Nunca a Câmara Alta foi tão baixa

O Senado Federal, a dita Câmara Alta, chegou ao ponto mais baixo de sua existência. E amanhã, dia 21 de outubro, vai conseguir se afundar muito mais ainda.

Neste momento em que o Brasil está mergulhado na mais trágica crise sanitária dos últimos cem anos, em profundas crises econômicas, políticas e morais, o Senado foca suas atenções na tentativa de permitir a reeleição de seu presidente, Davi Alcolumbre – vedada pela Constituição.

Um dos 81 senadores da República foi flagrado pela Polícia Federal na quarta-feira, 14/10, com um monte de dinheiro vivo em casa – enfiado no cu, perdão, na cueca. E o que fazem os doutos senadores? Exigem que o caso vá logo para a Comissão de Ética, para julgamento o mais breve possível?

Não. Protestam contra a decisão do ministro do STF Luís Roberto Barroso, que suspendeu do cargo por 90 dias o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), acusado pela PF de meter a mão em dinheiro publico destinado a ajudar na luta contra a pandemia da Covid-19.

E logo arrumam para que o Chico Rodrigues, o sujeito com quem Jair Bolsonaro diz ter quase uma união estável, peça uma licença do cargo – que é pra ver se a opinião pública esquece o assunto, se as redes sociais param de publicar memes sobre o dinheiro encaçapado na bunda senatorial.

E para o lugar do Chico Rodrigues, durante sua licença… Vai o filho do Chico Rodrigues! Sangue do seu sangue, bunda da sua bunda!

Ah, meu… Os caras estão gozando a cara da gente.

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Não contentes com o espetáculo degradante da semana passada, os senadores promoveram, nesta segunda-feira, 19/10, um espetáculo ainda mais espúrio.

Em uma sessão que durou oito horas, a Comissão de Infra-estrutura do Senado aprovou 16 nomes indicados por Jair Bolsonaro para cargos na diretoria de várias agências reguladoras – Anatel, Aneel, ANP, Antaq.

Isso significa que, para estudar cada indicação – examinar o currículo do indicado, submetê-lo a uma sabatina, e, depois de ponderar sobre as respostas dadas, tomar a decisão de aprovar ou não, e em seguida votar –, os senadores levaram 30 minutos.

Meia horinha – e vapt-vupt! Todo mundo que Bolsonaro indicou está aprovado. Vapt-vupt! Pá-pum!

Sabatinar as pessoas indicadas pelo presidente da República para cargos importantes é uma das maiores responsabilidades do cargo de senador. É para isso, entre outras coisas, que eles são eleitos – e regiamente pagos. Regiamente, é bom que se diga. Regiamente pagos. Fora tudo quanto é tipo de benefício.

O salário de um senador da República Federativa do Brasil não deve ficar longe daqueles pagos aos comissários da União Européia – que são, parece, alguns dos cargos públicos mais regiamente pagos do planeta.

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E não foram só os senadores da Comissão de Infra-estrutura.

O espetáculo vergonhoso, vexaminoso, apavorante se repetiu também, no mesmo dia, na Comissão de Assuntos Sociais. Lá, os senadores levaram meras três horas para aprovar quatro indicações de Bolsonaro para a Anvisa.

E o país sabe como são as indicações de Bolsonaro, certo?

Agora fazem parte da diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária quatro sujeitos escolhidos por Bolsonaro. Devem gostar de tubaína, de andar armados, de dirigir em alta velocidade nas estradas, sem radares, e sem necessidade de ter cadeirão com cinto de segurança para proteger as crianças no banco de trás. Claro, devem também ser anticomunistas e terrivelmente evangélicos. E achar que cloroquina tudo resolve.

São eles que vão decidir, por exemplo, se a vacina desenvolvida pelos chineses em colaboração com, entre outras instituições, o Butantan de São Paulo, poderá ou não ser aplicada aos brasileiros.

Ah, e a Comissão de Meio Ambiente aprovou um indicado para a Agência Nacional de Águas.

Em um único dia, às pressas, vergonhosamente, despudoradamente, o Senado aprovou 21 indicações de Bolsonaro para as agências reguladoras.

Nunca jamais em tempo algum a Câmara Alta foi tão baixa.

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Mas nenhum poço é tão profundo que não possa ser um pouco mais aprofundado, e então nesta terça-feira, 20/10, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou a indicação para uma vaga no Tribunal de Contas da União o nome de Jorge Oliveira, amigo de Jair Bolsonaro e atualmente chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República.

Nesse caso, houve uma inovação que só poderia mesmo acontecer nestes tempos de governo Jair Bolsonaro, ele mesmo o nadir, o ponto mais baixo a que chegou a Presidência da República: a CAE do Senado aprovou a nomeação de Jorge de Oliveira para uma vaga no TCU que ainda não existe.

A vaga só será aberta em dezembro, mês em que o o ministro José Mucio deverá se afastar do tribunal, segundo anunciou com grande antecedência.

Como disse Merval Pereira em artigo publicado nesta terça-feira no Globo: “As boas maneiras republicanas, seguidas por todos os presidentes da República, mandam que o nome do sucessor só seja divulgado depois da abertura oficial da vaga”.

Boas maneiras, como todos sabemos – até mesmo os bolsonaristas -, é algo que não existe no universo em que vive Jair Bolsonaro. E então temos aí um amigo de Bolsonaro já aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado para uma vaga que deverá ser aberta em dezembro.

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E o pior de tudo ainda está por vir.

Amanhã, certamente com o mesmo cuidado, o mesmo esmero, a mesma atenção, o Senado vai examinar, estudar a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal.

Os nobres senadores vão aprovar  – com o mesmo cuidado, o mesmo esmero, a mesma atenção com que aprovaram ontem 21 indicações para as agências reguladoras – a ida para a mais alta corte de Justiça do país de um sujeito que mente no currículo e copia texto dos outros em tese acadêmica.

Os nobres senadores vão aprovar a ida para o Supremo de um sujeito que não tem nem notável saber jurídico e muito menos reputação ilibada.

Os nobres senadores vão, amanhã, atentar contra o artigo 101 da Constituição Brasileira.

É o nadir – o ponto mais baixo que poderia haver.

É a lama. É o lixo. É o lodo.

20/10/2020

6 Comentários para “Nunca a Câmara Alta foi tão baixa”

  1. Parabéns, Sérgio, pelo artigo. Reuniu as barbaridades reunidas feitas pelo Senado Federal.
    Já estávamos acostumados com arranjos de toda espécie na Câmara. O Senado mantinha um comportamento mais discreto, embora nem sempre “republicano”.
    A sabatina de amanhã não deve melhorar em nada o papel vivido pela atual câmara nada alta.

  2. Parabéns pelo excelente artigo! Precisamos que mais pessoas, corajosas como você, exponham para o país as vergonhosas ações deste senado , onde a baixaria está fazendo morada.

  3. Muito bem comentado!!!
    É impressionante como em tão pouco tempo pode se fazer tantas coisas insólitas . Se a profissão de político fosse realmente responsabilizada pelas atitudes a maioria destes já não estaria mais exercendo.

  4. Brilhante Sergio Vaz! Seu texto diz, com a perfeição de sempre. o que o coração dos brasileiros conscientes pensam sobre este desgoverno que nos castiga.
    O desgoverno desse inacreditável Bolsonaro nos agride e humilha. Pobre Brasil.
    Não é somente a pandemia que me faz infeliz. É a situação do Brasil nesse infame bolsonarismo. Até quando, Deus, vamos tolerar esse pífio presidente?
    Reparem como esse sujeito só tem amigos de péssimo nível intelectual e moral! Todos da mesma laia.

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