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	<title>50 Anos de Textos &#187; Jorge Teles</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Zamenhof?! Quem é esse cara?</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Nov 2011 02:22:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

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		<description><![CDATA[1. Quando eu era menino, como todo bom brasileiro, acho, aprendi a língua do Pê. A gente falava com amigos, acreditando que ninguém entendia. Pra quem nunca ouviu falar disso, eis a regra: após cada sílaba, repete-se a mesma, substituindo-se cada consoante pela letra P; a palavra dobra de tamanho. Exemplo: Topôdospôs ospôs popôlípitipicospôs dopô [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1. Quando eu era menino, como todo bom brasileiro, acho, aprendi a língua do Pê. A gente falava com amigos, acreditando que ninguém entendia.<span id="more-5760"></span> Pra quem nunca ouviu falar disso, eis a regra: após cada sílaba, repete-se a mesma, substituindo-se cada consoante pela letra P; a palavra dobra de tamanho.</p>
<p>Exemplo: Topôdospôs ospôs popôlípitipicospôs dopô Brapasilpil sãopão sapafapadospôs.</p>
<p>Algumas crianças mais metidas diziam que falavam a língua do Tê, do Zê, etc. É só substituir o Pê e está feita a língua. Para mal das crianças metidas, o Pê sempre reinou soberano e as outras línguas eram vassalos de nada.</p>
<p>Objetivo? Não ser entendido. Exibir habilidades.</p>
<p>Houve um dia em que descobri que havia um dialeto dentro da língua do Pê. Uma língua mais pobre, um &#8220;sermo vulgaris&#8221;. Algo como falar &#8220;os menino comeu os peixe&#8221;. Em vez de repetir a sílaba, falava-se &#8220;PÊ&#8221; antes dela.</p>
<p>Exemplo: Pêmuipêtos pêpopêlípêtipêcos pêbrapêsipêleipêros pêssão pêlapêdrões.</p>
<p>Na adolescência, Angela, irmã mais nova, que estudava num colégio só para moças, o Paulo de Frontin, apareceu com uma outra língua. Essa, sim!, sofisticada. Era como falar grego, latim ou alemão. Era difícil de aprender mas, após alguma prática, era a glória. Eis a regra: as sílabas sofriam acréscimo, conforme sua vogal: áik, ênder, óber, ímis, ufúks (havia variantes). Consoante pós-vogal e til eram falados em separado.</p>
<p>Exemplo: Nóber Bráik-zímis-éle náik-óber-til háik páik-érre-tímis-dóber-ésse máik-ésse quáik-drímis-lháik-ésse.</p>
<p>Chegamos a conversar nessa língua louca.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>2. A humanidade fala mais de seis mil línguas. Alguém resolver que vai inventar uma língua a mais, parece coisa totalmente sem sentido, coisa de doido. Com que objetivo? No entanto, em 1532, Juan Luis Vives, judeu nascido na Espanha (mas que de lá saíu, após a morte de seus parentes, pela Inquisição), amigo de Erasmo de Roterdam e Tomás Morus, e que, como todos os humanistas da época, publicava em latim, escreveu o seguinte: &#8220;Seria uma felicidade se houvesse uma língua única, que pudesse ser utilizada por todos os povos&#8230; O latim vai desaparecer. Então uma grande confusão dominará todas as ciências e os povos viverão em total isolamento&#8221;.</p>
<p>Na verdade, dizer que o &#8220;latim vai desaparecer&#8221; é eufemismo. O latim já estava desaparecendo. A filosofia e a ciência eram escritas em latim mas as línguas nacionais já criavam suas literaturas. Pensemos na <em>Divina Comédia</em> de Dante (1307!), nas obras de Gil Vicente, Juan de Encina, nos poemas de Leonardo e Michelangelo (isto, em torno de 1500 e anos seguintes). <em>O Príncipe</em>, de Maquiavel, é de 1513, em italiano (mas traz os títulos, curiosamente, em latim).</p>
<p>No século XIX houve diversas tentativas de se criar uma língua que substituísse o latim nas publicações científicas e nas relações entre falantes de línguas diferentes. A que mais teve sucesso foi o volapuk. Apesar de ter conseguido três congressos internacionais, o volapuk acabou perdendo o prestígio por causa da sua própria estrutura e rigidez: as palavras eram agrupadas de acordo com categorias e suas variações de gênero, número, tempo verbal, etc. Essa língua, sim, era coisa de louco. Artificialíssima.</p>
<p>Em 1887 Lázaro Luis Zamenhof lançou as bases do Esperanto.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>3. Não pretendo aqui fazer a apologia do Esperanto nem falar de suas características. Antes de manifestar minha intenção, dizer apenas que a maioria das pessoas não sabe o verdadeiro objetivo da língua Esperanto: muita gente acredita que o Esperanto pretende substituir as línguas do mundo e se tornar a língua universal; falta de informação. O Esperanto foi criado para ser falado por pessoas de idiomas maternos diferentes, em substituição à prática milenar de estrangeiros se comunicarem na língua do país mais poderoso de cada época.</p>
<p>Minha intenção, por agora, é divagar sobre este homem chamado Zamenhof (1859-1917). Judeu nascido numa cidade polonesa, durante um tempo invadida pelos alemães mas tomada pelos russos. Como judeu, falava ídiche; como polonês, falava polonês; falava russo com o pai e com habitantes da cidade falava alemão; na escola estudava o latim e o grego e na sinagoga exercitava o hebraico. No dia em que completava 19 anos, numa reunião com jovens amigos, cantou um pequeno hino numa lingua que andava inventando e que ele pretendia tornar a segunda língua de todas as pessoas do mundo. Foi encaminhado a Moscou a seguir, para estudar medicina, e durante esta ausência, de medo da censura tzarista, o pai queimou suas anotações.</p>
<p>Durante os estudos na Rússia, Zamenhof chegou a fazer uma gramática de ídiche que pudesse unificar as diversas variantes que existiam. Lituanos, russos, poloneses, alemães, cada grupo falava um ídiche particular. Não nos esqueçamos, porém, de que o ídiche funcionava para os judeus como uma língua internacional no leste europeu e nos países do norte. (Havia espalhada pelo mundo, desde a expulsão dos judeus da península ibérica, uma outra língua que outra coisa não é se não um espanhol modificado &#8211; o ladino, nalgum tempo chamado de judeu-espanhol).</p>
<p>Mas novamente na sua cidade, voltou ao projeto de criação de uma língua internacional. E em 1887, saíu a primeira publicação em Esperanto. Uma pequena gramática com um pequeno vocabulário e um convite para que as pessoas interessadas entrassem em contato com ele, para que ele criasse uma lista de endereços e a distribuísse entre todos. Alea jacta fuit.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>4. Gostaria de tentar apresentar, para quem não tem idéia, a dimensão da inteligência ou do gênio desse homem que resolveu inventar uma língua, com um objetivo altruísta, e tentar discutir se, dessa forma, ele se constituíu ou não num benfeitor da humanidade. Ou, quem sabe, num grande artista.</p>
<p>Após a elaboração de toda a estrutura da língua, com suas particularidades de vocabulário e regras gramaticais, Zamenhof resolveu colocar seu Frankenstein à prova. E pôs-se a traduzir&#8230; o <em>Hamlet</em>, de Shakespeare. A escolha já é algum indício. Levou, de acordo com um biógrafo, perto de oito anos. Segundo suas cartas, foi durante essa tradução que ele percebeu nuances e peculiaridades linguísticas, sobre as quais nunca tinha pensado. E, a partir daí, foi aperfeiçoando seu trabalho. Algo como cuidar dos detalhes de uma escultura descomunal.</p>
<p>Em congressos e correspondência nos anos seguintes, Zamenhof, humildemente, sempre se manifestou favorável ao uso de bom senso sobre sua invenção, devendo ela receber mudanças que fossem consideradas aperfeiçoamentos necessários. E no entanto, nesses cento e vinte e quatro anos, a língua praticamente nada sofreu. Alguns grandes esperantistas criaram novas maneiras de adequar certos pensamentos ao Esperanto, mas a estrutura original se conserva até hoje. O Frankenstein, pois, mostrou-se muito mais uma gigantesca obra cheia de harmonia e correção, do que algo monstruoso.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>5. Continuando um trabalho cujo objetivo era exemplificar a possibilidade de o Esperanto vir a se tornar uma língua completa, densa, expressiva e profunda, o homenzinho tenaz continuou seu trabalho de traduções. Ele não era fácil, realmente. Durante a vida traduziu: do alemão, de Goethe, <em>Ifigênia em Táuride</em> e, de Schiller, <em>Os Salteadores</em>; do francês, de Molière, <em>Georges Dandin</em>; do russo, de Gogol, <em>O Inspetor</em>; e, do hebraico, todo o Velho Testamento. Há outras obras de tradução, além de poemas originais e uma grande quantidade de cartas e discursos. Sempre num estilo limpo, harmonioso, e, sobretudo, extremamente claro. O Velho Testamento é considerado por muitos, como a mais perfeita tradução já feita em qualquer língua.</p>
<p>Esta característica que tem o Esperanto de possibilitar traduções impecáveis se deve à grande flexibilidade de sua estrutura linguística, sobre o quê não pretendo divagar.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>6. O Esperanto se mostra cada vez mais como uma realidade a ser enfrentada pelo mundo de hoje. Não é por acaso que países como França e Inglaterra resistem em introduzir seu estudo nas escolas. Todavia, a Comunidade Européia enfrenta sérios problemas com relação a um idioma oficial. Mas há, sim, dez vezes sim, um grande preconceito sobre a aceitação de uma língua inventada. As autoridades pretendem ignorar que obras do mundo inteiro continuam sendo traduzidas para o Esperanto e falantes do mundo inteiro já se comunicam nessa língua. Seu uso na internet já é maior do que o uso de algumas línguas nacionais, como o dinamarquês, por exemplo; sem nenhum detrimento dessa língua, mas como um aspecto do moderno quadro das comunicações humanas.</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p>7. Antes de terminar, duas historinhas:</p>
