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	<title>50 Anos de Textos &#187; Antonio Contente</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>Na azulíssima manhã</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Jan 2011 16:26:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Na charmosa Ilha do Mosqueiro, perto de Belém do Pará, não abundam os gatos, mas, desde que me entendo, abundam os cachorros. Como a maioria das casas de veraneio fica grande parte do ano fechada, os vigias que cuidam delas geralmente possuem cães, vira-latas a maioria, alguns poucos com traços de raças nobres de remotas, remotíssimas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na charmosa Ilha do Mosqueiro, perto de Belém do Pará, não abundam os gatos, mas, desde que me entendo, abundam os cachorros.<span id="more-3617"></span> Como a maioria das casas de veraneio fica grande parte do ano fechada, os vigias que cuidam delas geralmente possuem cães, vira-latas a maioria, alguns poucos com traços de raças nobres de remotas, remotíssimas gerações.</p>
<p> Como nesta época o veraneio na área é baixíssimo, no único hotel viável que o local possui, conhecido como Casa do Haroldo, apenas três apartamentos estão ocupados: este em que habito, um com um casal em lua de mel, mais um terceiro com dois gringos, marido e mulher, pastores protestantes acompanhados de uma penca de filhos.</p>
<p> Ao chegar à praia, pela manhã, as areias não estavam propriamente desertas. Talvez umas dez ou 15 pessoas, em grupinhos separados, o que sempre ocorre diante do hotel. Ah, sim, no começo falava de cachorros, e percebi o instante em que uma cadelinha desceu da calçada para perto de nós. Percebi porque, francamente, ali estava uma cachorrinha simpática. Rabo curto, olhar vivíssimo, e ágil, uma agilidade e tanto. Bastou estalar os dedos e ela veio para o meu lado, animadíssima. Balançava o corpinho, pulava, mexia o toco de cauda. Enfim, acho que é assim que os cães sorriem.</p>
<p>No que nossa confraternização ia em meio saquei, na beira da calçada, nada menos de quatro cachorros. Exatamente como a belezinha que brincava comigo, também vistosos vira-latas. Todos de olho em “Fifi”, que é como eu já batizara a guria de pêlo fofo.</p>
<p>Nos instantes seguintes pude testemunhar o começo da disputa. Os marmanjos caíram literalmente de quatro sobre a mocinha que, só então percebi, se encontrava no cio. Prenunciava-se uma disputa braba, amigos, e confesso que a donzela deitou e rolou. Jogou seu irresistível charme sobre o grupo inteiro e, na disputa a dentadas que se seguiu, tive a impressão que a mocinha ficaria apenas com o parceiro que sobrasse vivo. Todavia, a coisa não chegou a tais extremos. Tanto que pude, pela primeira vez, presenciar um caso de, digamos, consenso canino. Um venceu e os três restantes subiram para a calçada. Tranqüilos, se colocaram sob a sombra protetora de uma castanheira sapucaia.</p>
<p>Assim, com o eleito, começou o namoro bem perto de mim. O que ganhou a parada era um cachorrinho de pêlos pretos, ouriçados, nem de longe o mais pintoso dos disputantes. Porém, o que me pareceu foi que a paixão da cadela por ele não poderia ser maior. Ela desmanchou-se em agrados sobre o sujeitinho e, verdade seja dita, nosso amigo não perdeu tempo. Tratou de fazer logo o que deveria ser feito, só que, após as primeiras tentativas, parou. “Fifi”, rapidamente, voltou à carga com a cascata de carinhos. Dava dentadinhas, fuçava, mordiscava, esfregava o rabinho no focinho do galã; contudo, nada. Após tanta insistência, nova investida do rapaz. Nessa altura dos acontecimentos, além de mim mais umas oito pessoas formavam a assistência. No que o eleito, pela segunda vez, pifou, saiu de nossas bocas o primeiro “Ohhhhh”&#8230;</p>
<p>Para encurtar a história, na quarta tentativa do amante as pessoas que formavam a roda já passavam de 20. Acabou sendo então que um jovem, diante de novo fracasso, gritou:</p>
<p>- Brocha!</p>
<p>- Viagra nele! – outro emendou.</p>
<p>- Ora – um senhor ponderou, – vamos devagar com o andor que o santo é de barro.</p>
<p>- Exato – outro levanta o indicador. – Roma não se fez num dia.</p>
<p>- Eu mesmo – volta o primeiro – não tenho vergonha de dizer: minha primeira noite de casado deixou muito a desejar. Já da segunda em diante e até hoje, sai de baixo&#8230;</p>
<p>Com a nossa expectativa aumentando testemunhamos, pasmos, outra furada do galã. Nisso os três preteridos, que se mantinham à sombra, na calçada, retornaram à liça. Um deles, o mais bonito, uma espécie de Brad Pitt canino, ataca, firme. Só que, estranhamente, “Fifi” saltou de banda. Enquanto isso murcho, encostado a uma pedra, o já apelidado “Brochonildo” ofegava. E talvez até acabasse dormindo não fosse a volta da cadelinha para perto dele, deixando os outros pretendentes, literalmente, a ver os navios que passavam ao longe.</p>
<p>Uma dentadinha aqui, outra ali, e nosso amigo que ainda não conseguira mostrar do que poderia ser capaz pareceu reanimar. A turma da torcida esfrega as mãos, cheguei a escutar um sonoro “desta vez vai”. O cãozinho toma fôlego, se apruma e se atira. “Fifi” posiciona-se do jeito mais favorável possível, enquanto o amante põe as patinhas onde deveria pôr, se aprumando, se equilibrando. Um balanço pra cá, outro pra lá, o senhor da lua de mel frustrada berra:</p>
<p>- Tá dando certo, amigão, vai que é mole!</p>
<p>- É mole não, vai que é duro! – outro corrige.</p>
<p>- Grudou! Grudou! – um terceiro brada.</p>
<p>Assim que tudo, finalmente, se consuma, ecoa uma enorme salva de palmas da pequena multidão que apreciava.</p>
<p>Arranjado não sei onde, talvez sobra do pique da temporada de verão, estouram foguetes. Até uns improváveis carros buzinaram, e o dono do barzinho ao lado do hotel chama para uma rodada de Cerpinhas. Com a praia voltando ao normal, percebo que ali estava uma bela manhã. Uma bela, uma santa, uma azulíssima manhã. Com as amadas águas do velho Rio Amazonas à minha frente, caminhando para o mar.</p>
<blockquote><p><em> Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>In vino veritas</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Jan 2011 16:52:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele era um gentil-homem e gostava de vinhos. Não sei se estas duas realidades são siamesas, até porque conheço muitas pessoas que, mesmo sem apreciar um generoso Bordeaux ou alguns brancos de Sauternes-Barsac, são irrepreensíveis cavalheiros. Mas esse senhor a que me refiro, tendo morrido faz alguns meses em sua bela propriedade num sopé de montanha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele era um gentil-homem e gostava de vinhos. Não sei se estas duas realidades são siamesas, até porque conheço muitas pessoas que, mesmo sem apreciar um generoso Bordeaux ou alguns brancos de Sauternes-Barsac, são irrepreensíveis cavalheiros.<span id="more-3579"></span> Mas esse senhor a que me refiro, tendo morrido faz alguns meses em sua bela propriedade num sopé de montanha no Rio Grande do Sul, um dia, aqui em Campinas, me fez um pedido. E se agora sento no computador para batucar o cumprimento da promessa que lhe fiz, é que suas palavras vêm me perseguido desde que soube do seu, como se dizia antigamente, passamento.</p>
<p>Tudo começou quando, há muitos anos, fui ao Sul fazer uma reportagem sobre vinhos. Tive então a ajuda de um colega da <em>Folha da Tarde</em> gaúcha que reproduzia, em Porto Alegre, minhas crônicas que, em São Paulo, saiam no jornal homônimo, pertencente à <em>Folha de S. Paulo</em>. Expliquei o que pretendia e fui levado ao poeta Mário Quintana, que conhecia muita gente do ramo.</p>
<p>- Olha – ele me disse, – vou te apresentar ao Milito, nosso melhor enólogo.</p>
<p> A bela figura morava numa lindíssima casa no bairro Moinhos de Vento, e me recebeu, ainda mais levado pelo famoso bardo, como se eu fosse o rei da Inglaterra. Expliquei rapidamente o que pretendia, porém antes que pudesse falar mais, perguntou se eu gostaria de tomar algo especial. Como estudara umas coisinhas a fim de me preparar para a matéria, indaguei, com ares de conhecedor, se em sua adega tinha rótulos da região de Côte Chalonnaise. Ele abriu um belo riso, deu três tapinhas em minhas costas, para só então soprar:</p>
<p>- Ah, estou vendo que gostas de um Bourgogne&#8230; Mas deixa eu te oferecer um Chateau Tours Baladoz, tinto da região de Saint Emilion.</p>
<p>Bom, daí em diante Milito me forneceu todos os dados que eu necessitava para a matéria, e lembro exatamente suas primeiras palavras:</p>
<p>- Olha, o vinho tem desempenhado um importante papel em todas as civilizações. Basta que te diga que 2.000 anos a.C já era cultivado na Península Ibérica pelos Tartessos, os mais antigos habitantes daquela região.</p>
<p>- Não é à toa – acrescentou o poeta Mário Quintana, sentado ao lado &#8212; que sempre se referem à nobre bebida como “o sangue de Cristo” ou “dádiva dos deuses”&#8230;</p>
<p>Recordo bem que quando perguntei quem teria inventado o vinho, Milito me disse que seria tão difícil descobrir isso como saber quem bolou a primeira roda. E parece que ainda escuto o que murmurou, com algo de paixão, ao me mostrar, colocando contra a luz, taça com um verde:</p>
<p>- Isto é mistura de aroma e agulha, com fermentação malolática.</p>
<p>Pois bem, depois desse papo muitas vezes encontrei meu entrevistado, até porque uma de suas filhas morava em Campinas, casada com o presidente de uma multinacional com filial aqui. E o segredo que viveu entre nós criou-se em função de um episódio realmente exótico. É que, em certa manhã de inverno dos anos 80, fria, muito fria até para os padrões paulistas, encontrei Milito encostado ao balcão de um boteco relativamente sórdido ali pelos lados do lendário Mercadão campineiro, a beber um daqueles vinhos vagabundos servidos em copinhos de pinga. Quem sabe até, com todo respeito, o famosíssimo Chapinha.</p>
