“Nunca pensei que pudesse ficar tão velho”

A melodia é lenta, bem lenta, triste. Os versos, é claro, ficam mais belos – e mais doídos – no original: “I never thought I’d get this old, dear / Never had a reason to live so long”.

Quando a gente ouve Eva Cassidy cantar isso – nunca pensei que pudesse ficar tão velha, nunca tive motivo para viver tanto –, dá uma tristeza daquelas brabas: Eva Cassidy, extraordinária, magnífica cantora, de timbre personalíssimo, fantástica amplitude vocal, capaz de fazer a milésima gravação de uma canção e torná-la a mais bela, morreu aos 33 anos, de câncer.

Os versos de “Anniversary Song” perdem na tradução como tudo se perde na tradução – mas perdem muito menos do que estes versos aqui:

Cornflower blue, deeper than the evenin’ sky / peaceful as a river, bluer than goodbye / Blue like a diamond, when the light shines true / If love came in colors, then I’d choose this one for you.

“Cornflower Blue” é uma das mais belas canções que já ouvi na vida, mesmo que não tenha a menor idéia de que de flor é esta, de como ela se chama em Português – essa fruta que é pacífica como um rio, mais triste que o adeus. Que, se o amor viesse em cores, a poeta a escolheria para dar para o amado.

Kate Wolf, a poeta, a autora da música e da letra tão acachapantemente belas quanto as de “Anniversary Song”, é a compositora que mais passei a admirar nos últimos, sei lá, 20 e tantos anos. Tenho hoje tanto respeito e admiração por Kate Wolf quanto por, para citar só alguns, Dylan, Simon, McCartney, Chico, Caetano, Gil, Moustaki, Endrigo, Serrat – e Eva Cassidy.

Como Eva Cassidy, Kate Wolf tinha tudo para se tornar uma das mais respeitadas e conhecidas personalidades da boa música americana dos anos 80, 90, até o infinito e depois. Morreu aos 44 anos, de câncer.

***

Penso sempre em Kate Wolf e Eva Cassidy quando se fala de passagem do tempo, de início de ano, de aniversários – e janeiro é um mês especialmente cheio de aniversários de pessoas queridas. Para citar só uma: Suely – que também morreu jovem demais –, a mãe da minha filha, é de 25, o dia do aniversário da cidade em que nasceu, a cidade que eu escolhi.

I never thought I’d get this old, dear, Never had a reason to live so long.   

Não consegui saber quem é o autor de “Anniversary Song”. Já o autor destes versos aqui – tão inesperados, surpreendentes quanto aqueles  -, todos nós amamos demais, embora esta canção seja das pouco conhecidas dele:

Cruzes, que vida comprida,/ pra que tanta vida pra gente desanimar?   

Chico era um garoto quando escreveu “Umas e outras”. Estava com 25 anos – 8 menos que Eva Cassidy tinha quando morreu, depois de cantar que nunca tinha pensado que pudesse ficar tão velha, nunca tinha tido motivo para viver tanto.

Neil Young não era assim tão novinho quando, ao fazer uma elegia ao rock’n’roll, que não pode morrer nunca, cometeu aquele verso: “better to burn out than to fade away” – melhor se queimar de uma vez do que ir sumindo.

Fade away – ir sumindo. Wither – secar, murchar. Crumble – desfazer-se. Verbos fortes, que significam coisas fortes.

I was 21 years when I wrote this song / I’m 22 now, but I won’t be for long / Time hurries on / And the leaves that are green turn to brown / And they wither with the wind / And they crumble in your hand.

Esta é uma das canções mais belas, mais fortes sobre a passagem do tempo. O narrador tinha 21 anos quando escreveu a música, tem 22 agora; o tempo corre, e as folhas verdes ficam cinza e murcham com o vento e se desfazem  na mão.