<p>a. quando do centenário do Esperanto, em 1987, a Associação Italiana lançou dois cartazes: num, Charles Chaplin, e o texto: Chaplin amava o Esperanto. Hitler, o odiava. Por quê? (no filme <em>O Grande Ditador</em>, os letreiros das lojas do gueto estão escritos em Esperanto); no outro, Eistein e o texto: Eistein amava o Esperanto. Stálin o odiava. Por quê? (Consta na história da língua que durante o Stanilismo foi destruida uma tradução completa de <em>Os Irmãos Karamazov</em>).</p>
<p>b. quero citar um texto do livro <em>O que é Esperanto</em>, no. 185 da Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense, 1992, de Izabel Cristina Oliveira Santiago:</p>
<p>&#8220;Foi lá em Brasília (Congresso Internacional de 1981), numa dessas noites de bate-papo e cerveja, que dei comigo casualmente numa mesa de bar rodeada de novos amigos: uma holandesa, um inglês, os canadenses, a chinesa, os russos e o nigeriano ao lado do punk dinamarquês. Acordei de repente para o austral onírico do momento, imaginando com um arrepio John Lennon cantando &#8220;Imagine&#8221; ao fundo&#8230; Sonho não era. Apenas uma outra realidade. Tida por utópica, pouco conhecida, mas comum a alguns milhões de pessoas no mundo.&#8221;</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>8. Vamos tirar o chapéu! Com a devida humildade e sem preconceito. Inventar uma língua que funciona, que permite leitura de livros fabulosos de todos os povos, que permite comunicação verbal e escrita entre todas as gentes, que é capaz de traduzir uma anedota indecente mas também obras de Camões, García Márquez, Descartes, Exupéry e tantos e tantos e tantos mais&#8230; não é pra qualquer um.</p>
<p>Nãopão épé prapá qualpalquerper umpum. Opô caparapa épé dopô pepêrupu.</p>
<p>Zamenhof! Esse é o cara.</p>
<blockquote><p><em>Campo Largo, 23 de agosto de 2011.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 60</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Oct 2011 18:46:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Réquiem para todas as ausências. . O último homem está caído ao chão. É sua última queda. A custo encostou-se a uma pedra. Seu corpo dói. O respirar é aflito. Olha as pernas e os pés mas vê apenas ossos e uma pele suja. Há hematomas, arranhões, unhas partidas, sangue preto colado ao seu corpo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Réquiem para todas as ausências.</p>
<p>.<span id="more-5481"></span></p>
<p>O último homem está caído ao chão. É sua última queda. A custo encostou-se a uma pedra. Seu corpo dói. O respirar é aflito. Olha as pernas e os pés mas vê apenas ossos e uma pele suja. Há hematomas, arranhões, unhas partidas, sangue preto colado ao seu corpo. Suas mãos são mãos de um esqueleto. As pontas dos dedos feridas e sanguinolentas.</p>
<p>O último homem caiu. Não se lembra do que aconteceu. Guerra? Cataclismo? Doença? Não sabe nada. Por dentro da sua cabeça há apenas um ruído assustador, contínuo e surdo. Olha e não compreende. Perambulou errante, aos tropeções, mas a cada momento o tempo se dilatava mais. Perdeu o rumo, perdeu o norte, perdeu o sentido de existir.</p>
<p>Sente fome mas só tem os dedos para comer. O sangue tem um bom paladar mas há dor.</p>
<p>Sente sede mas não consegue se lembrar do que é água.</p>
<p>Olha à frente e não percebe o que vê. Há uma natureza que não tem significado. Cores não mais existem, apenas tons de cinza e muita escuridão espalhada sobre as coisas.</p>
<p>O coração está dentro da cabeça. Explosões tremendas que fazem balançar seu corpo. Tudo é dor. Fome e sede e dor. Mas já não tem capacidade para perceber o que está acontecendo. Contrai-se por inteiro. É apenas um moribundo animal encolhido.</p>
<p>O último homem está no limiar do fim.</p>
<p>Fecha os olhos e vai deixando cair a cabeça. O sono da morte. O silêncio vai tomando conta de suas veias. O rumor surdo vai se apagando. E as pancadas do coração vão indo para longe&#8230; para longe&#8230;</p>
<p>O último homem, que não sabe por que morre nem por que é o último, abre os olhos pela última vez.</p>
<p>E seu coração silencia.</p>
<p>.</p>
<p>Wedo, a deusa do arco-íris dança iluminada à sua frente. Ele não se move. As cores tremulam e faíscam esplendorosas. Todo o ambiente se enche de deslumbramento. Mas o homem nada vê.</p>
<p>Ah Puch se aproxima dele. Tem a cabeça descarnada, uma caveira terrível, e ao seu lado sibilam e estalam apavorantes cascavéis. Executa uma dança macabra ao som dos implacáveis chocalhos. O homem não se move, seus olhos esbugalhados não vêem e seu coração não teme.</p>
<p>Ah Puch se afasta assustado porque quem surge ali, agora, é Nocuma. Nocuma, o que criou o céu e a terra. E fez do barro a Ejoni, o primeiro homem, e Aë, a primeira mulher. Nocuma olha entristecido o último homem. Aproxima-se. Curva-se. Toma-lhe o pulso. Ossos e pele sem palpitação. Não pode fazer nada. Nocuma chora.</p>
<p>E surge Li N’Gwa Se N’Gwe, a mãe de todos! Balança suas mamas colossais e dança ao redor do último homem. Mas está morto o último homem e, se os deuses ainda não o sabiam, a morte não oferece retorno.</p>
<p>Mas que bando peregrino é esse que se aproxima? De todos os lados figuras assombrosas, gigantescas, umas, transparentes, outras, em torno do homem morto, do último homem que acabou de morrer! Vão se reunindo as criaturas, e tudo chameja, reflexos exuberantes de todas as cores, a aurora boreal, o resplendor absoluto.</p>
<p>Teshub e sua esposa Hebat!</p>
<p>Lug, o deus soberano mágico e Kumarbi, o pai de todos e Anu, o grande!</p>
<p>Perun, o raio, e Manitô, o supremo mundo natural!</p>
<p>T’ien, Ti-e, Tsu Tsung, jade, sedas de mil cores, rostos da porcelana mais pura!</p>
<p>Tezcatlipoca, Quetzalcoátl e Tláloc, imensos, tremeluzir de todos os brilhos! e prata! e turquesa! e obsidiana! Huitzilopochtli, o feiticeiro deus colibri e Xochipilli, o príncipe dos lírios, plumas e ouro!</p>
<p>E os guerreiros gigantes Tor, Loki, Odin, Lug, escudos, espadas, lanças e martelos! e Freia!</p>
<p>E em torno do cadáver começam já a ecoar os primeiros lamentos de dor.</p>
<p>Resheph e Anat e Horon e Baal e El!</p>
<p>Lamentos já gemidos.</p>
<p>Sin, Shamash, Assur, Marduc, Enlil, Adad e Ishtar!</p>
<p>Gemidos já desesperados.</p>
<p>Tangaroa, Tane, Tu, Hina, Pele, Rongo!</p>
<p>A dança funeral, o grande círculo macabro, a procissão funérea.</p>
<p>Oxalá, Xangô, Oxóssi, Iemanjá, Olarum, quantos são? Metais e máscaras, anéis e cetros, brilhos de miçangas e espelhos! E coroas e cajados!</p>
<p>Uivos e clamores.</p>
<p>E que multidão é essa? Cabeças de elefante, quatro braços! Reluzir de diamantes, safiras e rubis! Vishnu, Prajapati, Purusha, Kali, Ganesha, Varuna, Indra, quantos são?, eles se transformam, um é muitos, muitos são um, entoam um lamento interminável, um agonizante murmúrio de desespero.</p>
<p>E num barulhento cortejo avançam agora estes seres multicoloridos, alguns com cabeça de animal: Hator, Osíris, Ísis, Nut, Anúbis, então estávamos enganados? Então a morte é para sempre?</p>
<p>E essas etéreas figuras de maravilha? Todos muito róseos e louros e quase todos seminus e seus véus são levíssimos e seus passos não tocam o chão e Zeus e Hera e Atena e Afrodite e Apolo e há outros! E são tantos! E que vieram fazer aqui? Vieram presenciar a morte? Deuses gregos não podem! Vieram assistir à derradeira queda de Prometeu? Contemplem o espetáculo!</p>
<p>Pasmo.</p>
<p>E sofrimento!</p>
<p>E diante da incalculável multidão de cores e formas, eis que se corporificam as três grandes entidades dos monoteísmos: Jeová, Jesus e Alá.</p>
<p>E se misturam e se perdem e já são todos apenas criaturas de todas as cores e todos os brilhos que se organizam num gigantesco funeral.</p>
<p>E, de repente, assustadoras, mas eles mesmas espantadas, vão surgindo fantásticas criaturas, misturas do delírio total!, híbridos da alucinação!, gigantes com asas, dragões, cavalos não cavalos, serpentes já divindades, pedaços de deuses e pedaços de pesadelo, o horror da colagem desesperada, esporos saltados dos cérebros doentes e infantilizados, os filhos do susto, os netos do arrepio, os herdeiros do medo, os monstros de todas as lendas e os deuses não se inquietam porque já se acostumaram a estas ramificações da fantasia tresloucada e porque sabem eles mesmos, os deuses de todos os tempos, que também eles têm a mesma perdida origem, a célula primordial, brotada por geração espontânea no coração ignorante e aterrorizado do primeiro homem.</p>
<p>Ninguém ousou tocar o cadáver.</p>
<p>Todos sabiam que ele pertencia a Tellus Mater, Gaia, Papa, Luminuut, Oduna, Tamaiovit, Asaseya, Okwapin, Mokos.</p>
<p>A Terra.</p>
<p>Os deuses todos, mais do que todos os homens, sabem agora que só se morre uma vez. E que a morte é a única divindade que prevalece.</p>
<p>Alá, Jeová e Jesus se dão as mãos e marcham. Harmonizam-se e entram de acordo. Mas percebem que agora é tarde demais. Que isto de nada mais adianta. E percebem também que acabam por fundir-se numa só criatura desesperada.</p>
