O país precisa achar uma forma de se livrar desse doente

Jair Bolsonaro quer que as escolas sejam reabertas, que o comércio seja reaberto. Assinou medida provisória para que igrejas e lotéricas fiquem abertas. As escolas continuam fechadas. O cardeal-arcebispo Dom Odilo Scherer determinou que as missas em São Paulo continuem suspensas. As ruas das maiores cidades do Brasil estiveram tão vazias nesta quinta-feira quanto estavam na terça, antes do pronunciamento hara-kiri do presidente da República. Bolsonaro fala, o Brasil responsável toca em frente.

Bolsonaro está falando sozinho.

Felizmente. Graças a Deus. A Alá, Buda, Jeová, aos orixás e todos os deuses afros, Tupã e todos os deuses dos povos originariamente donos das terras, dos apaches aos aborígenes australianos, passando por todos os outros. (Tá politicamente correto, ou precisa mais?)

O novo coronavírus é transmissível demais, absurdamente transmissível. Ainda bem que a ignorância, a idiotice, a irresponsabilidade de Bolsonaro e sua gangue de fanáticos não são transmissíveis.

Ainda bem.

Ainda bem que está aí a imprensa profissional, independente, séria, para colocar as coisas no lugar.

Aqui vão alguns exemplos dos dois últimos dias:

“Foram cinco minutos de delírio, insensatez, irresponsabilidade e desinformação. O presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento ontem cuja única avaliação possível é de que o país é governado por uma pessoa insana.” (Míriam Leitão, O Globo, quarta-feira, 25/3.)

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“Não se pode mercadejar com a vida. Isso é uma verdade absoluta para qualquer país, todas as religiões e indistintas ideologias. É o que nos separa da barbárie. Transigir com mortes em nome de uma incerta retomada econômica é nos privar, além de tudo de que já abrimos mão em nome da solidariedade, daquilo que nos é inalienável e não entra em quarentena nunca: nossa humanidade.” (Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 25/3).

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“Isolar-se é a pior escolha de Bolsonaro. O presidente deve ter objetivos políticos, mas romper com os estados prejudica a população.” (Editorial, O Globo, quinta-feira, 26/3.)

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“O presidente passou a ser, ele mesmo, uma ameaça à saúde pública. Por incrível que pareça, os brasileiros, para o bem do País, devem desconsiderar totalmente o que disse o chefe de Estado. A que ponto chegamos.” (Editorial, O Estado de S. Paulo, quinta-feira, 26/3.)

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“Jair Bolsonaro é um homem só. Abandonado por aliados de primeira hora, esquecido pelos que se aproximaram por oportunidade, diminuído pelo Congresso, afastado por governadores e cada vez mais execrado pela maioria dos brasileiros. Com mais de 60 anos, ele deveria estar isolado socialmente para não se contaminar com o coronavírus. Mas o presidente conseguiu construir para si próprio uma ilha política que antes só foi vista durante os meses que antecederam o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Nem Dilma, nos seus piores dias, esteve tão solitária quanto Bolsonaro hoje.” (Ascânio Seleme, O Globo, quinta-feira, 26/3.)

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“O presidente Bolsonaro, por escolha própria, está completamente isolado. Não tem partido, não tem o apoio dos governadores, não tem diálogo dentro do Congresso. Já não governa mais. Um movimento de desobediência civil está instalado no país desde o primeiro panelaço, que foi se espalhando por estados e regiões à medida que ele se demonstrava inapto para exercer a presidência da República, especialmente num momento de grave crise de saúde pública como o que estamos vivendo. Os governadores, em maior ou menor grau, já anunciaram que não seguirão as orientações do governo se colidirem com as normas da Organização Mundial da Saúde. A população, mostram as pesquisas, apoia essa prudência.” (Merval Pereira, O Globo, quinta-feira, 26/3.)

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“O presidente Bolsonaro está completamente equivocado. (…) Se ninguém conseguir mudar o curso de ação do presidente, a crise vai aumentar e muito. E o presidente vai tentar colocar a culpa nos outros, qualquer outro, como sempre faz. Um desastre para o Brasil. (Carlos Alberto Sardenberg, O Globo, 26/3/2020.)

