. “A primeira que fiz”, conta Gil, “com letra de Torquato Neto, chama-se ‘Domingou’ (uma corruptela do verbo domingar, seria). [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de “Domingo no Parque”, segunda colocada no <a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/01/21/eu-vi-disparada-tomar-forma-e-outras-historias-dos-festivais/">Festival da Record</a> (1967), Gilberto Gil já compôs várias músicas e está preparando um novo LP. <em>InTerValo</em> antecipa para seus leitores algumas dessas músicas, com interpretação do autor.<span id="more-1680"></span></p>
<p>“A primeira que fiz”, conta Gil, “com letra de Torquato Neto, chama-se ‘Domingou’ (uma corruptela do verbo domingar, seria). Trata-se de um domingo no Rio, mas não tem nada a ver com ‘Domingo no Parque’.</p>
<p>Fiz uma segunda, com letra de Capinam, bilíngüe”. Chama-se ‘Soy loco por ti América’<strong> </strong>e tem uma estrutura musical toda latino-americana. É uma canção em português e castelhano, de todas as Américas. Ela vai ser gravada por Caetano Veloso em seu LP.”</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/gil.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1683" title="gil" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/gil.jpg" alt="" width="550" height="361" /></a>Da terceira música, Gil fala com um carinho todo especial: “Ainda não tem nome, é uma música existencialista, feita sobre uma canção surrealista do Recife. Não se preocupe, quando sair ela será logo identificada”.</p>
<p>Uma outra mais, vamos ver: “chamada ‘Bem-vindo’, que fiz com Capinam e Torquato, um baião que traz uma característica de monotonia porque se repete muito”.</p>
<p>Gil pára um pouco para pensar e volta ao assunto falando de letras. Ele explica, então, por que tem feito músicas com letras compridas: “As coisas que têm que ser ditas, têm que ser ditas. Em uma ou dez palavras. A gente abre mão da letra curta, às vezes, para dizer o que quer”.</p>
<p>Gilberto deixa para o fim a música “Panis et Circenses” (pão e circo, em latim), que também irá para o próximo disco. Sua letra, entre outras coisas, diz: <em>“eu quis cantar/ minha canção iluminada de sol/ ergui os panos sobre os mastros no ar/ soltei os tigres e os leões nos quintais/ mas as pessoas da sala de jantar/ estão ocupadas em nascer e morrer&#8230;”</em></p>
<blockquote><p><em><strong>Laïs de Castro conta a historinha por trás do texto</strong></em></p>
<p><em>Em 1968, Gilberto Gil era gordinho e usava um chapéu de couro que parecia pequeno para o seu grande coco. Uma cabeça grande, bela, por dentro e por fora, fazendo maravilhas como “Soy loco por ti América” e outras. Apenas alguns anos depois ele iria aderir à comida macrobiótica que o tornou magro e, até hoje, saudável. Abriu mão de todas as gorduras&#8230;</em></p>
<p><em>Ele andava sempre pelos lados da TV Record. A partir de “Domingo no Parque” (segunda colocada no Festival da Record de 1967), revolucionou a MPB com a tropicália. </em></p>
<p><em>As revistas de TV, como a</em> InTerValo<em>, passaram a se interessar por ele e a publicar seu trabalho. Eu tive a alegria de sair para uma sessão de fotos com Gilberto Gil pelo centro de São Paulo e de fazer essa entrevista, pequenina (a revista era pequenina), mas que traz muitas informações nas entrelinhas&#8230;</em></p>
<p><em> </em><em>A canção “existencialista”, identifico hoje, em 2010 é a seguinte:</em></p>
<p><strong><em>BATMAKUMBA</em></strong></p>
<p><em>Gilberto Gil &amp; Caetano Veloso<br />
1968 </em></p>
<p><em>Batmakumbayêyê batmakumbaoba<br />
Batmakumbayêyê batmakumbao<br />
Batmakumbayêyê batmakumba<br />
Batmakumbayêyê batmakum<br />
Batmakumbayêyê batman<br />
Batmakumbayêyê bat<br />
Batmakumbayêyê ba<br />
Batmakumbayêyê<br />
Batmakumbayê<br />
Batmakumba<br />
Batmakum<br />
Batman<br />
Bat<br />
Ba<br />
Bat<br />
Batman<br />
Batmakum<br />
Batmakumba<br />
Batmakumbayê<br />
Batmakumbayêyê<br />
Batmakumbayêyê ba<br />
Batmakumbayêyê bat<br />
Batmakumbayêyê batman<br />
Batmakumbayêyê batmakum<br />
Batmakumbayêyê batmakumbao<br />
Batmakumbayêyê batmakumbaoba</em></p></blockquote>
<p><em> </em></p>
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		<title>O Segredo dos Seus Olhos</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Feb 2010 18:02:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Não vamos falar aqui de futebol, até porque, de futebol, só entendo quando a bola bate na rede, e é gol. Gol sem ponto de exclamação que nem isso sei fazer: exclamar um gol. Vamos falar de cinema, porque neste quesito, sim, podemos elogiar os argentinos sem correr risco de morte. Eles são melhores do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não vamos falar aqui de futebol, até porque, de futebol, só entendo quando a bola bate na rede, e é gol. Gol sem ponto de exclamação que nem isso sei fazer: exclamar um gol.<span id="more-1125"></span></p>
<p>Vamos falar de cinema, porque neste quesito, sim, podemos elogiar <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2003/kamchatka/">os argentinos</a> sem correr risco de morte.</p>
<p>Eles são melhores do que nós, brasileiros, nisto. Para ser mais sincera ainda sobre as minhas ignorâncias (a do gol e essa), antes de escrever a frase anterior fui ler dezenas de artigos sobre o assunto, assinados por experts no assunto. Todos defendem isso. Afinal, eles tinham que ser melhores em alguma coisa&#8230;</p>
<p>Basta dizer que já levaram para casa um Oscar, em 1986, com o filme <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/a-historia-oficial-la-historia-oficial/">A História Oficial</a></em>, do diretor Luis Puenzo. E concorreram outras vezes. Agora, estão lá, de novo e, ainda que não levem (o Oscar é dia 7 de março), marcam presença. Fala-se de seu cinema pelo mundo afora e isso é importante. Vantagem sobre os filmes europeus e americanos?</p>
<p>O deles custou um pouco mais do que US$ 1 milhão, enquanto naqueles se investem US$ 20, 200, 500 milhões&#8230;</p>
