Vacinação já. Impeachment também

“Estupidez assassina”, “irresponsabilidade delinquente”. As duas qualificações se referem ao presidente da República Federativa do Brasil, e estão nas duas primeiras frases de editorial da Folha de S. Paulo, publicado na primeira página da edição deste domingo, 13 de dezembro – por coincidência, o dia do aniversário do Ato Institucional nº 5, o que, em 1968, deu um novo golpe dentro do golpe militar que Jair Bolsonaro não cansa de elogiar.

É um editorial forte, fortíssimo – e o fato de estar na primeira página, algo que acontece raríssimas vezes nos quase 100 anos de vida do jornal só lhe dá mais força ainda.

É um belo editorial, e é um belo gesto da Folha publicá-lo assim, com esse grande destaque,

Mas não é algo isolado, de forma alguma. Muitíssimo antes ao contrário. A imprensa brasileira vem criticando, de forma firme, forte, corajosa, responsável, admirável, os seguidos descalabros cometidos pelo desgoverno Jair Bolsonaro, em todas as áreas, mas em especial no descaso, na incompetência, na estupidez assassina, na irresponsabilidade delinquente diante da pandemia da Covid-19, a pior crise sanitária enfrentada pelo planeta em 100 anos – que o próprio presidente chama de “gripezinha”.

Uma gripezinha que já matou mais de 180 mil brasileiros.

Neste mesmo fim de semana, os outros dois maiores jornais do país, O Estado de S. Paulo e O Globo, também publicaram editoriais duros sobre a terrível situação em que o Brasil se encontra tendo que enfrentar, ao mesmo tempo, dois vírus assassinos – o coronavírus e o Capitão da Morte.

Diz o Estado:

“Na pior crise sanitária de nossa era, apesar de o País contar com um sistema de saúde pública e uma infraestrutura de imunização reputados mundialmente, a condução do governo será lembrada pela história como desastrosa em todos os sentidos: da comunicação, passando pela articulação com Estados e municípios, distribuição de equipamentos e medicamentos, administração de testes, até o plano de vacinação, não há um aspecto da gestão da crise que não tenha sido infectado pelo obscurantismo, descaso, incompetência ou má-fé do presidente e seu fantoche no Ministério da Saúde.”

Diz O Globo:

“O presidente Jair Bolsonaro, em seu mundo paralelo, tem a desfaçatez de dar risada e de dizer que o Brasil vive ‘o finalzinho da pandemia’. Completamente alheio à realidade da doença e ao sofrimento que ela impõe a milhares de famílias, Bolsonaro é o principal responsável pela dimensão que a tragédia adquiriu no Brasil.”

Antes de transcrever as íntegras dos editoriais dos três principais jornais do Brasil, digo eu:

Certo, o quadro é este. E aí? Quando é que vai ser aberto um processo de impeachment para tirar de lá o assassino estúpído, o deliquente irresponsável?

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Vacinação já

Editorial, Folha de S. Paulo, 12/12/2020

Passou de todos os limites a estupidez assassina do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de coronavírus. É hora de deixar de lado a irresponsabilidade delinquente, de ao menos fingir capacidade e maturidade para liderar a nação de 212 milhões de habitantes num momento dramático da sua trajetória coletiva. Chega de molecagens com a vacina!

Mais de 180 mil pessoas morreram de Covid-19 no Brasil pela contagem dos estados, subestimada. A epidemia voltou a sair do controle, a pressionar os serviços de saúde e a enlutar cada vez mais famílias. Trabalhadores e consumidores doentes ou temerosos de contrair o mal com razão se recolhem, o que deprime a atividade econômica. Cego por sua ambição política e com olhos apenas em 2022, Bolsonaro não percebe que o ciclo vicioso da economia prejudica inclusive seus próprios planos eleitorais.

O presidente da República, sabotador de primeira hora das medidas sanitárias exigidas e principal responsável por esse conjunto de desgraças, foi além. Sua cruzada irresponsável contra o governador João Doria esbulhou a confiança dos brasileiros na vacina. Nunca tão poucos se dispuseram a tomar o imunizante, segundo o Datafolha.

Com a ajuda do fantoche apalermado posto no Ministério da Saúde, Bolsonaro produziu curto-circuito numa máquina acostumada a planejar e executar algumas das maiores campanhas de vacinação do planeta. Como se fosse pouco, abarrotou a diretoria da Anvisa com serviçais do obscurantismo e destroçou a credibilidade do órgão técnico.