Quando a canção “Leaves That Are Green” foi lançada, em 1966, no segundo álbum de Simon & Garfunkel, Paul Simon tinha 25 anos, o filho da mãe. Com míseros 25 anos, o sujeito era capaz de escrever aqueles versos…

No disco seguinte, ele falaria sobre os velhinhos, os idosos, sentados sozinhos, silenciosos, nos bancos do parque, com uma exclamação incrível para quem estava com 26: “How terribly strange to be seventy”.

Para quem tem 26, de fato é terrívelmente estranho imaginar como é ter 70.

O outro Paul genial dos meus ídolos, o McCartney, tinha também 25 anos quando escreveu, brincalhão, sobre aquele tempo distante, longínquo, em que estaria velhinho, chegando aos 64, perdendo o cabelo, brincando com os netos Vera, Chuck e Dave.

O sujeito que quando bem jovem foi amicíssimo de Paul McCartney, e depois virou seu desafeto – chegou a compor uma canção, “How Do You Sleep?”, para xingar o ex-companheiro -, bem diferentemente do que disse Neil Young em “Hey Hey, My My (Into The Black)”, acalentava o sonho de ir ficando velho ao lado da mulher que amava. E garantia que o melhor da vida ainda estava por vir: “Grow old along with me / The best is yet to be”, ele escreveu, em uma das últimas canções que compôs antes de ser assassinado aos 40 anos de idade.

***

Penso nisso tudo neste início de 2021 em que vão comemorar 80 anos  Erasmo Carlos, Joan Baez, David Crosby, Nana Caymmi, Roberto Carlos, Paul Simon, Bob Dylan, Art Garfunkel, Ney Matogrosso.

John Lennon não pôde comemorar seus 80 anos, que teriam sido completados em 2020. Já Paul McCartney vai ter que esperar até 2022 para comemorar seus oitentinha. Chico, aquele garoto, só vai chegar lá em 2024, ano de votar no prefeito do Rio que vai suceder Eduardo Paes. Neil Young, fedelho, só vira octogenário em 2025. Daqui até lá vai provavelmente gravar uns cinco ou seis discos.

Erasmo Carlos, Joan Baez, David Crosby, Nana Caymmi, Roberto Carlos, Paul Simon, Bob Dylan, Art Garfunkel, Ney Matogrosso: oitenta anos esta noite! Não, não, esta noite é trinta anos. Oitenta anos este ano!

Engraçado é como tem duplas, ou pares, nesta augusta, fantástica, sensacional relação aí.

Roberto e Erasmo.

Simon & Garfunkel.

Dylan e Baez – meu Deus do céu e também da Terra, quanta canção um escreveu para o outro, quantas canções o povo botou no YouTube com fotos dos dois…

Um produtor genial poderia reunir os não-pares, os não-duplas, em um projeto de CD e DVD, ou de live do ano – meu, cacete, Crosby, Ney e Nana fariam um trio absolutamente maravilhoso…

***

Bem… O que eu quis dizer com isso?

“The moral of the story?”, como dizia, exagerando no seu exagerado fanho o Bob Dylan de John Wesley Harding, o disco de 1967, o ano em que ele, e mais Paul Simon, Erasmo Carlos, Joan Baez, David Crosby, Nana Caymmi, Roberto Carlos, Paul Simon e Art Garfunkel fizeram 26 anos.

Ahnnn… Não tem moral nenhuma, não, este texto. Não tem uma mensagem, uma tese, não.

É só um suelto, um textinho sem compromisso qualquer.

Não pretendo, de forma alguma, argumentar que garotos de 20 ou 30 e poucos anos não têm o direito de falar que estão cansados de viver.

Cada um tem o direito de pensar e falar o que quiser.

Claro, óbvio, evidente:

Desde que não ofenda o direito dos outros.

Mas isso aí é outra história. Não se está aqui falando de trumps & bolsonaros.

Isto aqui é só um suelto.

11 e 12/1/2021

Um comentário para ““Nunca pensei que pudesse ficar tão velho””

  1. Que texto saboroso! Quantas lembranças dos meus 73 anos foram reavivadas com as músicas, compositores e cantores citados. Obrigado, Sérgio Vaz.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *