O rega-bofe do aplauso necrófilo

O que pode levar alguém a aplaudir um genocida golpista? Um estrupício, um ergofóbico, como qualificou com perfeição (e uma pequena dose de sofisticação) O Estado de S. Paulo, em editorial do dia 4/4? Um sujeito com quem – segundo descreveu há pouco um empresário – não dá para falar a sério, porque só quer contar piada e falar palavrão?

O que pode levar alguém a aplaudir um sujeito que se tornou conhecido no mundo inteiro por ser o pior chefe de governo no enfrentamento da pandemia? Um negacionista, um imbecil insensato, insensível, que chama de “gripezinha” a doença que já matou 345 mil brasileiros?

O que pode levar um empresário a aplaudir um governante que foi eleito mentindo ser um liberal na economia, mas que a vida inteira, antes e depois da eleição, sempre se mostrou defensor de privilégios de corporações, antiliberal, estatizante, e já derrubou os presidentes da Petrobrás e do Banco do Brasil por fazerem um trabalho empresarialmente competente?

O que pode levar alguém bem alimentado, teoricamente estudado, esclarecido, bem informado, a aplaudir um governante que faz questão de tratar empresas estatais e instituições de Estado como se fossem puxadinhos de sua casa, propriedade particular dele e de sua família de amantes de milicianos?

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Ainda bem que há no Brasil homens como o ex-ministro Celso de Mello, Na mesma semana em que um grupo de empresários participou desse espetáculo trágico, nojento, asqueroso, de aplaudir o presidente da República em jantar em São Paulo na quarta-feira, 7/4, Celso de Mello punha os pontos nos is:

Bolsonaro desconhece o valor da vida, afirmou o jurista.

Bolsonaro padece de “inqualificável despreparo político e pessoal”, de “obtusidade córnea”

“Hoje, em nosso País” – escreveu Celso de Mello em mensagem a amigos –, “o Presidente da República (que julga ser um monarca absolutista ou um contraditório ‘monarca presidencial’) tornou-se, com justa razão, o Sumo Sacerdote que desconhece tanto o valor e a primazia da vida quanto o seu dever ético de celebrá-la incondicionalmente !!! A sua arbitrária recusa em decretar o ‘lockdown’ nacional (como ocorreu em países de inegável avanço civilizatório) equivale a um repulsivo e horrendo ‘grito necrófilo’.”

E prosseguiu:

“Esse gesto insensato do Presidente da República, opondo-se ao ‘lockdown’ nacional, mostra-se, de um lado, próprio de quem não possui o atributo virtuoso do ‘statesmanship’ (…) De outro lado, essa conduta negacionista torna imputável ao Chefe de Estado, em face de seu inqualificável despreparo político e pessoal, a nota constrangedora e negativa reveladora daquela ‘obtusidade córnea” de que falava Eça de Queirós , em 1880, no prefácio da 3a. edição de sua obra O Crime do Padre Amaro, no contexto da célebre polêmica que manteve com o nosso Machado de Assis”.

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Ainda bem que há no Brasil uma imprensa vigorosa, atenta, corajosa, que chama o triste espetáculo da quarta-feira à noite em São Paulo de “rega-bofe farsesco”, que define o que os empresários fizeram como “aplauso necrófilo”.

Ainda bem que há gente como Vera Magalhães, capaz de externar a indignação das pessoas de bem diante desse espetáculo que faz o Baile da Ilha Fiscal, às vésperas da queda da monarquia, parecer uma reunião de sábios:

“O que aplaudem os endinheirados do Brasil, o pior país no trato da pandemia, aquele que virou razão de comiseração global e repulsa externa? A quem ovacionam? Ao governante que chama de ‘vagabundo’ o governador do estado que, até aqui, forneceu 80% das vacinas usadas para imunizar apenas 10% da população brasileira? O que celebram? A iminência da falta de oxigênio nos hospitais?”