<p>- Vou te revelar um segredo – soprou – e inclusive peço que prometas escrever uma crônica sobre isso depois que eu morrer: vinho que curto mesmo é esse. Veja o gosto, parece que foi armazenado em barricas bodalesas de carvalho francês. Tem aroma potente, com algo de alcaçuz, de bala de café e de coco. É equilibrado, elegante e aveludado na boca. Guarda um retrogosto de primeira. E o fato de ser um pouco tânico, ligeiramente adstringente, não lhe tira a nobreza.</p>
<p>Abismado, guardei o segredo durante anos. E agora que o famoso enólogo morreu cumpro a promessa que lhe fiz. Porém não sei se alguém vai acreditar&#8230;</p>
<blockquote><p>         <em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular.</p></blockquote>
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		<title>Guinle e o tijolo</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Dec 2010 00:20:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Para ser franco, acho absolutamente fascinante uma pessoa viver longos 88 anos sem nunca ter trabalhado. Principalmente se, nessa quase centenária vagabundagem, usufruiu sempre daquilo que os trabalhadores classificam como “do bom e do melhor”. Referindo-se, naturalmente, a comidas, bebidas, mas, sobretudo, belas mulheres. Até porque trabalhar, como se sabe e os chamados livros sagrados estão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para ser franco, acho absolutamente fascinante uma pessoa viver longos 88 anos sem nunca ter trabalhado. Principalmente se, nessa quase centenária vagabundagem, usufruiu sempre daquilo que os trabalhadores classificam como “do bom e do melhor”.<span id="more-3544"></span> Referindo-se, naturalmente, a comidas, bebidas, mas, sobretudo, belas mulheres. Até porque trabalhar, como se sabe e os chamados livros sagrados estão aí para confirmar, é um castigo de Deus. Vigente desde que, pelo motivo que todos sacam, Ele foi obrigado a expulsar Adão e Eva do Paraíso ordenando, com voz tonitruante, que passassem a ganhar o pão com o suor do próprio rosto.</p>
<p>Está claro que não sou afeito aos segredos de alcova dos outros, mas tenho sinceras dúvidas se o playboy Jorginho Guinle papou, mesmo, todas aquelas atrizes que costumava jurar que levou para a cama. E, no tema, só posso achar que foi bafo-de-boca ele jurar que faturou até a Marilyn Monroe, antes da fama, por 200 dólares de, digamos, cachê. Nessas condições, o traço mais fantástico da sua vida, para mim, acaba sendo o de que nunca precisou trampar.</p>
<p>Porém, na verdade, o que queria contar é que conheci, em carne e osso, o agora falecido bon vivant. Assim: o Porto de Santos, cuja administração fora concedida, por ato do imperador, à sua família, teria que ser devolvido ao governo 99 anos depois, e a data caiu em 1980. Eu estava lá na cerimônia de devolução porque havia sido convidado, pela Portobras, para organizar a assessoria de imprensa do grande terminal. E, entre os vários membros do clã Guinle, envergando vistoso terno branco, encontrava-se o estrelado playboy. Sobre quem, naturalmente, convergiam os olhares. Apesar da presença do governador do Estado, ministros, prefeito, deputados, senadores, ou, para resumir, todas as autoridades civis, militares e eclesiásticas.</p>
<p>Por uma dessas contingências do protocolo da festa acabou sobrando para mim e para o jornalista Celso Teixeira Leite, assessor de imprensa da Portobras, ciceronear Jorginho para uma vista ao porto, um dos empreendimentos de onde saiu a grana que sustentou o boa vida. Andamos ao longo do cais e, para finalizar a, se podemos chamar assim, excursão, passamos para a margem oposta do canal, onde ficava o Terminal de Fertilizantes que, na verdade, não era um lugar muito limpo. Para atingir certo galpão, precisávamos passar por abertura que se encontrava entulhada com alguns tijolos. Eu mesmo me abaixei e peguei dois, enquanto Celso fez o mesmo com outros. Então virei para o famoso visitante e pedi que pegasse um, que travava a porta.</p>
<p>- Não – ele respondeu -,  me desculpe, me desculpe mesmo, mas não posso fazer isso&#8230;</p>
<p>Rapidamente, sem dizer nada, meu colega se apressou em fazê-lo, imaginando que o elegante senhor poderia estar com algum problema na coluna, impedido, assim, de se abaixar. Porém logo Jorginho, com um bom sorriso, explicou:</p>
<p>- Uma das famas que tenho, e que faço questão de manter, é de nunca, nesta vida, ter carregado sequer um tijolo. Não é agora que vou fazer isso, ainda mais na frente de dois jornalistas. Faço questão absoluta de não manchar minha biografia&#8230;</p>
<p>Deu uma bela gargalhada e fomos em frente. Afinal, de fato, ele tinha certo sense of humour. Mas, daquele tamanho, usando sapato de salto para parecer mais alto, me deu certeza de que, até, pode ter almoçado algumas beldades do segundo time de Hollywood. Mas Kim Novak, a mulher dos meus sonhos, continuo e ter plena certeza que não almoçou&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Feliz Natal, garoto</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Dec 2010 18:01:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Confesso que jamais havia escutado um assobio igual. Fino, sibilante, penetrante, nem sei direito como defini-lo. A verdade é que passei a escuta-lo em muitas manhãs perto da minha casa, vindo dos lados do Portinho, mais forte ou mais fraco, dependendo do vento. Às vezes a pessoa assobiava alguma música da moda; outras, soltava os sons [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Confesso que jamais havia escutado um assobio igual. Fino, sibilante, penetrante, nem sei direito como defini-lo. A verdade é que passei a escuta-lo em muitas manhãs perto da minha casa, vindo dos lados do Portinho, mais forte ou mais fraco, dependendo do vento.<span id="more-3467"></span> Às vezes a pessoa assobiava alguma música da moda; outras, soltava os sons simplesmente, como um exercício de sopro, como um ensaio ou, digamos, um sinal.</p>
<p> Há dias, finalmente, ao sair mais cedo para descolar um peru vivo que deixaria ciscando no meu quintal até o Natal, conheci o, se podemos chamar assim, dono do tal assobio. Chama-se Leonardo, é um guri de oito anos, no máximo, muito ágil, muito vivo. Não se trata de nenhum nativo aqui de Salinas, como pensei inicialmente ao ouvir o som. É filho de um famoso advogado de Belém que tem casa de praia perto da minha. Pois eu ia descendo a rua em busca do tal peru natalino, no instante em que topei com o garoto na maior interpretação de um sucesso do Roberto Carlos. Não resisti.</p>
<p>- Puxa – falei – você é um craque, meu. Nunca ouvi ninguém que assobiasse tão bem.</p>
<p>No outro dia eu fazia o mesmo roteiro – estava difícil achar o tal peru – e o moleque se aproximou.</p>
<p>- Você é o cara que escreve?</p>
<p>- Bom – vacilei – até hoje, bem ou mal, tenho vivido disso. Mas por que você pergunta?</p>
<p>- É que escuto, todos os dias.</p>
<p>- Escuta? Escuta o que?</p>
<p>- A sua máquina, quando está batendo. Puxa, como é  barulhenta. Você não sabia que já existe um troço chamado computador?&#8230;</p>
<p>- Pois é&#8230; &#8211; gemi.</p>
<p>Nosso terceiro papo se iniciou quase do mesmo jeito, e convidei Leonardo para ir comigo até a feirinha em busca do já lendário peru para a minha ceia. Acabamos sentando sob um coqueiro perto do quebra-mar e o guri perguntou sobre o que eu escrevia.</p>
<p>- Ora – vagueei – coisas&#8230;</p>
<p>- Que coisas?</p>
<p>- Sabe? – achei um bom gancho para desviar a curiosidade – estou pensando em escrever uma história sobre você.</p>
<p>- Sobre mim? – ele sorriu, mostrando os dentes alvos.</p>
<p>- É, sobre você. Em princípio eu poderia chamá-la “O Menino Assobiador”.</p>
<p>Pelo olhar do carinha percebi que ele havia gostado da idéia. Fui em frente.</p>
<p>- Mas, na verdade, para escrever você teria que me ajudar.</p>
<p>- Como?</p>
<p>- Me dizendo agora o que gostaria de fazer dentro da história. Desde que o assobio pintasse.</p>
<p>- Gostaria de chamar um cavalo.</p>
<p>- Ótimo – levantei o polegar – já estou imaginando um menino que morasse nas dunas ali na Praia da Atalaia, e que, assobiando, fizesse surgir no areal um belo corcel branco.</p>
<p>- Negro. Um corcel negro como o que vi num filme.</p>
<p>- OK, mas aí nós vamos ter que arrumar um perigo.</p>
<p>- Claro, para eu poder chamar o corcel.</p>
<p>- Grande garoto – bati no ombro dele. – O que você acha de um caranguejo gigante?</p>
<p>- Pode ser. E como ele iria atacar?</p>
<p>- Bom, teríamos que fazer você se perder no meio das dunas.</p>
<p>- Muito bem – Leonardo me fita, os olhos brilhando – e&#8230;</p>
<p>- E você escuta uma voz te avisando do perigo do caranguejo gigante. A voz de uma gaivota falante que desceria ao teu lado.</p>
<p>- E o que ela me diria?</p>
<p>- Que acabara de ver, do alto, o bicho enorme. E ele tava te procurando. De repente, pimba, aparece.</p>
<p>- E me pega?</p>
<p>- Pois aí é que está – tento ser dramático. – É então que você dá o teu fantástico assobio, o corcel negro pinta e te salva. Que tal?</p>
<p>- Bom, bom – ele responde. – Quando a história ficar pronta, me chame.</p>
<p>Nos dias seguintes não vi o moleque até que, ontem, fui caminhar num coqueiral próximo à Praia do Joca, depois de, finalmente, ter descolado o peru natalino. De repente o assobio, o familiar assobio, cortou o ar fresco da manhã. Me viro e vejo Leonardo que vinha vindo pro meu lado. Pára junto de mim e volta a fazer o que sabia, então olhando para o alto. Nisso, percebo um gavião que dava voltas sobre as nossas cabeças. A cada assobio, descia mais. Até que pousou no galho de um biribazeiro, assim perto.</p>
