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	<title>50 Anos de Textos &#187; Anélio Barreto</title>
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	<description>Por Sérgio Vaz e Amigos</description>
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		<title>&#8220;Deus existe!&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Dec 2011 22:35:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, domingo, fui, como faço todos os dias, beber alguma coisa em um determinado boteco no Guarujá. É um boteco do qual gosto muito, ao contrário de minha mulher, que não vê ali atração alguma (acho que as mulheres não costumam ver nada de bom nos botecos em que seus maridos bebem, e eventualmente ficam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, domingo, fui, como faço todos os dias, beber alguma coisa em um determinado boteco no Guarujá. É um boteco do qual gosto muito, ao contrário de minha mulher, que não vê ali atração alguma (acho que as mulheres não costumam ver nada de bom nos botecos em que seus maridos bebem, e eventualmente ficam bêbados).<span id="more-5984"></span> Existe há uns 50 anos, fica na esquina de Mário Ribeiro com Petrópolis, chama-se Pérola do Atlântico (o Guarujá tem também esse apelido, e sabe-se lá – eu não sei – quem o usou primeiro).</p>
<p>Tem mesas na calçada, mas também um toldo, o que obriga os fumantes a ocupar umas mesinhas junto à rua, descobertas.</p>
<p>Levava comigo a <em>Ilustrada</em>, da <em>Folha</em>. E, lendo as matérias, tomei um susto ao ver um anúncio de página inteira em que estava uma garota excepcionalmente linda. Vestia um biquíni, tinha um dos joelhos (o direito), apoiado em uma cadeira de praia, ou outra cadeira qualquer. Maravilhosa, dava de dez a zero em qualquer top model que vi recentemente.</p>
<p>Não me contive e levei o jornal até o balcão para mostrá-lo ao Baixinho, o barman que costuma me atender. “Isso é que é mulher”, disse a ele, essa ênfase certamente impulsionada pela caipirinha que já havia bebido. O Baixinho arregalou os olhos e abriu a boca. Um outro freguês, que estava ao meu lado no balcão, olhou também e disse alguma coisa sobre umas revistas que tinha na casa dele e que, de vez em quando, a mulher descobria.</p>
<p>Bem, voltei à minha mesa. Chegaram ali três senhores que perguntaram se a mesa ao lado estava desocupada (o espaço entre as mesas é pequeno). Sim, respondi, e eles se sentaram e pediram cervejas. Continuei a ler a Ilustrada.</p>
<p>Em um instante de distração, vi que uma garota passava por nós, era bonita, e tinha um traseiro notável e ondulante.</p>
<p>“Deus existe!”, disse o senhor mais próximo a mim na mesa ao lado, olhos cravados na garota. Sorri, mas ele não se conteve e dirigiu-se a mim, olhos ainda naquele traseiro.</p>
<p>“O senhor não acredita que Deus existe?”</p>
<p>“Sim”, respondi.</p>
<p>E então tive um estalo, ou seja isso o que quer que seja.</p>
<p>“E tenho uma prova bem aqui”, acrescentei.</p>
<p>Abri a <em>Ilustrada</em> naquela página da modelo sensacional e a escancarei para ele.</p>
<p>Não disse nada. Pegou o jornal, abriu os braços para melhor expor a página aos seus dois companheiros. Sentenciou:</p>
<p>“Deus existe.”</p>
<blockquote><p><em>11 de dezembro de 2011</em></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O foca chega à redação com o furo histórico</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Dec 2011 19:21:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Olá. Em um dos últimos fins de semana, conversando com amigos em um dos botecos aqui do Guarujá (na verdade, um restaurante, mas, vá lá, um boteco), contei uma aventura que me aconteceu logo no início de minha passagem pelo Jornal da Tarde, e que até então havia permanecido quieta aqui comigo (não sei por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olá. Em um dos últimos fins de semana, conversando com amigos em um dos botecos aqui do Guarujá (na verdade, um restaurante, mas, vá lá, um boteco), contei uma aventura que me aconteceu logo no início de minha passagem pelo <em>Jornal da Tarde</em>, e que até então havia permanecido quieta aqui comigo (não sei por quê). Bem, esses amigos exigiram que eu colocasse a história neste site.<span id="more-5957"></span></p>
<p>Estava no <em>JT</em> havia dois meses – um foca perfeito e completo, naquele maio de 1968, quando houve um fato importante: no dia 26, ou seja, na véspera, tinha acontecido o primeiro transplante de coração não só no Brasil, mas na América Latina.</p>
<p>E o que me ordenava o chefe de reportagem? Que identificasse o doador. Tudo o que se sabia, até ali, é que um homem fora atropelado em uma avenida na periferia de São Paulo, e que seu coração havia sido utilizado no transplante. Fui até aquela avenida, em frente ao número que constava no boletim de ocorrência como referência do atropelamento. E comecei a bater pernas.</p>
<p>Naquele tempo, e estamos falando de 43, quase 44 anos atrás, repórteres batiam pernas. Hoje não: eles batem teclas no Google, ou nos celulares. A pergunta, óbvia, era se alguém sabia quem era o atropelado da noite passada, ou madrugada. Ninguém.</p>
<p>Até que cheguei a uma oficina, não me lembro se mecânica ou de outro tipo, em que o encarregado me respondeu: “Quem foi não sei, mas temos um funcionário aqui que saiu ontem e não voltou até agora”. Bem, o episódio não me vem suficientemente claro hoje, mas o fato é que fui conduzido até o quarto do tal funcionário (ele tinha o seu quarto na oficina). Procurei por tudo – na verdade, hoje não imagino o que estava procurando – ajudado, com certeza, pelo fotógrafo que me acompanhava, cujo nome e figura não me ocorrem.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzzjt1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5960" title="zzzjt1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2011/12/zzzjt1-194x300.jpg" alt="" width="194" height="300" /></a>A única coisa que me chamou a atenção foi uma chave encontrada lá e que o encarregado esclareceu que era a chave do quarto. Não sei por que, realmente não me ocorre o motivo, perguntei se poderia levar a chave. O rapaz concordou.</p>
<p>Depois de percorrida toda a redondeza, o que me restava? Ir ao Hospital das Clínicas, onde havia sido feito o transplante, e tentar saber se alguma informação nova identificava o doador. Procurei dona Clarisse Ferrarini, a enfermeira-chefe, uma das principais fontes de informação de Ewaldo Dantas e Valéria Wally.</p>
<p>Naquela época, dias atrás, Ewaldo Dantas, um dos melhores repórteres brasileiros, estivera no Hospital das Clínicas de São Paulo visitando um amigo. E&#8230; Abro aqui um enorme parêntese, desculpem. Ewaldo tem amigos íntimos, e repito, tem amigos íntimos, em todos os lugares. Naquela época tinha uma casa em Ubatuba, ou Caraguatatuba, e me convidou para acompanhá-lo em um fim de semana. Aceitei e perguntei: quanto tempo de viagem até lá? E ele: “Depende, com boteco ou sem boteco?”. Fomos. Paramos nos botecos, é claro. E Ewaldo era amigo íntimo de todos os donos dos botecos. Parêntese encerrado. Ewaldo visitou um amigo no HC e ficou sabendo de um iminente transplante de coração, que seria o primeiro na América Latina.</p>
<p>Voltando ao jornal, ele se reuniu com a chefia, contou o que estava para acontecer, e imediatamente (e secretamente) foi montada uma equipe para acompanhar tudo de ali em diante. Já se sabia quem seria o transplantado: o lavrador João Ferreira da Cunha, de apelido João Boiadeiro. Um repórter, Dirceu Soares, se a memória não me trai, foi enviado para a cidade natal dele para reconstituir sua história. E, não menos importante, a repórter especial Valéria Wally foi escalada para trabalhar diretamente com Ewaldo. Não deu outra: feito o transplante, o Jornal da Tarde lançou uma edição extra, a primeira de sua história, e conquistou o Prêmio Esso de jornalismo daquele ano. Eram outros tempos.</p>
<p>Voltando à minha conversa com dona Clarisse, a enfermeira-chefe do HC, tentando identificar o doador: nada, nenhuma informação a mais, nenhum documento nos bolsos do homem. Havia apenas um objeto com ele, uma chave. Imediatamente peguei a chave que trazia comigo e perguntei a Clarisse: “A senhora poderia fazer a gentileza de comparar esta chave com a que ele tinha?”. “Posso”, ela respondeu. Alguns tensos momentos depois ela voltou e anunciou: eram exatamente iguais.</p>
<p>Não me lembro com precisão o que fiz a seguir, mas acho que voltei como um foguete para aquela oficina na periferia e, quando cheguei ao <em>Jornal da Tarde</em>, pouco mais tarde, levava o nome completo do doador – Luís Ferreira Barros, e uma foto 3&#215;4 dele. Estavam na primeira página do <em>JT</em> do dia seguinte, com a foto ocupando todo o espaço abaixo da manchete.</p>
<blockquote><p><em>Dezembro de 2011</em></p></blockquote>
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		<title>Historinhas de redação (4): Modorra na delegacia</title>
		<link>http://50anosdetextos.com.br/2010/historinhas-de-redacao-4-modorra-na-delegacia/</link>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 19:09:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias de jornalistas]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta é uma historinha que não se passou na redação, mas ali perto, no 40º Distrito Policial. Mas seu personagem é do Jornal da Tarde, e também delegado no 40º: Hélio Cabral. Está o Hélio em um plantão brabo na delegacia. Madrugada de sábado, nada acontece, a mesmice o aborrecendo. Entra uma pessoa. Um crioulo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta é uma historinha que não se passou na redação, mas ali perto, no 40º Distrito Policial. Mas seu personagem é do <em>Jornal da Tarde</em>, e também delegado no 40º: Hélio Cabral.<span id="more-2548"></span></p>
<p>Está o Hélio em um plantão brabo na delegacia. Madrugada de sábado, nada acontece, a mesmice o aborrecendo.</p>
<p>Entra uma pessoa. Um crioulo alto, de bermuda, camisa de manga curta aberta no peito, chinelinho de dedo. “É comigo mesmo”, pensou o Hélio.</p>
<p>– Ó lombrosiana figura que a tais desoras adentra os umbrais desta delegacia – lançou-lhe o delegado. – Ó cobaia de Lombroso que nos procura na madrugada.</p>
<p>– Diga-me, lombrosiana figura, o que podemos fazer por você?</p>
<p>O crioulo se aproxima, enfia uma das mãos no bolso da bermuda, responde:</p>
<p>– Sabe o que é, delegado? Estou precisando de uma declaração, aqui estão os meus documentos.</p>
<p>Os olhos do Hélio saltam nas órbitas. Ele se levanta num arranque. O crioulo é juiz de Direito. Hélio se desespera, olha para um investigador que assiste a cena, emposta a voz, grita:</p>
<p>– Um café para o meritíssimo!!!</p>
<blockquote><p><em>Postado em agosto de 2010</em></p>
<p><em><a href="http://50anosdetextos.com.br/2010/05/27/historinhas-da-redacao-3-a-materia-que-o-editor-matou/">Outra historinha</a></em></p></blockquote>
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		<title>O Kindle, o iPad e o Google</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 06:03:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe um mundo em que, em uma floresta maravilhosa, por onde passeia um riacho que vai descansar em um lago onde cintilam estrelas, vivem os homens-livros. Lá estão Madame Bovary, Ulysses, Lolita, Dom Quixote, Peter Pan, Narizinho e todos – todos – os seus amigos. Eles passeiam, por toda a floresta, contando suas histórias. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existe um mundo em que, em uma floresta maravilhosa, por onde passeia um riacho que vai descansar em um lago onde cintilam estrelas, vivem os homens-livros. Lá estão Madame Bovary, Ulysses, Lolita, Dom Quixote, Peter Pan, Narizinho e todos – todos – os seus amigos. Eles passeiam, por toda a floresta, contando suas histórias. A floresta é uma enorme, interminável biblioteca que anda e fala.<span id="more-1675"></span></p>
<p>Há outra singularidade naquele mundo. Lá, os bombeiros não apagam incêndios, eles os ateiam. Com livros, livros de verdade, não os humanos. Um de seus personagens é o Capitão dos bombeiros, o incrível agente do Grande Irmão. O Grande Irmão está em todas as casas, o dia todo, aconselhando e ditando o que as pessoas devem fazer. Ele se materializa na forma de uma enorme tela de televisão que, além de ser vista, também vê.</p>
<p>O Capitão tem um faro que lhe proporciona um talento especial: ele detecta livros. E é aí que os bombeiros desempenham sua missão: eles reúnem os livros, que naquele mundo são clandestinos, e os queimam. O Grande Irmão não gosta de livros porque não quer que ninguém se entregue a nada além de ver e ouvir aquilo que ele permite que vejam e ouçam.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/fahrenheit1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1717" title="fahrenheit1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/04/fahrenheit1.jpg" alt="" width="400" height="311" /></a>Aquele mundo foi criado pelo escritor Ray Bradbury e transposto para o cinema pelo cineasta François Truffaut no filme Fahrenheit 451, que tem esse nome porque é nesta temperatura que os livros queimam.</p>
<p>Agora um Grande Irmão mais moderno se insinuou entre nós. Também se materializa em forma de tela, mas bem menor, para caber em nossas mãos. Ele se chama Kindle, mas também iPad, e breve receberá um outro nome, lançado pelo Google, que está correndo atrás. Ele não queima livros, apenas quer substituí-los. O Grande Irmão moderninho não quer que se construam mais bibliotecas físicas – ele tem uma biblioteca dentro dele, virtual. Não teremos mais, pelo menos ele não quer que tenhamos mais, um livro nas mãos, com sua capa, suas folhas, para que possamos tocá-lo, cheirá-lo, caminhar com ele para cima e para baixo, sentar com ele em um banco da praça, levá-lo pelos ônibus, pelo metrô.</p>
<p>O filme de Truffaut tem também um herói, Guy Montag. Montag era um bombeiro em vias de promoção por seu trabalho exemplar. Até que conhece Clarisse, uma linda jovem que tem um segredo: ela lê livros. Daí até Montag se tornar um dissidente é um passo. Ele passa a poupar, e a ler, alguns dos livros que deveria queimar. Logo se tornará um dos habitantes daquela floresta.</p>
<p>Os homens-livros decoram as obras depois que as lêem. Somem então com os livros, porque sabem o que os espera se forem descobertos com eles. Transformam-se então em livros vivos porque têm certeza de que em um dia qualquer no futuro, eles voltarão a ser permitidos, e então será o momento de escrevê-los novamente. E bibliotecas serão erguidas.</p>
<p>Tenho um amigo que é fanático por computadores e foi o primeiro jornalista brasileiro a trabalhar com um deles. Além do apartamento em que mora, mantém outro, e também uma casa, para abrigar os livros que compra ou recebe. Jamais dispôs de um livro sequer. Duvido que vá dedilhar um Kindle.</p>
<p>Estou com ele. Perto de minhas estantes Kindle nenhum se atreverá a chegar.</p>
<blockquote><p><em>Postado em 15/4/2010. </em></p>
<p><em>Para saber sobre uma revolucionária ruptura tecnológica, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iwPj0qgvfIs&amp;feature">clique aqui</a>. </em></p></blockquote>
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		<title>Sinatra</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 04:20:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[“Quando Frank Sinatra morrer e for para o céu, a primeira coisa que ele fará será procurar Deus e gritar com ele por tê–lo feito careca.” (Marlon Brando) Quando, no show de encerramento da Copa do Mundo, no Dodgers Stadium, em Los Angeles, os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo cantaram os primeiros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Quando Frank Sinatra morrer e for para o céu, a primeira</em></p>
<p><em>coisa que ele fará será procurar Deus e gritar com</em></p>
<p><em>ele por tê–lo feito careca.”</em> (Marlon Brando)<span id="more-1503"></span></p>
<p>Quando, no show de encerramento da Copa do Mundo, no Dodgers Stadium, em Los Angeles, os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo cantaram os primeiros acordes de “My Way”, os três acenaram e sorriram para um senhor de cristalinos olhos azuis sentado em uma das primeiras filas. Os olhos azuis brilharam, mas o corpo não executou todos os comandos e ele teve que ser apoiado para erguer-se e acenar de volta, retribuindo o cumprimento.</p>
<p>Era Frank Sinatra. Aos 78 anos, o velhinho vivia a emoção de ver–se homenageado pelos três mais disputados tenores do mundo, todos eles dando o melhor de si na interpretação de uma música que é Sinatra da cabeça aos pés.</p>
<p>Nada mau para um garotinho desenganado no parto e deixado de lado para morrer.</p>
<p>Um adolescente problemático que vivia brigando nas ruas e dizendo que seria um gângster.</p>
<p>Um sujeito de escrúpulos duvidosos que chegou a envolver–se com o inimigo público número um da América.</p>
<p>Ou para um cantor que se tornou tão formidável que é praticamente impossível apontar alguém, entre nós, nossos pais e avós, que não tenha cantarolado, ou dançado, ou namorado ao som de uma de suas canções.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1514" title="Frank jovem" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem.jpg" alt="" width="394" height="510" /></a>Esta história real (ou uma lenda real?) começou em uma cidadezinha de Nova Jersey, ao lado do Rio Hudson, chamada Hoboken. Ali moravam, no número 415 da Monroe Street, o ex–boxeador Anthony Martin Sinatra e sua mulher, uma enfermeira e parteira, nascida Natalie Garaventi e chamada na época simplesmente Dolly, Dolly Sinatra. Os dois italianos: ele siciliano, ela genovesa.</p>
<p>Francis Albert Sinatra nasceu no dia 12 de dezembro de 1915. O parto foi difícil e o fórceps o marcou.</p>
<p>Um superbebê. Pesava seis quilos e pouco, tinha ferimentos no queixo e em uma das orelhas.</p>
<p>– Não acho que sobreviverá – disse o médico. – O melhor é que nos concentremos na mãe.</p>
<p>Rosa Garaventi, a avó, não levou o médico a sério: colocou o garotinho sob uma torneira de água fria e o choque fez com que respirasse.</p>
<p>Em dezembro de 1915 os Estados Unidos acompanhavam a guerra na Europa e dois anos depois entrariam nela. No cinema, chorava-se a morte de John Bunny, a primeira grande estrela da comédia americana, um abre-alas para Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. E, enquanto o garotinho Sinatra crescia, outro gênero de filmes ia se firmando: o de gângsteres. Muitos consideram <em>Underworld</em>, de 1927, o primeiro deles.</p>