Ainda bem que está aí a Folha de S. Paulo, para registrar em editorial:

“A confiança do setor produtivo e de investidores deve ser obtida com políticas públicas consistentes e clareza de propósitos. Rega-bofes para alguns convidados mostram exatamente o contrário.”

Ainda bem que está aí O Globo, para lembrar, também em editorial:

“A intervenção na estatal (Petrobrás) e no Banco do Brasil não fizeram parte do cardápio do jantar, que buscava reaproximá-lo do setor produtivo, mas ficou restrito a um grupo empresarial com cujo apoio Bolsonaro sempre pôde contar. O documento recém-divulgado com críticas à forma como o governo enfrenta a crise da pandemia, que contou com ampla adesão entre economistas e empresários de relevância bem maior, também não foi tratado no jantar.”

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Segundo o portal A Pública, da Agência de Jornalismo Investigativo, ao todo 1.434 pessoas e mais de 476 organizações assinaram pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro. Foram enviados 107 documentos à mesa da Câmara dos Deputados – 62 pedidos originais, 7 aditamentos e 38 pedidos duplicados. Até agora 6 pedidos foram arquivados ou desconsiderados. Os outros 101 aguardam análise.

Cento e um pedidos de impeachment!

Cento e um pedidos na gaveta do deputado Arthur Lira!

Ah, quem tem culpa vai pagar… Pode demorar – mas quem tem culpa vai pagar.

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Rega-bofe farsesco

Editorial, Folha de S. Paulo, 9/4/2021

Em jantar com um pequeno grupo de empresários, incluindo apoiadores de primeira hora e alguns nem tão próximos, Jair Bolsonaro procurou mostrar que conta com suporte na elite econômica

Acompanhado por ministros, entre eles Paulo Guedes (Economia), Tarcísio de Freitas (Infra-estrutura) e Marcelo Queiroga (Saúde), além do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o presidente usou a oportunidade para reafirmar empenho na vacinação e compromisso com uma gestão responsável.

Afora a ausência de pudor na busca de crédito por uma campanha de imunização que o Planalto sempre rechaçou, o encontro acaba por expor involuntariamente o que mais falta ao governo Bolsonaro na condução da economia.

A confiança do setor produtivo e de investidores deve ser obtida com políticas públicas consistentes e clareza de propósitos. Rega-bofes para alguns convidados mostram exatamente o contrário.

Alguns dos presentes demonstraram otimismo após o encontro, mas o grupo constitui amostra ínfima do empresariado. Logo surgiu quem denunciasse a tentativa de tomar a parte pelo todo.

Recorde-se que um contingente muito mais amplo de industriais, banqueiros, executivos e economistas assinou recentemente carta com críticas ao governo e cobrança de providências concretas para a superação da pandemia e apoio à população mais carente.

Conforme os relatos, os ministros procuraram destacar temas positivos, como não poderia ser diferente —alguns avanços da agenda legislativa e leilões de infraestrutura.

Entretanto a cortina de fumaça é incapaz de esconder a gravidade da conjuntura. O atraso na vacinação ceifa vidas, enquanto o país vive entre estagnação econômica, alta da inflação e desconfiança a respeito das contas públicas.

Todos esses problemas são agravados pela incúria do Planalto e pelo descompromisso do Congresso, mais preocupado com seus interesses paroquiais. O mais recente episódio foi a tentativa (mais uma) de burlar o teto para os gastos federais com um Orçamento fictício.

A farsa, que agora se transformou em impasse político, foi viabilizada pela colaboração entre alas do governo e o centrão, com o objetivo de ampliar despesas em benefício de redutos eleitorais.

Enquanto Bolsonaro colhe aplausos e gentilezas no varejo, os mercados demonstram clara e diariamente —por meio de inflação, baixo crescimento, desemprego, alta do dólar e dos juros— o déficit de credibilidade do governo.

Este deveria ser o recado levado a sério pelo presidente e por seus auxiliares.