<p>Todos vêm e vão em filas, todos os deuses de todos os tempos, e querem chorar esta morte de corpo presente.</p>
<p>E entre olhares desolados e entendimentos silenciosos todos os deuses de todos os tempos resolvem, para aplacar a dor da perda irremediável, decidem que vão entoar um canto fúnebre, um hino à morte, um réquiem, um peã, um lamento gigantesco e extraordinário que traga a consolação ao inconsolável; algo mais que o canto de Ngofio-Ngofio, o pássaro da morte. E resolvem que junto às vozes soarão os prodigiosos sons dos instrumentos feitos pelo homem. E seja essa liturgia do despedir e da saudade a última manifestação de todos os deuses de todos os tempos.</p>
<p>Mas nada é ouvido, além de um gemido estrangulado nas gargantas divinas. Nenhum som se transforma em melodia. É que os deuses, sem a participação humana, não são capazes de criar música.</p>
<p>Choram os olhos de todos os deuses. E a procissão forma um grande círculo que começa a flutuar em torno do planeta azul. Plumas vão caindo! Diamantes se vão perdendo! Vestes suntuosas flutuam, anéis gravitam e mudam de órbita, coroas descoroam e tombam. Véus de uns passam a cobrir outros. Lanças que flutuam lentas mudam de mãos e são abandonadas e viram cor e luz e se integram ao grande círculo.</p>
<p>Entretanto, os rostos já não são tão belos.</p>
<p>Porém, por fidelidade ao homem, eles continuam a flutuar, misturando-se entre si. Matizes mil, a policromia e o brilho, sóis espalhados entre sedas e jóias, todas as cores e todas as estrelas e todos os luzeiros cambiantes, a poeira iluminada, a Via láctea, não láctea, mas iridescente, já não há rostos, já não há formas, mas ainda há fulguração e resplendor.</p>
<p>O grande círculo paira em torno do planeta azul.</p>
<p>Visto de longe, o planeta ganhou um anel. como os de Saturno.</p>
<p>Já não sabem chorar os deuses todos de todos os tempos. Já não sabem quem são. São nuvens sem cor, sopro e luz. São poeira em um colossal anel, agora monocromático, que gravita em torno de um perdido planeta azul.</p>
<p>Quanto tempo durou aquele anel silencioso?, formado por uma estupenda fosforescência espectral! Dez anos? Cem anos? Mil anos?</p>
<p>O tempo está parado.</p>
<p>Não existe tempo, quando não há mais esperança.</p>
<p><strong>Campo Largo, 24 de setembro de 2003.</strong></p>
<p><strong></strong></p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, foi publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/">Para ler o capítulo anterior.</a></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A Espécie Humana. Capítulo 59</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 03:19:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[entramos. quer subir pra dormir? quero dormir ali, onde estava o vovô. deito-o e o cubro. um beijo na testa. já é outro ano, filho. témanhã, pai. está tudo bem? sim. pelo menos eu conheci o vovô. mas parece que alguma coisa dói dentro de mim. outro beijo. venha pro meu colo, digo, sentando-me. ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>entramos.</p>
<p>quer subir pra dormir?<span id="more-5456"></span></p>
<p>quero dormir ali, onde estava o vovô.</p>
<p>deito-o e o cubro. um beijo na testa.</p>
<p>já é outro ano, filho.</p>
<p>témanhã, pai.</p>
<p>está tudo bem?</p>
<p>sim. pelo menos eu conheci o vovô. mas parece que alguma coisa dói dentro de mim.</p>
<p>outro beijo.</p>
<p>venha pro meu colo, digo, sentando-me. ele se aconchega e eu canto, baixinho, sem violão, a canção que compus um dia para ninar toda gente:</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, mãe,</p>
<p>dorme no meu braço;</p>
<p>dorme que eu velo</p>
<p>pelo teu cansaço.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, pai,</p>
<p>dorme em minha mão;</p>
<p>dorme que eu vigio</p>
<p>tua aflição.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, amigo,</p>
<p>dorme em meu calor;</p>
<p>dorme que eu mitigo</p>
<p>um pouco tua dor.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, companheira,</p>
<p>em minha constância;</p>
<p>dorme que eu corrijo</p>
<p>a nossa distância.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, filho,</p>
<p>no meu coração;</p>
<p>dorme que eu te quero</p>
<p>mais que filho, irmão.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, dorme, ausente,</p>
<p>em qualquer cidade;</p>
<p>dorme que eu te acordo</p>
<p>com minha saudade.</p>
<p>.</p>
<p>dorme, meu amor,</p>
<p>no meu abandono,</p>
<p>dorme e me carrega</p>
<p>dentro do teu sono.</p>
<p>.</p>
<p>quando sinto que ele dorme, ajeito-o sobre as almofadas, cubro-o e me levanto. acendo o lampião. o saco de viagem de meu pai está sobre a mesa. parece vazio. quando o pego, olhando distraído para o espelho, percebo que o morceguinho desceu novamente até o presépio.</p>
<p>a vida adorando o mito!</p>
<p>e as vozes maravilhosas de Monteverdi esbanjando estrelas sonoras no seu Magnificat&#8230;</p>
<p>enfio a mão no saco de viagem e tiro um pequeno bloco de papel.</p>
<p>o morceguinho começou a voar pela sala. coloco o lampião perto das almofadas, sobre uma banqueta. ajeito-me e me cubro, encostando-me aos pés do menino. o morceguinho vai e volta em seus vôos de linhas quebradas. curvo-me e, sem me levantar, abro a porta. ele ainda vem e vai mas num repente se dirige à porta e desaparece.</p>
<p>adeus, criaturinha da vida.</p>
<p>não o reverei jamais.</p>
<p>começo a leitura.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-58/">Para ler o capítulo anterior.</a></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em>Continua na semana que vem.</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 58</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-58/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Sep 2011 18:05:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[meu pai abotoa seu enorme casaco preto. pai, vou acordar o menino. não! ele vai ficar muito triste. ele resolve se acorda ou não. vamos. os nossos cães se levantaram. rodearam meu pai, rabos balançando. adeus!, Luluva. adeus!, Aklia. Ishtar, adeus! adeus!, Lilith. adeus! meninão, Caim! criaturinhas da vida&#8230; adeus! minhas crianças&#8230; meus olhos se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>meu pai abotoa seu enorme casaco preto.</p>
<p>pai, vou acordar o menino.</p>
<p>não!<span id="more-5434"></span></p>
<p>ele vai ficar muito triste.</p>
<p>ele resolve se acorda ou não. vamos.</p>
<p>os nossos cães se levantaram. rodearam meu pai, rabos balançando.</p>
<p>adeus!, Luluva. adeus!, Aklia. Ishtar, adeus! adeus!, Lilith. adeus! meninão, Caim! criaturinhas da vida&#8230; adeus! minhas crianças&#8230;</p>
<p>meus olhos se encheram de lágrimas.</p>
<p>vamos, filho. vamos até o portão.</p>
<p>meu pai abriu o portão, passou para o outro lado e o fechou.</p>
<p>vou junto até a rua, pai.</p>
<p>não, filho. fique do lado de dentro.</p>
<p>rituais da estética?, pai!, perguntei, já chorando.</p>
<p>não chore, não chore. adeus.</p>
<p>meu pai pegou-me nos ombros e olhou-me fixamente. então ouvimos um grito desesperado:</p>
<p>vovô!</p>
<p>viu?, filho. teu filho quis acordar.</p>
<p>o menino veio correndo sobre o gramado, descalço. levantei-o e ele passou sobre o portão para o colo de meu pai.</p>
<p>vovô, eu também quero dar um abraço!</p>
<p>e apertou meu pai num abraço comovido.</p>
<p>um longo silêncio.</p>
<p>pra onde você vai?, vovô!</p>
<p>meu pai olhou-o e sorriu. o menino olhou pra mim, interrogativo. olhei-o sério, não sabia o que dizer.</p>
<p>vovô, você já morreu?</p>
<p>já.</p>
<p>então você é um fantasma?</p>
<p>não! se eu fosse fantasma eu era luz e sopro, não podia ter você no colo.</p>
<p>comecei a chorar novamente.</p>
<p>então, o quê que você é?</p>
<p>veja! sou uma criatura, a quem teu pai pediu que viesse pra participar de um livro. por isso eu sou de carne e osso, viu?</p>
<p>e balançou meu filho no alto.</p>
<p>veja, eu aguento você e você já está ficando pesado.</p>
<p>o menino virou-se pra mim.</p>
<p>e eu?, pai! eu já morri?</p>
<p>não!, filho. não! venha no meu colo.</p>
<p>e ele passou pro meu colo. beijei-o e misturei um sorriso ao meu choro convulsionado.</p>
<p>não, claro que não!</p>
<p>e tendo entre eu e meu pai o portão de madeira, pela última vez, três abraços num só abraço.</p>
<p>adeus, crianças, adeus!</p>
<p>meu pai ia indo, dois passos.</p>
<p>pai! eu gritei. ele se voltou.</p>
<p>o seu saco de viagem! esqueceu!</p>
<p>ele sorriu:</p>
<p>não o esqueci, filho. não o esqueci. adeus, crianças.</p>
<p>e para o menino:</p>
<p>vou por cima ou por baixo?</p>
<p>em cima tem a capelinha. em baixo tem a ponte.</p>
<p>meu pai sorriu: nada de capelinha. vou pela ponte. jogou-nos um beijo de dedo.</p>
<p>meu coração queria explodir. como prolongar isto? inda que por um segundo! pai! pai! uma última palavra.</p>
<p>filho! por quê? uma última palavra&#8230; por quê? uma última palavra&#8230;</p>
<p>e, após um curto silêncio:</p>
<p>ai de vocês!, os vivos.</p>
<p>virou-se rápido e foi-se e antes que chegasse à rua, desapareceu por completo.</p>
<p>pai, o vovô não passou pela rua.</p>
<p>passou, filho. deve ser a neblina.</p>
<p>pai, não tem neblina.</p>