<p><em>O Segredo de Seus Olhos</em>, portanto, está lá. E entra em cartaz no Brasil dia 26 de fevereiro. Como eu diria, aqui, de maneira elegante, que você não deve perder esse filme?</p>
<p>Bem, <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2007/nove-rainhas-nueve-reinas/">Ricardo Darín</a>, além de um belo rapaz, com cara (mesmo) de cantor de tango argentino, é o protagonista. Só isto já seria suficiente para levar todas as mulheres que gostam de colírio para a sala de projeção. Fui superficial, eu sei, e talvez até meio machista. Um pouco de bem estar e beleza, entretanto, não fazem mal a ninguém. Para quebrar essa bobagem, vamos dizer que o par constante de Darín – Soledad Villamil – não fica atrás. Pronto. Temos na tela dois deliciosos objetos do desejo, um feminino e um masculino. Atenção: eles estão lá tratando muito pouco de desejo e bastante de morte, justiça e amor.</p>
<p>Morte violenta. Humilhação. Amor de verdade. Temor. Justiça de mentirinha. Medo. Sabor amargo na boca.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/segredo2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1129" title="segredo2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/02/segredo2.jpg" alt="" width="500" height="300" /></a>Eles se uniram para fazer justiça a uma jovem covardemente estuprada e assassinada por um coleguinha com cara de anjo. Não vou contar o fim, é claro. O filme fala por si. As imagens mostram por si. A dor vem à tona por si.</p>
<p>De repente, no entanto, em várias e deliciosas cenas, o cinema está inteiro rindo, quase às gargalhadas. Você esperava que eu dissesse isso? Nem eu esperava ver isso. A questão é que caí na gargalhada também.</p>
<p>Mérito único e sensacional do diretor Juan José Campanella, o mesmo de <em>O Filho da Noiva</em> e <em><a href="http://50anosdefilmes.com.br/2007/clube-da-lua-la-luna-de-avellaneda/">Clube da Lua</a></em>. Ele é o diretor dos detalhes: talvez seja um daqueles que perde um amigo, mas não perde uma piada. Mesmo num filme que trata, inclusive, de um assassinato “perdoado” pela ditadura militar argentina. No caso de <em>O Segredo dos Seus Olhos</em>, parece que Campanella está fixado em portas. Abre, fecha, abre, fecha&#8230; utiliza esse artifício para ridicularizar as reuniões à portas fechadas&#8230; assim é se me parece&#8230; (obrigada, Pirandello). Mas não sei se é mesmo. Parece.</p>
<p>Existem outros detalhes (sérios e engraçados), que nos desafiam e encantam e que cada um de nós irá descobrindo ao assistir o filme, de maneira deliciosa – como se estivesse num jogo.</p>
<p>Bem, para o diabo com a elegância. Não perca esse filme! Deguste, minuto a minuto, suas mais de 2 horas. De puro arrepio. De pura ansiedade. De puro alívio! Aqui, sim, com exclamação.</p>
<blockquote><p><em>Fevereiro de 2010</em></p></blockquote>
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		<title>Presidiária</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Feb 2010 12:39:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Tudo pode ser dito, tudo pode ser contado, até porque desde que eu saí de casa é como se eu tivesse saído de uma cela, já que passei as duas últimas semanas de cama, aquela febre fervida, aquela raiva contida, aqueles olhos ardendo, sugestões de chás de camomila e erva cidreira, doses maciças de analgésicos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo pode ser dito, tudo pode ser contado, até porque desde que eu saí de casa é como se eu tivesse saído de uma cela, já que passei as duas últimas semanas de cama, aquela febre fervida, aquela raiva contida, aqueles olhos ardendo, sugestões de chás de camomila e erva cidreira, doses maciças de analgésicos.<span id="more-1036"></span></p>
<p>O sol bate forte, cego, vou indo meio que pro capenga, que firmeza, que nada, ainda hei de pegar aquele cara, mas por enquanto é por enquanto, engulo em seco o ódio de pagar sem ter comprado. Tento me manter viva para transar uma luta perdida, alguém vai se machucar, alguém vai morrer, alguém vai se salvar. Carrego um coração em tiras de pele e sangue, nenhuma diferença será ter o corpo também fatiado.</p>
<p>O quarto de pensão fétido obstrui meu pensamento, embarga minha lucidez. Escolho um fato e decifro mentalmente, escolho outro e esmiuço, mas eles se misturam e não sei, com exatidão, o que aconteceu. Também não importa quem bateu naquela porta e por que ela estava ali, morta. Tenho ganância de vingança, ânsia, esperança.</p>
<p>Vou e volto a pé.</p>
<p>Chego na casa do japonês, que fede a peixe, e trabalhamos em silêncio até que é servida uma polenta nojenta à guisa de almoço, aquela carne moída mergulhada em gordura, fritura, tortura, uma salada verde imunda, temperada com vinagre branco e sal e vinagre branco e sal e vinagre branco e sal, só. Copo de geléia, água de torneira, morna, quero a minha mãe.</p>
<p>O pagamento essencial, miséria pouca é bobagem, alta sacanagem que me fará voltar amanhã, outro dia, mesma hora, outro tempo, mesma hora. Agora é tarde.</p>
<blockquote><p><em>Com este conto, <a href="http://50anosdetextos.com.br/category/lais-de-castro/">Laïs de Castro</a> venceu o Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro – Contos Curtos/2009. “Presidiária” vai integrar uma antologia com cem outros escolhidos entre os dos 3.517 participantes do prêmio.</em></p></blockquote>
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		<title>Eu vi &#8220;Disparada&#8221; tomar forma (e outras histórias dos festivais)</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/eu-vi-disparada-tomar-forma-e-outras-historias-dos-festivais/</link>
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		<pubDate>Thu, 21 Jan 2010 16:31:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 1966, a cantora Maria Odette defendeu a música “Boa Palavra”, de Caetano Veloso, no II Festival do Música Popular Brasileira da TV Excelsior, e ficou com o quinto lugar. Caetano era ainda um jovem baiano que não se arriscava a subir no palco para cantar. Hoje canta e fala&#8230; até demais! Foi por essa época [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1966, a cantora Maria Odette defendeu a música “Boa Palavra”, de Caetano Veloso, no II Festival do Música Popular Brasileira da TV Excelsior, e ficou com o quinto lugar. Caetano era ainda um jovem baiano que não se arriscava a subir no palco para cantar. Hoje canta e fala&#8230; até demais!<span id="more-847"></span></p>