 

A foto abaixo, da quarta-feira, 7/4, é de Mathilde Missioneiro/Folhapress. O quadro no alto deste post, “O Último Baile do Império”, é de Francisco Figueiredo.  

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As contradições de Bolsonaro diante do setor empresarial

Editorial, O Globo, 9/4/2021

Há uma óbvia contradição nas atitudes do presidente Jair Bolsonaro diante do empresariado. De um lado, num jantar em São Paulo na quarta-feira, assegurou que vetará o que for necessário para acabar com a incerteza que cerca o Orçamento. “Não vou colocar o meu na reta”, disse. De outro lado, continua a minar a segurança necessária para investimentos no Brasil, ao chamar de “inadmissível” o aumento de 39% no preço do gás natural, provocando nova queda nas ações da Petrobras em Bolsa.

A intervenção na estatal e no Banco do Brasil não fizeram parte do cardápio do jantar, que buscava reaproximá-lo do setor produtivo, mas ficou restrito a um grupo empresarial com cujo apoio Bolsonaro sempre pôde contar. O documento recém-divulgado com críticas à forma como o governo enfrenta a crise da pandemia, que contou com ampla adesão entre economistas e empresários de relevância bem maior, também não foi tratado no jantar.

Nesses eventos, os temas tendem a ser modulados de acordo com o gosto do convidado, sempre tratado com a devida cerimônia. Bolsonaro fez seu discurso padrão contra os governadores, a quem chamou de “vagabundos”, e ouviu do dono de uma rede de shopping centers uma crítica veemente aos lockdowns. Mesmo assim, alguns presentes não se furtaram a defender o distanciamento social.

O presidente estava acompanhado de uma comitiva de ministros com algum trânsito no mundo dos negócios. Entre eles, Paulo Guedes, da Economia, aplaudido ao ser elogiado por Flávio Rocha, da Riachuelo. Ficou claro o apoio explícito dos presentes à agenda de reformas defendida pelo ministro, mas torpedeada pelo Centrão em Brasília, como demonstra a crise em torno do Orçamento fictício.

A contradição de Bolsonaro deriva de sua incapacidade para conciliar pressões em sentidos antagônicos. De um lado, precisa reagir a uma crise sanitária histórica, com reflexos recessivos na economia. De outro, depende de manter o Centrão em sua base parlamentar, para ficar blindado contra o risco de impeachment ou mesmo de processos no STF. É um equilíbrio a cada dia mais instável, e ele busca apoio no que estiver a seu alcance.

Numa situação política também delicada, em 2015, a então presidente Dilma Rousseff pregou união contra a crise num jantar com pequeno grupo de empresários no Palácio da Alvorada. Àquela altura, ela enfrentava uma recessão que se estenderia pelo ano seguinte e, para sua sustentação no Congresso, dependia do Centrão comandado por Eduardo Cunha. Deu no que deu.

Ainda é incerto o desfecho da crise do Orçamento inexequível, defendido com afinco pelo Centrão. Jantares como o de quarta-feira poderiam ao menos servir para Bolsonaro refletir sobre suas prioridades. Claro que é difícil isso ocorrer com alguém preso a convicções que se mostram tão equivocadas quanto inabaláveis. Mas é sempre bom conversar.

(Na foto, de Juan Guerra, o empresário washington Cinel, anfitrião do rega-bofe, com a filha, engalanada para o evento. Eu não estive lá, mas posso garantir que no Baile da Ilha Fiscal não houve nada como a indumentária da filha do bolsonarista.) 

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O ‘aplauso necrófilo’ dos empresários

Por Vera Magalhães, O Globo, 9/4/2021

Ministros e empresários em jantar na última quarta-feiraMinistros e empresários em jantar na última quarta-feira | Photo Primer/Infoglobo

Já estava com este texto em produção quando tomei conhecimento da duríssima, mas irretocável, mensagem que o ex-decano do STF Celso de Mello enviou a um grupo de amigos no momento em que seu substituto na cadeira, Nunes Marques, presta homenagem ao negacionismo votando pela liberação de cultos e missas quando contamos mais de 345 mil mortos.

Mello cumpria uma quarentena silente desde novembro. Mas, quando falou, deu nome às coisas. “Hoje, em nosso país, o presidente da República (que julga ser um monarca absolutista ou um contraditório ‘monarca presidencial’) tornou-se, com justa razão, o Sumo Sacerdote que desconhece tanto o valor e a primazia da vida quanto o seu dever ético de celebrá-la incondicionalmente!!! A sua arbitrária recusa em decretar o ‘lockdown’ nacional (como ocorreu em países de inegável avanço civilizatório) equivale a um repulsivo e horrendo ‘grito necrófilo’ ”, escreveu.

O “grito necrófilo” de Jair Bolsonaro, explicou no texto, é uma referência ao “grito que teria sido proferido pelo conflito entre Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca no início da Guerra Civil espanhola, em 1936, e o general Millán Astray, que, seguidor falangista fiel ao autocrata Francisco Franco, “Caudilho de Espanha”, lançou o grito terrível: “¡Viva la muerte; abajo la inteligencia’!”.

Na noite anterior, em São Paulo, dezenas de empresários de vários setores se reuniram com Bolsonaro, ministros e até o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, para um convescote com direito a comes, bebes, perdigotos, falta de máscaras, xingamentos ao governador do estado, felicitações e… ovação!

O que aplaudem os endinheirados do Brasil, o pior país no trato da pandemia, aquele que virou razão de comiseração global e repulsa externa? A quem ovacionam? Ao governante que chama de “vagabundo” o governador do estado que, até aqui, forneceu 80% das vacinas usadas para imunizar apenas 10% da população brasileira?

O que celebram? A iminência da falta de oxigênio nos hospitais? Aliás, o que fazia, numa aglomeração realizada em desacordo com as restrições impostas pela fase emergencial do Plano São Paulo, o médico Claudio Lottenberg, presidente do conselho do Hospital Israelita Albert Einstein, hospital que vive o mesmo flagelo de superlotação e esgotamento das equipes de toda a rede hospitalar do país?

O aplauso a Bolsonaro parte dos mesmos que salivam por um projeto torpe, que permite a empresas com conexões com laboratórios furar a fila da vacinação e fazer letra morta do Plano Nacional de Imunização, numa percepção tão mesquinha quanto burra de que, assim, poderão retomar a produção de suas empresas e a “vida normal”, quando qualquer um que se informe minimamente sobre a pandemia sabe que, para isso, é necessário vacinar mais de 70% da população e fazer o vírus deixar de circular da forma descontrolada como está circulando.

Os nababos reunidos sem máscara em torno de copos e pratos ouviram o presidente reiterar sua cantilena contra distanciamento social e saíram do encontro se dizendo “esperançosos”, “tranquilos”.

Como podem estar tranquilos diante do aumento gritante da miséria e da fome? Da iminência de que a produção de vacinas pelo Butantan seja paralisada, sem que as outras prometidas pelo homenageado estejam chegando? Da falta de insumos básicos nos hospitais? De oxigênio?

Enquanto parte da elite empresarial brasileira aceitar servir de figurante para campanha eleitoral antecipada no momento de maior gravidade da História do Brasil desde a redemocratização, continuaremos ouvindo o grito necrófilo que o ministro Celso de Mello tão brilhante e tristemente nomeou. E é um urro grotesco e desrespeitoso com o luto de milhões.

9/4/2021

Este post pertence à série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro”. 

A série não tem periodicidade fixa.

Duas reportagens mostram  como oi bolsonarismo luta para desestabilizar as polícias estaduais,. (47)

Não basta a História. O genocida golpista tem que ser condenado por tribunais que estipulam penas. (46)

Não se usa máscara no Ministério da Saúde! Achou esquisito? Não é. É coerente com o desgoverno do genocida. (45)

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