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	<title>50 Anos de Textos &#187; Hubert Alquéres</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>O encanto de descobrir Manoel de Barros</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 18:40:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hubert Alquéres]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Premiado no Festival Paulínia de Cinema de 2009 como melhor documentário, Só dez por cento é mentira tem conquistado elogios e aplausos onde é exibido. Pedro Cezar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século passado e mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Premiado no Festival Paulínia de Cinema de 2009 como melhor documentário, <em>Só dez por cento é mentira</em> tem conquistado elogios e aplausos onde é exibido. Pedro Cezar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século passado e mais importantes do Brasil.<span id="more-1231"></span>Elogiada por Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, sua obra aparentemente simples é instigante, repleta de originalidade e busca inspiração no olhar encantado das crianças e nas coisas corriqueiras e “desimportantes” do mundo.</p>
<p>Manoel de Barros faz releituras surpreendentes, confere novas dimensões a objetos, traquitanas e “inutensílios”, valoriza personagens que encantam por seu despojamento, brinca com as palavras e se insurge contra a fixação unilateral e obsessiva em produção e produtividade, uma característica das sociedades contemporâneas, celebrando as “inutilezas”.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/manoel-de-barros.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1235" title="manoel-de-barros" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/manoel-de-barros.jpg" alt="" width="448" height="286" /></a>A reinterpretação das noções correntes de verdade e invenção começa pelo título do filme, que se refere a como Manoel de Barros vê sua obra: “Noventa por cento é invenção; só dez por cento é mentira”. E explica para quem fique intrigado com a inusitada distinção: “A invenção é um negócio profundo. Serve para aumentar o mundo”. Para ele, todo poeta é um “vidente”, dotado de um olhar inevitavelmente “enviesado” das pessoas e coisas que o cercam, e chamado não a descrever, mas a descobrir e ampliar o universo.</p>
<p>Aos 93 anos, o poeta desconcerta ao afirmar que até hoje só teve infância e, portanto, escreve “apenas” sobre ela. Depois dos 70, acrescenta, garantiu o ócio e ingressou no que chama de “terceira infância”, passando a produzir mais. Para quem duvide, o filme mostra que ele avançou na vida sem deixar de ver o mundo com o olhar perquiridor e desinibido das crianças, convencido de que os objetos não se restringem a seu significado literal. “As coisas”, adverte, “não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”</p>
<p>Declara ser poeta em tempo integral: “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde”. Acolhe de bom grado as limitações do homem: “A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito”. Talvez por isso o filme se declare como sendo uma “desbiografia” do poeta e faça o elogio do “des-herói”, termo do autor para qualificar personagens que estão na contramão do convencional, a exemplo do vagabundo de Charles Chaplin – um “herói ao contrário”.</p>
<p>O resultado é um mergulho estético e arrebatador na obra de Manoel de Barros. A fotografia e a música – onde predomina a viola – reforçam as reminiscências do Brasil pantaneiro. As imagens são poéticas, frases e versos do escritor são inseridos na tela como nos cadernos que ele mesmo confecciona e escreve a lápis, “em caligrafia miúda”. Ficam evidentes a sensibilidade, mas também o empenho, a lapidação e a paciência com que o poeta constrói seus poemas.</p>
<p>O documentário apresenta depoimentos de escritores, cineastas, atores, artistas plásticos, parentes e amigos do poeta. Mas seu grande feito é ter conseguido entrevistar o próprio Manoel de Barros, conhecido por evitar exposição na mídia. Famoso por conceder entrevistas somente por correspondência, Manoel resistiu a autorizar a gravação de seu depoimento. Para Pedro Cezar, “ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente”. E repisa: “Ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado”. Afinal, “poesia não é para compreender, é para incorporar”, argumenta o poeta, enfatizando que ela pode estar em qualquer canto, bastando apenas focalizar um olhar desprovido de regras e pressupostos – como o das crianças – para enxergá-la.</p>
<p>O cineasta conseguiu fazer a entrevista porque, depois de muita insistência, afirmou que era melhor deixar para lá, afinal o desejo de fazer o filme era “só um sonho”. O velho poeta, sabedor da importância dos sonhos, se rendeu e o documentário pôde virar realidade. “Venha amanhã bem cedo, pode fazer as perguntas. Se eu me interessar, eu respondo”. Respondeu a todas e Pedro Cezar soube aproveitar a oportunidade.</p>
<p>Cenas inspiradas e imprevistas. Manchas nas paredes sujas que se transformam em desenhos cheios de significado e lirismo. Pneus que, das fábricas e dos carros, vão parar nas mãos de garotos que os utilizam como balanços, ou os convertem em bóias para brincar num lago, ou os jogam de um para o outro num final de tarde, ao “lusco-fusco” – momento sempre carregado de mistério, que enternece e confunde, à semelhança da poesia de Manoel de Barros, que desvenda novas leituras de matérias densas, mas cheias de disfarce. Um filme que honra a qualidade do biografado e confirma a magia e o encantamento da arte de fazer cinema e de assisti-lo.</p>