Abandonada pelo governo federal, a população brasileira assiste aflita ao início da imunização em nações cujos líderes se comportam à altura do desafio. Não faltarão meios jurídicos e políticos de obrigar Bolsonaro e seu círculo de patifes a adquirir, produzir e distribuir a máxima quantidade de vacinas eficazes no menor lapso temporal.

O caminho da coerção, no entanto, é mais acidentado e longo que o da cooperação entre as autoridades federais, estaduais e municipais. Perder tempo, neste caso, é desperdiçar vidas brasileiras, o bem mais precioso da comunidade nacional. Basta de descaso homicida! Quase nada mais importa do que vacinas já — e para todos os cidadãos.

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Incompetência letal

Editorial, O Estado de S. Paulo, 13/12/2020

Na pior crise sanitária de nossa era, apesar de o País contar com um sistema de saúde pública e uma infraestrutura de imunização reputados mundialmente, a condução do governo será lembrada pela história como desastrosa em todos os sentidos: da comunicação, passando pela articulação com Estados e municípios, distribuição de equipamentos e medicamentos, administração de testes, até o plano de vacinação, não há um aspecto da gestão da crise que não tenha sido infectado pelo obscurantismo, descaso, incompetência ou má-fé do presidente e seu fantoche no Ministério da Saúde.

Meses após as autoridades científicas terem desacreditado a hidroxicloroquina e a azitromicina no tratamento da covid-19, o Ministério da Saúde planeja gastar até R$ 250 milhões para oferecê-las no programa Farmácia Popular. Com esse valor seria possível adquirir 13,8 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, o suficiente para imunizar quase 7 milhões de pessoas.

A Sociedade Brasileira de Infectologia – em linha com a OMS e sociedades médicas dos EUA e Europa, além da própria Anvisa – voltou a alertar contra o tratamento farmacológico precoce para covid-19: “Os estudos clínicos randomizados com grupo de controle existentes até o momento não mostraram benefícios e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais”.

Concomitantemente, o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas desfilou um catálogo de problemas na divulgação de dados sobre a pandemia. A página com informações de distribuição de testes, por exemplo, apresentou defasagem de 13 semanas – não surpreende que, no fim de novembro, o Estado tenha apurado que quase 7 milhões de testes estavam encalhados em um depósito, prestes a perder a validade. Defasagem similar foi verificada na base de dados sobre medicamentos e EPIs. Os boletins epidemiológicos, fundamentais para monitorar a curva de contágio, apresentaram um vácuo informacional de quase um mês. O número de leitos não fora atualizado desde outubro.

A frequência das coletivas de imprensa, que na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta eram quase diárias, despencou para quase uma por semana, tendo havido um hiato de 13 dias em novembro. O ministro Eduardo Pazuello, que participou de apenas 13% delas, “se limita a fazer declarações e deixa a coletiva sem responder perguntas”.

À luz desse apagão informacional, o voo cego na vacinação era previsível. Mesmo assim, a desorientação é assombrosa. Enquanto o mundo testemunhava as primeiras vacinações no Reino Unido, Pazuello declarou que a Anvisa levaria ao menos 60 dias para certificar uma vacina e que a imunização deveria começar apenas em março. Poucos dias depois, sugeriu que talvez começasse no final de dezembro, se “a Pfizer conseguir autorização emergencial e nos adiantar alguma entrega”. Uma semana antes, a aquisição da vacina da Pfizer era dada por Pazuello como impraticável, em razão das condições de armazenamento, o que foi logo desmentido pelas autoridades sanitárias.

Em carta aberta, 11 ex-ministros da saúde (incluindo os dois defenestrados por Jair Bolsonaro por se recusarem a ministrar tratamentos não comprovados) lembraram que o País tem um dos “melhores e mais abrangentes programas de imunizações do mundo”. Mas até agora não se sabe de quantas vacinas o governo federal disporá nem quando. Há indícios de que faltam agulhas. E o Ministério reluta em negociar opções viáveis, como a Coronavac produzida pelo Butantan, por motivações indisfarçavelmente políticas.