<p>tem sim, filho. tem neblina dentro das nossas almas.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-57/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-59/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 57</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Sep 2011 17:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[ela vem voando, os véus brancos flutuam em câmara lenta. a foice! a foice! não me lembrava dessa foice imensa! mas&#8230; antes estava sem a foice! e ela voa sobre os campos de cereais e vai baixando a foice e seus véus agora estremecem aflitos. e os cereais, trigo?, arroz?, sorgo?, milho? são dourados e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>ela vem voando, os véus brancos flutuam em câmara lenta. a foice! a foice! não me lembrava dessa foice imensa! mas&#8230; antes estava sem a foice!<span id="more-5393"></span></p>
<p>e ela voa sobre os campos de cereais e vai baixando a foice e seus véus agora estremecem aflitos. e os cereais, trigo?, arroz?, sorgo?, milho? são dourados e brilhantes, os cereais refulgem contra o azul quase roxo! e ela os ceifa, então é mesmo a grande ceifeira! ela os ceifa em quantidade mas ao contrário de cair no chão, os grãos flutuam e se espalham e eu os vejo voar para mais longe e descer num maravilhoso campo de terra marrom, Tellus Mater, e eis que miraculosamente daqueles grãos brotam&#8230; pessoas!</p>
<p>uma espécie de alegria me inunda a alma, há uma música dentro de mim, mas ela começa a ficar insuportavelmente bela e essa tremenda comoção me acorda.</p>
<p>meu pai está de pé, acabou de ligar a última fita e a música que eu estava ouvindo no sonho já era Monteverdi.</p>
<p>você estava sonhando!</p>
<p>pai, ela ceifa mas os grãos ceifados são as novas fontes de vida!</p>
<p>meu pai apenas sorriu. e:</p>
<p>está na hora.</p>
<p>não vai ouvir Monteverdi até o fim?</p>
<p>eu o tenho todo na alma. quero sair antes do sol nascer.</p>
<p>isto faz diferença pra você?</p>
<p>não. é apenas um ritual. um ritual de estética.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/">Para ler o capítulo anterior.</a></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-58/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 56</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/</link>
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		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 19:01:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[abro os olhos e vejo que meu pai tem papéis na mão. meus papéis! não tenho coragem para falar. sei que estou sonhando. e ele: estou me divertindo com isto. não espere longos comentários, claro! apenas que: primeiro, esse tipo de poema inicial, sobre a verdade. substitua a palavra verdade pela palavra mentira e tudo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>abro os olhos e vejo que meu pai tem papéis na mão. meus papéis! não tenho coragem para falar. sei que estou sonhando. e ele:<span id="more-5337"></span></p>
<p>estou me divertindo com isto. não espere longos comentários, claro! apenas que:</p>
<p>primeiro, esse tipo de poema inicial, sobre a verdade. substitua a palavra verdade pela palavra mentira e tudo continuará aterradoramente lúcido.</p>
<p>segundo, isto sobre a estética do masoquismo dos intelectuais. bastava dizer o que eles pensam: acho isto feio mas digo que é bonito pra não dizerem que sou burro.</p>
<p>terceiro, por que, em vez de mostrar a loucura de uma cidade drogada, você não mostrou a evolução da loucura em um cérebro individual? pensei nisso, mas não consegui. por que Londres? eu adoro Londres, você sabe disso. hm! um tipo de mortificação&#8230;</p>
<p>último, isto sobre capitalismo e socialismo. bastava dizer que capitalismo está para socialismo assim como politeísmo está para monoteísmo e ponto final. vamos esquecer nomes como Marx, Hegel e Engels e pensar nos resultados de uma pequena cooperativa, célula-mater. se ela distribui corretamente bens e justiça, que é toda a base para a felicidade humana, o socialismo é possível e quem defende o contrário é burro ou safado mas é muito provável que seja burro e safado.</p>
<p>.</p>
<p>ad te omnis caro veniet&#8230;</p>
<blockquote><p> <em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-55/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-57/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 55</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-55/</link>
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		<pubDate>Sat, 03 Sep 2011 23:39:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[liguei a fita de Gounod. e sentei-me, colocando sobre as pernas um travesseiro onde deitei a cabeça de meu filho. . Ego sum&#8230; . pai, grandes obras foram dedicadas à religião. os maiores músicos acabaram por criar obras-primas em torno da liturgia. e, ao final, o catolicismo ficou com um patrimônio artístico dos mais espetaculares. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>liguei a fita de Gounod. e sentei-me, colocando sobre as pernas um travesseiro onde deitei a cabeça de meu filho.</p>
<p>.</p>
<p>Ego sum&#8230;<span id="more-5295"></span></p>
<p>.</p>
<p>pai, grandes obras foram dedicadas à religião. os maiores músicos acabaram por criar obras-primas em torno da liturgia. e, ao final, o catolicismo ficou com um patrimônio artístico dos mais espetaculares.</p>
<p>isto não tem nada a ver com Deus mas com o Poder e com a criatividade do ser humano. o Poder compra, sustenta e garante a manutenção da arte. o homem cria obras-primas porque é capaz de criá-las. se não tivesse um pretexto, inventaria.</p>
<p>ouça esta música, filho. os instrumentos têm sons prodigiosos. as melodias são dilacerantes. acordes e polifonias, parece que isto já existia, o autor apenas tirou-lhe a névoa que a escondia. e essas vozes! criaturas privilegiadas que transformam suas gargantas no instrumento mais esplendoroso de todos.</p>
<p>pouca gente gosta disso.</p>
<p>Kamalas. novamente a imagem da criança que não tem oportunidade pra aprender. já te falei da estética da nostalgia?</p>
<p>não.</p>
<p>é assim. numa determinada época, identificamo-nos com determinada obra. fiquemos com a música. uma canção infantil, quando criança. uma canção de amor, quando apaixonado. uma novela repete a mesma música durante meses, é claro que após um tempo todos estão gostando dela. então, o que sucede? esta obra vira para nós uma coisa bela. nem sempre é bela. mas como vem sempre carregada de uma carga de nostalgia, ah!, essa música! acaba por ferir forte as cordas da nossa emoção.</p>
<p>o que quero dizer, então, é que existe uma valoração da obra de arte que considera, não a beleza em si, mas a emoção que ela provoca. pessoas vão a um concerto: o Messias, de Haendel. bocejos e tédio. não de todos, claro! então irrompe o Aleluia, oh!, os corações todos estremecem. Kamala não aprendeu a diferença entre o que é belo e o que comove.</p>
<p>.</p>
<p>coelum novum et nova terra&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>não está cansado?</p>
<p>hoje não tenho esse direito.</p>
<p>você esteve espantoso, pai. a dança dos ditirambos&#8230; falou tudo que eu queria ouvir. mas eu acabo me tornando mais pessimista do que já sou.</p>
<p>e se amanhã de manhã você passear com o menino e encontrar a mais linda borboleta azul, vai esquecer o pessimismo e se encher de esperança. como vai o livro?</p>
<p>estou terminando. estou apavorado!</p>
<p>apavorado! é a sua cabeça!</p>
<p>deixa eu aproveitar e perguntar: por que você foi tão severo?, quando Kamala morreu.</p>
<p>isso de deixar que os mortos cuidem dos mortos, só no evangelho. pra um vivo já não é fácil!</p>
<p>.</p>
<p>te decet hymnus&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>estas coisas de Deus e religiões não me incomodam tanto, pai. mas as coisas do homem e seu sofrimento, é tão difícil! mesmo porque não tenho certeza se entendo. há sofrimentos inevitáveis, mas tanta coisa podia ser mudada!</p>
<p>suba e me traga a História da Civilização Ocidental, de Burns. quero te mostrar uma coisa.</p>
<p>o que fiz. meu pai folheou o livro, me indicou e eu li:</p>
<p>A democracia econômica, conforme sua definição geral, traz a noção de que todos tenham oportunidades iguais para atingir sua capacidade potencial. Nada tem a ver com aquele conceito liberal de igualdade perante a lei, debochado por Anatole France quando dizia que rico e pobre têm o mesmo direito de dormir debaixo da ponte e mendigar o pão. Democracia econômica significa que crianças não devem trabalhar em fábricas, sendo exploradas por empregadores egoístas; velhos não devem ser atirados aos montes de lixo humano depois que máquinas desumanas esgotaram suas energias; finalmente, não são os operários quem deve arcar com todo o peso do risco industrial, do desemprego e da doença.</p>
<p>isto foi publicado em 1941. havia então uma guerra. mas este conceito só funciona para o primeiro mundo. talvez, nem lá.</p>
<p>este mesmo livro, pai, fala que a morte de Schubert, de fome e doença, foi uma nódoa sobre o século dezenove.</p>
<p>sim. mais um crime perpetrado pela humanidade.</p>
<p>e eles, os americanos, mesmo com este livro, não aprenderam?</p>
<p>aprende quem pode.</p>
<p>.</p>
<p>tuba mirum spargens sonum&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>coloco a História da Civilização na mesa, sobre outro livro, e percebo que o outro livro é o volume com as aventuras de Nils Holgersson. minha lista de 10 livros só tem oito. quero que a partir de agora Nils Holgersson faça parte da lista. principalmente nos dias de hoje, em que os animais são tratados com tanta crueldade. fica ainda uma vaga&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>pai, você disse que a quantidade de processos judiciais poderia ser um fator pra se determinar sobre o atraso ou o progresso de um país&#8230;</p>