<p>O Sinatra adolescente acompanhou as aventuras de Little Caesar, <em>O Pequeno César</em>, com Edward G. Robinson, em 1930, e <em>Scarface</em>, com Paul Muni, em 32. Na tela eles eram vistos como heróis e, para os garotos com que Frank convivia, ser gângster estava na moda. Ele chegou a declarar, muitos anos depois, que gostara daquilo e talvez tivesse levado a coisa um pouco longe demais. Queria ser considerado um bandido, e chamava gângsteres por apelidos, era grosseiro, ameaçava pessoas e procurava exibir mau-caratismo entre maus-caracteres. Falava de uma garrafa que partiu sua cabeça em uma briga de quadrilhas, e de uma corrente de ferro que quase o aleijou, mas muita gente achou aquilo papo-furado, e que tudo o que Sinatra queria era aparecer.</p>
<p>Ele retrucou afirmando que foram apenas a música e seu talento que o impediram de tornar–se um bandido de verdade.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Imitando Bing Crosby</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>ao som do cavaquinho</strong></p>
<p>Quando Frank tinha 15 anos, seu tio Dominick Garaventi deu-lhe um ukelele (irmão do cavaquinho) – um instrumento havaiano de quatro cordas, parecido com a guitarra. Ele conhecera há pouco uma garota morena chamada Nancy Barbato, e usou o ukelele em serenatas para ela: sentava–se em frente ao poste de rua na calçada e cantava imitando Bing Crosby.</p>
<p>Dolly não gostava disso: aquele garoto tinha que se formar em engenharia pela universidade ou, pelo menos, tinha que se dedicar a negócios. E ela é quem comandava a casa. O marido era do corpo de bombeiros, e Dolly, mulher muito ativa na política da comunidade, não descansou enquanto não conseguiu que ele fosse promovido a capitão. Dizia-se que ela gostava muito de ajudar as pessoas, mas esta é uma imagem que a escritora Kitty Kelley procurou retocar ao escrever <em>His Way</em>, a biografia não autorizada de Sinatra. Dolly, escreveu, vivia fazendo abortos nas mulheres de Hoboken, e uma vez foi presa por isso.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1515" title="Frank jovem 2" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-2.jpg" alt="" width="630" height="690" /></a>Na época das serenatas, mais precisamente em março de 1935, Frank – que era repórter iniciante, um foca, na seção de esportes do Jersey Observer, e pretendia fazer carreira como jornalista –, levou Nancy para ver Bing Crosby em pessoa, em um show em Jersey City.</p>
<p>Quando deixaram o teatro, Nancy percebeu que algo havia acontecido.</p>
<p>– O que há? Você não parece bem.</p>
<p>Ele engoliu em seco antes de responder:</p>
<p>– Vou me demitir do meu emprego.</p>
<p>E explicou:</p>
<p>– Quando vi aquele cara no palco, alguma coisa me aconteceu. Parecia que eu é que estava lá, não o Crosby. Eu tenho que ser um cantor.</p>
<p>Foi o que repetiu em casa. Dolly, dizem, pegou um sapato e esmigalhou o Bing Crosby sorridente que enfeitava uma das paredes do quarto do rapaz. Ela já não andava gostando muito daquele quadro desde o dia em que surpreendeu o filho penteado como o cantor e, como ele, com um cachimbo pendurado no canto da boca. Imitação tem limites, esperneou.</p>
<p>Era ela quem dava as ordens em casa, mas era também muito esperta, sabia que de nada adianta remar contra a maré: quando percebeu que não havia jeito, concordou com o filho e aceitou que ele deixasse a escola e procurasse um emprego em que pudesse cantar. Frank passou a apresentar-se em casamentos, em clubes, na escola,&#8230;</p>
<p>– Ele não tinha um emprego na época – lembra Marian Bush Schrieber, uma de suas primeiras namoradas – mas estava sempre metido com músicos. Sugeri que montasse uma banda para animar nossos bailes das quartas-feiras na escola, e em troca a banda permitiria que ele cantasse algumas canções.</p>
<p>Sinatra decidiu que aprenderia a cantar cantando e ouvindo cantar. Gastava todo o seu dinheiro em discos, que ouvia até se estragarem. Escolheu Bing Crosby e a orquestra de Tommy Dorsey como seus modelos de tom e balanço. Comprou um fone de ouvido e passava boa parte da madrugada girando um dial e ouvindo tudo o que as rádios tocavam.</p>
<p>– Havia apenas uma coisa que eu tinha no começo – lembra. – Era bom gosto. Eu podia dizer quando um cantor era horrível e quando ele era maravilhoso, e não muito tempo depois comecei a descobrir por quê. Eu aprendi que uma voz não muito diferente de outra me parecia mais sólida só por uma coisa: sinceridade. O cantor que colocava seu coração em uma canção, e com isso conseguia que ela significasse alguma coisa, era o meu cantor.</p>
<p>Em casa, as coisas melhoraram um pouco. Ainda que os pais não tivessem lá grandes esperanças de vê–lo fazer sucesso, a mãe contou–lhe que às vezes ela e Papai Sinatra iam às apresentações do filho, e que o marido se entusiasmava e aplaudia mais alto que ela. Mas faziam questão de sentar-se numa das últimas filas, para que Frank não os visse.</p>
<p>Em 1938 ele estaria cantando com grupos jovens em 18 shows de rádio em cinco estações de Nova York e Nova Jersey. É o que havia começado a fazer três anos antes, como parte de um quarteto, o The Hoboken Four, que nasceu por acaso. Naquela época – 1935 – havia em Nova York um programa de rádio que promovia concursos de calouros, o Major Bowes Amateur Hour, considerado o melhor primeiro passo que um aspirante a cantor poderia dar, já que era uma rádio de boa potência, captada por um grande número de ouvintes. Alguém que fizesse sucesso ali poderia ter seu nome lembrado depois.</p>
<p>Frank inscreveu–se para o concurso e foi aceito. Por coincidência, um trio de cantores de Hoboken havia se inscrito também, o que deu ao Major Bowes a idéia de juntar os quatro e formar um quarteto. Bowes mesmo escolheu o nome do quarteto. A estréia aconteceu no dia 8 de setembro de 1935, com o programa transmitido ao vivo do palco do Capital Theatre e Frank ocupando a posição de cantor principal do grupo. O júri era a própria audiência, convidada a ligar para Murray Hill 8–9983 e manifestar sua preferência. O Hoboken Four foi o vencedor. E o programa daquele dia ficou marcado por ser o último de Frank como amador: os classificados em primeiro passavam a integrar uma equipe formada pelo Major Bowes para excursionar por várias cidades do interior. Frank Sinatra e seus três companheiros receberiam um salário de 50 dólares semanais, mais refeições.</p>
<p>Alguns meses depois, quando ficou claro que a estrela do grupo era Frank, e começaram a surgir as primeiras brigas entre os quatro, ele se despediu dos companheiros e voltou para Hoboken, passando a cantar sozinho. Era o que fazia em 1939, num restaurante de beira de estrada em Nova Jersey, o Rustic Cabin, com o salário de 15 dólares por semana. Além de cantar, era também o chefe de cerimônia, e conduzia os clientes até as mesas.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1516" title="Frank jovem 3" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-3.jpg" alt="" width="240" height="355" /></a>Foi quando transformou a garota Nancy Barbato na senhora Sinatra, ganhou dos pais um Chrysler preto e fez um passeio de lua-de-mel durante quatro dias. Na volta o casal mudou-se para um apartamento de três dormitórios alugado no 487 da Avenida Garfield, pagando 42 dólares por mês. Frank tivera um aumento, passando a receber 25 por semana, e Nancy conseguiu um emprego como secretária, para ajudar nas despesas.</p>
<p>Neste mesmo ano de 1939, um trompetista desempregado, que saiu da banda de Benny Goodman para formar a sua própria, ouvia a Parada Dançante na estação WNEW quando teve sua atenção despertada por um cantor. Não conseguiu pegar o nome, mas descobriu o lugar em que ele cantava, em Jersey. Na noite seguinte, o mesmo trompetista – seu nome era Harry James – estava lá ouvindo Frank Sinatra. Gostou. Contratou–o por dois anos com o salário de 75 dólares semanais.</p>
<p>– Peça demissão – disse Frank a Nancy pelo telefone. – Nós vamos viajar por aí com Harry James.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Aquele garoto magrinho</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>na banda do Harry</strong></p>
<p>“Wishing” foi uma das duas canções de sua estréia com a banda de James no Hyppodrome Theater, em Baltimore, na última semana de junho de 39. Nancy o ouvia na platéia, e ele cantou também “My Love For You”. Como pouca coisa na vida é sublinhada por fogos de artifício, nada de especial aconteceu naqueles dias. Depois de Baltimore a banda foi para Nova York e continuou seu trabalho. O empresário, Gerry Barrett, convenceu a George Simon, crítico musical de <em>Metronome</em>, a ouvir o pessoal e escrever a respeito.</p>
<p>Sinatra não seria Sinatra se não metesse aí sua colher. Insistiu tanto que Gerry Barrett pediu a Simon para dizer duas ou três palavras a respeito do cantor. Simon concordou, e sua crítica citou “o vocal muito agradável de Frank Sinatra, cujo frasear simples é especialmente recomendável”.</p>
<p>A partir disso, aquele ego foi inchando com tal rapidez que Harry James, em certa ocasião, chegou a pedir a um repórter que não o citasse com muito entusiasmo. – Veja – argumentou – se ele souber de um elogio seu, vai me pedir aumento na mesma noite.</p>
<p>Na verdade, havia sinais de que James estava tendo alguma dificuldade em conviver com o nariz empinado da principal estrela de sua banda. Uma frase dele ficou gravada: “Seu nome é Sinatra, e ele se considera o melhor cantor em atividade. É demais! Ninguém jamais ouviu falar dele! Ele nunca gravou uma canção de sucesso, e parece uma peça de roupa velha, mas diz que é o maior de todos!”</p>
<p>Entre sucessos (Harry James foi considerado o trompete número um da América na pesquisa da revista <em>Down Beat</em> em 39) e fracassos (apresentando–se em Beverly Hills, Los Angeles, para um público que não gostou da batida da banda, James e todo seu pessoal, Sinatra incluído, foram despedidos), Frank começou a questionar se o seu lugar era realmente ali.</p>
<p>E então, no início de 1940, ele recebeu um convite para cantar com a banda de Tommy Dorsey. Aqui, como dizem vários de seus biógrafos, ninguém sabe exatamente como a coisa aconteceu, porque todo mundo gosta de se proclamar responsável pela aproximação dos dois. Uma das versões é a de que, depois de alguns meses com James, Frank havia conquistado certo número de admiradores e um deles era um executivo da CBS que, um belo dia, soprou para Dorsey: “Vá ver um garoto magrinho que está cantando com a banda de Harry”.</p>
<p>Foi o que fez Sinatra realmente decolar. O contrato com Harry James ainda estava valendo, mas este o cancelou com um aperto de mão e um conselho: “Não perca esta chance”. Naquela época, apenas Glenn Miller rivalizava com Dorsey, que tinha uma orquestra considerada a banda dos cantores: ele sempre valorizava seus arranjos dando destaque ao crooner. Frank foi contratado por 100 dólares semanais.</p>
<p>Ele sempre disse que Tommy Dorsey foi o seu “treinador”, e o ensinou a respirar durante o canto. Foi Dorsey quem recomendou a ele exercícios físicos, como jogging e natação, para aumentar sua capacidade pulmonar. Frank dava longos mergulhos na piscina, e cada vez ficava mais tempo embaixo d’’água. Com isso passou a cantar vários versos seguidos sem respirar, o que lhe permitiu também aperfeiçoar o ritmo e o balanço das canções.</p>
<p>Frank prestava enorme atenção ao trabalho de Dorsey. O jornalista e publicitário Alan Frank, em seu livro <em>Sinatra</em>, de 1978, reproduz uma declaração dele:</p>
<p>– Eu descobri – contou Sinatra – um truque dele, um pequeno orifício que havia entre um canto dos lábios de Tommy e o bocal do trombone. E percebi que aquilo não era natural, mas uma fresta através da qual ele respirava. No meio de um compasso, quando uma nota ainda estava fluindo através do trombone, ele dava uma rápida aspirada, e aquilo permitia que tocasse quatro escalas mais.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-4.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1517" title="Frank jovem 4" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-jovem-4.jpg" alt="" width="466" height="425" /></a>Ele fez uma adaptação dessa técnica para o seu canto, praticando exaustivamente e aprendendo a usar o nariz como Dorsey usava aquele orifício. Fez muito mais: treinou tanto para desenvolver os pulmões que alguns de seus biógrafos afirmam que ele podia ficar sem aspirar o dobro do tempo de uma pessoal normal.</p>
<p>Dois traços marcantes de sua personalidade se desenvolveram a partir daí: a vaidade, o cuidado com as roupas, com a elegância – e o mau humor, a irritação. Ele costumava interromper a banda quando achava que algum instrumento tocava alto a ponto de interferir com sua voz. Em um show, certa vez, alguém lhe atirou pipocas. Ele voou para cima do público, querendo arrebentar o atrevido. Em outro, Buddy Rich, o homem do surdo, interrompeu uma canção de Frank para fazer um solo. Sinatra atirou–lhe um copo.</p>
<p>O sucesso foi crescendo e atingiu um ponto em que passou a incomodar Tommy Dorsey porque, se a questão era vaidade, ele também tinha a sua, e não era pequena. Ele também, Dorsey, era um brigão, o que dava à orquestra, muitas vezes, um clima de violência. Outro inconveniente era que o público queria ouvir a Voz, não os instrumentos e, muitas vezes, no momento em que a banda, até então tocando só, passava a acompanhar o cantor, as pessoas paravam de dançar para cercar o palco e apenas ouvi-lo cantar. Dorsey não suportava essa humilhação.</p>
<p>Em julho de 1942 Sinatra resolveu sair. No ano anterior uma pesquisa da revista <em>Billboard</em> entre estudantes deu–lhe o título de Vocalista Masculino Número Um. No final de 41, ele realizou um sonho antigo ao ser declarado, pela revista <em>Down Beat</em>, o Melhor Vocalista Masculino de Orquestras dos Estados Unidos, dando uma rasteira em ninguém menos do que Bing Crosby, detentor do título de 1937 a 1940. E, em janeiro de 42, os leitores de <em>Metronome</em> o elegeram o Melhor Cantor de 1941. Se, no período em que esteve com Harry James, eles tiveram cinco discos gravados, com Dorsey ele havia gravado noventa. Decididamente, concluiu Frank, era o momento de deixar a orquestra e prosseguir sozinho.</p>
<p>Mas o contrato de cinco anos estava praticamente pela metade, e Dorsey foi inflexível nas negociações: certo, ele liberaria Frank, mas com novo contrato, em que receberia 33% da renda bruta de Sinatra durante os dez anos seguintes, sendo que mais 10% iriam para o gerente de sua banda, Leonard Vannerson. O contrato foi assinado. E aqui entra a lenda&#8230; ou a verdade? Sinatra filiou–se depois à Music Corporatin of America, a MCA, a maior de todas, e ela queria livrá–lo de qualquer compromisso anterior, principalmente daquele contrato com Dorsey. Oficialmente, dizem que isso custou 35.000 dólares à MCA, e mais 25.000 ao próprio Frank.</p>
<p>A outra versão é a que envolve a Máfia. Frank Sinatra, de origem ítalo-americana, cresceu em uma área de Nova Jersey que era território da Máfia. E, já que ele estava lá, e a Máfia também&#8230; E então, diz a lenda, certo Don mafioso, de nome Willie Moretti, teria entrado nas negociações, feito uma visita a Dorsey, em seu camarim, e delicadamente – “Não é nada pessoal&#8230;” – o convenceu, com o cano de seu revólver literalmente enfiado na boca do atônito maestro, a “vender” o contrato de Sinatra pela quantia, acertada ali mesmo, de um dólar. Negócio fechado!</p>
<p style="text-align: center;"><strong>O magrinho no paletó</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>de grandes ombreiras</strong></p>
<p>Depois que Sinatra se separou de Dorsey foi tudo muito rápido. Houve um contrato de dois meses com o Teatro Paramount, em Nova York, salário de mil dólares por semana. Também a oportunidade de participar de um filme da RKO e de gravar discos pela Colúmbia. Nas noites de sábado, ele cantava no programa Lucky Strikes Hit Parade e, em março de 43, estrearia em um night–club de Manhattan chamado Riobamba. Aqui, um acontecimento curioso multiplicou o nome Frank Sinatra na mídia da época.</p>
<p>Ele cantava no Riobamba, em uma daquelas noites quentes de março, quando uma garota na platéia, particularmente sensível ao calor, sentiu-se mal e teve um desmaio. Foi o suficiente. Logo surgiu o rumor de que a voz aveludada daquele cantor magrinho, metido em paletós de grandes ombreiras, abalava as garotas e provocava síncopes. O rumor foi publicado pela revista <em>Newsweek</em>, e tornou–se verdade.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Em setembro daquele mesmo ano, 1943, a revista <em>The American Magazine</em>, de Nova York, trazia o seguinte relato de seu repórter Jack Long:</p>
<p>“Se os jovens da costa Oeste são iguais aos de Nova York – e nunca ouvi nada ao contrário – um bando de rapagões de Hollywood vai se sentir abandonado brevemente. Porque, enquanto escrevo, um jovem garoto está a caminho de lá, e ele não é alto nem bonito, mas tem algo que faz com que as garotas o sigam lacrimejando, comportando-se como uma manada, e esquecendo todos os outros homens. Por um olhar dele elas arrancam o cabelo, e por uma foto autografada são capazes de assassinato. Eu as vi em ação, e foi uma experiência incrível.</p>
<p>“Ia andando pela Times Square em uma manhã de sábado, pensando em coisas minhas, quando fui envolvido por uma turbulenta massa humana e jogado da calçada para a rua. Um policial a cavalo trotou em minha direção com o chicote em riste e gritando ‘Volte para a fila, seu&#8230;’, e me ameaçando. Veio uma nova onda, mais gritos, e fui despejado no meio da rua outra vez. Daí aproveitei um sinal fechado para o trânsito e cruzei a rua, dando de cara com outro policial.</p>
<p>“– Escute aqui – gritei – sou um cidadão pacífico e, seja qual for o motivo desta demonstração, eu estou fora dela. E, a propósito, o que é que está acontecendo?</p>
<p>“O policial me lançou um olhar infeliz. ‘Estão abrindo as portas para o primeiro show do Teatro Paramount. Tem sido assim nas últimas seis semanas’, acrescentou, lamentando. ‘Todo dia ele canta, e todo dia é assim’.</p>
<p>“Fui embora, mas o mistério me incomodou por vários dias. Frank Sinatra. O nome era familiar, eu o ouvi no rádio sem prestar muita atenção. Mas o que, eu me perguntava, pode trazer cinco ou seis mil jovens para a Times Square, num sábado de manhã, querendo ouvir alguém chamado Sinatra cantar algumas canções?”</p>
<p>O fenômeno era pra valer. Vejamos o relato de Bruce Bliven, na revista <em>The New Republic</em>, um ano depois, em novembro de 44:</p>