<p>- Puxa – comento – isso é muito melhor do que chamar um corcel negro.</p>
<p>- Talvez – o menino sorri – mas se eu te contasse que sei chamar gaviões, e que esse que sentou ali é meu amigo, ia ser moleza para você contar sua história.</p>
<p>Disse isso e saiu, quase correndo. Adiante estanca, assobia e a bela ave levanta em sua direção. Leonardo acena, gritando pra mim:</p>
<p>- Hoje volto pra Belém. Um dia quero ler a história que você tá escrevendo sobre mim. Feliz Natal, chefe.</p>
<p>- Feliz Natal, garoto.</p>
<p>Balanço a mão enquanto acompanho o guri e a ave que sumiram além do laguinho, na densa e linda claridade da manhã.   </p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular<em>.</em></p></blockquote>
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		<title>Em busca de um autor</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Dec 2010 18:04:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[No começo dos anos 60, numa Brasília vermelha de tanto barro, eu e ele batíamos bons papos num botequinho de vigésima categoria. O camarada, mineiro, tinha chegado à cidade como peão, pegara em enxadas e carregara pedras, porém, na época, já funcionava como mestre-de-obras. Ficamos nos conhecendo porque, indo à cidade com certa freqüência fazer reportagens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No começo dos anos 60, numa Brasília vermelha de tanto barro, eu e ele batíamos bons papos num botequinho de vigésima categoria. O camarada, mineiro, tinha chegado à cidade como peão, pegara em enxadas e carregara pedras, porém, na época, já funcionava como mestre-de-obras.<span id="more-3409"></span> Ficamos nos conhecendo porque, indo à cidade com certa freqüência fazer reportagens sobre as obras da cidade, ele sempre me ajudava com um jipe incrível, que enfrentava todo tipo de lama, me levando aos lugares onde precisava chegar. Num janeiro altamente chuvoso, com os prédios do Congresso ainda em construção, eu necessitava dar um pulo nas proximidades. Não fosse o heróico veículo do meu amigo, talvez tivesse voltado para São Paulo no mesmo dia.</p>
<p>Nos anos seguintes encontrei o formidável personagem muitas vezes. E, afinal, a cada encontro, não podia deixar de perceber que a figura melhorava de vida de forma fulminante. Tanto que nem me espantei, alguns anos depois, ao saber que possuía sua própria construtora.</p>
<p>Quando inaugurou a suntuosa mansão onde mora até hoje, no Lago Sul, fui à festa. Precisando sair cedo cheguei antes da maioria dos convidados e, como o anfitrião gostava de mim, ficamos conversando, sozinhos num canto, tomando uísque.</p>
<p>- Você já ouviu falar da família Benedict? – ele, de repente, me perguntou.</p>
<p>- Bom – tentei lembrar – confesso que não.</p>
<p>- Não me admira – respondeu –, a menos que tenha visto o filme “Assim Caminha a Humanidade”.</p>
<p>- Eu vi – respondi.</p>
<p>- Pois a família Benedict é aquela dos milionários do gado.</p>
<p>- E por que diabo você está falando disso? – indaguei.</p>
<p>- É que – ele aponta para o enorme terreno com atlântica piscina ao meio – festa igual a esta que vou dar hoje só eram dadas pelos Benedict da fita.</p>
<p>Depois disso, passei bom tempo sem vê-lo. Porém, no dia da eleição, pelo colégio eleitoral, de um dos generais da ditadura, houve o reencontro. Topei com o amigo no Hotel Nacional, durante o beija-mão. O vi abraçando o futuro ocupante do Planalto. Após veio a mim. Perguntou, na lata:</p>
<p>- Tá aqui para cumprimentar o homem?</p>
<p>- Não – respondi – sou repórter, você sabe. Estou trabalhando.</p>
<p>Nesse instante um garçon passava com badeja cheia de copos com uísque; ameacei pegar um.</p>
<p>- Absolutamente, este é nacional, pra plebe.</p>
<p>Dito isto me arrastou para uma saleta onde se encontravam vários ministeriáveis em algazarra regada a Royal Salute.</p>
<p>Faz uns tempos o hoje bilionário ligou pra minha casa, em Campinas, perguntando se poderia mandar o seu jatinho me apanhar em Viracopos, pois desejava falar comigo. Respondi que não precisava tanto, que eu nem saberia como entrar num avião executivo e que iria até Brasília em aeroplano de carreira mesmo. Fui e, recebido numa das fazendas do nosso herói, ele me perguntou se eu seria capaz de escrever um livro igual aos que eram produzidos por Harold Robbins. Respondi que certamente não, e quis saber o motivo da indagação.</p>
<p>- Olha – ele me falou, sério – acho que minha vida daria um romance.</p>
<p>- Puxa – falei, decepcionado – mas Harold Robbins?</p>
<p>Daí sugeri o nome de alguns amigos talentosos que poderiam operar a obra, só que o papo acabou se esgotando ali mesmo.</p>
<p>Porém o fecho desta história ocorreu não faz muito tempo. Fui cobrir um jantar de ministros em luxuoso hotel de São Paulo e, de repente, dou de cara com o antigo peão de obras dos primórdios de Brasília. Acabamos sentando para um drinque e, após as doses que permitem certas aberturas olhei firme nos olhos do camarada. Falei:</p>
<p>- Sabe? Te conheço há tantos anos mas há um troço que nunca te perguntei. Afinal, como é que você ficou tão rico?</p>
<p>- Bem – ele sorriu – antes de mais nada posso te garantir uma coisa: corrupto eu não sou.</p>
<p>- Claro, e nem estou insinuando isso, não é?</p>
<p>- Porém – o personagem termina – dificilmente você conhecerá, em sua vida, outro que seja tão corruptor&#8230;</p>
<p>Levantou dando três tapinhas no meu ombro. É que acabava de entrar uma loura altamente oxigenada, a quem abriu os braços:</p>
<p>- Que bom que você veio, meu amor.</p>
<p>Agora já não tenho nenhuma dúvida que Harold Robbins ganharia alguns milhões de dólares com esta história&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Dois casos d&#8217;amor</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Dec 2010 03:05:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[I Quando a conheci, em 1991, no século passado, ela estava com 21 anos e não poderia haver coisa mais linda na face da terra. Como ostentava na mão direita vistosa aliança, nem foi preciso perguntar se era noiva. Depois, como eu precisava ir sempre ao escritório onde ela funcionava como secretária do diretor, acabei perguntando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>I</strong></p>
<p>Quando a conheci, em 1991, no século passado, ela estava com 21 anos e não poderia haver coisa mais linda na face da terra. Como ostentava na mão direita vistosa aliança, nem foi preciso perguntar se era noiva.<span id="more-3353"></span> Depois, como eu precisava ir sempre ao escritório onde ela funcionava como secretária do diretor, acabei perguntando quando seria o casamento.</p>
<p>- Se não der nenhuma zebra – respondeu – em maio.</p>
<p>- Ué – levantei as sobrancelhas – e por que haveria de dar zebra?</p>
<p>- Ah, sei lá&#8230; É que o meu noivo, como eu, é de Dracena. E eu não gostaria de morar lá.</p>
<p>- E onde você gostaria de morar, posso saber?</p>
<p>- Na civilização, no primeiro mundo.</p>
<p>- Vamos lá, um exemplo.</p>
<p>- Paris. Tenho loucura por conhecer a França.</p>
<p>Depois desse papo e alguns outros, passei bom tempo sem ver a moça, alguns anos. Até que, na semana passada, fui a Cumbica esperar um amigo que chegava da Europa e dei de cara com a antiga secretária desembarcando justamente da França.</p>
<p>- Puxa – vazei minha admiração –, pelo jeito você não está chegando de Dracena, certo?</p>
<p>- Certo – ela respondeu – até porque nem cheguei a ir pra lá.</p>
<p>- Quer dizer que o casamento&#8230;</p>
<p>- Pifou. Pifou porque conheci um francês e estou voltando pro Brasil depois de alguns anos.</p>
<p>- Voltando a passeio, naturalmente.</p>
<p>- Não, estou voltando de vez.</p>
<p>- Ué, mas você não conseguiu o que queria? Não escapou de Dracena?</p>
<p>- Na verdade escapei em termos. Pois Pierre, o francês com quem casei, me levou para morar em Saint-Germain-Sur-Val.</p>
<p>- E daí?</p>
<p>- E daí que Saint-Germain-Sur-Val é a Dracena de lá e eu acabei ficando de saco cheio.</p>
<p>- Bom – suspiro – e agora você vai ficar na capital?</p>
<p>- Não – ela mostra os dentes alvos – meu antigo noivo herdou uma grande fortuna, soube que separei e me quer de volta.</p>
<p>- Ah – abro os braços – finalmente, ricos, vocês poderão morar em Paris.</p>
<p>- Não – ela cicia – pôr causa dos negócios dele vamos morar mesmo na Dracena daqui&#8230;</p>
<p style="text-align: center;">      <strong>II</strong></p>
<p style="text-align: left;">Ele chegou e perguntou se eu sabia qual era seu drama, ao que respondi ignorar sequer o meu.</p>
<p>- Pois veja – a figura junta as mãos – eu me apaixonei pela mulher do meu melhor amigo.</p>
<p>Está claro que comentei ser isso o tipo do troço que acontece nas melhores famílias, enquanto o camarada me garantiu que deixara de freqüentar a casa do casal, fugia deles como o diabo da cruz.</p>
<p>- Ótimo, você tinha mais era que se afastar – suspirei.</p>
<p>- Pois é – ele continua – para completar o inferno fiquei sabendo ontem que o meu amigo está com câncer. Terminal, ao que tudo indica. Metástase.</p>
<p>- De fato, é uma barra – baixo a voz.</p>
<p>- Agora, sinta o meu drama: de um lado, o amigo querido com os dias contados; do outro, meu medo de sentir alguma alegria com o vaticínio medonho. Afinal de contas a criatura que amo, em breve, estará viúva&#8230; Mas não sou canalha, ouviu?, posso ser tudo,  menos canalha!</p>
<p>- Bom – solto um pigarro – é mesmo uma situação muito chata.</p>
<p>- Sabe, vou acabar mudando para Rondônia. Não quero bancar o abutre. Meu Deus, rapaz, meu Deus, eu não sou canalha!</p>