<p>digamos, sobre a civilidade e a incivilidade de sua população, isto é, sua capacidade de convivência.</p>
<p>este critério não é considerado?</p>
<p>não sei. mas agora, na calma da noite e no meio de nossos chazinhos, eu penso em algo mais terrível. o livro que eles tanto louvam, diz: bem aventurados os que têm fome e sede de justiça. e, na terra, qual é o prazo pra que essa fome e essa sede de justiça sejam saciadas? quantos dias?, quantos meses?, quantos anos?, a justiça tem o direito de ficar rolando pra cá e pra lá nas pastas da magna caterva, aumentando o número de páginas, alimentando com honorários, mas não a aqueles que precisam e esperam ser saciados, quantos?, quantos anos? então dá pra dizer que o país mais triste seria aquele em que, em média, os processos demoram mais tempo. talvez, um programa chamado fome e sede de justiça-zero?</p>
<p>.</p>
<p>Judex ergo cum sedebit&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>trago mais chá. pai, a religião já esteve mais ligada ao Poder. parece que hoje&#8230;</p>
<p>alguns países ainda são vinculados à religião. mas, de fato, o dinheiro hoje está concentrado nas mãos, não de um país, mas de grupos de poucas pessoas. quem são? onde se escondem? manipulam governos, manipulam jornais&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>rex tremendae majestatis&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>mas e os americanos?</p>
<p>quer saber minha opinião? os americanos funcionam hoje como uma guarda pretoriana. talvez eles mesmos não saibam a quem defendam, já que estão preocupados apenas com o soldo que lhes mantém o estilo de vida.</p>
<p>estou com um pouco de sono. mas então este presidente que passa por cima de resoluções da ONU&#8230;</p>
<p>não passa de um metido chefe da guarda pretoriana.</p>
<p>.</p>
<p>ne me perdas illa die&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e por que a droga?</p>
<p>veja. hoje tomamos licor. riso. quer dizer, você tomou um traguinho e eu engoli o resto. todas as culturas, ou quase todas, usa este tipo de escape num momento sagrado em que tentam entrar em contato com a divindade. mas durante o resto do ano há trabalho e prudência, como se fosse um controle a favor da sobriedade.</p>
<p>a nossa civilização perdeu o controle. diga-se porém que os nobres de todos os tempos, quase sem exceção, nunca exerceram este controle sobre si mesmos. a nossa civilização quer escapar durante o ano todo. por quê?</p>
<p>por que os jovens do mundo se drogam? por que os jovens de alguns países se drogam mais do que os de outros?</p>
<p>qual é a mais importante característica de um usuário de droga? eu diria que é a adolescência prolongada. o usuário de droga, como o adolescente, precisa ser mantido pela família. não trabalha e vira um tipo de piolho. e o usuário de droga, como o adolescente, vive no mundo da fantasia, os últimos momentos da fantasia infantil.</p>
<p>a pergunta fica sendo: por que o drogado resolve viver nesse estado de eterna adolescência? talvez ele apenas se recuse a aceitar o mundo à sua volta. um mundo que se diz adulto mas não passa de uma projeção de um tipo de inferno da civilização.</p>
<p>.</p>
<p>lacrymosa dies illa&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>fecho os olhos e tento me concentrar na música. estou cansado mas uma inquietação nervosa aninhou-se no meu cérebro.</p>
<p>quer dormir?</p>
<p>não.</p>
<p>vou dizer só mais uma coisa. se esse país que acumulou armamentos capazes de destruir o planeta diversas vezes para agora se pavonear feito um garotão inseguro e neurótico, e por isso mesmo muito agressivo e perigoso, se esse país tivesse investido todo o seu dinheiro em educação, filósofos e psicólogos nas salas de aula, filósofos e psicólogos, ah!, esse país seria o esplendor! a Nova Jerusalém na terra! o esplendor!</p>
<p>.</p>
<p>quam olim Abrahae promisisti&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>mas não passam de um Fomá Fomitch.</p>
<p>como?, pai.</p>
<p>eles, os americanos, são o Fomá Fomitch da nossa época.</p>
<p>dei uma gargalhada. estivemos calados um tempo.</p>
<p>.</p>
<p>et lux perpetua luceat eis&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>os cães estão tão quietos, pai. fizeram festa quando cheguei com o menino e agora dormem. parece que não aconteceu nada.</p>
<p>silêncio. meu pai fechou os olhos e recostou a cabeça no colo de Joan Baez. levantei-me e troquei a fita. ouvi os primeiros fogos de artifício. fui lá fora. esperei um tempo, passeando sobre a grama. de vez em quando, olhava o portão, onde há pouco tinham estado os cães negros. entrei. meu pai cochilava. sentei-me à mesa e fiquei ouvindo a música.</p>
<p>a música é uma bolha confortável e dentro dela flutuamos e é como se houvesse na alma a doce embriaguez e o perfume do licor de banana. fecho os olhos para melhor me perder nesse rio de sons perfumados&#8230;</p>
<p>o súbito silêncio me resgata da sonolência. meu pai continua dormindo, seu respirar é lentíssimo e uma paz como que paira em seu semblante. levanto-me e coloco a fita do Réquiem de Dvořak.</p>
<p>e, novamente, me deixo levar nessa jangada de sons, acordes, vozes, textos&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>mors stubebit et natura&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>quando uma pessoa enfrenta uma situação desagradável, se não vê saída, ela fantasia. recurso primeiro para&#8230; é comum alguém desejar a morte de outrem. aplacar a dor ou resolver um problema com um fato apenas imaginado. eis aqui a célula-mater de tudo quanto derivará depois.</p>
<p>.</p>
<p>liber scriptus proferetur&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e quando duas crianças falam, vamos brincar de mocinho e bandido, estamos novamente diante de uma fantasia. mas, consciente! eu sei que não sou o bandido, faço de conta. brinco, jogo, homo ludens&#8230;</p>
<p>quando o adulto concretiza um livro ou um filme ou uma música ou um quadro, também brinca, joga, o homem que faz arte&#8230; o elán é o mesmo do ludens&#8230;</p>
<p>a arte seria a única forma da fantasia consciente&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>et de profundo lacu&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e a filosofia? a filosofia&#8230;</p>
<p>abri os olhos. por que estou tão assustado? olhei para meu pai e percebi que ele estava me fitando. parecia muito calmo. levantei-me, fui até o fogão, coloquei algumas lenhas finas, fiz reviver o fogo.</p>
<p>trouxe um chá novo, pai. . . o meu amigo filósofo disse que talvez o problema da ecologia ajude a humanidade a sair desse tipo de impasse.</p>
<p>eu já fico esperando um cataclismo. um grandioso desastre telúrico. ou, quem sabe?, um microbiozinho mais obstinado. os transgênicos estão aí. defendem os transgênicos mas ninguém fala nas possibilidades de uma mutação.</p>
<p>que horror!</p>
<p>leia o livro A Raça Menina, de William Auld. somos crianças, engatinhamos.</p>
<p>somos Kamalas?</p>
<p>Kamalas, filhos e netos de Kamalas. não aprendemos o mínimo e procriamos.</p>
<p>.</p>
<p>pecata mundi&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>recolhi as xícaras e levei-as à mesa.</p>
<p>meu pai novamente fecha os olhos. parece que delira baixinho:</p>
<p>o socialismo&#8230; o mito do super-homem de Nietzsche, não para o ariano infantilizado, mas para toda a humanidade&#8230; uma escola igual para todos os filhos do homem, despertando em cada criança o semideus que aí jaz à espera. todos se transcendem e se transformam em super-homens&#8230; e quando um estiver frente ao outro, haverá lampejos mas não de espadas&#8230; lampejos de respeito e admiração em seus mansos olhares de cordeiro&#8230; e, se não falarem a mesma língua, falarão, naturalmente, a única língua que pertence a todos&#8230;</p>
<p>recoloco a cabeça de meu filho sobre o travesseiro em meu colo, encosto-me e fecho os olhos. queria que essa música nunca acabasse. queria que essa noite nunca acabasse.</p>
<p>.</p>
<p>quantus tremor est futurus.</p>
<p>.</p>
<p>meu pai continua delirando&#8230; e canta às vezes&#8230;</p>
<p>na minha opinião, já passou da hora da ONU dar uma bronca nas grandes gravadoras de discos. eles pegam o vômito, o escarro, a pústula e a excreção, vestem-nos de ouro e seda, alojam-nos em andares inteiros de luxuosíssimos hotéis, transformando-os em semideuses intocáveis, diante de cujo peido pasmam as franguinhas todas e suspiram todos os cordeiros, prontos para ser sacrificados nas primícias da droga, espalham sobre o planeta a diarréia dos sons do horror e as melodias do cretinismo e criam para o filho do homem o ideal de se transformar num imbecil que aplaude a pestilência e sonha ser, ele mesmo, um dia, uma dessas imagens de pesadelo. quem vai chamar as gravadoras à responsabilidade pela incitação ao uso da droga, pela apologia da manhã do apocalipse?</p>
<p>.</p>
<p>ah, look at all the lonely people&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>não perceberam os donos das gravadoras que os vapores do miasma destruidor sufocarão também seus próprios filhos?</p>
<p>.</p>
<p>no one was saved&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>e pensar que houve um dia um grupo que mostrou, através de canções belíssimas, a possibilidade de um caminho a ser trilhado. qual! também os besourinhos se perderam nel mezzo del cammin&#8230;</p>
<p>.</p>