<p>Foi por essa época que eu comecei a trabalhar na <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/12/22/o-fim-do-fino/">revista <em>In<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em></a>. Já havia passado por um estágio informal na Editora Abril: três meses na revista <em>Realidade</em>, três meses na Cláudia (então dirigida por Thomás Souto Corrêa, que adorava jogar futebol nos corredores do prédio na hora do almoço) e três meses na <em>In<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em>, onde parece que fui aprovada e contratada como repórter. Então íamos (os fotógrafos e eu) cobrir os ensaios e também <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/12/03/recordacoes-de-uma-final-de-festival/">os festivais</a>, desde que eles nasceram, na TV Excelsior.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Circulando pela TV Excelsior</strong></p>
<p>Teatro Cultura Artística, Rua Nestor Pestana, junto da Praça Roosevelt, São Paulo – ali funcionava a TV Excelsior. Em frente à velha e boa ACM (Associação Cristã de Moços) e ao fantástico Gigetto, o restaurante dos artistas e da boêmia paulistana da época. Um pouco mais tarde, o Gigetto se mudaria dali para bem pertinho, a Rua Avanhandava, onde está até hoje.</p>
<p>A gente entrava e ficava circulando por lá. Passava um, passava outro e o papo rolava; as notícias vinham assim. Ninguém se escondia em mansões nem andava só de carrões. Ao contrário. A maioria dos artistas vinha de outras cidades e se movia em São Paulo de táxi. Gilberto Gil, por exemplo, ainda não havia aderido à alimentação macrobiótica e era gordinho, tinha assim uma carinha de lua querida, bem parecido, na época, com o Luiz Gonzaga.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/tuca1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-852" title="tuca" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/tuca1.jpg" alt="" width="264" height="400" /></a>Outra gordeta, Tuca, defendeu a música ganhadora daquele festival – “Porta Estandarte” de Geraldo Vandré e Fernando Lona. (Era esse o termo que se usava, no tempo dos festivais: defender a música. Não se cantava uma música: defendia-se.) Morreu precocemente devido a uma anorexia mal explicada. Era a mais simpática entre as cantoras – e que sucesso faria Tuca, se tivesse vivido mais! (<em>Na foto, ela está ao lado de Airto Moreira.</em>) Convidava toda a redação da revista para almoçar na casa dela, acho que em Santo Amaro. Nós chegávamos lá e ela estava&#8230; dormindo! Claro, esperávamos e, naquele dia, era tudo festa. A redação inteira, inclusive o Carlos Coelho, redator-chefe, tomando cerveja e conversando sobre música o dia todo. Imaginem isso, hoje, numa redação de semanal&#8230; Seria demissão certa para todos. Naquele tempo, porém, tudo funcionava mais lenta e tranquilamente.</p>
<p>Maricenne Costa (ela se assina assim, com dois enes, de uns tempos para cá) se chama, de verdade,  Maria Ignêz Senne Costa e vinha do Vale do Paraíba, mais precisamente de Cruzeiro, onde viveu até os 18 anos. Dona de uma voz densa e uma afinação perfeita, conversava com os jornalistas como se estivesse em sua casa, com a maior tranqüilidade. Autora da música colocada em segundo lugar, “Inaê”, em parceria com Vera Brasil, à noite cantava (e como cantava) bossa nova no João Sebastião Bar, na Rua Augusta, que teve sua época de ouro em São Paulo, assim como o Beco das Garrafas, no Rio.</p>
<p>Maria Odette, que na época era famosa, nos recebeu – a mim e ao fotógrafo José Ferreira da Silva – para uma reportagem em sua casa da Rua Cypriano Barata, no Ipiranga, onde vivia com a mãe, o pai e as irmãs. Naquele tempo era noiva do Théo de Barros, que meses depois venceria o mais famoso festival que houve no Brasil, o II Festival da MPB da TV Record – aquele da “Banda<em>”</em> e da “Disparada<em>”</em>, música composta por ele com letra de Geraldo Vandré.</p>
<p>Saímos, fomos ao Parque do Ipiranga e fizemos várias fotos do casal, o que, para a época, era bem vanguardista, quase uma matéria para a <em>Caras</em> de hoje. Só por curiosidade: Maia Odette e Théo de Barros não chegaram a se casar. Outras pessoas vieram na vida dela e na vida dele, que não cabe aqui comentar.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Meninos, eu vi – eu vi como &#8220;Disparada&#8221; tomou forma</strong></p>
<p>Sobre o Festival da Record, que veio em seguida, há uma história bem especial. No dia da primeira apresentação das músicas (isso acontecia em três etapas), me mandaram passar o dia com o Vandré. E quem falou que eu conseguia achar o cara? Passei uma semana buscando e quase deixei louco o cara que tinha uma extensão do telefone do compositor no apartamento dele:</p>
<p>- O Vandré está?</p>
<p>- Menina, ele mora em outro andar e não atende telefone. Eu dei uma extensão do meu telefone para ser gentil&#8230; eu não sei se ele está.</p>
<p>Vandré vivia num pequeno apartamento na Rua Veiga Filho, em Santa Cecília, bem perto do Centro, e fazia seus ensaios lá mesmo, com o Théo e o Quarteto Novo. Eu tinha que assistir a um ensaio, era minha tarefa como repórter. Liguei 200 vezes. No fim o pobre vizinho estava tonto e com ódio de mim:</p>
<p>- Pára de ligar pra cá senão eu chamo a polícia!</p>
<p>Ele tinha razão, hoje peço desculpas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/jair.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-853" title="jair" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/jair.jpg" alt="" width="300" height="241" /></a>Mas eu consegui e entrei às 3 da tarde no apartamento onde Vandré, Théo no violão e o Quarteto Novo ensaiavam “Disparada”. Jair Rodrigues (<em>foto</em>), que cantava a música, também estava lá. Como as coisas eram precárias, então&#8230; todos numa salinha e os vizinhos todos tendo o prazer de conhecer a música inédita. Assim como a repórter. Vandré dizia:</p>