<p>O papo não foi muito além disso e o estou contando agora porque aconteceu no fim do ano passado, pouco antes do Natal. E ontem eu vinha andando por uma rua do centro, quando vejo nosso herói acompanhado de uma mulher belíssima. Fui apresentado e, assim que o casal se afastou, chamei o cara. Ele tornou enquanto a moça ficou olhando uma vitrine.</p>
<p>- É a viúva? – ciciei.</p>
<p>- Não, o câncer era rebate falso.</p>
<p>Baixou a voz, para soprar:</p>
<p>- Não deu, puxa, não deu. Pois descobri que o que sou mesmo é um grande canalha&#8230; Torci pela doença, sabia? Torci pela doença&#8230;</p>
<p>Daí pegou a moça pelo braço e sumiu nos desvãos duma galeria.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>De política e ortópteros</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Oct 2010 01:02:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele anda em torno dos 80 anos e mora numa bela e decadente mansão aqui mesmo no meu bairro campineiro. Não apenas o imóvel, como o próprio camarada, é o que resta de uma das antigas famílias da terra. Dizem, e certamente provam, que seu avô paterno foi um dos mais destacados barões do café de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele anda em torno dos 80 anos e mora numa bela e decadente mansão aqui mesmo no meu bairro campineiro. Não apenas o imóvel, como o próprio camarada, é o que resta de uma das antigas famílias da terra.<span id="more-2857"></span> Dizem, e certamente provam, que seu avô paterno foi um dos mais destacados barões do café de quantos habitaram esta maltratada, porém sempre amada cidade. E sua avó materna, de nome quilométrico, até a década de trinta morava em uma impressionante fazenda ali para os lados de Joaquim Egídio.</p>
<p>Bom, mas o camarada a quem me refiro, na verdade uma pessoa que estimo, hoje vive sozinho na casa que a impiedade do tempo corrói. Como possui vários imóveis menores bem alugados, está longe de ser exatamente um duro. Inclusive, em certos fins de semana, costuma receber interessantes visitas femininas, às quais, invariavelmente, serve cálices de vinho do Porto, ou “Port wine”, como gosta de dizer. Eu, sempre que apareço, sou brindado com um Jerez. Por me imaginar um ser algo barroco, sabe que adoro certas coisas que ninguém mais consome. Até imagino que compra a bebida só pra mim.</p>
<p>Assim foi que, dia destes, apareci para um papinho de fim de tarde e o esplêndido campineiro começou a falar a respeito da solidão. Súbito, enquanto passeávamos pelo jardim com flores levemente fenecidas, ele segura no meu braço. Murmura:</p>
<p>- Sabe?, para vencer minhas horas de solidão tenho duas alternativas.</p>
<p>- Quais? – mostrei honesta curiosidade.</p>
<p>- Ou fico sentado na cama apreciando os movimentos das baratas e lagartixas que disputam lugares nas paredes, ou assisto TV.</p>
<p>- Ora – dou um sorriso – você, naturalmente, prefere o segundo passatempo, certo?</p>
<p>- Nem tanto – ele me garante – Aliás, na maioria das vezes, entre a TV e apreciar baratas, prefiro sacar as bichinhas.</p>
<p>Pois muito bem, depois deste papo algo surrealista fiquei pensando que o charmoso quatrocentão resolvera fazer tipo. Afinal, optar por um repelente inseto em vez de um programa na telinha, por pior que seja, é dose. Ah, devo abrir um parênteses para afirmar, até com certa solenidade, que nunca duvidei da sanidade do meu amigo, muito pelo contrário. Depois, vejam bem, um ser humano que agüenta, com estoicismo e classe, a opção de ver e talvez ouvir baratas, merece muito mais minha confiança do que aqueles que garantem que andam por aí vendo, ouvindo e entendendo estrelas. Até porque isso é só para os iniciados. E Olavo Bilac, claro, foi um dos poucos que conseguiram.</p>
<p>Pois é, na semana passada precisei fazer uns troços aqui mesmo pelo bairro quando, sem querer, mas talvez querendo, me vi diante do descorado palacete do meu amigo. Impossibilitado de resistir, lá estava, batendo à porta.</p>
<p>- Ora, ora – ele vem, braços abertos – quem não morre sempre aparece.</p>
<p>Fui entrando e, confesso, constatava, mais uma vez, o quanto gosto daquela suave decomposição, daquele vago cheiro de mofo misturado com lavanda. Até o robe-de-chambre do meu bissexto anfitrião, nobremente fora de moda, conserva finesse e encanto que deveriam ser assunto das, como se dizia antigamente, colunas mundanas. Entramos, sentamos, peguei meu cálice com Jerez e, pelas tantas, enveredei pelo assunto que, dias antes, me fizera pensar.</p>
<p>- E então – pergunto – você está na fase da TV ou das baratas?</p>
<p>- Bem – ele sorri – como a amiga que hospedei uns dias aqui voltou para São Paulo, tornei imediatamente à fase dos insetos.</p>
<p>- E eles, alguma novidade no setor?</p>
<p>- Pois aí é que está. Como percebi que vinham fazendo a mesma coisa, dei uma passada pela TV.</p>
<p>- Ótimo – esfrego as mãos – pois na verdade as baratas me causam arrepios.</p>
<p>- Só que quando foi naquela quinta-feira do mês passado, dia&#8230;Dia&#8230;</p>
<p>- Ué, o que houve na tal quinta-feira, não interessa o dia &#8211; interrompo.</p>
<p>- Pois é, na fatídica quinta-feira voltei, com toda força, às baratas.</p>
<p>- Mas por quê? Sucedeu alguma coisa tão grave?</p>
<p> - Sabe? – ele me encara – Há programas de TV que você até pode assistir inteiro, como um bom filme ou certos documentários da BBC, por exemplo.</p>
<p> - Exato – concordo – principalmente os documentários.</p>
<p> - Há até uns outros programas – ele continua – que mesmo sendo solenes porcarias, você resiste 15 ou 16 minutos.</p>
<p> - Muito bem – cruzo as pernas – um programa chato desses te deu no saco e você voltou aos insetos, foi isso?</p>
<p> - Não, eu voltei a eles por causa de um outro programa, bem específico.</p>
<p> Daí contou que na quinta do mês findo que não sabia o dia, o Jornal Nacional foi interrompido para a exibição do horário político dedicado ao PMDB. Para quem não sabe, trata-se daquela agremiação partidária que, no passado, teve um candidato a governador muito, para usar eufemismo, maroto. Diante da falta de carne nos açougues que ocorreu durante o governo Sarney, ele enganou muito trouxa jurando que, eleito, iria para os pastos laçar quadrúpedes ruminantes para colocar os bifes nas panelas dos necessitados. Foi então que o um dia heróico PMDB, das lutas contra a ditadura, se tornou o Partido do Me Dá um Boi.</p>
<p> - Mas você assistiu ao programa do tal partido até o fim? – retomei o fio do papo.</p>
<p> - Negativo. Vi durante dois minutos, quatro segundos e dois décimos. Então, descobri.</p>
<p> - Descobriu o quê?</p>
<p> - O seguinte – ele termina – se entre o troço do PMDB e as baratas eu preferi ficar com estas, é sinal que os ortópteros onívoros, da ordem dos balatários, naquela noite salvaram não só minha solidão; mas, principalmente, a sanidade da minha consciência política.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Eu, pescador</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 16:54:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[No ancoradouro da Enseada dos Pescadores há uma criançada que, geralmente à tarde, atira as linhas para pegar seus peixes. Desde que retornei à Praia do Camaburu, faz alguns dias, tenho observado a turma. Já na primeira sacada notei um garoto, de uns 15 anos, que nunca perdeu linhada. Pelo menos as que o vi atirar. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No ancoradouro da Enseada dos Pescadores há uma criançada que, geralmente à tarde, atira as linhas para pegar seus peixes. Desde que retornei à Praia do Camaburu, faz alguns dias, tenho observado a turma.<span id="more-2823"></span> Já na primeira sacada notei um garoto, de uns 15 anos, que nunca perdeu linhada. Pelo menos as que o vi atirar. E tão impressionado fiquei com a habilidade do infante que tratei de puxar papo.</p>
<p>- Muito peixe aí? – apontei.</p>
<p>- Dá – ele respondeu, com impressionante poder de síntese, característica do pessoal ao longo do litoral do Pará.</p>
<p>- Pegou o que hoje? – insisto.</p>
<p>- Taí – apontou para um cesto cheio.</p>
<p>Confesso que sempre tive veleidades de ser pescador. Talvez, em outros tempos, até possa ter sido. E agora, em retiro nesta remota região, novamente animado, resolvi usar um equipamento que ganhei no último Natal. Assim, na casa do modesto pescador que me hospeda peguei a tralha e comecei a montá-la. Na tarefa fui surpreendido pelo bom homem, que perguntou:</p>
<p>- O que é isto?</p>
<p>- Bom – mostrei – com este maravilhoso equipamento tenho esperanças de também garantir alguns almoços e jantares para nós.</p>
<p>- E o senhor pesca? – a esposa do rapaz se aproximou.</p>
<p>- Bom – cocei a ponta do nariz – tento. Quem sabe possa até provar que sou bom nisso.</p>
<p>Na verdade tive vontade de me apresentar como um verdadeiro capitão Ahab, aquele que queria matar a Moby Dick; porém concluí que esse poderia ser um perigoso caminho.</p>
<p>Assim, no dia seguinte, tão discretamente quanto possível, peguei o meu fabuloso equipamento sueco e fui para perto do rapazinho de 15 anos que não perdia uma com sua despojada linha enrolada numa enferrujada lata de leite condensado. Fiquei de lado e, no que ele atira seu anzol, zip, atirei o meu, que silvou com sotaque estrangeiro no desenrolar da carretilha. Bom, mas aí é que está. Pois o guri, em coisa de 20, 30 segundos no máximo, tirou da água uma pescada e tanto. Isso enquanto eu, cinco minutos depois, não sentindo fisgada nenhuma, recolhi a linha. Surpresa: nem o mais longínquo ou remoto sinal da isca.</p>
<p>- Ué – apontei para o anzol e perguntei ao meu vizinho – o que foi que houve?</p>
<p>- O peixe comeu – ele se limitou a soprar.</p>
<p>- Mas eu nem senti&#8230;</p>
<p>- É – foi o único comentário que fez com seu já conhecido poder de síntese.</p>
<p>Certo de que o bom pescador não desanima ao primeiro ou segundo revés, caprichei na nova iscada. Enquanto isso o menino trazia para a terra sua terceira corvina, desta vez uma baita, com uns três quilos.</p>
<p>- Você pega isso sempre?</p>
<p>- Pego.</p>
<p>- É só atirar?</p>
<p>- É.</p>
<p>Com um interlocutor tão loquaz, o melhor era não perder tempo. Atirei minha linha pela segunda vez. No que o chumbo bateu na água, o fedelho puxou o seu, exibindo uma nova pescada. Com a tensão, agora, a caminho do crescimento, apertei meu sofisticado caniço com algo maior do que sofreguidão e ânsia. Mal sinto um sinal que me pareceu indicar o momento certo, puxo. Junto com a puxada, lá vem o anzol angustiantemente vazio.</p>
<p>Daí raciocinei, rápido. Peguei uma nota de dez reais e mostrei pro garoto.</p>
<p>- Quer ganhar isto?</p>
<p>Ele arregalou os olhos, em dúvida. Fui em frente:</p>
<p>- Te dou. Você usa a minha linha e eu uso a sua, certo?</p>
<p>Ele nem respondeu, esticou a mão e fizemos a troca. Enquanto eu tentava manipular a lata de leite Moça o sujeitinho já retirava do mar, com meu caniço, um robalo verdadeiramente magnífico. Atirei então a linha dele, que julgava mágica, e esperei. Minutos depois, recolho. Nada.</p>
<p>- Pombas – virei pro carinha – por que você pega e eu não? Será que esses malditos peixes te conhecem?</p>
<p> - Não – veio a resposta, exígua como sempre.</p>
<p> - Então o que há? – abri os braços.</p>
<p> - Bom – levantou – acontece apenas que o senhor não sabe pescar.</p>
<p> Daí pegou sua lata, rodou no calcanhar e se mandou levando meus dez paus. Como me deixou dois peixes, não sei se fez isso por gentileza ou comiseração. O que sei é que ali mesmo, tranqüilamente, fisguei uma das pescadas que ganhei no meu anzol, e me fui. Chegando à casa do pescador que me hospeda, mostrei a ele:</p>
<p> - Veja o que peguei.</p>
<p> - Com esta linha?</p>
<p> - Com esta linha. Que agora é sua.</p>
<p> - O senhor está me dando? Deve ter custado muito caro.</p>
<p> - De fato custou, porém é sua. Afinal, você é o verdadeiro capitão Ahab.</p>
<p> - Capitão quem?</p>
<p> - Ah, um capitão que sabia pescar&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Fascinação</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Sep 2010 22:49:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei quantos filmes Billy Wilder, o diretor austríaco que morreu em 2002, fez com Audrey Hepburn, porém dois tenho certeza: Sabrina e Amor na Tarde, ambos deliciosos, como quase tudo que o falecido criou. Mas as fitas têm algo em comum, pois falam do amor entre coroas e jovenzinhas. No primeiro caso, Humphrey Bogart; no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei quantos filmes Billy Wilder, o diretor austríaco que morreu em 2002, fez com Audrey Hepburn, porém dois tenho certeza: <em>Sabrina</em> e <em>Amor na Tarde</em>, ambos deliciosos, como quase tudo que o falecido criou.<span id="more-2724"></span> Mas as fitas têm algo em comum, pois falam do amor entre coroas e jovenzinhas. No primeiro caso, Humphrey Bogart; no segundo, Gary Cooper. Eu, francamente, gostei mais da história com este, apesar de ser a menos cultuada. Entre outras coisas, minha preferência ocorreu por uma cena inesquecível em que o galã maduro leva a moça para jantar e, no restaurante de luxo, faz um conjuntinho de violinos tocar algo para ela. Simplesmente a linda valsa “Fascinação”.</p>
<p>Estou lembrando disso agora não para fazer o necrológio tardio de Wilder, sobre quem já escreveram tudo que deveria ser escrito. Sim porque os casos de amor entre velhotes e gurias me fascinam, menos por eu ser um sujeito encanecido e mais pelas histórias sobre o tema que testemunhei, ou apenas me contaram. Como o caso do meu amigo Maurício, que baixou em Cannes numa de suas viagens à Europa. Ele que também gostava de Billy Wilder.</p>
<p>Pois se encontrava nosso turista encostado, vendo o mar, num certo fim de tarde na famosa cidade, quando se aproximou uma garota, de seus vinte e poucos anos, e perguntou num francês algo hediondo se ele sabia onde era o restaurante L’Orange d’Or. Como o cara também era meio nulo na língua nativa, porém traçava razoável inglês, largou o clássico “Do you speak”? Foi aí que pintou o susto, pois a infanta, no mesmo capenga francês, respondeu que não, pois era brasileira.</p>
<p>- Ora – os olhos de Maurício se iluminaram – eu também.</p>
<p>- De onde?</p>
<p>- De Campinas, São Paulo.</p>
<p>- De Campinas? Puxa, eu nasci lá, na Vila Teixeira.</p>
<p>- Caramba – ele abre os braços – como esse mundo é pequeno.</p>
<p>- Pois é&#8230; Mas a propósito, o senhor sabe onde fica o L’Orange d’Or?</p>
<p>Ele pediu a informalidade do você no tratamento, respondeu que não, porém seria fácil achar.</p>
<p>- Como? – Ela levantou as sobrancelhas &#8211; Se não falamos francês ?</p>
<p>- A gente chama um táxi. Dá o nome do lugar e pronto.</p>
<p>Assim foi que o maduro cidadão chegou com a beldadezinha a um chique restaurante numa enseada belíssima, meio fora da cidade. Sentaram.</p>
<p>- Finalmente, estamos no L’Orange d’Or – ele faz um círculo no ar com a mão direita.</p>
<p>- Ótimo, aqui é que eu marquei o encontro.</p>
<p>- Com outros brasileiros?</p>
<p>- Não, com meu marido. Ele foi a Paris a trabalho, deve estar chegando logo. Jurou que este é o melhor restaurante da região. Com certeza vai agradecer pela companhia que você me faz.</p>
<p>Aquele “com meu marido” jogou um belo dum balde de água fria nas já nascentes pretensões do viajante. Em todo caso, pediu alguma coisa para beberem e, após uns dois goles, passou a alimentar incipiente esperança de que o avião do camarada poderia atrasar, ou mesmo deixar de sair de Paris em virtude de uma inesperada greve dos funcionários da Air France. Ao mesmo tempo, via a chegada do consorte a qualquer instante, um executivo galã de tenra idade como a moça, talvez uma bem equacionada mistura de Tom Cruise com Brad Pitt.</p>
<p>- Está viajando sozinho? – ele voltou à realidade com a pergunta.</p>
<p>- Sou viúvo.</p>
<p>- Sinto muito.</p>
<p>- Eu também&#8230; – ele gemeu.</p>
<p>Agora, percebendo que no fundo do salão havia um pequeno conjunto de violinos, Maurício recordou do velho filme com Audrey Hepburn. Quando chegasse na quinta dose, certamente pediria para que os rapazes viessem tocar junto à sua mesa. “Fascinação”. Já ouvia os acordes da antiga melodia.</p>
<p>Foi neste instante que, olhando para a porta da entrada que se achava às costas da garota, nosso herói se ergueu, levantando os braços:</p>
<p>- Cláudio, meu velho, que coincidência ver você aqui!</p>
<p>Informa à acompanhante que acabara de entrar um amigo de escola em Campinas, seu colega no Culto à Ciência nos anos cinqüenta.</p>
<p>- Mas é meu marido – ela olhou, atônita.</p>
<p>Ao sentar, Maurício fazia as contas: estava com 60, o recém-chegado era mais velho, devia andar pelos 63.</p>
<p>Como agora sabia também que a guria não era esposa coisa nenhuma, pois conhecia a oficial, tratou de cair fora. Para dar chance a Cláudio, se ele a tivesse, de usar a imaginação. Pois os violinos estavam ali. E, afinal, para amores assim é que foi feita uma valsa como “Fascinação”. Billy Wilder sabia das coisas.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no </em>Correio Popular</p>
<p><em>E uma notinha: sim, foram só dois os  filmes de Billy Wilder com Audrey Hepburn, os dois citados pelo Contente. </em>Sabrina<em> é de 1954, e </em>Amor na Tarde<em>, de 1957. </em></p></blockquote>
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		<item>
		<title>Eles e Amadeus</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 17:44:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Faz tempo, faz muito tempo, fui morar numa velho prédio no bairro Campos Elísios, em São Paulo. Falo velho mas não era, necessariamente, um moquifo, uma cabeça-de-porco. Tinha dignidade e até, digamos, certa aura, certo charme. A entrada, por exemplo, conservava, no piso e nas paredes laterais, belas pedras de mármore. O elevador, amplo, sempre limpo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Faz tempo, faz muito tempo, fui morar numa velho prédio no bairro Campos Elísios, em São Paulo. Falo velho mas não era, necessariamente, um moquifo, uma cabeça-de-porco. Tinha dignidade e até, digamos, certa aura, certo charme.<span id="more-2666"></span> A entrada, por exemplo, conservava, no piso e nas paredes laterais, belas pedras de mármore. O elevador, amplo, sempre limpo, não tinha riscos ou palavrões escritos nas portas. E na entrada social, ostentando sempre uniforme impecável, invariavelmente azul, um porteiro.</p>
<p>Para falar a verdade, só no terceiro ou quarto dia é que descobri que possuía vizinhos. Mas vejam que situação estranha: dos quatro apartamentos do meu andar, além do que eu ocupava apenas um outro abrigava inquilinos. Saquei isso ao chegar em casa, certa noite: do 506 vinha o som da Sonata para Piano, número 11, de Mozart. Pela manhã, fiz perguntinha corriqueira ao porteiro.</p>
<p>- Ah – veio a resposta – só eles moram no 506. Os outros dois apartamentos estão vazios. Precisam de reforma.</p>
<p>“Eles quem”?, poderia ter ido adiante, só que não fui. Afinal, eu os descobrira através de Mozart, o que, sem dúvida, significava uma bela recomendação.</p>
<p>Os vi pela primeira vez num sábado, de manhã. Saía para um plantão na <em>Folha de S. Paulo</em>, onde trabalhava à época e cuja redação ficava pertinho, no instante em que a porta do 506 se abriu despejando para o corredor um senhor. Digo “senhor” pois não poderia considerar exatamente velho alguém que aparentava algo como uns 56. Embromei um pouco na fechadura para esperar a senhora. Valeu a pena, pois levei um agradável susto – surgiu uma linda moça de seus 25, no máximo.</p>