É incalculável o número de vidas desnecessariamente perdidas em meio às reviravoltas e tropeços dessa dança macabra do governo. A história será implacável, e espera-se que no momento oportuno o eleitorado também seja. Enquanto isso, é urgente que órgãos de controle como o Ministério Público, Controladoria-Geral da União, Tribunal de Contas da União ou a Comissão Mista do Congresso para a covid-19 se mobilizem para impedir que mais vidas sejam sacrificadas no altar da incompetência em que se transformou o Ministério da Saúde.

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Brasil superou a pior previsão para a Covid

Editorial, O Globo, 12/12/2020

Em 28 de março, quando o Brasil registrava menos de 4 mil infectados e 114 mortos pelo novo coronavírus, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, levou ao presidente Jair Bolsonaro e a seus ministros três cenários para a pandemia. No melhor, o vírus mataria 30 mil brasileiros. No intermediário, de 60 a 80 mil. No pior, caso não fossem tomadas medidas de combate à doença, o número de vítimas chegaria a 180 mil.

Oito meses e meio depois, constata-se que o Brasil de Bolsonaro vai além do pior. Faltando menos de 20 dias para terminar o fatídico 2020, o país ultrapassou ontem a marca de 180 mil mortos e 6,8 milhões de infectados, deixando para trás o cenário mais catastrófico traçado pelos técnicos do Ministério da Saúde no início da pandemia.

Não se sabe qual será o limite para a hecatombe. Depois de alternar períodos de estabilidade e queda, o número de casos e mortes voltou a explodir no país a partir de novembro, levando as redes pública e privada à iminência de um colapso. O vírus avança nas capitais e no interior. Ontem, 20 das 27 unidades da Federação registravam alta na média de mortes, e apenas três apresentavam queda. O número de óbitos já voltou ao patamar de 700 por dia, um a cada dois minutos.

No Rio, a situação é calamitosa. Cerca de 500 pessoas estão na fila à espera de um leito nos hospitais da rede pública, quase metade delas necessitando de tratamento intensivo. Apesar disso, têm sido tímidas e contraditórias as medidas tomadas pelo governador Cláudio Castro e pelo prefeito Marcelo Crivella. Escolas foram fechadas, mas shoppings estão autorizados a funcionar 24 horas. As áreas de lazer na orla da Zona Sul serão interditadas, mas as praias continuam liberadas, contrariando a recomendação de cientistas.

À medida que os cenários são refeitos para além do pior, a vacina, que poderia deter a escalada, ainda é cercada de dúvidas. O governo age no improviso e não consegue nem esboçar um plano nacional de vacinação consistente. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro, em seu mundo paralelo, tem a desfaçatez de dar risada e de dizer que o Brasil vive “o finalzinho da pandemia”. Completamente alheio à realidade da doença e ao sofrimento que ela impõe a milhares de famílias, Bolsonaro é o principal responsável pela dimensão que a tragédia adquiriu no Brasil.

As aglomerações das festas de fim de ano tendem a agravar a situação. Basta ver o que ocorre nos EUA, onde morreram 3 mil pessoas no mesmo dia em que a primeira vacina passava pelo comitê de especialistas da agência reguladora de medicamentos (FDA).

A perspectiva de vacina não pode servir de pretexto para nenhum relaxamento nas medidas de contenção. Mesmo quando estiver disponível (na melhor das hipóteses, no início do ano que vem), será apenas para os grupos de risco. Levará por volta de um ano até haver uma parcela de imunes suficiente para deter o contágio. Independentemente do que diga Bolsonaro, estamos longe, muito longe do tão aguardado final.

13/12/2020

Este post pertence à série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro”. 

A série não tem periodicidade fixa.

A imprensa, felizmente, reage às investidas do presidente contra as instituições (32).

O sujeito perdeu o juízo, surtou, matou a decência – e não se faz nada? (31)

As instituições como extensão da casa de Bolsonaro. (30)

2 Comentários para “Vacinação já. Impeachment também”

  1. Nunca pensei que nosso país viveria dias tão terríveis como agora. Este homem tenebroso que brinca de governar o Brasil, passou dos limites! Impeachment já! O caso da tramoia dele com a Abin, para protejer o filho, é crime, Concordo plenamente com o editorial da Folha. Este homem é realmente um incompetente, estúpido e assassino! Em plena crise sanitária mundial, esse idiota e sua mulherzinha têm a coragem de inaugurar, com discursos , um espaço no palácio as roupas que usaram na posse,. Toda baboseira foi assistida por muitos convidados, inclusive vários ministros, sem máscaras e distanciamento. Meu Deus, o que será de nós?

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