<p>“Às nove horas da manhã o Teatro Paramount está cheio e, mesmo assim, a fila para comprar ingressos dá volta ao quarteirão. Mas isso não é nada. Vocês deveriam ver isto aqui na quinta-feira, que foi um feriado. Mais de dez mil pessoas tentavam entrar e 150 policiais de reforço não conseguiam manter a ordem. Vitrines de lojas eram quebradas, pessoas se feriam e ambulâncias as levavam. Os que entravam ficavam para assistir duas ou três apresentações, o que fez com que a confusão fora do teatro durasse o dia todo. Das 3.500 pessoas que estavam em suas cadeiras quando o primeiro show começou, apenas 250 saíram quando o segundo ia começar. Tinha gente na fila desde a meia-noite do dia anterior. Um senhor disse que tentou comprar um ingresso para sua filha oferecendo oito dólares para alguém que o tinha (o preço normal dificilmente ultrapassaria um dólar), mas não conseguiu. Uma senhora, que estava na fila com sua filha horas depois de o show ter começado, disse que a garota havia ameaçado matar-se se tivesse que ficar em casa”.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Na época, algumas expressões criadas pelas adolescentes de meias soquete que suspiravam por Sinatra passaram a fazer parte de seu dia-a-dia. Swoon (a pronúncia é swúm) é o termo em inglês para desmaio, síncope. Os desmaios eram tantos durante os shows que Frank foi logo apelidado de Swoonatra. As mães das garotas tiveram acessos de cobras e lagartos quando descobriram que suas filhas chamavam seus pijamas de Sinatra Suits (conjuntos Sinatra). Em suas cartas, as garotas substituíram a expressão final, Sincerelly Yours (Sinceramente Sua), por Sinatrally Yours. E, quando preguiçosamente se esticavam em suas camas, diziam que estavam em Sinatrance.</p>
<p>Evidentemente havia os céticos, os críticos que diziam ser tudo aquilo tramado pelos empresários que cercavam os shows de Frank, e os acusavam de pagar pelos desmaios para promover o cantor. Em julho de 46 os jornais publicaram esta nota: “George Evans, assessor de imprensa de Frank Sinatra – que mantém o compromisso de doar mil dólares para a instituição de caridade indicada por alguém que prove que um ingresso, um passe, ou um presente de qualquer tipo foi dado a uma garota para que ela gritasse num show de Sinatra – aumentou a importância para cinco mil, por causa da inflação”.</p>
<p>A febre Sinatra era tão grande que provocava incidentes ruidosos. Em um show em Filadélfia, seis policiais formaram uma ala entre a porta do teatro e o ponto de táxis (ele ainda usava táxis), para garantir que deixasse o local. Eram policiais fortes, massudos. A multidão atacou e, em fração de segundos, ele perdeu o chapéu, o sobretudo, a maleta de viagem, os botões da camisa e vários fios de cabelo. Foi protegido por dois enormes funcionários do teatro, dois cenógrafos, que evitaram um estrago maior. “Duas garotas arrancaram minha gravata e quase me enforcaram” – contou Frank.</p>
<p>Ao chegar à estação estava sendo perseguido por aproximadamente 50 jovens excitadíssimos que vinham em uma fila de táxis. Ele correu para uma lanchonete e conseguiu esconder-se atrás de alguns caixotes de refrigerantes. Quando os garotos perceberam que o haviam perdido, e foram embora, ele saiu do esconderijo e pediu que o garçon lhe desse uma coca.</p>
<p>– Ei – respondeu o rapaz. – Você é Frank Sinatra. Que tal um autógrafo?</p>
<p>E o dinheiro ia chegando. Os números podem parecer modestos hoje, mas considerando-se o dólar na década de 40, era muita coisa. Alguns dados disponíveis referentes a 1944 (previsões feitas em 43): seus shows de rádio para a CBS renderiam seis mil dólares por semana. Os royalties pelos discos seriam de 150 mil, e ele receberia 250 mil por participações em filmes. Por sete apresentações diárias em teatro ele teria 15 mil garantidos, recebendo a diferença se 50% da renda bruta ultrapassasse esse valor – foi o maior contrato já firmado no ramo das diversões até então.</p>
<p>Frank já era chamado, simplesmente, The Voice, A Voz. Difícil dizer precisamente quando o apelido surgiu, mas uma reportagem publicada em <em>Newsweek</em> no dia 20 de dezembro de 1943 já a registrava com naturalidade, ao relatar dois incidentes do cantor com suas Sinatra Swooners (aproximadamente, as Desmaiadoras de Sinatra): “A Voz mesmo teve de dizer–lhes que se calassem em um show. A algumas mães de fãs mais exaltadas foi pedido que mantivessem suas filhas em casa”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Lana Turner, primeira</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>de uma lista de vinte</strong></p>
<p>Hollywood, 1943. Aquele magrinho de nariz empinado chegou aos estúdios da RKO, depois da revolução do Teatro Paramount, para filmar <em>Higher and Higher</em> (<em>A Lua ao seu Alcance</em>). Já havia feito <em>Las Vegas Nights</em> (<em>Noites de Las Vegas</em>) em 41, <em>Ship Ahoy</em> (<em>Ó de bordo</em>), em 42, e <em>Reveille with Beverley</em> (<em>Alvorada com Beverley</em>) no próprio ano de 43. Mas naqueles filmes ele apenas cantava com a orquestra de Tommy Dorsey. Agora não: <a href="http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-crime-sem-perdaothe-detective-e-tony-rome/">Sinatra ia estrear como ator</a>. Em <em>Higher&#8230;</em>, ele faz o papel de Frank, um rico pretendente à mão de uma garota supostamente herdeira de uma fortuna.</p>
<p>E o que faz Sinatra, na iminência do novo desafio? Apanha um papel, lista as 20 atrizes mais atraentes de Hollywood, prega–o em seu camarim e anuncia:</p>
<p>– Vou faturar uma por uma.</p>
<p>Primeiro nome a receber um X na frente dele: Lana Turner. Antes do final das filmagens, todos os nomes estavam ticados.</p>
<p>Nancy sempre soube, a partir da chegada à Costa Oeste, que o marido tinha casos. E sempre os tolerou. Sabia que tudo iria bem desde que ela não interferisse nas vontades e nos caprichos dele. Até o início da carreira solo de Frank, ela o ajudava nas despesas, usando parte de seu salário de secretária para pagar aluguel e supermercado e deixando o resto para que ele gastasse com suas roupas elegantes. Até então, foram felizes. Mas em 1946, no pico do sucesso – Frank chegou a fazer 45 shows em uma semana – o esforço e a tensão começaram a pulverizar seu trabalho. Já há algum tempo interferiam no casamento.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Ava.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1518" title="Frank com Ava" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Ava.jpg" alt="" width="396" height="516" /></a>Em uma daquelas noites, em uma festa de um nightclub em Palm Springs, Sinatra tirou para dançar uma mulher que viera acompanhada do milionário Howard Hughes. Era Ava Gardner.</p>
<p>No dia 7 de outubro anunciou–se oficialmente que Nancy e Frank estavam separados, e isso não foi propriamente surpresa, pelo pouco tempo que ele dedicava à mulher e aos filhos Nancy e Frank Jr. Uma separação que não durou muito: o esforço de amigos provocou a reconciliação, e os dois ainda tiveram a filha Cristine, nascida em julho de 48. A separação definitiva viria em dezembro de 49. Quando Nancy entrou com o pedido de divórcio, o que se comentava, em Hollywood, é que ela poderia agüentar qualquer uma, menos Ava Gardner.</p>
<p>É desta época um carinhoso puxão de orelhas enviado a Frank, em forma de telegrama, por, nada mais, nada menos, que don Moretti, o mafioso que teria “convencido” Tommy Dorsey a cancelar aquele famoso contrato:</p>
<p>“Querido Frank. Estou muito surpreendido pelo que tenho lido na imprensa a respeito de você e sua querida esposa. Lembre–se de que você tem uma esposa decente e filhos. Você deveria estar muito feliz. Lembranças a todos. Willie Moore.”</p>
<p>Mas o caso com Ava era sério e se tornou barulhento. Ela tinha uma carreira e não conseguia dedicar a Frank o tempo que ele exigia. Vinham então as brigas, tão públicas quanto as reconciliações que acabavam acontecendo. Só que isso prejudicava os dois: o público de então não estava preparado para ver um homem ainda casado, mesmo que ele fosse Frank Sinatra, correndo atrás de uma outra mulher, mesmo sendo ela Ava Gardner. Em uma das brigas, Ava recorreu a seu ex–marido, Artie Shaw. Quando Sinatra soube disso, entrou em parafuso. Primeiro tentou localizar os dois. Quando não conseguiu, foi para um hotel e – dizem – tentou o suicídio.</p>
<p>A vontade de matar-se, entretanto, parece que não era muito grande: tudo o que ele conseguiu foi dar dois tiros em um colchão. Com o ruído dos tiros, a polícia foi chamada. Quando chegaram, os policiais não tinham nada para ver – o colchão fora trocado.</p>
<p>O divórcio de Nancy, e a queda, vieram juntos. Os filmes de Frank estavam sendo cada vez mais criticados, e a venda de seus discos despencou em 1948 e 49: parecia bastante claro que a carreira como cantor chegava ao fim (diziam que as garotas que urravam por ele nos shows, as Swooners, haviam crescido). Surgiu ainda uma acusação, sem provas, de ligação com comunistas, feita pelo Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas. Então veio o nocaute: Frank Sinatra acusado de envolvimento com a Máfia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Dores de cabeça com</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>a Máfia de Luciano</strong></p>
<p>Sinatra foi denunciado pela primeira vez pelo repórter Robert Ruark, colunista da rede Scripps–Howard, que acompanhava a visita do mafioso Lucky Luciano a Havana, Cuba, em 1947. Lucky Luciano havia sido preso em 1936, nos Estados Unidos, e conseguiu liberdade condicional dez anos depois, como reconhecimento do governo norte–americano pelos seus relevantes esforços, durante a II Guerra, ajudando o desembarque aliado na Sicília. Foi então deportado para a Itália.</p>
<p>Em 1947 – já no ano seguinte, portanto – Luciano estava em Havana, hospedado no Hotel Nacional, preparando–se para voltar ao território americano. O repórter Robert Ruark, enviado especial a Cuba, fez uma série de reportagens mostrando que ele, enquanto fazia sua escala na ilha, vinha sendo visitado pelos grandes gângsteres da Máfia nos EUA. E, no dia 20 de fevereiro, Ruark publicava:</p>
<p>“Sinatra esteve aqui por quatro dias na última semana, e durante esse tempo sua companhia em público e em particular era Luciano, os guarda-costas de Luciano, e uma rica coleção de jogadores e comparsas. A amizade foi linda. Eles eram vistos juntos nas pistas de corridas, no cassino e em festas especiais. Além de Luciano, fui informado de que Ralph Capone também estava presente&#8230; e ainda uma grande variedade de assassinos que acham o Sul saudável no inverno, ou nos dias de Grande Júri”.</p>
<p>Dizia-se que Sinatra voou de Miami para Havana com Rocco e Joseph Fischetti, dois gângsteres conhecidos. Mais tarde, em 1951, o repórter Lee Mortimer, do <em>New York Mirror</em>, relatava aquele que dizia ser o propósito da visita de Sinatra a Havana: entregar a Luciano dois milhões de dólares em cédulas de pequeno valor.</p>
<p>Sinatra respondeu com um gracejo:</p>
<p>– Imaginem a mim, o magro Frankie, carregando dois milhões de dólares em notas pequenas. Mil dólares em notas de um dólar pesam um quilo e 300 gramas, o que significa que eu teria que carregar 27.000 quilos. Mesmo supondo que as notas eram de 20 dólares, seria necessário uma dupla de estivadores para levá-las. Esta é sem dúvida a mais ridícula acusação que já fizeram a mim&#8230; Eu embarquei para Havana com uma pequena maleta em que carreguei meus óleos, as minhas anotações e jóias pessoais, que nunca despacho com minha bagagem.</p>
<p>Aproximadamente cinco anos mais tarde, na revista <em>American Weekly</em>, Sinatra voltaria a falar do episódio:</p>
<p>– O que realmente aconteceu em 1947 é que eu tirei uns dias de folga e decidi gozá-los em Havana e na Cidade do México. No caminho, parei em Miami para um show beneficente para o Fundo Damon Runyon Contra o Câncer. Encontrei Joe Fischetti lá, e quando ele soube que eu ia para Havana, disse-me que ele e seus irmãos estavam indo também, e mudaram suas reservas para estarem em meu vôo.</p>
<p>– Naquela noite eu tomava um drinque no bar, com Connie Immerman, dono de um restaurante em Nova York, e encontrei um grande grupo de homens e mulheres. Como sempre acontece em grandes grupos, as apresentações foram superficiais. Fui convidado para jantar com eles e, enquanto jantava, vi que um dos homens na festa era Lucky Luciano. Percebi subitamente que estava me expondo a críticas ficando na mesa, mas não consegui imaginar uma maneira de sair dali sem provocar uma cena.</p>
<p>– Depois do jantar fui ao jogos de jai alai, e então, com alguém que eu acabara de conhecer, dei um passeio pela noite. Finalmente fomos para o cassino, onde passamos por uma mesa em que estavam Luciano e vários outros homens. Eles insistiram para que sentássemos para um drinque, e, mais uma vez, para não provocar confusão, tomei um rápido drinque e me retirei. Estas foram as únicas vezes em que vi Luciano em minha vida.</p>
<p>Em 1962, em Nápoles, quando a polícia italiana revistou o apartamento em que Luciano acabara de morrer, de ataque cardíaco, encontrou uma cigarreira de ouro com a inscrição “Para Charlie, do seu camarada Frank Sinatra”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Na cama com</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Marilyn Monroe</strong></p>
<p>Sinatra teve como amigo o homem mais importante do mundo em sua época: John Kennedy.</p>
<p>Ele fez campanha para Kennedy e ajudou-o a eleger-se – é o que consta – conseguindo que amigos mafiosos, que controlavam sindicatos, trabalhassem por ele. Frank foi recebido na Casa Branca para que o presidente pudesse agradecer sua ajuda. A amizade era grande, apesar dos olhares enviesados de Robert Kennedy, nomeado Procurador Geral pelo irmão, e que estava empenhado em varrer das proximidades de John qualquer coisa que prejudicasse sua imagem, principalmente alguém acusado de ser amigo de bandidos. Bob havia escolhido o crime organizado para seu principal inimigo.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Dean-e-Sammy.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1519" title="Frank com Dean e Sammy" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Frank-com-Dean-e-Sammy.jpg" alt="" width="300" height="376" /></a>Outros amigos de Frank eram Dean Martin, Sammy Davis Jr., Shirley MacLaine, Joey Bishop, Peter Lawford e sua mulher, Pat Kennedy Lawford, irmã de John Kennedy – o que fazia de Peter cunhado do presidente. Eles costumavam reunir-se sempre, em restaurantes, hotéis (principalmente o Sands, em Las Vegas, que era da Máfia), cassinos e na casa dos Lawford.</p>
<p>E havia Marilyn Monroe.</p>
<p>Norman Mailer diz que Sinatra deu a ela um cachorrinho branco, que Marilyn, fazendo graça, resolveu chamar de Maf, por causa das ligações dele com mafiosos. Os dois tiveram um caso, e uma amiga contou a Mailer que, certa vez, levou Marilyn para encontrar-se com o cantor no hotel Waldorf Astoria, onde ele estava hospedado. No dia seguinte, procurou Marilyn para perguntar como havia sido o encontro.</p>
<p>– Bem – disse ela – tivemos um problema. Nós juntamos duas camas que havia no quarto, mas algo deu errado com os colchões e eu ou Frank estávamos sempre caindo no meio deles.</p>
<p>(Uma falha no serviço do Waldorf!!!, horrorizou-se Mailer.)</p>
<p>– Mas e Sinatra? – quis saber a amiga. – Ele é bom?</p>
<p>– Não é nenhum Di Maggio.</p>
<p>Na casa dos Lawford, Sinatra apresentou Marilyn a John e a Bob Kennedy, e ela teve um namoro com o presidente. Não foi a primeira garota que apresentou a John. Antes dela já havia apresentado outra mulher com quem andara saindo, Judith Campbell Exner, que Sinatra apresentou também ao capo mafioso Sam Giancana.</p>
<p> Mais tarde Judith acabou rompendo com Sinatra e, dando uma entrevista coletiva à imprensa, declarou que deixara de manter relações sexuais com ele por causa de seus modos pervertidos.</p>
<p> – Diabos! – respondeu Frank. – Não há fúria maior do que a de uma prostituta com um agente literário.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Cuidado. O homem</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>tem um resfriado</strong></p>
<p>Mas, afinal: como é Frank Sinatra pessoalmente? Vejamos o que nos conta Gay Talese, o grande repórter norte–americano que tentou entrevistá–lo quando Frank completou 50 anos, em 1965. Sinatra recusou–se a dar entrevista, mas topou um acordo de cavalheiros: Talese poderia manter–se próximo, durante alguns dias, e também entrevistar pessoas ligadas a ele.</p>
<p>Talese conta, em seu livro <em>Fame and Obscurity</em>, capítulo “Frank Sinatra Está Resfriado”:</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-maduro-1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1524" title="frank maduro 1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-maduro-1.jpg" alt="" width="400" height="400" /></a> “Frank Sinatra, copo de bourbon numa das mãos e cigarro na outra, encontrava-se no recanto escuro do bar, entre duas louras atraentes, embora um tanto maduras, e que esperavam que ele dissesse qualquer coisa. Mas ele nada dizia; conservara-se silencioso quase toda a noite e, no momento, em seu clube particular de Beverly Hills, parecia ainda mais distante, olhando através da fumaça e da obscuridade para o salão além do bar, onde dezenas de jovens casais sentavam-se juntinhos ao redor das mesas, ou contorciam-se na pista, ao som do folk–rock despejado pelo estéreo. As duas louras sabiam, assim como os quatro amigos de Sinatra que se encontravam nas proximidades, que seria má idéia impor-lhe conversação quando ele se inclinava ao silêncio taciturno, disposição freqüente naquela primeira semana de novembro, um mês antes do seu quinquagésimo aniversário.</p>
<p> “Sinatra estava doente. Era vítima de moléstia tão comum que a maioria a considera trivial. Mas, tratando-se de Sinatra, era capaz de mergulhar a vítima num estado de angústia, depressão profunda, pânico e até raiva. Frank Sinatra estava resfriado.</p>
<p> “Sinatra resfriado é Picasso sem tintas, Ferrari sem gasolina – só que pior&#8230; Pois o resfriado comum rouba-lhe aquela jóia inestimável, a voz, mergulhando até o âmago de sua segurança e afetando não só a psique como também aparentemente causando uma espécie de coriza psicossomática em dezenas de pessoas que trabalham, bebem, amam com ele e dele dependem para o seu bem-estar e estabilidade. Sinatra resfriado pode, de certo modo, causar vibrações que percorrem toda a indústria do entretenimento e vão mais além, tão certo como o presidente dos Estados Unidos, adoecendo subitamente, pode abalar a economia nacional”.</p>
<p> (Em determinado momento, ele afastou–se do bar e caminhou para uma sala ao lado, onde um de seus amigos disputava uma partida de sinuca. Encostou-se em um banquinho e pôs-se a observar os jovens que por ali circulavam – e que, definitavamente, não faziam seu gênero – concentrando-se em um sujeito baixinho e irrequieto. O rapaz chamava-se Harlan Ellison, escritor em princípio de carreira. Calçava um par de botas Game Warden que lhe custara sessenta dólares, um preço alto na época. Voltemos a Gay Talese.)</p>
<p>“Finalmente, Frank Sinatra não conseguiu conter-se.</p>
<p>– Ei – gritou, voz ligeiramente áspera, que ainda assim apresentava aquela inflexão macio-cortante – essas botas são italianas?</p>
<p>– Não – respondeu Ellison.</p>
<p>– Espanholas?</p>
<p>– Não.</p>
<p>– São botas inglesas?</p>
<p>– Olhe, não sei, homem – replicou Ellison, olhando Sinatra de cenho franzido e voltando-lhe as costas.</p>
<p>A sala tornou–se subitamente silenciosa. (&#8230;) Sinatra encaminhou-se com aquele andar lento, arrogante, em direção a Ellison, e o ruído de seus passos era a única coisa que se ouvia.</p>
<p>– Está esperando uma tempestade?</p>
<p>Harlan Ellison desviou–se um passo.</p>
<p>– Ouça, há algum motivo para você falar comigo?</p>
<p>– Não me agrada a sua maneira de vestir.</p>
<p>– Detesto causar–lhe um choque, – replicou Ellison – mas visto-me como quero.</p>
<p>Ouviram–se então murmúrios na sala, e alguém disse:</p>
<p>– Vamos, Harlan. Vamos dar o fora daqui. (&#8230;)</p>
<p>Mas Ellison não se abalou.</p>
<p>– O que é que você faz? – perguntou Sinatra.</p>
<p>– Sou bombeiro.</p>
<p>– Não, não é – gritou um rapaz, que se encontrava do outro lado da mesa. – Ele escreveu <em>The Oscar</em>.</p>
<p>– Ah, é? – falou Sinatra. – Já vi e é pura merda.</p>
<p>– É estranho, porque ainda nem foi distribuído – replicou Ellison.</p>
<p>– Mas eu já vi – repetiu Sinatra – e é pura merda.</p>
<p> “A cena estava se tornando ridícula e, aparentemente, Sinatra não falava a sério, reagia apenas ao tédio ou ao desespero interior. Seja como for, após mais uma troca de palavras, Harlan Ellison saiu da sala.</p>
<p> “A história não ultrapassara três minutos. E três minutos depois de encerrada, Sinatra esquecera-a, provavelmente pelo resto da vida – assim como Ellison a recordará, provavelmente para o resto da vida”.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Sinatra certamente não falava a sério e certamente esqueceu o episódio. No ano seguinte, quando <em>The Oscar</em> foi filmado, havia uma cena em que um personagem famoso aparecia no palco, interpretando a si próprio, na entrega de uma das estatuetas. Era Frank Sinatra.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Gay Talese:</p>
<p>“Observei algo de sua faceta siciliana no verão passado, no bar Jilly’s, em Nova York, a única vez em que chegara às suas proximidades em data anterior àquela noite no clube da Califórnia. O Jilly’s, situado na Rua 52 Oeste, em Manhattan, é o local onde Sinatra bebe sempre que se encontra em Nova York.</p>
<p>“Alguns de seus amigos íntimos, todos conhecidos dos homens que guardam a porta do Jilly’s, conseguem uma escolta para penetrar até a sala dos fundos. Mas, uma vez ali, têm que se arranjar sozinhos. Uma noite, Frank Gifford, antigo jogador de futebol, não penetrou mais que um metro em três tentativas. Outros, que haviam chegado bastante próximo para apertar a mão de Sinatra, não o conseguiram; em vez, tocaram nos ombros, ou nas mangas, ou simplesmente postaram-se de modo a serem vistos e, após conseguir uma piscadela, um aceno ou um gesto de cabeça, ou talvez seu nome (ele tem uma memória fantástica para nomes) voltavam-se e iam embora. Haviam marcado o ponto.”</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Não é em todas as noites que o humor de Sinatra apresenta-se disponível para centralizar atenções. Ele também não tem a si próprio como seu único ídolo, mesmo para quem sabe, como sabemos, o volume de seu ego. Uma noite, no distante ano de 1966, ele jantava em relativa calma, longe do burburinho do Jilly’s, no restaurante Côte Basque, em Nova York. Em determinado momento, levantou–se e, com a elegância de sempre, terno impecavelmente cortado e sapatos brilhando, cruzou a sala com uma folha de papel em uma das mãos.</p>
<p>Parou ao lado de uma mesa em que jantava um homem igualmente elegante, baixinho, usando óculos de aro de tartaruga. Era Igor Stravinsky, o compositor russo. Sinatra estendeu–lhe a folha de papel.</p>
<p>– Poderia, por favor, conceder–me seu autógrafo?</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um peteleco no</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>pássaro de alabastro</strong></p>
<p>Sinatra é um homem totalmente imprevisível, de humor variável, e que reage por instinto. Uma das histórias que se contam dele, Talese a contou, envolvem uma jovem chamada Jane Hoag, repórter de <em>Life</em> em Los Angeles, e que freqüentava a mesma escola da filha de Sinatra, Nancy. Jane foi convidada a uma festa na casa da senhora Sinatra, em que Frank, que mantém relações cordiais com sua primeira mulher, serviu de anfitrião. No início da festa, Jane Hoag, apoiando-se a uma mesa, bateu acidentalmente com o cotovelo num par de pássaros de alabastro, um dos quais caiu ao chão, quebrando-se em pedacinhos. Súbito, lembra Jane, a filha de Sinatra exclamou: ‘Oh, era um dos prediletos de mamãe&#8230;’ – mas, antes que pudesse completar a frase, Sinatra fitou-a, furioso, forçando-a a calar-se, e, diante de quarenta convidados, que assistiam silenciosos à cena, aproximou-se e, com um peteleco, atirou ao chão o outro pássaro de alabastro, fazendo-o em pedacinhos. Em seguida, passando o braço pela cintura de Jane, disse, para colocá-la totalmente à vontade: ‘Não tem importância, menina’.</p>
<p> “A violência tem acompanhado Frank há anos (fala Kitty Kelley, biógrafa não autorizada de Sinatra), mas a maioria das pessoas sempre relutou em combatê–lo. Uma pessoa que o fez foi Frank J. Weinstock. Agente de seguros de Salt Lake City, ele processou Sinatra por assalto e agressão, dizendo que Frank dera ordens para que fosse agredido por Jilly Rizzo e Jerry ‘O Demolidor’ Arvenitas, em um restaurante de Palm Springs. Ele disse em sua queixa que estava no banheiro do Trinidad Hotel, no dia 5 de maio de 1973, quando Frank entrou com seus guarda-costas e disse: ‘Aí está o esperto filho da puta que quer interceptar minha mulher’. Frank estava no restaurante jantando com a mulher Barbara Marx e outras pessoas. Weinstock estava com sua mulher e alguns parentes.</p>
<p>– Você está brincando – disse Weinstock. – Você não pode acreditar no que está dizendo. Eu não conheço sua mulher. Eu nunca a vi antes em minha vida. Eu não sei do que você está falando. Olhe, não é você o Sinatra sobre o qual li que pode ter todas as mulheres que quiser? Você quer realmente dizer que tem medo de mim? Eu, um caipira de Salt Lake City, Utah, incomodando um homem poderoso como você?</p>
<p>– Tenha respeito pelo chefe – disse um dos guarda-costas de Frank. – Mantenha suas mãos para baixo se quer continuar a viver, e faça aquilo que dissermos para fazer. Ponha suas mãos para cima e vou quebrar todos os ossos que você tem no corpo.</p>
<p>– Olhe, seu filho da puta, o nome é Frank, ou Senhor Sinatra – disse Frank, que então estalou os dedos para sua turma. – Ok, rapazes – e os três deixaram o banheiro.</p>
<p> “Minutos depois, de volta ao salão, Weinstock foi agredido por vários homens, que o deixaram com ferimentos, cortes no rosto e marcas por todo o corpo. Aterrorizada, sua irmã correu para Frank.</p>
<p>– Senhor Sinatra, – ela disse – o senhor deve ter cometido um engano. Este é meu irmão. Ajude-o, por favor’.</p>
<p>– Não fale comigo, garota – respondeu Frank.”</p>
<p>Depois disso, termina o relato, Frank e seus amigos foram embora pela porta da cozinha.</p>
<p>Weinstock processou Sinatra e sua turma. No fim do processo, Jilly Rizzo, o dono do Jilly’s e amigo inseparável, foi condenado a pagar 101 mil dólares a Weinstock. Sinatra e Jerry ‘O Demolidor’ foram absolvidos.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Todas as fichas por</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>um lugar na eternidade</strong></p>
<p>Em 1952, casado com Ava Gardner logo após o divórcio de Nancy, Frank Sinatra apaixonou-se por um soldado. Um soldado de ficção, o torturado Angelo Maggio da obra de James Jones, que ficou conhecendo ao ler o roteiro de <em>From Here to Eternity</em> (<em>A Um Passo da Eternidade</em>). Ele sentiu que o papel do soldado Maggio era o seu papel, e que aquela poderia ser a maior chance de sua vida desde o dia em que, num show em Hoboken, com Nancy ao seu lado, decidiu seguir os passos de Bing Crosby.</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-eternity.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1523" title="frank eternity" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-eternity.jpg" alt="" width="550" height="448" /></a>Só que Harry Cohn, o chefe dos estúdios Paramount, disse não a Sinatra e anunciou que contrataria Eli Wallach. Sinatra contra-atacou. Em primeiro lugar, pediu a Ava Gardner que tentasse convencer Cohn. Ela não conseguiu. Pediu então que Ava tentasse convencer a mulher de Cohn a convencê-lo. Nada. Sinatra foi ao produtor do filme, Buddy Adler. Adler disse não. Sinatra marcou um encontro com o próprio Cohn. “Nós precisamos de um ator. Você é um cantor, não um ator” – disse–lhe Cohn. Sinatra respondeu que, como em outras produções, queria apenas 150.000 dólares pelo papel. Cohn abanou a cabeça. Sinatra mandou dizer que aceitaria 1.000 dólares por semana, 8.000 dólares pelo total de oito semanas, o tempo da produção.</p>
<p>Cohn mandou-lhe um telegrama: o papel era dele.</p>
<p>Esta é a história oficial. A lenda – algo que jamais poderá ser dissociado do nome Frank Sinatra – é outra, e milhões de pessoas a leram e viram nas telas, em <em>O Poderoso Chefão</em>, de Francis Ford Coppola e Mario Puzo. Don Corleone – seria novamente o senhor Moretti? – “convenceu” o produtor a entregar o papel a Frank. Harry Cohn teria cedido depois que a cabeça de seu cavalo de 500.000 dólares foi cortada e colocada em sua cama, enquanto dormia.</p>
<p>Mario Puzo tem uma interessante história a contar. Ele havia acabado de escrever <em>The Godfather</em>, <em>O Chefão</em>, e o manuscrito estava com seus editores. Começaram a surgir mexericos de que, um dos personagens, Johnny Fontane – um cantor que, com a ajuda da Máfia, consegue um papel em um filme – havia sido inspirado em Frank Sinatra. Antes da publicação do livro, os editores receberam uma carta dos advogados de Frank pedindo para ver o texto. O que foi polidamente recusado.</p>
<p>– No ano seguinte – conta Mario Puzo – quando trabalhava no script, fui convidado para uma festa de um milionário em Hollywood. John Wayne e Sinatra estavam lá. Na saída, o milionário pegou-me pelo braço e me levou até um grupo de pessoas. ‘É preciso que você conheça Frank,’ – disse – ‘é um dos meus melhores amigos. Eu gostaria que você conhecesse Mario Puzo,’ – disse ele a Sinatra – ‘é um dos meus amigos’. ‘Acho que não tenho vontade de conhecê-lo’, – respondeu Sinatra.</p>
<p>– O milionário se desmanchou em desculpas. Quase chorava. ‘Frank, estou desolado, meu Deus, Frank, eu não sabia, estou angustiado&#8230;’</p>
<p>- Sinatra cortou–lhe a palavra. Com sua voz de veludo, disse–lhe: ‘A culpa não é sua’.</p>
<p>– Eu sempre evito discussões, –continua Puzo – mas não pude deixar de dizer a Sinatra: ‘Escute, a idéia não partiu de mim’.</p>
<p>– Então aconteceu a coisa mais extraordinária possível. Sinatra enganou-se completamente com o sentido de minha resposta. Pensou que eu me desculpava pelo personagem Johnny Fontane.</p>
<p> – Voz amável, ele perguntou: ‘Quem mandou você botar isso no seu livro – seu editor?’</p>
<p>– Fiquei estupefato. Finalmente disse: ‘Estou falando dessa idéia de nos apresentarem um ao outro’. Então Sinatra começou a insultar–me. Fiquei com a impressão de que ele detesta meu romance e pensa que eu o ataquei pessoalmente ao criar Johnny Fontane”.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Desbancando os Beatles</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>na parada de sucessos</strong></p>
<p>Frank Sinatra ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel do recruta Maggio em <em>From Here to Eternity</em>. Então, como que por mágica, seus discos voltaram às paradas musicais, com aumento das vendas e uma glória inesquecível, em 1966, quando gravou “Strangers in the Night” e desbancou os Beatles nas paradas de sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra.</p>
<p>Ele já havia se divorciado de Ava Gardner.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Nos jornais, em julho de 1966:</p>
<p><a href="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-e-mia.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1525" title="frank e mia" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2010/03/frank-e-mia.jpg" alt="" width="400" height="324" /></a>“A atriz Maureen O’Sullivan anuncia o noivado de sua filha, Mia Farrow, com o cantor Frank Sinatra. “Frank é uma ótima pessoa e eu sei que eles serão muito felizes”, disse a senhora O’Sullivan.</p>
<p>O casamento entre a jovem Farrow, 21 anos, e Sinatra, 50, está planejado para o final do ano.”</p>
<p> Nos jornais, em julho de 1966:</p>
<p>“Em decisão surpreendente, Frank Sinatra casou–se com Mia Farrow no Hotel Sands, em Las Vegas, em uma cerimônia de cinco minutos. O noivado do casal havia sido anunciado na semana passada. Ninguém da família de Sinatra, nem da senhorita Farrow, estava presente. Este é o terceiro casamento de Sinatra, e o primeiro de Farrow.”</p>
<p>Nos jornais, em dezembro de 1967:</p>
<p>Frank Sinatra e sua esposa há 16 meses chegaram a um acordo hoje em audiência de separação. O cantor, de 52 anos, concorda em que ele e Farrow, 22 anos, passaram muito pouco tempo juntos.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Ele voltou a casar–se, aos 60 anos, com Barbara Marx, ex–mulher de Zepo Marx, e com ela esteve no Brasil duas vezes.</p>
<p>Parece mais calmo ao lado de Barbara, mas jamais deixou as primeiras páginas dos jornais. Como, aos 75 anos, quando falava de Sinead O’Connor, a cantora irlandesa que encanta milhões de pessoas com sua voz macia e sensual. Falava para uma multidão, em um show no Garden State Arts Centre, de Nova York, e dizia:</p>
<p>– Se encontrar-me com ela, vou dar–lhe um chute no traseiro.</p>
<p>A multidão urrou, gargalhou e aplaudiu.</p>
<p>Quem mais, além de Sinatra, prometeria publicamente chutar o traseiro de Sinead O’Connor? Quem mais, além de Sinatra, ameaçaria chutar o traseiro de alguém aos 75 anos de idade?</p>
<p>(Motivo da ameaça de Sinatra a O’Connor: ela havia se recusado a cantar naquele mesmo estádio, dias antes, se sua apresentação fosse precedida do hino nacional norte–americano, como é de praxe no Garden State Arts Centre. O’Connor não respondeu ao cantor.)</p>
<p>Quem mais, além de Sinatra, surpreenderia o mundo gravando um punhado de canções aos 78 anos e passando uma rasteira nos primeiros lugares das paradas de sucesso? Pois foi o que ele fez com <em>Duets</em>, no final de 93. O projeto previa a participação de Liza Minelli, Barbra Streisand, Tony Bennett e Julio Iglesias, entre outros, mas poucos acreditavam que Sinatra, que não entrava em um estúdio de gravação havia sete anos, e com a voz rouca pela idade, pudesse fazê–lo.</p>
<p>Quando ele pegou o microfone, e começou a cantar, as pessoas sentiram que algo de mágico estava acontecendo. Cantou com tanta emoção e empenho na interpretação que a orquestra o aplaudiu demoradamente no final. Foi um sucesso mundial. Em fevereiro do ano passado a Associação da Indústria de Discos da América deu a Sinatra o primeiro disco de multi-platina de sua carreira, pelos dois milhões de exemplares de <em>Duets</em> vendidos. Ele já havia recebido um disco de platina, em 1966, com a gravação de “Strangers in the Night”. Recebeu também, em 55 anos de carreira, 21 discos de ouro.</p>
<p>Não satisfeito com o sucesso de <em>Duets</em>, ele o fez de novo, e lançou <em>Duets II</em>.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Memória fraca ganha</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>apelido: malandragem</strong></p>
<p>Há muito se diz que Sinatra não pode mais cantar, que esquece letras que canta há mais de 50 anos, que a esclerose o atacou. Mas, como Sinatra é Sinatra, tudo isso vem também cercado de lenda e desconfiança: não será malandragem? Não estará fingindo? Um episódio divertido foi contado por Nelson Motta, aqui mesmo, no <em>Estadão</em>.</p>
<p><em>Duets</em> estava sendo planejado e alguém propôs a ele que gravasse com Bono. Ficou furioso, gritou palavrões e quase recorreu a sopapos. Achou que se tratava de Sonny Bono, cantor medíocre que, acha Motta, tem como único crédito ter sido marido de Cher, com quem fez a dupla Sonny and Cher, de quinta categoria. Explicaram a ele que não, que se tratava do irlandês Bono Vox, excelente cantor. Ele não se lembrava de Bono Vox. Colocaram um CD de Bono para rodar, e Sinatra adorou.</p>
<p>Gravaram a maravilhosa “I’ve Got You Under My Skin”, Sinatra cantando em Los Angeles, Bono em Dublin.</p>
<p>Algum tempo depois, na fase de divulgação do disco, a produção marcou a gravação de um clipe promocional, com Bono e Sinatra cantando a música em um bar de Palm Springs. Bono estava lá. Sinatra foi levado por assessores. No meio da confusão, quando a técnica preparava câmaras, microfones e luzes, alguém informou a Sinatra de que se tratava. Ele explodiu:</p>
<p>– Que história é essa? Que vídeo? Que dueto? Tô fora.</p>
<p>Bono espantou–se. A produção então, cheia de mesuras e salamaleques, tentou acalmar Frank, pediu–lhe que pelo menos posasse para algumas fotos ao lado de Bono. E Bono praticamente foi à lona com a resposta dele:</p>
<p>– Quem é esse cara?</p>
<p>O desastre tinha acontecido e era irreversível. Recorreu–se então ao expediente de dizer a Sinatra que não era nada demais: tratava–se apenas de tirar algumas fotos que o dono do bar guardaria como recordação. Ele concordou, posou para duas ou três fotos, alegou que um avião o esperava e bateu em retirada. Bono teve certeza de que ele fingia. Comentou com amigos: Sinatra diz que não se lembra das coisas quando acha que o estão incomodando.</p>
<p>É possível que haja uma dose de malandragem. Mas, certamente, não é só isso. Pouco tempo depois do incidente com Bono, no dia 6 de março de 94, um domingo, Frank dava um concerto em Richmond, na Virgínia, no teatro Richmond Mosque. A orquestra tocava “My Way”, e ele cantava os versos desta que é uma de suas canções mais famosas. Mais duas músicas e o concerto estaria terminado, mas Sinatra estava visivelmente incomodado pelo forte calor, e tinha um lenço nas mãos, que passava no rosto, no queixo. “My Way” estava sendo demais para ele, e então pediu uma cadeira ao filho Frank Jr., diretor da orquestra.</p>
<p>Antes que a cadeira chegasse, a platéia viu, perplexa, Frank Sinatra desabar no palco. Foi um momento tenso: todo o teatro emudeceu, e as pessoas passaram a acompanhar, no mais absoluto silêncio, o trabalho dos enfermeiros que o socorriam, abriam seu colarinho e o colocavam em uma cadeira de rodas. Ao ser retirado, ele, com muita dificuldade, tentou um aceno para a platéia. As 3.700 pessoas presentes, em pé, o aplaudiram forte e demoradamente.</p>
<p>Foi atendido no hospital local, onde ficou três horas antes de receber alta e voar em seu jato particular para a Califórnia.</p>
<p>Alguns meses depois voltou a sentir–se mal, um de seus shows foi cancelado e seu staff anunciou que ele não mais participará de shows ao vivo.</p>
<p>Depois disso os jornais disseram que Frank Sinatra está surdo, e só consegue ouvir música com fones de ouvido. Que sofre do mal de Alzheimer. Que tem câncer. O <em>Jornal da Tarde</em>, de São Paulo, noticiou que ele pode vir a Pouso Alegre, em Minas Gerais, para tratar-se com o paranormal Thomaz Green Morton. Sabe-se que a mulher de Sinatra, Barbara, vendeu a casa que tinha em Palm Springs, e o casal mudou-se para Los Angeles. Onde os médicos estão mais próximos.</p>
<p> A última aparição pública de Frank Sinatra foi na segunda quinzena de setembro passado, em Los Angeles, na estréia de uma ópera. Apoiava-se em Barbara, usava aparelho para surdez, tinha uma barba branca cortada à Abraham Lincoln e estava sem peruca, a careca à mostra.</p>
<p>Nesta terça–feira, 12, ele completa 80 anos.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Em fevereiro de 1963 a revista <em>Playboy</em> trazia uma entrevista com Frank Sinatra. Uma coisa excepcionalmente difícil, porque Sinatra não dá entrevistas.</p>
<p><em>Playboy</em>: Você acredita em Deus?</p>
<p>Sinatra: Acho que posso resumir meus sentimentos religiosos em poucos parágrafos. Primeiro: eu acredito em você e em mim. Sou como Albert Schweitzer e Bertrand Russel e Albert Einstein, na medida em que tenho respeito pela vida, sob qualquer forma. Eu acredito na natureza, nos pássaros, nos oceanos, no firmamento, em tudo o que posso ver ou que tenha evidências reais. Se essas coisas são aquilo que você chama de Deus, então acredito em Deus. Mas não acredito em um Deus pessoal, no qual eu procuro conforto ou a vitória em um jogo de dados. Não sou inconsciente em relação à necessidade de o homem ter fé. Sou a favor de qualquer coisa que faça você atravessar a noite, sejam orações, tranquilizantes ou uma garrafa de Jack Daniels. Mas, para mim, religião é uma coisa mais profundamente pessoal, na qual o homem e Deus vão juntos por si só, sem intermediários. Não é necessário para nós ir à igreja aos domingos para alcançá-Lo. Você pode encontrá-Lo em qualquer lugar. E, se isso soa herético, minha fonte é muito boa: Mateus, versículos cinco a sete, Sermão da Montanha.</p>
<p><em>(Estive em um show de Sinatra em Atlantic City, em 1980, mas se quisesse realmente vê-lo naquela ocasião teria que usar um binóculo, e potente. Já na visita dele a São Paulo, no Maksoud Plaza, em 13 de agosto de 1981, eu estava ao lado do palco. Vi quando reclamou do uísque: “Muita água, ou soda, não sei o que”, e quando disse a um insistente senhor da platéia que não poderia cantar ‘The Shadow of Your Smile’ porque não sabia a letra: “Eu realmente não sei”.</em></p>
<p><em>Mas as informações que utilizei neste perfil foram obtidas em inúmeras reportagens, artigos e livros sobre Sinatra, principalmente </em>Fame and Obscurity<em>, Doubleday, N. York, 1970, de Gay Talese, em que ele coloca um de seus textos mais famosos – “Frank Sinatra está resfriado”. </em>Fame<em> foi traduzido no Brasil pela primeira vez pela editora Expressão e Cultura com o título </em>Aos olhos da multidão<em>. E depois, em 2004, pela Companhia das Letras, com a tradução do título original, </em>Fama e anonimato<em>. Outras fontes foram </em>His Way<em>, Bantan Books, N. York, 1986, biografia não autorizada, por Kitty Kelley; </em>Sinatra<em>, Hamlyn Publishing Group, 1978, por Alan Frank, </em>Legend: Frank Sinatra and the American Dream<em>, Boulevard Books, N. York, 1995, uma compilação de mais de 50 anos de reportagens, artigos e críticas na imprensa reunidos por Ethie Ann Vare. Além, é claro, de jornalistas e autores já citados ao longo do texto.)</em></p>
<blockquote><p>Esta reportagem foi escrita para <em>O Estado de S. Paulo</em> e publicada em 10 de dezembro de 1995, por ocasião dos 80 anos do cantor.</p></blockquote>
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		<title>Juízes de futebol, gatunos ou não</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jan 2010 03:09:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
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		<description><![CDATA[O gatunos do título devo a Nelson Rodrigues, que teceu as mais saborosas crônicas sobre o juiz ladrão. Como diria ele, vamos aos fatos, pelo menos a um deles: “Mas em 1918, 17 ou 16, os gatunos constituíam uma briosa fauna, uma luxuriante flora. Evidentemente, havia as exceções. Mas os salafrários podiam apitar as partidas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O gatunos do título devo a Nelson Rodrigues, que teceu as mais saborosas crônicas sobre o juiz ladrão. Como diria ele, vamos aos fatos, pelo menos a um deles: <span id="more-819"></span></p>
<p>“Mas em 1918, 17 ou 16, os gatunos constituíam uma briosa fauna, uma luxuriante flora. Evidentemente, havia as exceções. Mas os salafrários podiam apitar as partidas e com que glorioso, com que genial descaro! Certa vez, foi até interessante: — existia um juiz que era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um domingo, ele vai apitar um jogo decisivo. Que fazem os adversários? Tentam suborná-lo. Ora, o canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável. E o homem optou pela solução mais equânime: — levou bola dos dois lados. Justiça se lhe faça: — roubou da maneira mais desenfreada e imparcial os dois quadros. Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão. Mas o gângster já se antecipara, já estava pulando muros e galinheiros. Era uma figurinha elástica, acrobática e alada. Isto foi em 1917. O juiz gatuno está correndo até hoje.”</p>
<p>Vou aqui relembrar alguns episódios de juízes (gatunos ou não) que se tornaram célebres no futebol brasileiro. Um deles, o folclórico Mário Vianna, personagem desta historinha publicada anos atrás pela revista <em>Placar</em>:</p>
<p>“Corinthians e Bangu jogavam no Pacaembu pelo Torneio Rio-São Paulo em 1952. Partida dura. Baltazar entrou de mau jeito num adversário e Mário Vianna o expulsou. Os outros corintianos se aproximaram para reclamar e ele foi avisando:<br />
- Não falem comigo, que também expulso vocês.</p>
<p>Goiano e Luizinho esboçaram um leve protesto.<br />
- Mas seu juiz&#8230;<br />
- Eu disse que não falassem comigo. Pra fora os dois.</p>
<p>Em Minas houve o famoso Cidinho Bola Nossa, atleticano fanático. O episódio abaixo foi postado por “Sapo Barbudo”, em 2004, na internet. Ele teve como fonte a revista <em>Placar</em>:</p>
<p>“Nos 25 anos como juiz, Cidinho – Alcebíades de Magalhães Dias – escapou de muitos linchamentos e ganhou o apelido de Bola Nossa devido ao seu amor pelo Atlético Mineiro. Ele mesmo conta esta história: ‘Atlético e Botafogo jogavam na inauguração do estádio do Cruzeiro em 1949. Afonso e Santo Cristo disputavam a bola para saber de quem era o lateral. Quando o beque do Atlético me perguntou de quem era a bola, deixei escapar uma frase que me acompanhou para o resto da vida – É nossa, Afonso, a bola é nossa’.</p>
<p>O entusiasmo foi tão grande que Santo Cristo saiu sorrindo e contou aos companheiros. Augusto Rocha, jornalista de <em>O Veneno</em>, ouviu tudo e no dia seguinte conseguiu vender mais de 2 mil exemplares em Belo Horizonte com a seguinte manchete – “O Galo pariu um rato.”</p>
<p>Também de “Sapo Barbudo” citando a <em>Placar</em>:</p>
<p>“O mesmo aconteceu com João Felix Junior num América x Atlético, em 1950, quando a torcida viu o primeiro clássico no velho Estádio Independência.<br />
- Foi falta ou impedimento? &#8211; perguntou o atacante Vaguinho do América.<br />
E João Felix virava constantemente a palma da mão.</p>
<p>Não entendendo, Vaguinho voltou a perguntar. Foi expulso por desrespeito à autoridade.<br />
O juiz queria dizer que a bola era do Atlético, pois em sua mão estavam pintadas as cores do Galo.”</p>
<p>Outro juiz inesquecível foi Armando Marques – Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques, que durante 25 anos apitou no futebol brasileiro. A fonte é sempre a revista <em>Placar</em>:</p>
<p>“Em 1973, na final do campeonato paulista, Santos e Portuguesa decidiram o titulo na cobrança dos pênaltis. Quando a Portuguesa ainda tinha condições de empatar, Armando pegou a bola e acabou o jogo com o Santos campeão. Quando percebeu o erro quis voltar atrás, mas os times já estavam nos vestiários. A Federação terminou proclamando Santos e Portuguesa campeões paulistas de 1973.</p>
<p>Outra confusão aconteceu em 1974. Nilton Santos era assessor técnico do Botafogo. Quando Armando foi chamar a atenção do ex-craque com o dedo em riste, recebeu de Nilton um soco que o atirou escadaria abaixo no túnel do Maracanã.”</p>
<p>A historinha a seguir teve como personagens Romeu Ítalo Ripoli, presidente do XV de Novembro de Piracicaba, e o juiz paulista Olten Ayres de Abreu. A fonte é <em>A Província Online</em>, de Cecílio Elias Netto e Milton Neves.</p>
<p>“Há pouco tempo, o amigo Antônio Ulisses Micchi – radialista de voz inigualável, à época – lembrou do fato que, parecendo folclórico, foi absolutamente real. Em almoço, lá estávamos, “en petit comité”: José Ermírio de Morais, Olten, Rípoli, Luiz Cunha e outros radialistas e repórteres.<br />
Ao final do almoço, Rípoli anunciou: “Agora, um vinho especial para o Olten, um vinho que eu trouxe da Itália.” José Ermírio sorriu, feliz diante de tanto cavalheirismo. Olten, o chefe dos juízes, sentiu-se glorioso. Mas Rípoli impôs uma condição: “O Olten tem que ir buscá-lo. Está na geladeira.”<br />
Não me lembro se o Olten retornou à mesa com o vinho, sem o vinho, se alguém o experimentou. Sei que, no dia seguinte, os jornais explodiam em manchetes indignadas: ‘Olten denuncia: Rípoli tentou suborná-lo’. Em vez de vinho, Olten dizia que Rípoli lhe oferecera dinheiro: ‘Ele deixou embrulhado num pacote, dentro da geladeira’. Deu processo, confusão, mas Rípoli não se abalou. Juro pelos céus que nunca soubemos a verdade.<br />
Depondo sobre o assunto, Rípoli tentou inverter a situação: ‘Eu é que denuncio o Olten: é um larápio. Ele roubou o meu dinheiro. Pois a geladeira é minha, o dinheiro é meu. Se é meu, ponho o dinheiro onde eu quiser’.”</p>
<p>Agora voltemos a Nelson Rodrigues, agora comparando gatunos e juízes honestos.</p>
<p>“A arbitragem normal e honesta conferiu ao clássico um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permitem, shakespeariana. O espetáculo deixa de se resolver em termos especificamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve, no time prejudicado e respectiva torcida, esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe, adormecido, no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue.”</p>
<p><em></em> </p>
<blockquote><p><em>Janeiro 2010</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Michelangelo</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Aug 1977 20:25:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Vaz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anélio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Quase aos gritos, eles discutem: – Vocês, escultores, trabalham com os músculos, com a força do braço, com o suor imundo. – Você, que diz que a pintura é mais nobre que a escultura, não sabe nada, não entende nada. Os dois homens estão em uma das ruas de Florença, falando alto, gestos exaltados, insultos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quase aos gritos, eles discutem:</p>
<p>– Vocês, escultores, trabalham com os músculos, com a força do braço, com o suor imundo.</p>
<p>– Você, que diz que a pintura é mais nobre que a escultura, não sabe nada, não entende nada.</p>
<p>Os dois homens estão em uma das ruas de Florença, falando alto, gestos exaltados, insultos. O primeiro retruca:<span id="more-495"></span></p>
<p>– Com a poeira do mármore no corpo você mais parece um padeiro. Sua casa é uma imundície de lascas de pedra, de poeira&#8230;</p>
<p>Volta o segundo:</p>
<p>– Se você entende de todas as coisas como entende disso, posso garantir que minha arrumadeira sabe bem mais que você.</p>
<p>Novos gritos, novos gestos, entra a turma do deixa disso e os dois se afastam, gritando ainda.</p>
<p>O primeiro vai para casa e concentra-se no cavalete em que está pintando sua Monalisa: é Leonardo da Vinci. O segundo chega à Piazza della Signoria e vê o Davi que acabara de esculpir: é Michelangelo Buonarroti. Respeitam tanto o trabalho um do outro que se odeiam.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-546" title="AV001628" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/davi.jpg" alt="AV001628" width="400" height="588" />Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni nasceu no distrito de Cosentino, em Caprese, uma pequena vila perto de Arezzo, na Toscana, às margens do Arno. Era o dia 6 de março de 1475, um domingo, por volta das oito da noite; Mercúrio o ascendente direto, com Venus entrando na casa de Júpiter. Sua mãe foi Francesca di Neri del Miniato del Sera, descendente dos nobres condes de Canossa, e seu pai Lodovico di Lionardo Buonarroti Simoni, que na época tinha em Caprese um cargo equivalente a prefeito, provavelmente seu primeiro emprego.</p>
<p>Os Buonarroti eram uma família de projeção e sucesso até poucos anos antes, quando o avô de Michelangelo, que vivia de rendas e juros, perdeu todo seu capital. Lodovico e um irmão herdaram uma casa e uma pequena fazenda. Consta que o pai de Michelangelo foi um homem medíocre, orgulhoso demais para trabalhar para viver, e pobre demais para viver bem, capaz de dar ao filho conselhos como este:</p>
<p>“Acima de tudo, tenha cuidado com sua cabeça. Mantenha-a moderadamente aquecida, e nunca se banhe. Limpe-se, mas nunca tome banho.”</p>
<p>Michelangelo tinha apenas algumas semanas de vida quando a família mudou-se para Florença, e ele foi entregue aos cuidados de uma ama de leite, na fazenda dos pais, em Settignano, porque a mãe estava ocupada demais com Lionardo, seu irmão mais velho, de pouco mais de um ano. Settignano era uma região que tinha pedras em abundância, e tanto o pai de sua ama de leite, como o marido, trabalhavam cortando pedras.</p>
<p>– Se tenho alguma inteligência – diria Michelangelo anos depois – foi por ter nascido no ar puro de Arezzo, e por ter bebido, junto com o leite de minha ama, o martelo e o cinzel com que faço minhas figuras.</p>
<p>Em um ponto ainda indeterminado de sua vida, entre os sete e os dez anos de idade, foi levado pelo pai para a escola de gramática de Francesco da Urbino – queriam fazer dele um homem de letras. Para desgosto da família, entretanto, o garoto queria desenhar. Apanhou muito do pai por causa disso: um Buonarroti desenhista? Lodovico não podia suportar tal idéia.</p>
<p>Um grande amigo dele, naquela época, era Francesco Granacci, um jovem aprendiz de pintura no ateliê de Domenico Ghirlandaio, que era considerado um dos grandes mestres em atividade. Granacci levava para Michelangelo esboços que Ghirlandaio lhe dava, e Michelangelo os copiava. Lodovico demorou a admitir que não conseguiria afastar o garoto do lápis e do papel, mas enfim, ouvindo o conselho de amigos, e com esperança de obter algum proveito, resolveu levar Michelangelo a Ghirlandaio. Não se sabe exatamente o que Michelangelo já havia aprendido até então, como também não se sabe como aprendeu a esculpir, mas o fato é que não começou como um aprendiz comum, porque, em vez de pagar pelas lições, Ghirlandaio é quem lhe pagava um salário.</p>
<p>Mais tarde, quando se tornou famoso, fez questão de lançar sombras sobre esse período: jamais admitiu ter sido um aprendiz como outros. É daqueles dias uma anotação que Lodovico deixou entre seus papéis:</p>
<p>“1488. Neste dia, o primeiro de abril, registro que eu, Lodovido di Lionardo di Buonarroti, coloquei meu filho com Domenico e David di Tommaso di Currado pelos próximos três anos com estes acertos e acordos: que o dito Michelangelo deve permanecer com os acima citados pelo período estipulado, para aprender a pintar e praticar esse negócio, e para fazer tudo o que os acima citados lhe ordenarem fazer, e, durante esses três anos, os mencionados Domenico e David devem lhe dar vinte e quatro florins novos – seis no primeiro ano, oito no segundo e dez no terceiro, num total de 96 liras”.</p>
<p>O aprendizado foi de dois anos, e o garoto não demorou a surpreender. Ghirlandaio utilizava uma técnica de bico de pena com traços rápidos e cruzados, para delimitar luz e sombra, e Michelangelo aprendeu e aperfeiçoou o método, com traços mais vigorosos. Ele passou a copiar Masaccio e Giotto nesse período, além de seu mestre, que em várias ocasiões teve a audácia de corrigir. Outra técnica que aprendeu foi a dos afrescos: Ghirlandaio havia começado a pintar a capela de Santa Maria Novella, e Michelangelo seguia atentamente seu trabalho.</p>
<p>Uma característica do professor, que se tornou paixão para o aluno: admirar arte antiga. Michelangelo copiava mestres da antiguidade com perfeição, e desenvolveu um recurso, “envelhecendo” seus desenhos com fumaça e outros artifícios, que tornava muito difícil, e às vezes impossível, distinguir a cópia do original. Aqui, a bem da verdade, é preciso registrar que fazia isso também por malandragem, porque muitas vezes guardou para si o original, e devolveu a cópia. Isso ficou registrado na biografia que fez dele Giorgio Vasari, pintor florentino, o primeiro a fazer crítica de arte, seu contemporâneo e amigo.</p>
<p>A qualidade de seu trabalho começava a destacá-lo entre os aprendizes do ateliê. Ele se destacou mais ainda ao copiar uma gravura, feita em cobre por Martin Schongauer, segundo Vasari (que também já a atribuiu a Albrecht Dürer), que havia chegado a Florença. A gravura mostrava Santo Antônio sendo atacado por demônios. Michelangelo fez a cópia em bico de pena e a coloriu, mas, antes de aplicar as cores, foi ao mercado comprar peixes. Então, levou os peixes para o ateliê e copiou a escala de tons de suas escamas na pintura dos demônios. Todos ficaram muito impressionados com o resultado.</p>
<p>Havia alguém, entre os alunos de Ghirlandaio, que pudesse interessar-se por escultura? Foi o que lhe perguntou Lorenzo de Medici, o Magnífico. Em seu jardim, perto da Piazza San Marco, Lorenzo havia colecionado um grande número de antiguidades, pelas quais pagou muito dinheiro. Ele mantinha um grupo de jovens artistas, que estudavam pintura e escultura, viu que vários deles certamente se tornariam excelentes pintores, e estava preocupado em formar também escultores, porque a pintura florescia naquela época, mas a escultura, nem tanto. Por isso, no jardim, entre suas antiguidades e os jovens artistas, ele tinha sob contrato o escultor Bertoldo Giovanni, ex-aluno de Donatello, encarregado de ensinar a arte da escultura. Teria Ghirlandaio um bom candidato para essas lições?</p>
<p>Ghirlandaio enviou-lhe alguns de seus melhores discípulos, entre eles Francesco Granacci e Michelangelo. Que encontraram lá, trabalhando em figuras de argila, sob orientação de Bertoldo, o jovem Pietro Torrigiani, da família Torrigiani. Michelangelo examinou as figuras de argila e passou a fazer algumas ele mesmo, tornando-se um rival cordial de Pietro. Lorenzo logo o notou, e passou a incentivá-lo.</p>
<p>Encontrando, entre as antiguidades do jardim, a cabeça danificada de um velho fauno, de nariz quebrado e boca sorridente, Michelangelo pegou um pedaço de mármore e passou a copiá-la. Vasari escreveu que foi esta a primeira vez que ele empunhou um cinzel para esculpir, mas o fez tão bem que deixou Lorenzo realmente impressionado. Ele não fez apenas uma cópia. Soltou sua imaginação e abriu o sorriso do fauno, fazendo-o de boca aberta, a língua e os dentes à mostra.</p>
<p>   Admirado, Lorenzo brincou com ele:</p>
<p>– Você deveria saber que os velhos nunca têm todos os dentes, que alguns deles sempre faltam.</p>
<p>Assim que Lorenzo se foi, Michelangelo pegou o martelo e o cinzel, quebrou um dos dentes do fauno e esculpiu uma cavidade ali, como se ele tivesse o dente arrancado pela raiz. E ficou esperando, ansioso, pela volta de Lorenzo. Que só voltou no dia seguinte e, vendo o que Michelangelo havia feito, riu muito e o cumprimentou pela simplicidade com que resolveu o problema, e pelo ótimo resultado. O episódio divertiu Lorenzo, que o contou a todos os amigos; depois, procurou o pai do jovem aluno e pediu-lhe que permitisse a Michelangelo mudar-se para sua casa, onde o trataria como filho. Lodovico concordou.</p>
<p>Àquela altura Michelangelo já começava a despertar o ciúme e a inveja de alguns de seus colegas, especialmente de Pietro Torrigiani. Não apenas porque seu trabalho adquiria qualidade e reconhecimento, mas também porque desenvolvia uma ironia e uma dose de arrogância que o acompanhariam pelo resto da vida. Certa vez, quando já avançado em anos e, portanto, famoso, foi procurado por alguém que havia pintado uma Pietá, e queria sua opinião. O trabalho não era muito bom. Michelangelo observou-o, olhou bem para seu autor e respondeu com um trocadilho:</p>
<p>– Si, é veramente una pietá vederla (é realmente uma pena vê-la).</p>
<p>Em outra ocasião, apresentaram-lhe um garoto com muitas recomendações, e o garoto trazia um desenho que havia feito. A expressão de Michelangelo ao ver o desenho deve ter significado alguma coisa, pois imediatamente os circunstantes passaram a defender o garoto, dizendo que apenas há muito pouco tempo ele havia começado a desenhar.</p>
<p>– Isso é óbvio – respondeu.</p>
<p>Mas, na juventude, em pelo menos uma ocasião ele se deu mal. O incidente foi contado por Pietro Torrigiani a Benvenuto Cellini, o grande escultor:</p>
<p>– Buonarroti e eu costumávamos ir juntos, quando garotos, estudar a capela de Masaccio na igreja do Carmine. Buonarroti tinha o hábito de ironizar todos os que estavam desenhando ali, e um dia ele me provocou tanto que perdi a cabeça. Dei-lhe um tal murro no nariz que senti o osso e a cartilagem quebrando como se fossem biscuí. Então aquele sujeito vai carregar a minha assinatura até a morte.</p>
<p>De fato, Michelangelo carregou aquele nariz torto de boxeador pelo resto da vida. Mas, segundo Vasari, o motivo do formidável soco foi ciúme e inveja, e não provocação.</p>
<p>Michelangelo tinha 15 anos quando foi morar na casa de Lorenzo, onde conviveu com Bertoldo, com o poeta Angelo Ambrogini, chamado Poliziano, e os filhos de Lorenzo, entre eles Giovanni, futuro Papa Leão X, Giuliano e Giulio, mais tarde Papa Clemente VII.</p>
<p>Sob a orientação de Bertoldo Giovanni, ele dificilmente deixaria de estudar Donatello, e o fez principalmente em um baixo-relevo, a Madona dos Degraus, que executou no estilo do mestre e foi sua primeira escultura religiosa.</p>
<p>Poliziano gostou muito de Michelangelo, incentivou-o em seus estudos e contou-lhe muitas histórias, sugerindo que trabalhasse com elas. Uma foi a mitológica batalha dos gregos com os centauros, que resultou em um alto-relevo em mármore retratando um grupo de homens em batalha, os torsos retorcidos, formando um conjunto de muita força. Pela lenda, metade daqueles homens eram centauros, mas Michelangelo os retratou de maneira tal que os corpos de cavalo não aparecem. Ele abordava assim, pela primeira vez, um tema que retomaria ao logo de toda a vida: figuras poderosas de homens nus. Esse relevo foi terminado por ele logo depois da morte de Lorenzo, quatro anos após sua chegada à casa dos Medici, em 1492.</p>
<p>Voltou então para a casa do pai e concentrou-se no estudo de anatomia. Fazia isso no hospital do Espírito Santo, onde o prior permitia que dissecasse os corpos dos mortos. Em agradecimento, ele esculpiu um crucifixo em madeira, que foi colocado no altar da capela.</p>
<p>Sem encomendas, resolveu trabalhar para seu próprio prazer. Comprou um grande bloco de mármore e esculpiu um Hércules, que ofereceu e vendeu para a família Strozzi.</p>
<p>O patrono dos Medici, então, era Piero, o filho mais velho de Lorenzo, que intelectual e politicamente ficava quilômetros atrás do pai, e cultivava estranhos caprichos. Uma pesada nevasca havia caído sobre Florença, e Piero chamou Michelangelo para esculpir um boneco de neve em seu jardim. Michelangelo o fez, e deixou Piero tão satisfeito que o convidou para ir novamente morar em sua casa.</p>
<p>Não só a arte com o cinzel impressionava nele. Ao longo de toda sua vida os amigos admiravam também o seu raciocínio e as suas tiradas. Um dia vieram lhe contar que Sebastiano Veneziano ia pintar um frade na capela de São Pedro, em Montorio.</p>
<p>– Que pena – respondeu. – Isso vai arruinar a capela.</p>
<p>– Ora, por que?</p>
<p>– Veja, os frades já arruinaram o mundo, que é uma coisa muito grande. Não será difícil para eles arruinar uma capela, que é tão pequena.</p>
<p>Ele teve um amigo que se tornou padre, fazia pouco tempo que começara a rezar missa, e encontrou-se com ele, um belo dia, em Roma. Vinha todo enfeitado, com cintos dourados, sedas e capa, e o cumprimentou. Michelangelo fingiu não reconhecê-lo, o que o obrigou a dizer o nome.</p>
<p>– Ora, você me parece ótimo! – exclamou. – Se você fosse tão bonito por dentro como vejo que é por fora, isso faria muito bem à sua alma.</p>
<p>Florença vivia tempos difíceis em 1494: estava entrando em recessão econômica e era agitada por inquietações religiosas. Girolamo Savonarola, frei dominicano, fazia turbulentas pregações, denunciando a vida pecadora dos florentinos e a corrupção da Igreja, e profetizava castigos terríveis que se abateriam sobre Florença. Dando ainda mais peso às palavras de Savonarola, o rei francês, Carlos VIII, invadiu a Itália. Tudo isso inquietava bastante Michelangelo, e talvez a gota d’água tenha sido a morte de Poliziano, em setembro. O fato é que, no início de outubro, ele deixou Florença pela primeira vez.</p>
<p>Foi inicialmente para Veneza, ficando pouco ali, partindo em seguida para Bolonha, onde teve a sorte de ser procurado por Gianfrancesco Aldrovandi, um intelectual rico, conhecedor da cultura e literatura florentinas, que o convidou para ficar em sua casa. Aldrovandi foi extremamente gentil com Michelangelo, a quem homenageava seguidamente. Michelangelo, por sua vez, lia para ele todas as noites, até que dormisse, trechos de Dante, Petrarca e Boccacio. Aldrovandi era apaixonado por sua pronúncia toscana.</p>
<p>Ficou um ano na casa de Aldrovandi, que lhe conseguiu algum trabalho, especialmente três estatuetas – um anjo com um castiçal e dois santos – para o túmulo de São Domênico. Depois disso, em 1495, voltou para Florença.</p>
<p>– Quero que você me faça uma estátua de São João Batista, em mármore – disse-lhe Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, um primo de Lorenzo, o Magnífico.</p>
<p>Michelangelo fez o São João para Lorenzo e, em seguida, com um bloco de mármore que havia comprado para si próprio, esculpiu um cupido adormecido. Ele o fez em tamanho natural, ou seja, no tamanho que se acreditava terem os cupidos, e o mostrou a Lorenzo e a um amigo dele, Baldassare del Milanese, um comerciante.</p>
<p>– Se você o enterrar – disse Lorenzo – tenho certeza de que passará por uma peça antiga. E se você o mandar para Roma, dando-lhe um tratamento para que pareça velho, conseguirá mais dinheiro do que o vendendo aqui.</p>
<p>– Vou tratá–lo para que pareça antigo – respondeu Michelangelo – e depois o darei a Baldassare, para que o leve para Roma e veja se o vende lá.</p>
<p>Vasari registrou, na biografia, que realmente Michelangelo deixou seu cupido parecendo antigo.</p>
<p>“Ninguém deve se espantar com isso – escreveu ele – já que ele era suficientemente genial para fazer isso e muito mais”.</p>
<p>Comentou–se na época que, chegando a Roma, Baldassare del Milanese enterrou o cupido em um vinhedo de sua propriedade, e mais tarde, quando o desenterrou, ofereceu-o ao Cardeal Raffaele Riario, dizendo que se tratava de uma antiguidade. O Cardeal, um colecionador, comprou-o por 200 ducados.</p>
<p>Baldassare escreveu para Lorenzo que havia vendido a peça a Riario por 30 escudos, e pedindo-lhe que desse essa importância a Michelangelo. Mais tarde, entretanto, alguém disse ao Cardeal que ele havia sido enganado, e este exigiu seu dinheiro de volta. Depois, admirado, mandou um mensageiro a Florença, com ordens para trazer o autor do cupido à sua presença – queria conhecer o artista capaz de tal façanha.</p>
<p>Quando chegou a Roma, Michelangelo procurou logo Baldassare, pedindo o cupido e oferecendo-se para devolver os 30 escudos.</p>
<p>– Eu comprei o cupido e, se quiser, posso quebrá-lo em cem pedaços. Não há nada que me obrigue a devolvê-lo a você – respondeu ele.</p>
<p>Michelangelo, enfurecido, pulou sobre Baldassare, mas alguns amigos o seguraram.</p>
<p>– Vou recorrer ao Cardeal Riario – escreveu Michelangelo para Lorenzo de Medici, relatando o episódio. – Talvez o Cardeal o convença a devolver-me a criança (era como ele se referia ao cupido).</p>
<p>Baldassare não o devolveu. Em vez disso, tornou a vendê-lo, desta vez para Cesar Bórgia, o Duque Valentino (irmão de Lucrécia Bórgia), que o deu de presente à Marquesa de Mântova, que o levou para sua cidade. O cupido passou ainda pelas mãos de Isabella d’Este, antes de desaparecer. Hoje, está perdido.</p>
<p>Ainda em Roma, chamado pelo Cardeal Riario, Michelangelo foi visitá-lo. O Cardeal ficou feliz em vê-lo, e o levou para admirar a sua coleção de esculturas antigas.</p>
<p>– Você seria capaz de fazer peças tão lindas? – perguntou–lhe.</p>
<p>– Não seria possível para mim fazer maravilhas iguais, mas o senhor verá o que posso fazer. Começarei a trabalhar na segunda-feira.</p>
<p>Os registros são imprecisos quanto ao primeiro trabalho dele em Roma. Vasari diz que o cardeal não lhe fez encomenda alguma, enquanto outros biógrafos dizem que sim, por dois motivos: pertencia a ele o bloco de mármore que Michelangelo utilizou, e foi ele quem o manteve enquanto trabalhava. De fato, Michelangelo ficou com Riario quase um ano, e, em carta ao pai, dizia ter contas a acertar com o cardeal. Ele chegou a Roma a 25 de junho de 1496. No dia primeiro de julho de 97, escreveu:</p>
<p>– Não se admire por eu não ter voltado ainda, porque não pude terminar meus negócios com o cardeal, e não quero partir sem estar antes satisfeito e reembolsado pelo meu trabalho. Com esses grandes personagens a gente tem que ir devagar, uma vez que eles não podem ser pressionados; mas, em todo caso, espero deixar tudo esclarecido na semana que vem.</p>
<p>Para o cardeal Riario, ou para seu rico vizinho, o comerciante Jacopo Galli – ele também um colecionador de antiguidades e grande apreciador de esculturas – a história registra que o primeiro grande trabalho de Michelangelo, nesta sua primeira viagem a Roma, foi também a sua primeira obra-prima: Baco, que esculpiu aos 22 anos de idade. Consta que ele teria feito antes mais um cupido, encomendado por Galli, mas Baco foi um trabalho bem maior, não apenas em tamanho (tem dez palmos de altura), como em ambição. Vasari diz que Michelangelo pretendeu “alcançar uma maravilhosa combinação de várias partes do corpo e, mais particularmente, dar a ele o porte delgado do homem jovem, e as carnes e contornos da mulher”.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-547" title="baco1" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/baco1.jpg" alt="baco1" width="238" height="400" />O deus do vinho, na estátua de Michelangelo, é uma figura que a bebida tornou claudicante, a boca aberta, o olhar vesgo, cachos de uva rodeando a cabeça, uma taça de vinho na mão direita, uma pele de tigre na esquerda, junto com um cacho de uvas que um sátiro sorridente, com pés de cabra, está mordiscando.</p>
<p>Feito ou não sob encomenda de Riario, quem ficou com Baco foi Jacopo Galli, que o colocou em seu jardim, junto à coleção de antiguidades. Mais tarde, no século XVI, a estátua foi comprada por um dos duques da família Medici, que a levou para Florença, onde está hoje no Museo del Bargello.</p>
<p>O desafio seguinte foi a Pietá.</p>
<p>Havia em Roma um cardeal francês, Jean Bilhères de Lagranles, grande apreciador das artes, que pretendia deixar, em homenagem à cidade, e a ele próprio, um belo memorial. O cardeal desejava uma Pietá. É possível que Michelangelo mesmo tenha ido a Carrara procurar o mármore. O contrato, preparado por Jacopo Galli, e garantido por ele, rezava, em 27 de agosto de 1498, que Michelangelo faria, em prazo de um ano, e pelo preço de 450 ducados, “o mais lindo trabalho em mármore que haveria em Roma, um que nenhum artista vivo pudesse melhorar”.</p>
<p>Michelangelo levou não um, mas dois anos esculpindo – ele o fez entre os 23 e os 25 anos – e o cardeal, morto em 99, não chegou a ver a estátua terminada. Hoje, ela está na catedral de São Pedro, à direita de quem entra, protegida com um grosso vidro inquebrável, já que foi vítima de um louco, que a atacou a marteladas.</p>
<p>Os italianos nunca haviam visto algo parecido: o ambicioso contrato firmado por Galli fora fielmente cumprido, e até mesmo superado. Vale a pena conhecer a descrição de Giorgio Vasari:</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-548" title="pieta" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/pieta.jpg" alt="pieta" width="799" height="800" />“Entre os lindos detalhes que ela (a estátua) contém, além das inspiradas dobras da vestimenta, a figura do Cristo se destaca, e ninguém poderia imaginar – dadas à beleza de seu corpo e à perícia com que foi esculpido – ver um nu tão bem dotado de músculos, veias e nervos talhados sobre os ossos, ou a figura de um homem morto que mais se assemelhasse a um corpo morto do que esta. A expressão de seu rosto é tão gentil, e há grande harmonia nas juntas e articulações dos braços, torso e pernas, e seus tão bem forjados pulsos e veias que, na verdade, é absolutamente surpreendente que a mão de um artista possa haver tão apropriadamente executado algo tão sublime e admirável em tão pouco tempo e, claramente, é um milagre que uma pedra, sem formas no início, pudesse ser trazida a um estado de perfeição tal que a Natureza luta para criar na carne. Michelangelo colocou tanto amor e suor neste trabalho (algo que não fez em nenhum outro) que deixou seu nome escrito na faixa que cruza o peito de Nossa Senhora.”</p>
<p>Originalmente, não havia a assinatura de Michelangelo. Aconteceu que, um dia, quando ele entrava na igreja em que a estátua fora colocada, viu um grande grupo de turistas da Lombardia, que a cercava e elogiava muito. Um deles, dirigindo-se a um amigo, perguntou quem a havia feito. “Nosso Gobbo, de Milão”, foi a resposta. Michelangelo nada disse; apenas achou muito estranho que um trabalho seu fosse atribuído a outro. Uma noite, carregando um candelabro em uma das mãos, e suas ferramentas na outra, trancou-se na igreja. Pela manhã, sua assinatura estava lá.</p>
<p>A figura da Pietá – a Virgem acolhendo nos braços e no colo o corpo do Cristo morto – foi feita pela primeira vez na Alemanha, e imagens como ela, na escultura e na pintura, passaram pela França (a razão da escolha do cardeal francês); em 1497 (segundo estudiosos), chegaram à Itália.</p>
<p>A versão de Michelangelo foi o que realmente o lançou para a fama. Toda a graça e beleza do conjunto se deve, em parte, a ilusões de ótica. Ele foi concebido em formato triangular, para atingir o equilíbrio, e a Virgem é bem maior que seu filho (se estivesse em pé, revelar-se-ia um gigante de 2,13 metros de altura). Suas vestes são enormes, e se esparramam pelas rochas ao redor, porque só assim foi possível abrir espaço para o corpo do Cristo. Michelangelo criou os dois rostos mais lindos que conseguiu, e então foi ironizado por alguns críticos, porque a Mãe se revela bem mais jovem do que o Filho. “Bobagem”, dizia ele, e respondia:</p>
<p>– Vocês não sabem que as mulheres castas retêm o seu frescor por muito mais tempo do que as não castas? E quanto tempo mais o reteria, portanto, uma Virgem nunca atingida pelo menor desejo não casto? E eu lhes digo, sobretudo, que tal frescor e juventude, além de serem mantidos por causas naturais, é bem possível que tenham sido ordenados pelo Poder Divino, para provar ao mundo a virgindade e a perpétua pureza da Mãe&#8230; Não se espantem que eu tenha, por todas essas razões, feito a mais Santa Virgem, Mãe de Deus, muito mais jovem, em comparação com o seu Filho, do que aquilo que é usualmente feito.</p>
<p>Se havia ou não ironia nessas palavras de Michelangelo, não é possível dizer. Vasari registrou que “a sua maneira de falar era velada e ambígua, seu discurso tendo sempre um duplo sentido”.</p>