<p>don&#8217;t carry the world upon your shoulders&#8230;</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong>A Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-54/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-56/">Continua na semana que vem.</a></em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 54</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Aug 2011 19:24:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[coloquei o menino sobre as almofadas do grande banco de cimento e o cobri. sentei meu pai no canto e fiz com que se cobrisse com seu enorme casaco preto. vou fazer um chá. e já trouxe uma xícara quente para meu pai e uma morna pro menino. capim-limão! está bom! e sorrindo: a festa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>coloquei o menino sobre as almofadas do grande banco de cimento e o cobri. sentei meu pai no canto e fiz com que se cobrisse com seu enorme casaco preto.<span id="more-5234"></span></p>
<p>vou fazer um chá.</p>
<p>e já trouxe uma xícara quente para meu pai e uma morna pro menino.</p>
<p>capim-limão! está bom! e sorrindo: a festa acabou.</p>
<p>nunca vou esquecê-la, pai. eu disse. e você, garoto, não quer um banho? logo logo vai ser meia-noite.</p>
<p>falta muito ainda, pai. mas eu quero um banho. e vou vestir uma roupa branca. vovô!</p>
<p>meu pai o olhou, agora já completamente calmo, apesar de eu perceber que ainda tremia de leve.</p>
<p>oi!</p>
<p>você fica bravo se eu tomar o último banho a álcool?</p>
<p>claro que não! um sorriso devolveu meu pai a meu pai.</p>
<p>preparei o banho do menino e ele entrou no banheiro.</p>
<p>quer mais um chá?, pai.</p>
<p>vou pegar.</p>
<p>nada disso! eu pego. e logo a seguir:</p>
<p>é preciso trazer o aparelho e as caixas.</p>
<p>está frio, pai. eu cuido disso.</p>
<p>coloque tudo aqui em baixo, por favor. quero ouvir umas músicas antes de ir.</p>
<p>trouxe tudo. armei improvisadamente o aparelho e as caixas. o menino saiu todo de branco do banheiro.</p>
<p>você botou mais álcool, né?, pai</p>
<p>botei. sorrindo. deite-se aqui. vou cobri-lo. está com fome?</p>
<p>não. e eu:</p>
<p>pai, agora vou ao banho. depois vemos as músicas.</p>
<p>e já saí, também todo de branco. agora era eu, quem perguntava rindo:</p>
<p>pai! e se eu acender velas, você fica bravo?</p>
<p>vai ficar bonito.</p>
<p>vou arrumar seu banho, pai.</p>
<p>não precisa. meu último banho vai ser frio.</p>
<p>uau!, vovô.</p>
<p>risos.</p>
<p>enquanto meu pai esteve no banheiro, o menino:</p>
<p>pai, semana que vem a gente podia ficar uns dias no apartamentinho.</p>
<p>quer passear pelo Centro?</p>
<p>quero. quero jogar vídeo-game.</p>
<p>semana que vem a tia chega com as meninas.</p>
<p>jóia.</p>
<p>e virou-se e dormiu num relance.</p>
<p>meu pai sentou-se todo dentro do largo banco, de modo que seus pés tocavam os pés do menino. atrás de sua cabeça, ao alto, o enorme poster que eu fizera de Joan Baez.</p>
<p>que músicas?, senhor.</p>
<p>veja estas fitas que eu separei.</p>
<p>muito bem. Mors et vita, de Charles Gounod. isto é maravilhoso! são duas fitas. depois, o Réquiem de Dvořak, nossa! e as Vespro della Beata Vergine, de Monteverdi, pai, assim você acaba comigo.</p>
<p>risos. preparo-me pra minha volta.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><strong><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-53/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-55/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 53</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2011 01:11:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[aos poucos, aquietamo-nos. ele separou-se e me olhou como olharia um pai saído da lenda. eu sorri e falei: paz, paz, Mercutio, paz. você fala sobre o nada! ele, quase sem voz: não é verdade! falo sobre o pesadelo! lentamente, dirigimo-nos à casa. nesse momento, sem motivo algum, meu pai parou e olhou para o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>aos poucos, aquietamo-nos. ele separou-se e me olhou como olharia um pai saído da lenda. eu sorri e falei:</p>
<p>paz, paz, Mercutio, paz.</p>
<p>você fala sobre o nada!<span id="more-5185"></span></p>
<p>ele, quase sem voz:</p>
<p>não é verdade! falo sobre o pesadelo!</p>
<p>lentamente, dirigimo-nos à casa. nesse momento, sem motivo algum, meu pai parou e olhou para o portão. estremeci e todo o meu corpo se arrepiou. o menino se apertou forte contra mim.</p>
<p>da rua vieram a correr três enormes cães pretos. iguais. pararam no portão e ficaram olhando. apoiando meu pai e ainda com o menino no colo, fomos até eles. e meu pai, com a voz por um fio, trêmula mas suavíssima:</p>
<p>criaturinhas da vida! que vieram fazer aqui?</p>
<p>os cães nos olharam fixamente e deram a volta, desaparecendo após uma corrida rápida e silenciosa.</p>
<p>vamos entrar. estamos cansados. antes do sol nascer, eu devo mesmo partir.</p>
<p>meu filho o olhou cheio de seriedade mas nada falou. fiz com que ele se deitasse no meu colo e o estreitei com carinho. ele segurou minha mão e apertou-a com toda a força.</p>
<blockquote><p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A<strong> Espécie Humana</strong></a>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-52/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-54/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 52</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-52/</link>
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		<pubDate>Sun, 14 Aug 2011 00:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[vocês sabem que hoje é o dia em que o ano velho se vai embora. e ele quer festa. festa! depois, pra ele, coitadinho, só o grande silêncio e a saudade. percebi que meu pai estava tomado por estranha excitação. licor de banana! é denso e doce e amacia a alma aos poucos. pena que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>vocês sabem que hoje é o dia em que o ano velho se vai embora. e ele quer festa. festa! depois, pra ele, coitadinho, só o grande silêncio e a saudade.<span id="more-5143"></span></p>
<p>percebi que meu pai estava tomado por estranha excitação.</p>
<p>licor de banana! é denso e doce e amacia a alma aos poucos. pena que os deuses antigos não conheciam o licor de banana! ponha essa caixa ali. isto. vamos testar? então, escolho eu a música.</p>
<p>seria o efeito do licor? tão pouco!</p>
<p>cale-se daqui pra frente Apolo, deus das musas, chega de equilíbrio. silêncio, divindades da ordem! este novo som, como uma coxa de Zeus, vai parir o deus dos ditirambos. evoé! evoé Dioniso! evoé África! ouçam isto!</p>
<p>e explodiram nas caixas acústicas os fantásticos tambores africanos.</p>
<p>meu pai bebeu direto da garrafa.</p>
<p>evoé Baco! senhor Dioniso! a vindima foi boa! tum tum tum&#8230; tá&#8230; tá&#8230; tum tum tum&#8230; tá&#8230; tá&#8230;</p>
<p>então meu pai como que passou a não mais se pertencer. ria nervoso e se mostrava agitado. o menino o olhava maravilhado.</p>
<p>e foi dançando, com certeza, que o deus que criou o mundo, o que criou de verdade&#8230; foi dançando&#8230; ora, chega de bobagens&#8230;</p>
<p>e meu pai começou uma dança alucinada. o menino me olhava e ria.</p>
<p>nós é que dançamos! nos dois sentidos! as duas danças! dançamos porque uma meia dúzia de criminosos controla o mundo e nós dançamos! e dançamos a dança macabra! tum tum tum&#8230; tátátá&#8230; a dança dos carneiros!</p>
<p>e mais um trago, licor de banana!</p>
<p>não havia mais licor. meu pai atirou para o lado a garrafa.</p>
<p>não preciso mesmo! preciso de mais tambores! volume!, menino. volume! a dança dos carneiros.</p>
<p>o menino aumentou o volume e começou a bater palmas. estava excitado.</p>
<p>carneiros de merda! carneiros de merda! querem consertar tudo? é fácil! vamos acabar com o sigilo dos telefones oficiais e o sigilo bancário de todo aquele que é eleito pelo povo! é fácil! eles que esperneiem! se eu ponho um telefone no quarto da empregada e eu pago a conta, pode ela ficar telefonando pros comparsas bandidos pra combinar o assalto à minha casa? telefone oficial sem sigilo! porque temos políticos que não valem o que comem! tum tum tum&#8230; e temos políticos que não valem o que cagam! tá tá tá&#8230;</p>
<p>essa eu entendi!, vovô. essa eu entendi.</p>
<p>o menino aumentou mais ainda o volume e começou a pular. eu me sentia dentro de um teatro orgíaco e primitivo.</p>
<p>é a nossa herança! e vamos à dança dos macacos! a dança dos macacos! tum tum tum tá tá tá. e tivemos os nossos contrabandistas portugueses e os nossos nobres e os nossos republicanos e no meio de alguns segundos de bom senso aí vai a bandalheira feroz quem chegar primeiro pega mais e a milicada deu sua contribuição estou esperando um coronel ou um general macho chegar na televisão e pedir perdão ao país pelo estrago que fizeram ou vão esperar o mesmo tempo que o papa esperou? hein? hein? tá tá tá tum tum tum&#8230; e a dança dos vampiros&#8230; a dança dos vampiros&#8230;</p>
<p>o menino entrou na dança com meu pai. imitava os seus passos e ria nervoso e fora de si.</p>
<p>e o ouro dos judeus? onde foi parar? senhores cidadãos da Suíça! com que então vocês votaram contra a quebra do sigilo! e se for o sétimo sigilo? vocês ganham dinheiro dando segurança ao ouro dos torturadores, assassinos, traficantes e vendedores de países! pra quê? pra quê? a dança dos jacarés bêbados, a dança dos jacarés bêbados&#8230;</p>
<p>jogou-se no chão e o menino fez o mesmo. e rolava e sua voz já estava meio rouca.</p>
