Marina nos tempos de trevas

 

Na quinta-feira, 18/6, Marina pela primeira vez na vida assistiu ao Jornal Nacional. Hoje, domingo, 21/6, viu a vovó pela primeira vez em mais de 100 dias, durante alguns minutos.

Fico pensando em como Marina vai se sentir, daqui a alguns anos, já adulta, quando lembrar destes tempos de trevas.

Pai e mãe não têm o costume de ver o noticiário na TV, e, quando vêem, preferem que a pequena não esteja junto. Mas na quinta-feira,  o dia da prisão de Fabrício Queiroz, o amigo do peito dos Bolsonaro, encontrado na casa do advogado dos Bolsonaro, fizeram questão de ver.

Minha filha depois nos contou:

“Marina amou ver o JN!

Queria que a gente explicasse tudo.

Explicamos um pouco meio bandido e mocinho

Rs

E expliquei que foi um juiz que mandou prender. Ela falou: ‘Você também já mandou prender, né, mamãe? Você gostava de trabalhar com isso?’ Ahahahahahah.

Muito interessada e muito fofa!”

***

Hoje, Marina saiu junto com a mãe para nos entregar um pedaço de bolo.

Desde que começou a quarentena, eu tinha visto a pequena pessoalmente, presencialmente, em carne (pouca) e osso (muito) uma vez – um outro desses raros dias em que ela topou sair com a mamãe para fazer entregas na portaria da Bisa e aqui. Mas, daquela vez, desci sozinho.

Descemos hoje a vovó e o vovô. Ficamos os dois de máscaras, claro, de pé na calçada, e as duas, mãe e filha, de máscaras, claro, dentro do carro. A pequena com quatro de seus 1.499 filhos, quatro Barbies, a Pat, a Rosa e mais duas que não têm aparecido nas nossas brincadeiras via computador e cujos nomes não guardei.

Marina e a vovó têm se visto seis dias por semana, quando não são sete. Já se viram em 67 longas telenetadas de cerca de uma hora e meia cada – mas não se viam pessoalmente desde o dia 13 de março!

Assim como da outra vez em que a vi nessa mesma situação, fiquei com a sensação de que ela ficou tristinha por não poder sair do carro, nos abraçar – e subir conosco para ficar brincando na casa que sempre insisto em dizer que é a casa 2 dela.

Mary não teve essa sensação: achou que ela ficou alegrinha por nos ver. Talvez um pouquinho triste também, mas sobretudo alegrinha.

Ela, vovó, ficou, sim, com o coraçãozinho apertado: – “Será que a gente só vai poder grudar na Marina quando tiver vacina?”, disse, algum tempo depois que as duas foram embora.

Minha filha contou depois que, quando elas saíram de perto do meu prédio, Marina falou que quer muito que tudo volte a ser como era antes pra poder abraçar a gente. “Ela não falou abraçar, falou engruvinhar!”

De onde ela tira essas palavras?, disse minha filha.

Verdade. De onde ela tira?

Fico imaginando: o que será que Marina pensará, daqui a alguns anos, quando ler as Agendas do Vô e se lembrar destes tempos de trevas.

O que será que toda a geração dela, essa fantástica geração de pequenos bajitos que caíram no caldeirão da informação ao nascer, pensará destes tempos em que o Brasil enfrentou duas terríveis doenças ao mesmo tempo?

21/6/2020

 

Um comentário para “Marina nos tempos de trevas”

  1. Amoroso texto. Menos mal que se vejam pela janela do carro ou pela internet. Ela está muito bonita com seu gatinho. Como estaria sem ele. Beijinhos.

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