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“O presidente Bolsonaro tem errado mais do que é tolerável nesta crise. E a sua administração vai se esgarçando, mesmo as boas partes. Ontem, o ministro Luiz Henrique Mandetta fez uma exibição de subserviência e contorcionismo, ao tentar adaptar seu discurso à insensatez presidencial. (…) Bolsonaro vai perdendo o poder de fato com suas atitudes temerárias. Ontem, os governadores se reuniram sem ele. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, participou da reunião de videoconferência e, depois, em entrevista deixou claro que “se fosse para ajudar o presidente teríamos dificuldade de conseguir quórum”, mas para votar medidas pelo Brasil ele disse que trabalhará com as lideranças. Se alguém não sabe exercer o poder, ele o perde. É o que acontece neste momento com o presidente Jair Bolsonaro. Ontem, ele era um homem à deriva.” (Míriam Leitão, O Globo, 26/3/2020.)

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Hoje eu fiz aqui, para mim mesmo, uma tabela com os números oficiais do coronavírus no Brasil. Todos sabemos que os números de infectados são subestimados – pouquíssima parcela da população brasileira está sendo efetivamente testada. Mesmo assim, os números são absolutamente impressionantes.

Dia Confirmados Mortos
17/3 291 1
18/3 428 4
19/3 640 7
20/3 904 11
21/3 1.128 18
22/3 1.546 25
23/3 1.891 34
24/3 2.201 46
25/3 2.555 59
26/3 2.915 77

 

Vendo a tabela que tinha acabado de fazer, foi impossível não pensar: mas o Bolsonaro não consegue enxergar isso?

Não, ele não consegue. Como é idiota, psiquiatricamente doente, não consegue ver nada além do próprio umbigo, dos fedelhos e de 2022. O Brasil não importa. A vida das pessoas não importa.

O país precisa achar uma forma de se livrar desse doente.

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A brutalização da verdade

Editorial, O Estado de S. Paulo, 26/3/2020.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, fez um pronunciamento absolutamente irresponsável na noite de terça-feira, em cadeia nacional de rádio e TV. Em vez de usar esse recurso poderoso para anunciar alguma medida importante para conter a epidemia de covid-19, ou mesmo para confortar os brasileiros confinados há dias em suas casas, Bolsonaro, sob o argumento de que é preciso reativar a economia, incitou os cidadãos a romper a quarentena e voltar à “normalidade” – contrariando as recomendações de especialistas de todo o mundo e do próprio Ministério da Saúde. Ao fazê-lo, o presidente passou a ser, ele mesmo, uma ameaça à saúde pública. Por incrível que pareça, os brasileiros, para o bem do País, devem desconsiderar totalmente o que disse o chefe de Estado. A que ponto chegamos.

Mas a ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da questão da saúde pública. O presidente parece desejar ardentemente o confronto – com governadores de Estado, com o Congresso, com a imprensa e até com integrantes de seu próprio governo –, de modo a criar um clima favorável a soluções autoritárias. À sua maneira trôpega, Bolsonaro, ao reiterar ontem as alucinadas declarações que dera na noite anterior, disse: “Todos nós pagaremos um preço que levará anos para ser pago, se é que o Brasil não possa ainda sair da normalidade democrática que vocês tanto defendem. Ninguém sabe o que pode acontecer no Brasil. Sai (da normalidade democrática) porque o caos faz com que a esquerda se aproveite do momento para chegar ao poder. Não é da minha parte, não, fique tranquilo”.

Assim, Bolsonaro usa a epidemia de covid-19, cujas dimensões e letalidade ainda são desconhecidas e que tanta aflição tem causado ao País e ao mundo, para alimentar seu inconfessável projeto de poder – cuja natureza cesarista já deveria ter ficado clara para todos desde o momento em que o admirador confesso de notórios torturadores do regime militar se tornou presidente da República.

Esse projeto se assenta na brutalização da verdade. Para o bolsonarismo, os fatos reais não existem, salvo quando enunciados por Bolsonaro. Assim, se o presidente diz, sem nenhum respaldo na realidade, que a covid-19 é uma “gripezinha” causada por um vírus “que brevemente passará” e que a culpa pelo “pavor” da sociedade é da imprensa, que semeou uma “verdadeira histeria”, então esses passam a ser os “fatos” – em detrimento das inúmeras evidências em contrário. No mesmo dia em que Bolsonaro qualificava a covid-19 de “resfriadinho”, os organizadores da Olimpíada de Tóquio anunciaram o adiamento do evento para o ano que vem – apenas a mais recente das muitas medidas drásticas tomadas mundo afora por dirigentes conscientes de seu papel nessa crise planetária. “É sério. Leve a sério você também”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, em dramático pronunciamento na TV a respeito da necessidade de isolamento social.