<p>pra quê? pra quê? pra que seus jovens promissores tenham de graça seringas descartáveis ave heroína imperatrix morituri te salutant mas levamos juntos alguns crioulinhos e alguns amarelinhos e alguns indiozinhos que essa gentinha morre à toa basta uma fomezinha e vão caindo pelos caminhos como são fracotes!</p>
<p>e o que dizer desses paisecos micróbios? ontem paraísos turísticos e hoje paraísos fiscais, inventados pelos fantoches do crime internacional pra que os criminosos façam circular com juros seus dinheiros mais do que 30 que matam estropiam enlouquecem escravizam e enfaixam com os panos das múmias que parecem vivas mas estão mortas para a vida porque o que fazem é tão somente trabalhar hoje pra comer ontem!</p>
<p>mas porque não nasceram louros e altos? diz no livro de Upanixades que o homem bom vai renascer no ventre da mulher de um brâmane e o homem mau vai renascer no ventre da mulher de um pária, a dança das minhocas, a dança das minhocas! mas que maneira mais fodida e filha-da-puta de justificar o injustificável, o inferno social, o holocausto sem matança! mas quem mandou? quem mandou? por que não nasceram louros e altos? desses que comem feito porcos e engordam feito baleias e começam a correr feito idiotas vocês sabem de quem eu estou falando? e a dança dos peçonhentos&#8230; a dança dos peçonhentos&#8230; tum tum tum tan tan tan tan&#8230;</p>
<p>e já um tanto enfraquecido mas cheio de uma fúria selvagem meu pai levantou-se e começou uns passos grotescos, mancando e se desequilibrando de propósito e o menino atrás dele e agora era o menino que imitava o ritmo dos tambores</p>
<p>tum tá tá tum tá tá&#8230;</p>
<p>e o que foi feito do Protocolo de Quioto? mas que bobagem! então agora meu filhinho que fez dezoito anos não pode ter o seu automovelzinho? e o que dizer das minas explosivas em Angola? mas que diferença faz um preto com pé a mais ou mão a menos? o preto grita: patrão, a tribo inimiga quer me massacrar, preciso de armas, armas, não tenho dinheiro, quê que eu faço, ora, negão, deixo você pagar com diamantes. quem vendeu armas a Angola? e como é que esses povos arrogantes conseguem sobreviver nessa nossa época tão filhadaputa e inútil? ora ora ora, drogas! drogas e drogas! quem é o maior consumidor do mundo? tum tum tum tá tá tá&#8230;</p>
<p>e a dança dos dinossauros, a dança dos dinossauros!</p>
<p>tum tum tum somos uma espécie de espécie em extinção por que o planeta&#8230; o circo&#8230; o circo não vai aguentar&#8230; ou&#8230; como disse o russo&#8230; que todos o queiram e num minuto tudo será consertado&#8230; mas nós somos a discórdia&#8230; podemos dizer que temos justiça?&#8230;</p>
<p>meu pai, enfraquecido, parou&#8230; olhos esbugalhados para o vazio&#8230;</p>
<p>a justiça&#8230; tantos advogados&#8230; e quase se pode dizer que o país mais atrasado do mundo&#8230;</p>
<p>a custo se aguentava de pé e começou a chorar. o menino correu ao meu colo e me abraçou forte.</p>
<p>quase se pode dizer que o país mais atrasado do mundo é aquele&#8230; que tem mais processos na justiça&#8230;</p>
<p>e num urro cheio de violência:</p>
<p>mas não me perguntem qual é porque eu não enfio a mão em balde cheio de merda!</p>
<p>com meu filho no colo tirei o som e fui até ele. meu pai sentou-se no chão. sua voz vinha cavernosa, como se saísse do último círculo do inferno. entre soluços e guinchos:</p>
<p>e não me venham com essa de Deus! bando de musaranhos vorazes mas dominados pelo cretinismo! não me venham com essa de Deus! basta uma pergunta e vocês se derretem em esgares. basta uma pergunta. então, digam, vocês, monoteístas cristãos, presumidos, engolidores e cagadores de dogmas: o vosso Cristo, senhores!, o vosso Cristo&#8230;</p>
<p>tinha cromossomo Y? han?</p>
<p>meu pai falava como um bicho, babava e já ria como se dominado por um tipo de loucura.</p>
<p>teólogos de merda! respondam! vocês católicos que, com raríssimas exceções, se julgam os melhores, e que nunca se envergonharam do passado dessa igreja a que servem! teólogos da ilogia! vocês, evangélicos que, com raríssimas exceções, passeiam com essa Bíblia ensebada nas mãos e o Diabo na boca, que vocês falam mais nele do que em Deus. teólogos da ilogia!</p>
<p>e meu pai me olhou com os olhos injetados e cheios de pavor.</p>
<p>a custo levantei meu pai. ele me abraçou desesperado. o menino sobre um ombro, meu pai sobre o outro, senti o peso de todas as cruzes da história do homem. eu mesmo apavorado e fraco, mas eu sabia que, naquele momento culminante de minha vida, eu não podia sucumbir. começamos a chorar os três. e sem saber de onde vinha a minha força selvagem, eu dei conta da minha missão.</p>
<blockquote><p> <em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-53/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 51</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/</link>
		<comments>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 06 Aug 2011 19:18:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[estamos chegando. passamos a ponte e eu dobro à esquerda. ao virar para entrar na nossa estradinha&#8230; pai, pai! veja! está tudo aceso! a surpresa me obriga a parar o carro. a chácara está toda iluminada. meu pai está abrindo o portão e, como há luzes por todo lado, eu só diviso o seu vulto, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>estamos chegando. passamos a ponte e eu dobro à esquerda. ao virar para entrar na nossa estradinha&#8230;</p>
<p>pai, pai! veja! está tudo aceso!<span id="more-5105"></span></p>
<p>a surpresa me obriga a parar o carro. a chácara está toda iluminada. meu pai está abrindo o portão e, como há luzes por todo lado, eu só diviso o seu vulto, estranhamente meio gigantesco. saltamos.</p>
<p>o menino corre até ele e pula no seu colo. três abraços num só abraço. novamente. meu pai:</p>
<p>então, hoje, eu é que recebo meu filho e meu neto.</p>
<p>o que aconteceu por aqui?</p>
<p>então não vê? o mundo caminha e essas coisas acabam acontecendo; nada de banho esquentado a álcool. nada de música a pilha. vamos à cascata.</p>
<p>temos que tirar a bagagem! eu.</p>
<p>depois, pai, depois! o menino.</p>
<p>e descemos maravilhados. quatro fortes lâmpadas transformavam aquele espaço já mágico num ambiente de outro mundo.</p>
<p>o menino tira os sapatos e entra na água. meu pai faz o mesmo. e eu, lentamente, envergonhado por não ter tido essa idéia. meu pai:</p>
<p>a água leva a canseira embora!</p>
<p>está tudo lindo. como fez isso tudo?</p>
<p>outra hora a gente fala sobre isto.</p>
<p>olhei-o sério e ele entendeu. e disse:</p>
<p>não precisamos falar sobre isto.</p>
<p>subimos. a mesa está pronta e temos a sopa do primeiro dia, pedacinhos de mandioca. desta vez o menino quis jantar. enquanto comemos, meu pai:</p>
<p>tem mais uma surpresa. subiu as escadas e já começou a soar uma música.</p>
<p>o concerto pra flauta e harpa de Mozart! o som está alucinado!, pai.</p>
<p>é a vitrolinha?, vovô.</p>
<p>não. temos um som novo.</p>
<p>pô!, pai! agora só falta um fogão a gás.</p>
<p>não! esse pode esperar muito, ainda.</p>
<p>e jantamos. eu:</p>
<p>quando vocês chegaram aqui, pai, na hora da janta você parecia uma pintura de Goya.</p>
<p>a luz elétrica acaba com estes encantos, não é? mas deve trazer outros consigo.</p>
<p>será?</p>
<p>e, tendo terminado a janta, meu pai trouxe uma garrafa de licor.</p>
<p>é de banana! acabei de filtrar.</p>
<p>maravilhoso! quer provar?, filho. só provar.</p>
<p>é gostoso mas muito forte, pai.</p>
<p>é bom que seja, porque na sua idade não pode! e meu pai:</p>
<p>não é que não possa. não precisa.</p>
<p>Mozart silenciou. subimos para ver o som. e meu pai pediu-nos ajuda para colocá-lo lá fora. repetimos o licor de banana.</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A Espécie Humana</a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-50/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-52/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 50</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-50/</link>
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		<pubDate>Sat, 30 Jul 2011 19:56:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[um abraço e um beijo. foi tudo bem?, filho. nossa!, pai. o avião deu dois pulos no ar e caiu e subiu! levei um susto! depois a aeromoça me levou pra cabine do comandante e só me trouxe de volta quando o avião ia pousar. agora passou o medo. foi tudo bem por lá? foi. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>um abraço e um beijo.</p>
<p>foi tudo bem?, filho.<span id="more-5079"></span></p>
<p>nossa!, pai. o avião deu dois pulos no ar e caiu e subiu! levei um susto! depois a aeromoça me levou pra cabine do comandante e só me trouxe de volta quando o avião ia pousar. agora passou o medo.</p>
<p>foi tudo bem por lá?</p>
<p>foi. o tio e a tia mandaram abraços. cadê o fusca?</p>
<p>está no estacionamento.</p>
<p>vamos direto pra casa?</p>
<p>não. vamos pro apartamentinho. depois do almoço a gente passeia um pouco e de tardinha nós vamos. agora é hora de pegar a bagagem.</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-49/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-51/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 49</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-49/</link>