<p>Minha primeira conclusão foi que só poderiam ser pai e filha. Avô e neta? Não, não seria possível. Descemos juntos no elevador e, da jovem, vinha um aroma fino, talvez Channel, perfumista muito badalado na época. Saímos para a rua e, lado a lado, os dois dobraram a esquina.</p>
<p>Nessa noite, ao voltar para casa, ouvi novamente a mesma música, a mesma Sonata. Então, pela primeira vez, me passou pela cabeça que o homem de 56 poderia, muito bem, ser o marido da guria de 25. Marido ou amante.</p>
<p>Daí em diante os dois passaram a fazer parte do meu cotidiano. Geralmente os via juntos, mas, algumas vezes, desci pelo elevador com ela ou com ele, separadamente. Da jovem, nem sequer um olhar recebi, nunca. Do homem, uma ou duas vezes esboçou leve aceno de cabeça. Certa semana, de intenso frio e garoas medonhas, tive vontade de comentar com ele sobre as circunstâncias do tempo. Contudo, fiquei com receio de ouvir um “ &#8230;e o que é que eu tenho a ver com isso”?</p>
<p>Numa gelada manhã de sábado eu tomava um conhaque no boteco da esquina quando o porteiro do prédio entrou. Ofereci uma dose a ele e, no instante em que aceitava, o casal saiu. A pergunta subiu à minha garganta, quente, forte como a bebida. “Quem são”?, tive vontade de soltar. Mas não apenas “quem são”. Na verdade queria detalhes, queria saber se o sujeito de 56 era, de fato, o marido, ou pai, ou o amante da rapariga de 25.</p>
<p>Uns dois meses depois fui fazer uma reportagem no exterior. Demorei duas semanas e, regressando, logo percebi que não vinha nenhum sinal do 506, especialmente a música. Assim como quem não quer nada, fui ao porteiro.</p>
<p>- Os meus vizinhos &#8230; – comecei.</p>
<p>- Mudaram – veio logo a resposta – e me deram umas coisas. Como tem uns troços que não me interessam, se o amigo quiser&#8230;</p>
<p>Demonstrei interesse e acabei levando pra casa alguns livros sobre teatro e cinema e três LPs. Num deles a Sonata para Piano, número 11, de Mozart. Então, mesmo sem perguntar, descobri que eram amantes e tinham separado. Pois só quem separa deixa para trás alguma coisa de Wolfgang Amadeus.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Certa noite, no Alvorada</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 17:16:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando Madre Paulina, a santa brasileira, foi canonizada, beatificada ou algo parecido, em cerimônia no Vaticano, o presidente Fernando Henrique esteve lá. Assistiu à missa solene com a presença do Papa e, algumas pessoas garantem, até comungou. Para ser franco, não sei se Sua Excelência é um recém-convertido, o que configuraria mais um milagre creditado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando Madre Paulina, a santa brasileira, foi canonizada, beatificada ou algo parecido, em cerimônia no Vaticano, o presidente Fernando Henrique esteve lá. Assistiu à missa solene com a presença do Papa e, algumas pessoas garantem, até comungou. <span id="more-2557"></span>Para ser franco, não sei se Sua Excelência é um recém-convertido, o que configuraria mais um milagre creditado à freirinha baiana santificada. O que sei é que houve tempo em que o nosso chefe de Governo perdeu uma eleição porque titubeou na hora em que um jornalista, diante das câmaras de TV, perguntou se ele acreditava em Deus. Imediatamente seu adversário no pleito, o sagaz Jânio Quadros, emérito cobra-criada, deitou e rolou classificando-o de ateu ante a maioria do eleitorado crente.</p>
<p>Durante os anos todos que correram desde então, afinal, sobrou a dúvida se FHC é ou não um servo daquele a quem chamam de Supremo Arquiteto do Universo. O que sei é que o presidente, nos dias que correm, começa a sentir os efeitos da solidão dos poderosos quando se aproxima o fim do mandato. Alguém, talvez o falecido governador Mário Covas, disse certa vez que aos chefões com dias contados nos palácios deixam de servir até cafezinhos. Época, sem dúvida, para a reformulação de conceitos, religiosos ou não.</p>
<p>Pois aconteceu que noite dessas, com dona Ruth em São Paulo para atender a um neto gripado, o marido se viu sozinho no Palácio da Alvorada. Acordou então, no meio da noite, sentindo uma baita fome. Tratou de apertar a campainha que convoca o mordomo a quem pediria um sanduíche, só que ninguém atendeu. Daí chamou, aos berros, porém acabou se dirigindo solitariamente à copa para uma das famosas investidas noturnas à geladeira, coisa que qualquer mortal comum faz. Presidentes, só em fim de mandato, pois a eles, conforme disse acima, repetindo Mário Covas, até o cafezinho é sonegado. Abriu o refrigerador e, pimba, deu de cara com um enorme vazio. Isso, por um desses reflexos que só os analistas explicam, aumentou ainda mais a fome do ilustre morador do Palácio. Que passou a fuçar armários aqui e ali, acabando por suspirar ante a expectativa de encontrar já não diria um pão, porém uma reles, uma simples, uma franciscana côdea.</p>
<p> - Santo Deus! – arfou ao topar apenas com um envelope de sopa, assim mesmo pela metade.</p>
<p> Foi no instante em que a frase ecoou pelo ambiente que ocorreu um clarão, seguido de névoa. Assim que ela se dissipa FHC vê, diante de si, um homem de longas barbas brancas, vestindo túnica da mesma cor. A sorrir, com enorme aura de bondade.</p>
<p> - Me chamou, filho?</p>
<p> - Não me diga – o marido de dona Ruth, as mãos trêmulas, aponta – não me diga que&#8230;</p>
<p> - Sim – a voz límpida, clara, interrompe – sou eu mesmo.</p>
<p> - O Senhor? Em pessoa? O Senhor, em carne e osso?</p>
<p> - Eu não diria que esta é a minha constituição física&#8230; Mas se você quiser, em caso de dúvida, bancar o São Tomé&#8230;</p>
<p> - Não, não – o chefe do dr. Malan ergue as mãos – não&#8230; Só queria saber a que devo a &#8230;</p>
<p> - Não deseja mesmo bancar o São Tomé? – a aparição insiste.</p>
<p> - Ora – Sua Excelência começa a se recompor – talvez eu não seja digno de tocar&#8230;</p>
<p> - Filho – o velho barbudo puxa a cadeira e senta – devo lhe dizer que vi sua performance, há dias, no Vaticano. Fiquei imensamente satisfeito, porém não pude deixar de lembrar de suas declarações naquele programa de TV, há tempos.</p>
<p> - Lembrou? Bom, mas depois do que presenciou no Vaticano certamente o Senhor&#8230; O Senhor agora sabe que não preciso bancar o São Tomé.</p>
<p> - Só que, no fundo no fundo, eu também sei, meu filho, outras coisas.</p>
<p> - Sabe?, Senhor, o que? Não quero, claro, duvidar de sua palavra.</p>
<p> - Eu sei, filho, o que pensa quando anda dizendo, junto ao povaréu, que acredita em mim. E também o que pulsava em sua cabeça no recente episódio do Vaticano. Foi por isso que resolvi fazer esta visita. Aproveitar sua atual solidão, que pode ser tão proveitosa, de fim de governo.</p>
<p> - Mas, Senhor – FHC suspira – então lhe peço&#8230; Espere, deixe que ajoelhe&#8230;</p>
<p> - Não, não – a visão o contém. – Afinal, estou diante do presidente da República.</p>
<p> - Pois é, Senhor. Então lhe peço perdão. Afinal, certamente sabe que, naquele ano na TV, o sacana do jornalista me armou uma armadilha, não foi? Perguntar, ali, se eu acreditava&#8230;</p>
<p> Como o presidente, neste instante, titubeou, o ser de barbas brancas o encara:</p>
<p> - Acreditava em que, filho?</p>
<p> - Se eu acreditava em&#8230; Em&#8230;</p>
<p> - Em que, filho? Está com medo de dizer?</p>
<p> - Não, Senhor, não. Se eu acreditava em Deus!</p>
<p> Neste momento, como se estivesse num palco dirigido por um grande diretor, o visitante levanta, vai até a janela, onde fica olhando para o alto, no rumo das estrelas. Súbito, se volta:</p>
<p> - Percebo que você ainda sofre algumas resistências, mas isso não tem muita importância.</p>
<p> - Como resistência? Não, não tenho mais nenhuma.</p>
<p> - Nem para pronunciar meu nome?</p>
<p> - Talvez eu precise me acostumar. O que agora não vai ser tão difícil, pois estou diante de realidade insofismável.</p>
<p> - Tudo bem, presidente, porém não esqueça.</p>
<p> - Do que?</p>
<p> - Além de eu ser ubíquo, como você, que é um homem culto, sabe, também leio pensamentos.</p>
<p> - É como lhe disse, Senhor, eu o tenho em minha frente. Porém sou humano e, apesar de ter sido criado por&#8230; Por&#8230;</p>
<p> - Por quem?</p>
<p> - Por um ser divino, apesar de ter sido criado por um ser divino, apesar dos anos de descrença, apesar de estar em Sua frente, preciso de tempo.</p>
<p> - E se eu, agora, fizer um milagre?</p>
<p> - Transformar água em vinho? Se assim for, sugiro um Chateau Mouton Rothschild, safra de ano ímpar.</p>
<p> - Não, isso aí todo mundo já sabe, é meu milagre mais divulgado.</p>
<p> Olhando em volta, a aparição aponta:</p>
<p> - E se eu pegasse esse resto de sopa que está ali, naquele pacotinho, e o transformasse num banquete? Afinal, como sei de tudo, está claro que sei que você está com uma baita fome.</p>
<p> Dito isto o ancião estala os dedos e logo as mais variadas iguarias aparecem arrumadas sobre a mesa, com esmero. Havia de tudo, desde o simples pastel do Voga até especialidades como Sole de crabbe à recamier e Pato no tucupí. Pegando uma sólida coxa de faisão e arrancando, com forte dentada, um naco, o presidente fala, mastigando:</p>
<p> - Nem precisava tanto para eu acreditar.</p>
<p> - Já lhe disse que isso, agora, tem pouca importância.</p>
<p> - Para mim tem muita, eu acredito, sim, e quero que todo mundo saiba que acredito, sim. Estou até pensando em convocar uma rede obrigatória de rádio e TV para comunicar ao povo brasileiro e ao mundo que acredito, sim.</p>
<p> - Não precisa tanto, filho. Mas acredita em que?</p>
<p> - Em Deus – FHC não vacila. – Eu acredito em Deus!</p>
