Shazam! – e o repórter voava

Anotações de um confinado.

Um simples telefonema pode transformar um sujeito cansado, tarde da noite, em um enviado especial. Então… À uma e meia da madrugada, os últimos convidados de uma festa tinham saído. Este que vos escreve já estava no quarto, olhando amavelmente para a cama. O telefone toca, Haydeé atende. “É o Mitre.”

O diretor de Redação do Jornal da Tarde. Não seria para me desejar boa-noite. Fui participado de que um Boeing da Transbrasil havia caído em Florianópolis. Setecentos quilômetros, por rodovia. Nem pensar. O setor de Tráfego do jornal no entanto agiu bem. Conseguiu me colocar em um vôo do começo da manhã.

Era abril de 1980. O Boeing bateu na encosta de um morro durante aproximação do aeroporto Hercílio Luz. Entre tripulantes e passageiros somaram-se 58 mortes. Foi um dia incessante de trabalho, ao lado de muitos outros jornalistas. No começo da noite consegui passar meu texto, pelo telefone.

Continha um personagem que sempre surge nesses casos. O passageiro que chegou atrasado para o embarque, perdeu o vôo mas ganhou a vida. Outro inevitável é o que diz ter visto o motor do avião explodir. Mas este desconsiderei.

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O almoço estava muito agradável em um esplendoroso domingo de junho de 1996, quando o telefone toca. Atendo e ouço uma voz agitada: “Mataram o PC Farias!”. Reconheci a voz de Leão Serva, na época diretor de redação do JT. Sua ansiedade se justificava.  A notícia era uma bomba.

PC Farias, como sabem, foi o tesoureiro da campanha que levou Fernando Collor à Presidência em 1992. E o principal acusado de coordenar um esquema de corrupção que resultou na renúncia de Collor para não ser cassado. PC fugiu do País, foi preso e trazido de volta. O Supremo Tribunal Federal o condenou a sete anos de prisão. Um ano depois, foi à liberdade condicional, e com mais seis meses passou para o semiaberto.

Ele e a namorada, Suzana Marcolino, foram encontrados na cama, na casa de praia de PC em Maceió, cada um com um tiro no peito. Na casa havia quatro seguranças. Eles disseram ter encontrado os corpos. Mas outra versão sustentava que na verdade haviam matado o casal (levados a júri, seriam inocentados). A hipótese mais cogitada era de que Suzana havia atirado em PC e se suicidado.

Saí de Guarulhos à tarde em um vôo que, em Salvador, faria conexão com outro, vindo de Brasília. Embarco nesse e vejo muita gente em pé, um falatório, pessoas com coletes cheios de bolsos, câmeras fotográficas… eram os enviados especiais das sucursais dos jornais na capital, que se abateriam sobre Maceió.

Lá, a lida diária. O legista que atuou no caso atestava suicídio. Surgiu no entanto  outro, que contestava a versão. Em certo momento a cena se agita. Descobre-se que Suzana tinha uma arma, e havia treinado tiro no quintal de uma casa. As redações reforçam as equipes. Mandam mais repórteres. No meu caso, do JT, o número dobrou. De um, para dois. Nada mal, pois chegou uma enviada especial muito amável – Marinês Campos, experiente repórter policial.

Marinês levantou boas informações, da minha parte fui atrás de outras. Com o passar do tempo, os fatos novos foram rareando. Os enviados especiais, o que nos incluía, voltaram para seus estados.

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Na segunda aula de um curso de inglês, vejo meu sogro invadir a sala, com um recado. O JT me mandava para Manaus. Eclodia um caso de repercussão internacional. A expedição chefiada pelo padre italiano Giovani Calleri havia sido massacrada pelos índios waimiri atroari, a quem tentavam pacificar, para a abertura da rodovia Manaus-Boa Vista.

Naquela época (novembro de 1968) o aeroporto de Guarulhos não existia. Cheguei a Congonhas em meu Ford 1951 (mania por carros velhos) e estacionei no meio-fio, na praça em frente. Não havia estacionamento. No embarque, no aeroporto, encontrei com Milton Ferraz, com sua bolsa de fotógrafo e teleobjetivas penduradas pelo corpo.

Havia um terceiro integrante da equipe. Alaor Martins, com um pesado equipamento de rádio, que pagou bom dinheiro por excesso de bagagem. Uma vez em Manaus, Milton e eu saímos atrás das informações. Enquanto isso, Alaor instalou uma torre no alto do hotel, e o rádio no seu apartamento. Dele passava radiofotos e meu texto, que lia ao microfone. A telefonia de Manaus era precária.

O caso tinha desdobramentos. Surgiram nomes de não-índios que estariam comandando os waimiri atroari. O JT abria as matérias. Uma sob o título “Quem chefia a morte na selva?” ocupava uma página. Na chegada dos corpos dos expedicionários no aeroporto de Ponta Pelada (o Internacional não existia), o avião foi cercado por moradores que ocuparam toda a pista.

Duas semanas depois (se a memória não falha), voltamos a São Paulo. No estacionamento, descubro que tinha um sujeito morando no meu carro. Bem acomodado, com algumas tralhas, no Ford espaçoso. Executei o procedimento de despejo, com bons modos. E ele se foi.

Setembro de 2020

Este é o volume 12  das anotações de um confinado. 

No volume 11, a obrigatoriedade de haver uma estante de livros atrás do entrevistado – qualquer entrevistado. 

No volume 10, como se desenvolveu a nova arte do confinado. 

No volume 9, lembranças de viagem ao Sul de Minas para fazer reportagem sobre juiz sui generis. 

 

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