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		<pubDate>Sat, 23 Jul 2011 20:24:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[estive de pé, um tempo, assombrado. minha cabeça delira. ou convivemos em consenso&#8230; eu penso&#8230; ou caminharemos para uma hecatombe! como um sonâmbulo, começo a andar sala quarto cozinha banheiro então senhor Sartre o homem está condenado a ser livre?, sala quarto cozinha banheiro ouça ouça no seu túmulo senhor sala quarto estamos sim condenados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>estive de pé, um tempo, assombrado. minha cabeça delira.<span id="more-5029"></span></p>
<p>ou convivemos em consenso&#8230; eu penso&#8230; ou caminharemos para uma hecatombe!</p>
<p>como um sonâmbulo, começo a andar sala quarto cozinha banheiro então senhor Sartre o homem está condenado a ser livre?, sala quarto cozinha banheiro ouça ouça no seu túmulo senhor sala quarto estamos sim condenados à liberdade cozinha banheiro mas estamos antes condenados à convivência!</p>
<p>e até quando?, então!, seremos Kamalas sem mãe-loba que nos ensinasse, pelo menos, a ferrar os dentes nas jugulares dos grandes safados, Kamalas, degredados filhos de Eva a errar gemendo e chorando neste vale de lágrimas, afaste-se!, Senhora, a perseguir dolorosa e insensatamente este ensaio sobre a cegueira!</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A Espécie Humana</a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-48/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-50/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 48</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-48/</link>
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		<pubDate>Sat, 16 Jul 2011 19:17:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[chamei-a de Morte mas acho que me enganei quando a desenhei. é a Vida. seus véus voam de leve e a coroa tem um brilho de lua. sento-me na cama. sinto-me nu, estou, sim, nu diante da Vida e por isso puxo o cobertor e me cubro. só o rosto&#8230; não tenho febre. não tenho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>chamei-a de Morte mas acho que me enganei quando a desenhei. é a Vida. seus véus voam de leve e a coroa tem um brilho de lua.<span id="more-4996"></span></p>
<p>sento-me na cama. sinto-me nu, estou, sim, nu diante da Vida e por isso puxo o cobertor e me cubro. só o rosto&#8230; não tenho febre. não tenho medo. vivo dentro de um silêncio sideral. e tenho à minha frente uma figura humana adivinhada apenas pelos véus que a cobrem e coroada com a coroa da existência.</p>
<p>por que veio? assusto-me com minha voz que tem uma estranha ressonância de gruta mágica. por que veio?</p>
<p>você me trouxe.</p>
<p>estou meio doente. acho! por que te trouxe?</p>
<p>para resolver dúvidas!</p>
<p>só existe uma dúvida! só existe um mistério!</p>
<p>sim. só existe um mistério.</p>
<p>só existe um mistério: por que é que tudo existe?, quando podia não existir!</p>
<p>para esse mistério não tenho resposta.</p>
<p>encolhi-me na cama e cobri a cabeça. percebo que ela se senta junto de mim. sua voz é doce como de uma fada.</p>
<p>você veio e sabe que irá um dia. agora ou depois. não sabe por que veio. nem como será.</p>
<p>me encolho mais. não tenho medo nenhum mas me sinto dentro de um tipo de pesadelo, um pesadelo estranho porque cheio de doçura. a voz:</p>
<p>a ameba é de luz!</p>
<p>luz?</p>
<p>fica mais fácil de entender. eu poderia dizer: a ameba é de energia! a ameba é de existência! a palavra ameba é sua. vou traduzi-la: há uma totalidade de existência!</p>
<p>uma só existência?</p>
<p>a existência é uma e está concentrada. imagine, então, que uma porçãozinha, pequeníssima, passa a ter uma individuação. transforma-se em um ser único. que vai existir independente da totalidade, dentro das regras do mundo físico. acontece num ponto fora do mundo, numa fração de segundo fixa do tempo. não é a parcela de luz que resolve se destacar do grande todo. é alguma necessidade do mundo físico que a exige.</p>
<p>e, após a morte, essa centelha de vida se reintegra ao grande todo. terminou? não. porque a individuação não pode mais se dissolver. então, cada ser viverá de sua memória. o resto da eternidade para reviver a vida.</p>
<p>devo estar delirando! mas sinto que o quarto ainda está claro!</p>
<p>reviver a vida por toda a eternidade parece monótono? mas cada segundo da existência anterior poderá ser quebrado em mil, milhões, bilhões, trilhões de fração e nesses sub-átomos de segundo o ser se verá novamente dentro do processo da vida e se lembrará de cada detalhe, é como vivê-lo novamente, eis a eternidade.</p>
<p>não tenho mais coragem de falar. estou suando frio. mas não posso deixar de pensar:</p>
<p>então, quem vive mais tempo terá mais detalhes dos quais se lembrar!</p>
<p>ilusão. o tempo percebido é ilusão. só existe um fato. o mundo exigiu a separação da fração de vida e num determinado momento para lá ela voltará, mas indivíduo daí para sempre.</p>
<p>mas então não há diferença entre sofrer ou ser feliz?</p>
<p>nenhuma. isto são conceitos presos às necessidades da matéria. o que importa é ter do que se lembrar.</p>
<p>e os animais?</p>
<p>para a Vida não há categorias de seres. micróbios, plantas, animais, pessoas. . . onde fulge o brilho da Vida, eis aí a glória de um indivíduo, um ser vivo!</p>
<p>plantas e animais não se lembram!</p>
<p>lembrar é um termo humano. digamos assim: houve uma existência individual, haverá daqui para sempre a percepção absoluta dessa existência dentro da totalidade.</p>
<p>são tantas as formas de vida. . .</p>
<p>quantidade maior ou menor também é um conceito humano.</p>
<p>será uma espécie de Turbilhão.</p>
<p>reina agora um tal de Turbilhão!</p>
<p>sim, lembro-me dessa frase de Aristófanes. reina agora um tal de Turbilhão.</p>
<p>foi você quem pensou isto: uma espécie de ameba gigante, de todos os tamanhos&#8230; o universo!</p>
<p>eu quis parar de pensar. estava tranqüilo. mas continuava suando frio. sentei-me novamente na cama. ela estava diante de mim, de pé, flutuando acima do chão. eu, nu diante da Vida e, agora, sem frio e sem medo. pela transfiguração de seus véus, eu percebi que estava para desaparecer. levantei-me e fiquei a olhá-la. começou a esmaecer. de repente, eu gritei:</p>
<p>mas, a ética?, e a ética?</p>
<p>ética? isto é problema de vocês, os vivos. ou convivem em consenso ou&#8230; ou&#8230;</p>
<p>meu quarto escureceu.</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/"><span style="color: #333333;">A Espécie Humana</span></a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-47/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong>Para ler a partir do capítulo O.</strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-49/">Continua na semana que vem.</a></em></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>A Espécie Humana. Capítulo 47</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-47/</link>
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		<pubDate>Sat, 09 Jul 2011 21:26:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jorge Teles]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[meio que durmo, meio que devaneio&#8230; não sei se tenho febre, mas tremo por um nada. ando de cá para lá, quarto, sala, cozinha, banheiro, quero sair à rua mas trocar-se é tão demorado e eu acabo comendo uma fruta ou um pão com leite se sair à noite comerei algo, não, não sairei à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>meio que durmo, meio que devaneio&#8230; não sei se tenho febre, mas tremo por um nada. ando de cá para lá, quarto, sala, cozinha, banheiro, quero sair à rua mas trocar-se é tão demorado e eu acabo comendo uma fruta ou um pão com leite se sair à noite comerei algo, não, não sairei à noite.<span id="more-4946"></span></p>
<p>meio que durmo, meio que devaneio&#8230; devo estar, sim, com febre, está escuro, então é noite, não tenho música mas elas ressoam como martelos dentro de mim, parece que todas juntas, queria que as músicas virassem uma música apenas e essa uma só música, a serenata para cordas de Tchaikovski seria um rio de água morna e eu entraria nessa água e teria um pouco de descanso, decerto um descanso triste, mas talvez eu parasse de tremer, vou tomar um banho.</p>
<p>a água quente me traz um pouco de lucidez. estou cansado! estou triste! estou com sono.</p>
<p>deito-me nu e me encolho como um feto. até hoje é a maneira como eu durmo. me estico, me viro, mas no momento final, quando sinto que mergulho no oco do sono, viro um feto, não se aproxime, senhor Freud!</p>
<p>o frio vai me acordando aos poucos. deixei a janela aberta. e também esqueci alguma luz acesa. abro os olhos. a janela está fechada. não há luz acesa mas o quarto está todo iluminado.</p>
<p>porque eu a tenho diante de mim.</p>
<blockquote><p><em><strong><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/um-romance-um-capitulo-por-semana/">A Espécie Humana</a></strong>, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.</em></p>
<p><strong><em><span style="color: #333333;"><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-46/">Para ler o capítulo anterior.</a></span></em></strong></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/a-especie-humana-capitulo-0/"><strong><span style="color: #333333;">Para ler a partir do capítulo O.</span></strong></a></em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2011/a-especie-humana-capitulo-48/">Continua na semana que vem.</a></em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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