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		<title>Os mágicos da bola</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Feb 2010 19:30:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hubert Alquéres]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Esporte]]></category>

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		<description><![CDATA[O futebol ensinou, em certa medida, um pouco de democracia ao Brasil. O jogo, que sempre começa em zero a zero e submete as duas equipes às mesmas regras, coloca seus praticantes em condições de igualdade no momento da disputa. (1) Não foram poucos os nossos intelectuais que voltaram sua atenção e pesquisas a um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O futebol ensinou, em certa medida, um pouco de democracia ao Brasil. O jogo, que sempre começa em zero a zero e submete as duas equipes às mesmas regras, coloca seus praticantes em condições de igualdade no momento da disputa. (1)<span id="more-1002"></span><br />
</em><br />
Não foram poucos os nossos intelectuais que voltaram sua atenção e pesquisas a um tema que fascina não apenas o Brasil, mas tem ressonância em escala global: o futebol. Esporte que determina comportamentos culturais em todo o mundo, entre nós, o futebol ultrapassou as referências ditas populares, e além de discutido nas mesas redondas dominicais &#8211; vespertinas ou noturnas na maioria dos canais brasileiros de televisão -, passou a ser também objeto de discussões e debates universitários.</p>
<p>O futebol, que já foi objeto de utilização política durante o governo militar, e considerado alienante nos bancos de nossas academias nesses mesmos tempos, recebeu de nossos grandes poetas e cronistas outro tratamento, evidenciando a fruição que lhes permitiram campeonatos regionais e nacionais, copas do mundo, e, tantas vezes, o dom e mestria de nossos jogadores. Lembro aqui, para citar apenas alguns cronistas, Sergio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Nelson Rodrigues, Rubem Braga, além dos poetas Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto, que jogou futebol. Mesmo Oswald de Andrade, a propósito de uma excursão europeia triunfal do Clube Atlético Paulistano, inventou um poema quase que estritamente numérico comentando a derrota do time diante do Futebol Clube de Cette (hoje Sète, no Sul da França).</p>
<p>Esse jogo e o poema de Oswald foram um dos motes para o filósofo Bento Prado Jr. &#8211; na série de artigos que publicou na <em>Folha Online </em>- escrever sobre &#8220;literatura e o mistério da bola&#8221;. Nele, relembra Coelho Neto e Décio de Almeida Prado e toda a sorte de metáforas e expressões criadas para designar lances de futebol: entrar com o pé direito, fazer finca-pé, saber onde por o pé, usar pés de lã, entre outros. Chico Buarque, que não apenas se interessa por futebol, mas o pratica pelo menos três vezes por semana, estando ou não em turnê, no Brasil ou no exterior, apropria-se da expressão pés de lã em sua canção “Leve”, em parceria com Carlinhos Vergueiro.(2)  </p>
<p>O texto de Almeida Prado que Bento Prado Jr. comenta refere-se à matéria publicada em 1988, &#8220;Latejando sobre o futebol&#8221;, presente no livro &#8220;Seres, coisas, lugares&#8221;.(3) No entanto, é em seu magistral artigo &#8220;Tempo (e espaço) no futebol&#8221;, publicado na Revista da USP (4) que Décio de Almeida Prado se vê obrigado a justificar a abordagem do tema, tido como frívolo, a não ser para fanáticos entre os quais ele se incluía.</p>
<p>Esse seu ensaio sobre futebol é extraordinário, relembrando desde Leônidas, o homem-borracha, inventor do célebre gol de bicicleta, ocorrido no jogo São Paulo x Juventus, em 1947, a Friedenreich e seu último gol marcado no estádio do Pacaembu, &#8220;tudo simples, como nos velhos tempos&#8221;. Analisa ainda as dimensões do campo, o desafio e as regras do jogo, a missão da defesa e o papel do ataque, a evolução do esporte levando em conta a técnica e o preparo físico dos jogadores, a contribuição dos técnicos, a irradiação de uma partida,finalizando com comentários sobre Pelé, capaz de driblar e valer-se de sua inteligência, simultaneamente.</p>
<p>O futebol brasileiro e mundial viverá em 2010 um momento especial. Será disputada a primeira Copa em solo africano, na África do Sul, e o ano marca também os 80 anos da realização da primeira Copa do Mundo, disputada no Uruguai em 1930. Além disso, o Brasil se prepara para receber a sua segunda Copa do Mundo, 64 longos anos após sediar a primeira, em 1950.</p>
<p>O jogador brasileiro é o fiel retrato da simbiose entre o jogador de futebol e a bola: a facilidade do drible como recurso para abrir espaços e furar retrancas; a malandragem e malemolência da ginga de corpo, a finta no contrapé, ou a elegância ao conduzir a bola, sem precisar sequer olhar para ela.</p>
<p>Espelho dessa paixão brasileira, nossos craques, com sua magia dentro dos gramados, eternizaram o futebol como legítimo e inigualável produto nacional, impregnado na memória de todos os amantes desse esporte espalhados pelos quatro cantos do planeta.</p>
<p><em>(1) José Miguel Wisnik, como conferencista, no Seminário &#8220;Futebol em debate&#8221;, promovido pela Unicamp, em abril de 2009</em></p>
<p>(2) &#8220;Pense que eu cheguei de leve /machuquei você de leve / e me retirei com pés de lã&#8221;.</p>
<p>(3) Décio de Almeida Prado, &#8220;Seres,coisas, lugares: do teatro ao futebol&#8221;, Cia. das Letras, São Paulo, 1997</p>
<p>(4) Revista da USP, Décio de Almeida Prado,Tempo (e espaço) no futebol, julho e agosto, 1989, p. 15-24</p>
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