<p>Enquanto Michelangelo dava as cinzeladas finais na Pietá, a vida em Florença se modificava. Em 1494 os florentinos haviam expulso Piero de Medici da cidade, revoltados porque ele negociou e pagou uma alta soma para que o rei francês Carlos VIII não os atacasse. Além do banimento, os Medici tiveram seus bens confiscados. Depois de atingir o pico de sua influência, entre 1497 e 98, queimando em praça pública “objetos do pecado”, como baralhos, cosméticos, jóias e semelhantes, o frei dominicano Girolamo Savonarola intensificou seus ataques aos “vícios papais”, e acabou excomungado. Foi preso, torturado, enforcado e queimado como herege no centro da Piazza della Signoria, a 23 de maio de 98. Havia uma constituição republicana em processo de mudança, foi criado o cargo de chefe do executivo, Gonfaloniere, eleito por toda a vida, em 1501, e no ano seguinte um amigo de Michelangelo, Pietro Soderini, tomou posse.</p>
<p>Michelangelo voltou à sua cidade, passando por Siena, em maio de 1501, e logo concentrou sua atenção sobre um bloco de mármore, de 5,49 metros de altura, abandonado em um terreno próximo à catedral. O mármore tinha um apelido, “O Gigante”, e uma história. Havia sido comprado em 1464 em um programa que visava adornar a catedral com grandes estátuas de profetas. Não era um programa novo. Ele vinha do século anterior, e uma primeira estátua, o primeiro gigante da Renascença, havia sido esculpida em 1410 pelo grande Donatello. Então, na década de 60, com a volta de Donatello a Florença, ele foi retomado, com uma encomenda ao escultor Agostino di Duccio. Duccio fez um Hércules gigantesco, que terminou em 64, quando novo bloco foi comprado para ele.</p>
<p>Aparentemente, era a influência de Donatello que garantia o trabalho de Agostino di Duccio, porque logo após sua morte, em 66, a encomenda foi cancelada. Novo contrato teria sido feito em 1476, desta vez com o escultor Antonio Rossellino, mas não foi em frente. E o bloco de mármore ficou abandonado. Segundo conta Vasari, era uma peça quase imprestável: Duccio havia começado a esculpir um gigante, mas o mármore fora tão mal talhado que havia um buraco entre as pernas, e desastrados golpes de cinzel por toda parte.</p>
<p>Em 1501 o mármore voltou a atrair atenções. Representantes da comissão de obras da catedral, e do novo governo republicano, imaginaram que ele poderia ser transformado em um gigante que simbolizasse sua confiança no futuro. Pensaram logo em Davi, o herói bíblico que, com uma pedra atirada por sua funda, liquidou o gigante Golias, e tornou-se, mais tarde, rei de Israel. Ninguém acreditava, vendo o estrago feito por Agostino di Duccio, que aquela peça bastaria, mas a comissão estava preparada para comprar peças que pudessem ser adicionadas. Passou-se, então, a procurar o artista que faria o trabalho. No início foram cogitados os nomes de Leonardo da Vinci e Andrea Sansovino. Foi, muito provavelmente, o que trouxe Michelangelo de volta a Florença.</p>
<p>Ele examinou atentamente o mármore, e concluiu que, sem adicionar qualquer peça, poderia criar o seu gigante adaptando sua pose às limitações que encontrou. Candidatou-se ao trabalho e, três meses após sua chegada, a 16 de agosto de 1501, aos 26 anos, foi encarregado de executá-lo. Ergueu logo os andaimes e cavaletes necessários, escondendo a pedra de olhares curiosos, e a 9 de setembro, com uns poucos golpes do martelo, derrubou um nódulo que havia na parte em que faria o peito do herói, começando a esculpir.</p>
<p>Ele costumava trabalhar, primeiramente, no desenho da figura. Dizia que a estátua já existia lá, dentro do mármore, e que ele apenas a libertava. Feito o desenho, que riscava sobre a pedra, começava a esculpir, de frente para trás, de alto a baixo. Imagine-se uma estátua submersa horizontalmente na água, e que venha sendo trazida vagarosamente para a superfície, até estar totalmente fora. Assim trabalhava Michelangelo, segundo Vasari. Também segundo ele, para o Davi, Michelangelo fez, antes, um modelo em argila.</p>
<p>O Davi que a estátua retrata é um jovem no esplendor da força e da beleza, relaxado na postura e tenso psicologicamente: já foi dito que, nesta obra, Michelangelo utilizou, pela primeira vez, sua capacidade de transformar o físico em veículo de emoções e idéias. O herói é retratado instantes antes de utilizar sua funda para, com uma pedra, derrubar o gigante Golias. Tem o peso do corpo sustentado pela perna direita, a esquerda ligeiramente dobrada, não está parado nem andando, em uma combinação de inércia e perspectiva de movimento. A atenção, e tensão, estão em sua cabeça, voltada para a esquerda, no cenho franzido, no olhar ansioso.</p>
<p>A cinzelada final foi dada no início de 1504. Quando Michelangelo dava os últimos retoques, recebeu a visita do contratante da obra, seu amigo, o Gonfaloniere Pietro Soderini. Vasari conta que Soderini postou-se ao pé da estátua, para observá-la. Gostou muito, mas fez um comentário:</p>
<p>– Acho que o nariz está grande demais.</p>
<p>Michelangelo não discutiu: pegou o cinzel e subiu nos andaimes. Sem que o outro percebesse, ele apanhou, ao subir, um pouco do pó de mármore, que estava caído nos cavaletes, e, postando-se diante da cabeça do gigante, interpondo-se entre ela e o olhar do Gonfaloniere, fingiu cinzelar o nariz, enquanto deixava o pó ir caindo aos poucos. Instantes depois, afastou-se e pediu:</p>
<p>– Olhe para ele agora.</p>
<p>Soderini abriu um sorriso.</p>
<p>– Agora sim, você lhe deu vida.</p>
<p>Pronto o Davi, formou-se uma comissão para decidir onde seria colocado. Uma comissão de frente, poderia-se dizer: Leonardo da Vinci, Andrea della Robbia, Sandro Botticelli, Fillipino Lippi, Perugino e Giulliano da San Gallo eram parte dela. Entretanto, a decisão final parece ter sido do próprio Michelangelo: Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vechio. Para transportar a estátua foi necessário mobilizar quarenta homens, que a carregaram sobre catorze roletes, durante quatro dias.</p>
<p>A fama de Michelangelo foi multiplicada depois disso. Recebeu diversas outras encomendas, inclusive outro Davi, em bronze, para o próprio Pietro Soderini, e um tondo (pintura circular) para seu amigo Angelo Doni, o Tondo Sagrada Família, a única pintura que concluiu sem ser em uma parede ou um teto. Terminado o quadro, ele o mandou a Angelo por um mensageiro, que levou também a conta: 70 ducados. Quando este voltou, trazia 40 ducados e um recado:</p>
<p>– O senhor Doni diz que 70 ducados seriam demais.</p>
<p>– Pois então volte, e diga-lhe que agora o preço dobrou: tem que mandar-me mais 100.</p>
<p>O mensageiro voltou com mais 30, completando os 70 pedidos inicialmente.</p>
<p>– Volte e diga-lhe que deve completar 140 ou devolver-me o quadro.</p>
<p>Angelo Doni completou o pagamento.</p>
<p>Michelangelo pintou a Sagrada Família entre 1503 e 1504, e no ano seguinte Leonardo da Vinci começou a sua Monalisa. Os dois usaram recursos materiais parecidos, que foram aperfeiçoados por Leonardo.</p>
<p>Uma das facetas do gênio de Michelangelo pode ser observada considerando-se a maneira como se adaptava à técnica necessária para executar suas encomendas. Ele não gostava de pintar, considerava então a pintura uma arte menor em relação à escultura, porque uma consiste em acrescentar, a outra em subtrair. Dizia mais ou menos o seguinte:</p>
<p>–Se você dá uma pincelada errada, pode consertá-la. Mas se errar quando tira o mármore, o trabalho está perdido.</p>
<p>Por isso ele resistia à pintura. E fez o teto da Sistina, e o Juízo Final.</p>
<p>Um dia, foi-lhe encomendada uma escultura do Papa Júlio II, em bronze.</p>
<p>– Bronze? – perguntou. – E o que sei eu de bronze? Não posso fazer!</p>
<p>Quem encomendava era o próprio Papa.</p>
<p>– Aprenda. Quero em bronze – repetiu Júlio II, e encerrou a conversa.</p>
<p>Michelangelo fez. Na verdade, o bronze não lhe era estranho, uma vez que já havia feito o Davi de Pietro Soderini. Mas não se sentia bem trabalhando com ele, e, além de tudo, não teve muita sorte ao atender o Papa nessa missão. Em carta ao pai, em julho de 1507, ele contaria:</p>
<p>“Deixe-me contar-lhe que fizemos a minha figura, na qual não tive muita sorte, porque, por ignorância, ou acidente, mestre Bernardino não fundiu bem o material (&#8230;) Minha figura saiu até a cintura, e o resto do material, quer dizer, metade do metal, permaneceu na fornalha e não foi fundido, e para tirá–lo terei que separar a fornalha, que é o que estou fazendo (&#8230;)”</p>
<p>A competição entre ele e Leonardo da Vinci fascinava e divertia os florentinos. Vinte e três anos mais velho, considerado pelo próprio Michelangelo o grande mestre da geração anterior, Leonardo havia pintado “A Última Ceia” para os monges de Santa Maria das Graças, em Milão, e tornara-se o mais famoso pintor italiano vivo. As discussões entre os dois eram freqüentes, e Leonardo parecia gostar de provocar o concorrente. Ele escreveu:</p>
<p>“O escultor, ao criar seu trabalho, o faz pela força do braço, com a qual consome o mármore ou qualquer outro material duro em que seu objetivo está encrustrado. E isso é feito mais por exercício mecânico, sempre acompanhado por grande suor, que se mistura com a poeira do mármore e forma uma espécie de lama que cobre todo seu rosto. A poeira do mármore o cobre todo, e ele parece um padeiro. Suas costas ficam cobertas por uma nevasca de lascas, e sua casa fica imunda com lascas e poeira de pedras. Exatamente o contrário acontece com o pintor, que senta-se diante de seu trabalho, perfeito em seu conforto, e bem vestido, e movimenta um pincel bem leve, mergulhado em cores delicadas, e ele se arruma com as roupas que lhe dão prazer. Sua casa é limpa e cheia de pinturas encantadoras, e frequentemente seu trabalho é acompanhado por música, ou pela leitura de vários e belos trabalhos, que, desde que não estão misturados com o bater do martelo ou outros barulhos, são ouvidos com o maior prazer”.</p>
<p>Como já vimos, a resposta que Michelangelo costumava dar a esses argumentos é que sua arrumadeira sabia bem mais do que Leonardo. Muito mais tarde, já aos 73 anos, ele escreveu uma carta para Benedetto Varchi, um acadêmico florentino que promoveu um simpósio para discutir qual a arte mais nobre, a pintura ou a escultura.</p>
<p>“Em minha opinião, a pintura deveria ser considerada melhor na medida em que se aproximasse do relevo, e o relevo deveria ser considerado pior na medida em que se aproximasse da pintura. E, por isso, eu sempre senti que a escultura era a lanterna da pintura, e que havia entre elas a diferença que existe entre o sol e a lua. Agora, depois de ler um ponto defendido por você em seu livro, o de que, filosoficamente, as coisas que têm um mesmo fim são uma mesma coisa, mudei de opinião e digo que, se grande discernimento, dificuldade, obstáculos e trabalho não produzem grande nobreza, pintura e escultura são coisas idênticas. E, assim concluindo, digo que o pintor não deve fazer menos escultura do que pintura, e os escultores devem fazer tanta pintura quanto escultura. Chamo de escultura aquilo que é feito pela força maior de cortar fora; o que é feito adicionando é similar à pintura. Desde que uma e outra vêm de uma mesma faculdade, esculpir e pintar, acho que as duas podem conviver em paz e deixar essas disputas para trás, pois mais tempo se perde com elas do que produzindo figuras.”</p>
<p>Kenneth Clark, autor de um respeitadíssimo livro sobre Leonardo da Vinci, analisou bem o relacionamento dos dois grandes mestres:</p>
<p>“Vemos que a antipatia, o ‘sdegno grandissimo’ (grande desdém), como Vasari o chama, que existia entre os dois homens, era bem mais profundo que ciúme profissional. Vinha, de fato, de suas profundas crenças. Em nenhum senso aceitável Leonardo pode ser chamado cristão. Ele não tinha mente religiosa. Michelangelo, por outro lado, era um homem profundamente religioso, para o qual a reforma da Igreja Romana veio a ser uma questão de preocupação apaixonada. Sua mente era dominada por idéias – boas e más, de sofrimento, purificação, união com Deus, paz de espírito – que eram, para Leonardo, abstrações sem sentido, e para Michelangelo, a verdade última. Não admira que essas idéias, em um homem com o poder moral, intelectual e artístico de Michelangelo, dessem a Leonardo o sentimento de que apenas uma camada muito fina os separava da confrontação. Embora Leonardo tivesse uma crença, que transparece em seus escritos e era ocasionalmente dita com real grandeza: a crença na experiência.”</p>
<p>Uma vez alguém disse a Michelangelo que ele devia ter muito medo da morte, porque estava sempre ocupado, sempre com pressa, metido em seus trabalhos artísticos.</p>
<p>– Ao contrário – respondeu ele. – Tenho certeza de que me darei tão bem com a morte como com a vida. Afinal, as duas vieram de um mesmo mestre.</p>
<p>Conhecendo a grande antipatia entre os dois grandes gênios, é fácil imaginar a excitação que envolveu Florença quando foram postos em competição direta. Pietro Soderini, o Gonfaloniere, resolveu encomendar dois enormes murais para o Grande Salão do Conselho, no Palazzo Vechio. Aconselhado por amigos e outros artistas, ele contratou Leonardo da Vinci em 1503. Da Vinci deveria pintar o seu mural inspirado na vitória dos florentinos sobre os milaneses na Batalha de Anghiari, em 1440. E, enquanto ele trabalhava no esboço em cartão, em 1504, Soderini contratou Michelangelo para pintar outro mural, na parede ao lado, inspirada em outra batalha, a de Cascina, em que os florentinos bateram os soldados de Pisa, em 1364.</p>
<p>A batalha do Palazzo Vechio, entretanto, acabou sendo um fiasco. Leonardo fez o seu esboço – um desenho em escala real da pintura, que depois é transferido para a parede e recebe as cores – e começou a pintar, chegando a terminar as cenas mais importantes. Mas acabou usando uma mistura diferente, juntando óleo às tintas, e achou necessário colocar braseiros na sala, para secar a pintura. Um desastre: a parte superior do painel escureceu, e a inferior começou a escorrer. Ao mesmo tempo ele foi convocado a Milão, e não voltou a trabalhar na obra.</p>
<p>Michelangelo, trabalhando escondido, como era seu hábito, fez o seu esboço utilizando vários cartões enormes, para várias cenas, que ele juntaria depois e formaria o todo. O esboço provocou uma revolução. Ele criou uma cena em que os soldados florentinos estão se banhando no rio e são surpreendidos pelo inimigo. Uma fantástica oportunidade para que explorasse ao máximo o tema que mais o inspirava: o nu masculino. Os soldados são retratados nas posições mais variados, contorcendo-se, os músculos estirados, as expressões tensas. Mas a pintura não chegou a ser iniciada: o novo Papa, Julio II, chamou Michelangelo a Roma para uma tarefa interminável. Quando vieram a público as diferentes partes do seu esboço, elas foram disputadas quase que aos tapas pelos amigos, que passaram a copiá-las febrilmente, na pintura a na escultura, e o nu masculino monopolizou a produção artística de Florença. Talvez a melhor cópia seja a de Francesco da Sangallo, hoje na coleção do Conde de Leicester, em Holkham Hall, Norfolk, Inglaterra. Infelizmente, o esboço original foi destruído.</p>
<p>Em março de 1505, Michelangelo chegou a Roma convocado pelo Papa Julio II, que pediu-lhe o projeto de um túmulo grandioso, que retomasse o esplendor da antiga Roma. Michelangelo desenhou uma obra ambiciosa, um túmulo que era também fortaleza, guardado por 40 estátuas de mármore. Aprovado o projeto, ele partiu para Carrara, onde passou oito meses escolhendo e supervisionando o corte das peças de mármore que usaria. Levados para Roma, os blocos ocuparam metade da praça de São Pedro. Instalado em um dos quartos do castelo de Sant’Angelo, Michelangelo começou a trabalhar, recebendo visitas constantes do Papa.</p>
<p>E começaram seus problemas. O Papa vivia rodeado de artistas, que lhe apresentavam os mais variados projetos, e, talvez por iniciativa própria, ou aceitando uma sugestão que aprovou, encomendou ao arquiteto Donato Bramante a demolição e reconstrução da basílica de São Pedro. Ele queria um obra magnífica, que abrigaria seu túmulo. O fato é que a basílica passou a ser sua principal preocupação, e Michelangelo foi perdendo espaço, deixando de receber o dinheiro necessário para manter-se e para pagar novos blocos de mármore, que continuavam chegando de Carrara. Não se sabe exatamente onde termina a realidade e começa a paranóia, mas Michelangelo atribuiu os contratempos a intrigas de Bramante e Raphael Sanzio, o grande Raphael de Urbino, junto ao Papa. Em maio de 1506 ele escreveria:</p>
<p>“No sábado santo ouvi o Papa, conversando à mesa com um joalheiro e com o mestre de cerimônias, dizer que ele não pretendia gastar mais uma moeda com esculturas, grandes ou pequenas, o que me deixou espantado. Assim, antes de sair, pedi a ele parte do que precisava para continuar com o trabalho. Sua Santidade respondeu-me que eu deveria voltar na segunda-feira; voltei na segunda, na terça, na quarta e na quinta, como ele bem viu. Finalmente, na sexta-feira pela manhã fui mandado embora, escorraçado, e o sujeito que me despachou disse que sabia quem eu era, mas que estava cumprindo ordens. Assim, tendo eu ouvido aquelas palavras no sábado, e vendo o resultado, fiquei extremamente desesperado. Mas isso não foi o único motivo da minha partida; há também outra coisa, a qual não quero escrever, e que me fez pensar que, se ficasse em Roma, meu túmulo seria construído antes que o do Papa. Este foi o motivo da minha súbita partida.”</p>
<p>– Pois diga ao Papa – disse ele ao homem que o expulsava – que, de hoje em diante, sempre que procurar Michelangelo, verá que ele vai estar em alguma outra parte qualquer.</p>
<p>Ele voltou para casa, reuniu suas coisas, deu ordem a dois ajudantes para que vendessem aos judeus tudo o que deixava ali, e fossem encontrá-lo em Florença. E, às duas da manhã, montou em um cavalo e partiu. Foi alcançado em Poggibonsi, território florentino, por cinco mensageiros do Papa, com ordem escrita para levá-lo de volta. Eles conseguiram dele apenas algumas palavras em um pedaço de papel, pedindo ao Papa perdão por não voltar, e recomendando que procurasse outra pessoa para servi-lo.</p>
<p>Ficou sete meses em Florença, e nesse tempo três despachos do Papa chegaram ao governo da cidade, com ordens para que devolvessem Michelangelo a Roma. Ele pensou em refugiar-se em Constantinopla, onde queriam que construísse uma ponte, mas finalmente Piero Soderini, o Gonfaloniere, convenceu-o a apresentar-se ao Papa, que estava em Bolonha.</p>
<p>– Você afrontou o Papa de uma forma que nem o rei de França ousaria – disse-lhe Soderini. – Nós não queremos ir à guerra com ele por sua causa, e assim arriscar o Estado. Portanto, prepare-se para voltar.</p>
<p>Foi levado a Julio II por um bispo, que deveria protegê-lo da fúria papal. Michelangelo ajoelhou-se.</p>
<p>– Quer dizer que, em vez de vir a Nós, você esperou que Nós viéssemos a você? – perguntou o Papa, referindo-se ao fato de que Bolonha está mais próxima de Florença que de Roma.</p>