O contraste com Bolsonaro é gritante: para o presidente brasileiro, basta manter apenas o “grupo de risco” (pessoas acima de 60 anos) em isolamento, e então será possível reabrir escolas e o comércio. Mas o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é contra esse isolamento parcial, segundo apurou o site BR Político.

Por sorte, os governadores de Estado – acusados por Bolsonaro de praticar política de “terra arrasada” – informaram que vão manter as restrições de movimento para enfrentar a epidemia. Em reunião virtual dos governadores do Sudeste com Bolsonaro, João Doria, de São Paulo, disse lamentar o pronunciamento do presidente, queixou-se da descoordenação do governo federal e declarou que “a prioridade é salvar vidas” – ao que Bolsonaro, que jamais desceu do palanque, respondeu: “Saia do palanque”.

“As decisões do presidente da República em relação ao coronavírus não alcançarão o Estado de Goiás”, informou o governador goiano, Ronaldo Caiado, no que certamente será seguido por seus pares. Ou seja, o presidente Bolsonaro será olimpicamente ignorado pelos governadores. O resto dos brasileiros deveria fazer o mesmo.

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Um egoísta isolado

Ascânio Seleme, O Globo, 26/3/2020.

Jair Bolsonaro é um homem só. Abandonado por aliados de primeira hora, esquecido pelos que se aproximaram por oportunidade, diminuído pelo Congresso, afastado por governadores e cada vez mais execrado pela maioria dos brasileiros. Com mais de 60 anos, ele deveria estar isolado socialmente para não se contaminar com o coronavírus. Mas o presidente conseguiu construir para si próprio uma ilha política que antes só foi vista durante os meses que antecederam o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Nem Dilma, nos seus piores dias, esteve tão solitária quanto Bolsonaro hoje.

A responsabilidade por essa solidão é inteiramente sua. Bolsonaro não pode culpar o Supremo, o Congresso ou a imprensa, embora tente sempre. Foi ele que se colocou nessa situação. Sua descida para o fundo do poço foi acontecendo aos poucos, mas desde o começo deu para perceber que era uma descida inexorável. Agora, no auge da maior crise sanitária dos últimos cem anos, estamos encrencados com um presidente isolado, agitado, que produz barulho e se afasta cada vez mais da lucidez.

O pronunciamento absurdo da terça-feira, a entrevista tresloucada na porta do Alvorada e a gritaria ofensiva na reunião com os governadores de ontem mostram um homem desequilibrado, que já não consegue raciocinar livre dos preconceitos que constroem o seu caráter. Bolsonaro é um egoísta. Ele claramente não está interessado na saúde dos brasileiros. Seu negócio é confundir as pessoas, tentando colocar no colo de outros os problemas econômicos e políticos que vão resultar da pandemia que assalta também o Brasil.

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Errado está o presidente

Por Carlos Alberto Sardenberg, O Globo, 26/3/2020.

O pacote americano de apoio à economia chega a cerca de 10% do PIB. Se o governo brasileiro aplicasse um programa proporcional, teria de gastar R$ 730 bilhões. Não vai dar. Mas muito pode ser feito.

A crise apanhou o Brasil em pleno processo de recuperação do equilíbrio das contas públicas — o ajuste fiscal. O objetivo, desde a queda de Dilma, tem sido o de reduzir a despesa com a sequência de reformas iniciada com a Lei do Teto de Gastos e depois com a reforma da Previdência.

Mas ninguém lida com uma calamidade — uma pandemia, uma guerra — fazendo corte de gastos. É justamente o contrário. Trata-se de aumentar a despesa pública duas vezes, uma para cuidar da calamidade, outra para amenizar os efeitos econômicos da crise e as providências para contê-la.

A rigor, nunca houve dúvidas entre economistas e políticos sérios a respeito disso. Os Estados Unidos gastaram uma fortuna para derrotar a Alemanha e o Japão e, depois, outra fortuna para levantar a Europa devastada. Ninguém pensou em poupar dinheiro.

A pandemia do coronavírus é uma calamidade jamais vista. Logo, todos os governos sérios estão gastando dinheiro com dois objetivos: primeiro, conter a doença, com o isolamento social, e tratar dos doentes e, segundo, apoiar pessoas e empresas afetadas pela parada na economia. A diferença está na rapidez e na eficiência com que os diversos governos estão fazendo isso.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o Congresso aprovou o pacote de US$ 2 trilhões quase por unanimidade e com rapidez, apesar dos vacilos de Trump no início da epidemia.