<p>- E se a gente pudesse fazer todo mundo entender isso que a gente tá falando? Não seria maravilhoso?</p>
<p>Jair, sempre brincalhão e bem humorado, trabalhava duro, mas sorria muito e falava à beça:</p>
<p>- Cara, essa música é difícil de cantar, mas tá na ponta da língua. Vai sair tudo certo e ela vai chegar chegando. Prá levar a taça!</p>
<p>Previsão perfeita.</p>
<p>Eles, mais o Théo no violão e o Quarteto Novo, passaram e repassaram a música mais de dez vezes, diante de mim, acertando uma nota ali, outra aqui. Eram profissionais. Não vi ali nem uma cerveja, quanto mais bebidas mais fortes. Nadica de nada.</p>
<p>Saímos de lá, todos juntos, por volta das seis e meia da tarde. Eles iam para o palco e eu para a minha casa assistir a tudo pela televisão. Era ao vivo, quem cantou certo, cantou, quem não cantou, cantasse&#8230; prova de fogo.</p>
<p>Sem saber, eu tinha acabado de conhecer ali, em primeiríssima mão, a música que, ao lado da “Banda”, ganharia o Festival. Era incrível!</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/ostrês.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-855" title="ostrês" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/01/ostrês.jpg" alt="" width="300" height="603" /></a>Depois de &#8220;A Banda&#8221;, de Chico Buarque, interpretada por <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/01/22/os-belos-versos-de-chico-buarque-encontram-seu-melhor-cantor-chico-buarque/">Chico Buarque</a> e <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/06/27/nara-num-momento-especial/">Nara Leão</a>, e &#8220;Disparada&#8221;, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, interpretada por Jair Rodrigues (<em>na foto com Nara e Chico</em>), Trio Maraiá e Quarteto Novo, empatadas em primeiro lugar, ficou, em segundo, &#8220;De Amor ou Paz&#8221;, de Luís Carlos Paraná e Adauto Santos, interpretada por Elza Soares. Em terceiro lugar, “Canção para Maria”, uma parceria de Paulinho da Viola e Capinan, cantada por Jair Rodrigues; em quarto, “Canção Não Cantar”, de Sérgio Bittencourt, com o MPB-4; e em quinto, “Ensaio Geral”, de Gilberto Gil, com Elis Regina.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O fotógrafo namorador abria as portas para exclusivas </strong></p>
<p>Além do José Ferreira da Silva, eu também fazia dupla com o fotógrafo Paulo Salomão. Este, já falecido, infelizmente, era um cachorrão de primeira linha. Namorava apresentadoras, cantoras e parece que se dava bem com elas. Não vou dizer o nome de uma, loira, ainda viva, que adorava o crioulo! Ele costumava dizer:</p>
<p>- Deixa comigo, menininha, que eu consigo a exclusiva.</p>
<p>E conseguia. Salomão tinha seus métodos, não muito ortodoxos, mas honestos. Era um grande companheiro. Nunca me deixou na rua depois de uma cobertura. Sempre me levava para casa em seu velho Citroën preto de câmbio no painel, que víamos muito pelas ruas então. O carrro se chamava Catarina. Quantas vezes não empurrei a Catarina pelas madrugadas paulistanas!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Até o amanhecer, com Toquinho, Vinicius&#8230; </strong></p>
<p>Numa delas saímos do Teatro Record e fomos para o Barbudinho, que ficava no subsolo da Galeria Metrópole, na Avenida São Luiz com Praça Dom José Gaspar. Estávamos “trabalhando”&#8230; Ali encontramos, espalhados por algumas mesas, entre os freqüentadores comuns, ninguém menos que Toquinho e Vinícius. Maria Pia, que trabalhava com Guilherme Araújo, também estava com eles. E Carolina Whitaker, para quem Toquinho fez “Carolina Bela”. Claudio Curi, que depois se tornou ator de novelas, também. Sentamos junto a eles.</p>
<p>O dia estava clareando quando alguém falou:</p>
<p>- E se fôssemos para a casa do Toquinho ouvir um pouco de violão?</p>
<p>Todos toparam. Claudio Curi e eu fomos até a minha casa buscar o meu violão para que ele tocasse também. O sol já vinha forte, perto das 6h da manhã. Voltamos para a casa do Toquinho, que morava na Alameda Ministro Rocha Azevedo, numa casinha de frente de rua, no trecho ainda na Bela Vista. Aquela rua, que hoje tem mão só para subir em direção à Paulista, naquele tempo apenas descia.</p>
<p>Ficamos lá, “trabalhando” até as 8h da manhã. Toquinho tocava, Claudio Curi tocava, nós todos cantávamos. Vinícius, simpaticíssimo, também cantava e tomava seu uísque, em paz. Naquela noite – coisa rara – estava desacompanhado!</p>
<blockquote><p><em>Laïs de Castro escreveu este texto especialmente para o site </em>50 Anos de Textos.</p></blockquote>
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		<title>O fim do Fino</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 20:52:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[José Ferreira da Silva era um fotógrafo magro como um palito; não sei como carregava aquele equipamento pesado da época. Foi ao lado dele que eu, repórter da revista inTerValo, bati à porta do apartamento de Elis Regina no dia 20 de junho de 1967, logo após saber que o programa O Fino da Bossa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>José Ferreira da Silva era um fotógrafo magro como um palito; não sei como carregava aquele equipamento pesado da época. Foi ao lado dele que eu, <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/12/03/recordacoes-de-uma-final-de-festival/">repórter da revista <em>in<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em></a>, bati à porta do apartamento de Elis Regina no dia 20 de junho de 1967, logo após saber que o programa <em>O Fino da Bossa</em> havia acabado na véspera, havia sido tirado do ar, havia deixado de existir.<span id="more-670"></span></p>