<p> - Tudo bem – a visão murmura, se desfazendo no ar – eu é que não acredito em Fernando Henrique Cardoso&#8230;</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Mr. Davenport</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Aug 2010 02:39:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Malcolm Davenport, marinheiro inglês a caminho do Caribe, naufragou no Atlântico próximo da foz do Rio Amazonas no comecinho do século passado. Bom nadador, foi o único a se salvar, ajudado por precário salva-vidas a que se agarrou com unhas e dentes. Afinal, como a reencarnação de Robinson Crusoé, alcançou, exausto, a praia de Paquara, no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Malcolm Davenport, marinheiro inglês a caminho do Caribe, naufragou no Atlântico próximo da foz do Rio Amazonas no comecinho do século passado. Bom nadador, foi o único a se salvar, ajudado por precário salva-vidas a que se agarrou com unhas e dentes.<span id="more-2454"></span> Afinal, como a reencarnação de Robinson Crusoé, alcançou, exausto, a praia de Paquara, no litoral do Pará. Aí termina a realidade e começa a lenda.</p>
<p>Paquara nem chega a ser vila, é apenas um amontoado de casas, algumas de madeira, outras de palha, três ou quatro de alvenaria. Resiste em torno de um farol, seus habitantes são todos pescadores e hoje, quando já entramos no século XXI, permanece do mesmo jeito como há cem anos. Ali até o dinheiro que circula é, digamos assim, exíguo. Tudo funciona na base da troca, o pescador fazendo escambo com o agricultor que produz farinha, esse repassando mandioca e recebendo ovos e galinhas e assim por diante. Não há luz elétrica e no local existe apenas uma geladeira, movida a querosene, de resto como o farol. Para mim é uma espécie de Brigadoon tropical que emerge de vez em quando das brumas do tempo. Pedro, o faroleiro, é meu amigo. Sempre que posso vou visitá-lo.</p>
<p>A primeira pista que tive de Malcolm foi uma libra esterlina de prata, das que circulavam no final do século XIX e começos do XX. Eu a vi entronizada no colo de uma nativa pendendo de uma corrente, destas de feira.</p>
<p>- Bonita – comentei, apontando.</p>
<p>- Era da minha avó.</p>
<p>- E quem deu a ela?</p>
<p>- Ah, foi o homem que voava.</p>
<p>- O homem que voava? – levantei as sobrancelhas.</p>
<p>Mais não perguntei, pois a guria se foi.</p>
<p>Pedro, o faroleiro meu amigo, é um sujeito de não irremediáveis silêncios. Como se fosse uma sina de todos os seus colegas de profissão, também fuma cachimbo, sabe tirar boas notas de uma pequena sanfona, e me transmite a certeza de que conversa com as aves e todos os peixes do mar. Mora em Paquara há tempos, não aparenta os 70 e alguns anos que tem até porque, em sua cabeça, não há um único ou remoto cabelo branco. Não, nunca pintou. Nem teria como, naqueles ermos.</p>
<p>- O que você sabe do homem que voava? – perguntei na mesma noite.</p>
<p>- Bom – não vacilou –, dizem que ele voa ainda.</p>
<p>- Você já viu?</p>
<p>- Não, as mulheres é que vêem. Juram que em certas noites ele passa diante do facho de luz do farol.</p>
<p>- E tem asas?</p>
<p>- Enormes, como as de um anjo. E os olhos são vermelhos, como uma ponta de cigarro no escuro no instante em que você dá a tragada.</p>
<p>Daí detalhou o que sabia do passado. O homem que voava passava em certos momentos de pouca lua, diante do facho do farol, pegava as moças em vôos rasantes e, batendo as asas, sumia com elas em direção às dunas. Quando as meninas voltavam vinham, de alguma forma, encantadas. Nas noites mais escuras todas as que já tinham sido levadas uma vez ficavam na espera. E ele vinha, com o seu ruflar enorme, os olhos acesos como um orvalho de sangue, a escolhida ia, e as que ficavam esperavam; o barulho das asas batendo, para elas, era música. Como os fortes ventos de outubro uivando entre os ajuruzeiros das dunas.</p>
<p>No dia seguinte, cedo, vejo novamente a menina com a libra esterlina pousada no colo. Pergunto da avó, fico sabendo que vivia e morava num casebre próximo do areal imenso. Com bem mais de 90 anos, preferia estar sozinha. Fui lá.</p>
<p>Agora sim, com jeito, com tato, colhi tudo sobre o inglês que voava. Ganhando confiança, consegui colocar as mãos sobre o diário que ele deixou. Li, com todas as letras: “Meu nome é Malcolm Davenport, nasci em Stratford-Upon-Avon, a terra de Shakespeare, Inglaterra, em 10 de janeiro de 1880, e naufraguei neste litoral em 25 de junho de 1905”. Viveu entre as dunas até o final dos anos 40 do século passado, permanência que desfrutou por livre e espontânea vontade. Foi pescador e criador de cabras. Se realmente voava, nada diz sobre isso.</p>
<p>- A sepultura dele é para aqueles lados – a velha aponta no rumo do mar.</p>
<p>Digo que gostaria de ir lá e ela pede que volte no dia seguinte.</p>
<p>- É o aniversário da primeira vez que ele me levou – justifica.</p>
<p>Ao sair para o pequeno aglomerado de casas que formam Paquara, pela primeira vez percebi entre as pessoas que moram no local algumas francamente louras, três ou quatro de olhos incrivelmente claros. À noite fiquei horas atento aos fachos do farol à espera de uma sombra, ou um ruflar de asas. Mas fazia lua e o inglês, segundo garantia a tradição, não voava nas noites prateadas que batiam sobre o mar e as dunas.</p>
<p>         Pela manhã volto ao casebre da mulher, e de lá saímos para o local da sepultura. Atravessamos pequeno vale entre as dunas, depois subimos até o topo de um morrinho que se debruça sobre as ondas. Ali, sob um copado cajueiro, em chão relvado, o túmulo com uma cruz singela. A velha ajoelha e eu fico olhando, na luz batida pelos ventos. Súbito adiante, sobre uma pedra, pousa uma imensa, uma impressionante gaivota de asas pontudas como as de um albatroz. Durante os instantes em que a dona rezou, permaneceu na cena com o bico curvo levemente cinza. Quando a fulana levantou, a ave primeiro abriu as asas. Depois se ergueu contra o vento, até ser tragada pelo azul. Juro por tudo quanto é mais sagrado, só poderia ser ele. Por Deus, era ele, na síntese absolutamente perfeita da manhã.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Favre e o sonho</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/favre-e-o-sonho/</link>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 19:07:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[ A grande verdade é que nós, os seres humanos, fomos feitos para a fábula. Poucos conseguem se inserir nela, alcançá-la, porém todos buscam, e a prova mais evidente disso é o imenso sucesso das dezenas de loterias que a Caixa Econômica Federal explora. Para mim, o retrato de uma das fábulas mais, digamos, fabulosas dos tempos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> A grande verdade é que nós, os seres humanos, fomos feitos para a fábula. Poucos conseguem se inserir nela, alcançá-la, porém todos buscam, e a prova mais evidente disso é o imenso sucesso das dezenas de loterias que a Caixa Econômica Federal explora.<span id="more-2418"></span> Para mim, o retrato de uma das fábulas mais, digamos, fabulosas dos tempos modernos é o filme <em>My Fair Lady</em>, com Audrey Hepburn e Rex Harrison. A saga da moça amplamente discriminada na sua condição de pobre encantou a quantos viram a fita. E afinal no momento em que o bem posto professor de boa estampa rasteja pela jovem, todas as mulheres da platéia se sentem magnetizadas por vê-la entrar no mundo da fantasia; os homens torcem na esperança de que, algum dia, poderão achar o caminho.</p>
<p>Falo dessas breves coisas apenas para exalar não meu espanto, mas minha admiração por saber que há em São Paulo um camarada que chegou lá. Em situação inversa à de Eliza Doolittle, é claro – um Pigmalião inserido pela Galatéia. E que por isso se, de um lado, vem sendo discriminado por parte da imprensa, por outro tem fãs de carteirinha como eu, que vêem nele a realização do ideal de todos os homens do mundo.</p>
<p>Minha solidariedade a Luis Favre não é apenas por ele ser hoje (<em>o texto é de 2003</em>) o “primeiro damo” de São Paulo, agüentando a carga de inveja que isso acarreta. Tornou-se o eleito por merecimento, benzido pela persistência, uma vez que no seu lindo casório numa chácara perto de Campinas exercitou, pela quinta vez, seu afã de entrar, pela porta da frente, com as mãos nas mãos de uma bela mulher, no fascinante universo da fábula. E com que competência, amigos, com que competência! Afinal, conquistou não apenas a dama mais poderosa da maior e mais rica cidade brasileira, como fez a nubente transpirar de felicidade, colorida e linda até nas fotos em preto e branco. O amor de Marta Suplicy é um símbolo e, mais do que isso, uma perfumada chuva de esperança. Ela hoje tem nos olhos as luzes meigas, diáfanas, etéreas, maravilhosamente presentes em certas manhãs. E os luares que certamente esparge nas noites são cravejados com belas e fulgurantes estrelas. Diamantes. A prefeita paulistana é a tradução cintilante dos puríssimos diamantes azuis.</p>
<p>Ora, amigos, ao conseguir isso, ou se tornar cúmplice de tal cometimento, monsieur Favre mostra para todos os homens os caminhos do possível. Na fábula em que ele navega com a vela a todo pano, teve como padrinho de casamento o próprio presidente da República, foi abraçado e beijado por ministras, ministros, milionários, intelectuais e agora, além da esposa lindíssima, ainda detém, num país onde o desemprego anda pelos 13 por cento da população, um cargo com o impressionante salário de R$ 20 mil. Dado a ele por ordem expressa do chefe da Nação. Dizem as más línguas que sua função será não fazer nada. Deslavada intriga, pois tenho certeza que trabalhará como um camelo. Ou, tal qual diria a veterana socialite Carmem Mayrink Veiga, “como uma negra&#8230;”</p>