No Brasil, o governo federal está atrasado. Governos estaduais estão tomando medidas fortes e positivas, mas enfrentam uma limitação irremovível. Não têm como imprimir dinheiro, nem fazer mais dívida.

Só o governo federal pode fazer isso. Não dá para gastar 10% do PIB. Se o país (governo e sociedade) prezassem a disciplina fiscal, talvez tivéssemos o espaço fiscal para uma tamanha expansão de gastos. Mas cálculos sugerem que se poderia chegar a uma despesa adicional de 3% do PIB, algo como R$ 220 bilhões.

E o ajuste fiscal? Paciência, fica para depois. Aliás, será até mais difícil. O economista Alexandre Schwartsman, por exemplo, calcula que um bom programa de apoio a pessoas e empresas pode elevar a dívida pública de R$ 5,5 trilhões (75,8% do PIB) para R$ 6,3 trilhões (86,7% do PIB).

Complica, mas simplesmente não há escolha no momento.

Tudo isso para dizer que o presidente Bolsonaro está completamente equivocado. Para ele, não se trata de uma calamidade, mas de uma gripezinha, perigosa apenas para pequena parte da população. Logo, concluiu, não são necessárias medidas radicais, como o isolamento social e a parada do comércio. Para ele, essas medidas, apresentadas como o remédio, na verdade formam o veneno que vai matar a economia, provocando uma forte recessão.

Está errado porque, sem as medidas de contenção (isolamento social e fechamento do comércio e escolas), o vírus vai contaminar muito mais gente; logo, haverá muito mais doentes graves, que necessitarão de mais leitos hospitalares, e mais mortes, muito mais.

No lado econômico, o gasto público vai aumentar, e a recessão virá de qualquer modo. Ou seja, relaxar a contenção nem reduz gasto público, nem evita a recessão. E mata mais brasileiros.

A outra solução — a da contenção ou das “medidas radicais” — tem esta virtude especial: salva vidas, ao reduzir o número de infectados.

Tudo considerado, temos um enorme problema no Brasil: o governo federal, que pode arranjar o dinheiro, é comandado por um presidente completamente equivocado. Por isso, ainda não saíram as medidas de apoio a pessoas e empresas. Além disso, numa emergência dessas, o setor público tem que agir e gastar de maneira coordenada, para evitar desperdícios. Em vez disso, o presidente prefere brigar com governadores.

Se ninguém conseguir mudar o curso de ação do presidente, a crise vai aumentar e muito. E o presidente vai tentar colocar a culpa nos outros, qualquer outro, como sempre faz. Um desastre para o Brasil.

26/3/2020

Um lembrete: esta série de textos e compilações não tem periodicidade fixa.

Ou o Brasil se livra de Bolsonaro, ou não tem mais Brasil. (6)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (5)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (4)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (3)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (2)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (1)

4 Comentários para “O país precisa achar uma forma de se livrar desse doente”

  1. Li atentamente, Sérgio Vaz, e quero parabenizá-lo pelo preciso levantamento. Puro jornalismo. Mostra que o brasileiro está consciente da ameaça que representa esse insano no Poder e a fragilidade de Bolsonaro. Ao contrário do outro, “esse rei está nu e sabe”. Tem prazo de validade, com vencimento próximo. Parabéns, jornalista admirável. Que venham outros artigos.

  2. Hoje, apesar de ter atacado a imorensa, cuja cobertura da pandemia está sendo importantíssima para o esclarecimento da população, Mandetta deixou claro, para quem considera o essencial, que não concorda e que não obedecerá seu insano chefe. Na minha opinião, o ministro da Saúde está respaldado em quem, em última análise, possue a força: o alto oficialato da ativa do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, Bolsonaro já deu provas mais do que suficientes de sua insanidade. Acho que será obrigado a assinar uma carta de renúncia a ser imediatamente entregue ao presidente do Congresso – o que não é novidade em nossos pagos. Antes de sua entrevista, Mandetta participou de reunião no Alvorada com Bolsonato e outros poucos ministros que contam. Nada vazou, mas certamente o presidente foi avisado de que sua teimosia está fazendo imenso mal ao País e a imagem dele não podia ser pior no exterior. Seu ídolo, Donald Trump, mudou radicalmente sua postura caolha. Obrador, do México, fez o mesmo. Bolsonero, como a Economist o apelidou, ficou sozinho e abandonado. E ouviu hoje cedo na reunião do Alvorada: “Ou dá, ou desce”.

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