<p>O apartamento era um pequenino “já vi tudo” (a gente entrava, já via tudo), acreditem se quiserem, na Avenida Rio Branco, num andar bem alto de um prédio enorme do centro de São Paulo. É preciso dizer, para os mais jovens, que o Centro da cidade, naquela época, era transitável e ainda bem simpático. E – importantíssimo – em geral não havia porteiros e muito menos interfones. A gente chegava em qualquer prédio, subia e tocava a campainha. Mesmo dando aquela bandeira de repórter e fotógrafo, que andavam sempre em dupla feito Cosme e Damião, um com aquela carga de máquinas, lentes e flashes e filmes, e outro com aquele indefectível gravador do tamanho de um tijolo (e o meu era chique, considerado pequeno para o padrão da época).</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-673" title="elis2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/elis2.jpg" alt="elis2" width="540" height="300" />Quando a porta se abria, entrava-se num corredor de um metro que tinha, à esquerda, a porta da minicozinha, à frente a sala e, ao lado dela o quarto e o minibanheiro. Ali vivia, entre escondida e anônima, a maior cantora do país. Pois a porta se abriu pelas mãos de Elis Regina, com um sorriso meio maroto, meio amarelo, a cabeça virada de lado, gesto que repetia muitas vezes:</p>
<p>- Podemos conversar?</p>
<p>Posso dizer, não sem uma ponta de vaidade, que Elis Regina confiava na repórter. Eu nunca tinha dado um fora com ela, e nem jogado mentiras em suas palavras para ganhar manchetes sensacionalistas. Trabalhava honestamente.</p>
<p>- Entra aí – ela disse, e foi para o pequeno sofá.</p>
<p align="center"><strong>A maior cantora do país fazia tricô em seu apartamento mínimo</strong></p>
<p>Agora vocês vão achar que estou mentindo, mas tomara que o Ferreira esteja vivo, pois só ele poderia atestar o que digo. Elis Regina se sentou, botou uns óculos “de perto” e retomou o tricô que fazia antes de chegarmos. Fiquei envergonhada porque estava vendo ali uma quase menina – embora eu tivesse ainda um ano a menos; ela estava com 21 anos, e eu, 20 – fazendo seu tricô em paz, e nós havíamos chegado para perturbá-la. Talvez fosse uma paz aparente, pois o programa que ela apresentava tinha acabado de morrer e ela precisava se distrair. Talvez fosse um hobby&#8230; eu era muito menina também para discernir. Não sei o que ela tricotava e nem posso dizer a cor do trabalho. Isso o tempo apagou.</p>
<p>- Vamos falar sobre o fim do <em>Fino</em>?</p>
<p>Elis era ardida mesmo:</p>
<p>- Acabou, o que você quer que eu fale? Tiraram do ar o melhor programa da TV brasileira. Mas é assim mesmo, as pessoas querem que apenas as bobagens sobrevivam. Eu não vou sair gritando. Acabou e está acabado. Morto, enterrado.</p>
<p>(Elis, naquele momento, foi profética: de lá para cá a TV piorou muuuuuito).</p>
<p>- Mas porque acabou?</p>
<p>- Vocês têm que ir perguntar pro Paulinho Machado de Carvalho, que é o dono da TV Record. E também para aquele bando de babacas que tinha um ciúme danado de mim e ficou assoprando na cabeça dele para acabar com tudo. O cara até que é legal, mas é mal cercado. E os meus colegas, então? Cada um queria um programa só seu. Bem, os musicais foram se multiplicando e a audiência foi se esgarçando, já que tinha que se dividir entre vários programas iguais, um apresentador, uma fala, uma música, um apresentador, uma fala, um música, nenhuma imaginação. (Ela se referia à Jovem Guarda e aos programas de Ronnie Von, Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro). E depois essas letrinhas terríveis, falando “quero buzinar meu calhambeque”, que horror&#8230; Mas é isso que os militares querem, não é?</p>
<p>- Você acha que a ditadura acabou com <em>O Fino</em>?</p>
<p>- Além dela, os ciúmes&#8230;</p>
<p>Posso dizer hoje, sem medo de errar, que ficamos naquele pequeno apartamento mais de três horas, aparando as arestas do que poderíamos publicar, para que não houvesse nenhum problema posterior nem para ela, nem para nós e nem para a revista. Gravei e regravei aquele depoimento três vezes. Ao final, publicamos isso mesmo que acabei de descrever, mas com palavrinhas adocicadas e leves.</p>
<p>Hoje, o que mais me impressiona é a paciência da grande Elis &#8211; e a minha burrice de ter gravado outras entrevistas sobre aquela (e várias outras) fitas do meu gravador. As fotos, com certeza também se perderam no Dedoc (Departamento de Documentação) da Editora Abril, pois eram, como se dizia, slides.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-676" title="elis5" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/elis5.jpg" alt="elis5" width="352" height="264" />Mas posso dizer, com muito orgulho, que tive essa exclusiva, sim, e que deu uma capa linda: uma foto de Elis Regina tristonha e um título falando do fim do <em>Fino da Bossa</em>. Mas a <em>in<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em> era apenas uma revistinha de TV; o grande sucesso do jornalismo na época era a <em>Realidade</em>, uma revista de grandes reportagens, também muito visada pela censura. Virou, mexeu, era recolhida das bancas. (<em>Na foto ao lado, Elis com o Zimbo Trio, presença constante no programa</em> Fino da Bossa.)</p>
<p>Eu tinha feito um estágio de três meses na <em>Realidade</em> e sabia bem como lá também se sofria com a censura. Perto deles, o sofrimento em <em>in<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em> era pequeno.</p>
<p>Naquele tempo a velha e saudosa revista <em>in<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em> tinha três repórteres e dois fotógrafos contratados.Como precisávamos trabalhar à noite e também aos sábados e domingos, era feita uma escala. Os repórteres ficavam de plantão a cada três semanas e os fotógrafos a cada duas. Nossa tarefa era ficar de segunda a domingo no Teatro Record, na Rua da Consolação, que pegou fogo depois, levando, também, boa parte dos preciosos arquivos em vídeo da música popular brasileira.</p>
<p align="center"><strong>A cada dia da semana, um programa de música ao vivo</strong></p>
<p>Ali cobríamos – tenho que me lembrar:</p>
<p>segundas-feiras – <em>O Fino da Bossa</em>, comandado por Elis Regina;</p>
<p>terças-feiras – <em>Corte Rayol Show</em>, de Renato Corte Real e Agnaldo Rayol;</p>
<p>quartas-feiras – Hebe Camargo e suas entrevistas;</p>
<p>quintas-feiras – Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro (velha guarda);</p>
<p>sextas-feiras – <em>Família Trapo</em>, com Zeloni, Golias, Jô Soares, Cidinha Campos e Renata Fronzi;</p>
<p>sábados à tarde – Ronnie Von;</p>
<p>domingos à tarde – Jovem Guarda.</p>
<p>Por enquanto, vamos ficar na segunda-feira, foco no <em>Fino da Bossa</em> – que depois ganhou o apelido mais curto de <em>O Fino</em> – close naquela menina que, com apenas 21 anos, comandava o programa. Com personalidade, ela passou de uma cantora desconhecida a unanimidade nacional, a maior e mais querida cantora do Brasil. Seu estranho nome, Elis, acompanhado de Regina, porque, segundo a família, nascera para ser rainha mesmo. E foi. Como foi.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-675" title="elis1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/elis1.jpg" alt="elis1" width="170" height="230" />O Brasil, por sua vez, vivia tempos negros e difíceis: uma ditadura militar, entre as várias ditaduras deste pobre continente latino-americano. Cada gesto ou palavra dos escritores, jornalistas, compositores, professores universitários e outros criadores (também de opinião) eram vigiados de perto. Caso houvesse escorregões “comunistas”, eram castigados. Os censores sentavam-se ao nosso lado para assistir a cada programa daqueles que falei e, depois, “editavam” tudo o que era dito, antes de ir ao ar.</p>
<p><em>O Fino da Bossa</em> era um dos mais visados, pois recebia Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Gilberto Gil, Vinícius e a própria Elis, todos engajados numa empreitada silenciosa de enganar os danados dos censores. Ninguém dizia nada, mas tacitamente nós, que estávamos lá, sabíamos o que acontecia. Só para dar exemplos rápidos, Vandré fez “Disparada”, Vinicius tinha feito a “Canção do Subdesenvolvido”, Elis gravou “Terra de Ninguém” (de Marcos e Paulo Sergio Vale), que dizia “Quem trabalha é que tem/ Direito de viver/Pois a terra é de ninguém”, Edu Lobo fez “Zambi” (“Chega de viver na escravidão/ é o mesmo céu/ é o mesmo chão” e outras que todos conhecem.</p>
<p>Não sei dizer por que <em>O Fino da Bossa</em> acabou. Elis também não soube dizer o motivo, naquela tarde maravilhosa que passei ao lado dela. O que publicamos, afinal, foi uma série de hipóteses. Bem plantadas, mas hipóteses. A melhor cantora do país sobreviveu ao fim do <em>Fino</em> e cresceu, como acontece com as coisas de qualidade. Elas não morrem diante de conjunturas adversas. Ao contrário: ganham maior impulso para crescer!</p>
<p>Naquele dia, ela se despediu dos dois jornalistas e, com certeza, voltou ao tricô. Grande Elis.</p>
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		<title>Recordações de uma final de festival</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Dec 2009 15:56:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Laïs de Castro]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu sei que estava nos bastidores do Teatro Paramount (hoje Teatro Abril, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo) e corria o ano da graça de 1967. Não me perguntem, por favor, qual era o mês (fazia frio) e muito menos o dia. Na verdade, eu tinha tenros 20 anos de idade e era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei que estava nos bastidores do Teatro Paramount (hoje Teatro Abril, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo) e corria o ano da graça de 1967. Não me perguntem, por favor, qual era o mês (fazia frio) e muito menos o dia. Na verdade, eu tinha tenros 20 anos de idade e era repórter de uma revista chamada <em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/12/22/o-fim-do-fino/">in<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</a></em>, da Editora Abril, a única no país sobre televisão. <span id="more-321"></span>Naquele momento o Brasil vivia uma ditadura brava e pesada e não existiam (que bom!) as revistas de fofocas e nem as de celebridades. Os ricos eram discretos (ostentar era, e é, brega e esse quesito era levado a sério). Depois viriam a <em>Fatos&amp;Fotos</em>, da<em> </em>Bloch, e a <em>Folha</em> e o <em>Estadão</em> começariam a se aventurar pela cobertura de TV. Mas isto é para uma outra ocasião.</p>
<p>Por enquanto estou nos bastidores do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, tudo o que uma menina de 20 anos gostaria de fazer na vida. Todo mundo brigando por uma entrada e eu lá, no meio dos artistas&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Não se tratavam os artistas como deuses</strong></p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-336" title="caetano" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/caetano.jpg" alt="caetano" width="500" height="276" />Existiam ali quatro camarins, se é que assim poderiam ser chamados aqueles quartinhos sem banheiro, feios e mixos. Não havia o dono de um camarim, todos se arriscavam por todos. Maquiadores, assessores? Gente, uma maquiadora só para todos, e era muito. O pessoal chegava de táxi&#8230; Um outro camarim, mais amplo, também era ocupado por todos. Garçons? Nem pensar. Quem quisesse, que levasse seu uísque e pegasse o gelo no bar vizinho. Como vocês vêem, os tempos eram bem outros. Não que houvesse economia. É que não existia a mentalidade de tratar artistas como deuses, só isso.</p>
<p>Lá estavam, todos juntos, Elis Regina, <a href="http://50anosdetextos.com.br/1981/01/22/os-belos-versos-de-chico-buarque-encontram-seu-melhor-cantor-chico-buarque/">Chico Buarque</a>, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Edu Lobo, Nara Leão, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, o Zimbo Trio, o Tamba Trio, Caçulinha e seu regional, e muitos outros. Até <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/07/12/grande-rei-roberto/">Roberto Carlos</a> e Hebe Camargo cantaram no Festival – ou, como se dizia naquele tempo, defenderam suas músicas. Quem ganhou foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan, cantada por Edu e Marília Medalha; em segundo ficou “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil (<em>na foto abaixo</em>), apresentada por ele e Os Mutantes. Em terceiro, “Roda Viva”, de Chico Buarque, com ele e o MPB-4; e, em quarto,  “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-332" title="Gil" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Gil.jpg" alt="Gil" width="540" height="300" />Posso dizer que eu convivia com todos esses artistas; eram pessoas bem mais simples, mais tranqüilas, mais accessíveis e menos assediadas então.</p>
<p>Eu sabia que no dia seguinte iria passear pela cidade com os vencedores para fazer as fotos da capa da revista com o José Ferreira da Silva ou o Paulo Salomão, fotógrafos contratados da revista.</p>
<p>Mas por enquanto ainda estou nos bastidores, onde as pessoas tomavam o uisquinho e conversavam. O festival rolava, cada um apresentava sua música e a gritaria do público era quase insuportável. Palmas e vaias em centenas de decibéis.</p>
<p>Do lado de dentro, todos estavam nervosos, mas fingiam calma.</p>
<p>Nara Leão me perguntou:</p>
<p>- Você sabe como é que eu chego a Paraty, daqui de São Paulo?</p>
<p>Eu me odiei porque não sabia e tive que mostrar minha ignorância. Naquele tempo Paraty era um lugar apenas para os intelectuais mais iniciados do país. Nara Leão era uma delas. Parece que ia para lá, quase sempre, com Ferreira Gullar, Cacá Diegues, sua irmã Danusa (ela ainda pode confirmar) e outros menos votados. Era uma turma linda.</p>
<p>Elis Regina estava vagando de lá para cá, bem nervosa, Edu Lobo, sempre isolado num canto.  Chico Buarque nem se fala. Era um cantinho e um copo de uísque:</p>
<p>- Pode fotografar &#8211; ele falou. – Não tem nenhum problema eu tomar meu uisquinho aqui.</p>
<p>Verdade. Não tinha mesmo. Mas não fotografamos – para quê?</p>
<p>Os Mutantes, que se apresentariam pela primeira vez, estavam completamente deslocados. Rita Lee me perguntou:</p>
<p>- Você acha que vamos ganhar?</p>
<p>- Imagino que sim – respondi. E aproveitei para plantar uma matéria. – Se ganharem, me avisa onde vai ser a comemoração, para eu ir com o fotógrafo?</p>
<p>- Aviso &#8211; disse ela.</p>
<p>Gilberto Gil e os Mutantes não ganharam com “Domingo no Parque”, mas foram aplaudidíssimos; a música foi um sucesso e os Mutantes se tornaram astros. Eles foram comemorar, mas Rita Lee não me contou onde. Dias depois, estivemos na casa de Sérgio e Arnaldo Dias fazendo a primeira reportagem com eles para uma revista nacional. A casa ficava numa travessa da Avenida Pompéia e tinha uma varanda com recorte redondo. Fizemos várias fotos. Outro endereço onde estive para fazer uma reportagem foi a casa de Rita Lee, na Rua Joaquim Távora, na Vila Mariana. Ali moravam o pai dela, um dentista, a mãe e duas irmãs mais velhas. Era um sobradão com uma varandinha, janelas e portas bem antigas, que não combinava com ela. Uma garota moderna. Mas tinha que ser assim: Rita seria a ovelha negra. A mais branca que se conheceu.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong>Jair Rodrigues plantava bananeira</strong></p>
<p>Voltando aos bastidores: num certo momento me enfiei no camarim maior, onde estavam Nara Leão, Caetano Veloso (ainda bem tímido) e Jair Rodrigues, que, inquieto, plantava bananeiras e brincava o tempo todo. O camarim era grande, mas tosco: tinha um carpete velho e meio rasgado, uma bancada de tábuas mixangas, implorando por uma lixa e um bom verniz. Na verdade não ouvíamos o que acontecia no palco.</p>
<p>Eu entrava e saía a toda hora para conferir tudo, não perder nem um lance. O pessoal do MPB-4, que acompanhava Chico Buarque, conversava na coxia, sobre a panela de pressão que aquilo estava virando.</p>
<p>- Vai dar pau &#8211; disse um deles, não me lembro qual.</p>
<p>- Não vai &#8211; respondeu o outro. &#8211; Festival é sempre assim.</p>
<p>A verdade é que os estudantes, prensados pela ditadura militar, precisavam gritar contra as músicas que consideravam “da direita” e aplaudir as “de esquerda”. Era uma válvula de escape. Mas neste terceiro festival não havia músicas escancaradamente políticas. De resto&#8230; o pessoal andava comportadinho depois de muito susto.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-331" title="sergioricardo" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/sergioricardo.jpg" alt="sergioricardo" width="520" height="272" />Daquele camarim maior, como eu já disse, ao lado de Nara Leão e Jair Rodrigues de cabeça para baixo, não se ouvia nada além de um zumbido forte. De repente, entrou pela porta Sérgio Ricardo, vermelho como uma cereja, furioso, gritando palavrões – “vão todos pra puta que os pariu” – o que na época era raro. Elis vinha correndo atrás e tentava abraçá-lo. Edu Lobo apareceu, apaziguador, mas assustado. Chico Buarque também entrou. Trancaram a porta e Sérgio começou a gritar: “Quebrei o violão e joguei mesmo, não estou nem aí com esse público grosso e mal educado, um bando de filhos da puta, não me deixavam cantar”.</p>
<p>Todos tentavam consolá-lo ao mesmo tempo, o que, afinal, não resultava em nada, tal a confusão. Nara continuou quieta no canto dela, Elis conseguiu consumar o abraço protetor, Edu falava pausadamente algo parecido com “que merda”, Chico estava mudo, mas com cara de solidário. Jair Rodrigues desvirou da bananeira e ficou olhando tudo, assustadíssimo. Nunca tinha visto algo assim de perto. Nem de longe. Sérgio Ricardo estava roxo, com lágrimas nos olhos, mais de raiva do que de tristeza. Os organizadores começaram a bater na porta e Jair Rodrigues saiu. Naquele momento, alguém me viu ali.</p>
<p>- Tem uma repórter aqui dentro. Põe ela pra fora.</p>
<p>Eu saí, mas já tinha gravadas na mente as primeiras reações de todos, que, na sua maioria, reclamavam das vaias da criançada da platéia.</p>
<p style="text-align: center;"> <strong>&#8220;Foderam a música&#8221;, diz Elis para Dori e Nelsinho</strong></p>