<p>– Perdão, Sua Santidade. Estava furioso e cometi um erro. Peço que me perdoe.</p>
<p>   O bispo achou que deveria interceder por ele:</p>
<p>– Perdoe-o, Santidade. Esses homens são por demais ignorantes e completamente sem valor quando fora de sua arte. Perdoe-o.</p>
<p>– Você é que é o ignorante – respondeu o Papa, furioso. – Está lhe dizendo insultos que Nós jamais pronunciaríamos!</p>
<p>O bispo foi expulso. Satisfeita sua ira, Julio II perdoou e abençoou Michelangelo, dando-lhe presentes e mantendo-o em Bolonha até que, dias depois, encomendou-lhe sua estátua em bronze, aquela que, a princípio, ele tentou recusar-se a fazer. Estar em Bolonha, para ele, era um martírio, e suas queixas eram muitas:</p>
<p>– Desde que cheguei só choveu uma vez, e tem estado tão quente como eu nunca imaginei que estaria em qualquer lugar no mundo. O vinho aqui é muito caro, e tão ruim quanto é possível ser, e é tudo assim, o que torna minha existência miserável.</p>
<p>Antes que o Papa deixasse Bolonha, Michelangelo apresentou-lhe um modelo em argila. A mão direita da estátua estava erguida, dando uma bênção, e ele tinha dúvidas sobre o que fazer com a esquerda. Perguntou:</p>
<p>– O que acharia Sua Santidade se eu colocasse um livro em sua mão?</p>
<p>– Livro? – respondeu ele. – Não sou um acadêmico. Coloque uma espada. Mas diga: essa sua estátua está abençoando ou amaldiçoando?</p>
<p>– Está ameaçando o povo, Santo Padre, para que não seja tolo.</p>
<p>Satisfeito, Julio II partiu para Roma. Ele esteve em Bolonha por motivos militares: sufocar uma revolta de bolonheses que se opunham ao seu comando e haviam conquistado a região. Por isso quis a estátua que encomendou a Michelangelo, e que, depois de 16 meses de trabalho, a 15 de fevereiro de 1508, foi colocada no nicho principal da igreja de San Petronio. Ela lembraria para sempre aos bolonheses a autoridade do papa.</p>
<p>Não lembrou por muito tempo. Em dezembro de 1511 os revoltosos voltaram à ação, reconquistaram Bolonha e venderam a estátua ao duque Alfonso de Ferrara, grande inimigo de Julio II. O duque fez com que a derretessem, usou o bronze para construir um canhão, e o batizou de La Giulia, em homenagem ao Papa.</p>
<p>Terminada a estátua em fevereiro, em março Michelangelo voltou a Florença, pretendendo ficar definitivamente, e comprou uma casa na Via Ghibelina, perto da Santa Croce. No século seguinte ela seria reconstruída como Casa Buonarroti, um memorial.</p>
<p>Não conseguiu ficar muito tempo em sua cidade: o Papa o convocou novamente. Contrariado, seguiu para Roma imaginando ter que retomar a construção do túmulo, mas uma surpresa o esperava.</p>
<p>Já foi dito que Michelangelo tinha uma razoável dose de paranóia, e isso pode ter influenciado os relatos sobre esse período, feitos principalmente por Giorgio Vasari e Ascanio Condivi, biógrafos que o ouviram diretamente. Eles contam que, enquanto Michelangelo estava em Bolonha, terminando a estátua de bronze, Bramante e Raphael Sanzio o intrigaram junto ao Papa, embora o mais provável seja que, naquela época, Raphael ainda não houvesse chegado a Roma. Bramante e Raphael, segundo Vasari, tinham ciúmes de Michelangelo, porque consideravam que ele havia atingido a perfeição em termos de escultura, e quiseram evitar que continuasse esculpindo. Então fizeram ver ao Papa que não deveria continuar a construção do túmulo, porque isso poderia apressar sua morte, ‘uma vez que todos sabem que dá má sorte construir um túmulo para uma pessoa que ainda está viva’. O Papa, teriam dito os dois, deveria homenagear a memória de seu tio, Sixtus, contratando Michelangelo para pintar o teto da capela que ele fizera construir no Vaticano, a Sistina.</p>
<p>Assim, conta o biógrafo, “pretendiam levar Michelangelo ao desespero, achando que, ao pintar, ele produziria um trabalho de menor qualidade, e teria menos sucesso do que Raphael, pois não sabia fazer afrescos coloridos. E, mesmo que conseguisse um bom trabalho, ficaria furioso com o Papa, de maneira que, de um modo ou de outro, sua intenção de livrar-se de Michelangelo seria bem sucedida.”</p>
<p>E a surpresa foi esta: o Papa queria que pintasse o teto da Sistina. Ele recusou, disse que seu trabalho era esculpir, alegou pouca intimidade com as cores e recomendou Raphael. O Papa insistiu, ordenou, e não houve outro jeito. Quando concordou, Bramante recebeu a tarefa de montar os andaimes na capela. Ele perfurou o teto em vários pontos, encaixou ganchos e pendurou cordas.</p>
<p>– Mas o que é que vou fazer com esses buracos quando terminar a pintura? – perguntou Michelangelo.</p>
<p>– Isso é algo com que nos preocuparemos mais tarde – respondeu Bramante.</p>
<p>“Ora vejam”, pensou Michelangelo, que mais tarde contou o episódio a Vasari, “ele não entende nada disso, ou então não é lá muito meu amigo”. E queixou–se ao Papa.</p>
<p>– Pois monte os andaimes à sua própria maneira – respondeu ele.</p>
<p>Michelangelo chamou um velho carpinteiro, deu suas instruções e pagou adiantado. Pagou com cordas, porque Bramante havia comprado tanta corda que a maior parte dela sobrou. Vendendo o que recebeu, o carpinteiro deu o dinheiro como dote à filha, que tinha casamento marcado. (Bramante, diz o inglês Nathaniel Harris, autor de The Art of Michelangelo, enganava o Papa, comprando material demais, e de baixa qualidade. Ele tornou-se assim precursor de uma prática muito difundida mais tarde: o superfaturamento. Ainda segundo Harris, ele tinha medo de que Michelangelo o denunciasse ao Papa por isso).</p>
<p>Prontos os esboços em cartão, preocupado com seu pequeno conhecimento da técnica de afrescos e experiência com cores, ele importou de Florença cinco pintores para ajudá-lo com o teto, entre eles Francesco Granacci, o amigo e colega que o havia apresentado a Ghirlandaio. Instalados os cinco em Roma, e tendo passado dos cartões para o teto os primeiros esboços, Michelangelo pediu que começassem a pintar.</p>
<p>Fracasso completo. Ao ver os primeiros resultados, ele torceu o nariz, esperou mais um pouco e, certa manhã, perdendo a paciência, apagou tudo o que haviam pintado. Trancou-se na capela e não os deixou mais entrar, apesar das insistentes pancadas que davam na porta, achando que Michelangelo brincava com eles. Ele não os recebeu nem mesmo em casa, e os cinco, indignados, retiraram-se para Florença. Não iam exatamente cobertos de glória.</p>
<p>Foram quatro anos turbulentos. Começou a pintar em 1508, e o trabalho final foi apresentado a uma seleta platéia no dia 31 de outubro de 1512. Michelangelo tinha 37 anos. Aconteceram imprevistos no percurso, um deles provocado por manchas na pintura, obra do clima romano. Ele chegou a desculpar-se com o Papa e a desistir do trabalho, mas Giuliano da San Gallo foi convocado para explicar-lhe como evitar o problema. Julio II pressionava-o continuamente, pedindo para ver a pintura (o que ele não queria) e apressando-o. Havia um diálogo entre os dois que ficou célebre.</p>
<p>– Quando vai terminar? – perguntava o Papa.</p>
<p>– Quando tiver terminado – respondia ele.</p>
<p>Em uma das vezes – contrariado porque Michelangelo dificultava suas visitas à capela, e com raiva pela demora – ao receber a mesma resposta foi tomado pela fúria. Tinha um cajado nas mãos, e lascou-lhe uma cajadada nas costas.</p>
<p>Em outra ocasião, vendo a pintura, pediu:</p>
<p>– Decore a capela com mais cores, e com ouro, pois ela parece muito simples.</p>
<p>– Santo Padre – respondeu ele. – Naqueles dias os homens não usavam ouro, e aqueles que estão pintados aqui nunca foram ricos, pois eram homens santos que desprezavam a riqueza.</p>
<p>Ao contrário do que muitos acreditam, e foi mostrado no cinema, Michelangelo não pintava deitado nos andaimes, mas em pé. Ele mesmo fez um esboço em que aparece pintando, a cabeça totalmente inclinada para trás, em posição que provocava muita dor. Vasari conta que, quando terminou, passou meses sem que conseguisse ler nada, nem mesmo as cartas que recebia, sem inclinar a cabeça e ler o texto, que levantava sobre ela.</p>
<p>A conclusão da pintura foi precipitada por novo diálogo.</p>
<p>– Quando vai terminar?</p>
<p>– Quando eu estiver satisfeito com os detalhes artísticos.</p>
<p>– E Nós – respondeu Julio II – queremos que você Nos satisfaça em Nosso desejo de ver isso pronto rapidamente.</p>
<p>E arrematou:</p>
<p>– Termine. Ou farei com que o atirem do alto desses andaimes.</p>
<p>Michelangelo terminou rapidamente.</p>
<p>Há diferentes versões sobre o quanto recebeu pelo teto. A mais comum, que Vasari registra, é a de que o Papa pagou-lhe três mil ducados. Segundo a obra Michelangelo: The Sistine Chapel Ceiling, da coleção Norton Critical Studies in Art History, editado por Charles Seymour, Jr. em 1972, um ducado seria equivalente a 50 dólares no ano de 1970. A LAFIS Consultoria, em São Paulo, considerando a inflação do dólar nos EUA no período 1970-1997, estima que, hoje, um ducado valeria 208 dólares, o que significa que os três mil ducados teriam um valor aproximado de 624.000 dólares.</p>
<p>Depois da pincelada final no teto da Sistina Michelangelo foi imediatamente alçado à posição de melhor pintor vivo em todo o mundo. Hoje, o pintor vivo que tem as obras mais caras do mundo é o norte-americano Jasper Johns. Seus quadros valem 10 milhões de dólares.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-550" title="sistina" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/sistina.jpg" alt="sistina" width="559" height="773" />Em 1533, ou seja, 21 anos depois, Michelangelo seria convocado para trabalhar novamente na Sistina, desta vez para pintar O Juízo Final. Nesse meio tempo fez obras importantes, como o Moisés e os escravos, que pretendia colocar no túmulo de Julio II (o Moisés está hoje na igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma, e os escravos estão no Louvre, em Paris). Fez também a capela dos Medici, em Florença, e quando trabalhava nela foi chamado a Roma pelo papa Clemente, que encomendou-lhe a nova pintura na Sistina. Michelangelo não queria isso, estava torturado por não conseguir terminar o túmulo de Julio, e chegou a pensar que se livraria dessa tarefa quando Clemente morreu, logo depois.</p>
<p>Pura ilusão. O novo papa, Paulo III, renovou a convite. E quando, novamente, Michelangelo tentou recusar, alegando que tinha um contrato que o obrigava a concluir o túmulo, ele foi enfático:</p>
<p>– Por trinta anos desejei tê-lo a meu serviço. Agora que sou Papa, não vou ter esse desejo satisfeito? Vou rasgar esse contrato, e, de qualquer maneira, pretendo vê-lo servindo a mim.</p>
<p>Sem outra saída, Michelangelo dedicou-se ao trabalho. Criou seu painel com tamanha força, com tanto impacto, que, dizem, o Papa, vendo-o pronto, atirou-se ao solo gritando: “Deus, perdoe os meus pecados quando o Juízo chegar”.</p>
<p>Uma obra que se tornou polêmica ainda incompleta. Quando mais da metade dela estava pronta, Paulo III foi vê-la acompanhado de Biagio da Cesena, seu mestre de cerimônias. O Papa perguntou a ele o que achava.</p>
<p>– É fora de propósito que, em tão venerando lugar, estejam pintados tantos nus, indecentemente expondo suas vergonhas. Isso não é um trabalho para a capela do Papa, e sim para uma casa de banhos, ou uma taverna.</p>
<p>Assim que os dois se foram, Michelangelo pegou os pincéis e pintou Biagio de Cesena no Inferno, no papel de Minos, o corpo envolto por uma serpente. De nada adiantaram os protestos de Biagio ao Papa e ao próprio Michelangelo: ele queima no Inferno até hoje. A polêmica continuou no papado de Paulo IV (ele chegou a considerar a destruição da pintura), que mandou um mensageiro protestar junto ao autor.</p>
<p>– Diga a Sua Santidade que isso é um problema pequeno, que pode ser resolvido facilmente – respondeu ele. – Que ele se preocupe em dar ordem ao mundo; retocar uma pintura não representa dificuldade maior.</p>
<p>Daniele da Volterra, um dos assistentes de Michelangelo, foi encarregado de cobrir as partes mais ‘delicadas’, e acabou pagando um preço alto por isso: passou para a história como Daniele, il Braghettone (Daniele, o fazedor de calções).</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-551" title="adao" src="http://50anosdetextos.com.br/wp-content/uploads/2009/12/adao.jpg" alt="adao" width="593" height="309" />Michelangelo tinha 66 anos quando terminou o Juízo Final, em 1541, oito anos depois de tê-lo iniciado. Em 1546 começou a trabalhar na basílica de São Pedro, o que fez por 17 anos, até a morte. Sua produção havia diminuído após completar os 60. Pouco antes disso, teve algumas ligações sentimentais com homens bem mais jovens, sendo o principal deles, ao qual dedicou muitos poemas, um nobre romano chamado Tommaso de Cavalieri. “Ligações sentimentais”, enfatizou o autor Nathaniel Harris, acrescentando: “não há porquê especular a respeito da vida sexual de Michelangelo, já que não existem informações confiáveis a respeito”.</p>
<p>Em carta de junho de 1557, ao sobrinho Lionardo, Michelangelo dizia:</p>
<p>“Estou doente do corpo, com todas as doenças que os velhos têm: com a pedra, de maneira que não posso urinar; nos lados e nas costas, com tanta intensidade que frequentemente não consigo subir os degraus; e o pior é que estou cheio de dores&#8230; Rezo a Deus para que me ajude e aconselhe, e se eu ficar realmente mal, isto é, com febre perigosa, mandarei que chamem você com urgência. Mas não pense nisso nem em vir para cá se não receber carta minha pedindo-lhe para vir”.</p>
<p>Em dezembro, ele voltaria a escrever:</p>
<p>“Escrevi para você sobre uma casa, porque, se eu ficar livre aqui antes de morrer, gostaria de saber que tenho um ninho aí só para mim e meu bando, e para fazer isso estou pensando em transformar em dinheiro tudo o que tenho aqui”.</p>
<p>Quatro anos mais tarde, em outra carta, ele agradecia ao irmão uma remessa de queijos e desculpava-se por não haver escrito antes, porque “estando velho como estou, escrever é muito aborrecido”. A última que escreveu estava datada de 28 de dezembro de 1563. Tinha 88 anos:</p>
<p>“Estou encantado com o seu bem-estar, e o mesmo é verdadeiro para mim. Recebendo várias cartas suas recentemente, e não as tendo respondido, eu me omiti, porque não posso usar minha mão para escrever. Portanto, daqui por diante pedirei a outros que escrevam, e eu assinarei.”</p>
<p>Apesar de tudo, Michelangelo continuava em ação, na basílica de São Pedro e em sua casa. Ele havia iniciado nova escultura, por volta de l547, pretendendo que fosse colocada em seu próprio túmulo: a Descida da Cruz. Cristo morto é apoiado por sua mãe, por Maria Madalena e por Nicodemus, uma figura encapuzada à qual deu seu próprio rosto, num auto-retrato. Entretanto, não se sabe porque, irritou-se com a obra e atacou-a a golpes de cinzel, pretendendo destruí-la. Depois permitiu que um de seus discípulos a reconstituísse, e ficou flagrante a diferença entre Cristo, Maria e Nicodemus, bem ao seu estilo, e Maria Madalena, trabalhada pelo outro.</p>
<p>Em sua última semana de vida ele ainda esculpia. A Pietá Rondanini, hoje no Museu do Castelo Sforzesco, em Milão, é um conjunto de duas figuras longas – Maria segurando o filho morto – em um trabalho apenas no seu início, mas que, no dizer de alguns críticos, dificilmente causaria maior impacto se Michelangelo o houvesse terminado.</p>
<p>Giorgio Vasari assim descreveu sua morte:</p>
<p>“Lionardo, o sobrinho de Michelangelo, queria ir para Roma na Quaresma seguinte, porque achava que seu tio havia chegado ao fim da vida; e Michelangelo ficou muito satisfeito com essa sugestão. Quando, porém, ele caiu doente com uma febre fraca, imediatamente fez Daniele (da Volterra) escrever dizendo a Lionardo que ele deveria vir. Mas, apesar da atenção de seu médico, mestre Federico Donati, e de outros médicos, sua doença piorou; então, em perfeita consciência, ele fez seu testamento em três sentenças, deixando sua alma nas mãos de Deus, seu corpo para a terra, e suas possessões materiais para seus parentes mais próximos. Ele disse aos seus amigos que, enquanto morria, deveriam relembrá-lo do sofrimento de Jesus Cristo. E no dia 17 de fevereiro do ano de 1563, na vigésima-terceira hora, segundo o calendário florentino, ou em 1564, de acordo com o romano, ele expirou e foi para uma vida melhor.”</p>
<p>Na verdade, a data correta da morte é 18 de fevereiro de 1564, em Roma. Teve um funeral ao qual compareceram todos os seus amigos de Roma e Florença, e foi enterrado na igreja dos Santos Apóstolos, com o Papa pretendendo erguer para ele um memorial e um túmulo na própria basílica de São Pedro. Lionardo, o sobrinho, chegou a Roma depois do enterro, com uma missão a ele confiada pelo duque de Cosimo, grande amigo do tio: levar para Florença o corpo de Michelangelo, para que fosse honrado com toda a pompa que merecia.</p>
<p>Lionardo, secretamente, roubou o corpo, embalou-o como um fardo de mercadoria, e partiu com ele de madrugada, para evitar o tumulto que os romanos certamente fariam se soubessem o que estava fazendo. Os amigos tentaram evitar tumulto também em Florença, planejando uma cerimônia discreta na igreja de Santa Croce. Ilusão: a notícia da morte de Michelangelo, e da presença de seu corpo na cidade, correu de boca em boca, e Vasari, que estava presente, conta que, ‘num piscar de olhos’, a igreja foi tomada pela multidão.</p>
<p>Vinte e dois dias haviam se passado, a maior parte deles com o corpo de Michelangelo fechado no caixão, mas assim mesmo os amigos resolveram vê–lo. E, para espanto geral, nem mesmo um leve odor foi sentido: o corpo estava intacto, perfeito, como se tivesse morrido há alguns instantes apenas.</p>
<p>   Um dia um padre, amigo de Michelangelo, disse-lhe:</p>
<p>– Uma pena que você não tenha tido uma esposa. Pois você teria muitos filhos, e deixaria para eles muitos honoráveis trabalhos.</p>
<p>– Eu tenho muito de uma esposa nesta arte que sempre me afligiu – respondeu ele. – E os trabalhos que deixarei serão meus filhos, e mesmo que eles não sejam nada, viverão uma longa vida.</p>
<blockquote><p><em><strong>A historinha por trás do texto, segundo o próprio  autor</strong> </em></p>
<p><em>Eu mesmo desenhei e editei as páginas em que o texto acima foi publicado. Nas duas primeiras páginas, que ficavam lado a lado, coloquei no alto, ocupando todo o espaço das duas </em>– <em>e ali ele só caberia deitado </em>–<em> o Davi, em reprodução fotográfica. Mais tarde, estando com o Dr. Ruy Mesquita, diretor do Estadão, ele me advertiu: “Você não precisava ter colocado isso tão grande” – o doutor Ruy não gosta de nus em seus jornais. “Mas é um Michelangelo, doutor Ruy” – respondi. E ele: “Ora”</em></p></blockquote>
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