<p>É por isso que fico francamente irritado quando leio notas maldosas em colunas de jornais dando agulhadinhas em nosso personagem. Ainda ontem, revendo as fotos do belíssimo casamento, tornei a repetir a mim mesmo que milhões de brasileiros gostariam de ser Luis Favre. Inclusive eu&#8230;</p>
<blockquote><p>          <em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>Concerto para clarineta</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 16:44:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre que chove à noite como hoje aqui em Campinas, uma chuva mítica e de lentos espantos, lembro de Lars Bjenikold. Imagine uma pequena cidade perdida no litoral do Pará, onde a estação das águas provoca dias de umidade tão intensa que as gotas de vapor chegam a escorrer em nossa própria alma. Pois ali [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que chove à noite como hoje aqui em Campinas, uma chuva mítica e de lentos espantos, lembro de Lars Bjenikold. Imagine uma pequena cidade perdida no litoral do Pará, onde a estação das águas provoca dias de umidade tão intensa que as gotas de vapor chegam a escorrer em nossa própria alma. Pois ali eu tinha uma casinha, franciscana e simpática, há tempos.<span id="more-2332"></span></p>
<p>Por que não em Ubatuba ou Ilhabela?, hão de perguntar os mais afoitos, uma vez que moro em São Paulo. Respondo: é que naquele pedaço da Amazônia, ao contrário dos invernos chuvosos, os verões são de uma luminosidade estonteante e o céu, escandalosamente azul, só é de vez em quando fendido pelos enormes flocos (de algodão) de nuvens alvíssimas. E a abóbada noturna se apresenta crivada de tantas estrelas e é tão clara que, em certas ocasiões, a silhueta da Via Láctea se desenha. Foi o que Olavo Bilac deve ter visto, em algum outro lugar, quando escreveu o seu famoso soneto. Aquele do ora, direis, ouvir estrelas etc. etc.</p>
<p>Sim, mas eu dizia que era inverno, a estação das águas, e saí, uma noite, munido de exíguo guarda-chuvas, em busca da birosca de um cara conhecido como Ceará, no fim da remota praia do Maçarico, para curtir uma sopinha de caranguejos, que a mulher do bom homem preparava com engenho e arte. Ao me aproximar, no deserto não só de pessoas, mas, até, de fantasmas, escutei, vindo da biboca, o Concerto para Clarineta, de Mozart. Está claro que parei, espantado.</p>
<p>Assim é que conheci Lars Bjenikold, o ornitólogo dinamarquês. Ele havia chegado ao litoral alguns dias antes de mim e, à noitinha, ia para a barraca do Ceará, sempre deserta então, comer peixe lendo um livro posto ao lado do prato. De quebra levava uma fita com o Concerto que eu ouvira, e que pedia pro barraqueiro colocar no sonzinho capenga, porém suficiente.</p>
<p>O gringo se encontrava na região fazendo pesquisa sobre certo pássaro, porém não um pássaro qualquer. Buscava, para fotografar e gravar o canto, um tipo de sabiá que só existia nos mangues daquela área, ou alguns outros que se estenderiam até o litoral do Maranhão. Na terceira noite de papo, em que nos entendíamos através de um inglês e um portunhol medonhos, o cientista me convidou:</p>
<p>- Venha conosco, já localizamos o passarinho.</p>
<p>O “conosco”, constatei no dia seguinte, era Ingrid, a esposa sueca de Lars. Loura, lindíssima, corpo de negra calipígia, acumulava as funções de fotógrafa. Incorporei-me ao duo como uma espécie de ajudante para carregar tralhas. Com o casal passei a me enfiar nos mangues e caminhos tortuosos, em certas manhãs tão derretidas sob chuvas que acabei perguntando a Lars qual a razão de não ter optado pelo verão, a estação mais seca.</p>
<p>- É que no inverno – explicou – os sabiás se tornam mais visíveis. Acasalam então, e praticamente só nesta época cantam.</p>
<p>Quando Lars e Ingrid partiram, após quase um mês de convivência comigo, senti falta deles. Principalmente dos papos que tinham se tornado a três na birosca do Ceará. Voltei para Campinas antes da data que marcara.</p>
<p>Mas foi no verão amazônico, seis meses depois, que, ao chegar à minha casinha no então ainda poupado litoral, recebi, do caseiro, um pacote. Ao verificar, pelos selos, que vinha de Estocolmo, abri com avidez. Dei então de cara com um belo livro, publicado anos antes por Lars Bjenilkold sob o patrocínio da Real Academia da Dinamarca, intitulado <em>Pássaros da Nicarágua</em>. Que ficou comigo durante algum tempo, porém, ao final, teve melhor destino: o doei à bela professora campineira Raquel de Almeida Prado que, na época, organizava, junto com o falecido escritor Darcy Ribeiro (ele se apaixonou pela obra de Lars), a Biblioteca do recém inaugurado Memorial da América Latina, em São Paulo.</p>
<p>Ah, sim, algum volume sobre os tais sabiás que ajudei a procurar naquela parte do litoral atlântico do Pará, nunca recebi. Contudo, junto com o que chegou no verão tão especial, encontrei também um pacotinho com uma fita cassete e um bilhete de Ingrid. Era o “Concerto para Clarineta”, de Mozart. Que escutava ainda há pouco, nesta noite de chuva e um razoável frio ao qual caberia, até, uma lareira. Fundo musical para as boas lembranças do nunca mais.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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		<title>A moça da tarde</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jul 2010 15:26:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antonio Contente]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi então que, meio na fossa, resolvi, naquele verão, ir para uma cidadezinha na região de Serra Negra para procurar, como se dizia antigamente, meu eixo. Instalei-me numa pousadinha barata e, em poucos dias, estava relativamente bem inserido num pequeno grupo que, todo fim de tarde, ia tomar seus drinques no Ponto Chic.Eram cinco ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi então que, meio na fossa, resolvi, naquele verão, ir para uma cidadezinha na região de Serra Negra para procurar, como se dizia antigamente, meu eixo. Instalei-me numa pousadinha barata e, em poucos dias, estava relativamente bem inserido num pequeno grupo que, todo fim de tarde, ia tomar seus drinques no Ponto Chic.<span id="more-2289"></span>Eram cinco ou seis aposentados, simpaticíssimos, que adoravam comentar sobre as fofocas do lugarejo. O que me ajudou a entrar para o grupo foi que dois dos camaradas eram leitores da coluna diária que eu então escrevia num jornal da capital, com um desenho da minha cara feito pelo lendário e genial Otávio junto ao meu nome. Com as línguas sempre mais soltas depois da terceira pinga, falavam mal do prefeito, desancavam o juiz e faziam sérias restrições ao pároco. Nada mais típico.</p>
<p>Foi na terceira tarde do convívio esplêndido que vi, pela primeira vez, a moça. Ela vinha vindo com um vestido fresco sobre o corpo exato, os cabelos curtos tocados pela brisa e um perfil, no mínimo, de madona. Percebendo que todos se calaram quando passou, mas sentindo que de cada olhar saia uma chispa de desejo, indaguei, meio a medo:</p>
<p>- Quem é?</p>
<p>- Florinha, a mulher do boticário.</p>
<p>A cena se repetiu nas tardes seguintes, e eu também acabei tomado pela presença da moça, a ponto de, numa das vezes, ter sentido o perfume que vinha dela. Rosas. Ela, pura e simplesmente, exalava aroma de rosas. Ao contrário da canção de Cartola roubava, no bom sentido, o cheiro das pétalas.</p>
<p>- Florinha&#8230; &#8211; suspirei, um dia.</p>
<p>- Cuidado, é a mulher do boticário.</p>
<p>Na continuação fui captando, em frases soltas da turma, algumas informações. Uma delas: o marido curtia pela esposa uma dessas paixões arrebatadoras. E ela por ele, segundo todos imaginavam, pois seu Fadul, o tal boticário, não só tinha uma boa estampa, como também era uma espécie de paradigma da sociedade local, pela seriedade etc. etc.. Um dia, embalado pela terceira pinguinha, caí na besteira de perguntar se Florinha nunca&#8230; Imediatamente fui fuzilado pelo olhar de todos.</p>
<p>- Seriíssima – um gemeu.</p>
<p>- Mais do que uma santa – outro acrescentou.</p>
<p>Numa sexta-feira parti para um pesqueiro estrada acima, quase na divisa com Minas. Ao regressar, com meu eixo já devidamente em ordem, desabei no Ponto Chic para me despedir da turma. Fui então informado, pelo dono do bar, que há dois dias eles não apareciam. Indaguei se havia algum problema, e a resposta não poderia ter sido mais objetiva:</p>
<p>- Dona Florinha.</p>
<p>- O que aconteceu?</p>
<p>- Ela fugiu com um viajante que estava hospedado no Hotel Marechal.</p>
<p>- E quem era o galã?</p>
<p>- Um vendedor. Um tal de Fernando&#8230;</p>
<p>O curioso foi que, com bilhete comprado para voltar a Campinas na manhã seguinte, não consegui faze-lo. Algo dentro de mim inflava dizendo que deveria esperar a rapaziada do boteco reaparecer. Tanto que, no fim daquela tarde, me plantei na cadeira de sempre, junto da porta. Fiquei sozinho, porém tinha a impressão que, a qualquer momento, a moça da tarde reapareceria com o vestidinho leve sobre o corpo lindo, deixando no ar o impressionante cheiro de rosas que, admiti, deveriam ser necessariamente vermelhas.</p>
<p>Finalmente, no terceiro dia, meus camaradinhas reapareceram, cada um com a expressão mais lúgubre do que o outro. E enquanto ali estivemos, até o começo da noite, não ocorreu o menor ou mais exíguo comentário sobre a fuga da maravilhosa mulher do boticário. Porém, em todo o mundo, então, não havia ninguém que se pudesse sentir mais corneado do que todos nós. Voltei para Campinas com o eixo novamente fora do lugar.</p>
<blockquote><p><em>Esta crônica foi originalmente publicada no</em> Correio Popular</p></blockquote>
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