<p>Depois que tudo se acalmou, chegou o momento crucial dos resultados. A primeira categoria a ser chamada foi a de melhor intérprete.</p>
<p>Não poderia nunca ser outra senão <a href="http://50anosdetextos.com.br/2009/12/22/o-fim-do-fino/">Elis Regina</a>, com “O Cantador”, de Dori Caymmi e Nelson Motta. Ela ouviu a indicação e, antes de entrar no palco para repetir a canção, deu um beijo no Nelson Mota, outro no Dori Caymmi, os autores da canção, e disse:</p>
<p>- Foderam a música; se eu levei intérprete, a música não vai levar mais nada.</p>
<p>Entrou no palco e cantou, como sempre, como ninguém. Uma deusa, uma criança, uma menina, Elis Regina.</p>
<p>Roberto Carlos foi vaiado intensamente quando cantou a quinta colocada, “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luís Carlos Paraná. Coisas daquela época em que tudo era radical, “de direita” ou “de esquerda”; para a platéia, “de esquerda”, Roberto Carlos era jovem guarda, alienado, “de direita”. Ele foi vaiado, mas manteve a verve.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Durante o ensaio</strong></p>
<p>Cerca de seis horas antes, naquela mesma tarde, eu estava no ensaio dos cantores no mesmo Teatro Paramount. Conversava com um e com outro, passei por Elis Regina:</p>
<p>- Me conta uma novidade.</p>
<p>Ela deu uma daquelas gargalhadas gostosas e, ao lado de Nelson Motta, brincou:</p>
<p>- Nelsinho é veado! – e caiu na gargalhada de novo. Todos riram. Mas parecia mesmo que eles estavam era namorandinho&#8230; não sei.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-334" title="edu" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/edu.jpg" alt="edu" width="383" height="366" />Passei em seguida pela Marilia Medalha, sempre ao lado do Edu Lobo (<em>foto</em>):</p>
<p>- Você acredita que vai ganhar hoje?</p>
<p>- Vamos ganhar, sim, a música do Edu é a melhor! – respondeu ela, confiante, sorriso no rosto, sempre simpática, uma voz densa e marcante.</p>
<p>Gil ensaiava com os Mutantes e alguns puristas reclamavam:  - Guitarras, para quê?</p>
<p>Era o início da tropicália, alguém duvida? Mas naquela época era mais uma boa briga comprada pelos baianos do que qualquer outra coisa.</p>
<p>Ouvi o Chico ensaiando “Roda Viva” com o MPB-4 e sempre fugindo dos repórteres, o Caetano cantando “Alegria, Alegria”, com os Beat Boys, um conjunto de rock argentino. Ousado. Magro, seco, sentava sobre as duas pernas e ainda sobrava espaço. Com roupas coloridas. A música de Caetano cantava “o sol nas bancas de revistas”. Alguém me assoprou:</p>
<p>- A namorada dele, Dedé, trabalha em Salvador num jornal chamado O Sol.</p>
<p>Não acreditei, mas registrei o nome da namorada, Edelzuite, baiana de boa cepa. Depois eu saberia que Edelzuite era uma corruptela de Ethel Sweet, uma artista americana que havia feito sucesso três décadas antes&#8230; A mãe de Dedé era fã dela.</p>
<p>Durante aquele ensaio histórico, Nana Caymmi reclamava que dormia num colchão, precisava “comprar uma cama urgente, porque já estava com dores no corpo”. Ela, tão jovem, estava casada com Gilberto Gil naquela época, e ele não queria a cama.</p>
<p>Naquele ensaio histórico, que vi inteiro ao vivo, tirava uma notícia aqui, outra ali, quando o Sérgio Ricardo foi passar a música que cantaria à noite, “Beto Bom de Bola”. Depois, sentado ali, o cantor, compositor, cineasta famoso me perguntou:</p>
<p>- Gostou?</p>
<p>É claro que ele não vai se lembrar, mas, na resposta, cometi uma das maiores gafes da minha vida:</p>
<p>- Gostei, mas preferia sem aquela parte falada.</p>
<p>Ele ficou furioso:</p>
<p>- Não tem parte falada! É tudo cantado!</p>
<p>Eu me desculpei e saí de fininho. Imagino, afinal, que as vaias aconteciam por causa disso: o cara cantava meio que falando e naquela época não existia rap, gente!</p>
<p>No dia seguinte, depois que passou o Festival, na redação da revista, já cantávamos, usando a melodia de “Ponteio”: “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra quebrar/ Bronqueio!” E, embora não existisse internet, esse refrão se espalhou e foi cantado por todos os experts da platéia dos festivais durante um bom tempo!</p>
<p>Bem, voltando ao camarim. Pronto, fui expulsa. Mas já havia visto o suficiente. Escrevi tudinho, que saiu na edição seguinte da revista <em>in<strong>T</strong>er<strong>V</strong>alo</em>. Eu daria um bom dinheiro por aquele exemplar da revista, hoje. Não tenho mais nenhuma edição daquela raridade. Uma pena. Tenho apenas minha memória. E essa pude dividir com vocês.</p>
<blockquote><p><em><strong>Laïs de Castro</strong> é jornalista. Trabalhou 18 anos no Grupo Abril, onde foi desde repórter da revista </em>Cláudia<em> até diretora da </em>Boa Forma<em>. Trabalhou 12 anos na editora Símbolo, onde foi diretora de redação da revista </em>Barbara<em>. Lançou, pela Siciliano, selo ARX, o livro </em>Um Velho Almirante e Outros Contos<em>.</em></p>
<p><em><strong>A historinha por trás do texto</strong></em></p>
<p><em>As coisas na internet se multiplicam, ganham uma dinâmica própria. Laïs já poderia – na verdade, já deveria – ter contado essas histórias deliciosas sobre os bastidores da final do festival da Record de 1967 faz muito tempo. Mas acabou só escrevendo esse delicioso texto porque este site aqui existe. Coisa de louco.</em></p>
<p><em>Um dos primeiros textos que botei no ar no site foi um que fiz a pedido da Laïs, para a revista </em>Barbara<em>, <a href="http://50anosdetextos.com.br/1996/11/25/as-musicas-que-embalaram-nossas-paixoes/">“As músicas que embalaram nossas paixões”</a>. Aí mandei um e-mail contando para ela que tinha acabado de criar um site, e que ela estava citada lá. De bate-pronto ela se ofereceu para escrever para este </em>50 Anos de Textos<em>; disse que tinha histórias saborosas sobre o festival. E aí estão elas.</em></p>
<p><em>Está prometendo fazer um texto por mês. Tomara que cumpra a promessa.</em></p></blockquote>
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